Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O.
Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
‘‘Bem-aventurados
sois vós quando vos injuriarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal
contra vós, por minha causa’ (Mt 5,11-16) : esta frase desconfortável do
Evangelho continua atual hoje, no terceiro milênio cristão.
A palavra ‘mártir’
vem do grego ‘mártys’, que significa ‘testemunha’, aquele que anuncia,
atesta e chora a alegria da ressurreição. Aquele que canta a vitória da vida
sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a arbitrariedade dos
poderosos.
A grande
manhã do martírio cristão foi com Santo Estêvão, humilde diácono das mesas dos
Atos dos Apóstolos, a quem Lucas confia a ‘coroa do testemunho’. Por causa
desse precioso testemunho, Estevão ganhou o título de ‘protomártir’ da Igreja,
um verdadeiro pilar da fé cristã católica.
O martírio é,
portanto, por impulso, o anúncio evangélico, o esplendor de uma palavra que é
uma boa notícia para os pobres, os oprimidos e os prisioneiros e que ninguém
pode extinguir mesmo com a desfiguração, tortura e desprezo. Enquanto o martírio,
de fato, marca a transparência da vida cristã, a fé bíblica não quer
sacrifício; ao contrário, é expressa em mil casos contra ele. Assim diz Jesus
no Evangelho de Mateus : ‘Ide aprender o que significa : quero misericórdia e
não sacrifício’ (9,13; 12,7), o que importa é o coração aberto a Deus e ao
próximo. O sacrifício não serve para a salvação, porque a salvação é o dom do
Senhor.
Os mártires
são testemunhas de esperança e paz, são aqueles que, com sua extrema doação,
testemunham a fidelidade ao Evangelho da cruz, um amor extremamente forte por
Jesus Cristo e por seu Reino.
Tertuliano,
um dos padres da Igreja, dizia que ‘o sangue dos mártires é a semente dos novos
cristãos’. De fato, sem qualquer dúvida, essa semente produziu seus frutos ao
longo da história da Igreja. As perseguições aos cristãos sempre foram uma
realidade violenta e desafiadora, mas os arautos do Senhor nunca se intimidaram
nem recuaram a responder com fidelidade ao Evangelho.
É
precisamente esse sangue derramado no amor e por amor, pela própria fé que cria
uma ponte entre todas as regiões do mundo. É o sangue de Cristo o elo entre as
realidades, que ainda hoje se manifesta na pessoa de nossos irmãos e irmãs
vítimas de perseguição, terrorismo em geral e terrorismo de grupos, de violência
irracional e da intolerância religiosa.
A
perseguição, portanto, está intrinsecamente presente na vida dos cristãos. Essa
profecia, misteriosamente preservada em cada discípulo, é uma realidade
tangível em todas as suas dimensões de violência contra os cristãos desde a
Igreja nascente.
Os apóstolos
se reuniam às escondidas e muitas vezes encontravam no silêncio e no anonimato
a forma mais verdadeira de viver a fidelidade a Jesus Cristo, isso também era
forma de martírio.
É triste
quando nossas sociedades permitem que os idosos sejam descartados ou
esquecidos. É repreensível quando os jovens são explorados pela atual
escravidão do tráfico de pessoas. Se olharmos cuidadosamente para o mundo ao
nosso redor, parece que em muitos lugares o egoísmo e a indiferença estão se
espalhando.
Quantos de
nossos irmãos e irmãs são vítimas da cultura ‘descartável’ de hoje, que gera
desconsideração especialmente para crianças não nascidas, jovens e idosos. É
aqui que o testemunho dos mártires se manifesta concretamente por amor ao
Evangelho, eles dão suas vidas sem nada querer em troca. É simplesmente por um
amor apaixonado e desinteressado, um amor livre capaz de ir ao encontro dos
irmãos, muitas vezes em países longínquos, que oferecem a si mesmo em favor dos
outros, e assumem a cruz de Jesus Cristo na vida dos mais pobres e sofredores,
em diversas partes do mundo.
O sangue dos
mártires é o sangue da esperança que ao cair no chão traz frutos de nova vida
para a vida do Reino. Não há amor maior que dá a vida pelos irmãos. Os
mártires, ainda hoje, sem demora se oferecem para o anúncio de Cristo e do seu
Evangelho.
Também nós
queremos oferecer cotidianamente nosso ‘sim’ ao Senhor e com fidelidade viver a
graça do mesmo anúncio e testemunho da fé. Esse é verdadeiro kerigma da
esperança e da vida em plenitude.
Com vidas de
entrega total e sem reservas ao Senhor e ao seu Reino, os mártires são
partícipes por excelência do amor de Jesus Cristo, Ele que dá tudo que é
oferecendo a todos, sem limites para além das fronteiras humanas.
Assim são os
mártires missionários ad gentes, que vão aonde ninguém quer ir. O
testemunho cristão do martírio faz a Igreja brilhar em toda a sua beleza. Segue
descobrindo e redescobrindo sua natureza e vocação no mundo.
Na vida do
cristão, tudo deve se remeter a Deus, não há dimensão da vida do homem e muito
menos do homem de fé que não tenha relação com Ele, isso significa que o homem
livre e graças à luz interior pode discernir aquilo que o aproxima de Deus e
aquilo que o leva para longe dele. A graça do martírio o faz estar muito
próximo de Deus e do seu Reino.
Os mártires
expressam essa liberdade da maneira mais elevada e, no dom de si aos outros,
mostram a nós que é possível transcender os próprios interesses, erradicar em
si toda forma de egoísmo. A Igreja reconhece o valor do martírio e sente-se
fortalecida em sua missão quando contempla o testemunho dos mártires da fé.
O apóstolo
São Paulo está ciente de que seu comportamento não é desprovido de valor para
os que lhe são confiados. O seguimento de Cristo o envolve plenamente, obriga-o
a ser coerente, para que não aconteça que ele mesmo seja um obstáculo para seus
irmãos no caminho de Cristo, que ele não é um escândalo para aqueles que querem
seguir a Jesus.
Todos os
mártires cristãos são modelos para nós, vivendo coerentemente o mandato
evangélico. Não apenas evitamos escândalos, mas nos tornamos proclamadores de
Cristo, portadores da Boa-Nova para o mundo.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/os-martires-as-fieis-testemunhas-de-jesus-cristo-e-de-sua-igreja.html