quinta-feira, 12 de março de 2026

Longe dos holofotes, Sudão ultrapassa mil dias de guerra e vive maior crise atual de deslocamento forçado do mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Milhares de refugiados atravessam a fronteira para o Chade fugindo da violência no Sudão. (Foto: Aristophane Ngargoune/ACNUR)

*Artigo de Gustavo Cavalcante

  

‘Após mais de mil dias de combates ininterruptos e caminhando para completar três anos, a guerra no Sudão consolidou-se como uma das crises humanitárias mais graves atualmente. Sem qualquer solução política à vista, o conflito entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) mergulhou o país em um colapso prolongado, marcado por violência sistemática contra civis, destruição de infraestrutura básica e desintegração do Estado.

Nesse período, o Sudão tornou-se, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a maior crise de deslocamento forçado do mundo, incluindo refugiados e deslocados internos. Desde abril de 2023, mais de 12 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. O número supera o de crises históricas como as da Síria e da Ucrânia, refletindo a velocidade e a escala inéditas da emergência sudanesa.

Metade dessas pessoas deslocadas são crianças, muitas desacompanhadas, expostas a riscos extremos de violência, fome e exploração, tanto dentro do país quanto nos Estados vizinhos que as acolhem.

É nesse contexto que o líder do ACNUR, Barham Salih, realizou sua primeira visita oficial à crise sudanesa, com passagem pelo leste do Chade, principal destino dos refugiados que fogem da região de Darfur, epicentro dos confrontos. Ao encontrar famílias deslocadas múltiplas vezes pela guerra, Salih classificou a situação como uma ‘calamidade humanitária de proporções avassaladoras’.

Após mil dias de guerra

A guerra no Sudão teve início em 15 de abril de 2023, quando confrontos armados eclodiram entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo. O conflito emergiu de disputas pelo controle do poder após o golpe militar de 2021 e rapidamente se espalhou por diversas regiões do país, incluindo a capital, Cartum. Desde então, sucessivas tentativas de cessar-fogo fracassaram, e não houve avanços significativos rumo a uma solução política duradoura.

Ao longo de mais de mil dias de guerra, o Sudão passou por um processo acelerado de fragmentação territorial. Enquanto o Exército manteve maior presença no leste e em partes estratégicas do país, as forças paramilitares consolidaram controle em amplas áreas do oeste, especialmente na região de Darfur. Essa divisão enfraqueceu ainda mais as instituições estatais, comprometeu a administração pública e dificultou o acesso humanitário a áreas sob controle de diferentes atores armados.

A violência escalou sobretudo nas regiões de Darfur, Cartum e Cordofão. Em Darfur, cidades como El Fasher, Geneina e Nyala foram palco de combates intensos, cercos prolongados e ataques contra comunidades civis, forçando deslocamentos repetidos da população. Na capital e em áreas metropolitanas, confrontos urbanos, bombardeios e tiroteios transformaram bairros densamente povoados em zonas de guerra, levando milhões de pessoas a fugir em busca de segurança.

Relatórios de organizações humanitárias e das Nações Unidas documentam ataques sistemáticos contra civis e infraestrutura essencial. Hospitais, mercados, escolas e campos de deslocados foram atingidos ou saqueados, comprometendo gravemente a capacidade de resposta humanitária. Trabalhadores da saúde e equipes de socorro também foram alvo de violência, o que reduziu ainda mais o funcionamento de serviços básicos em áreas afetadas pelo conflito.

Como consequência direta da guerra, o sistema de saúde sudanês entrou em colapso. Mais de 70% das unidades hospitalares deixaram de operar totalmente ou parcialmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A destruição de instalações, a escassez de profissionais e a falta de insumos agravaram o avanço da fome e de doenças evitáveis, como cólera, sarampo e malária. Em um contexto de deslocamento em massa e acesso limitado à água potável e à alimentação, esses fatores ampliaram o impacto humanitário do conflito sobre a população civil.

Epicentro do deslocamento forçado global

Com a intensificação e a prolongação do conflito, o Sudão tornou-se o epicentro do deslocamento forçado global. Dos 12 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas, cerca de 9 milhões permanecem deslocadas internamente, vivendo em condições precárias dentro do próprio Sudão, muitas vezes em áreas de difícil acesso humanitário ou próximas às linhas de combate. As demais cruzaram fronteiras internacionais, buscando proteção principalmente em países vizinhos como Chade, Sudão do Sul, Egito, Etiópia e Uganda.

