sexta-feira, 15 de maio de 2026

«Stat crux dum volvitur orbis»

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Francesco Patton, ofm


‘Para milhões de fiéis, o lugar onde Jesus foi crucificado representa o eixo em torno do qual gira o mundo : «O mundo não é nada perante a cruz. Martino, décimo primeiro general de Chartreux, deu este lema à sua ordem : Stat crux dum volvitur orbis» (V. Hugo, Os miseráveis). O Calvário é o ponto em que Cristo crucificado reconciliou a humanidade com Deus e demoliu o muro da inimizade que separava os homens (cf. Ef 2, 13-20). A atual basílica do Santo Sepulcro guarda e protege os locais sagrados mais importantes ligados ao mistério da nossa redenção e, mais precisamente, os lugares ligados à crucificação, à morte e sepultura de Jesus Cristo e à sua ressurreição. Para os cristãos do Oriente, este lugar é simplesmente a Anastasis, a Ressurreição. Mas antes de chegarmos à mensagem pascal do Sepulcro vazio (objeto do próximo artigo), é necessário que nos detenhamos na rocha do Gólgota, ou seja, no mistério da cruz.

A gênese do lugar : uma pedreira de resíduos

A investigação arqueológica moderna, apoiada pelos estudos do franciscano Virgilio Corbo (V. Corbo, Il Santo Sepolcro di Gerusalemme, FPP, 1981, 3 vols.) e pelas recentes prospeções, lideradas pela equipa da Professora Francesca Romana Stasolla, ajudou-nos a conhecer em profundidade a história deste local. Nos séculos VII-I a.C., esta área era uma vasta pedreira situada fora dor muros de Jerusalém (Corbo, op. cit., vol. 1, pp. 29-31). Os pedreiros da época procuravam a pedra malaky, apreciada pela sua dureza, mais precisamente na zona do atual Calvário encontraram uma rocha de qualidade inferior, friável e veiada. Este esporão foi, portanto, poupado da extração e abandonado, permanecendo como uma elevação isolada.

Com o passar dos séculos, os buracos provocados pelas atividades de extração encheram-se de detritos e terra, transformando a zona numa necrópole suburbana intercalada por pequenas parcelas agrícolas. Isto explica perfeitamente a descrição do evangelista João : «No lugar onde tinha sido crucificado, havia um jardim». O Gólgota, o ‘lugar do crânio’, estava, portanto, já na origem «dividido em várias propriedades : uma que poderia pertencer ao governo, onde também era possível realizar as crucificações; uma a um jardineiro ou horticultor e uma da qual José de Arimateia poderia ser o proprietário» (B. Bagatti, «Golgota, Cranio, Calvario», em B. Bagatti — E. Testa, Il Golgota e la Croce, FPP, 1978, pp. 24-25; cf. também V. Corbo, op. cit., vol. 1, pp. 29-32). O local da crucificação era, portanto, um pedestal natural perfeito para as execuções romanas, que exigiam locais visíveis e próximos das vias de trânsito para desempenhar uma função dissuasora. Além disso, a sensibilidade judaica determinava que tal ocorresse fora do perímetro dos muros da cidade, em analogia à prática da lapidação a ser executada fora do acampamento, tanto para os blasfemos (cf. Lv 24, 14) como para os profanadores do sábado (cf. Nm 15, 35-36). O próprio autor da Carta aos Hebreus, numa interpretação sacrificial da morte de Jesus, observa que «os corpos dos animais, cujo sangue é levado pelo sacerdote ao santuário para a expiação dos pecados, são queimados fora do acampamento. Foi por isso que também Jesus, a fim de purificar o povo com o Seu próprio sangue, padeceu fora das portas» (Heb 13, 11-12).

O Calvário : o lugar onde se manifestou o maior amor

Atualmente, o Calvário é — por assim dizer — uma capela lateral elevada no interior da basílica. A colina original está englobada. De facto, os arquitetos de Constantino trabalharam, a partir do ano 326 d.C., para isolar o Sepulcro e o lugar da Crucificação, nivelando toda a área e eliminando os aterros artificiais e os templos pagãos preexistentes mandados erguer pelo imperador Adriano (cf. V. Corbo, op. cit., pp. 33-118, vol. 1).

