quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fulton Sheen e a missão como responsabilidade de toda a Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo com informações da Agencia Fides


‘Há episódios do Concílio Vaticano II que permanecem nas margens da memória conciliar, embora ajudem a compreender algumas de suas intuições mais profundas. Um deles envolve o bispo estadunidense Fulton J. Sheen, cuja participação na elaboração do decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, contribuiu para ampliar a própria pergunta sobre o que significa fazer missão. Entre os quase 2.500 bispos que participaram das quatro sessões conciliares, entre 1962 e 1965, Sheen foi membro da Comissão para as Missões e o único representante dos Estados Unidos a permanecer nessa comissão durante todo o Concílio.

Sua presença em Roma também se inscrevia numa relação pessoal com João XXIII. Antes mesmo da abertura do Concílio, Sheen havia percebido que algo novo estava se formando na Igreja. Em 1959, durante uma peregrinação a Lourdes, chamou sua atenção a multidão de peregrinos simples e pobres. ‘Eis a Igreja dos pobres’, teria dito a um companheiro, expressão que antecipava uma preocupação que levaria posteriormente à assembleia conciliar. O vínculo com o Papa Roncalli era igualmente significativo : como diretor nacional da Pontifícia Obra para a Propagação da Fé, Sheen encontrava-se anualmente com João XXIII, que lhe confidenciou, antes do anúncio público, sua decisão de convocar o Concílio.

A pergunta que mudou o foco da missão 

A contribuição mais expressiva de Sheen apareceu durante o debate sobre o esquema que daria origem ao decreto Ad Gentes. Em 9 de novembro de 1964, depois de numerosas críticas à primeira versão do texto, o bispo propôs uma mudança aparentemente simples, mas teologicamente significativa. Em vez de perguntar ‘O que são as missões?’, sugeriu perguntar : ‘Onde estão as missões?’

A mudança de perspectiva colocava em questão uma concepção geográfica da missão. Para Sheen, não bastava identificar como missionários os territórios classificados como ‘não cristãos’. Havia também dioceses extremamente pobres, com escassez dramática de sacerdotes, que necessitavam da solidariedade de toda a Igreja, embora não fossem oficialmente consideradas territórios de missão. Ele recordava bispos que lhe pediam ajuda vindos de regiões nas quais havia apenas poucos sacerdotes para áreas imensas. A questão, portanto, deixava de ser apenas administrativa : pode uma Igreja necessitada ser considerada menos missionária simplesmente porque não se encontra dentro de uma determinada categoria jurídica?

Nesse raciocínio aparece uma das ideias mais fecundas de sua intervenção : a missão não deveria ser compreendida como uma tarefa de uma parte da Igreja em benefício de outra, mas como uma responsabilidade comum. Sheen contestava divisões excessivamente rígidas entre ‘Igrejas novas’ e ‘Igrejas antigas’. Para ele, a Igreja é um único Corpo de Cristo, cujos membros dependem uns dos outros. Por isso, defendia mecanismos de coordenação que permitissem responder às diferentes necessidades missionárias presentes no mundo.

Uma Igreja que não pode esquecer os pobres 

A questão da pobreza ocupava um lugar central nessa visão. Quando um dos padres conciliares propôs retirar do texto as referências à pobreza, Sheen defendeu justamente o contrário. Recorreu à imagem do globo terrestre para mostrar a concentração geográfica das desigualdades e apontou para a realidade de África, Ásia e América Latina.

Mas seu argumento ia além de uma análise econômica. A experiência de suas viagens pela América Latina e pela África havia transformado sua maneira de compreender a pobreza. Ele próprio escreveria posteriormente que começara a pensar menos no ‘problema da pobreza’ e mais nos pobres. A distinção é importante : deslocar o olhar de uma questão abstrata para rostos concretos significa reconhecer que a missão cristã acontece no encontro com pessoas e comunidades concretas.

Foi nesse contexto que Sheen formulou uma das frases mais marcantes associadas à sua participação no Vaticano II : ‘Como a castidade foi o fruto do Concílio de Trento e a obediência o fruto do Concílio Vaticano I, assim o espírito de pobreza seja o fruto deste Concílio Vaticano II.’ E acrescentou : ‘Somente uma Igreja ferida pela pobreza pode converter um mundo cético.’

