sábado, 24 de junho de 2017

Aprendendo com as perdas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A prática da meditação, bem orientada, é a melhor substituta para os tranquilizantes.
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Em nossa sociedade essencialmente capitalista e desvairadamente consumista, muito bem definida pelo sociólogo Bauman como ‘Modernidade Líquida’ pela rápida fluidez com que as coisas acontecem, ocorrem muitas perdas, e a elas acompanham o sofrimento e o luto.

Dentre as causas mais frequentes, cito os veículos de transporte cada vez mais rápidos (mesmo com o limite legal sendo em torno de 110km/h, carros são fabricados com potência suficiente para impulsioná-los a mais de 200km/h), provocando acidentes cada vez mais catastróficos, ceifando vidas de crianças e adultos. Cito as numerosas e tentadoras ofertas de bens de consumo, cada vez mais sofisticados, mas também cada vez mais frágeis e voláteis; cito a alta rotatividade dos empregos, criando uma multidão de desempregados; cito as redes sociais e os meios de comunicação portáteis, onde amizades se formam com a mesma velocidade com que são desfeitas por um simples toque no botão ‘delete’; cito as uniões afetivas, antigamente sólidas pelo compromisso matrimonial, hoje fragilizadas pelas novas e variegadas formas, quase sempre já definidas, ‘ab initio’ como ligações não definitivas.

Delas, citadas somente como exemplos, pois existem muitíssimas outras, resultam as perdas pelas mortes acidentais ou pelas mutilações incapacitantes; resultam as decepções pela perda, seja por roubo, por processos jurídicos, ou pelas falências; resulta a perda da saúde, levada por doenças malignas; resultam as perdas de amigos, afinal nem tão amigos assim; resultam as perdas pelas separações oficiais ou oficiosas. Ou seja, quanto mais se acumulam bens, mais se tem o que perder, e mais perdas ocorrem ao longo do tempo, cada uma mais dolorosa que a outra. E a cada perda, dependendo do grau de apego que se tem à pessoa, cargo ou objeto perdido, maior será o sofrimento, mais doloroso será o processo do luto que sobrevém a todas elas. Por isso mesmo, afirmam os observadores e estudiosos do comportamento humano, vivemos numa sociedade doente, infeliz, repleta de trapos humanos travestidos de gente bonita, elegante, festiva em sua casca, mas mergulhada nos vícios, no álcool, nos psicotrópicos, nas drogas alucinógenas, e quase sempre dependentes de psicólogos e psicanalistas para, com frequência mascarar as suas dores e suas frustrações.

Tanto na cirurgia plástica, que exerci por mais de 30 anos, e especialmente na biotanatologia que paralelamente exerci acolhendo pessoas enlutadas, quase sempre pela morte de um ente querido, lidei com perdas, as mais diversas. E com essas atividades aprendi a lidar com o luto, expressão psicofísica das perdas acontecidas, e capaz de ser trabalhado para alcançar a sua assimilação, e quase sempre a sua superação, desde que adequadamente elaborado. Fruto desse trabalho, publiquei os livros ‘Sobre o Viver e o Morrer’ e ‘Dizendo Adeus’.

Nessa atividade aprendi que o processo do luto, numa evolução bem conduzida, dura em média dois anos. Basicamente refiro-me ao luto pela morte de uma pessoa querida, contudo todos os demais seguem caminhos semelhantes, com pequenas variações que, se bem elaboradas, permite a sua superação. Didaticamente pode-se dizer que o primeiro ano é bem mais intenso e doloroso, passando por quatro estágios. O primeiro, durando de 15 a 30 dias, é quando a endorfina liberada protetoramente pelo organismo deixa a pessoa um tanto adormecida, como se não entendesse o que ocorreu. O segundo, ocupa os dois ou três meses seguintes, quando os amigos que lhe deram apoio nos primeiros dias voltam, necessariamente, às suas atividades normais – pois a vida continua – e o enlutado passa a encarar, sozinho consigo mesmo, a perda acontecida. É certamente o período mais sofrido, pois o vazio com que irá se deparar é por demais doloroso, levando alguns a cometerem o erro de tentar preenche-lo logo, e de qualquer forma. Agravando o quadro, surgem sentimentos de culpa, com a terrível pergunta : ‘o que foi que fiz para que isso acontecesse?’ E ainda : ‘e se eu tivesse agido diferentemente?’ E outra ainda pior : ‘por que isso aconteceu logo comigo? E logo agora?’ Para enfrentar tais dilemas, é essencial encontrar uma pessoa, um profissional ou um conselheiro capaz de lidar com essas situações, para que o enlutado não se deixe dominar pelo papel de culpado, tampouco pelos sentimentos de autocomiseração. O momento é de lutar para assumir a condição de sobrevivente, coisa que sozinho dificilmente alcançará. Uma boa orientação é : ‘faça tudo aquilo que o seu coração mandar, desde que não seja nada imoral, ilegal ou danoso para si próprio ou para os outros’. Tampouco deve ser precipitado, querendo queimar etapas, tomando atitudes sem amadurece-las e certificar-se de que são realmente apropriadas. É bom lembrar-se de que ‘não se deve apressar o rio, pois ele corre sozinho.’ E ter muito cuidado com os maus conselheiros, os moralistas de plantão, os que cobram atitudes, mas pouco ou nada fazem para realmente ajudar o enlutado.

