Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O tema dos
abusos, especialmente por parte de padres contra crianças, é atualmente
onipresente nas notícias eclesiásticas. A questão dos abusos contra monjas e
religiosas demorou mais para ganhar visibilidade na mídia. Na Europa, foi
principalmente com o documentário da Arte [1] em 2019 que esse tema
entrou na consciência do público em geral. No entanto, a luta das religiosas
contra esses abusos e para trazê-los à atenção da Igreja começou muito antes,
enfrentando muitas dificuldades. Como socióloga da vida monástica, tenho me
deparado, ao longo das minhas investigações desde 2004 na Europa e desde 2013
na África, com várias situações de abuso. Mas os abusos geralmente não começam
com agressões sexuais; abusos de autoridade e abusos espirituais preparam, de
certa forma, o terreno.
Não sendo
psicóloga, não trabalho com vítimas ou casos diretos de abuso, mas questiono as
estruturas que possibilitam tais abusos. Busco destacar os elementos
estruturais que abrem caminho para esses desvios, às vezes invisíveis.
Naturalmente, não se trata aqui de considerar que todas as comunidades
femininas apresentam indiscriminadamente os mesmos riscos, mas sim de
identificar modos de funcionamento que podem favorecer abusos de autoridade,
espirituais ou sexuais.
1.
Questionar as estruturas das comunidades femininas
Identifico
aqui cinco níveis de estruturas, cuja combinação pode permitir formas de abuso
e eventualmente promover o silêncio das vítimas.
• Estrutura
interna de autoridade nas comunidades femininas
Ficou claro
durante as minhas investigações que as estruturas de autoridade são, em média,
mais rígidas nas comunidades femininas em comparação com as comunidades
masculinas. A autoridade nessas comunidades está muito mais centrada na figura
da superiora. Muitas vezes, quando pedia algo a uma irmã em uma comunidade de
monjas, como uma entrevista, a resposta era : ‘Você precisa perguntar à Madre
Abadessa’, enquanto os homens frequentemente eram capazes de me dar sua própria
resposta. Essa estrutura de autoridade leva ao que a cisterciense Michaela
Pfeifer chama de ‘mentalidade hospitalar’, onde as irmãs não se responsabilizam
mais, mas abandonam toda a sua vontade adulta à superiora. Por que a obediência
é vivenciada de forma diferente em comunidades que, no entanto, seguem a mesma
regra, como as beneditinas? A irmã beneditina americana Shawn Carruth destaca
que a obediência foi desenvolvida na Igreja como uma virtude propriamente
feminina, associada à humildade, em uma estrutura patriarcal : ‘A obediência é
dada à estrutura patriarcal ao ser dada àqueles que entendem o poder como
controle. O silêncio impede as mulheres de expressar nossa própria realidade e
nossa própria compreensão da realidade do mundo. [...] A humildade imposta às
mulheres nos ensina a aceitar uma posição subordinada e o rótulo de
incapacidade que nos é imposto pelas pressuposições patriarcais’. As estruturas
de autoridade mais rígidas nas comunidades femininas seriam, nesse sentido, um
resquício da autoridade masculina sobre os mosteiros femininos.
• Estruturas
hierárquicas institucionais e sistemas de acompanhamento
Devido às
estruturas hierárquicas institucionais existentes, a maioria das comunidades
femininas está sob a autoridade de figuras masculinas. Muitas delas estão
diretamente sob a jurisdição do bispo. Em algumas ordens mistas, as comunidades
femininas estão sistematicamente acompanhadas por comunidades masculinas,
enquanto as comunidades masculinas são sempre acompanhadas por comunidades
masculinas. As estruturas de autoridade também se relacionam com a tomada de
decisões e a gestão de bens. Além disso, em algumas dioceses, o emprego de religiosas
é regulado por contratos específicos nos quais a irmã receberá um salário menor
do que um leigo ou um irmão em posição igual.
• Relações
entre comunidades masculinas e femininas
As relações
de gênero entre comunidades masculinas e femininas se manifestam nos eventos do
cotidiano, especialmente nas diferenças de status atribuídas aos
superiores masculinos. Por exemplo, em uma celebração em um mosteiro beneditino
na Áustria, onde representantes de mosteiros vizinhos foram convidados, os
abades estavam sentados no coro com os monges, enquanto a priora do mosteiro de
beneditinas vizinho estava com algumas irmãs na assembleia. Ainda é raro, como
lamentou um beneditino austríaco em uma entrevista, que irmãs preguem retiros
para os monges, enquanto a maioria dos retiros para as monjas é pregada por
homens. Além disso, é comum, mesmo na Europa, que irmãs apostólicas sirvam
padres ou comunidades masculinas, por exemplo, para tarefas de limpeza e
cozinha, o que implica diretamente em uma relação não igualitária. Algumas
comunidades femininas até foram fundadas com esse propósito.
• Relações
entre comunidades de irmãs e padres
Em algumas
comunidades femininas, especialmente em comunidades novas, a figura do padre
permanece uma autoridade incontestável. Isso significa que um padre que
tenha se comportado de maneira inadequada em relação a uma irmã, não será
questionado. Assim, uma irmã austríaca de uma comunidade nova – que já saiu
desde então – me contou que quando um padre visitava a comunidade, as irmãs
tinham que interromper tudo o que estavam fazendo para servi-lo.
• Estruturas
espaciais e organização do espaço
As estruturas
espaciais às vezes podem favorecer os abusos ou o silêncio que os segue,
especialmente em relação aos locais onde as irmãs encontram os padres, bem como
a maneira como a autoridade do padre é encenada na igreja. Pude observar, por
exemplo, numa nova comunidade uma elevação de cerca de dois metros do
presbitério acima do coro das estalas das irmãs, enquanto outras comunidades
femininas, pelo contrário, reorganizam a sua capela para induzir uma maior
igualdade entre o padre e as irmãs, bem como entre a Liturgia da Palavra e a da
Eucaristia no altar durante a Missa.