O fluxo contínuo de refugiados tem imposto pressão sobre as comunidades anfitriãs e a infraestrutura local nos países de acolhida, muitos deles já marcados por fragilidade econômica e crises próprias. Campos de refugiados e áreas de assentamento improvisadas enfrentam superlotação, escassez de água potável, serviços de saúde limitados e sistemas de saneamento insuficientes. A capacidade de resposta humanitária tem sido afetada pelo subfinanciamento crônico, agravando as condições de vida tanto dos refugiados sudaneses quanto das populações locais que os recebem.

A região de Darfur permanece como a área mais afetada pela guerra no Sudão e concentra alguns dos episódios mais graves de violência desde o início do conflito. Cidades estratégicas como El Fasher e Geneina enfrentaram cercos prolongados, combates intensos e sucessivas ofensivas armadas, que resultaram em grande número de mortos, destruição de bairros inteiros e deslocamentos em massa da população civil. A instabilidade persistente dificultou a atuação de autoridades locais e inviabilizou o funcionamento regular de serviços essenciais.

Relatórios das Nações Unidas e de organizações humanitárias registram massacres, ataques direcionados contra grupos étnicos não árabes e o uso sistemático da violência sexual como instrumento de guerra, especialmente em áreas sob controle de milícias aliadas às Forças de Apoio Rápido. Em Geneina e em localidades vizinhas, foram documentadas execuções sumárias, incêndios de vilarejos e perseguições com motivação étnica, levando a acusações de limpeza étnica. Esses episódios contribuíram para a fuga em massa de civis e para o agravamento da crise humanitária na região.

Atualmente, centenas de milhares de civis permanecem sitiados em Darfur, com acesso extremamente limitado a alimentos, água potável, assistência médica e ajuda humanitária. As rotas de fuga disponíveis são consideradas perigosas, frequentemente atravessando áreas de combate ou regiões controladas por grupos armados, o que expõe os deslocados a novos episódios de violência, extorsão e separação familiar. Como resultado, muitas pessoas são forçadas a se deslocar repetidas vezes, sem encontrar condições mínimas de segurança ou estabilidade.

Presença do ACNUR

A crise sudanesa foi a pauta principal da primeira viagem internacional de Barham Salih, novo chefe do ACNUR, que em janeiro deste ano visitou o leste do Chade. A região é atualmente o principal destino de pessoas que fogem da guerra no Sudão (cerca de 400 mil, segundo dados da ONU), especialmente da região de Darfur, e recebe novos refugiados diariamente desde o início do conflito em abril de 2023. A agenda teve como foco a avaliação direta das condições humanitárias e o diálogo com autoridades locais e organizações parceiras.

Durante a visita, Salih esteve em assentamentos que abrigam famílias sudanesas deslocadas múltiplas vezes pela guerra, muitas das quais cruzaram a fronteira após longos deslocamentos forçados e em situação de extrema vulnerabilidade. O Alto Comissário ouviu relatos de violência, perdas familiares e dificuldades de acesso a abrigo, água, alimentação e serviços básicos. As visitas de campo buscaram dimensionar os impactos do fluxo contínuo de refugiados tanto sobre os deslocados quanto sobre as comunidades anfitriãs.

Em declarações públicas, Barham Salih classificou a situação como uma ‘calamidade humanitária de proporções avassaladoras’ e destacou o papel do Chade ao manter suas fronteiras abertas. ‘Ao oferecer proteção, status legal e segurança aos refugiados, o Chade está demonstrando um compromisso fundamental com os princípios da proteção internacional’, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que o país não pode arcar sozinho com a resposta à crise, diante da escala do deslocamento sudanês.

O Alto Comissário fez um apelo direto à comunidade internacional por mais financiamento, alertando para o impacto da redução de recursos sobre a capacidade de resposta humanitária. Em seus pronunciamentos, Salih enfatizou a necessidade de garantir dignidade e proteção internacional às pessoas refugiadas, além de investir em soluções duradouras e no apoio às comunidades anfitriãs, que enfrentam pressão crescente sobre serviços e infraestrutura em razão da chegada massiva de refugiados sudaneses.