Passando essa fase, o enlutado começa a vislumbrar uma luz no fim do túnel e os próximos meses terão altos e baixos, momentos bons e recaídas. Mas tudo faz parte do processo. A persistência e a paciência são soberanas. Buscar apoio na espiritualidade é um dos caminhos mais sábios, desde que não se deixe levar por fanatismos e proselitistas. A prática da meditação, bem orientada, é a melhor substituta para os tranquilizantes. E entrando no segundo ano, cada um no seu próprio tempo irá descobrindo a importância e a alegria do viver, ocorrendo naturalmente a aceitação do que aconteceu. E o mais significativo : verificará que as perdas seguidas de um luto bem elaborado, tornam-se na melhor escola de vida, e de vida com qualidade. Aprenderá então a lição mais importante : não existem ganhos sem perdas, tampouco perdas sem ganhos.’

           
Fonte :

sexta-feira, 23 de junho de 2017

João Batista, o glorioso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘Lembrado como uma pessoa que viveu com muita seriedade e com muito rigor, na austeridade e na penitência, João Batista é defensor da verdade e da justiça, prometendo tempos bons e o futuro tão esperado pela humanidade. Figura humana, ungida e santa, segundo o Livro Sagrado, é aquele que, ainda no seio materno, exultou com o Salvador da humanidade que estava para chegar. Seu nascimento trouxe grande alegria, não só pela esterilidade de seu pai, Zacarias, que se transformou em fecundidade, e o homem mudo passou a ser um profeta corajoso e exuberante (cf. Lc 1, 57s), mas como sinal e farol da realização das promessas redentoras, com tempos novos e messiânicos. O maior entre os nascidos de mulher ensine-nos, indignados, o valor do que é essencial à fé, diante do clamor por justiça e paz, dos empobrecidos de toda a terra.

João Batista preparou o povo para o início da missão pública de Jesus, dizendo, com todas as letras, que ele mesmo caminharia à frente do Cristo Jesus, anunciando que os sinais dos tempos chegariam e as promessas anunciadas por Zacarias estavam para se realizar. O seu vibrante convite foi o de acordar o povo do sono, muitas vezes profundo, para reconhecer o Salvador como o Sol que veio nos visitar; que temos que colocar na mente e no coração o nascimento do precursor, indicando-nos o caminho da solidariedade e da justiça, rumo à Cidade Santa, que é obra de Deus e das pessoas de boa vontade que aceitam o Seu projeto por João Batista anunciado.

O nascimento do maior de todos os profetas quer mostrar ao nosso mundo que não podemos nos cansar de dizer que a salvação chegou para todos e que a proclamação da verdade e da justiça indica tempos novos para a humanidade e assegura-lhe aquele futuro tão esperado. O filho do sacerdote Zacarias e de Isabel é também conhecido como aquele que mostrou o Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado mundo. Ele, grandioso aos olhos de Deus, não exerceu função sacerdotal, a exemplo de seu pai Zacarias, mas se tornou conhecido de todos por suas pregações e por seu convite à penitência, no bom desempenho das funções que Deus lhe confiou, anunciando um batismo de penitência para o perdão dos pecados.

Inspirados na figura de São João Batista, que possamos olhar o mundo, conscientes das marcas de profundas desigualdades sociais e econômicas, sem esquecer a dor e o gemido da realidade ecológica. Seu grande trunfo consistiu no anúncio da vinda do Salvador da humanidade. Sua vocação profética, desde o ventre materno, reveste-se de algo extraordinário, repleta de júbilo messiânico, ao preparar um ambiente favorável ao nascimento do Salvador da humanidade. Vida misteriosa, de tão bela, excelsa e maravilhosa, não podemos jamais esquecer o precursor. Numa jubilosa gratidão ao nosso Deus infinitamente bom, estejamos alegremente pasmados, pelo nascimento do glorioso São João Batista.’

           
Fonte :

Qual a origem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Professor Felipe de Aquino


‘A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito antiga; os Padres da Igreja já falavam dela; tudo brota daquele Coração ‘manso e humilde’ que por nós foi transpassado pela lança do soldado Longuinho, na Cruz do Calvário. Dele saiu sangue e água, símbolos do Batismo e da Eucaristia, e também da Igreja, Esposa de Cristo, que nasce do lado aberto do novo Adão, como Eva nasceu do lado aberto do primeiro.

Após uma fase de eclipse, esta devoção ganhou novo impulso após as visões de Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), difundidas por seu confessor São Claude de la Colombière (1673-1675). Era uma época difícil, onde havia uma heresia chamada Jansenismo, de Jansen, que pregava um cristianismo triste, onde poucos se salvavam, onde se disseminava um medo de receber Jesus eucarístico, etc.

Para eliminar essa tristeza Jesus mostrou seu Coração humano e misericordioso a Santa Margarida, como tábua de salvação para todos os pecadores que nele confiassem.

