Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Antes da chegada dos europeus na África já existia
a realidade da escravidão seja acima como abaixo do Deserto do Saara. A
escravatura não nasceu com os países europeus, mas ganharam com eles dimensões
nunca vistas, pois a escravidão ganha uma nova dimensão com comércio
transatlântico. Quando os europeus avistaram África pela primeira vez no século
XV, encontraram reinos bem organizados, alguns deles envolvidos num sistema de
captura, servidão e comércio de pessoas.
Estrutura social e comércio de pessoas
A África estava inserida em redes de comércio de
escravos antes dos europeus. O comércio transaariano e árabe,por exemplo, levou
milhões de africanos para o Norte de África, Oriente Médio e Ásia. Alguns
reinos africanos participavam da economia baseada na escravidão, trocando
cativos por sal, tecidos, ouro e, mais tarde, por armas.
Em algumas regiões, a escravatura fazia parte da
própria estrutura social e alguns reinos dependiam dela para sustentar a
economia e afirmar o seu poder político. Prisioneiros de guerra, devedores,
condenados por crimes de natureza civil ou povos considerados de fora podiam
ser transformados em escravos, ou seja, o risco da escravização era um fenómeno
que fazia parte da vida política africana.
Outro elemento que foi se consolidando com o tempo
foi a constituição de algumas cidades como mercados para o comércio de
escravos. Cidades como Benim ou Timbuktu tinham praças de venda onde as elites
africanas comercializavam pessoas capturadas em guerras ou disputas internas.
Quando os portugueses, por exemplo, começaram a negociar, não inventaram nada,
entrando num sistema que já funcionava, comprando aquilo que os próprios
africanos vendiam. Só mais tarde o tráfico transatlântico transformaria este
comércio numa engrenagem global.
O que mudou com a chegada europeia não foi a
existência da escravatura, mas a sua escala e intensidade. Armas de fogo,
tecidos e bens de maior valor oferecidos pelos portugueses e, depois, por
outras potências europeias aumentaram drasticamente o número de guerras
internas. Alguns reinos africanos passaram a depender desse comércio para
manter seu poder militar e político. Com colaboração ativa de elites locais,
chefes de guerra, comerciantes e governantes é que o tráfico atlântico atingiu
a dimensão que atingiu.
Diversificação de formatos
A escravatura praticada na África não era uniforme,
existindo formas mais brandas em que o escravisado era integrado na servidão
doméstica, mas também existiram formas extremamente violentas com trabalho
forçado em larga escala, deportações internas, castigos severos e utilização de
cativos como moeda diplomática.
Houve povos e líderes africanos que resistiram
ativamente em relação tanto da escravatura interna como ao tráfico
transatlântico. Em certas regiões do Congo, houve tentativas de restringir e
mesmo de proibir o comércio de escravos com europeus. Além do mais, pessoas que
haviam fugido fundaram comunidades livres em zonas de difícil acesso.
A grande responsabilidade europeia está na
industrialização do tráfico de pessoas pela exploração de rivalidades entre
tribos, pelo favorecimento a chefes de guerra que lucravam com a venda de
prisioneiros.
Os europeus ampliaram a sistemática da escravatura
e a transformaram num negócio internacional de escala brutal e muito lucrativo.
Por isso, a escravidão de pessoas continua sendo uma das chagas mais profundas
da história da humanidade em todos os formatos, em todos os tempos e lugares.’
Fonte : *Artigo na íntegra