Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A visita oficial que o Papa Leão XIV realizou, a
28 de março, ao Principado de Mônaco é a primeira de um Pontífice à pequena
Cidade-Estado situada no Mediterrâneo, que fez do catolicismo a religião do
Estado e traz no brasão oficial da Casa reinante, adotado como emblema do
Estado, o lema explícito Deo Juvante.
Há exatamente sessenta anos, também o Papa Paulo VI
tinha voltado a sua atenção para o pequeno Principado, dirigindo um quirógrafo
ao então arcebispo de Milão, o cardeal Giovanni Colombo, que no verão de 1966
recebeu o convite para presidir a uma solene celebração eucarística no âmbito
das manifestações organizadas no Principado de Mônaco a fim de celebrar o
centésimo aniversário da fundação de Monte Carlo.
De fato, o elegante e famoso bairro monegasco tinha
sido idealizado em 1866 pelo príncipe reinante Carlos III Grimaldi, de quem a
nova zona tinha recebido o nome. O cardeal Colombo, na qualidade de sucessor de
São Carlos na cátedra ambrosiana, no âmbito das celebrações do Santo padroeiro,
deslocou-se ao Principado, como convidado dos soberanos Rainier III e Grace de Mônaco
no Palais Princier, onde, anos antes, também tinha ficado hospedado
o então Núncio apostólico em França, Angelo Giuseppe Roncalli, futuro Papa João
XXIII.
Por ocasião da sua viagem ao Principado de Mônaco,
Colombo tinha recebido uma Carta autografada na qual Paulo VI — que também
tinha sido sucessor de Borromeu na cátedra ambrosiana entre 1955 e 1963 —
abençoava o evento monegasco. O texto pontifício, redigido em francês em duas
faces, datado de 31 de outubro de 1966, foi encontrado em língua francesa no
Fundo Colombo e publicado num ensaio contido no volume Spicilegium
mediolanense. Studi in onore di Mons. Bruno Maria Bosatra (Ricerche
Storiche sulla Chiesa Ambrosiana, XXIX, 2011, editado por Fabrizio Pagani).
Paulo VI, na Carta, acompanhada por um bilhete do
Substituto da Secretaria de Estado, D. Angelo Dell’Acqua, dirigindo-se a
Colombo, a quem estava ligado por sentimentos de «estima e afeto paternos»,
manifestava a devoção que nutria por São Carlos, unida à «consciência da grande
honra recebida de lhe suceder na sé de Santo Ambrósio». O Papa considerava,
portanto, justo que o sucessor de São Carlos Borromeu estivesse presente nas
celebrações centenárias para honrar o grande Santo que tinha dado o seu nome
àquela parte do Principado de Mônaco e também à igreja paroquial que foi
erigida em Monte Carlo.
Recordando o príncipe de Mônaco, Carlos III
Grimaldi, «que trazia ele próprio o nome de São Carlos» Paulo VI congratulou-se
pelo facto de o arcebispo de Milão ter conferido às celebrações monegascas «o
prestígio da púrpura romana» e «a memória viva de São Carlos», e encarregou o
cardeal Colombo de transmitir os seus «votos paternos» dirigidos à população,
às autoridades monegascas e aos príncipes Rainier e Grace, que lhe prestariam
uma visita no Vaticano a 25 de março de 1974.
O Papa Montini já tinha dado provas da sua devoção
a São Carlos nos anos anteriores, exaltando a sua figura e obra tanto na Carta apostólica Summi
Dei Verbum, de 4 de novembro de 1963, com a qual se comemorava o IV
centenário do decreto de instituição dos Seminários, como no discurso proferido
durante a Santa Missa celebrada solenemente para essa ocasião em São Pedro.
Além disso, enquanto arcebispo, apresentando-o (em quatro discursos para o dia
4 de novembro, entre 1955 e 1958) como promotor da reforma católica; o cardeal
Montini tinha ainda instituído, a 8 de maio de 1963, a Academia de São Carlos
Borromeu, em conformidade com um desejo que era caro a João XXIII, apaixonado
estudioso de São Carlos.
Também o cardeal Colombo cultivou o culto e a
memória de São Carlos. Entre os primeiros atos que realizou na qualidade de
arcebispo de Milão, deve-se precisamente a ele a proclamação de um ano jubilar,
em 1965, por ocasião do IV centenário da entrada de Borromeu na diocese
monegasca. A participação no centenário de Monte Carlo veio assim integrar-se
num conjunto de iniciativas que o arcebispo de Milão dedicou à memória do seu
santo predecessor, desde os primeiros anos do seu episcopado.
