Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Mosteiro de Vitorchiano, Itália
‘Nas realidades da história e da vida de nossas
comunidades, existem caminhos que escapam a uma análise superficial : é preciso
cavar fundo para reconhecer as vias secretas que a Providência usa para abrir
um caminho entre as contradições humanas.
Às vezes nos surpreendemos com a fecundidade da
comunidade de Vitorchiano, que deu origem a numerosas fundações. Esta milagrosa
vitalidade pode ser explicada pela lei evangélica do grão de trigo que morre e
que, ao morrer, dá muito fruto. Todos sabem do sacrifício da Irmã
Maria-Gabriella, mas, na complexa história da comunidade que foi durante muito
tempo a Cinderela da Ordem por suas origens e sua pobreza material e
intelectual, havia outro grão menos conhecido, de qualidade um tanto
extraordinária : madre Pia Gullini, abadessa de Grottaferrata de 1931 a 1940 e
de 1946 a 1951. Nela, a humildade, a maternidade e o sentido da Igreja
atingiram, a nosso ver, um grau excepcional.
Sabemos que Madre Pia sempre teve o desejo de fazer
uma fundação; ela comparava esse desejo a uma árvore que ela cultivava e que
outros (os superiores e as circunstâncias) continuamente cortavam, mas que
ainda estava viva. Em 1948, ela escrevia a um abade da Ordem :
‘Quando o Senhor quiser, dirá a esta árvore : ‘Faze
crescer as tuas flores’, será a sua primavera e ninguém poderá impedir o seu
florescimento.’
E ao mesmo correspondente, quatro anos depois :
‘O Eterno procede lentamente, mas sempre consegue.
Estou segura d’Ele e deixo a Ele sua liberdade infinita. Se eu já estiver com
Ele quando Ele realizar esse desejo, ajudarei em dobro.’
Profetisa, Madre Pia o fora em diversas ocasiões :
em relação ao então nascente ecumenismo e à utilidade de difundir a simples
mensagem de amor e doação da irmã Maria-Gabriella, mas também sobre sua própria
morte e a impossibilidade de unir-se à sua comunidade em Vitorchiano, sua
comunidade que para lá foi transferida de Grottaferrata em 1957. E bem sabemos
que os profetas nunca tiveram uma vida fácil…
Sua vida
Ela nasceu em 16 de agosto de 1892 em Verona, onde
sua família residiu por vários anos por causa do trabalho de seu pai. Maria
Elena Gullini pertencia a uma família da alta burguesia bolonhesa. Seu pai,
Arrigo, era engenheiro ferroviário : trabalhou na Itália e em Montenegro.
Ele se estabeleceu com sua família em Roma, provavelmente por causa dos estudos
universitários de seus três filhos. Foi subdiretor dos Caminhos de Ferro do
Estado além de presidente e administrador da importante Sociedade dos Estaleiros
de Gênova, a Ansaldo.
Sua mãe, Celsa Rossi, distinguia-se por sua
excepcional beleza, por uma extraordinária bondade e inteligência; na juventude
pensara na vocação religiosa, mas não fora capaz de realizá-la; muito piedosa,
viveu com intensidade a sua fé e procurou transmiti-la aos filhos. Reservada,
não gostando de tudo o que era vaidade, deixou de bom grado que a filha mais
velha, bela e empreendedora, a substituísse nas obrigações mundanas : Maria,
portanto, acompanhava o pai às diversas recepções e refeições da alta sociedade.
Uma amiga relata que, no escritório do engenheiro Gullini, havia um grande retrato a óleo de Maria em um vestido de noite preto e branco, muito decotado e deixando os braços nus – para grande desgosto de sua mãe –, um retrato que revelava o lugar que a filha mais velha ocupava na vida social do pai. Madre Pia dizia que foi durante um baile, experimentando sua insatisfação diante das coisas fúteis e passageiras, que tomou a decisão de seguir a vocação religiosa.
Dos 8 aos 18 anos, estudou em Veneza, com as Damas
do Sagrado Coração, recebendo ali a educação que então se dava às moças de boa
família. O ensino era dado em francês. Com seu temperamento artístico, Maria se
destacava em música e em pintura. Aos dez anos, recebeu a primeira comunhão das
mãos do patriarca José Sarto, futuro São Pio X. Aos 12 anos, viu-se em
perigo de morte devido a uma peritonite tuberculosa que a deixou, ao longo da
vida, uma infeliz disposição à fadiga. Ela era muito viva, orgulhosa e rebelde,
até violenta, ávida de liberdade, com evidentes qualidades de ‘líder’; amava a
natureza, compadecia profundamente com o sofrimento dos outros e com as
necessidades dos pobres, íntegra e leal, sem o menor traço de respeito humano.