Santa Margarida Maria Alacoque foi uma freira que nunca transpôs os muros do seu convento das visitandinas de Paray-le-Monial da Ordem da Visitação de Santa Maria, instituição religiosa fundada por São Francisco de Sales (1567-1622) e Santa Joana de Chantal (1572-1641), morrendo antes de completar 45 anos, em 17 de outubro de 1690, sendo canonizada em 1920, pelo papa Bento XV. Recolhida, em profunda oração, pela porta do tabernáculo saiu uma espécie de vapor que foi se transformando na figura de homem que se encaminhou até ela e ali na sua presença abriu a túnica que lhe cobria o peito, lhe mostrando o coração em chamas inextinguível e lhe disse :

Eis aqui o coração que tanto amou os homens e pelos quais e tão mal correspondido pelo menos tu, filha minha, chora pelos que me ofendem, geme pelos que não querem orar, imola-te pelos que renegam e blasfemam contra o meu santo nome. Prometo-te na grandeza do meu amor que abençoarei os lares que neles me hospedem, que os que comungarem durante nove primeiras sextas-feiras seguidas, não morrerão sem receber os sacramentos da penitência e da Eucaristia.’

Depois de 150 anos de enormes dificuldades impostas especialmente pelos jansenistas e o terror da Revolução Francesa, em 1856, Pio IX instituiu a festa litúrgica do Sagrado Coração de Jesus, propondo, segundo a recomendação dos santos, a consagração do mundo ao Coração de Jesus. Duzentos anos depois que Santa Margarida pediu ao Rei Luís XIV a consagração da França ao Coração de Jesus, o grande presidente do Equador, Gabriel Garcia Moreno, consagrou seu país em 1873, ao Coração de Jesus.

Vários Papas incentivarem esta devoção através de encíclicas. Atualmente a festa do Sagrado Coração na sexta-feira após a festa de Corpus Cristi. Leão XIII na ‘Annum Sacrum’ (1899), deixou-nos a Oração para consagração ao Sagrado Coração. Pio XI na ‘Miserentissimus Redemptor’ (1928); Pio XII na ‘Haurietis aquas’ (1956); João Paulo II na ‘Redemptor Hominis’ (1979) e Bento XVI em carta ao Pe. Kolvenbach Geral da Comapanhia de Jesus, falaram da importância dessa devoção. Em 1872, Pio IX concedeu indulgências especiais aos que portassem o escapulário com a imagem do Sagrado Coração.

A piedade ligada ao Coração de Jesus está em união com a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Muitos santos recomendaram esta devoção : São João Eudes, Santa Margarida Maria Alacoque, São Luís Grignion de Montfort, Santa Catarina Labouré e São Maximiliano Kolbe.


Numerosas foram às promessas do Sagrado Coração de Jesus sendo as mais admiráveis as seguintes :

1. Eu lhes darei todas as graças necessárias ao seu estado de vida.

2. Eu farei reinar a paz em suas famílias.

3. Eu os consolarei em todas as suas aflições.

4. Serei seu refúgio seguro durante a vida e sobretudo na morte.

5. Derramarei muitíssimas bênçãos sobre todas as suas empresas.

6. Os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia.

7. As almas tíbias se tornarão fervorosas.

8. As almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição.

9. Abençoarei Eu mesmo as casas onde a imagem do meu Coração estiver exposta e venerada.

10. Darei aos sacerdotes o dom de abrandar os corações mais endurecidos.

11. As pessoas que propagarem esta devoção terão os seus nomes escritos no meu Coração e dele nunca serão apagados.

12. No excesso da misericórdia do meu amor todo poderoso darei a graça da perseverança final aos que comungarem na primeira sexta feira de nove meses seguidos.’

           
Fonte :


terça-feira, 20 de junho de 2017

Arcebispo no Marrocos: os imigrantes não têm nada

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘Ele é um dos bispos mais familiarizados com a imigração. Ele mora no norte da África. Apenas 14 quilômetros separam sua diocese, no continente africano, da Europa, esta um lugar de esperança. Nesta entrevista, o arcebispo Santiago Agrelo, OFM, fala sem reter nada. ‘O Cristo de nossas celebrações eucarísticas não faz barulho… A verdade é que ele se torna tão pequeno que não prestamos muita atenção n’Ele’, diz.


As pessoas temem os imigrantes, e assim fecham seus portos e fronteiras. Estamos nos tornando desumanizados?

Os imigrantes não têm nada a temer. Qualquer um pode provar isso ao conhecer um imigrante.

Já nós, o que tememos é o que é diferente, desconhecido e, acima de tudo, o que foi deformado e demonizado em nossas mentes pela política e pela mídia.

Se não fosse identificar os imigrantes pelas características raciais de seus rostos, pela cor de sua pele, ou, quando são pobres – que é um tipo diferente de migrante – pela pobreza de suas roupas, ninguém diria que tem medo de imigrantes. Mas nos concentramos no que os torna diferentes, e esse elemento, aos nossos olhos, os desumaniza e os priva da sua intrasferível dignidade humana. Nós os reduzimos à categoria desumanizada de serem ilegais, indocumentados ou invasores.