2. A irmã na
estrutura religiosa
O segundo
nível de questionamento envolve o lugar da irmã individual nessas estruturas.
As estruturas de autoridade e obediência operam em três níveis : intelectual,
espiritual e corporal.
a. Nível
intelectual
O abuso de
autoridade é mais fácil quando a distribuição do conhecimento é desigual.
Identifiquei em minhas investigações uma desigualdade significativa no acesso
de monges e monjas aos estudos. O acesso mais amplo dos irmãos aos estudos está
inicialmente relacionado à função de padre, que envolve pelo menos cinco anos
de filosofia e teologia. Assim, na Áustria, 95% dos monges beneditinos têm pelo
menos um mestrado. As monjas têm mais dificuldades para acessar estudos e
formações, seja porque algumas ordens historicamente cultivaram uma recusa aos
estudos por humildade (como as Clarissas), ou porque a clausura mais rígida das
comunidades femininas dificulta o acesso a estudos fora do mosteiro. No
entanto, a falta de formação intelectual e conhecimento pode levar a diferentes
formas de abuso. Uma trapistina na África que havia participado de aulas
ministradas por um psicólogo me disse em uma entrevista :
‘Às vezes,
aqui, como não conhecemos nossos direitos, há coisas que não são normais. [...]
Eu vi coisas no mosteiro que às vezes são impostas pelo abade, coisas que não
são normais. Às vezes, o jovem tem o direito. [...] Mas porque o abade não
conhece bem os direitos dele ou porque o jovem não conhece seus direitos, o
jovem sofrerá as consequências. Mas com o doutor, aí sim, vemos claramente que
às vezes há coisas que suportamos, mas não deveríamos.’
A falta de
conhecimento sobre os direitos definidos para os professos, noviços ou
superiores pode levar a situações de abuso que não são reconhecidas como tal
pela vítima. Estudos ou outras formações, ao contrário, podem ajudar a
reduzir esses desvios.
b. Nível
espiritual
Na vida
religiosa feminina, a autoridade espiritual é exercida tanto pela superiora
quanto pelo padre encarregado do acompanhamento espiritual das irmãs. O abuso
espiritual ocorre principalmente quando desvios sectários ou abusos de
autoridade são justificados de maneira religiosa. Dentro das comunidades de
irmãs, esse tipo de abuso ocorre especialmente quando o padre acompanhante da
comunidade ou de irmãs específicas é uma autoridade incontestável e quando o
acompanhante espiritual ou confessor é imposto pela superiora. Centralizar o
poder espiritual em torno de um único padre em um mosteiro de monjas apresenta
um risco maior de abuso espiritual.
c. Nível
corporal e intimidade
O nível
corporal de intimidade nas estruturas de autoridade da vida religiosa feminina
é o que se mostra mais crítico na possibilidade de realização de diferentes
formas de abuso. A renúncia à posse geralmente resulta, em grande parte dos
mosteiros, na ausência de conta bancária pessoal. Dependendo da configuração,
os monges e monjas recebem uma mesada para comprar o que precisam, podem se
servir em uma sala de materiais ou solicitar o que precisam. As pesquisas
mostraram que a configuração onde absolutamente tudo é recebido e/ou solicitado
é mais frequente nos mosteiros de irmãs. Também é mais frequente que as freiras
peçam por escrito ao ecônomo, e às vezes até ao superior, o que necessitam.
Este sistema torna-se problemático quando aborda a privacidade de cada irmã.
Assim, a irmã austríaca citada anteriormente disse que se lavou sem sabonete
por dez anos, pois só havia um tipo disponível e ela não podia pedir outro. A
questão se torna ainda mais íntima quando se trata da higiene menstrual. Essa
irmã também contou que apenas um tipo de proteção higiênica era oferecido e que
não era possível solicitar outros tipos. Da mesma forma, um beneditino no
Quênia, que acompanha espiritualmente uma comunidade de irmãs que estudei, me
disse que as irmãs precisam pedir por escrito tudo o que precisam. Aquelas que
não ousam pedir produtos de higiene menstrual precisam se virar com o que
encontram, apesar dos riscos para sua saúde. O controle dos corpos em sua
intimidade está atualmente se tornando uma forma de ascese que não apenas não é
mais plausível, mas também se assemelha a um abuso de autoridade. O corpo e a
intimidade são, portanto, locais particularmente centrais para observar os
riscos de abuso de autoridade nos mosteiros femininos, que levam as monjas a
uma perda de posse de seus corpos que pode abrir espaço para outros tipos de
abuso.
Conclusão
Isso
representa um rápido panorama dos diferentes níveis de estrutura das
comunidades femininas que podem - novamente, não se trata de considerá-los
sistemáticos, uma vez que o abuso é perpetrado por indivíduos específicos -
levar a abusos de autoridade, espirituais ou sexuais. A prevenção de vários tipos
de abuso, ocorridos internamente nas comunidades ou por padres ou religiosos
contra irmãs, deve, portanto, passar pelo questionamento dessas estruturas.
Muitas dessas estruturas são heranças de séculos de dominação masculina na
Igreja, bem como de espiritualidades de obediência e humildade exacerbada nos
mosteiros femininos, que tendem a diminuir o livre arbítrio. Questionar essas
estruturas significa, por um lado, destacar o que pode favorecer os desvios, e
que em parte pode ter efeitos no recrutamento, mas também evidenciar o trabalho
de algumas comunidades para ajustar essas estruturas e, assim, reduzir os
riscos.’
[1] Arte: canal de televisão cultural
franco-alemão. [Nota do editor].
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124