Ela passava as férias de verão na vila da propriedade da família perto de
Bolonha ou em Montenegro. Por conta do trabalho do pai, foi madrinha na
inauguração de trechos da ferrovia e as fotos de família a mostram com buquês
de flores na mão enquanto corta uma fita. Parentes distantes ou camponeses
ainda se lembram da chegada da ‘Demoiselle’ na casa de campo dos avós e como
ela estava atenta em cuidar de suas necessidades materiais e espirituais.
Ela estudava, com o pai, inglês e alemão pelo
método Berlitz – uma novidade na época! – e com uma ‘professora’ que vinha em
casa para as aulas práticas. Esportiva, adorava patinação e equitação,
frequentando cavalgadas em Roma. Após a declaração de guerra, fez o curso de
enfermagem em ‘La Samaritana’, com o desejo de ir para a frente de batalha para
tratar de soldados feridos. Seu pai se opôs ao projeto. Maria ia à missa quase
todas as manhãs com a mãe e ensinava catecismo às crianças da elegante paróquia
de São Camilo e da periférica de Santa Helena, em Prenestino, que ela amava. A
frequência com que visitava as Irmãzinhas da Assunção de Via Nino Bixio a
levava a acompanhá-las frequentemente, praticando com elas a ajuda aos pobres.
Aos pedidos de casamento que lhe eram feitos,
opunha-se com recusas que afligiam a família : ‘Não, não é bonito! Falta
requinte! Ele é muito alto! Ele é muito pequeno!…’ Levada a refletir na
presença de um par ‘ideal’, consentiu em ficar noiva, mas não oficialmente, de
um muito simpático jovem engenheiro de Veneza, mas quando este último, um
oficial da frente de batalha, quis que seu vínculo fosse esclarecido, Maria,
que havia tomado consciência de sua vocação religiosa, lhe respondeu que não se
casaria com ele.
Seu confessor e diretor espiritual foi um conhecido
padre do Santíssimo Sacramento, o padre Di Lorenzo; foi ele quem mais
ferozmente se opôs à sua entrada na Trapa (segundo ele, com o seu temperamento
exuberante e inclinado à autonomia, não seria possível que Maria escolhesse o
silêncio e a obediência dos trapistas), mas depois tornou-se um hóspede assíduo
de Grottaferrata. Além disso, Maria Gullini, num primeiro momento, não tinha a
menor intenção de entrar na Trapa. O serviço e a assistência aos pobres a
atraíram para uma congregação ativa e, apesar da oposição de sua família, ela
pediu para ser admitida nas Irmãzinhas da Assunção. Alta, bonita, cheia de vida
e inteligente, ela tinha qualidades excepcionais demais para ser aceita ‘sic et
simpliciter’. Madre Teresa, a superiora, mandou-a pedir conselho a Dom Norbert
Sauvage, procurador dos trapistas, e este a obrigou a fazer um retiro de oito
dias na Trapa de Grottaferrata, em clausura.
Era 14 de novembro de 1916 e Maria escrevia :
‘Faço este retiro orando pelos pecadores : quanto
ao resultado, Senhor, inspira o pai e farei exatamente o que ele me disser.’
E Dom Norbert que, no início de seu retiro lhe
havia anunciado : ‘Falaremos de Jesus Cristo’, disse-lhe :
‘Senhorita, parece-me que sois chamada para uma
vida de amor; Jesus parece querer de vós o sacrifício completo. Vossa natureza
quer a vida ativa, vossa alma exige e reclama a vida contemplativa’ e lhe
propõe imediatamente a Trapa. Mas não aqui.
‘Em Laval, um dos primeiros mosteiros da Ordem,
vivem oitenta monjas, entre as quais muitas jovens. Um demônio como vós, em tal
massa de freiras, não se destacará muito.’
É muito provável que Dom Norbert tenha pensado em
assegurar a senhorita Gullini uma boa formação monástica para fazê-la, em
seguida, retornar a Grottaferrata para dirigir a comunidade, mas os documentos
não nos permitem afirmar que houve um acordo com a abadessa de Grotta sobre
este assunto.