E, quando os desumanizamos, nos desumanizamos também.


Em algumas cidades, as igrejas ficam abertas 24 horas por dia para os pobres, para os refugiados… e muitas pessoas reclamam da falta de higiene, do barulho, da segurança… O que diria a elas?

Conheci os habitantes das florestas ao redor das cidades autônomas de Ceuta e Melilha. Conheço a miséria, as doenças, as mutilações e as infecções sofridas por aqueles que aguardam a oportunidade de entrar no território espanhol. Conheço sua fome e sede, sua lamentável higiene, seus pés descalços nos caminhos da floresta, seus trapos de roupa, seus sapatos velhos, sua exposição aos riscos…

Se alguém souber sobre tudo isso, entende que um campo de refugiados, mesmo que seja um pântano, mesmo que não haja nada debaixo das tendas, mas um pequeno abrigo, uma refeição e água para beber e banhar-se é como chegar a um hotel.

Então, imagine o que uma igreja deve ser para eles : um palácio!

Eu entendo : o Cristo de nossas celebrações eucarísticas não faz barulho, não suja as coisas, não tem cheiro… A verdade é que Ele se torna tão pequeno que não prestamos muita atenção n’Ele. E, assim, quando Ele se apresenta como barulhento, sujo e mal cheiroso, não estamos acostumados a vê-Lo dessa forma, e não o reconhecemos. E se não O reconhecemos, é natural que protestemos.

Mas alguém deve explicar aos discípulos de Jesus que, enquanto o Cristo Ressuscitado não tem cheiro, não sangra, não come, não bebe e não precisa de água para banhar-se, Cristo Crucificado – o mesmo Senhor – tem cheiro, sangra, come, bebe e precisa de água para higiene pessoal. E devemos enfatizar que, para viver, o ressuscitado fica bem sem nós; mas o crucificado, para viver, precisa de nós mais do que nunca.

Quarenta e quatro migrantes são encontrados mortos no deserto – alguns deles são crianças. E você diz, ‘E há cristãos que pensam que este não é o Senhor!’. É verdade. Há cristãos que não veem Jesus nessas mortes…

Se nós, que nos chamamos cristãos, tivéssemos uma compreensão simples da vida e da fé, se tivéssemos uma visão clara para ver Cristo nas pessoas necessitadas, se nos sentíssemos obrigados a cuidar de Cristo nos pobres como fazemos para venerar Cristo na Eucaristia, então os pobres sofreriam muito menos e a Eucaristia seria muito mais honrada, venerada e adorada.


O senhor é um homem de esperança, e isso é demonstrado pelo que senhor faz e prega. Como pode conservar sua alegria diante de tal desolação?

Não sei como será no céu, quando tudo for aperfeiçoado. Aqui, a felicidade é condicionada ao que é imperfeito, o que é escasso, o que é inesperado…

Secar uma lágrima, curar uma ferida, aliviar o sofrimento, suavizar a fome ou a sede, vestir os nus, secar uma gota de suor, dar um abraço, fazer medos e tristezas recuarem ou perderem terreno… Estas são alegrias que nascem de quase nada, e elas permanecem em sua alma sob a forma de luz, paz e esperança.


Há ataques cada vez mais indiscriminados pelo Estado Islâmico. Qual é a sua perspectiva diante do fenômeno do terrorismo?

Dentro dessa questão, existem vários conceitos que podem parecer bem definidos, mas que realmente não são : ‘ataque’, ‘indiscriminado’, ‘terrorismo’… Não existe uma definição aceita de ‘terrorismo’ porque não existe uma definição possível que também não se aplica aos chamados países civilizados – os Estados Unidos da América em primeiro lugar.

Se, por terrorismo, queremos dizer ‘perpetrar o terror contra a população civil’, é óbvio que o terror sofrido pelos cidadãos dos países europeus é insignificante em comparação com o terror sofrido há muitos anos por países inteiros, como a Síria ou Sudão do Sul, e por um número escandaloso de países africanos.

O terrorismo legal é uma fábrica natural de terroristas ilegais.

E, embora as nações e os indivíduos, para resolver suas diferenças e problemas, continuem a recorrer à violência, este útero continuará a dar à luz pessoas violentas.

É uma questão cultural, e a Igreja é chamada a desempenhar um papel na criação de uma cultura não-violenta. A Igreja deve se tornar a portadora de uma mensagem clara : a violência, nunca.


Finalmente, como franciscano, como bispo e como ser humano, o senhor acha que somos melhores como uma sociedade do que há 100 anos?

Não sei se estamos melhor. Mas eu sei que estamos mais conscientes dos males que afligem a humanidade. Eu acredito que lemos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo com maior simplicidade, e que Sua mensagem ressoa mais clara e puramente em nosso interior.

Eu acredito que o mundo irá respirar melhor se nós, que somos crentes, levarmos o Evangelho a sério. Creio que a alegria será multiplicada na medida em que os que aceitam o novo mandamento do amor também se multiplicam. O dever de criar uma sociedade melhor está em nossas mãos. É uma questão de amor.’