A expressão ‘Igreja ferida pela pobreza’ contém uma inversão interessante. A pobreza deixa de ser apenas uma realidade diante da qual a Igreja exerce caridade e passa a interrogar a própria Igreja. Não se trata simplesmente de uma Igreja que ajuda os pobres, mas de uma Igreja que permite que a realidade dos pobres transforme suas prioridades, sua sensibilidade e sua maneira de cumprir a missão.

O bispo : não apenas para uma diocese 

O texto final de Ad Gentes, aprovado por ampla maioria, incorporou diversos elementos que convergiam com as preocupações apresentadas por Sheen : a responsabilidade da Igreja para com os pobres, a necessidade de coordenação da atividade missionária e uma compreensão ampla da responsabilidade episcopal. O decreto afirma que o bispo não é consagrado apenas para uma determinada diocese, mas também para a salvação do mundo inteiro.

A mesma lógica apareceu em sua participação na elaboração de Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal. Sheen defendia que os seminaristas tivessem contato direto com doentes, pobres, não católicos, católicos afastados da fé, presos e trabalhadores, além de passarem períodos nas missões com falta de pessoal. A intenção era fazer com que a formação pastoral não permanecesse restrita ao ambiente protegido do seminário, mas colocasse o futuro sacerdote em contato com as periferias humanas e eclesiais.

Sheen também apoiou vigorosamente o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, e interveio em favor de uma reflexão mais ampla sobre a contribuição das mulheres na vida da sociedade. No debate sobre Gaudium et Spes, valorizou especialmente a afirmação da dignidade e da liberdade da pessoa humana e sua relação inseparável com a salvação. Ao mesmo tempo, advertia que a abertura da Igreja ao mundo não deveria significar nem isolamento nem submissão aos critérios do próprio mundo.

A difícil palavra ‘mundo’ 

É justamente aqui que aparece uma das chaves para compreender o pensamento de Sheen sobre o período posterior ao Concílio. Ele não interpretava a abertura ao mundo como uma capitulação. Ao contrário, considerava que a Igreja deveria estar presente no mundo, dialogar com ele e reconhecer os sinais de verdade presentes nas diferentes culturas, mas sem perder a capacidade de discernimento.

Em suas conferências posteriores, Sheen identificou boa parte das tensões pós-conciliares numa confusão em torno da própria palavra ‘mundo’. De um lado, está o mundo como criação de Deus, realidade humana que a Igreja é chamada a amar e servir. De outro, está o ‘mundo’ no sentido bíblico de uma organização da existência fechada a Deus. Confundir essas duas realidades poderia, segundo ele, fazer com que a abertura se transformasse em assimilação.

Por isso, sua compreensão da renovação conciliar pode ser resumida não como rejeição nem como aceitação indiscriminada do mundo, mas como discernimento. Sheen recorria à antiga imagem dos semina Verbi, os ‘sementes do Verbo’ presentes nas culturas e nos contextos humanos. A tarefa da Igreja seria reconhecer essas sementes, ajudá-las a crescer e, ao mesmo tempo, distinguir o trigo do joio.

Uma intuição que permanece atual 

Vista a partir de hoje, a contribuição de Fulton Sheen para a reflexão conciliar sobre a missão ganha força justamente porque desloca a questão de fronteiras geográficas para uma pergunta muito mais abrangente : onde a Igreja é chamada a ser missionária?

A resposta que emerge de suas intervenções não se limita aos territórios tradicionalmente classificados como missionários. A missão está também onde há pobreza, falta de sacerdotes, afastamento da fé, sofrimento, exclusão e necessidade de esperança. Está nas dioceses e nas comunidades, mas também na formação dos futuros sacerdotes, no apostolado dos leigos, no diálogo com a cultura e na capacidade da Igreja de reconhecer aquilo que Deus já semeou no coração da humanidade.

É nesse sentido que a figura de Sheen ajuda a reler Ad Gentes : a missão não é um setor especializado da vida eclesial, delegado a alguns organismos ou regiões do mundo. Ela pertence à própria natureza da Igreja. E, para o bispo, essa responsabilidade ultrapassa os limites de sua diocese. A missão começa onde existe alguém a quem a Igreja é chamada a levar a luz da Palavra e o amor de Deus — inclusive quando esse alguém está muito mais perto do que as antigas fronteiras missionárias permitiam perceber.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-09/beatificacao-fulton-sheen-estadunidense-concilio-vaticano-ii.html