Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Recapitular todas as coisas em Cristo.’ (Ef 1,10)
Da infância
ao episcopado
‘Giuseppe
Sarto nasceu em Riese, na região de Treviso, em 2 de junho de 1835. Era o
segundo de dez filhos de uma família pobre. Com a ajuda de sacerdotes e do
patriarca de Veneza, também natural de Riese, conseguiu estudar gratuitamente
no seminário de Pádua.
Aos 17 anos,
perdeu o pai, que trabalhava como funcionário público. As autoridades locais
ofereceram-lhe o emprego paterno para que pudesse ajudar a família, mas sua
mãe, Margarida, recusou a proposta. Mesmo trabalhando intensamente como costureira
para sustentar os filhos, desejava que Giuseppe seguisse sua vocação
sacerdotal.
Ordenado
padre aos 23 anos, foi nomeado vigário paroquial em Tombolo, onde permaneceu
por nove anos. Depois, tornou-se pároco em Salzano, exercendo o ministério por
mais nove anos. Em 1875, foi transferido para Treviso, onde atuou como cônego,
chanceler episcopal e diretor espiritual do seminário.
Cumpria suas
responsabilidades com dedicação e competência. Frequentemente levava documentos
para casa a fim de concluir o trabalho durante a noite. Sua proximidade com o
povo e o cuidado especial com os pobres conquistaram a estima de todos. Após a
morte do bispo local, foi escolhido vigário capitular.
Em 1884, o
Papa Leão XIII nomeou-o bispo de Mântua. A diocese atravessava um período
difícil, tanto internamente quanto nas relações com o poder civil. Dom Giuseppe
Sarto conseguiu pacificar os ânimos e promoveu uma profunda renovação da vida
cristã.
Em 1893, foi
criado cardeal e nomeado patriarca de Veneza. Precisou, porém, esperar vários
meses para assumir a sede, pois o governo italiano reivindicava o direito de
interferir na escolha do patriarca.
Em Veneza,
dedicou-se especialmente à formação do clero, à catequese, à renovação da
liturgia e à assistência aos pobres. Preocupava-se não apenas com a vida
espiritual dos futuros sacerdotes, mas também com seus estudos teológicos,
bíblicos, litúrgicos, canônicos e sociais.
Nesse
período, conheceu o jovem músico Lorenzo Perosi, cujo talento reconheceu e
incentivou. Mais tarde, confiou-lhe a renovação do canto litúrgico em Veneza e,
posteriormente, em Roma.
A vida
religiosa do povo também ganhou novo vigor. Os adultos recebiam formação na fé;
as crianças eram preparadas cuidadosamente para a Primeira Comunhão e a Crisma;
e as celebrações litúrgicas eram realizadas com dignidade.
O Cardeal
Sarto vivia de maneira simples e generosa. Ao chegar a Veneza, recusou-se a
mandar confeccionar novas vestes cardinalícias. Pediu que suas irmãs ajustassem
as vestes usadas por seu antecessor, para que o dinheiro economizado fosse
destinado aos pobres.
Amado pelo
povo e reconhecido como um pastor zeloso, ficou profundamente abalado quando
seu nome começou a ser considerado no conclave. Entre lágrimas, pediu aos
cardeais que não o elegessem, pois se julgava incapaz de assumir o pontificado.
Seu pedido, porém, não foi atendido.
Um Papa
pastor
O conclave
teve início em 1º de agosto de 1903. Nas primeiras votações, parecia certa a
eleição do Cardeal Mariano Rampolla, secretário de Estado do falecido Papa Leão
XIII. No entanto, o cardeal de Cracóvia comunicou o veto do imperador Francisco
José, da Áustria, à sua candidatura.
Por sugestão
do próprio Rampolla, os cardeais desistiram de elegê-lo e passaram a apoiar o
patriarca de Veneza, Cardeal Giuseppe Sarto, conhecido pela santidade de vida,
firmeza doutrinal e moderação nas questões sociais.
No Vaticano,
Pio X manteve seu estilo de vida simples. Abandonou alguns costumes da corte
pontifícia que considerava incompatíveis com a simplicidade evangélica. Deixou
de usar o plural majestático, dispensou os aplausos tradicionais na Basílica de
São Pedro e procurou manter contato direto com as pessoas.
Levou suas
irmãs para Roma, oferecendo-lhes apenas um pequeno apartamento e uma renda
suficiente para viver. Quando lhe perguntaram qual título nobiliárquico
deveriam receber, respondeu que lhes bastava serem chamadas de ‘irmãs do Papa’.
Nenhum de seus parentes recebeu privilégios durante o pontificado.
Uma de suas
principais preocupações foi a formação sacerdotal. Nas regiões em que os bispos
não possuíam recursos para manter seminários, promoveu a criação de seminários
regionais sob a responsabilidade da Santa Sé. Também incentivou os estudos nas
faculdades pontifícias e fundou o Pontifício Instituto Bíblico.
Na
Exortação Haerent Animo, dirigida ao clero, apresentou orientações
para a vida espiritual dos sacerdotes. O documento tornou-se uma importante
referência para a formação nos seminários.
Pio X também
promoveu uma ampla reforma litúrgica, contribuindo para a renovação da vida de
oração da Igreja e preparando o caminho para reformas posteriores. Considerava
a Missa dominical o centro da vida cristã, na qual os fiéis deveriam ser
alimentados pela Palavra de Deus e pela Eucaristia.
Incentivou a
Comunhão frequente e permitiu que as crianças devidamente preparadas recebessem
a Eucaristia.
Embora não
pudesse visitar livremente as paróquias de Roma devido às tensões políticas da
época, convidava semanalmente uma comunidade paroquial para ir à Basílica de
São Pedro, onde explicava o Evangelho e celebrava a Missa.
Para
favorecer a formação religiosa do povo, promoveu a elaboração do catecismo que
ficou conhecido por seu nome. Organizado em perguntas e respostas, o texto
apresentava a doutrina católica de modo simples e acessível, permitindo que
também as pessoas com pouca instrução pudessem compreendê-la e memorizá-la.
Realizou
ainda uma reforma da Cúria Romana, distinguindo as funções administrativas das
judiciais. Também criou comissões para preparar o novo Código de Direito
Canônico, posteriormente promulgado, em 1917, por seu sucessor, Bento XV.
Nas relações com
os governos, procurou limitar a interferência política na escolha dos bispos e
impediu qualquer intervenção externa nos futuros conclaves.
Um santo
diante dos desafios de seu tempo
Embora sua
santidade seja amplamente reconhecida, Pio X também foi um homem marcado pelo
contexto histórico e eclesial em que viveu. Sua visão da Igreja refletia a
compreensão predominante no início do século XX, fortemente baseada na
distinção entre a hierarquia e os fiéis.
Nesse
contexto, observou com grande preocupação o movimento conhecido como
modernismo. Muitos membros da Igreja consideravam que algumas de suas propostas
colocavam em risco a integridade da fé católica.
Pio X
combateu essas ideias com firmeza, embora esse enfrentamento tenha levado, em
alguns casos, a excessos e perseguições contra pessoas que defendiam novas
formas de reflexão teológica.
São Pio X
morreu em 20 de agosto de 1914, profundamente abalado pelo início da Primeira
Guerra Mundial. Procurou, sem sucesso, atuar como mediador para evitar o
conflito.
Quando o
embaixador da Áustria lhe pediu que abençoasse as tropas austro-húngaras que
partiam para a guerra, o Papa recusou-se e respondeu com firmeza :
‘Eu abençoo a
paz!’’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/sao-pio-x-papa-1835-1914.html