quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O fascinante sentido espiritual por trás da palavra “paróquia”

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Philip Kosloski


‘O que é uma paróquia?

Quase todo mundo usa esse termo, mas o que ele significa mesmo?

À medida que o cristianismo ia se estabelecendo firmemente mundo afora, crescia a necessidade de organizar as comunidades cristãs num sistema gerenciável. Essa tarefa ganhou corpo no século IV e foi sendo refinada ao longo das décadas, chegando a um ápice no século XVI com o Concílio de Trento.

Nesse concílio, os bispos foram instruídos a definirem claramente as paróquias e os sacerdotes que exerceriam nelas o seu ministério. Começaram então a ser estabelecidos os limites territoriais específicos de cada paróquia, com base na quantidade de almas presentes em cada região.

pároco ficaria encarregado do cuidado espiritual e sacramental de todas as almas que vivessem dentro daquele território. Se houvesse necessidade, ele contaria com a assistência de mais sacerdotes sob a sua liderança.

O atual Código de Direito Canônico especifica que uma paróquia é ‘uma comunidade de fiéis cristãos constituída de forma estável’ e estabelecida por um bispo. Como regra geral, a paróquia é territorial, ou seja, inclui todos os fiéis cristãos de um determinado território; no entanto, o direito canônico também prevê grupos de cristãos não vinculados por fronteiras territoriais. Isto, na prática, significa que pessoas que residem fora de uma determinada paróquia podem ainda assim pertencer a ela, não obstante a localização.


‘Peregrinos morando ao lado’

A palavra paróquia vem do grego ’paroikía’, que significa algo como ‘casa ao lado’, ‘morada próxima’, ‘morar perto’. Tem relação com o termo ’paroikos’, que quer dizer ‘forasteiro’, ‘estrangeiro’, ‘peregrino em outra terra’, e que aparece nos Atos dos Apóstolos quando Estêvão fala da história dos judeus e os descreve como ‘estrangeiros numa terra que não era a sua’ (cf. Atos 7,6).

Um paroquiano é isso : um ‘peregrino’ que viaja rumo à pátria celestial, e que, acolhido numa paróquia, ou seja, numa ‘morada próxima’, vai compartilhando essa viagem com seus irmãos e vizinhos!

Belíssima imagem para entendermos o conceito, não é?

Mas há mais imagens e metáforas que nos ajudam a descobrir a riqueza e a profundidade do conceito de paróquia.


As paróquias são como barcos

A imagem da barca é muito associada à Igreja, tradicionalmente representada como a ‘Barca de Pedro’. Desta mesma perspectiva, as paróquias são como barcos que levam grupos específicos de almas rumo ao céu. Não parece coincidência, aliás, que a parte mais ampla das igrejas tradicionais se chame ‘nave’ (do latim ‘navis’, ou seja… navio, barco)!

Todo pároco, assim, é o capitão’ de um barco de almas a serem levadas até o porto seguro do céu! Isso não é uma tarefa simples, e é por isso que o padre precisa muito do envolvimento dos paroquianos na condução do barco – além, é claro, do sopro contínuo do Espírito Santo.


Analogias para pôr em prática

Da próxima vez que você for à sua paróquia, lembre-se dessas analogias com a ‘morada próxima’, com a ‘peregrinação’, com o ‘barco’. Essas imagens ajudarão você a entender melhor a tarefa gigantesca do pároco, especialmente quando ele é responsável por 3 ou 4 ‘barcos’ ao mesmo tempo, e, por conseguinte, a compreender melhor a importância da sua própria participação e colaboração ativa como membro dessa tripulação.

Numa paróquia, afinal, somos todos peregrinos a bordo da mesma casa-barco, rumando ao céu!


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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Assunção de Nossa Senhora - Mãe de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Hoje, solenemente, celebramos o fato ocorrido na vida de Maria de Nazaré, proclamado como dogma de fé, ou seja, uma verdade doutrinal, pois tem tudo a ver com o mistério da nossa salvação. Assim definiu pelo Papa Pio XII em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus : ‘A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre foi assunta em corpo e alma à glória celestial.

Antes, esta celebração, tanto para a Igreja do Oriente como para o Ocidente, chamava-se ‘Dormição’, porque foi sonho de amor. Até que se chegou ao de ‘Assunção de Nossa Senhora ao Céu’, isto significa que o Senhor reconheceu e recompensou com antecipada glorificação todos os méritos da Mãe, principalmente alcançados em meio às aceitações e oferecimentos das dores.

Maria contava com 50 anos quando Jesus subiu ao Céu. Tinha sofrido muito : as dúvidas do seu esposo, o abandono e pobreza de Belém, o desterro do Egito, a perda prematura do Filho, a separação no princípio do ministério público de Jesus, o ódio e perseguição das autoridades, a Paixão, o Calvário, a morte do Filho e, embora tanto sofrimento, São Bernardo e São Francisco de Sales é quem nos aponta o amor pelo Filho que havia partido como motivo de sua morte.

É probabilíssima, e hoje bastante comum, a crença de a Santíssima Virgem ter morrido antes que se realizasse a dispersão dos Apóstolos e a perseguição de Herodes Agripa, no ano 42 ou 44. Teria então uns 60 anos de idade. A tradição antiga, tanto escrita como arqueológica, localiza a sua morte no Monte Sião, na mesma casa em que seu Filho celebrou os mistérios da Eucaristia e, em seguida, tinha descido o Espírito Santo sobre os Apóstolos.

Não subiu ao Céu, como fez Jesus, com a sua própria virtude e poder, mas foi erguida por graça e privilégio, que Deus lhe concedeu como a Virgem antes do parto, no parto e depois do parto, como a Mãe de Deus.

Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!


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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A fantasia Católica tem uma vantagem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Escreveu o jesuíta Guy Consolmagno J. em
*Artigo de Raffaela Silipo

‘Superman? ‘Acaba sendo chato’. Nada a ver com Frodo, ‘que pode sofrer e falhar e, no final, triunfar’. Os escritores católicos de ficção científica e romances de fantasia têm uma vantagem, diz Guy J. Consolmagno (cientista jesuíta apaixonado pela ficção científica, aquela que o levou à carreira científica) em ‘La Civiltà Cattolica’. John R.R. Tolkien e Gene Wolfe são os exemplos mais óbvios. Porém, entre os escritores mais amados e conhecidos de ficção científica há ‘insuspeitadamente’ muitos católicos. Por quê? ‘Por exemplo, a concepção católica de uma humanidade pecadora implica a presença de personagens que podem ser amados, mesmo quando cometem erros e se comportam mal’.

O artigo, intitulado ‘A Fantasia e a sensibilidade católica’, que será publicado na próxima edição da revista dos jesuítas, aponta que os escritores católicos têm uma vantagem graças à sua fé, mesmo do ponto de vista narrativo. Além disso, Tolkien argumentou em uma carta a outro jesuíta, Robert Murray, ‘O Senhor dos Anéis é fundamentalmente uma obra religiosa e católica : o elemento religioso está enraizado na história e no simbolismo’.

O Catolicismo neste caso ‘é um conjunto de princípios sobre o universo, para além do que podem dizer os astrônomos. E as boas histórias, muitas vezes vêm a partir do embate entre visões de mundo opostas. Ser católicos em um mundo secular significa viver esta tensão : é um bom caminho’. O desafio é sempre este : a batalha entre o bem e o mal, a batalha pelos sentimentos grandes e nobres, a procura de um sentido último das coisas e, acima de tudo, o desejo de grandeza, ‘promover uma imagem que é grande o suficiente para ser universal’. Neste sentido, o objetivo de escritores católicos parece ser, basicamente, encontrar novas maneiras de falar sobre Deus, mas mantendo-se fieis ao verdadeiro Deus’.’


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domingo, 13 de agosto de 2017

Apelo dos Patriarcas do Oriente ao Papa sobre êxodo dos cristãos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘‘É tempo de lançar um apelo profético como testemunho da verdade. Somos convidados a permanecer apegados a nossa identidade oriental e a permanecer fiéis a nossa missão. Assumindo o cuidado do pequeno rebanho, nós Patriarcas orientais estamos aflitos ao assistir a hemorragia humana dos cristãos que abandonaram suas terras no Oriente Médio.

É uma das passagens mais significativas do comunicado difundido esta sexta-feira pelo Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente ao término da sessão anual realizada em Dimane, no Líbano, sede de verão do Patriarcado maronita, e do qual participou o núncio apostólico no Líbano, Arcebispo Gabriele Giordano Caccia.

Numa sessão ecumênica estiveram presentes também os patriarcas greco-ortodoxo John Yazigi, sírio-ortodoxo Ignazio Efrem II, o catholicos da Igreja apostólica armênia Aram I e o presidente da comunidade evangélica na Síria e no Líbano, Salim Sahyouni.

Permaneçamos radicados na terra dos pais e dos antepassados – é o apelo – esperando contra toda esperança num advir em que, como componentes de um patrimônio autêntico e específico, sejamos compreendidos como fontes de enriquecimento para nossas sociedades e para a Igreja universal no Oriente e no Ocidente.’

Os patriarcas exortam a não deixar de proclamar ‘a verdade na caridade, a legitimidade da separação entre estado e religião na constituição de nossas pátrias, a igualdade de todos face aos direitos e deveres, sem acepção de pertença religiosa ou comunitária’.

Na nota, reportada pelo jornal vaticano L’Osservatore Romano, o Conselho critica a comunidade internacional por assistir, uma após outra, por causa da insegurança e da emigração, a extinção das Igrejas orientais no Iraque, Síria, Palestina, Líbano, Egito, sem que a sua reação seja à altura da tragédia.

Eles dão conta de que, se esse estado de coisas continuar, se tratará de um verdadeiro projeto de genocídio’ e de uma ‘afronta à humanidade.

Pedimos às Nações Unidas e aos países atingidos de modo direto pelos conflitos na região que acabem com as guerras, cujos objetivos se tornaram claros: destruir, matar, impelir ao êxodo, relançar as organizações terroristas, defender o espírito de intolerância e de conflito entre as religiões e as culturas.

A prossecução desta situação e a incapacidade de estabelecer uma paz justa, global e duradoura na região, assegurando o retorno dos refugiados e dos deslocados a suas casas com dignidade e na justiça, permanecerão como um estigma de vergonha para todo o século XXI.

Os patriarcas católicos dirigem-se também ao Papa Francisco : ‘Somos uma nação com largas fronteiras, ou que atraem a atenção dos gigantes das finanças; somos um pequeno rebanho pacífico. Um pequeno rebanho que não conta com nenhum outro que Vossa Santidade para convidar os grandes que presidem os destinos do mundo.

A mensagem coincide com a publicação de cifras eloquentes sobre a diminuição dos cristãos nos vários países do Oriente Próximo, em particular no Iraque, Síria e Terra Santa (onde representam somente 1,2% da população); na Síria, por causa da guerra deflagrada em 2011, o número deles caiu (de 250 mil para 100 mil, segundo estatísticas recentes). No Iraque os representantes da comunidade cristã estão tendo dificuldade para convencer a população do planície de Nínive a voltar para casa.’


