Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Em meio à poeira de um porão, Monique encontra-se deitada em um colchão imundo : rosto abatido, mas com olhos radiantes; ela segura, em seus braços, uma pequena criatura, que chora desesperada. Mas, graças a Deus, sinal que está viva. Monique é um nome fictício, mas a sua história não : é uma imigrante haitiana, trinta anos, que, para escapar da violência das gangues e da profunda crise econômica, em que se encontra seu país; no maior desespero, ela decidiu cruzar a fronteira para a República Dominicana, ano passado. Aquela pequena criatura, aos gritos e pranto, ainda mantém as pálpebras fechadas e o cordão umbilical pendurado. Sua mãe, que pede para permanecer no anonimato, narra a sua história.
Vidas
clandestinas
Monique nunca
sequer pensou em dar à luz em uma unidade de saúde dominicana, pois não possui
os documentos necessários e, atualmente, corre o risco de ser deportada. Então,
ela não perde tempo : quando as dores do parto se intensificaram e tendo
chegado a hora, decidiu dar à luz ao seu filho na clandestinidade, como fazem
muitas mulheres haitianas.
Prisões e
repatriações
Padre Germain
Clerveau dirige o ‘Service Jésuite aux migrants - Solidarité fwontalye-Haïti’,
uma organização jesuíta que cuida dos migrantes, repatriados e deslocados
internos nas áreas fronteiriças entre o Haiti e a República Dominicana. O
sacerdote, que conhece bem a situação, revela à mídia do Vaticano : ‘Inúmeros testemunhos
relatam casos de mulheres grávidas presas em hospitais, perto de centros de
saúde ou até em suas casas. Algumas são expulsas logo depois do parto; outras
são separadas de seus entes queridos ou de seus recém-nascidos, antes de serem
repatriadas para o Haiti’. É precisamente isso que Monique queria evitar, mesmo
correndo o risco de perder seu filho e sua própria vida.
Porões e
degradação
Não é incomum
que os partos acontecem em porões, abrigos improvisados, quartos superlotados e
barracos sem eletricidade, sem água potável ou saneamento adequado terminam em
tragédia, com hemorragias, infecções, partos prematuros e mortes. Segundo dados
coletados pelo nosso Serviço Jesuíta aos Migrantes, ‘muitas mães e bebês
morreram em condições terríveis como esta. Ninguém, por enquanto, sabe o número
exato dessas mortes, mesmo porque ninguém tem coragem de denunciá-las :
mulheres como Monique são ajudadas por parteiras improvisadas, parentes,
vizinhos ou outros migrantes, que jamais pensariam em recorrer às autoridades.
De acordo com dados do Riess, ‘Repositório de Informações e Estatísticas do
Serviço Nacional de Saúde’, citados pela imprensa internacional, em pouco
tempo, os partos de mulheres haitianas, em hospitais dominicanos, diminuíram em
cerca de 60%.
Dignidade
ferida
‘Como pode
acontecer algo assim?’, pergunta Dom Pierre-André Dumas, bispo haitiano de
Anse-à-Veau-Miragoâne e vice-Presidente da Conferência Episcopal Haitiana. E
reitera : ‘A dor dessas mulheres imigrantes na República Dominicana é também a
dor dos Bispos de seu país. A Conferência Episcopal acompanha o que está
acontecendo com profunda preocupação. Trata-se de uma situação que ultrapassa
toda sensibilidade humana. Esta é uma grave ferida na dignidade. Nós, como
Igreja, devemos defender a vida desde o seu início até o fim. Ninguém deve ser
privado de assistência médica’.
Resposta
humanitária
Algumas
mulheres haitianas, como Monique, gostariam de obter um visto ou mudar seu
status. Mas, por enquanto, o governo não está oferecendo aos imigrantes
haitianos a oportunidade de regularizar a sua situação. Por isso, o Padre
Clerveau acredita que ‘uma resposta humanitária urgente e o respeito dos
princípios fundamentais dos direitos humanos são urgentemente necessários,
sobretudo, o direito à saúde, tutela, maternidade, dignidade e não
discriminação das mulheres, independentemente de seu status imigratório ou
nacionalidade’.
Equilíbrio
dos direitos
Na República
Dominicana, os imigrantes haitianos representam 70% de todos os imigrantes no
país (535.000), segundo dados das Nações Unidas de 2024. Segundo Dom Dumas ‘esta
enorme pressão não pode ser ignorada e cabe ao governo dominicano o direito de
regulamentar as práticas em suas fronteiras e a aplicação das próprias leis de
imigração : ‘Isso já havia sido abordado, em 2004, pela Conferência Episcopal
Dominicana. Tal direito deve ser equilibrado com o dever de respeitar sempre a
dignidade humana e os direitos fundamentais. A preocupação dos Bispos,
portanto, não é o princípio da regulamentação, mas as consequências humanitárias,
que podem surgir da aplicação deste princípio’.
Garantir a
assistência
‘Com base nas
informações, que obtivemos, as operações de controle de imigração envolvem a
presença regular de forças de segurança em muitas unidades de saúde e controles
também após a assistência’ : é o que afirma o Padre Clerveau, que, com sua
equipe do ‘Serviço Jesuíta para Migrantes’, não desiste e promete continuar
trabalhando para garantir o acesso à saúde materna, sem medo de prisões ou
deportações.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-06/drama-maes-haitianas-migrantes-invisiveis.html