           
Fonte :


segunda-feira, 19 de junho de 2017

As religiões no Iftar, quebra do jejum islâmico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Durante o mês de jejum islâmico, Ramadan, as atenções dos seguidores de Maomé voltam-se também para os crentes de outras religiões. Motivados pelas ações perversas de inúmeros grupos radicais, tendo o islamismo como cortina de fundo, é perceptível a preocupação de convencer as plateias que a doutrina do Alcorão não justifica e não aprova a morte de quem não segue Alá.

O Centro Islâmico Al Manar, fundado pela Shaika Hind Bin Juma Al Maktoum, esposa de Sua Alteza o Sheik Maomé Bin Rashid Al Maktoum, primeiro ministro dos Emirados Árabes Unidos, fundado em 2006, tem a finalidade de promover o conhecimento positivo do islamismo. Como parte das programações de Ramadan, o Centro convidou embaixadores e lideranças religiosas de Dubai para celebrar o ‘Iftar’, quebra de jejum. Neste ano, representei a Igreja Católica no evento, para o qual fui convidado.

 Na ocasião, diversos palestrantes fizeram uso da palavra. Todos eles, além de exaltar o lado positivo do Islã, afirmaram que é totalmente equivocada a atitude de usar trechos do Alcorão para justificar atos de violência por parte de certos grupos. Recomendaram que, tanto aos islâmicos como aos seguidores de outras religiões, que tenham  o cuidado de interpretar corretamente suas escrituras.
Quanto ao relacionamento entre as religiões, mencionaram a necessidade de ensinar desde a infância, o respeito pelas crenças e culturas diferentes para poder viver em harmonia.

Diversos líderes religiosos foram convidados a dar testemunho sobre a participação no ‘Íftar’. Houve unanimidade em louvar a iniciativa que permite conhecer melhor o Islã, ao mesmo tempo em que oportuniza aos islâmicos a aproximação com as outras religiões.

Faz bem lembrar as palavras de Francesco Guicciardini :

Jamais combatas com a religião, nem com as coisas que pareçam depender de Deus; pois tal argumento tem muita força na mente dos tolos.

           
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sábado, 17 de junho de 2017

Monges surpreendem com ideia “refrescante” para arrecadar fundos e reconstruir mosteiro

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Os monges beneditinos de Núrsia, na Itália, pensaram em uma ideia interessante para arrecadar dinheiro para reconstruir o seu mosteiro destruído pelos dois terremotos que atingiram a cidade em agosto e outubro do ano passado.

A Basílica de São Bento, onde os monges viviam, foi construída entre os séculos XIV e XVI sobre uma estrutura anterior. Sua cripta é uma construção antiga do século I, onde, segundo a tradição, viveu o santo padroeiro da Europa.

Milagrosamente, a única habitação do mosteiro que permaneceu intacta foi a cervejaria onde produzem a famosa Birra Núrsia.

Depois dos terremotos, que provocaram a morte de centenas de pessoas, os monges foram obrigados a se mudar para barracas e cabanas em um inverno italiano muito frio.

Logo depois que se mudaram, começaram a trabalhar para reconstruir um novo mosteiro à prova de terremotos em San Benedetto em Monte.

Recentemente, os monges anunciaram uma notícia especial : a cerveja belga ‘Leffe’ aceitou fazer uma parceria com eles para preparar uma edição especial, cujos lucros serão revertidos diretamente para a reconstrução do novo mosteiro.

A cerveja Leffe, uma das preferidas da Bélgica e elaborada na tradição monástica, lançou uma cerveja de edição limitada especial com Birra Núrsia, nossa própria cerveja, como rótulo conjunto com Leffe Blonde’, anunciaram os monges em uma mensagem.

Embora as duas cervejas, Leffe e Birra Núrsia, permaneçam distintas, o nome Núrsia na garrafa de Leffe Blonde simboliza o compromisso compartilhado das duas cervejarias : reconstruir Núrsia e dar esperança à região atingida pela tragédia’, explicaram.

As 100 mil garrafas desta edição especial só estarão disponíveis para a sua distribuição na Itália e financiarão diretamente a nova capela de madeira ‘que não é apenas para os monges, mas está aberta para todas as pessoas que têm sede de Deus’.

A cerveja Leffe tem raízes monásticas. A abadia de Leffe realizou este trabalho durante séculos até a Revolução Francesa que provocou o abandono e a destruição da cervejaria.

Na década de 1950, determinado a não deixar morrer a tradição cervejeira, o abade Pe. Abbot Nys conheceu o mestre cervejeiro Albert Lootvoet e fizeram um acordo.

Pouco tempo depois, a cervejaria Leffe começou a funcionar novamente e agora está sob a propriedade da Anheuser-Busch InBev. Uma parte do dinheiro ainda é enviada para apoiar o mosteiro de Leffe.

Para os monges de Núrsia, a capela de madeira é a primeira fase de uma reconstrução total da abadia. Embora seja inaugurada oficialmente em setembro, já celebraram uma Missa de ação de graças na capela de Pentecostes, apesar do teto do templo ainda não estar pronto.

‘Deste modo, recordamos : Nisi Dominus aedificaverit domum en vanum laboraverunt qui aedificant eum’, disseram os monges, ou seja, ‘Se o Senhor não edifica a casa, em vão trabalham os que a edificam’.

