domingo, 24 de maio de 2026

O sagrado que separa, o santo que aproxima

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Cettina Militello


Não sei se se pode falar de um regresso ao sagrado. Se assim fosse, para nós cristãos seria uma derrota. Com efeito, apesar de ser antropologicamente uma categoria fundamental, o ‘sagrado’ está por sua natureza marcado pela separação. A tal ponto que é necessário exorcizar tudo o que lhe é próximo ou adverso.

Pelo contrário, a categoria teológica fundamental para nós cristãos é o ‘santo’, traço conotativo de Deus, cujo mistério somos chamados a partilhar. Em síntese, o sagrado como separação/distância; o santo como participação/proximidade. O sagrado como algo que inspira temor e tremor, o santo como encontro gratificante e divinizante.

Claramente, a secularização prevista para meados ou para o final do milénio não se concretizou, pelo menos não da maneira radical que tinha sido profetizada. Sob outras modalidades, a necessidade de espiritualidade abriu caminho mesmo sem se dirigir a uma realidade pessoal transcendente e, portanto, resolvendo-se numa prática ou num método de saúde mental.

Meditar como esvaziamento da mente, como técnica de relaxamento. Não como encontro com o totalmente Outro, como busca daquilo a que Agostinho chamava Beleza tão amada, fora da qual o ser humano não encontra descanso nem quietude.

Para mim, é difícil decifrar estas realidades, em grande parte autorreferenciais. A este respeito, lamento aquilo que várias vezes indiquei como uma interrupção na corrente de transmissão da fé.

Portanto, se a necessidade de sacralidade revela uma interrogação, uma instância apesar de tudo excedente e permanente, a desilusão é em relação a uma geração, a minha, que não foi capaz de transmitir a fé. E refiro-me precisamente àquela pietas diária, de que as mulheres eram guardiãs. Uma atitude instintiva e ingénua, mas que não obstante tudo transmitia, juntamente com as regras da vida, também os rudimentos da fé; educava para uma oração vocal, por mais repetitiva que fosse, que no entanto denotava uma pausa, uma interrupção no cansaço quotidiano, também ele monótono, ligado à sobrevivência, ao cuidado e à nutrição do dia a dia, à obrigação de acompanhar a vida desde o nascimento até à morte, tarefa fundamental das mulheres.

Não sei o que restou disto. Dir-se-ia muito pouco. Os espaços de nicho incluem tanto os da meditação como método de relaxamento, como os da inquietude de pensar e manifestar a própria fé. E talvez seja a partir destes últimos que, com o passar do tempo, algo possa mudar.

Numa transição de época como a que vivemos, a exigência de sentido torna-se mais acentuada. Certamente, pode-se adormecê-la com a euforia, a droga, a perda de respeito, o desperdício de si mesmo. Mas não se pode apagá-la completamente, e não é por acaso que a vemos explodir, quer como caso literário, quer como fenómeno de pensamento.

As mulheres estão presentes nestes cenários, também elas cansadas de procurar a sua razão de existir neste mundo. Agora livres das obrigações culturais pretensiosamente atribuídas ao seu sexo, elas podem moldar a sua vida a seu bel-prazer. Podem casar-se ou optar por não o fazer; ter filhos ou recusar-se a tê-los; podem comprometer-se no social ou perder-se na futilidade autorreferencial das redes sociais, vitrines de vazio e tagarelice, espaços de pura e ostensiva autoafirmação. Mas também podem assumir a responsabilidade pelos outros, pelo mundo, pelos animais e pelas pessoas; podem abraçar as causas mais díspares, com toda a liberdade, e não porque isto está inscrito no seu ventre fecundo.

É claro que, embora representem uma minoria, as mulheres falam de Deus e o Deus de que falam é muito diferente do Deus dos seus pais (e das suas mães). Aquelas que o procuram, revivendo a mesma paixão de tantas mulheres do passado, hoje têm a possibilidade de aceder a instrumentos que outrora lhes eram negados. Podem ‘tomar a palavra’, orientando deste modo as próprias palavras de maneira diferente, conferindo-lhes novos significados.

