Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Nasceu a 23 de setembro de 1926, em Hamlet, Carolina do Norte, no mesmo
ano que outro dos músicos mais importantes do século XX, o trompetista Miles
Davis, que seria um dos homens responsáveis por trazer o saxofonista para os
holofotes do jazz.
A sua infância foi marcada por crescer no seio de uma família religiosa e
envolvida com os direitos dos negros nos Estados Unidos. Ambos os pais tocavam
música de forma amadora, sendo o pai alfaiate e a mãe costureira. Os avós de
John Coltrane, pastores metodistas, levam-no a crescer sempre rodeado de
música, quer fosse em casa com os pais a tocar ou a ouvir rádio ou os salmos e
hinos na Igreja. Tocou vários instrumentos de sopro na banda escolar até se
decidir definitivamente pelo saxofone.
Durante a adolescência mudou-se com a família para Filadélfia, cidade com
uma forte comunidade negra e onde a música jazz reinava. Aos 19, alista-se na
Marinha e, em 1945, é enviado para o Hawai, integrando a banda militar Melody
Masters. De regresso, inscreve-se na Granoff School of Music onde aprende a
teoria clássica que mais tarde irá desafiar, mas não sem antes dominá-la como
poucos.
Uma epifania espiritual
Em 1955, aos 29 anos, casou com Juanita Grubbs - que mais tarde viria a
adotar o nome Naime, nome eternizado numa das mais famosas composições de
Coltrane. É o ano em que John Coltrane é convidado por Miles Davis a integrar o
seu novo quinteto que incluía ainda Red Garland no piano, Paul Chambers no
contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria. Deste quinteto resultaram alguns dos
melhores discos da carreira de Miles Davis : 'Round About Midnight, Walkin'
e Cookin'.
Este Primeiro Grande Quinteto desagrupou-se devido ao abuso de drogas e
heroína por parte de Coltrane. Livrou-se do vício ainda em 1957. De
acordo com as notas de A Love Supreme, o músico teve uma epifania
espiritual que biógrafos acreditam estar relacionada com o ter ultrapassado a
sua adição.
‘Com a graça de Deus, tive um despertar espiritual que me levou a uma
vida mais rica, preenchida e produtiva. Nessa altura, em agradecimento, pedi
humildemente que me fosse concedido o dom e o privilégio de fazer os outros
felizes através da música.’
Blue Train e Soultrane
Em 1957 foi também o ano em que Coltrane tocou com o grupo do pianista
Theolonius Monk, um dos maiores revolucionários do jazz e outro dos mentores
que o ajudou a encontrar o seu som único, com várias notas disparadas a uma
velocidade estonteante sem sacrificar o volume das notas. Data também deste ano
o primeiro disco como líder (um disco menos conhecido chamado Coltrane).
Mas em 1958 edita Blue Train e Soultrane, dois dos seus discos
mais importantes.
Em simultâneo volta a integrar a banda de Davis e em breve estará nas
sessões de gravação do disco mais vendido da história do jazz : Kind of Blue,
o disco insígnia de Miles Davis, que escancarou as portas do modalismo (umas
das várias revoluções iniciadas pelo trompetista). 1959 é também o ano em que
Coltrane edita Giant Steps, pela Atlantic, um marco da música do século
XX, em grande parte graças à sua composição título que muitos estudiosos
consideram a planta de todo o jazz que estava por vir.
Anos estrondosos
Os anos seguintes são estrondosos. My Favorie Things é um portento
em que Coltrane transfigura standards de forma magistral particularmente
a canção de Rodgers e Hammerstein escrita para o musical The Sound of Music numa
viagem transcendental. Olé Coltrane é um mergulho na música espanhola -
no ano anterior Miles Davis gravara uma versão do Concierto de Aranjuéz - e
africana (gravou na mesma altura Africa/Brass, disco inaugural com a Impulse!).
Há também dessa época o disco Coltrane Plays the Blues e a soberba
colaboração entre Coltrane e Johnny Hartman, único disco que o saxofonista
gravou com um vocalista. Em apenas seis anos, John Coltrane participou em dez
dos discos mais importantes da história do jazz.
Em 1963, Coltrane iniciara uma relação com a pianista Alice McLeod. Depois
de casarem, em 1966, Alice Coltrane entra para a banda do marido e depois teria
uma carreira a solo na qual unia o jazz à música indiana, numa continuação do
trabalho que vinha a desenvolver com John Coltrane.
Musica, espiritualidade e direitos dos negros
Esta espiritualidade e procura por um caminho iluminado acompanhavam o ar
dos tempos. A década de 60 foi um dos períodos de maiores lutas pelos direitos
civis dos afroamericanos, numa sociedade marcada pelo racismo e discriminação.
Enquanto Coltrane fazia músicas espirituais, ganhava consciência política e as
refletia nas suas músicas, compaginando-as com o ativismo de nomes como Martin
Luther King Jr., Malcolm X Angela Davis e Muhammad Ali.
Esta consciência cívica levou Coltrane a explorar novas formas de música,
abrindo o seu quarteto à entrada de mais músicos, incluindo Pharoah Sanders,
Archie Shepp ou Freddie Hubbard e gravando discos menos presos à forma e mais
abertos ao improviso.
A Love Supreme, uma carta de amor a Deus e à humanidade
Apesar do sucesso, Coltrane ainda surpreenderia o mundo em 1965. Criou o
chamado quarteto perfeito. Ele como líder e compositor, McCoy Tyner como o
pianista que o entendia melhor do que ninguém e criava texturas que permitia a
circularidade e a visibilidade de todos os músicos. Este foi o quarteto que
gravou com Johnny Hartman, Ballads, Live at Birdland e A Love
Supreme, uma carta de amor a Deus e à humanidade, um dos marcos
incontornáveis de toda a arte do século XX. Ainda hoje este disco é alvo de
reedições que esgotam e é uma porta de entrada para milhares de ouvintes no
mundo do jazz.
Nos anos seguintes, Coltrane procurava novas sonoridades, como a que
resultou em Meditations, em que se voltou a unir ao quarteto
Tyner-Jones-Garrison, Pharoah Sanders e Rashied Ali.
A sua criatividade continua a marcar anos depois da sua morte
Coltrane acabaria por morrer em 17 de julho de 1967, vítima de um câncer do
fígado. Esta figura seminal do jazz morreu aos 41 anos, mas a sua vida criativa
foi de tal forma marcante que é proclamada como influenciadora como uma das
figuras mais distintas da música contemporânea.
O autor de A Love Supreme e Ascension foi elevado à condição de santo pela Igreja Ortodoxa Africana. A Igreja de São John Coltrane foi fundada por Franzo W. King e Marina King, em 1969, e está sedeada em São Francisco, na Califórnia. Depois da elevação de John Coltrane à santidade, foi-lhe adotado o nome Santo John Will-I-Am Coltrane.
Fonte : *Artigo na íntegra

