Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Comunidade de Quilvo. © AIM.
*Artigo da Irmã Ainzane Juanicotena, OCSO
Mosteiro de Quilvo, Chile
‘Recebemos o Espírito de filhos, e dizemos Abba,
Pai’ (Rom. 8, 15)
‘Tudo o que é
vivificante é um presente imerecido, e o maior presente que recebi da Ordem, o
mais vivificante, é o dom da filiação.
Como todo o
dom que vem da mão de Deus, saboreamo-lo com a consciência de que somos
pecadores, pobres, perdoados e resgatados. Somos acolhidos como o filho
pródigo, quando volta para o Pai (Luc 15, 11-32), ou como a menina a quem
ele disse ‘Talitha Kumi’ (Mat 5, 41, ou como Lázaro saído do túmulo (Jo 11,
44). O Pai acolhe-nos por meio do Filho que, nos seus dias mortais exclamou : ‘Ninguém
me tira a vida, eu a dou livremente’ e que aprendeu a obediência pelo
sofrimento (cf 10, 18; Heb 5, 8).
Ora vivemos
no centro de uma crise global em que a vida é arrastada quase de forma imperceptível
para uma desolação terrível : um mundo de guerra, de pandemia, de fome, de
morte, de ódio, um mundo de egoísmo extremo, desintegrado e desintegrante.
O mundo da
comunicação tecnológica também abriu suas asas e atrai instantaneamente, a
informação é rápida, abundante e variada. Ainda não tivemos tempo para cuidar
de tudo o que é oferecido, e já outras propostas chegam; e entramos pouco a
pouco num modo pré-estabelecido de comportamento na sociedade. Deixamos de
pensar, de nos interrogar sobre o além, sobre o porquê das coisas, tornamo-nos
como que anestesiados, deixamo-nos entrar na sociedade cansados, tornamo-nos
indiferentes, perdemos o gosto pela vida, preferimos não ter problemas, não
arriscar, e fechamo-nos à ideia de que a vida é algo que se recebe. E no
entanto, ao mesmo tempo há no coração humano um desejo que aspira ardentemente
e que grita, procurando o encontro com Deus. Um desejo que reconhece que
recebemos a vida, e que por causa disso podemos transmiti-la, pois ninguém pode
dar o que não tem, e é somente transmitindo a vida que ela se mantém em nós e
passa para os outros. Porque somos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1,
26) temos em nós uma marca que grita, desejando o encontro com o seu Criador,
um movimento contínuo nos habita que caminha para o encontro entre Deus e eu,
através de uma relação entre um Tu e um Eu. Por isso a nossa vida é feita para
os outros, e é somente através dos outros que podemos nos encontrar.
Concretamente
somos chamados a olhar, a lutar pela vida de Deus e a servi-la nos outros, em
cada irmão da comunidade, com esse otimismo antropológico cisterciense, que
afirma energicamente que a última palavra sobre o homem nunca será o pecado,
mas o dom de Deus, o fato de ser feito à sua imagem e semelhança.
Quer tenhamos
consciência, ou não, cada ser humano tem em si a marca daquilo para que Deus o
criou, e que somos seus filhos. Pois o desejo mais profundo do coração humano é
ficar diante da face de Deus, aderir a ele com toda a liberdade.
A vida
começada por um desejo lancinante, situada num espaço e num tempo concretos, no
hoje, começa a tomar forma por meio do despertar da íntima relação com Deus, do
dom da filiação que temos com Ele. A filiação recebida por meio do Filho Jesus
Cristo, que deixou sua marca em nós, impressa em cada átomo do nosso ser e em
toda a criação. Uma marca que procura o seu Criador e nos faz filhos para
sempre.
Somos filhos de Deus, marca que não se apaga, mas a relação que temos com Deus, o dom da filiação, forma-se através da relação com pessoas concretas, e num lugar concreto. A contemplação de Cristo, a relação direta com Ele na escuta, como no encontro com a Palavra viva é a base para poder viver com fé e obediência a relação com a comunidade, o abade e a Ordem. Apoiados sobre a tradição da Ordem, os costumes da casa na continuidade da vida, sobre testemunhas concretas que deram sua vida por nós, e que a dão hoje, vivemos o dom de dar a nossa vida a Deus na relação com os outros. Minha vida dada a Deus concretiza-se amando minhas irmãs e o dom que recebo de Deus recebe-se das mãos delas. Minha relação com os outros reflete a minha relação com Deus e vice-versa.
A gratuidade
do dom recebido, o fato de me saber amada é a minha garantia, nada se perde
quando tudo é oferecido; é somente por meio da ação de graças que minha vida
tem gosto e cor. Reconhecer- me como filha amada, livre, pobre, pecadora que
precisa de perdão e de amor.
A vida
comunitária, com os olhos fixos num fim único, Cristo, é uma escola de
sabedoria e de energia poderosa, e a nova resposta ao individualismo que tanto
nos afeta hoje. É a expressão mais autêntica do fato que somos criados para a
relação : é somente através dos outros que posso ver quem sou e caminhar assim
para Cristo; o espelho dos outros permite-me reconhecer-me, situar-me numa
realidade, ver meu caminho para saber onde estou, ter a luz que preciso para
viver a conversão que Deus me pede, e que não consigo sem os outros.
