Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
O Mosteiro de
São Bento de São Paulo, com mais de 400 anos bem no centro da cidade, guarda
histórias bem curiosas. São poucos os fiéis que, embora admirem o tesouro da
arte beuronense, conhecem as histórias do cenóbio. O altar do Sagrado Coração
de Jesus, que fica bem à porta que dá acesso a clausura dos monges, por
exemplo, é um ex-voto.
A atual
igreja foi construída a partir de 1910, com a demolição do prédio anterior.
Terminou dois anos depois, podendo verificar na atual fachada, o ano de 1912. A
decoração interna, no entanto, durou mais 10 anos, quando foi consagrada a
basílica em 1922, pelo legado papal, o cardeal beneditino, Dom Aidano Gasquet.
Ocorreu que pouco tempo depois, ainda com o cheiro de tinta fresca, explodiu a
Revolução Tenentista, e a igreja foi o primeiro edifício atingido por balas de
canhão na cidade.
Foram 23 dias
de terror, entre 5 e 28 de junho. As famílias abastadas, com suas fazendas de
café no interior, deixaram a cidade. Os pobres foram os que mais sofreram. Não
tendo para onde fugir, muitos tiveram que permanecer em casa, numa situação de
guerra urbana. Os paralelepípedos das ruas foram arrancados para se fazerem
trincheiras e barricadas. Quem saísse às ruas poderia ser confundido e por isso
atingido por balas. E muitos o foram.
Atendendo as
necessidades da população de então, o abade e os monges fizeram de tudo para
ajudar, transformando o mosteiro em um hospital improvisado para acolher os que
sofriam. O abade Dom Miguel Kruse enviou monges a alguns bairros mais afastados
para atender a população mais necessitada, distribuindo remédios e comida. Ao
menos 6.000 pessoas foram atendidas.
Foi uma
verdadeira guerra com mais de 500 mortos, 5.000 feridos e 1.182 prédios
destruídos. Sinais deste período podem ser vistos ainda hoje no mosteiro. Quem
vem em direção ao Largo de São Bento pelo Viaduto Santa Ifigênia, poderá se
deparar com a parede lateral do Colégio de São Bento com marcas de projéteis.
Após o
conflito, o então abade mandou erguer um belíssimo altar em honra ao Sagrado
Coração de Jesus como agradecimento a Deus por ter protegido o mosteiro, os
monges e quem no prédio se abrigou, durante aqueles fatídicos dias. Ao lado da
imagem do Sagrado Coração de Jesus, Santa Mactildes (monja beneditina) e Santa
Margarida Maria de Alacoque (monja da ordem das visitandinas). Estas duas
santas eram devotas do Sagrado Coração. A primeira iniciou a devoção ainda na
Idade Média; a segunda teve a graça da visão no século XVI.
A Revolução
Tenentista tem esse nome pelo fato de a maioria dos soldados revoltosos
ostentarem a patente de tenente. Dentre algumas de suas exigências estavam a
renúncia do Presidente da República, o mineiro Artur Bernardes (1875-1955), a
formação de um governo provisório e o voto secreto.
Há exatos 100
anos, a ser comemorado em 05 de outubro de 2026, o Mosteiro de São Bento terá
um dia todo dedicado ao Coração de Jesus, com uma missa solene, às 7h e
consagração do mosteiro e de seus monges ao Sagrado Coração de Jesus, às 17h,
durante o Ofício de Vésperas.