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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Céu, inferno e purgatório à luz do mistério pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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Dante e seus Poemas por Domenico di Michelino (1460)

*Artigo de Geraldo De Mori, SJ


‘A destinação final do ser humano é vista de diversas maneiras pelas religiões e pelas ciências. O cristianismo professa sua esperança na ressurreição dos mortos, baseado na proclamação da ressurreição de Jesus Cristo. Muitas igrejas cristãs, ao rezarem a cada domingo o símbolo dos Apóstolos ou símbolo de Niceia/Constantinopla, dizem crer na ‘ressurreição dos mortos e na vida eterna’ ou dizer crer ‘na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há de vir’. Baseada nessas afirmações do símbolo da fé, a teologia cristã elaborou ao longo dos séculos uma reflexão que deu origem, já nas Sumas medievais, aos artigos dedicados aos ‘novíssimos’ (as coisas novas), que na teologia atual são estudados no tratado de escatologia (as coisas últimas e definitivas).

A sistematização do que tradicionalmente foi chamado de ‘novíssimos’ é o resultado do encontro entre várias ‘representações da vida futura’, muitas delas presentes na Bíblia e outras oriundas das tradições religiosas e filosóficas de outras culturas, dentre as quais a grega. Nos textos mais antigos da Bíblia, a vida era o mais importante. Para realizar-se plenamente, o ser humano tinha que ter saúde, viver uma vida longa, ser bem sucedido do ponto de vista material, ter filhos e ver ‘os filhos dos filhos’ (Sl 128,6). Não havia esperança de uma vida após a morte, embora o Israel antigo não conhecesse a ideia de que com a morte tudo desapareceria. Para eles, os mortos iam para o xeol (Jó 14,13; Sl 6,5; 86,13;139,8; Pr 30,16; Ecl 9,4-6;.10), que era o reino das sombras, mas sobre o qual Deus reinava. Não existia a ideia de que o xeol fosse o domínio de uma força maligna, identificada em outras religiões com o diabo. Tampouco existia a ideia de que havia um paraíso para onde iriam os justos/bons. Deus mostrava, porém, misericórdia para com os justos (até a milésima geração : cf. Dt 5,10) e retribuía com o castigo os que praticavam o mal (até a terceira geração o mal : cf. Dt 5,9).

A crença de que haveria uma retribuição após a morte, com um lugar para os bons e outro para os maus, começou a surgir na literatura apocalíptica judaica, que é representada pelo livro de Daniel e por vários apócrifos (Esdras, Enoque etc.). Em parte, isso foi determinado pela morte dos justos e a constatação de que no mundo nem sempre eles eram devidamente retribuídos e os maus devidamente castigados. O capítulo 12 de Daniel é emblemático a esse respeito, pois fala que os mortos ‘acordarão’, alguns para a ‘vida eterna’ e outros para o ‘desprezo eterno’ (v. 2). O capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus também atesta a fé na ressurreição (v. 28-29).

O Novo Testamento mostra a duas perspectivas acima elencadas : a dos saduceus, para os quais não haveria ressurreição, e a dos fariseus, que nela criam (Mt 22,23-33). Aparece também a crença de um lugar para os bons (o ‘seio de Abraão’, em Lc 16,22) e um lugar para os maus (o ‘inferno’, em Lc 16,23). O lugar para os maus é denominado também ‘geena’, e ganha traços terríveis nos discursos de Jesus : lugar onde haveria ‘choro e ranger de dentes’, com ‘vermes’, ‘corrupção’ (Mt 5,22.30; 10,28; 18,9; 23,15.33 etc.). O termo ‘paraíso’ ocorre uma única vez na boca de Jesus, quando ele o promete ao bom ladrão arrependido na cruz (Lc 23,43). Jesus fala, porém, do reino de Deus como algo futuro, lugar de festa e banquete (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24). Além da ideia de ‘lugares’ para onde iriam os mortos, os textos do Novo Testamento falam ainda que Jesus ressuscitou dos mortos e apareceu a vários discípulos (1Cor 15,5s), e fundamentam nossa ressurreição na sua ressurreição, com longa reflexão sobre como ela seria (1Cor 15,12-58). Os principais textos que falam de nossa ressurreição a associam à segunda vinda de Cristo, o ‘dia do Senhor’ (1Ts 4,13-18; 1Cor 15,23-27).

Com base nesses textos e nessas ‘representações’ da vida futura, a pregação cristã e a teologia foram elaborando, em diálogo com a filosofia grega, o que, na Idade Média, foi chamado de novíssimos : céu e inferno. Em parte, essa reflexão constituiu-se como ‘topografia do além’, determinada pelas categorias a partir das quais conhecemos : espaço e tempo. O ‘mundo futuro’ tornou-se uma espécie de reprodução, mais perfeita e plena, chamada ‘céu’ ou ‘paraíso’, ou imperfeita e falha, denominada ‘inferno’. Além desses dois ‘lugares’, pouco a pouco foi surgindo um terceiro, o ‘purgatório’. Em parte, isso se deve ao dualismo antropológico grego, que via o ser humano como a conjunção de corpo (perecível) e alma (imperecível), e em parte, ao ‘atraso da parusia’, que levantava a questão do que acontecia com os fiéis que haviam dado testemunho do Cristo antes de sua segunda vinda. A crença de que no dia juízo tudo deveria ser ‘revelado’, passando pelo fogo (1Cor 3,13-15), e a prática da oração pelos ‘fiéis defuntos’, levou à elaboração da teologia do purgatório. Com a Divina comédia, de Dante, na Idade Média, e as pregações da Igreja visando à conversão, essa representação do além se popularizou, tendo ainda grande importância na linguagem.