A força para
este elan de conversão está em reconhecer-me miserável e me saber objeto de
misericórdia, sustentada pelo Cristo através de minhas irmãs de comunidade,
reconhecê-lo no concreto da vida, que serve de trampolim para me levar a viver
o dom da obediência, como resposta ao amor recebido.
Este caminho
da obediência cristifica-me, pois é o modo de ser do Filho Jesus Cristo. É o
nosso modo de amar, a condição da realização plena. A obediência é a nossa
oração, e para que isso seja possível é necessário ajoelhar-se diante do
mistério de Cristo feito carne, quer vivendo-o no Ofício, quer escutando-o na lectio,
quer ficando em silêncio, quer no serviço que me é pedido cada dia. É o
caminho, o sustentáculo, a fonte da nossa fé no Filho de Deus que se fez homem.
Para que isso
seja possível, é necessário que a obediência seja acompanhada pela alegria, uma
alegria nem artificial, nem fingida, me mostrando feliz mas machucada por
dentro, ou isenta de sofrimento. Mas uma alegria que seja sempre pascal, feita
da cruz e da glória de cada dia. Se a obediência não for vivida com alegria,
não é verdadeira obediência; deve partir da raiz de ser filhos, herdeiros e
amados; e como filhos somos livres, felizes e desejosos de responder a este
amor da forma mais plena, como Cristo o fez e nos ensinou com sua obediência.
A confiança,
a certeza de ser filha de Deus, vivendo num tempo e num espaço concretos, em
que cada segundo é um novo nascimento para a vida plena com Cristo. Isto é a
respiração do nosso organismo, a batida do nosso coração. É viver na sua
presença, alegrar-se com o desenrolar do dia e com a comunidade que Deus me
deu. É cultivar a alegria em nós e naqueles que vêm, ajudando-os a
reconhecer o desejo pessoal e comunitário de felicidade e de verdade, e isto
não está nas observâncias nem num número maior de irmãs. Mas vai mais longe,
está na procura e na qualidade e na profundidade da relação com Cristo, fruto
do modo comum do sentir e da vontade para andar no caminho da plenitude
presente, e assim ir todas juntas para a vida eterna (RB 72, 12).
Não se trata
de alcançar ou de depender dos frutos espirituais do caminho da comunidade, nem
da morte ou da vida da comunidade, mas da perfeita conformidade com a vontade
de Deus. Sem esta consciência da alegria de viver com Deus, tornamo-nos áridas,
sem gosto e sem entusiasmo. Perdemos a chama que nos fez querer a vida e viver
como verdadeiros cristãos; enchemo-nos de amargura, que é a inimiga da vida.
Quem vive verdadeiramente está pronto para dar a vida. Quantas vezes nos
agarramos às nossas seguranças, aos nossos esquemas para não dar a vida, e
esquecemo-nos de viver? Devemos viver com o desejo de acompanhar o Cristo na
sua paixão até à ressurreição.
Devia haver
nos nossos corações uma alegria pronta para jorrar para a vida aberta para a
novidade, para nos reconhecermos livres e abertas para receber e dar o perdão.
Devia me abrir a formas novas, objetivos novos, devia examinar-me e ver que
coisas outrora davam vida e agora não dão. Devia eliminar preconceitos,
arriscar, ousar, inovar, nunca me limitar, identificar-me com os outros, ser
jovem com os jovens, criança com as crianças, venerar os anciãos. Procurar
sempre a vida… deixar que os outros nos atrapalhem!
Quantas vezes
nos agarramos aos nossos critérios e não deixamos entrar a graça nova que Deus
nos oferece a cada instante? Quantas vezes nos agarramos a nós mesmos e não
sabemos reconhecer o bem nas ações dos outros? Quantas vezes nos agarramos às
estruturas e esquecemos que as estruturas devem estar a serviço da vida nova
dada pelo Espírito Santo no nosso caminho? Há tanto sofrimento no mundo… e eu
não sou capaz de ter compaixão pela irmã que está a meu lado?
Devemos
aprender (como o Filho aprendeu cf. Heb 5, 8-9) de cada acontecimento, e dos
outros, com toda a novidade e particularidade que o distingue, que o outro traz
algo à minha vida. Devo ser uma fonte disponível para todos, ser receptiva e
receber, vivendo aberta aos outros, amando-os a cada instante, sem essas
fantasias românticas sobre o bem, que canonizam o nosso mal, e dissimulam a
necessidade de conversão, mas com realismo. Para amar e aceitar plenamente como
são, aqueles que Deus pôs perto de mim, sem criticar, sem queixas, nem
resistências, mas com uma misericórdia lúcida, valorizando-os, sem me deixar
levar pelo mal que cometeram, mas acreditando na boa vontade e no bem que se
encontra em cada um.
Assim me
deixo fazer e formar pelos outros. É somente por meio de pessoas concretas, com
nomes e rostos concretos que posso me deixar formar por Deus. É somente por
meio da mediação humana dos outros que posso deixar Deus agir em mim e encarnar
em mim. O outro é o sacramento da vontade de Deus na minha vida.
