Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Mosteiro de Tautra, Noruega
‘Bem vindo de
volta’, declararam os habitantes da cidade quando chegamos à antiga ilha
monástica de Tautra em fevereiro de 1999 para fundar o primeiro mosteiro
cisterciense da Noruega, desde a reforma de 1537.
‘Não sabemos
o que é um mosteiro, mas se ele deve existir, deve ser aqui’, declarou o
prefeito de nossa cidade, quando em 1992 ele ouviu falar de um grupo de apoio
para um futuro mosteiro cisterciense na Noruega, rezando todo dia às 18 horas,
para a sua realização.
Irmã Ina
Andersen, OCSO, da Abadia de La Coudre em Laval (França) tinha passado um ano
na Noruega, sentindo-se chamada a levar a vida cisterciense em seu país de
origem. Durante um curto retiro para a solenidade de Santo Olavo, o santo
nacional da Noruega, em 29 de julho de 1991, ela partilhou sua visão quando
muitas pessoas se perguntaram como ela havia sido autorizada a deixar a vida de
clausura para aquela ocasião. Todo mundo respondeu com o desejo de rezar toda
tarde às 18 horas, por uma fundação cisterciense no futuro, se Deus quiser.
Para a
solenidade de Santo Olavo no ano seguinte, o novo rei e a rainha vieram em
nossa cidade, Frosta, para começar a segunda metade de sua viagem à costa,
cumprimentando as pessoas (Frosta era o centro de uma de nossas mais antigas
assembleias legislativas, desde, pelo menos o século VIII). O prefeito devia
fazer o discurso e, abrindo o jornal naquela manhã, ele viu nas manchetes : ‘Um
novo mosteiro em Tautra’. Nenhuma grande novidade, apenas a escolha do local de
uma estudante de arquitetura para seu trabalho de conclusão de curso. Mas em
nossa região, era um sucesso. Um novo mosteiro em Tautra? Realmente? O jornal
citou a líder do grupo de apoio rezando pelo mosteiro : ‘Não sabemos o que é um
mosteiro, mas simplesmente rezamos para que ele seja um dia’, ela declarou.
Isto bastava para o prefeito.
Um mês depois
Irmã Ina veio morar numa antiga fazenda ao lado das ruínas do antigo mosteiro
cieterciense de Tautra, fundado em 1207 em Lyse, perto de Bergen (Lyse era uma
antiga fundação de Fountains na Inglaterra a partir de 1146). No verão
seguinte, Irmã Marjoe Backhus da Abadia de Nossa Senhora do Mississipi,
Dubuque, Iowa (Estados Unidos) veio encontrá-la. Sua pequena experiência
monástica terminou um ano mais tarde, quando Irmã Ina caiu doente. Mas um grão
foi semeado. O grupo de apoio contava agora com uma centena de membros que continuavam
a rezar. A Abadessa de Marjoe, Madre Gail Fitzpatrick havia visitado Tautra e
acreditava que Deus queria algo na Noruega. Antes de sua Comunidade votar por
unanimidade, em 1998, para uma fundação na Noruega, o Conselho Municipal de
Frosta decidiu igualmente por unanimidade apoiar as religiosas se elas
voltassem para a sua cidade.
Com sua ajuda compramos a propriedade com pequenas fazendas nessa ilha, no meio do largo fjord de Trondheim, a vinte minutos a pé das ruínas medievais, apoiadas ao mesmo tempo pelo bispo católico e pelo biso luterano de Trondheim.
Éramos sete fundadoras, cinco da Casa mãe de Dubuque. Irmã Ina de Laval e eu, igualmente norueguesas de nascimento, da Abadia Mount Saint Mary, Wrentham (Estados Unidos). Madre Gail nos pediu para esperarmos um ano antes de escolhermos um arquiteto e de começarmos o processo de construção. Isto era importante. Viver em casas norueguesas tradicionais de madeira nos fez compreender, a todas, que não queríamos construir com tijolo e concreto, mas com madeira – e com pedra, se possível. As belas pedras róseas que vimos nas paredes das ruínas eram muito caras.