O Deus de que as mulheres falam não se insere na esfera do sagrado, no sentido de que não é a sua supremacia que elas procuram. Certamente haverá também aquelas que recorrem à sacralidade sob o sinal destrutivo do poder, mas não são a maioria. Talvez sejam mais visíveis e, por isso, mais imitadas. Mas o Deus das mulheres é todo-poderoso no sentido original do termo pantokrator. Em vez de potência e poder absoluto, ele sugere apoio e abraço. É o Deus que tudo contém, tudo sustenta, tudo acompanha, e cujo nome reconfortante e pacificador é misericórdia.

Devo aos meus estudos a possibilidade de falar de Deus de outro modo. E espero sinceramente que o meu esforço e o de tantas outras mulheres que perseguem as mesmas idealidades acabem por ressoar na sua autenticidade. Eis o sentido da vida, da nossa vida de mulheres (assim como de homens) : reside inteiramente na possibilidade de nos colocarmos frente a frente, uns com os outros, num diálogo frutífero vis-à-vis que, em última análise, revela o cerne da questão : todos nós, homens e mulheres, fomos criados à imagem de Deus e, por isso mesmo, somos chamados à relação e ao cuidado recíproco.

Se me for lícito, falar de Deus da parte das mulheres significa decliná-lo diversamente, ou seja, levar a sério o paradigma do seu ‘fazer-se carne’ e transformar, precisamente a ‘carne’, no lugar emblemático — teológico — da experiência de proximidade.

Durante séculos, falávamos de Deus como ‘o ser’ por excelência, reproduzindo, até sem o querer, o modelo aristotélico do motor imóvel. Pelo contrário, o Deus cristão é um Deus ‘em devir’, que renuncia à natureza divina para fazer sua a condição indigente do ser humano. É um Deus que se faz carne. E isto implica a assunção da debilidade humana, do limite, da fragilidade. A assunção da impotência, da dor, da morte à maneira de qualquer outro ser humano.

O nosso monofisismo projetou no homem Jesus os traços do divino. Nunca levou a sério o seu crescimento, as suas escolhas, as suas angústias, a sua dor, o seu suor de sangue perante a morte. Inclusive quando nos apaixonávamos sentimentalmente pela sua humanidade, às vezes com mecanismos imitativos sadomasoquistas, isto é, castigando a nossa carne para imitar o seu sofrimento, nunca nos passou pela mente interpretar o mistério da sua vida num horizonte de fragilidade e dúvida, num horizonte de debilidade. No entanto, as faixas que o envolveram quando nasceu, cobrindo a sua nudez, assim como as vestes das quais foi despojado para ser colocado no patíbulo, não eram uma ficção, como se afinal a sua identidade divina prevalecesse sobre tudo. Pelo contrário, o homem Jesus sofreu como qualquer outro homem; trabalhou como qualquer outro homem; teve os estímulos e as sugestões que acompanham a vida de todos nós, e dos quais são emblema as chamadas ‘tentações’.

Pois bem, gostaria que as mulheres falassem de Deus, articulando o seu nome inefável em sinal de solicitude e de cuidado; acima de tudo, gostaria que reconhecessem no Filho o paradigma daquela relação que descreve Deus diante de Deus, na dança trinitária de Pai, Filho e Espírito. Uma dança que agora reconhece a carne como conotado próprio de Deus e, por isso, interioriza a finitude e o limite.

Sim, desejaria uma nova era do Espírito, cujo sopro gentil, revelando-nos na nossa fragilidade, nos tornasse capazes de a superar, abandonando desígnios demoníacos de poder para traçar horizontes autênticos de sororidade e fraternidade.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/o-sagrado-que-separa-o-santo-que-aproxima.html