A nova visão do mundo, dada pelas descobertas das ciências modernas, mostrou, porém, que não se pode mais pensar a esperança na ressurreição ou a ‘vida futura’ ou no ‘além’, com as categorias do nosso mundo (espaço e tempo). É difícil pensar fora do tempo e do espaço, mas isso não significa que não o possamos fazer. O único lugar para pensar isso é o próprio mistério pascal de Cristo, sua cruz e ressurreição.

Como fazê-lo? Vendo como Jesus morreu. Podemos dizer que na Cruz, Jesus nos diz primeiro o que é o inferno. Ao clamar em voz forte ‘meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’ (Mt 27,46), ele nos diz que o inferno é a separação radical da fonte de sentido, que é o Pai, o não sentir-se amparado por ele, ver a vida aniquilar-se no nada. Essa frustração radical e total da existência é a não realização da vocação à filiação, inscrita na criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus. Alguns autores pensam que Jesus fez essa experiência para que ninguém a fizesse depois dele. Outros dizem que a possibilidade do inferno é a condição de possibilidade da liberdade, ou seja, Deus nos cria para sermos filhos (as), mas não nos obriga à filiação. Por isso, a possibilidade da frustração radical da existência, que é viver fora do sentido, que é Deus. De qualquer forma, a cruz é a revelação do mal por excelência, presente na condenação do justo, e a revelação da vitória sobre este mal, pois é a expressão do dom de si de Jesus por amor até o fim, em fidelidade ao Pai. Essa fidelidade pode ser vista também como confiança, e aí aparece a experiência da vitória sobre a frustração. Nas palavras : ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23,46), Jesus mantém-se fiel àquilo que ele acreditou durante toda a vida, na ‘noite mais escura’ dos sentidos, pois aí Deus parecia ter-se ausentado. Nesta fé-confiança encontra-se o que poderíamos chamar ‘céu’, pois o céu é encontrar sentido e sentido último e definitivo para a existência, mesmo quando ela parece não ter sentido.

Perseverar na apelação filial, eis o caminho revelado por Jesus diante do nada da morte injusta que lhe foi impingida. A passagem pelo abandono pode ser vista como ‘purgatório’, ou seja, a prova final pela qual passou Jesus, e pela qual todos passamos. No fundo, diante do ‘nada’ para o qual a morte parece conduzir, e que pode ser identificado com o ‘inferno’, a fé, feita de provação, de ‘purgatório’, nos diz que a perseverança na fé-confiança é possível, e nos leva ao ‘céu’. Toda essa experiência da cruz não é feita apenas entre Jesus e o Pai. O Espírito Santo aí está, levando Jesus ao supremo despojamento, à ‘noite escura da alma’ do abandono, do inferno, arrancando-o, pelo purgatório, para o céu da fé-confiança. Nossa morte, na perspectiva cristã, também é chamada a ser vivida na perspectiva aberta por Jesus. Pela fé-confiança, passando ‘pelo vale tenebroso do abandono’, somos chamados a abandonar-nos nos braços do Pai, como o fez Jesus, movidos pela força do Espírito Santo.’


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Reflexões sobre o livro AS PERIPÉCIAS DE JENNIFER, de Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Manoel Cardoso

Livro que instiga inicialmente a curiosidade do leitor, pois tem como um dos protagonistas um murídeo, através do recurso literário, personificação (age como ser humano). Não é muito comum as narrativas utilizarem animais em seus contextos, a não ser nos Contos de Fadas e em textos destinadas às crianças.  Recorda-se que nos tempos atuais, depois da segunda metade do século XX, apenas dois livros de maior destaque foram lançados empregando esse recurso : Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, e Cândido Urbano Urubu, de Carlos Eduardo Novaes. Dom João Baptista pode inscrever seu livro nesse cenário de simbologia, que prende muito o leitor, cuja curiosidade é despertada, pois uma Ratinha, de nome Jennifer, participará de todos as peripécias da obra, através da investigação, do abandono familiar, da busca da luz, fugindo das trevas de sua profunda cova.



O Autor, portador de invejável cultura, senhor de mil atributos, intima o leitor a participar das peripécias desse pequeno roedor, toma-o pela mão e vai conduzindo-o do jardim à intimidade de um mosteiro que tão poucos conhecem, em profundidade. E travestido como um pequeno murídeo, o leitor penetra na fundura daquele mundo, capela, refeitório, biblioteca, cela, pois a curiosidade se aguça à medida que a narrativa se desenrola. Soma-se a Jennifer e convive mais tempo junto ao protagonista, na biblioteca, seu espaço de atividade, e em todos os demais lugares pelos quais transita o narrador.

Quando o leitor quase está certo de que o espaço da narrativa é um Mosteiro Brasileiro, no capítulo VII, experimenta grande surpresa, ao constatar que o espaço real é a Abadia de São Miguel, na Áustria, onde predomina a arte barroca com toda a sua riqueza arquitetônica, em voga no século XVIII... E a narrativa se faz grande, através das informações sobre o mundo sombrio, em aparência, e luminoso na realidade, de um mosteiro.  O leitor segue os passos do narrador e de Jennifer, inteira-se das atividades diárias, do trabalho do bibliotecário, do encarregado da cozinha, da horta e dos passos essenciais à espiritualidade, necessários ao ingresso na Ordem.