Mas é certo que a partir desse momento começa um
período de combate para Maria : com seus pais, com seu confessor e com outros
padres que acusavam Dom Norbert de tê-la influenciado, mas sobretudo consigo
mesma, que não queria se render à graça. O resultado desse combate foi a
vitória de seu ‘doce Senhor’ e a entrada de Maria em Laval em 28 de junho de
1917. A forma desinibida de agir da jovem desconcertou as monjas de Laval, como
já havia espantado as monjas de Grottaferrata, mas a vocação era evidente,
assim como a boa vontade da candidata, e por essa razão, houve paciência de
ambos os lados. Em 29 de setembro de 1917, Irmã Pia – este nome lhe foi dado em
memória do Papa que lhe deu a primeira comunhão em Veneza – tomou o hábito
cisterciense; em 16 de julho de 1919 emitiu os primeiros votos e, três anos
depois, na mesma data, emitiu a profissão perpétua.
Em 1923, foi nomeada mestra das irmãs conversas,
que somavam cerca de quarenta. Eis Madre Pia, em Laval, tal como a evocam as
irmãs conversas :
‘Madre Pia tornou-se Madre mestra quase
imediatamente após sua profissão. Minha Reverenda Madre Lutgarde confiava nela;
ela dizia que, exceto alguns defeitos externos, minha madre Pia era perfeita.
Ela era quem eu mais amava; foi ela quem mais me fez bem : fiquei encantada ao
ouvi-la falar de Jesus e ao ver seu espírito de fé...’
Ela era uma alma ardente do amor de Deus; ela amava
a Regra. Ela ia lavar as irmãs mais velhas, arrumar suas camas antes das quatro
horas. Nunca tinha trabalhado no jardim, mas veio cavar com as irmãs e depois
agradeceu... Tinha qualidades para tudo... Sua Madre mestra lembrava de sua
extrema simplicidade e descreveu-a como uma alma magnânima, ardente, capaz de
todos os sacrifícios.
A partir de 1923, Madre Agnès Scandelli, abadessa
de Grottaferrata, solicitou a Laval ajuda de pessoal para a muito pobre
comunidade italiana; mas Madre Lutgarde só pôde conceder-lhe – relutantemente –
três anos depois! E essa ajuda foi naturalmente a italiana Madre Pia : ‘Estamos
fazendo um grande sacrifício e Madre Pia também; mas não queremos recusar nada
ao bom Deus’. O motivo da repatriação da jovem monja era outro : Madre Pia
sofria de um início de tuberculose e esperava-se que uma mudança de ares lhe
fizesse algum bem, o que de fato aconteceu, embora lentamente. Madre Pia chegou
a Grottaferrata em 9 de novembro de 1926. A dura partida de ‘seu’ mosteiro de
Laval foi muito dolorosa, e a integração em sua nova comunidade foi tudo menos
fácil. A recém-chegada, de cultura e formação diferentes, doentia, com dons
humanos excepcionais, provocava reações de rejeição. Sua decisão no ano
seguinte de se estabilizar em Grotta foi heroica, dadas as circunstâncias.
As ‘Crônicas’ falam de uma pressão por parte de
seus pais para retê-la na Itália, mas de acordo com algumas cartas ou outros
documentos é possível deduzir uma discreta insistência por parte dos superiores
maiores, preocupados com o futuro de Grotta, privada de irmãs capazes de
suceder à abadessa, idosa e doente. Tendo deixado seu mosteiro nas disposições
interiores de um inteiro sacrifício – ‘um sacrifício nunca é recusado... eu
irei para onde Deus me chama’ –, Madre Pia superou seu desejo de voltar para Laval
e as insistências de Laval para recuperá-la : ela continuou, no entanto, a
correspondência com sua querida Madre Lutgarde até 1942, e, com a comunidade,
até três anos antes de sua morte.
A situação muito difícil da comunidade de Grotta,
muito ligada à sua abadessa, pesa muito a já frágil saúde de Madre Pia que, em
1928, viu agravar-se os seus ataques hepáticos a ponto de a obrigarem a sofrer
uma intervenção cirúrgica – naquela época bastante delicada – o que a colocou
em risco de morte por alguns dias.
