Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A cada ano,
no dia 27 de janeiro, diversos países celebram o Dia Internacional em Memória
das Vítimas do Holocausto, data estipulada pela Organização das Nações Unidas
para lembrar as atrocidades cometidas, sobretudo, contra os judeus e outras
minorias durante a Segunda Guerra Mundial.
O que muita
gente não conhece são as profundas e antigas feridas deixadas pela Alemanha na
Namíbia, no que agora é reconhecido como um genocídio praticado por forças
coloniais.
O fato se
refere aos anos 1904-1908, quando a atual Namíbia era uma colônia alemã no
sudoeste da África. Milhares de pessoas foram mortas pelas forças coloniais na
repressão dos levantes organizados por dois dos principais povos existentes na
região, os herero e os nama, matando uma parte dos revoltosos e levando os
demais para o deserto de Omaheke, no leste do país, onde muitos foram
condenados a morrer de fome.
Os
sobreviventes acabaram usados como mão-de-obra escravizada. Os que não morriam de
fome, morriam de exaustão, sede ou tiros. O estupro de mulheres foi
também sistemático.
Origem dos
conflitos e motivos da repressão
As fronteiras
do chamado ‘Sudoeste Africano Alemão’, foram definidas em 1890, e ali se
estabeleceu uma colônia, diferente das demais possessões da África. Primeiro os
colonos começaram a chegar às cidades da costa atlântica que era bastante
desértica, para depois alcançarem o interior. As autoridades coloniais
consideravam a terra ideal para a criação de gado e logo os colonos alemães
entraram em contato com os povos nativos, os Nama e Herero.
No início, as
relações dos alemães com o povo Herero eram relativamente cordiais, inclusive
eles se converteram ao cristianismo e aceitaram a presença alemã.
Tanto os
Namas como os Hereros assinaram tratados de proteção com a Alemanha e os dois
grupos acabaram perdendo influência, gado e terras para os colonos.
Em 1897, uma
epidemia de peste bovina dizimou grande parcela do rebanho de gado que era
crucial para a riqueza dos Hereros, mas também para a sociedade em geral. Em
1903, menos de 5.000 alemães viviam em colônias, porém, precisavam de extensas
terras para a agricultura. As autoridades coloniais reconheceram isso e usaram
várias táticas para desapropriar as terras e os rebanhos bovinos dos Hereros,
mesmo que isso significasse violar os tratados assinados anteriormente.
O racismo, a
aplicação desigual da lei para indígenas e para colonos alemães, os maus-tratos
aos povos Nama e Herero em terras ocupadas fizeram com que as tensões
aumentassem ainda mais. Uma sentença leve proferida contra um colono que violou
e assassinou a filha de um líder Herero tornou-se o símbolo desse tratamento
desigual.
Em 1904, os
guerreiros Herero mataram mais de 100 colonos alemães. A rebelião ou como os
líderes Herero encararam isso, uma ação militar para retomar o controle,
provocou ondas de choque que chegaram até Berlim.
Um general
alemão (Lothar von Trotha) assumiu o comando do ‘Sudoeste Africano Alemão’ em
meados de 1904, e milhares de soldados alemães invadiram a colônia, cercaram e destruíram
a capacidade de luta ds hereros.
Começou então
a fase de perseguição e extermínio dos hereros e estima-se que foram mortos
cerca de 75 mil pessoas, homens, mulheres e crianças Herero, cerca de 75% da
população. Morreram de sede, de fome, exposição e excesso trabalho nos frios e
áridos campos de concentração. De 10 a 20 mil namas também morreram durante o
regime colonial. Em comparação, as forças alemãs sofreram menos de mil baixas.
Reconhecimento
tardio
Durante boa
parte de sua história ao longo do séxulo XX a região da Namíbia era dependente
da África do Sul até conseguir sua independência em 21 de março de 1990, após a
Guerra de Independência da Namíbia. Começou então a luta pelo reconhecimento do
genocício que foi reconhecido pela ONU em 1985.
Numa
declaração bilateral conjunta completada em 2021, a Alemanha reconheceu o
massacre e não genocídio cometido, prometendo cerca de 1,1 bilhão de euros ao
Governo da Namíbia como compensação, a serem pagos nos próximos 30 anos.
Embora a
Alemanha tenha formalmente pedido desculpas por ter cometido um crime que, na
perspectiva atual, seria considerado um genocídio, não reconheceu os
acontecimentos de 1904-1908 como um genocídio no sentido jurídico. Isso
significa que a Alemanha não se considerava obrigada a pagar reparações.
Os líderes
Herero e Nama dizem que nunca foram consultados, nem diretamente envolvidos nas
negociações, já que o acordo foi entre a Alemanha e o Governo da Namíbia e não
com grupos afetados. Em janeiro de 2023, advogados das comunidades Nama e
Herero defenderam que a declaração conjunta germano-namibiana fosse declarada
inválida por violar vários artigos da Constituição da Namíbia.’
Fonte : *Artigo na íntegra