A regra de
vida nos nossos mosteiros é viver na obediência filial, de modo concreto e
segundo o carisma da nossa Ordem, numa comunidade, sob uma regra e um abade,
com o olhar fixo na vida eterna e com o condimento saboroso da fé. A filiação
divina faz-se carne graças a estes três pilares fundamentais :
– Comunidade :
é o lugar aonde me posso deixar fazer por meio do Senhor através dos outros. É
o Corpo-Igreja aonde acontece o encontro com Deus, aonde todos somos membros e
o Cristo é a cabeça. Nossa comunidade é o Corpo de Cristo, é uma Igreja
monástica que vive em comunhão com a Igreja universal.
É o lugar
aonde recebo o perdão e a vida cotidiana, é o lugar aonde aparece a minha
miséria, aonde faço a experiência das minhas fraquezas, dos meus limites, dos
meus pecados, e aonde sou carregada, me reconhecendo amada apesar da minha
pobreza. É o lugar onde posso abrir minhas asas e ir para Cristo através do
serviço aos outros, pelo trabalho e pelo dom de mim mesma.
– Abade /
abadessa : é a pessoa que faz as vezes de Cristo no mosteiro, é o abade, a
abadessa da comunidade que vive para a servir; e a comunidade forma o seu
abade, sua abadessa. A pureza de coração é fundamental na minha relação com meu
abade / abadessa, a verdade comigo mesma para viver essa relação, reconhecer
minhas amarguras, minhas obscuridades, minhas inconsequências, minha luzes e meus
sucessos, poder ser transparente com ele, saber-me filho / filha dessa pessoa
concreta, que representa a Cristo.
– A Regra : é
a estrutura vital da nossa vida; sua forma é cristocêntrica e dá-nos a maneira
concreta para viver o evangelho. Viver, não realizar. Porque todas as nossas
ações têm irradiação no mundo inteiro. Irradiação que não depende do nosso
mérito, ou falta de mérito, mas do encontro com Cristo, como diz o Sal 33, 5 ‘olhai
para ele e sereis irradiantes’.
A
radicalidade da nossa vida para viver o encontro com Cristo a partir de uma
humanidade, num tempo e num mundo concretos, faz o encontro com nossos irmãos
concretos. No aqui e no hoje que olham para a eternidade. Todos os elementos da
nossa vida se encontram nesta realidade do hoje. Fazer o que tenho que fazer,
estar aonde devo estar, é a nossa oferenda, é a nossa oração.
Podemos
encontrar estes aspetos na nossa Ordem. A paternidade e a maternidade
espirituais são vividas e ajudam-nos nos gerando mutuamente. Mas são sempre um
desafio.
A filiação
que devemos oferecer a Cristo, a cada momento, é um testemunho vivo no interior
da Ordem, a relação com o Abade Geral, a Casa Mãe, o Pai Imediato, as casas
filhas e irmãs, a interdependência mútua, aonde a respiração e do coração comum
são o Cristo. Somos filhos numa comunidade concreta, que pertence a uma Ordem
concreta, regida por uma estrutura sólida, onde o que domina sempre é esta
união filial de amor que temos entre nós. Isto expressa o fato real de ser
gerado, de receber uma identidade, um rosto, das mãos de um outro que faz o
lugar de Cristo. Esta filiação não é sentimental, mas evangélica; por isso é um
caminho de fé, muito mais profundo do que as aparências.
O amor de
Cristo por cada um de nós, reconhecer-se amado por Deus e reconhecer o amor de
Deus nos outros, viver o eterno presente da realidade cotidiana, é o dom mais
precioso que podemos experimentar, é a própria Vida. É viver enraizados na
realidade presente, com a consciência de estar imersos numa vida transitória,
cujo destino final é Deus.
Viemos para
viver com Cristo, a morte a si mesmo é a condição para viver; a vida borbulha,
renova-se, é sempre um presente que temos de agradecer, porque o maior dom de
Deus é a vida, e a capacidade de a saborear dá paz para assumir conscientemente
e com alegria o sentimento do nosso destino livremente escolhido, como resposta
a um amor que nos ama e nos escolheu por primeiro (1 Jo 4, 19).
É somente
crescendo que podemos ajudar os outros a crescer em Cristo e desenvolver uma
paternidade ou maternidades espirituais, em resposta ao fato de sermos filhas e
filhos de Deus.
Devemos viver
num mundo do além, em que os sonhos se tornam realidade, e ver já no presente a
luz do amor de Deus, que será a vida futura. Isso é viver unida a Cristo, com
os olhos fixos nele, enfrentando o cotidiano à essa luz, com o olhar voltado
para a cristificação total nele, com tudo e com todos.
Sejamos agradecidos pelo que não merecemos, perdoando o que já nos foi perdoado, e acima de tudo amemos sempre e a cada instante com o amor que só um filho de Deus pode entender, o de Cristo.
Que a Virgem
Maria nos guie com seu amor de Mãe, para esta união íntima, ousada, viva,
reconhecida, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124