O leitor é ainda seduzido pela rica cultura revelada, pelas armadilhas que se lançam, através de uma narração dinâmica, de um vocabulário erudito, mas plausível, e pelo profundo conhecimento de todos os recantos de uma Abadia, espaço da obra, e onde se desenrola a vida monástica.

Aplausos ao autor que se inaugura num patamar bem alto no mundo da literatura. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Discípulos para acolher ou para excluir?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Um idoso e calmo missionário viajava de trem até o local onde participaria de uma reunião de pastoral de sua Diocese no Japão. Estava ele num dos assentos reservados para pessoas idosas, deficientes ou gestantes, quando, numa estação, embarcou um jovem que se dirigiu, autoritariamente, ao missionário dizendo-lhe : ‘Você é estrangeiro! Levante-se porque eu sou japonês e tenho direito a este lugar’. ‘Sim, você deve estar mal. Sente-se. Eu viajo de pé,’ disse humildemente o missionário.

Situações como essas chocam, especialmente os imigrantes, dando a ideia de que são excluídos dos direitos de que os cidadãos locais gozam. Pode-se imaginar a dor impressa no semblante do missionário diante da exclusão provocada pelo jovem autoritário e arrogante.

Os conflitos entre quem era de seu grupo e quem era de fora provocaram intervenções firmes de Cristo, em diversas ocasiões. Curiosamente, as tentativas de exclusão partiram de pessoas do grupo de apóstolos e discípulos. Não se sabe se por zelo de ter a Cristo como Mestre ou por esperar uma oportunidade, quando Ele estivesse no seu Reino. Com certeza esta última falava muito forte no grupo dos doze.

É significativo o fato narrado pelo Evangelista Lucas (Lc 18,15-17). Algumas pessoas levavam suas crianças a Cristo para que Ele as tocasse. Diante disso, eis que os discípulos, por iniciativa própria, começaram a repreender aquele grupo de pais, na tentativa de afastá-los. Cristo não só concedeu espaço físico às criancinhas, abraçando-as, carinhosamente, mas elevou-as até o mais alto grau, talvez o pretendido pelos dois irmãos que queriam estar um à sua direita e outro à esquerda : ‘Deixem as crianças virem a mim. Não lhes proíbam, porque o reino dos Céus pertence a elas’. Embora, frágeis, Ele as valorizou a ponto que os adultos devem ser como elas. ‘Eu garanto a vocês que quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele’.

 Dramática também é a cena da mulher Cananéia, a estrangeira, narrada por Mateus 15:21-28, suplicando-lhe ajuda, angustiadamente, por causa da doença da filha. Cristo assumiu a atitude do diálogo e de dar tempo ao tempo, como fez com a mulher samaritana e na conversa com Nicodemos, como meios de amadurecimento na fé. Os membros do grupo fechado dos discípulos entraram em ação, autoritariamente, para solucionar o ‘problema’. ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’. Ignorando a voz deles, Jesus continuou o diálogo sério e respeitoso com a mulher que revelou sua grande fé, que lhe permitiu voltar para a casa e encontrar sua filha curada. Assim ela encontrou a porta aberta para participar da mesa junto com os filhos de Israel.

Não nos cabe o direito de julgar os discípulos pelas suas palavras e gestos, no sentido de impedir que Jesus fosse perturbado pelas brincadeiras das crianças ou pelos autores do pedido para afastar uma mulher em desespero diante da grave situação de sua filha. Contudo, eles nos dão uma excelente oportunidade para questionar nossa atitude com os recém-chegados em nossas comunidades. Quase todas elas têm seus coordenadores. Em algumas são eleitos, em outras são nomeados; não faltam os autopromovidos. É muito comum perceber que se perpetuam no cargo e dão à comunidade um rumo pessoal, longe do modelo de Cristo. Por isso, ao inteirar-se de alguma iniciativa de alguém que não de seu clube, assumem o direito de transmitir ordens como se fossem emanadas do padre da paróquia. Ouve-se amiúde, ‘Não podemos fazer assim esta atividade porque o padre não quer’. Na verdade, está comunicando que elas não querem, usando o nome do padre. Assim, as oportunidades de envolvimento são para as pessoas de sua simpatia ou religiosidade, excluindo os diferentes ou aqueles que podem ameaçar sua posição. Já houve casos em que a celebração dominical foi atrasada porque alguém, do grupo fechado da pessoa coordenadora, não chegava para fazer uma das leituras, enquanto na igreja havia diversas que, pela primeira vez, poderiam ser convidadas para exercer esse ministério com eficiência.

Um dos perigos das comunidades é o fechamento do pequeno grupo de amigos que as insensibiliza diante das angústias das pessoas de fora ou que se aproximam pela primeira vez, ou não são cristãos da mesma linha religiosa. Com atitudes ou mesmo com palavras podem estar atualizando a expressão : ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’.

Este tipo de grupo tende a fechar-se sobre si ao mesmo tempo em que se fecha às orientações pastorais das dioceses. Seus mentores citam seguidamente o Papa em suas conversas, não para seguir suas orientações, mas justificar sua religiosidade.

Não raramente, manipulam a Bíblia e os ensinamentos da Igreja, geralmente, extraindo algumas frases isoladas como muleta para seu grupo, mas evitam ter uma visão abrangente da doutrina. Na prática, tal atitude filtra as pessoas, permitindo a aproximação de quem comunga com suas visões parciais em contraposição ao ‘Deixem vir a mim as crianças...’ de Cristo. São como o pedágio seletor. Fácil é entender que Cristo ama muito mais os que são impedidos de chegar a Ele.

