Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Ao longo do estudo que estamos fazendo sobre a
História da África, com suas mazelas, mas com sua riqueza cultural, religiosa e
linguística, pudemos perceber como a nova vertente da historiografia moderna
tem incluído essa história no contexto da história das civilizações e na
história mundial.
Nas últimas décadas vem sendo resgatados elementos
importantes da história da África, sua ancestralidade em relação a outras
regiões do mundo. A própria definição do nome do continente ganha realce nessa
relação.
A historiografia trabalha também uma nova versão do
conceito de ‘descobrimento’, porque numa visão anterior, falava-se do
descobrimento a partir da chegada de alguns povos europeus a partir dos séculos
XV e XVI. Hoje não se fala em descobrimento como se os povos africanos tivessem
sido achados do nada, mas entende-se como encontro de civilizações com suas
riquezas, diferenças e mazelas. Não se trata mais de falar em termos de
superioridade ou inferioridade, mas de encontro entre diferenças que se
complementam.
Um dos elementos que está sendo reestudado é o da
escravidão. Antes atribuída exclusivamente aos europeus que levaram milhões de
escravos negros para diversas regiões das Américas, agora compreende-se que a
escravidão já era praticada no continente antes mesmo da chegada dos europeus.
Registros da escravidão
Existem registros de comércio e transporte de
escravos ao longo do Deserto do Saara que datam do terceiro milénio a.C., sendo
os mais antigos registros encontrados. Em seu reinado o rei egípcio Sneferu
atravessou a quarta catarata do Rio Nilo até o que é hoje o Sudão moderno para
capturar escravos e enviá-los para o norte, a fim de trabalhar nas obras do
reino.
Uma das ocorrências que aconteciam com frequência
era a condenação dos prisioneiros de guerra à escravidão. Isso ocorria de forma
regular no antigo Vale do Nilo e na África. Em geral, quando dois exércitos se
encontravam, o mais forte ou vencedor se julgava no direito de dispor da vida
dos derrotados como mão de obras em seus empreendimentos. Alguns estudiosos
falam, inclusive, no avanço que a escravidão representou, pois em vez de
decretar a morte dos derrotados, eles eram condenados a uma morte mais lenta,
servindo como mão de obra barata nos trabalhos do reino ou do povo vencedor.
Durante os tempos de conquista e depois de derrotados, os núbios, por exemplo,
foram levados como escravos pelos antigos egípcios.
Nas páginas da bíblia, no Livro do Êxodo, existe
também a narrativa da condenação dos filhos de Jacó e seus descendentes à
escravidão no Egito.
Os Garamantes, por exemplo, também dependiam
fortemente do trabalho escravo da África subsaariana. Eles usaram escravos em
suas próprias comunidades para construir e manter sistemas de irrigação
subterrâneos conhecidos pelos berberes como foggara. O antigo historiador grego
Heródoto registrou no século 5 a.C. que os Garamantes escravizaram etíopes
habitantes das cavernas, conhecidos como Troglodytae, perseguindo-os com
carruagens.
Quando Roma se firmou como potência, no início do
Império Romano, a cidade de Lepcis estabeleceu um mercado para comprar e vender
escravos do interior da África Bantu. Isso se tornaria bastante comum e algumas
cidades se enriqueceram pelo comércio de escravos em seus mercados.
No século V d.C., a Cartago romano também estava
negociando escravos negros trazidos através do Saara, tanto que o império
chegou a impor um imposto alfandegário sobre o comércio de escravos. Escravos
negros parecem ter sido valorizados como escravos domésticos por sua aparência
exótica. Alguns historiadores argumentam que a escala do comércio de escravos
neste período pode ter sido maior do que nos tempos medievais devido à alta
demanda por escravos no Império Romano, seja para os trabalhos forçados como
também pelas lutas onde alguns mais fortes se destacavam como gladiadores.
Claro que, apesar de ter uma origem anterior, a
chegada dos europeus e a constituição dos grandes impérios coloniais fizeram
com que o comércio escravagista assumisse proporções numéricas e de crueldade
nunca vistas.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas0.html