segunda-feira, 10 de março de 2014

Recuperar o jejum (Capítulo 4 de 4)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



4.   Conclusão

O jejum muçulmano

Depois de termos percorrido as diversas dimensões do jejum cristão, vale a pena mencionar, ainda que só por curiosidade sincera, a experiência muçulmana do Ramadã, um mês inteiro no qual nossos irmãos muçulmanos se abstêm de comer, beber, fumar e ter relações sexuais, desde a aurora até o anoitecer (10).

É impressionante a coincidência em muitos dos pontos acima comentados : o objetivo é aproximar-se mais do Criador e viver melhor, segundo a sua vontade; o silêncio do alimento é parte de outros silêncios (bebida, fumo, sexo), são dias de generosa caridade nos quais se redobram as boas ações e a esmola...Inclusive tendo em conta que, assim como no cristianismo também no islamismo há uma certa distância entre o ideal e a prática, deve-se reconhecer a beleza, o sentido religioso e o acerto do ideal. E também o mérito de quem o pratica com todo o rigor. Porque não estamos falando só dos muçulmanos que vivem em países islâmicos, onde o contexto social os favorece, mas também do que vivem nas sociedades ocidentais. Falando claro : se em nossos climas menos quentes e em nosso ritmo de trabalho ocidental os muçulmanos são capazes de jejuar até esse ponto, então, em nosso contexto, o jejum é possível.


Uma proposta concreta

Estas páginas foram escritas a partir da modesta experiência de quem começou jejuando em solidariedade com os famintos e foi progressivamente descobrindo a rica variedade de dimensões do jejum cristão. E para que estas linhas não fiquem perdidas, eis uma proposta concreta :

- Começar por prescindir de uma refeição por mês (ou por semana). Pode ser o desjejum, o almoço ou o jantar, mas é bom que sempre seja a mesma, para que sua regularidade nos recorde, de maneira mais efetiva, o gesto que estamos fazendo. Acontece em nosso ritmo de vida que haja dias em que facilmente deixamos de fazer uma refeição : uma noite na qual chegamos tare em casa e vamos nos deitar diretamente, sem o jantar, um dia no qual não tomamos o desjejum porque não há tempo ou porque na noite anterior comemos demasiado...Evidentemente não se trata disso.

- Dedicar à oração o tempo dessa refeição. Não se trata de substituir o intervalo de tempo que antes dedicávamos a nos alimentar por outro empregado em trabalhar mauis ou em fazer mais coisas. A intenção é que nosso jejum nos volte para Deus, que nos lembre que sem Ele não podemos fazer nada, que nos ajude a reconhecer-nos limitados e impotentes e a confiar-lhe um drama que nos ultrapassa.

- Acrescentar a esmola. Não se trata apenas de calcular o dinheiro que economizamos deixando de comer, mas de aproveitar a ocasião para um aumento de generosidade em nossa comunicação cristã de bens, dirigida desta vez a instituições que trabalham para combater a fome. Que nosso jejum sirva para que outros não tenham de jejuar.

Esta proposta pode considerar-se tanto individual como comunitariamente (11). E solicita-se revê-la periodicamente, descobrindo até que ponto vamos integrando o jejum em nossa vida. Porque se formos constantes, pouco a pouco iremos passando do gesto ao hábito, de tal modo que, sendo no início um gesto extraordinário, converta-se num hábito integrado em nossa vida. Será então o momento de pensarmos em um passo a mais.


Corolário

Bertold Brecht, numa cena interessante de teatro, representa Galileu convidando os sábios de sua época a olhar pelo telescópio que tinha construído, para se certificarem, eles mesmos, da existência dos satélites de Júpiter. Todavia, os sábios se negaram a olhar, argumentando que isso é impossível : ‘Talvez vocês saibam que, segundo a hipótese dos antigos, não existem estrelas que giram ao redor de outro centro senão a Terra, nem astros no céu que não tenham seu correspondente apoio’. A insistência de Galileu foi inútil; os sábios ‘sabem’ que não pode haver tais satélites e consideram inútil qualquer prova : ‘nem uma palavra a mais!(12).

A cena, lida com os olhos de nossa época, tem muito de tragicômico. Se me permite citá-la, é porque algo parecido pode nos acontecer com o tema do jejum. Por que haveríamos de experimentá-lo – honestamente – se ‘sabemos’ que não vamos passar a experiência?

Por que haveríamos de tenta-lo? Bem, porque outros o conseguiram e com bom proveito. Porque durante séculos toda a Igreja o praticou, vivendo seu sentido purificador. Porque grandes figuras o levaram a efeito e recomendaram.

E porque hoje está sendo recuperado com uma intenção renovada que acrescenta o aspecto profético e solidário. E porque acreditamos naqueles que encontraram no jejum um meio de crescimento na vida e na fé, e um instrumento de compaixão, denúncia e solidariedade ante os sofrimentos injustos da humanidade. Por último : o que se propõe não é ‘rezar uma vez por mês (ou por semana) pela justiça e pela paz em solidariedade com os famintos’ mas, ‘fazer uma vez por mês (ou por semana) um jejum solidário, rezando pela justiça e pela paz’. Não se trata de acrescentar mais oração e reflexão apenas. Se nossa oração e reflexão não nos fazem mudar nosso estilo de vida, ainda que seja um pouquinho, melhor deixar de rezar e de refletir. Se não somos capazes de nos privar de nada em nossa preocupação pela justiça, acontecerá conosco como ao imprudente do Evangelho que começou a construir sem dar-se conta do inútil de seu esforço. Mas se nossa preocupação pela justiça nos faz mudar em coisas pequenas, então vamos pelo bom caminho. E já conhecemos o texto de Eduardo Galeano :

São coisas pequenas.

Não acabam com a pobreza, não nos tiram do subdesenvolvimento, não socializam os meios de produção, e não expropriam as cavernas de Ali-Babá.

Mas, quiçá, desencadeiem a alegria do fazer e a traduzam em atos.

E finalmente, atuar sobre a realidade e transformá-la, ainda que seja só um pouquinho, é a única maneira de provar que a realidade é transformável.

E a melhor maneira de provar que a realidade é transformável é mostrar que nós o somos. Vale a pena tentar.


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(10) Cf. Ramadán. Purificar el corpo y alma. VIDA NUEVA, 2.354, 23 de novembro de 2002.

(11) Para grupos ou comunidades que planejam um jejum-oração mensal, oferece-se um guia para cada mês que pode ser útil : www.marianistas.org/justicaypaz.

(12) Bertold BRECHT, Galileo Galilei, citado por Luis Gonzáles-Carvajal, Ideas y creencias del hombre actual, Sal Terrae, Santander, 1991, p. 71.




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