Quando as pessoas se transformam em donas exclusivas da verdade, dogmáticas, radicais e moralistas, o prejuízo para a construção de comunidades dinâmicas é enorme, especialmente para a pequena Igreja no Japão, por exemplo, que necessita abrir-se e acolher. Pretendem empobrecer o Espírito Santo, limitando-O ao ‘dom de falar em línguas’ e mais algum. Daí a grande resistência de ler e meditar a 1ª. Cor 14,1-35, sobre as línguas e 1 Cor 12 sobre os muitos dons presentes no Povo de Deus. Herodes ficou preocupado ao saber que havia nascido um Rei em seu território. O medo era ser destronado. Será que os muitos ‘discípulos’ não estariam impedindo que os recém-chegados assumam algum ministério, nas comunidades, por medo de perder seus lugares?

Hoje é notória a existência de uma oferta exuberante de religião e de movimentos religiosos de todo tipo e gosto, tanto sob o guarda-chuva da Igreja Católica como de outras denominações cristãs. Cada dia surgem grupos novos, ‘comunidades’ e movimentos autoproclamando-se como os melhores e os mais ortodoxos. Com frequência esses grupos de ‘discípulos’ se atribuem erroneamente o título de ‘missionários’ e porta-vozes da Igreja. Considerando o mandato de Cristo, o missionário é seu enviado para anunciar a Boa Nova a toda criatura, sendo instrumento de Deus na construção do Reino. Na verdade, o que se vê é uma preocupação ardorosa de propagar e atrair pessoas, cada um para seu próprio grupo, linha religiosa ou movimento, desconsiderando o anúncio a toda criatura tão desejado por Cristo com a finalidade de construir o Reino de Deus.

Nem tudo é tenebroso quando falamos de discípulos. São milhares aqueles e aquelas que se engajam com denodo ao anúncio da Boa Nova, acolhendo a todas as pessoas de forma livre e desinteressada, traduzindo o amor em obras com a visão voltada para a construção do Reino. Um exemplo maravilhoso é um velhinho e simpático sacerdote japonês que, nas dependências de sua igreja acolhe alcóolatras, dependentes químicos e excluídos de qualquer nacionalidade. Certamente as palavras de Cristo : ‘Venham vocês, que são abençoados de meu Pai. Recebam em herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo’ (Mt25, 34) serão dirigidas para esses discípulos verdadeiros.’


Fonte :

sábado, 5 de agosto de 2017

Pela primeira vez, elegem uma cristã como prefeita de uma cidade do Iraque

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Lara Zara recebeu autoridades políticas e religiosas como o Patriarca católico caldeu de Bagdá, Dom Louis Sako, e o Arcebispo de Erbil, Dom Bashar Warda.
Lara Zara recebeu autoridades políticas e religiosas como o Patriarca católico caldeu de Bagdá, Dom Louis Sako,
e o Arcebispo de Erbil, Dom Bashar Warda. (Reprodução/ Iraqi Christian HRC)


‘Lara Yussif Zara é a primeira mulher cristã a ser eleita prefeita de uma cidade localizada na região da Planície de Nínive, no norte do Iraque, no último dia 27 de julho.

Zara, uma católica caldeia de 35 anos e economista de profissão, é a nova prefeita de Alqosh, uma cidade onde vivem cerca de seis mil cristãos e que é a cidade que esteve mais perto do território da Planície de Nínive ocupado durante três anos pelo Estado Islâmico.

Segundo contou ao Grupo ACI o Padre Luis Montes, missionário do Instituto do Verbo Encarnado (IVE) no Iraque, muitos dos cristãos que viviam em Alqosh fugiram da cidade por medo de que fosse tomada pelo ISIS, mas depois regressaram porque as milícias curdas conseguiram defender a região. Indicou que inclusive os habitantes receberam muitos refugiados.

Zara não é a primeira mulher a ser eleita prefeita no Iraque. Desde 2015, Zekra Alwach, de origem muçulmana, ocupa o cargo de prefeita de Bagdá.

Após sua eleição, Lara Zara recebeu a visita de várias autoridades políticas e também religiosas como o Patriarca católico caldeu de Bagdá (Iraque), Dom Louis Rafael Sako, e o Arcebispo de Erbil, Dom Bashar Mati Warda.

Segundo informou a agência vaticana Fides, Lara Zara foi eleita por unanimidade pelo Conselho do Município de Qaraqosh, para substituir Abdul Micha, que tinha sido destituído de seu cargo de prefeito de Alqosh por acusações de corrupção.

Esta medida causou polêmica entre os cristãos de Alqosh, já que a destituição foi realizada por um membro do Partido Democrático do Curdistão (PDK) e chefe do conselho provincial de Nínive, Bashar al Kiki, o qual, além disso, substituiu provisoriamente Micha por um líder político próximo ao PDK.

Em declaração à Rádio Vaticano, o Patriarca Caldeu, Dom Rafael Louis Sako, expressou sua preocupação por esta situação já que ‘o prefeito, o governador de Alqosh ou das aldeias da Planície de Nínive são eleitos pelo povo e um partido não deve eleger, mudar ou substituir. Isso é muito perigoso para nós, porque devemos respeitar os direitos dos habitantes dessas aldeias’.

As pessoas da Planície de Nínive devem decidir seu futuro e não os outros. E há uma luta pela Planície de Nínive com as pessoas que ainda têm medo de regressar porque não sabem o que acontecerá, o futuro não é claro’, acrescentou.

Sobre isso, a agência Fides assinalou que ‘vários observadores tinham interpretado a destituição do prefeito Abdul como um movimento orquestrado pelas forças políticas curdas’.

Os curdos são uma minoria étnica que não conta com um território nacional, mas que vivem em vários países do Oriente Médio, como Iraque, Síria, Turquia e Irã.

