terça-feira, 19 de maio de 2026

Um povo em fuga: uma em cada quatro pessoas está deslocada

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Valerio Palombaro


‘O Sudão está cada vez mais dilacerado por uma guerra sangrenta que, em três anos, gerou a mais grave crise de deslocados do mundo. Os combates diminuem em algumas áreas do país, mas intensificam-se noutras, gerando deslocamentos contínuos de pessoas desesperadamente à procura de lugares seguros.

Pelo menos 15 milhões de sudaneses foram forçados a abandonar as suas casas desde 15 de abril de 2023 : mais de 11 milhões são deslocados internos e 4 milhões procuram refúgio nos países vizinhos. Segundo o Alto comissariado da Onu para os refugiados (Acnur), atualmente um em cada quatro sudaneses está deslocado : para muitos deles trata-se de um ciclo repetido de fuga em busca de uma relativa segurança, antes de terem de fugir novamente.

«O conflito está muito aceso no Darfur, no Cordofão e, nas últimas semanas, estendeu-se à zona do Blue Nile, ou seja, na parte este do país, perto da fronteira com a Etiópia», declara aos meios de comunicação do Vaticano Antonia Vadalà, associate reporting officer do Acnur no Sudão, salientando, por outro lado, que algumas zonas estão a recuperar, com dificuldade, uma relativa estabilidade : «Em Cartum (reconquistada em março de 2025 pelas Forças armadas sudanesas após sangrentas batalhas com as Forças de apoio rápido, n.d.r) regressaram mais de um milhão e meio de pessoas e há estados como Al Jazira e Sennar, no sudeste, que no início da guerra eram muito atingidos pelos combates, mas que agora se encontram mais estáveis».

Vadalà trabalha em Kofti, no estado meridional do White Nile, perto da fronteira com o Sudão do Sul. «Kofti encontra-se neste momento numa posição intermédia — explica-nos ao telefone —: é uma cidade mais ou menos estável, embora tenhamos assistido a um aumento dos ataques com drones nas últimas semanas e esteja muito próxima do Cordofão. Por isso, temos fluxos diários de deslocados internos que chegam das zonas de conflito aberto no Cordofão central e meridional. No White Nile, contabilizamos cerca de 400.000 deslocados internos e, além disso, temos os refugiados que chegam do Sudão do Sul, onde também se verifica um aumento das hostilidades e onde o conflito recomeçou no estado do Alto Nilo. Temos dez campos que acolhem outros 400.000 refugiados do Sudão do Sul. Portanto, há cerca de 800.000 deslocados no Estado do White Nile, com chegadas diárias a aumentar». Estes números em crescimento devem-se, além dos combates nas regiões limítrofes e no vizinho Sudão do Sul, também aos refugiados sudaneses que regressam  «Porque os sudaneses querem voltar para o seu país e, sempre que veem uma oportunidade, aproveitam-na».

O Acnur acolhe estas pessoas com tendas, alojamentos comunitários e bens de primeira necessidade. «Vão desde kits para cozinhar a colchões para dormir ou baldes para recolher a água — conta Vadalà —. As pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, chegam em condições terríveis e num grave estado de trauma psicológico e, em alguns casos, também físico; por isso, há um empenho de encaminha-las para as estruturas competentes onde possam receber o apoio necessário».

As crianças, juntamente com as mulheres, são aquelas que mais sofrem com o conflito. «Muitas delas acabaram separadas das próprias famílias — sublinha a operadora humanitária do Acnur —. Estima-se, por exemplo, que cerca de 58.000 crianças tenham chegado sozinhas aos países vizinhos, atravessando fronteiras, separadas das suas famílias durante a fuga, e muitas delas encontraram-se também feridas e profundamente traumatizadas». E depois há todo o problema ligado à educação : «Por um lado, as crianças veem-se praticamente obrigadas a tornar-se adultas devido ao conflito e a ter de ajudar as suas famílias também do ponto de vista laboral; por outro, as escolas, em muitos casos, foram transformadas em campos para deslocados, pelo que há todo um trabalho a fazer para devolver às salas de aula o seu papel de espaços de ensino e para reconstruir um sistema educativo necessário a fim de devolver a estas crianças um futuro».

Mas sobre as perspectivas de um futuro melhor pesa também a escassa atenção internacional e o corte nos financiamentos ao desenvolvimento. «Trata-se de um corte real — garante a associate officer do Acnur —. Desde janeiro tivemos realmente pouquíssimos fundos disponíveis e fomos obrigados a escolher entre as intervenções a realizar. O Acnur recebeu apenas 16 por cento dos fundos de que necessita e já estamos em meados de abril».

O conflito no Médio Oriente e o encerramento do estreito de Ormuz também têm um forte impacto no martirizado Sudão. «Vimo-lo nas últimas semanas, sobretudo com o aumento do preço do petróleo e, consequentemente, da gasolina, que obviamente teve um impacto direto na época agrícola no Sudão, porque este é o período em que se começam a trabalhar os campos com máquinas agrícolas, mas também com o aumento dos preços dos fertilizantes. Assim, sentimos na prática o impacto da guerra e temos a certeza de que também afetará a produção agrícola deste ano no Sudão».’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/um-povo-em-fuga-uma-em-cada-quatro-pessoas-esta-deslocada.html