Para os monges, esta experiência os recorda que ‘nos momentos de tragédia, quando tudo parece estar perdido, Deus nos chama a confiar que em algum lugar, de alguma maneira, pode nascer o bem’.’

           
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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Cartuxos : a fascinante ordem religiosa mais austera e silenciosa do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Numa passagem do seu livro ‘A Estrela dos Reis Magos’, o educador brasileiro Julio Cesar de Mello e Souza, muito mais conhecido pelo pseudônimo Malba Tahan, comenta que há na cidade espanhola de Burgos um pequeno mosteiro cartuxo em cuja igreja expõe-se uma imagem do fundador, São Bruno, aclamada como obra de rara perfeição. Quem observa a imagem tem a impressão de estar em frente a uma figura viva.

Conta-se que, certa vez, um viajante visitou a igreja e, ao dar de rosto com aquela admirável imagem de São Bruno, foi incapaz de conter a admiração :

– É perfeita! Só falta falar!

– Engana-se o senhor – respondeu, respeitoso, o monge que o guiava – Esta imagem é perfeita precisamente porque não fala.

A inspirada e singela anedota evoca um dos traços mais marcantes e fascinantes do monge cartuxo.


A Cartuxa

A Ordem dos Cartuxos, também conhecida como Ordem de São Bruno, foi fundada em 15 de agosto de 1084, solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao Céu. É uma ordem religiosa católica semi-eremítica de clausura monástica e orientação puramente contemplativa : daí o silêncio absoluto como característica dessa vocação particularmente austera.


O nome

O nome peculiar, ‘cartuxos’, vem da região onde os primeiros monges da ordem se instalaram : uma montanha ao norte de Grenoble Chartreuse, na comuna francesa de Saint-Pierre-de-Chartreuse, em Isère. O nome francês ‘Chartreuse’ era traduzido ao latim medieval como ‘Cartusia’, e daí derivam, em português, as palavras ‘Cartuxa’, para indicar tanto a ordem quanto cada um dos seus mosteiros, e ‘cartuxos’, o termo que se refere aos monges. A ‘Grande Cartuxa’ (‘Grande Chartreuse’, que se vê na foto abaixo) é a casa-mãe da ordem, situada na mesma região francesa da fundação.

 Quanto ao nome ‘Ordem de São Bruno’, ele vem, evidentemente, do nome do santo fundador.



O governo cartuxo

Assim com a Ordem de Cister (dos monges cistercienses, fundada por São Bernardo de Claraval), a Cartuxa é umas das primeiras ordens centralizadas da história da Igreja. Ela é governada pelo Capítulo Geral, uma assembleia que se reúne a cada dois anos. Cada mosteiro tem o seu prior, que é o superior da casa, eleito durante o Capítulo Geral. O prior pode ser mantido ou afastado do cargo conforme cumpra ou não os seus deveres satisfatoriamente, o que torna o governo da cartuxa um dos mais flexíveis e equilibrados de que se tem notícia entre instituições humanas de qualquer época e natureza.


A vocação cartuxa

Os cartuxos conciliam a vida comunitária com a própria vida contemplativa, transcorrendo os seus dias, semanas, meses e anos em silêncio absoluto. Eles, que praticam rígida abstinência e fazem frequentes jejuns, trabalham, estudam e oram, devotando a maior parte de todos os dias à adoração.

Os cartuxos formam a comunidade religiosa comumente apontada como a que professa a maior austeridade dentre todas as ordens religiosas católicas no tocante ao exigente modo de vida. Ao longo dos seus mil anos de existência, a cartuxa sempre manteve um estrito e profundo espírito de pobreza e abnegação, meios que servem aos monges e monjas cartuxos para buscarem a maior intimidade com Deus na oração e na contemplação, livres ao máximo de todo apego material e mundano.

Seu lema, que resume o espírito da vocação cartuxa, é eloquente :

‘Stat Crux dum volvitur orbis’

O que significa? ‘A Cruz permanece em pé enquanto o mundo dá voltas’.


A cartuxa em Portugal e no Brasil 

Entre as cartuxas que existem mundo afora, há uma no Brasil, a de Nossa Senhora Medianeira, em Ivorá, no Rio Grande do Sul, e uma em Évora, Portugal, que você pode ‘visitar’ no seguinte vídeo de 3 minutos produzido pela revista Expresso em janeiro de 2007 :’

            
Fonte :

segunda-feira, 12 de junho de 2017

E o seu lado espiritual?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A oração possibilita ao humano experimentar o deserto de seu próprio ser.
 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Cultivar a espiritualidade ainda não faz parte do cotidiano de muitas pessoas. Pouco se compreende que esse exercício é um pilar determinante na sustentação da interioridade e de uma qualificada participação na vida social. Por isso, muitas dinâmicas estão comprometidas. Ilusoriamente, pensa-se – talvez por forças de secularismos, excesso de racionalizações ou imediatismos – que a espiritualidade é opcional, mais apropriada para alguns mais devotos. Na verdade, a espiritualidade é indispensável para sustentar a vida de todos em parâmetros qualificados. Assim, um permanente desafio é estar em sintonia com o que diz o salmista, nas Sagradas Escrituras : ‘Desde a minha concepção me conduzistes, e no seio maternal me agasalhastes. Desde quando vim à luz vos fui entregue, desde o ventre de minha mãe sois o meu Deus’.

