Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Como é bem
sabido de todos, na atualidade acontecem conflitos armados em mais de 40
lugares do mundo mas, sem dúvida alguma, um dos conflitos mais cruéis entre
todos acontece no Sudão, país localizado no noroeste da África.
Ataques
contra civis, deslocamentos em massa da população, agressões sexuais contra
mulheres e crianças, deterioração da assistência no campo da saúde e educação,
colapso dos serviços básicos continuam a assolar o país marcado por graves
violações dos direitos humanos.
Os ataques
vêm se intensificando nos últimos tempos e as violações se tornaram
sistemáticas, ligadas a questões étnicas, políticas, religiosas e geográficas.
O Sudão é o
3º maior país da África em área geográfica, atrás apenas da Nigéria e da
República Democrática do Congo, com população de aproximadamente 40 milhões de
habitantes.
Grandeza do
passado e história conturbada
No atual
território, na antiguidade floresceram duas grandes civilizações, a dos núbios
e a de Kush. Alguns faraós originários da Núbia, governaram o Egito durante a
25ª dinastia, ficando conhecidos como ‘faraós negros’. O primeiro grande
faraó núbio a unificar o Egito foi Piiê, que iniciou a conquista durante o
século VIII a.C., sendo sucedido por outros da mesma dinastia. Depois a Núbia
perdeu sua autonomia se tornando uma das províncias do Egito.
No século
XVIII, os turcos muçulmanos aproveitaram a rivalidade entre as tribos e
dominaram a região até 1898, quando chegaram os britânicos que incluíram o
Sudão em seu vasto império. A dominação britânica durou até 1955, quando o país
alcançou a independência com a proclamação da República do Sudão.
A
independência, porém, não trouxe a paz almejada e o país passou a viver uma
fase de grande instabilidade com tensões políticas, étnicas e religiosas. Em
2011, o Sudão do Sul se separou criando um país independente. Mas os conflitos
e a crise civil continuam sendo uma constante na região até a atualidade.
Dor e
sofrimento
A maior parte
dos ataques são promovidos pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), nome da sigla em
inglês, dado a um grupo paramilitar que trava uma sangrenta guerra civil contra
as Forças Armadas Sudanesas comandadas pelo Chefe de Estado que domina o poder
após um golpe de estado.
Desde 2023 o
país mergulhou numa guerra civil e os combates e ataques já causaram cerca de
12 milhões de deslocados entre os mais de 40 milhões de habitantes, com pelo
menos 150 mil mortes, numa das piores crises humanitárias do século XXI que nem
a ação da ONU consegue resolver.
O conflito
repercute, sobretudo, sobre as crianças sem direito à educação, vítimas de
abuso sexual e recrutadas como soldados por parte de grupos armados.
Conforme
relatório da ONU, 55% das escolas estão inacessíveis por terem sido destruídas,
danificadas ou transformadas em abrigos para os deslocados internos. O número
de professores diminuiu muito e os materiais didáticos também são escassos.
Dois países
com nomes parecidos
Ao tratarmos
dessa triste realidade da guerra que abalou e continua trazendo pesadas
consequências até hoje, não podemos nos esquecer que hoje existem dois países
com o mesmo nome: Sudão e Sudão do Sul. A guerra à qual nos referimos acontece
mais no Sudão.
Até 2011,
eram um único país, se separando após décadas de guerra civil motivada por
profundas diferenças étnicas, religiosas e econômicas entre o norte que é
majoritariamente árabe e muçulmano e o sul em que a maioria de sua população é
cristã ou ainda pratica o antigo culto animista. Antes da separação, os
dois formavam o maior país do continente africano em extensão territorial.
O termo Sudão
deriva de uma expressão árabe ‘Bilad al-Sudan’, que literalmente significa ‘Terra
dos Negros’. Historicamente esse era o nome dado pelos árabes à vasta região
africana localizada ao sul do Deserto do Saara.
O Sudão
desempenhou um importante papel ao longo de séculos no relacionamento com a
grande civilização constituída onde hoje temos o Egito moderno.
Quando o
governo central, localizado na capital Cartum, tentou impor a lei islâmica a
todo o território, a decisão foi fortemente rejeitada pelo sul e o conflito se
estabeleceu, também por razoes econômicas, porque embora a maior parte das
reservas de petróleo esteja localizada no Sudão do Sul, a infraestrutura de
refino e os portos de escoamento para exportação ficam no Sudão.
Em 2011, após
um referendo de autodeterminação, o sul declarou independência, tornando-se o
Sudão do Sul, transformando-se numa das nações mais jovens do mundo, enquanto o
território original manteve o nome de Sudão, mas as diferenças entre os dois
países continuam gritantes. Ambos são marcados pelas guerras civis e conflitos
internos, o que aprofunda as desigualdades socioeconômicas no país e a
instabilidade política. O Sudão ou República do Sudão é um país mais
populoso, com mais de 40 milhões de habitantes, com sua economia sendo
duramente afetada pelos conflitos internos e pela instabilidade política do
país.
O Sudão do
Sul ou República do Sudão do Sul também é rico em recursos naturais, possuindo
uma população bem menor, por volta de 11 milhões de habitantes.
Os dois
países se aproximam na realidade do subdesenvolvimento, com a maioria de sua
população vivendo na zona rural, com a falta de recursos e com a necessidade de
que os olhos do mundo possam estar mais voltados para eles.’
Fonte : *Artigo na íntegra