domingo, 22 de março de 2026

Lectio divina, sinodalidade… e teocracia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Geraldo González y Lima, OSB

Abade do Mosteiro São Geraldo de São Paulo

 

‘Muitas das nossas comunidades monásticas vivem momentos difíceis com o envelhecimento de seus membros, a falta de vocações, as consequências sócio econômicas da pandemia, das mudanças climáticas etc, e devem tomar decisões complexas com respeito ao presente e ao futuro próximo.

Neste contexto, recebemos um apelo renovado do Papa Francisco para utilizar a tradição e a sabedoria do conceito de sinodalidade, na qual cada um é convidado a escutar e a ser escutado.

Quando se pensa em sinodalidade em termos beneditinos, pensa-se logo em RB 3 (cap. 3 da regra de São Bento) em que todos são chamados a conselho, incluindo os mais novos. No entanto, diante das decisões complexas e, às vezes com fortes consequências para as nossas comunidades, perguntamo-nos se somos uma ‘monarquia’, ou uma ‘democracia’, e a mesma tradição monástica nos lembra que não somos nem uma coisa, nem outra, mas uma ‘teocracia’, entendida como a comunidade que procura junta a vontade de Deus e sua realização concreta na vida.

Como então harmonizar ‘sinodalidade’ com ‘teocracia’ para procurar a vontade de Deus e sua realização nas nossas comunidades, segundo a tradição beneditina?

Uma vez mais a tradição monástica beneditina dá-nos um instrumento precioso : a lectio divina partilhada, comunitária! Usamos esse instrumento? Proponho essa possibilidade baseada na leitura bíblica dos discípulos de Emaús (Luc. 24, 13 – 35) :

‘13 Nesse mesmo dia, dois deles viajavam para um povoado chamado Emaús, a duas horas de caminho de Jerusalém, 14 e conversavam sobre todos esses acontecimentos.’

Nos caminhos e na história de salvação das nossas comunidades, falamos de tudo o que acontece, quer sejam momentos de dúvida e de dor, ou de felicidade e de alegria? Vale a pena lembrar que quando partilho uma dor, ela é dividida por dois, e quando partilho uma alegria, ela se multiplica.

‘15 Ora, enquanto caminhavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; 16 mas seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo.’

Aonde dois ou três estão reunidos em seu nome, quer dizer numa lectio partilhada, Não caminha Jesus no meio deles? Mesmo se às vezes não o reconhecemos por causa da aridez, ele ‘está’!

‘17 Jesus disse-lhes : que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando? E eles pararam com o rosto sombrio. 18 Um dos dois, chamado Cléofas, lhe perguntou : tu és o único forasteiro em Jerusalém, que ignora os fatos que nela aconteceram estes dias?’

Às vezes começamos tristemente a lectio divina, mas através da sua Palavra, Jesus não deixa de nos interrogar e de procurar a razão da nossa tristeza. Persevero na procura de Deus?

‘19 Ele disse-lhes : Quais? Responderam : o que aconteceu a Jesus o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo. 20 nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21 Nós esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel; mas com tudo isso, faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22 É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo 23 e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que tinham tido uma visão de anjos a declararem que está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres haviam dito; mas não o viram’.

Na lectio divina não encontramos constantemente a paixão, morte e ressurreição de Jesus? E na lectio não encontraremos o sentido da paixão, da morte e da ressurreição de nossas comunidades?

‘Sei que é Páscoa, porque mereci a alegria de te ver’ diz São Bento ao sacerdote que o foi visitar a Subiaco para celebrar a Páscoa com ele (II Dial. 1).

‘25 Ele então lhes disse : insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! 26 Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória? 27 E começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.’

Por conseguinte, na lectio Jesus não nos fala da sua história de salvação e da nossa? Contudo para ter esta ‘inteligência’, quero dizer para fazer esta leitura divina dos acontecimentos baseados nas Sagradas Escrituras, é preciso sempre pedir a ajuda do Espírito Santo.

‘28 Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. 29 Eles, porém, insistiram dizendo : Fica conosco porque cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles. 30 E uma vez â mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o e depois partiu-o e distribuiu-o a eles. 31 Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém ficou invisível diante deles.’

Partilhando ‘a mesa da Palavra’, o ambão e partilhando a ‘mesa do Pão’, o altar, não reconhecemos quem é Jesus? Na sua Palavra partilhada não ‘permanece’ ele conosco?

‘32 E disseram um ao outro : Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras? 33 Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros (…)’

A lectio divina partilhada nessas ‘mesas’ não torna ardente os nossos corações? Não transforma a tristeza em alegria, e a falta de sentido em esperança? A lectio divina partilhada não nos dirige para a Jerusalém celeste, a Cidade da paz aonde se realiza a vontade de Deus sobre nós?

Não nos pergunta São Bento ‘que página, com efeito, ou que palavra da autoridade divina no Antigo e no Novo Testamento não é uma norma retíssima da vida humana? (RB 73, 3)

‘(…) que lhes disseram : 34 É verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35 E eles narraram os acontecimentos do caminho e como haviam reconhecido o Senhor na fração do pão.’

Não nos leva a lectio divina partilhada a ressuscitar com Jesus? Não seria também o caminho da ressurreição das nossas comunidades? Na lectio partilhada não fazemos a experiência do encontro com Jesus e do discernimento da vontade de Deus o Pai pelo Espírito Santo?

Não é este o sentido do ‘Suscipe me’ nas nossas comunidades : ‘Recebe-me Senhor, segundo a tua palavra e terei a vida, e não confundas a minha esperança’ Sal. 118, 116 ?

 Senhor,

Partilhando a tua palavra

Nós te reconhecemos no Pão da Vida

E na história da nossa salvação

Amem’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123