Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Já falamos
aqui em outras ocasiões que para a África não pode ser aplicado o mesmo
critério de periodização histórica que se usa, por exemplo, para a Europa.
Enquanto a Europa cristã em sua maioria vivia a Idade Média, a África vivia em
outra realidade histórica, política e cultural. Porém, é interessante o uso
dessa mesma periodização para entendermos o que se passou no Continente
Africano nos séculos XIX e XX e, sobretudo, o processo de sua descolonização,
independência e autonomia.
Entre 1884
e 1885 aconteceu a chamada Conferência de Berlim que reuniu potências
europeias, os Estados Unidos e o Império Otomano para estabelecer regras de
ocupação e comércio na África, impulsionando o imperialismo e a reconfiguração
colonial do continente.
Entre 1880
e 1920, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial se deu a
conquista militar e ocupação europeia. O continente africano foi dividido numa
série de impérios cada um tendo uma potência como sua metrópole dominante.
Nesse mesmo período em 1910 a Inglaterra concedeu
independência à minoria branca na África do Sul, o que se transformaria numa
das bases da triste política do apartheid.
Esse domínio
colonial se manteve entre 1920 e 1960. No período posterior à
Segunda Guerra Mundial, mais especialmente entre 1945 e 1960 cresceu
a formação de sindicatos, associações, partidos políticos e grupos armados
africanos empenhados na luta pela independência.
O Período
Pós-Colonial africano
Impulsionado
por uma série de fatores entre 1955 a 1965 aconteceu o
processo de independência da maior parte dos países africanos que em alguns
casos se deu de forma mais pacífica e em outros com guerras de libertação.
Desta fase temos alguns fatos de destaque :
·
Entre 1961 a 1974 : Guerras de libertação nas colônias africanas de
Portugal.
·
Em 1965 : Minoria branca da colônia inglesa da Rodésia do Sul
promove uma ‘declaração unilateral de independência’ e instaura um regime de
segregação racial.
·
De 1974 a 1975 : Independência das colônias africanas de Portugal.
·
Em 1980 : A Rodésia do Sul passa a se chamar Zimbábue com o fim do
regime de segregação racial.
·
Em 1989 : O Sudoeste Africano passa a se chamar Namíbia com o
fim da ocupação ilegal pelo regime sul-africano que sucedeu à dominação alemã.
·
Em 1994 : Fim do sistema de segregação racial, apartheid, na
África do Sul; Nelson Mandela vence as primeiras eleições democráticas para
presidente.
· Anos
2000 : Movimento conhecido como ‘Primavera Africana’, com a ação de
movimentos populares de libertação em vários países do norte da África derruba
ditaduras e governos.
A
descolonização africana
O processo de
descolonização foi longo e dolorido em várias das antigas colônias. Se em
alguns casos as elites privilegiadas africanas se organizavam para obter a
independência, por outro lado, essa mesma elite não atendia os interesses da
grande maioria da sociedade. Em algumas comunidades africanas surgiram milícias
inspiradas no marxismo, que também desejavam a independência e a tomada do poder.
Dessa forma,
dentro do processo de independência, grupos africanos passaram a se enfrentar
dentro de um mesmo país como foi o caso de Angola, num movimento que levou à
guerra civil. Quase todas essas guerras foram patrocinadas pelos Estados Unidos
ou pela União Soviética como parte do processo de Guerra Fria.
Em algumas
situações, a própria pluralidade étnica levou e continua levando como acontece
em Ruanda ao enfrentamento de diferentes grupos étnicos durante e após as
guerras de independência dentro do próprio país.
A luta pela
independência teve início em 1956 (ano em que a Tunísia se tornou independente)
e terminou em 1974, quando as colônias portuguesas receberam sua autonomia,
depois da Revolução dos Cravos em Portugal.
Os últimos
países africanos a alcançarem a independência, já na década de 1990, foram a
Namíbia e a Eritreia, que tinham ficado sob administração, respetivamente da
África do Sul e da Etiópia, ao abrigo de uma antiga tutela da Sociedade das
Nações. Hoje ainda acontece o movimento de libertação em algumas regiões que pleiteiam
a sua independência.
Problemas que
continuam
Os problemas
sociais, políticos e econômicos desses novos países africanos ainda hoje são
extremamente graves com governos autoritários que atuam de forma truculenta,
mantendo a exploração social e se enriquecendo de forma ilícita.
As antigas
fronteiras territoriais impostas pelos europeus na Conferência de Berlim (1885)
se mantêm quase inalteradas, gerando rivalidades entre os Estados, tribos e as
diversas etnias. Golpes de governo se sucedem em quase todas as partes. O
interesse econômico internacional pelas riquezas africanas incentiva as guerras
civis, como é o caso do Congo ou entre os países africanos.
Existe o
desconhecimento ou a intolerância mundial para com a cultura africana ainda
taxada como primitiva, fazendo com que com poucos compreendem efetivamente a
riqueza e a importância das tradições africanas. Em alguns casos as ideologias
racistas, que se impuseram pelos interesses europeus ainda perduram na
mentalidade ocidental e nos próprios países justificando a falta de atitude das
organizações internacionais para socorrer esses novos Estados ainda em profunda
crise. E por fim, citamos a chegada de grupos radicais islâmicos que agem
em diversas regiões levando a guerra, a destruição, mortes e milhares de
deslocamentos.
A África hoje
é composta por 54 países independentes e uma riqueza inumerável de idiomas e
etnias - muitas das quais ainda em conflito.’
Fonte : *Artigo na íntegra