Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Há episódios
do Concílio Vaticano II que permanecem nas margens da memória conciliar, embora
ajudem a compreender algumas de suas intuições mais profundas. Um deles envolve
o bispo estadunidense Fulton J. Sheen, cuja participação na elaboração do
decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, contribuiu
para ampliar a própria pergunta sobre o que significa fazer missão. Entre os
quase 2.500 bispos que participaram das quatro sessões conciliares, entre 1962
e 1965, Sheen foi membro da Comissão para as Missões e o único representante
dos Estados Unidos a permanecer nessa comissão durante todo o Concílio.
Sua presença
em Roma também se inscrevia numa relação pessoal com João XXIII. Antes mesmo da
abertura do Concílio, Sheen havia percebido que algo novo estava se formando na
Igreja. Em 1959, durante uma peregrinação a Lourdes, chamou sua atenção a
multidão de peregrinos simples e pobres. ‘Eis a Igreja dos pobres’, teria dito
a um companheiro, expressão que antecipava uma preocupação que levaria posteriormente
à assembleia conciliar. O vínculo com o Papa Roncalli era igualmente
significativo : como diretor nacional da Pontifícia Obra para a Propagação da
Fé, Sheen encontrava-se anualmente com João XXIII, que lhe confidenciou, antes
do anúncio público, sua decisão de convocar o Concílio.
A pergunta
que mudou o foco da missão
A
contribuição mais expressiva de Sheen apareceu durante o debate sobre o esquema
que daria origem ao decreto Ad Gentes. Em 9 de novembro de 1964, depois
de numerosas críticas à primeira versão do texto, o bispo propôs uma mudança
aparentemente simples, mas teologicamente significativa. Em vez de perguntar ‘O
que são as missões?’, sugeriu perguntar : ‘Onde estão as missões?’
A mudança de
perspectiva colocava em questão uma concepção geográfica da missão. Para Sheen,
não bastava identificar como missionários os territórios classificados como ‘não
cristãos’. Havia também dioceses extremamente pobres, com escassez dramática de
sacerdotes, que necessitavam da solidariedade de toda a Igreja, embora não
fossem oficialmente consideradas territórios de missão. Ele recordava bispos
que lhe pediam ajuda vindos de regiões nas quais havia apenas poucos sacerdotes
para áreas imensas. A questão, portanto, deixava de ser apenas administrativa :
pode uma Igreja necessitada ser considerada menos missionária simplesmente
porque não se encontra dentro de uma determinada categoria jurídica?
Nesse
raciocínio aparece uma das ideias mais fecundas de sua intervenção : a missão
não deveria ser compreendida como uma tarefa de uma parte da Igreja em
benefício de outra, mas como uma responsabilidade comum. Sheen contestava
divisões excessivamente rígidas entre ‘Igrejas novas’ e ‘Igrejas antigas’. Para
ele, a Igreja é um único Corpo de Cristo, cujos membros dependem uns dos
outros. Por isso, defendia mecanismos de coordenação que permitissem responder
às diferentes necessidades missionárias presentes no mundo.
Uma Igreja
que não pode esquecer os pobres
A questão da
pobreza ocupava um lugar central nessa visão. Quando um dos padres conciliares
propôs retirar do texto as referências à pobreza, Sheen defendeu justamente o
contrário. Recorreu à imagem do globo terrestre para mostrar a concentração
geográfica das desigualdades e apontou para a realidade de África, Ásia e América
Latina.
Mas seu
argumento ia além de uma análise econômica. A experiência de suas viagens pela
América Latina e pela África havia transformado sua maneira de compreender a
pobreza. Ele próprio escreveria posteriormente que começara a pensar menos no ‘problema
da pobreza’ e mais nos pobres. A distinção é importante : deslocar o olhar de
uma questão abstrata para rostos concretos significa reconhecer que a missão
cristã acontece no encontro com pessoas e comunidades concretas.
Foi nesse
contexto que Sheen formulou uma das frases mais marcantes associadas à sua
participação no Vaticano II : ‘Como a castidade foi o fruto do Concílio de
Trento e a obediência o fruto do Concílio Vaticano I, assim o espírito de
pobreza seja o fruto deste Concílio Vaticano II.’ E acrescentou : ‘Somente uma
Igreja ferida pela pobreza pode converter um mundo cético.’