Depois de
termos trabalhado com três arquitetos durante vários anos, Jan Olav Jensen, que
concebeu o mosteiro, escolheu cobrir a fachada com ardósia, o que nos podia
permitir : um mosteiro de madeira com fachada de ardósia. Sete anos amontoadas
em velhas casas foram difíceis de viver, mas fizeram de nós uma comunidade
única. Atravessar o pátio entre as casas para cada escritório ao longo do dia
nos fez descobrir o clima e os ventos fortes da ilha.
Quando nosso
arquiteto propôs onze jardins interiores no mosteiro, pensamos que era uma
excelente ideia. A economia reduziu o projeto a sete, dando mais luz na casa e
mantendo-nos conectadas. Trabalhando só na cozinha ou na costura, você pode,
através do jardim, ver outras irmãs em seu local de trabalho.
Trabalhamos
longamente para entrarmos em acordo sobre a proposta de concepção da igreja.
Dissemos mais de uma vez : ‘Este projeto, não’, até que o arquiteto propusesse
uma igreja cuja forma fosse próxima da das granjas de nossos vizinhos, mas com
uma vidraça com travas cruzadas, dando sombras quadriculadas. E dissemos : ‘Sim’.
Nosso encarregado de projeto nos preveniu que faria frio no inverno e calor no
verão, mas, mesmo assim, dissemos sim. Queríamos que a igreja se destacasse
claramente, que fosse um farol nesta ilha plana. Com o teto de vidro, reflete
as muitas estufas de nossa cidade, como uma estufa espiritual. Principalmente
durante os mais sombrios meses de inverno, o jogo da luz através das vigas nos
lembra a arquitetura cisterciense medieval.
A rainha
Sonja da Noruega estava interessada em nossa fundação e veio colocar a pedra
fundamental em maio de 2003. ‘Sabem porque é que eu estou aqui hoje?’ perguntou
uma das nossas amigas do grupo de apoio. ‘Éramos seis mulheres juntas em agosto
de 1991, a pensar no que fazer como grupo de apoio. Alguém disse : ‘Elas vão
certamente precisar de dinheiro’. Então, cada uma de nós pôs dez coroas
norueguesas em cima da mesa e abriu uma conta bancária’. A rainha veio para a
consagração da nossa igreja em 2007. Seu apoio e a boa vontade dos vizinhos e
das pessoas, de perto e de longe, assim como de nossos fiéis amigos do grupo de
apoio, foram importantes para nos enraizarmos na cidade e no país.
Quando nos
tornamos autônomas e que seis de nós mudaram sua estabilidade para Tautra, irmã
Ina descobriu que sua vocação era voltar para Laval. Uma das fundadoras voltou
para a Casa mãe antes, e ao longo dos anos elas mandaram duas outras irmãs nos
encontrarem. Três das que entraram em Tautra fizeram sua profissão solene e nossa
atual prioresa, irmã Brigitte Pinot, da França, mudou sua estabilidade para
Trauta em 2017; então, agora, somos onze irmãs professas solenes de seis países
diferentes. Sete outras, de sete países entraram, mas não perseveraram. Graças
ao tempo que passaram conosco, elas contribuíram enormemente para o que somos
hoje, e esperamos que nos tenham aberto mais para uma sociedade multicultural.
Contando nossa postulante, viemos de sete países diferentes.