A humanidade, mesmo emoldurada por diferentes manifestações confessionais e religiosas, não prioriza o hábito de cultivar a espiritualidade. As consequências são o comprometimento da vida, com equívocos nos critérios que regem discernimentos e escolhas, a prevalência da mediocridade na emissão de juízos e nas iniciativas que deveriam corresponder à dignidade própria do ser humano, na sua inteireza. A cultura da dimensão espiritual no cotidiano significa reconhecer a presença de Deus no lugar que lhe é próprio, conforme ensina o salmista, em oração : ‘Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança, em vós confio desde a minha juventude. Sois meu apoio desde antes que eu nascesse, desde o seio maternal, o meu amparo. Vosso louvor transborda nos meus lábios, cantam eles vossa gloria o dia inteiro. Não me deixeis quando chegar minha velhice, não me falteis quando faltarem minhas forças. Eu, porém, sempre em vós confiarei, sempre mais aumentarei vosso louvor’.

O lado espiritual não é apenas uma parte da existência. Trata-se de alicerce para a vida, cultivado pelo desenvolvimento da competência de se contemplar, isto é, tornar-se capaz de mergulhar no sentido mais profundo de cada ser, de cada criatura, superando superficialidades. E a oração é, por excelência, a experiência do exercício da espiritualidade. Causa empobrecimento considerar a oração como um recurso de poucos, para momentos passageiros de aflições maiores. As preces possibilitam o enraizamento de si mesmo na verdade e na fonte do amor que é Deus. Tertuliano, reconhecido escritor dos primeiros anos da era cristã, destaca a força da oração, ao comentar : ‘nos tempos passados, a oração livrava do fogo, das feras e da fome. Agora, a oração cristã não faz descer o orvalho sobre as chamas, ou fechar a boca de leões, nem impede o sofrimento. Mas, certamente vem em auxílio dos que suportam a dor com paciência, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, acalma tempestades, detém ladrões, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam e confirma os que estão de pé’.

A oração possibilita ao humano experimentar o deserto de seu próprio ser. Leva-o a reconhecer sua condição solitária e pobre, para explicitar sua dependência de Deus. O lado espiritual de cada pessoa é que lhe permite assumir e conquistar a humanidade verdadeira e integral. Na espiritualidade, cultiva-se o silêncio que faz da própria vida um ouvir determinante, gera-se a competência para o diálogo que promove a cultura do encontro e quebra, com propriedade, a rigidez da mesquinhez. A experiência espiritual qualificada é que nos permite cultivar e aproveitar os nossos dons, edificando a unidade interior básica que permite a inteireza moral e existencial. Quando se compromete essa unidade, a conduta pessoal sofre com reflexos negativos. E o caminho da espiritualidade, que possibilita uma condição humana qualificada, não pode ser trilhado apenas com a própria força, nem mesmo unicamente com a luz da razão. Trata-se de percurso impulsionado pelo Espirito Santo, que está presente em cada um dos que cultivam a abertura para receber seus dons.

A humanidade carrega fardo pesado por não compreender a importância de se cultivar a espiritualidade. Por isso, o cidadão contemporâneo fica moralmente enfraquecido gerando os descompassos que degradam o mundo. Assim, o investimento para transformar a realidade exige, de cada um, cultivar o lado espiritual. Eis o caminho que é fonte de soluções para os muitos problemas enfrentados pela humanidade.’

           
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sábado, 10 de junho de 2017

Assim na Terra como no Céu

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Dom Alberto Taveira Corrêa,
Arcebispo Metropolitano de Belém, PA


‘Todos os cristãos são chamados a viver em plenitude, com a graça daquele que veio para que todos tenham vida. Jesus Cristo não é um mestre ao lado de tantos outros sábios da história da humanidade, mas o Senhor, em quem depositamos toda a nossa confiança e a certeza do rumo e do sentido da existência. ‘Os primeiros seguidores de Jesus Cristo que foram ao Jordão com a esperança de encontrar o Messias (Cf. Cf. Mc 1,5), se sentiram atraídos pela sabedoria das palavras de Jesus, pela bondade de seu trato e pelo poder de seus milagres. E pelo assombro que a pessoa de Jesus despertava, acolheram o dom da fé e vieram a ser discípulos de Jesus. Ao sair das trevas e das sombras de morte a vida deles adquiriu uma plenitude extraordinária, a de haver sido enriquecida com o dom do Pai (Cf. Lc 1, 79). Viveram a história de seu povo e de seu tempo sem esquecer o encontro mais importante e decisivo de sua vida que os havia preenchido de luz, de força e de esperança : o encontro com Jesus, sua rocha, sua paz, sua vida. Também nós, enquanto sofremos e nos alegramos, permanecemos no amor de Cristo, vendo nosso mundo e procurando discernir seus caminhos com a alegre esperança e a indizível gratidão de crer em Jesus Cristo. A importância única e insubstituível de Cristo para nós e para a humanidade, consiste em que Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. No clima cultural relativista que nos circunda, onde é aceita só uma religião natural, faz-se sempre mais importante e urgente estabelecer e fazer amadurecer em todo o corpo eclesial a certeza de que Cristo, o Deus de rosto humano, é nosso verdadeiro e único salvador’ (Cf. Documento de Aparecida 21).