A expressão ‘Igreja
ferida pela pobreza’ contém uma inversão interessante. A pobreza deixa de ser
apenas uma realidade diante da qual a Igreja exerce caridade e passa a
interrogar a própria Igreja. Não se trata simplesmente de uma Igreja que ajuda
os pobres, mas de uma Igreja que permite que a realidade dos pobres transforme
suas prioridades, sua sensibilidade e sua maneira de cumprir a missão.
O bispo : não apenas para uma diocese
O texto final
de Ad Gentes, aprovado por ampla maioria, incorporou diversos elementos
que convergiam com as preocupações apresentadas por Sheen : a responsabilidade
da Igreja para com os pobres, a necessidade de coordenação da atividade missionária
e uma compreensão ampla da responsabilidade episcopal. O decreto afirma que o
bispo não é consagrado apenas para uma determinada diocese, mas também para a
salvação do mundo inteiro.
A mesma
lógica apareceu em sua participação na elaboração de Optatam Totius,
sobre a formação sacerdotal. Sheen defendia que os seminaristas tivessem
contato direto com doentes, pobres, não católicos, católicos afastados da fé,
presos e trabalhadores, além de passarem períodos nas missões com falta de
pessoal. A intenção era fazer com que a formação pastoral não permanecesse
restrita ao ambiente protegido do seminário, mas colocasse o futuro sacerdote
em contato com as periferias humanas e eclesiais.
Sheen também
apoiou vigorosamente o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o
apostolado dos leigos, e interveio em favor de uma reflexão mais ampla sobre a
contribuição das mulheres na vida da sociedade. No debate sobre Gaudium et
Spes, valorizou especialmente a afirmação da dignidade e da liberdade da
pessoa humana e sua relação inseparável com a salvação. Ao mesmo tempo,
advertia que a abertura da Igreja ao mundo não deveria significar nem
isolamento nem submissão aos critérios do próprio mundo.
A difícil
palavra ‘mundo’
É justamente
aqui que aparece uma das chaves para compreender o pensamento de Sheen sobre o
período posterior ao Concílio. Ele não interpretava a abertura ao mundo como
uma capitulação. Ao contrário, considerava que a Igreja deveria estar presente
no mundo, dialogar com ele e reconhecer os sinais de verdade presentes nas
diferentes culturas, mas sem perder a capacidade de discernimento.
Em suas
conferências posteriores, Sheen identificou boa parte das tensões
pós-conciliares numa confusão em torno da própria palavra ‘mundo’. De um lado,
está o mundo como criação de Deus, realidade humana que a Igreja é chamada a
amar e servir. De outro, está o ‘mundo’ no sentido bíblico de uma organização
da existência fechada a Deus. Confundir essas duas realidades poderia, segundo
ele, fazer com que a abertura se transformasse em assimilação.
Por isso, sua
compreensão da renovação conciliar pode ser resumida não como rejeição nem como
aceitação indiscriminada do mundo, mas como discernimento. Sheen recorria à
antiga imagem dos semina Verbi, os ‘sementes do Verbo’ presentes nas
culturas e nos contextos humanos. A tarefa da Igreja seria reconhecer essas
sementes, ajudá-las a crescer e, ao mesmo tempo, distinguir o trigo do joio.
Uma intuição
que permanece atual
Vista a
partir de hoje, a contribuição de Fulton Sheen para a reflexão conciliar sobre
a missão ganha força justamente porque desloca a questão de fronteiras
geográficas para uma pergunta muito mais abrangente : onde a Igreja é chamada a
ser missionária?
A resposta
que emerge de suas intervenções não se limita aos territórios tradicionalmente
classificados como missionários. A missão está também onde há pobreza, falta de
sacerdotes, afastamento da fé, sofrimento, exclusão e necessidade de esperança.
Está nas dioceses e nas comunidades, mas também na formação dos futuros
sacerdotes, no apostolado dos leigos, no diálogo com a cultura e na capacidade
da Igreja de reconhecer aquilo que Deus já semeou no coração da humanidade.
É nesse
sentido que a figura de Sheen ajuda a reler Ad Gentes : a missão não é
um setor especializado da vida eclesial, delegado a alguns organismos ou
regiões do mundo. Ela pertence à própria natureza da Igreja. E, para o bispo,
essa responsabilidade ultrapassa os limites de sua diocese. A missão começa
onde existe alguém a quem a Igreja é chamada a levar a luz da Palavra e o amor
de Deus — inclusive quando esse alguém está muito mais perto do que as antigas
fronteiras missionárias permitiam perceber.’
Fonte : *Artigo na íntegra