O esporão do Gólgota foi ‘esculpido’ e regularizado : a rocha circundante foi removida, deixando apenas o monólito central. Hoje, ao subir os íngremes degraus que conduzem à capela, caminha-se sobre essa mesma rocha que viu Cristo dar a vida por nós. Foi nessa altura que Ele invocou o perdão para os seus assassinos (cf. Lc 23, 34) e acolheu o bom ladrão (cf. Lc 23, 39-43), foi ainda ali que nos confiou à Mãe e confiou a Mãe a nós (cf. Jo 19, 25-27), pediu de beber (cf. Jo 19, 28), passou de se sentir abandonado por Deus (cf. Mc 15, 34 e Mt 27, 46) a abandonar-se nas mãos do Pai (cf. Lc 23, 46), levando à plenitude o sentido da encarnação (cf. Jo 19, 30) e tornando-se a nossa paz e a nossa reconciliação (cf. Ef 2, 13-20). Foi ali que Jesus manifestou o maior amor (cf. Jo 15, 13), dando a vida por uma humanidade pecadora (cf. Rm 5, 8). Protegida por uma lastra de vidro, a pedra mostra uma profunda fenda. Não se trata apenas de um dado geológico : para a tradição, é a memória do terramoto descrito pelos Evangelhos (cf. Mt 27, 51), o sinal físico de uma ruptura que separa o mundo antigo da nova criação, contemporâneo do rasgar do véu do templo, que assinala a passagem do antigo templo para o novo templo, que é o próprio Jesus (cf. Jo 2, 19).

O túmulo de Adão : o sangue que redime a humanidade

Precisamente sob o altar do Calvário, ao nível do pavimento da basílica, abre-se a Capela de Adão. Aqui, o simbolismo arqueológico e o teológico fundem-se de modo indissociável. A fenda observada no nível superior continua até aqui, revelando o coração da rocha. Segundo uma tradição antiquíssima, o crânio do primeiro homem, Adão, teria sido sepultado justamente sob o lugar da crucificação do ‘Novo Adão’.

O significado é poderoso : o sangue de Cristo, ao escorrer através da fenda da terra, alcança os restos do precursor da humanidade, lavando o pecado do Progenitor no próprio momento do sacrifício na cruz. Este espaço, onde a rocha nua emerge de forma prepotente das paredes, funciona como ligação entre o tempo pré-histórico do Gênesis e o tempo histórico da Redenção. É aqui que se compreende porque o Gólgota é o vértice do mundo : não pela sua altura física, mas pela profundidade do mistério que guarda. É nesta narrativa que se funda também a iconografia que frequentemente representa o Crucificado com um crânio aos pés, simbolizando Adão. O próprio nome ‘Gólgota’, isto é, ‘lugar do crânio’, poderia ter orientado para esta leitura.

Adriano : uma tentativa de apagar o que involuntariamente preserva

Um aspeto paradoxal da história do Gólgota diz respeito ao imperador Adriano. Após a supressão da revolta de Bar Kochba em 135 d.C., ele decidiu apagar todos os vestígios de identidade judaica e cristã de Jerusalém, refundando-a como Aelia Capitolina. Para profanar os lugares santos, Adriano mandou construir um vasto terraço artificial sobre o Gólgota e o Sepulcro, erigindo sobre este último um templo dedicado a Júpiter e sobre o primeiro uma estátua de Afrodite.

Os historiadores cristãos antigos, como Eusébio de Cesareia, interpretaram este ato como uma tentativa de erradicar o culto (cf. L. Franco, Eusebio da Cesarea, Vita di Costantino, 3, 26, BUR, 2009, pp. 278-279). Contudo, do ponto de vista arqueológico, ao cobrir o local com toneladas de material de aterro e selá-lo com um santuário pagão (dedicado a Júpiter e Vênus), o imperador preservou involuntariamente a configuração original dos lugares, protegendo-os da erosão e garantindo que, dois séculos depois, a imperatriz Helena e o bispo de Jerusalém , Macário, pudessem identificá-los. Sem esse templo pagão, a memória do Gólgota poderia ter-se dispersado entre os escombros de uma cidade em contínua evolução.

Santa Helena e a descoberta da Vera Cruz

Nas entranhas da basílica, descendo ainda mais abaixo da rocha do Calvário, chega-se à Capela de Santa Helena e, por fim, à gruta da Descoberta da Vera Cruz, situada numa das partes mais antigas da pedreira. Helena chegou a Jerusalém em 326 d.C. com o objetivo preciso de recuperar o mais importante Lugar Santo e de procurar a relíquia mais preciosa : a cruz na qual Jesus Cristo morreu.

