Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Quando a condescendência divina escolhe alguém
para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida
todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização… Eis quanto se
realizou sobretudo no grande São José.’
O Evangelho chama José de homem justo, como eram
chamados os antigos patriarcas de Israel. Ele, como aqueles, acreditava no amor
de Deus para com o seu povo e a humanidade inteira e esperava pelo cumprimento
da promessa da salvação, de uma salvação que viria do alto. Então se achava
envolto em primeira pessoa nesta extraordinária aventura.
Os evangelhos de Mateus e de Lucas nos falam de
José na medida em que os acontecimentos de sua vida estão relacionados com o
nascimento e a infância de Cristo; eles não tiveram nenhuma intenção de
escrever uma biografia de José. Mateus (1,1-16), querendo explicar a
descendência davídica do Messias, escreve a genealogia de Jesus e conclui com
estas palavras : ‘Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus
chamado de Cristo’ (16). Desse modo, o evangelista lhe assegurava a
descendência de Davi, pois, para os hebreus, o que tinha valor era a
paternidade legal.
Quanto a não haver nenhuma dúvida a respeito da
concepção virginal de Cristo por obra do Espírito Santo, Mateus continua : ‘Eis
como aconteceu o nascimento de Jesus Cristo : sua mãe Maria, sendo prometida a
José, como esposa, antes de coabitarem, encontrou-se grávida por obra do
Espírito Santo’ (1-18). Quando José soube que Maria esperava um filho,
concebido sem a sua participação, não sabia o que pensar. Maria, por sua, vez
não podia explicar, pois era muito grande o mistério. Como para ela, também
para seu esposo era necessária uma luz divina.
José, sendo um homem justo, não quis repudiar sua
esposa e, antes de comunicar o acontecimento aos parentes de Maria, invocou a
ajuda de Deus. Sua oração foi ouvida e ele escutou : ‘José, filho de Davi, não
tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque aquele que foi gerado nela
é obra do Espírito Santo. Eis que ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus’
(Mt 1,20-21). Nesse momento, em que o véu do mistério estava um pouco
descoberto, os dois cônjuges puderam passar a viver juntos e toda a sua
existência foi dirigida para uma terceira pessoa : o filho que, vindo do alto,
tinha vindo morar entre nós.
O evangelista Lucas, depois de ter descrito a
anunciação a Maria e sua visita a Isabel, narra-nos outros episódios da
infância do Messias. Antes de tudo, o seu nascimento. Jesus nasceu em Belém,
pois José, da casa de Davi, deveria se transferir com sua esposa para essa
cidade para fazer o recenseamento ordenado pelos romanos. O menino nasceu em um
ambiente pobre, recebeu homenagem de pastores simples e mais tarde de nobres
reis magos. No oitavo dia foi circuncidado e José impôs-lhe o nome de Jesus,
como Deus lhe havia ordenado. Foi levado também a Jerusalém, como ordenava a
lei de Moisés, para ser apresentado ao templo. Nessa ocasião, tiveram a
oportunidade de ver o regozijo do velho Simeão e da profetiza Ana, mas ouviram
também a profecia que Simeão fez a respeito do menino : será sinal de
contradição.
O evangelista conta que José cuidou do menino e de
sua mãe e percebeu que não havia lugar para eles em Israel, por inspiração
divina tomaram o caminho do exílio para o Egito. Retornaram para a pátria
somente depois da morte do feroz Herodes, autor da matança dos inocentes. Não
permaneceram na Judeia, onde reinava o filho de Herodes, que não era diferente
do pai. Preferiram ir para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde como bom
carpinteiro poderia ganhar o suficiente para manter a família.
O único episódio desse período, descrito no Novo
Testamento, é o desaparecimento de Jesus em Jerusalém. Ele foi com seus pais
para a festa da Páscoa. Depois de três dias de angústia de seus pais, ele foi
encontrado entre os doutores da lei. Jesus disse aos seus pais : ‘Por que me
procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49)
Em seguida, o evangelista acrescenta : ‘Retornou a Nazaré e lhes era submisso’
(Lc 2,51).
Nesse ponto o evangelista silencia. Nós não temos
palavras humanas adequadas para descrever o que se passou com aquela família,
onde a vida trinitária vivia a cada dia a experiência humana. Isso por trinta
anos, durante os quais Jesus crescia em idade, sabedoria e graça. ‘Trinta anos
dos quais quase nada se conhece. É um mistério. O mistério do amor. O mistério
do amor divino e humano entre coração de carne, vestido de virgindade. Ninguém
o compreendeu. Alguma coisa nós só saberemos no Paraíso, na proporção de quanto
na Terra os tivermos amado e seguido.’
‘Na família de Nazaré, Maria certamente educava,
mas educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia
com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho,
obedecendo-lhe. Por outra parte, Jesus Menino – Ele era o guia da família de
Nazaré, porque era Deus – estava também submisso a Maria e a José, como diz a
Escritura. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos outros, pois era
tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e porque Maria sem dúvida lhe
terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à mãe de Deus. De tudo
isto se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro
ponto de vista, obedeciam.’
Durante a vida pública de Jesus não se diz nada de
José, somente no início, quando as pessoas, diante da sabedoria e da autoridade
com que o jovem rabino ensinava e do seu poder de realizar milagres,
perguntavam-se estupefatas : ‘Não é ele o filho de José?’ (Lc 4,22). Mas José
já havia cumprido sua missão e não parece que ainda estivesse vivo naquela
terra.
Na linguagem que se tornou tradição, José é chamado
o suposto pai de Jesus. Se de uma parte esse título salvaguarda a concepção
virginal de Cristo, de outra não exprime plenamente a relação de paternidade
existente entre José e o Salvador. Um autor medieval já tinha observado que ‘José
foi o verdadeiro pai em ordem ao Matrimônio’, embora ‘suposto pai em ordem à
geração corporal’. São Tomás de Aquino acrescentou : ‘José é ao mesmo tempo tanto
pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas do
vínculo matrimonial’.
Por causa dessa relação especial com Jesus e Maria,
José sempre foi muito venerado na Igreja. Pio IX, resumindo a herança dessa
longa tradição, proclamou-o patrono da Igreja Universal e Leão XIII o indicava
como modelo de todas as famílias cristãs. Bento XV escreveu : ‘A casa divina,
que José governou (…) continha os princípios da igreja nascente (…). Como
consequência disso, o santo patriarca deve sentir como confiada a si, por essa
especial razão, toda a multidão dos cristãos’. Pio XII o propôs como exemplo
para todos os trabalhadores e fixou o dia 1º de maio como Festa de São José
Trabalhador, que ‘enobreceu o trabalho humano, sustentado e animado pela convivência
de Jesus e Maria’ e ‘exercendo sua arte com empenho e virtude admiráveis,
tornou-se o mestre de trabalho do Cristo Senhor que não desdenhou ser chamado
filho do carpinteiro’.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/sao-jose-esposo-da-bem-aventurada-virgem-maria-seculo-i.html