Fides indicou que alguns políticos cristãos, como o parlamentar Yonadam Kanna, tinham denunciado que os curdos estão exercendo uma pressão política sobre as minorias étnicas no Iraque, como os cristãos, para que apoiem o referendo para a independência do Curdistão iraquiano que acontecerá no dia 25 de setembro.

Nesse sentido, através de um comunicado, o Patriarcado Caldeu da Babilônia assinalou que, por meio da destituição do prefeito de Alqosh, estão dando uma ‘tentativa de colocar as mãos nas cidades da Planície de Nínive, através de manobras ocultas e disputas públicos que exercem efeitos adversos sobre os povos desta terra’.’


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Tesouro maior

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Jesus é o tesouro escondido, é Ele a pérola de grande valor.
 *Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘A força vivificadora do Espírito do Senhor Jesus, que continua a falar aos homens e às mulheres de nossos tempos sobre o valor inestimável do Reino de Deus, leva as pessoas de boa vontade a uma decisão, que implica sacrifício e renúncia como condição essencial para encontrá-Lo. É evidente que há a necessidade de corações ardorosos, no desejo de alcançar o bem maior, durável e precioso. Como disse o Papa Francisco : ‘É Ele o tesouro escondido, é Ele a pérola de grande valor. Ele é a descoberta fundamental que pode dar uma reviravolta decisiva em nossa vida, preenchendo-a de significado’.

Convencidos de que somos enviados a anunciar as maravilhas de Deus, como continuadores da missão do nosso Mestre e Senhor, somos chamados a formar um só corpo, que é a Igreja de Cristo, antecipação do Reino de Deus, ofertando largamente ao mundo os mesmos dons recebidos no batismo, mergulhados, evidentemente, no inefável mistério do próprio Deus, numa vastíssima diversidade de dons, ministérios e atividades. É tarefa nossa fazer de tudo, mas de tudo mesmo, para descobrir seu valor inigualável, maior tesouro que podemos encontrar como aspiração mais profunda.

Jesus nos promete e nos assegura a felicidade, não apenas num futuro longe e distante, lá no céu, na eternidade, mas já aqui na terra. A decisão é nossa e consiste em abraçar o apaixonante projeto amoroso do nosso Bom Senhor, que é o de conduzir a humanidade para a salvação definitiva. Nunca prescindir de um mundo sonhado por Deus, de paz, justiça e fraternidade, afastando-se do relativo e se aproximando sempre mais do absoluto, como afirma São João Paulo II : ‘A Igreja não é ela o seu próprio fim, pois está orientada para o Reino de Deus, do qual é origem, sinal e instrumento’. Viver bem neste mundo, na lógica do projeto de Deus, quer dizer andar na direção do Reino, inaugurado por Jesus de Nazaré, na entrega de sua própria vida.

Que saibamos nos ajustar e nos identificar com o projeto do Pai, encarnado no seu Filho Jesus, que se despojou de tudo, querendo-nos no caminho e na lógica do Reino, curados e livres de males e feridas, restaurando-nos e dando-nos dignidade. Todo aquele que deseja e tem como sonho maior o Reino de Deus precisa experimentar a alegria da transformação interior, superando a proposta do mundo, na certeza de ter encontrado no tesouro, ou na pérola preciosa, a sabedoria de Deus, o bem maior.’


Fonte :


Por que monges e freiras usam cores diferentes – Parte 2

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Philip Kosloski,
escritor e designer gráfico


‘Depois de falar dos beneditinos e dos carmelitas, prosseguimos agora com os franciscanos e os dominicanos.

Franciscanos

Jeffrey Bruno / Aleteia


Fundada no século XIII por São Francisco de Assis, a família franciscana é grande, com numerosas comunidades religiosas, conventuais e apostólicas, inspiradas no Pobrezinho de Assis. O hábito franciscano é simples : consiste em uma túnica (às vezes com escapulário) e pode ser marrom, preto, cinza ou ainda de outras cores, cada uma com seu próprio simbolismo, dependendo do ramo franciscano em questão. O que São Francisco escolheu foi simplesmente o tecido mais pobre da época – aliás, a sua própria roupa tinha remendos de cores diferentes.

No geral, o hábito franciscano é cingido por uma corda com três ou quatro nós, que simbolizam os votos de pobreza, castidade e obediência e um voto mariano extra. É comum que a corda esteja acompanhada de um grande rosário. Essa corda talvez seja o mais distintivo elemento do hábito franciscano : se você vir uma corda em algum hábito religioso, é provável que se trate de alguém com raízes na espiritualidade franciscana. Os frades capuchinhos são um dos ramos mais conhecidos da família franciscana, enquanto os Frades Franciscanos da Renovação são uma comunidade relativamente nova e em notável crescimento.

Entre os mais famosos santos franciscanos estão, além do próprio Francisco, Santa Clara de Assis, São Boaventura e Santo Antônio. A Madre Angélica, fundadora da rede televisiva católica EWTN, fundou seu próprio mosteiro de clarissas, freiras da grande família franciscana. A Ordem Terceira, ou leigos franciscanos, incluiu nomes da envergadura histórica de Dante Alighieri, Santa Isabel da Hungria, Louis Pasteur e o beato Frederico Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo.