E o Senhor nos revelou, tirou o véu, a respeito do segredo mais decisivo para a vida dos seus discípulos e da humanidade. Mostrou-nos que Deus é família, não isolamento, é Pai e Filho e Espírito Santo. Ensinou-nos a intimidade que se encontra na palavra ‘Pai’, fez-nos dizer ‘Aba’, ‘paizinho’, introduziu-nos no Céu do Pai das misericórdias, prometeu-nos e efetivamente, junto com o Pai, enviou-nos o Espírito Santo, Consolador, Paráclito, Advogado, que conduz a Igreja até a volta do Senhor Jesus. É o Espírito Santo que nos faz chamar a Deus de Pai e proclamar que Jesus é o Senhor. Tudo isso, para nós cristãos, não é uma dentre tantas propostas oferecidas em cada tempo, mas é nossa escolha, nosso rumo, o ar que respiramos, nossa única e decisiva opção. Ter feito esta opção de fé não nos leva a desrespeitar quem pensa diferente, mas a oferecer, com simplicidade, o que descobrimos e podemos dar de melhor!

Neste mesmo clima de respeito, podemos refletir sobre algumas das grandes questões que tomam conta da humanidade hoje e testemunhar o que descobrimos, a partir do senhorio de Jesus Cristo, que é o melhor que temos. Podemos partir de uma expressão usada em meios de comunicação, ‘o céu é o limite’! Certamente o problema de nossos dias é justamente fazer da terra o limite, com a doentia incapacidade de olhar para frente e para o alto. Com toda a tecnologia avançada à disposição da humanidade, parece-nos atrair apenas as forças da natureza. Muitos voltam a cultuar os elementos do fogo, terra, água e ar, ou se encantam com as formas de religião natural, a serem, sem dúvida, respeitadas, mas falta a esplêndida descoberta de que o cristianismo, religião histórica, de revelação, cuja iniciativa veio do Céu, não é uma invenção de qualquer grupo humano.

A experiência cristã é única e irrepetível, tem como ponto de referência alguém, que é Jesus Cristo, cuja presença acontece no nosso dia a dia, não se reduzindo a uma agradável lembrança. O contato com ele faz as pessoas mudarem o centro de suas vidas. Não se trata de pensar o mundo em torno de si mesmo, mas escolher o caminho do amor a Deus e ao próximo. O Céu é comunhão, relacionamento, abertura para os outros, serviço, alegria do dom recíproco!

Consequências? Comecemos ‘em casa’, em nossas opções pessoais. Viver na terra como no Céu não é andar nas nuvens, mas decidir-se cada dia a amar e servir. Afinal de contas, um bom cristão começa seu dia ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’, enquanto traça sobre si o sinal da Cruz, que aponta para o alto, ligando Céu e Terra, e abre os braços para o amor fraterno. O dia inteiro, vivido no amor a Deus e ao próximo, será pleno de sentido e de alegria. Só assim podemos sair da modorra do egoísmo, que leva a pensar apenas nos próprios interesses.

No relacionamento interpessoal, o cristão se faz um com todos, abre-se ao bem que existe nas outras pessoas, sai de si mesmo, vencendo as tentações do mau humor, que tantas vezes impede o contato diário com irmãos e irmãs. Ao rezar cada dia o Pai Nosso, apaixona-se pela vontade de Deus, quer santificar o nome do Senhor, acolhe os valores do Reino anunciado por Jesus, pede cada dia o pão necessário para o corpo e o Pão da Vida, compromete-se com o perdão para acolher a misericórdia de Deus, que não se cansa de perdoar. Com a força do Espírito Santo que conduz os homens e mulheres de fé, encontra a estrada para vencer as tentações, na certeza de que só Deus livra do mal.

Na vida da Igreja, o Céu se faz presente quando se constrói a vida em comunidade. Não pode existir vida cristã fora da comunidade; seja nas famílias, nas paróquias, nas comunidades de vida consagrada, nas comunidades de base, outras pequenas comunidades e movimentos. Como os primeiros cristãos, que se reuniam em comunidade, o discípulo participa na vida da Igreja e no encontro com os irmãos, vivendo o amor de Cristo na vida fraterna solidária.

Na sociedade, viver segundo o modelo da Trindade aponta para o valor do bem comum, abre as portas para o diálogo, reconhece o bem que existe em cada pessoa e nos diferentes grupos humanos e nas mais variadas ideias que correm. Como a vida do Deus do Céu pode se espalhar na Terra, o Espírito Consolador abre nosso coração para identificar as Sementes do Verbo de Deus existentes em todos os recantos e corações.

Na Solenidade da Santíssima Trindade, acolhamos o convite a permitir que o Céu se faça presente aqui!’

           
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