Naquele momento, uma irmã conversa entre as mais
velhas ofereceu sua vida pela recuperação de sua jovem coirmã. Ela se recuperou
depois de uma estadia com sua família, foi subprioreza, enfermeira, depois
prioresa, mostrando total obediência à Madre Agnès, embora sofresse de muitas
coisas que, na comunidade, deveriam ser mudadas e que não foram.
Em 1931, Madre Agnès Scandelli, após trinta e três
anos como superiora, renunciou. Madre Pia foi então nomeada abadessa por
decisão pontifícia, seguindo um decreto do Cardeal Lega, bispo de Frascati, que
traz a data de 30 de dezembro de 1931. Era impossível, de fato, proceder a uma
eleição regular, dada a afeição que as freiras tinham por sua antiga superiora.
Não é difícil imaginar a coragem e a fé necessárias numa situação tão
particular : mas Madre Pia soube conquistar a estima e o amor da comunidade que
a confirma, quase unanimemente, nas eleições de 1935 e 1938. Ela quis fazer de
Grotta uma Trappe como eu mesmo vi, aludindo à sua tão amada Laval.
Embora as próprias paredes do convento estivessem
impregnadas de oração e espírito de sacrifício, Grottaferrata parecia mais uma
comunidade franciscana do que uma comunidade cisterciense. Empreender uma
transformação era difícil por causa da pobreza – muitas vezes a conta mensal do
padeiro era paga pela família Gullini –, também por causa da pequena dimensão e
produtividade da propriedade (dois hectares e meio), e ainda por causa da casa
inadequada, o pequeno número de coristas, a presença de algumas irmãs que lhe
eram hostis e, posteriormente, as repercussões da Segunda Guerra Mundial.
Em 1939, irmã Maria-Gabriella faleceu e começou
então para Grotta e sua abadessa um período muito fecundo, mas também muito
tempestuoso. Em dezembro de 1940, portanto antes do final de seu terceiro
triênio, Madre Pia foi obrigada a apresentar sua renúncia. As dificuldades – o
caso não era novo, tratando-se de uma mulher inteligente e de forte vontade –
vieram sobretudo dos superiores masculinos. Nas decisões que levaram à sua
renúncia, certamente pesaram, além dos pontos de vista divergentes sobre a
condução da comunidade, a correspondência sobre o ecumenismo e a publicação da
biografia da irmã Maria-Gabriella, uma abertura que não era compreendida nem
aprovada por todos!
A excelente Madre Tecla Fontana, que sucedeu a
Madre Pia no governo da comunidade, confiou-lhe o noviciado, e Madre Pia, como
boa educadora que era, consagra-se com alegria à formação das jovens, enquanto
continuava sua enorme correspondência e suas relações ecumênicas.
Seis anos mais tarde, em 1946, ela foi reeleita
abadessa e confirmada, por um voto quase unânime, já no primeiro escrutínio de
1949. Durante esses anos, ela também manteve a direção do noviciado. As
oposições irreconciliáveis, embora muito poucas em número, persistiam : Madre
Pia esperava o apoio do novo Abade geral e do superior de Frattocchie,
recentemente nomeado, para iniciar uma fundação à qual vinha pensando há anos;
mas, em 1951, antes do final de seu triênio, eclodiu uma crise que vinha se
gestando há muito tempo. Em 19 de abril, o superior (que ainda não havia sido
eleito abade) e o Padre imediato, o abade de Mont-des-Cats, reuniram a
comunidade após o ofício de Noa e anunciaram que Madre Pia havia apresentado
sua renúncia ‘por motivos particulares’ e que já havia deixado a comunidade.
Madre Tecla retomou as rédeas da comunidade como
superiora ad nutum. Foi um estrondo de trovão em céu sereno : a quase
totalidade da comunidade nunca compreendeu os verdadeiros motivos dessa
partida.
Madre Pia esperou em Roma, na casa das irmãs
Ursulinas, até que seu passaporte lhe fosse concedido. Naqueles dias que
deveriam ter sido muito tristes, eu a vi calma e serena : ela parecia uma
hóspede real e não uma irmã em viagem de exílio! Partiu para a Abadia de La
Fille-Dieu, onde deveria permanecer por oito anos, até ser chamada de volta à
Itália. Em 1953, não lhe foi permitido retornar à sua pátria, nem para a
eleição abacial, nem para as eleições políticas, embora duas outras irmãs
italianas presentes no mosteiro suíço tenham podido voltar para lá.
