Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Antes que a
agitação do dia tome conta dos pensamentos e do tempo, alguém se senta à beira
da cama e respira fundo. Ainda não organizou as tarefas, não assumiu os papéis
que deverá desempenhar nem respondeu às expectativas que o aguardam. Por alguns
instantes, tudo parece suspenso diante daquele corpo cansado que tenta
despertar por inteiro e assimilar o que foi sonho e o que é realidade.
Talvez seja o
cansaço acumulado. Talvez seja a alma pedindo espaço antes de ser novamente
tomada pelas urgências. Nesse intervalo entre o sono e a vida que recomeça, uma
pergunta bate suavemente à porta do coração : há quanto tempo não escuto o que
Deus tenta dizer em mim?
Agosto, mês
vocacional, oferece-nos essa oportunidade. Não apenas para pensarmos nas
vocações sacerdotais e religiosas, tão belas e necessárias à Igreja, mas para
perguntarmos pelo sentido de nossa existência, pelo lugar que ocupamos no mundo
e pela maneira como respondemos ao amor de Deus.
Vocação não é
somente escolher um estado de vida, é descobrir para quem e para que as nossas
vidas se entregam.
Vivemos num
tempo de muita agitação e pouca escuta. Há vozes que cobram, comparam e impõem
padrões de sucesso. Há também ruídos interiores : medos, culpas, inseguranças,
necessidade de reconhecimento e receio de não corresponder às expectativas. Às
vezes, o maior barulho não vem de fora, vem de dentro.
Nesse
emaranhado, podemos desaprender a escutar Deus. Não porque Ele tenha deixado de
chamar, mas porque nossos corações estão ocupados demais para reconhecer sua voz.
A história de
Samuel ilumina esse caminho. Durante a noite, o menino ouve alguém chamá-lo
pelo nome : ‘Samuel, Samuel’. Pensando que fosse Eli, levanta-se e vai ao
encontro do sacerdote. Isso se repete. Samuel escuta, mas ainda não reconhece.
Com a ajuda de Eli, aprende a responder : ‘Fala, Senhor, teu servo escuta’ (1Sm
3,10).
Deus chama
pelo nome, mas respeita o tempo de Samuel. Não o força nem o envergonha por não
compreender de imediato. Chama novamente, espera e coloca ao seu lado alguém
capaz de ajudá-lo a discernir.
Assim também
acontece conosco. Nem sempre reconhecemos a voz de Deus na primeira vez.
Podemos confundi-la com medo, obrigação, desejo pessoal ou expectativa alheia,
por isso, a vocação necessita de silêncio, oração, acompanhamento, comunidade e
tempo. Precisa de interioridade e de pessoas que, como Eli, ajudem-nos a
reconhecer o chamado de Deus.
O Papa Leão
XIV tem recordado que a vocação nasce no mais profundo do coração, como
descoberta de um dom gratuito que Deus faz florescer em nós. Não é imposição
nem destino fechado, é encontro, diálogo e resposta de amor. A interioridade,
portanto, não é fuga do mundo, mas o lugar onde a vida reencontra sua fonte.
Quem guarda o coração volta à realidade com maior inteireza.
Sobre traçar
novos mapas de esperança, o Papa afirma que os jovens desejam profundidade e
precisam de espaços de silêncio, discernimento e diálogo com Deus. Essa
necessidade também alcança os adultos. Quantas pessoas passam anos cumprindo
tarefas e sustentando responsabilidades, mas já não perguntam o que Deus deseja
fazer florescer em suas vidas? Continuam caminhando, mas perderam o sentido do
caminho.
Falar de
vocação é, portanto, falar do modo como Deus nos chama a amar. Existe a vocação
de quem educa, cuida de uma pessoa enferma, constitui família, trabalha com
honestidade, serve à comunidade, consagra-se ao Reino ou permanece fiel em
tarefas pequenas e quase invisíveis.
Toda vocação
verdadeira nasce do amor e se concretiza no serviço. Sem serviço, o chamado
transforma-se em vaidade. Sem amor, a missão torna-se peso. Sem escuta,
corremos o risco de confundir nossos desejos com a vontade de Deus.
Jesus também
chamou pelo nome. Chamou Pedro e André à beira do lago, Mateus na coletoria,
Zaqueu sobre uma árvore e Maria Madalena no jardim da ressurreição. O chamado
de Jesus nunca fecha a pessoa em si mesma, ele a coloca a caminho, na direção
do cuidado, da misericórdia, da justiça e do anúncio do Reino.
Talvez a
principal pergunta vocacional não seja ‘O que eu quero ser?’, mas ‘Onde Deus me
chama a amar mais?’. Essa pergunta retira a vocação do campo da aparência e a
devolve ao campo da entrega. A vida não é apenas carreira, produtividade ou
reconhecimento, a vida é resposta, é dom recebido e devolvido em forma de
serviço.
Neste mês vocacional,
tenhamos coragem de silenciar, levantar o olhar e escutar a vida com
reverência. Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez chegue aos
poucos, como a luz entrando pela janela, o café perfumando a casa ou a semente
germinando escondida na terra, mas Deus continua chamando e chama cada pessoa
pelo nome.
Senhor,
ensina-nos a escutar. No meio dos medos, dá-nos confiança. No meio das dúvidas,
concede-nos discernimento. Ajuda-nos a reconhecer tua voz nos encontros que nos
humanizam, nas dores do mundo que pedem cuidado e nos dons que colocaste em
nós. Dá-nos coragem para responder, humildade para caminhar e generosidade para
transformar a vida em serviço. Amém.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/deus-nos-chama-pelo-nome.html