Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O termo
Zaire para designar um país da África é usado em dois contextos históricos :
Era o antigo nome do país que hoje é conhecido como República Democrática do
Congo (RDC) e também usado para designar a histórica província no noroeste de
Angola.
Entre 1971 e
1997, a atual República Democrática do Congo (RDC) foi renomeada Zaire pelo
ditador Mobutu Sese Seko.
O nome vem de
uma derivação portuguesa do termo local ‘nzadi ou nzere’ que significa ‘o rio
que engole todos os rios’.
Nessa região
existiu o antigo e poderoso Reino do Congo, um dos maiores de toda a África. A
capital, M’Banza Congo, foi fundada em 1390, sendo a maior e mais organizada
cidade da África subequatorial.
Em 1482, o
explorador português Diogo Cão desembarcou na foz do rio Zaire, onde ocorreram
os primeiros contatos com o rei do Congo, que levaram à cristianização da
região, tanto que a cidade de M'Banza Congo abrigou a primeira igreja católica
da África Subsaariana, declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Depois dos
portugueses veio o domínio belga sobre o Congo, período marcado por um dos
regimes mais brutais da história colonial. Na Conferência de Berlim celebrada
em 1885, o território foi entregue ao Rei Leopoldo II como sua colônia privada,
disfarçada sob um título bonito : ‘missão civilizatória e humanitária’.
O foco
principal era primeiro a extração de marfim e depois da borracha para atender à
demanda global. Para forçar o trabalho pesado, o regime impôs cotas de
produção. Trabalhadores enfrentavam castigos físicos severos, espancamentos e
mutilações caso falhassem em atingir as metas. Por causa das doenças, fome,
assassinatos e trabalho escravo aconteceram cerca de 10 milhões de mortes nesse
período. Além disso, as riquezas minerais do Congo foram completamente espoliadas.
Devido às
denúncias internacionais dos abusos o Parlamento belga retirou o controle
pessoal do rei e anexou o território em 1908, transformando-o em colônia
oficial. Embora os níveis extremos de violência tenham diminuído, a exploração
econômica continuou, focada na mineração (cobre, urânio, diamantes), além de um
forte controle cultural e discriminação institucional.
O processo de
descolonização foi precipitado e, em 30 de junho de 1960, o país conquistou sua
independência sob a liderança do primeiro-ministro Patrice Lumumba.
A era Mobutu
Estabelecido
após a independência da Bélgica (1960), com o golpe sob Patrice Lumumba, o
regime de Mobutu impôs uma política conhecida como ‘Authenticité’, apagando
nomes coloniais, forçando também a população a abandonar os nomes cristãos em
favor dos tradicionais africanos. Nese contexto, o Congo foi transformado em
Zaire.
A era de
governo de Mobutu ficou marcada pelo seu estilo extravagante e autoritário de
atuar. Ele adotou para si um extenso nome africano, Mobutu Sese Seko Kuku
Ngbendu Wa Za Banga, e promoveu uma ideologia que buscava africanizar a cultura
do país. Ele ainda promoveu a ‘Mobutização’ da sociedade envolvendo a exibição
de sua imagem por toda parte, desde notas de dinheiro até relógios e, além
disso, sua palavra era lei.
Sob o regime
de Mobutu, o Zaire viu crescer a corrupção em níveis inimagináveis, a má
administração econômica e uma repressão brutal de opositores políticos. Mobutu
acumulou uma riqueza pessoal significativa, enquanto a maioria dos cidadãos do
Zaire vivia na pobreza.
O regime de
Mobutu chegou ao fim em 1997, quando Laurent-Désiré Kabila liderou uma rebelião
apoiada por vários países vizinhos para derrubá-lo. Isso marcou o início de um
período conturbado na história com conflitos e instabilidade persistente.
Depois dele o nome do país voltou a ser Congo.
O legado de
Mobutu continua a afetar o Congo até hoje, com desafios significativos,
incluindo instabilidade política, corrupção, problemas econômicos e sociais. O
país passou por várias mudanças desde a queda de Mobutu, incluindo a transição
para uma república democrática, mas ainda enfrenta desafios complexos enquanto
busca estabilidade e desenvolvimento.
Por outro
lado, o passado colonial tem sido alvo de reavaliações e debates profundos nos
últimos anos. O Rei Philippe da Bélgica expressou ‘profundo pesar’ pelas
feridas históricas do período colonial, e estátuas de Leopoldo II foram alvo de
protestos e remoções.
Nos últimos
tempos leste do país vive um cenário de guerra civil e tensão regional, com
confrontos intensos entre o exército congolês e grupos rebeldes, como o M23.
Ruanda é frequentemente acusada de apoiar os rebeldes do M23, o que mantém a
região em constante instabilidade e risco de escalada militar.
O aumento da
violência e os abusos dos direitos humanos deslocaram milhões de pessoas
internamente. Tentativas de mediação, como as conversações em Luanda, têm sido
buscadas para tentar pacificar a região.
E para
complicar, a República Democrática do Congo (RDC) enfrenta agora no primeiro
semestre de 2026, uma grave crise humanitária e de segurança, agravada pela
emergência de saúde global. O país lida com o recrudescimento de um surto de
ebola na região, A situação levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a
declarar emergência de saúde pública internacional, último estágio antes da
declaração de epidemia.’
Fonte : *Artigo na íntegra