Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Vatican News
A conferência, intitulada ‘Uma Igreja para todos : sinodal no método,
missionária no espírito, credível no amor’, será realizada na Universidade
Pontifícia Urbaniana. No centro dos trabalhos está o conceito de missão como
relação de reciprocidade, que visa superar a divisão entre Igrejas que ‘doam’ e
Igrejas que ‘recebem’.
‘A ideia da ‘Igreja dos Feixes de Espiga’ inspira-se no Salmo 126,
versículo 6’ - explica o Dom Fortunatus Nwachukwu, Secretário da Secção para a
Primeira Evangelização e as Novas Igrejas Particulares, no Dicastério para a
Evangelização - em entrevista à agência noticiosa Fides.
Salmo 126
O Salmo evoca aqueles que partem em lágrimas, levando sementes para
semear, e que regressam cantando, trazendo consigo os seus feixes de grãos
colhidos.
Para o arcebispo, esta imagem remete para a experiência dos missionários
que deixaram as suas famílias para trás — sem contar com os modernos meios de
transporte e de comunicação que temos hoje — muitas vezes sem saberem se
voltariam a ver os seus entes queridos. ‘Para muitos, partir era como morrer’,
observa. A partida implicava um sacrifício, partilhado também por aqueles que
ficavam.
Contudo, esta partida é apenas uma parte da história. ‘A grande bênção é
que aquilo que semearam cresceu e deu frutos’, prossegue Dom Fortunatus
Nwachukwu. ‘Chegou o momento de recolher os feixes e trazê-los para casa.’ A
imagem liga, portanto, a memória do sacrifício missionário aos dons que as
Igrejas, nascidas deste compromisso, podem agora partilhar com todos.
Reconhecer esta dinâmica com gratidão também desafia uma interpretação
puramente funcional da crescente presença de missionários do Sul Global em
dioceses da Europa e da América do Norte. Quando questionado sobre como
valorizar a herança espiritual e pastoral destes missionários — em vez de ver
religiosas e padres do Sul Global apenas como resposta à queda do número de
vocações no Ocidente, Dom Fortunatus Nwachukwu rejeita uma abordagem tão
redutora.
‘A nível global, não temos, na verdade, falta de padres. O que temos é uma
redistribuição de padres’, defende. A ênfase recai no reconhecimento destes
missionários como portadores dos frutos da evangelização, e não como mero ‘pessoal’
vindo de longe para preencher vagas.
Um intercâmbio deste tipo exige preparação de ambas as partes. ‘Precisamos
de preparar a casa para receber os feixes’ - explica o arcebispo. Ao mesmo
tempo, ‘também precisamos de preparar os ‘feixes’ para que se adaptem bem às
casas’. A tarefa da formação diz, portanto, respeito tanto às comunidades que
acolhem como aos missionários que chegam.
A Conferência na Urbaniana
Promovida pelo Dicastério para a Evangelização, esta iniciativa conta com
a participação do Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural da
Universidade DePaul, da Faculdade de Missiologia da Urbaniana, bem como de
várias instituições eclesiais e parceiros missionários dos cinco continentes.
Os codiretores do projeto, o Padre Stan Chu Ilo e o Padre Jaeho Chung, farão a
apresentação da iniciativa, enquanto o simpósio incluirá sessões dedicadas a
cada um dos diferentes continentes.
A moderação dos trabalhos estará a cargo do Padre Agostino Hyuntaek Han,
chefe de departamento no Dicastério missionário, e do Padre Antoine Pooda, da Diocese
de Gaoua, no Burkina Faso, professor associado na Faculdade de Missiologia da
Urbaniana e especialista em gestão de conflitos e educação social.
As sessões dedicadas aos vários continentes serão moderadas por : Gaetano
Sabetta, professor de Diálogo Inter-Religioso na Faculdade de Missiologia da
Urbaniana e consultor do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso; Antonina
Wozna, teóloga que trabalha no ensino e na investigação nas universidades de
Wuppertal e Graz; e Sandra Arenas, decana da Faculdade de Ciências Religiosas e
Filosofia da Universidade Católica de Temuco, no Chile, especialista em
Eclesiologia, Concílio Vaticano II e Ecumenismo. Estes três académicos
moderarão, respectivamente, as discussões sobre a Europa e a América do Norte;
África e Ásia; e América Latina e Caraíbas.
Um percurso educativo global
O encontro em Roma insere-se num programa estruturado que se prolongará
até ao Pentecostes de 2028. As ferramentas utilizadas ao longo deste percurso
incluem um curso online de catorze módulos, intitulado ‘Troca de Dons : A
Igreja dos Feixes’, cinco documentários focados nos diferentes continentes,
cinco volumes sobre teologia pastoral, encontros regionais e um podcast. As
consultas junto das dioceses e congregações religiosas abordarão temas como a
hospitalidade, a pertença, a exclusão e a formação intercultural, fundamentando
o projeto na experiência pastoral.
Para o Arcebispo Nwachukwu, esta iniciativa serve de testemunho e de
auxílio para a redescoberta de que a missão não é um capítulo encerrado na
história da Igreja. ‘A vida da Igreja é, na verdade, uma vida de missão’ -
insiste — ‘ontem, hoje e amanhã’. Reunir os feixes significa reconhecer o que
foi tornado possível através do sacrifício missionário e abrir toda a Igreja
aos dons que dele surgiram.
Fonte : *Artigo na íntegra