A ‘lenda’ da descoberta das três cruzes é transmitida por uma dupla tradição : Rufino de Aquileia (R. di Aquileia Historia Ecclesiastica, Livro X, cap. 7-8, aprox. 402 d.C.) narra uma nobre gravemente doente que é curada ao contacto com a Vera Cruz; Sócrates Escolástico e Sozomeno (Sócrates Escolástico, Historia Ecclesiastica, Livro I, cap. 17, aprox. 439-440 d.C.; Livro II, cap. 1, 44, aprox. 443-450 d.C.) relatam que o bispo Macário mandou colocar um cadáver em contato com as três cruzes, e que este — ao tocar na verdadeira relíquia — voltou à vida. Na Idade Média, seria Tiago de Varazze (T. de Varazze, Legenda Aurea, Capítulo LXIV, cerca de 1260 d.C.), a retomar a cena que mais tarde seria representada por Piero della Francesca, entre 1442 e 1466, na Capela Bacci da basílica de São Francisco em Arezzo. Já em 160 d.C., o bispo Melitão de Sardes escreve : «foi no centro da praça e da cidade, em plena luz do dia e à vista de todos, que ocorreu o injusto assassínio do Justo. Assim, Ele é elevado no madeiro e uma inscrição é colocada para indicar quem é o morto» (cf. Melitão de Sardes, Peri Pascha, 94-95, in R. Cantalamessa, I più antichi testi pasquali della Chiesa, Ed. Litúrgicas, 1972, pp. 47-48). A Capela da Descoberta, com as suas paredes de rocha bruta, nas quais, no lado oriental, «se notam fragmentos de pinturas, talvez do século XII, nos quais está representado um Cristo crucificado (mutilado do peito para cima). No espaço entre as mãos de Maria e as de João surge um afresco ainda mais antigo» (cf. H. Fürst – G. Geiger, Terra Santa: Guida francescana per pellegrini e viaggiatori, Terra Santa Editora, 2018², pp. 445/1021), testemunha a passagem crucial entre a memória oral da Igreja primitiva e a vontade, afirmada na época constantiniana, de monumentalizar a fé.

A basílica do Martírio : o triunfo constantiniano

O primeiro grande edifício erguido por vontade de Constantino foi a basílica do Martírio, consagrada a 13 de setembro de 335. Não devemos imaginá-la como a atual estrutura cruzada, mas como uma sala imensa com cinco naves, orientada a ocidente, em direção ao Calvário. Nesta fase, o Gólgota permanecia ao ar livre, num pátio que funcionava como ligação entre a basílica do Martírio e a Anastasis.

A nobre Egéria, no século IV, descreve liturgias que se deslocavam fisicamente entre estes espaços, seguindo as etapas do drama da Paixão (Itinerarium Egeriae, II, 24-25; 30-37). O Calvário era ainda um esporão a céu aberto, decorado apenas por uma grande cruz gemada. Esta configuração manteve-se intacta durante quase três séculos, até à invasão persa de 614 e ao incêndio subsequente, que marcaram o início de uma longa série de destruições e reconstruções (cf. H. Fürst – G. Geiger, op. cit., pp. 422-425/1021).

Uma rocha que se torna pedra angular

O Gólgota, apesar das mutilações sofridas ao longo dos séculos — desde o ódio do califa Al-Hakim em 1009 até ao devastador incêndio de 1808 — permaneceu como um dos dois pontos focais da basílica. Os restauros do século XIX realizados pelos Greco-Ortodoxos conferiram ao lado esquerdo do Calvário (propriedade dos Gregos, mas com alguns direitos de uso também atribuídos aos Latinos) o aspeto atual. O lado direito do Calvário (propriedade dos Latinos, tal como a adjacente ‘Capela dos Francos’, que constituía a sua entrada medieval a partir do exterior) também foi alvo de intervenções de restauro dirigidas e coordenadas pelo arquiteto Antonio Barluzzi, a partir de 1934. Foram preservados e restaurados os vestígios da época cruzada (século XII). Foi realizado um ciclo ligado ao despojamento de Jesus e à sua crucificação (Luigi Trifoglio, m. 1939), e decoradas em mosaico toda a abóbada e as paredes (Pietro D’Achiardi, m. 1940). Uma descrição completa encontra-se em A. Pizzuto, Gerusalemme: Il Calvario. Arte, catechesi, preghiera, TSE, 2022.

O valor do Gólgota não reside na sua estética, mas no seu testemunho. Ele recorda-nos que a salvação não é uma ideia abstrata, mas um acontecimento ocorrido num tempo e num lugar precisos. O peregrino, ao chegar aqui, deveria simplesmente poder fazer a experiência do apóstolo Paulo e dizer com ele : o «Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gl 2, 20), deixando-se alcançar pelo convite da antiga inscrição latina do século XII : «Exaltai aquele que foi crucificado na carne, glorificai aquele que foi sepultado por nós» (T. Tobler, Theoderici Libellus de locis sanctis editus aprox. A. D. 1172, St. Gallen 1865, p. 19).’


Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/stat-crux-dum-volvitur-orbis.html