quinta-feira, 4 de junho de 2026

Uma inovação tecnológica que tenha em consideração o bem comum

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Paolo Ruffini


‘Desde quando o mundo está em guerra? Há quantos anos passam imagens de guerra nos nossos televisores, computadores e smartphones? E quantas vozes e rostos da frente de batalha ouvimos e vimos realmente? Vozes e rostos que talvez já não existam, que se apagaram como num jogo : game on – game over.

Não ouvimos. Não vimos. Mas sabemos algo : não eram vozes e rostos virtuais; eram crianças, mulheres e homens, que talvez não tivessem escolhido estar em guerra. Não nos preocupávamos com eles.

Neste tempo ferido pelo seu balanço diário de bombas, mortos, medo; à beira de um abismo de violência que corre o risco de ser infinito, parece ter voltado à moda a teoria de Carl von Clausewitz sobre a guerra como forma de escrita, linguagem, comunicação.

Mas a sua gramática incorreta — que acaba por transformar o meio em fim — impede-nos de chamar cada coisa pelo seu nome.

Dizemos que vemos, mas não vemos. Que ouvimos, mas não ouvimos. E assim corremos o risco de nos perdermos a nós próprios, a nossa humanidade. Também por isso o Papa Leão XIV nos convidou a refletir sobre o valor sagrado do nosso rosto.

Uma boa maneira de o fazer é ir à raiz primordial da questão : evitar enfrentar os desafios que temos à nossa frente permanecendo na ignorância, na superfície; na onda de slogans fáceis que, utilizando a linguagem e a lógica de guerra, confirmam a ideia de que tudo se baseia na conquista e de que a verdade é a opinião de quem vence.

Devemos voltar a refletir sobre o significado próprio das palavras; e — como o Papa nos convidou reiteradamente a fazer — encontrar uma resposta evangélica ao desafio do tempo.

Guardar. O que significa esta palavra, que muitos de nós aprendemos quando éramos crianças? Certamente usávamo-la mais na oração ao anjo, a quem somos «confiados pela Piedade celestial», do que no uso comum das nossas conversas, onde infelizmente se tornou obsoleta. Outrora, preservar definia o ato de cuidar amorosamente de alguém ou de algo.

Na sociedade do descarte, como a definiu com palavras duras o Papa Francisco, quem guarda realmente?

E o quê? E quem? Certamente não o faz quem pensa que guardar significa conservar algo numa gaveta, colocá-lo e deixá-lo lá; ou quem pensa que, para guardar uma alternativa à comunicação de guerra, é preciso impedir que as pessoas vivam o dinamismo da própria vida.

Ser guardado não significa tornar-se objeto passivo, inerte. A salvaguarda é um exercício ativo. Exige uma ação. Ao mesmo tempo, não é intrusiva, mas precisamente respeitosa, amorosa. Pacífica. Guardar é um ato de responsabilidade nunca igual a si mesmo. Muda com o tempo e no tempo.

Para o cristão — disse o Papa Francisco — guardar é ser como São José, proteger a própria vida, a dos outros e a da Igreja : «Cuidar uns dos outros, cuidar-nos mutuamente».

A custódia, diz-nos hoje o Papa Leão XIV, é o lugar da presença e da relação. Cabe a cada um de nós — perante a tentação individualista, que teoriza quase como uma regra o desinteresse pelo destino do outro, e como remédio a ignorância e o esquecimento — escolher o paradigma de Caim («Sou porventura eu o guarda do meu irmão?», Gn 4, 9) ou o de Jesus («Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei», Jo 13, 34-35).

Compete a nós salvaguardar o nosso coração, ou deixá-lo endurecer. Preservar a nossa mente, ou deixá-la atrofiar.

Tudo isto — recorda-nos o Papa de modo brusco — está intimamente relacionado com a inteligência artificial que, por sua vez, não deve ser deixada a si mesma. Também porque não é propriamente inteligente.

Os algoritmos podem ajudar-nos — certamente — na comunicação e no conhecimento. Mas não têm voz nem rosto humanos. Executam cálculos, para isto instruídos por inteligências humanas. Mas não estão cientes do que calculam. Nem são, de forma alguma, expressão da singularidade de cada pessoa e da sua alteridade única e irrepetível em relação a todos os outros seres humanos do presente, do passado e do futuro.

Podem simular, fingir, enganar-nos e fazer-nos crer que, pelo contrário, sim, são capazes de pensar e sentir, de ter rostos e vozes. E de saber tudo, de conhecer tudo. Como Deus!

Podem simular emoções, construir relações fundamentadas num verdadeiro engano.

Mas precisamente por isto é necessário compreender, salvaguardar e preservar a diferença ontológica entre a chamada inteligência artificial e a inteligência humana.

Devemos preservar a nossa capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, o pensamento de um cálculo estatístico, o rosto dos outros da simulação de uma máquina, a voz dos outros de um sintetizador vocal que a imita. O rosto e a voz de Deus, do rosto e da voz mutáveis de uma máquina. A guerra da paz. Os jogos de guerra, da paciente construção da paz.

Por isso é importante educar-nos e educar para o cuidado de nós próprios; para compreender que — embora seja apenas um punhado de empresas, como nos recorda o Papa, que hoje controla o oligopólio da comunicação digital — somos nós os stakeholders dos dados que a IA processa. Somos nós que devemos tutelar nas relações a beleza de encontros não mediados por um ‘intermediário técnico’ : «Uma centelha elétrica, um impulso, uma rede, uma ligação, um satélite», como Ryszard Kapuściński observava de modo perspicaz.

Nós somos chamados a escolher entre a sabedoria e a ignorância, entre a liberdade de pensamento e a submissão a um pensamento único. Como escreve o Papa Leão na sua Mensagem : «Consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem paternidade nem amor».

Sem dúvida, sei bem que neste ponto se poderia levantar uma objeção teórica : quem é exatamente o ‘nós’ a que se faz frequentemente referência quando se fala de responsabilidade na gestão do ecossistema digital?

A Mensagem do Papa Leão XIV dissipa a ambiguidade interessada que muitas vezes acompanha esta interrogação. E levanta o véu de uma certa hipocrisia coletiva através da qual muitas vezes tendemos a lavar as mãos, a eludir ou minimizar as nossas responsabilidades.

Com efeito, o ‘nós’ não designa um sujeito indistinto ou abstrato, mas o conjunto concreto dos atores sociais envolvidos, cada qual no próprio âmbito de competência.

Ele diz respeito às empresas tecnológicas e aos gestores das plataformas digitais, chamados a não ter o máximo lucro como único critério de orientação das suas escolhas; a optar, salvaguardar e promover uma visão da inovação tecnológica, que tenha em consideração a dimensão do bem comum.

Mas a mesma responsabilidade envolve diretamente os informáticos e os programadores. Compete a eles a tarefa de programar e desenvolver sistemas de inteligência artificial — incluindo os modelos linguísticos de grandes dimensões — segundo critérios de transparência, responsabilidade social e atenção às consequências éticas das tecnologias produzidas.’ 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-06/por-006/uma-inovacao-tecnologica-que-tenha-em-consideracao-o-bem-comum.html