O discurso proferido pelo cardeal Colombo a 6 de
novembro de há sessenta anos, no Principado de Mônaco, na presença dos
príncipes reinantes, foi redigido em italiano e depois traduzido e pronunciado
em francês e, apesar da especificidade do evento monegasco, permite-nos captar
os traços essenciais da figura e da espiritualidade de São Carlos.
O cardeal confidenciou, nessa ocasião, uma
dificuldade em falar de São Carlos, pois, na figura histórica do seu
predecessor, vislumbrava “um contraste” entre o seu aspeto exterior e a sua
alma interior. Com efeito, se à primeira vista Borromeu parecia austero e
grave, de caráter «firme e indomável» e de vontade «férrea e coerente com as
próprias escolhas», apenas ultrapassando a imagem exterior se entrevia nele
aquela «imensa força de amor que o movia em todas as suas ações», acompanhada
por uma «ternura comovente», num coração «aberto à compreensão, fiel à amizade,
fácil na compaixão, esquecido de si, preocupado apenas com o sofrimento e as
necessidades dos outros».
E, no fundo, explicava Colombo, a razão pela qual a
memória e o culto de São Carlos ultrapassaram desde logo as fronteiras da sua
diocese, difundindo-se rapidamente pela Itália e pelo mundo, devia ser
procurada precisamente no amor fecundo e pródigo que animava o pastor em relação
ao seu rebanho. «A caridade nunca acabará», advertia o cardeal Colombo, citando
aos monegascos a Primeira carta aos Coríntios, propondo o exemplo de São
Carlos, que soube amar o rebanho que lhe fora confiado sem hesitações e até ao
fim.
Borromeu, «convencido de que nada pode substituir o
coração e o olhar do próprio pastor», afirmava Colombo, não se limitou a
residir no meio do seu povo, mas, com as numerosas visitas pastorais realizadas
no vasto território diocesano, «quis ir conhecer as suas ovelhas e fazer-se por
elas conhecer», dispensando instruções, advertências e realizando inúmeras
obras de caridade. Durante o período em que a diocese de Milão foi atormentada
pela propagação da peste, agravada por uma subsequente carestia que dizimou a
população, Borromeu socorreu pessoalmente os doentes e os indigentes, visitando
sem receio de contágio os moribundos.
«Antes disso — explicava Colombo aos monegascos —
os milaneses tinham visto o nobre filho do conde Giberto e de Margherita de
Medici, irmã do Papa Pio IV, tornar-se camponês entre os camponeses e montanhês
entre os montanheses; antes disso tinham visto o rico arcebispo tornar-se
pobre, vendendo o seu principado de Oria, as suas outras heranças e tudo o que
possuía para socorrer os famintos; mas durante a peste viram-no expor-se ao
perigo do contágio e da morte». A fonte do amor total e heroico que animava e
guiava São Carlos encontrava um alimento constante «no seu amor por Cristo e
Cristo Crucificado».
A sua fé — continuava o cardeal, acrescentando estas
anotações manuscritas ao texto original — tornava-o «contemporâneo, próximo,
presente na Eucaristia que é o Sacramento da sua presença pessoal e do mistério
pascal com o qual nos salva».
O exemplo e a memória de um nobre príncipe que se
tinha despojado de todos os privilégios para servir, com dedicação total,
Cristo e a sua Igreja — desejava Colombo, concluindo o seu discurso monegasco —
representava um significativo e importante «vínculo de fraternidade» entre
Milão e Mônaco, onde «uma parte considerável, por expressa vontade de um
Príncipe que trazia ele próprio o nome de Carlos, há cem anos se gloria do nome
de Borromeu e reza numa igreja paroquial dedicada ao Santo bispo de Milão».
Ao Principado de Mônaco, o cardeal Colombo
regressou a 24 de abril de 1983, convidado para o centenário da inauguração da
igreja paroquial de São Carlos em Monte Carlo. Nessa ocasião, o prelado
recordou a consorte do príncipe Rainier, a inolvidável Grace Kelly, nascida em
Filadélfia, nos Estados Unidos, numa sólida família católica de origem
irlandesa, a qual — antes de se casar com o soberano monegasco em abril de há
setenta anos — tinha sido uma premiada atriz de cinema e falecera tragicamente
a 14 de setembro de 1982, deixando um vazio irreparável na família Grimaldi.’
Fonte : *Artigo na íntegra