Dominicanos

Provincia di St. Joseph

Fundada por São Domingos na mesma época do nascimento dos franciscanos, a ordem dominicana costuma ser a mais fácil de identificar : seu hábito e seu escapulário são brancos e os homens usam capuz enquanto as freiras usam véu preto, o que, tal como no caso dos beneditinos, configura a única diferença entre os hábitos dominicanos para homens e para mulheres. Em determinadas ocasiões, eles usam uma capa preta sobreposta ao hábito. O branco simboliza a pureza da vida de Cristo e, de modo semelhante aos beneditinos, o preto indica a penitência, a mortificação e a morte ao pecado. Eles também usam um cinto de couro com um grande rosário. Aliás, é esse rosário o que ajuda a identificar os dominicanos entre as outras famílias religiosas que usam branco.

A ordem dominicana também é bastante associada a um alto nível na formação intelectual. Nos Estados Unidos, por exemplo, é muito respeitada a Casa Dominicana de Estudos em Washington, DC, mas essa fama já vem de séculos : é dominicano ninguém menos que São Tomás de Aquino, um dos máximos nomes da filosofia e da teologia católica de todos os tempos. Além dele, são dominicanos o Papa São Pio V e São Jacinto e, no ramo leigo, Santa Catarina de Sena, Santa Rosa de Lima, São Martinho de Lima e o bem-aventurado Piergiorgio Frassati.

A família dominicana tem experimentado nos anos recentes um notável crescimento em seus ramos apostólicos e contemplativos.’


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Por que monges e freiras usam cores diferentes – Parte 1

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Philip Kosloski,
escritor e designer gráfico


‘Filmes e programas de TV difundiram o estereótipo de que as freiras sempre usam hábitos pretos e os monges católicos sempre se vestem de marrom. No entanto, basta frequentar qualquer grande evento eclesial para constatar que a realidade é muito mais cheia de cores e tons.

Como a variedade e quantidade de congregações religiosas é, graças a Deus, quase ‘inelencável’, ofereceremos aqui um ‘guia básico’ sobre os hábitos de quatro das principais e mais conhecidas ordens religiosas da história da Igreja – e a maioria das comunidades religiosas que usam hábito estará conectada, ao menos perifericamente, a uma dessas ordens : beneditinos, carmelitas, franciscanos e dominicanos.

Neste artigo, veremos as duas primeiras ordens.


Beneditinos

Irmã Andrea Staderman, OSB / Abadessa Maria-Michael Newe, OSB


Fundada no século VI por São Bento de Núrsia, a ordem beneditina adota hábitos negros compostos por uma túnica, uma capa escapular que vai até os pés e um cinto de couro. A cor preta simboliza a penitência e o morrer para o mundo, além de ser, em termos práticos, a cor de tecido mais barata disponível no século VI. Os monges usam capuzes e as freiras véus : aliás, é neste aspecto que as comunidades religiosas da ordem costumam se diferenciar umas das outras.

Um elemento distintivo do hábito beneditino é a ausência do rosário pendente, principalmente porque os beneditinos tradicionais, com seu célebre lema ‘Ora et Labora’ (‘Ora e Trabalha’), cultivavam o campo e faziam eles próprios as construções nos seus mosteiros, o que tornava impraticável usar o rosário pendente no dia-a-dia. Os beneditinos que já professaram os votos religiosos permanentes usam capuz preto sobre o hábito durante a oração litúrgica e em ocasiões comunitárias importantes.

Além de São Bento, incluem-se entre os santos beneditinos mais famosos Santa Hildegarda de Bingen, Santa Escolástica, o Papa São Gregório Magno, Santa Gertrude e São Beda, o Venerável. Entre os leigos beneditinos incluem-se São Francisco de Roma, o rei Santo Henrique II, a serva de Deus Dorothy Day e os escritores Rumer Godden, Flannery O ‘Connor e Walker Percy.


Carmelitas


Fundada formalmente no século XII, a ordem monástica dos carmelitas vem de raízes que remontam a um grupo de eremitas que viviam no Monte Carmelo, na Terra Santa. Seu hábito é de cor marrom e também apresenta o manto escapular, ou escapulário, uma espécie de ‘dupla capa’, longa e retangular, que pende pela frente e por trás e que servia para proteger o hábito durante os trabalhos pesados, mais ou menos como um avental. Esta peça é a origem do escapulário que conhecemos hoje como um dos mais importantes sacramentais oferecidos aos católicos, a partir de uma aparição da Santíssima Virgem Maria a São Simão Stock. A cor marrom evoca a cruz e a terra, lembrando aos carmelitas a sua própria cruz e a humildade que devem cultivar – já que a palavra ‘humildade’ vem de ‘húmus’, terra, e nos recorda que ‘somos pó e ao pó retornaremos’.

Além do escapulário marrom escuro, a veste carmelita se identifica também por uma capa de cor mais clara, em tom amarelado, que é sobreposta ao hábito durante a liturgia. O carmelita usa ainda um cinto de couro e um grande rosário pendente. Os carmelitas também usam o crucifixo da sua profissão religiosa preso ao escapulário.

O ramo da ordem que se tornou conhecido como ‘carmelitas descalços’ segue o carisma inspirado a Santa Teresa de Ávila (ou Santa Teresa de Jesus), uma grande reformadora da ordem. Existem também, mundo afora, comunidades carmelitas de vida apostólica.

Entre os mais conhecidos santos carmelitas incluem-se o grande místico São João da Cruz, Santa Teresinha de Lisieux, Santa Isabel da Trindade e Santa Edith Stein, filósofa judia que se converteu ao catolicismo, entrou no carmelo, adotou o nome religioso de Teresa da Cruz e foi morta pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Já entre os leigos carmelitas listam-se personalidades históricas como Éamon de Valera, presidente da Irlanda, e os reis espanhóis Fernando e Isabel, conhecidos como ‘os Reis Católicos’.’


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