Deixemos agora as irmãs de La Fille-Dieu
descrevê-la durante sua estadia :
‘Madre Pia era a própria bondade : sua amabilidade,
seu rosto sorridente nos faziam bem. Gostávamos de encontrá-la, porque
seus grandes gestos pareciam nos envolver em seu coração. Ela tinha uma imensa
piedade por aquelas que sofriam : ela queria consolá-las, ajudá-las... Seu
espírito de fé a levava em direção a Jesus Hóstia : ela ficaria horas perto do
Tabernáculo. Ela era uma grande silenciosa, permanecendo unida a Deus e vivendo
em Sua presença. Seu talento como artista nos prestou grandes serviços... – Ela
passou oito anos em La Fille-Dieu, dando o exemplo de uma religiosa perfeita;
era uma alma generosa, de um grande espírito de fé, de uma caridade perfeita e
cheia de uma delicadeza verdadeiramente materna, um coração de ouro que pensava
apenas em agradar. Era uma alma silenciosa : para ela, o silêncio era uma
audiência de amor com Nosso Senhor. Toda a minha vida, eu O agradecerei
por ter vivido em contato com ela. Ela se apagava, procurava passar
despercebida. De todas as virtudes ela deu o exemplo, e até mesmo o heroísmo.
Uma grande monja : nosso Te Deum ambulante...’
Enquanto isso, na Itália, a abadessa, eleita em
1953 e responsável pela transferência da comunidade de Grottaferrata para
Vitorchiano, renunciou em 1958 por motivos de saúde. Foi nomeada uma superiora ad
nutum. Em 1959, estava sendo preparada uma eleição abacial e Madre Pia foi
oficialmente convocada de volta a Vitorchiano pelo Padre imediato; não sabemos
se seu chamado tinha como objetivo sua possível eleição como abadessa ou o
exercício de uma responsabilidade subalterna; a comunidade, em sua grande
maioria, a solicitava e os superiores que a destituíram agora apoiavam seu
retorno. Mas quem perceberia que Madre Pia estava à beira da morte na época?
Que, dado seu estado de saúde, a viagem da Suíça, por si só, seria muito
cansativa? De qualquer forma, não era sua responsabilidade decidir, mas apenas
obedecer : ela partiu, muito cansada, mas serena.
No dia 22 de fevereiro de 1959, ela deixou o
mosteiro que a havia acolhido e onde havia desejado morrer. No dia 25, sob a
intervenção de seu irmão médico, impressionado com sua aparência debilitada,
ela foi hospitalizada na policlínica de Roma, onde recebeu muitas transfusões.
Um mieloma em um estado muito avançado foi diagnosticado, além de danos
irreparáveis nos rins, coração e outros órgãos. Madre Pia aceitou os cuidados e
atenções que lhe foram dados com um reconhecimento desapegado, com
tranquilidade e com o sorriso.
Em 15 de abril, ela saiu do hospital e foi recebida
pelas irmãs Betlemitas para lá continuar, sob controle, uma terapia doravante
inútil, enquanto aguardava para retornar a Vitorchiano. Ela tinha plena
consciência de que não poderia assumir cargos de liderança; ela sentia que
estava se aproximando de sua morte. Ela via claramente – e disse isso com calma
e desapego real – que nunca mais se uniria à sua comunidade em vida : ‘Iremos ao
Senhor antes de irmos para lá’, disse ela.
Sabendo que ela estava hospitalizada, eu fui
visitá-la; ela estava sentada em uma poltrona. Essa visita me impressionou
muito. Nenhuma palavra sobre o passado, nenhuma palavra sobre o futuro. Nenhum
sinal de alegria – mesmo discreto – que uma pessoa em sua situação teria o
direito de sentir; porque, acontecesse o que acontecesse, essa viagem à Itália
era uma reabilitação.
Seu retorno a Vitorchiano estava programado para 5
de maio, dia da Ascensão. Ela morreu de um colapso cardíaco em 29 de abril, dia
em que a Ordem celebrava, de acordo com o calendário litúrgico da época, o
aniversário da morte de São Roberto, seu fundador favorito entre os fundadores
de Cister. Provavelmente ela se identificava com sua busca, seu desejo de
fundação e sua renúncia.
Madre Pia tinha 67 anos e 40 anos de profissão. Foi
a primeira irmã a ser enterrada no novo cemitério de Vitorchiano, de acordo com
a previsão que ela havia feito a uma monja italiana de La Fille-Dieu.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123