Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR
‘Muitos estudantes provenientes de países
localizados nesse continente, ao trabalhar suas teses de mestrado (Licença) ou
doutorado preferem, em vez de aprofundar temas próprios da cultura ou da
história de seu continente, debruçando-se sobre temas próprios da Europa. Não
que isso não seja importante, mas perde-se a oportunidade de tornar mais
conhecido a história que somente a parir dos anos de 1960 ou 1970 passou a ser
melhor explorado.
A verdadeira ‘descoberta’ da África
Assim como aconteceu em relação ao Brasil ou às Américas
a historiografia refez o conceito de ‘descoberta’, não mais como o ‘achamento’
de um povo desconhecido, mas sim como encontro de civilizações.
Desde os primeiros estudos acadêmicos e científicos
sobre a história e culturas da África, muitas vezes houve a tendência em se
considerar o continente como uma região sem história ou com uma história menos
significativa do que outras regiões do mundo. Essa perspectiva é incorreta por
desconsiderar a rica e complexa história do continente africano, como já vimos
ao falar dos grandes reinos existentes na África antes da chegada dos europeus
a partir dos séculos XV e XVI.
Em comparação com outras regiões do mundo, como
Europa ou Ásia, a documentação histórica sobre a África é mais limitada em
alguns aspectos. Isso não significa, porém, que a África não tenha tido uma
história rica e influente ao longo dos séculos. Na verdade, a história da
África é tão antiga quanto a de qualquer outra região do mundo, com suas
culturas, sociedades e civilizações existindo por milhares de anos antes do
contato com o Ocidente.
Uma nova historiografia
Uma das razões pelas quais a África é
frequentemente considerada um continente sem história, ou de uma história muito
recente com pouco mais de 500 anos, é por causa da narrativa eurocêntrica que
dominou a produção de conhecimento ao longo da história. Isso levou à suposição
de que a África não tinha uma história escrita ou uma cultura significativa
antes da chegada dos europeus. Hoje se entende que a história africana era
contada de forma diferente pela sua gente, em diferentes partes do continente.
Diferentemente da Europa em que a história passou a ser escrita mais cedo, na
África valia muito a Tradição Oral, presente ainda hoje em vários povos.
Ainda hoje existe uma visão bastante preconceituosa
sobre a África, assim como acontece em relação a outras partes daquilo que
antigamente era chamado de ‘Terceiro Mundo’ ou de ‘Países em Desenvolvimento’
frequentemente associada à pobreza e ao subdesenvolvimento. Isso acaba levando
a uma desvalorização da história e das culturas do continente, sem considerar a
riqueza cultural e a diversidade de grupos étnicos, línguas e tradições que
existem na África.
A história da África inclui as antigas civilizações
do Egito e da Núbia que floresceram há mais de 03 mil anos. Inclui também o
Império de Mali, que governou uma grande parte da África Ocidental entre os
séculos XIII e XVI. Além disso, a África teve várias outras sociedades,
culturas e reinos poderosos ao longo de sua história, incluindo os Impérios
Ashanti, Songhai, Zulu e Kongo, entre outros.
Não podemos desconsiderar que além dessas riquezas,
a história da África inclui também períodos de colonização e opressão, que
tiveram um impacto significativo na região e na sua cultura. A própria
escravidão não nasceu apenas com os europeus sendo já praticada antes de sua chegada,
seja pelos berberes que transitavam pelo deserto, pelos muçulmanos que
dominariam o comércio em várias rotas e também por tribos e aldeias africanas.
A história da África é rica, complexa e diversa, e
deve ser valorizada e estudada como qualquer outra história mundial. A ideia de
que a África é um continente sem história é uma concepção ultrapassada e
prejudicial que deve ser abandonada. É importante compreender e valorizar a
história e as culturas do continente africano para se ter uma visão completa e
precisa da história mundial e da humanidade.’
Fonte : *Artigo na íntegra