A resposta humanitária à crise no Sudão enfrenta grave escassez de recursos, com o financiamento atualmente abaixo de 10% do valor considerado necessário pelas agências das Nações Unidas e organizações parceiras. Esse déficit compromete a capacidade operacional em um contexto de necessidades crescentes, marcado por deslocamentos em larga escala e acesso limitado a áreas afetadas pelo conflito. Como resultado, programas considerados essenciais vêm sendo reduzidos ou suspensos em diferentes regiões.

Entre os impactos diretos dos cortes de verba está a redução de serviços de água, saúde e proteção. Organizações humanitárias relatam o fechamento de espaços seguros para mulheres e crianças, que ofereciam apoio psicossocial, proteção contra violência de gênero e acesso a serviços básicos. A interrupção desses programas tem ampliado a exposição de grupos vulneráveis a riscos adicionais em campos de deslocados e comunidades anfitriãs.

Além disso, agências humanitárias também alertam para o aumento da vulnerabilidade à violência, exploração e trabalho infantil. Diante desse cenário, organizações que atuam na linha de frente apontam sinais de exaustão operacional, destacando que a continuidade da resposta depende de novos aportes financeiros e de acesso humanitário seguro às populações afetadas.

Retornos tímidos

A redução parcial dos combates em Cartum e em algumas áreas do centro do Sudão abriu espaço para retornos limitados de pessoas deslocadas ao longo dos últimos meses. Com a diminuição da intensidade dos confrontos em determinados bairros da capital e em cidades próximas, famílias que haviam fugido durante os momentos mais críticos da guerra passaram a tentar regressar às suas comunidades de origem, após longos períodos de deslocamento interno.

Segundo dados de agências humanitárias, cerca de 2,6 milhões de pessoas tentaram retornar às áreas de onde haviam sido forçadas a sair desde o início do conflito. Esses movimentos ocorreram tanto dentro de Cartum quanto em outros centros urbanos, como Omdurman, Wad Madani e partes do estado de Gezira, impulsionados pela percepção de maior segurança relativa e pela dificuldade de permanecer por longos períodos em locais de acolhimento precários.

Ao chegar, no entanto, muitas famílias encontraram casas destruídas ou danificadas, ausência de serviços básicos e infraestrutura severamente comprometida. Hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água e fornecimento de energia elétrica seguem inoperantes em diversas áreas, dificultando a retomada da vida cotidiana e o acesso a condições mínimas de sobrevivência.

As organizações humanitárias alertam que esses retornos ocorrem em um contexto de insegurança persistente, com presença de grupos armados, risco de novos confrontos e acesso limitado à assistência. Diante da destruição generalizada e da falta de serviços essenciais, os retornos são considerados frágeis e instáveis, com possibilidade de novos deslocamentos caso a situação de segurança volte a se deteriorar.

O que esperar para o futuro

Após mais de mil dias de guerra e perto de completar três anos de guerra, o Sudão expõe de forma clara os desafios enfrentados pelo sistema internacional de resposta a deslocamentos forçados em larga escala. A dimensão da crise, que já deslocou mais de 12 milhões de pessoas, coloca à prova a capacidade das agências humanitárias e dos Estados de garantir proteção, assistência e soluções duradouras em um contexto de conflito prolongado e instabilidade regional.

A atuação do ACNUR ocorre em meio a restrições severas de recursos, com impactos diretos sobre a continuidade de programas essenciais. A escassez de financiamento limita a capacidade da agência de responder ao ritmo acelerado dos deslocamentos, ampliar a assistência nos países de acolhida e sustentar iniciativas de proteção e integração. Nesse cenário, a resposta humanitária depende cada vez mais das decisões políticas e financeiras dos Estados, tanto no apoio às operações quanto na manutenção de políticas de asilo e proteção internacional.

Organizações humanitárias alertam para o risco de o Sudão se tornar uma crise prolongada e gradualmente normalizada, à medida que o conflito se estende e a atenção internacional se dispersa entre múltiplas emergências globais. A continuidade da violência, somada à falta de avanços diplomáticos consistentes, tende a perpetuar ciclos sucessivos de deslocamento, retorno precário e novas fugas. Diante desse cenário, as agências da ONU reiteram que a interrupção do ciclo de guerra e deslocamento depende, em última instância, de uma solução política para o conflito. Sem avanços nesse campo, a crise humanitária no Sudão deve seguir se aprofundando, com impactos duradouros para milhões de pessoas deslocadas e para a estabilidade da região.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/longe-dos-holofotes-sudao-ultrapassa-mil-dias-de-guerra-e-vive-maior-crise-atual-de-deslocamento-forcado-do-mundo/