Quando éramos
12 na comunidade, e que quatro pediram para refletirem sobre sua vocação, irmã
Gilchrist Lavigne que era prioresa na época, concluiu que nosso mosteiro
concebido para 16-18 irmãs, não era suficientemente grande. Quando construímos
o mosteiro, recebemos, ao mesmo tempo, uma ajuda entusiasta de nossa Ordem, da
coleta de fundos de nossas irmãs da Casa mãe e, principalmente de vários
doadores católicos alemães, Bonifatiuswerk, sendo o mais importante deles, e
pudemos concluir a construção sem fazer nenhum empréstimo. Quando surgiu a
ideia de um acréscimo para uma enfermaria e algumas celas suplementares, nossos
conselheiros financeiros disseram que seria muito difícil obter fundos para
isso. Rezamos como antes e tivemos confiança em Deus que nos ajudaria, se isso
fosse o que deveríamos fazer. Em janeiro de 2021 começamos o novo edifício
escavado no solo da colina em direção ao fiorde, com um teto de erva protegendo
nossa grama e a bela vista do fiorde e das colinas. Ele foi totalmente
financiado. O arquiteto Runa Bjerk realizou cuidadosamente esta ala adaptada e
a parte mais antiga do mosteiro, mas claramente nova e diferente com uma
fachada em madeira de Kebony. Enquanto Jan Olav havia escolhido corredores
longos e estreitos ligando diferentes cômodos, Runa Bjerke criou corredores
largos e curtos, com um teto muito alto e poços de luz. Isto dava uma ideia de
espaço na pequena extensão de quatro quartos de enfermaria (de acordo com as
normas de casa de retiro), dispensário, capela, quatro celas comuns, um salão
como jamais tivemos, com uma pequena cozinha, uma lavanderia, uma sala de
exercício e o que nunca temos o suficiente – despensa!
É
interessante ver como essa nova ala mudou a vida da comunidade. Não temos muito
trabalho em comum numa pequena comunidade; no entanto, esse gênero de atividade
é um bom meio de nos conhecermos melhor. Desde o começo compreendemos que
devíamos estender a mão aos nossos visitantes, convidá-los para o café após a
missa dominical, e que nós mesmas, enquanto comunidade teríamos um café comum
com eles na igreja nas solenidades e no dia da festa das irmãs.
Nosso
refeitório é comprido e estreito, porque todas nós queremos nos assentar de
frente para o fiorde, amando essa visão extraordinária e versátil. Quando
tínhamos nossas pausas para o café de pé, era difícil nos reunirmos em uma
conversa única. Herdamos um sofá de seis lugares e uma mesa para o novo salão.
Agora é onde nos reunimos para tomar café depois da missa, todas incluídas no
círculo e todas participando da conversa.
Desde o
primeiro ano de nossa fundação, nossa produção de sabão, ampliada
posteriormente com produtos para a pele, cobriu grande parte de nossas
despesas. As vendas pela internet nos ajudaram a atravessar o período da COVID
sem perdas perigosas, embora a hospedaria tenha sido fechada por períodos. Ao
longo dos dezoito últimos anos tivemos voluntárias do mundo inteiro vivendo em
nossa hospedaria durante alguns meses, trazendo-nos preciosa ajuda em nosso
trabalho. Uma de nossas irmãs as acompanha durante a sua estada e elas são
profundamente agradecidas pelo tempo passado no meio monástico. O voluntariado
também nos deu vocações.
Nosso
capelão, o Pe. Anthony de Roscrea (Irlanda), fez uma bela horta, fornecendo-nos
legumes frescos o ano todo. Prezamos também o pomar e os muitos arbustos de
bagas da propriedade.
A beleza do nosso mosteiro e a interação com a beleza que nos cerca é uma fonte cotidiana de alegria e de encorajamento e somos felizes em compartilhar isso com nossos benévolos convidados e visitantes. Poucas igrejas na Noruega, dominada por luteranos, são abertas, exceto para os Ofícios, e muitos são agradecidos por encontrarem uma igreja aberta de 4 horas da manhã às 8 horas da noite, ao ponto de nosso Conselho municipal ter escolhido o mosteiro, em 2011, como a coisa mais importante que aconteceu em nossa municipalidade, desde a Segunda Guerra Mundial. E sua razão invocada era, principalmente que a igreja está sempre aberta aos visitantes para virem rezar. Somos agradecidas por vermos quantas pessoas vêm compartilhar nossa liturgia e usam a igreja para a oração silenciosa durante todo o dia.
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124