Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Ditoso quem invoca Maria
Santíssima, quem recorre ao imaculado coração de Maria com confiança.’
(Santo Antonio Maria
Claret)
‘Maio chega sempre como quem bate à porta do
coração. Não chega com pressa, mas com delicadeza. Há algo de profundamente
humano e, ao mesmo tempo, profundamente divino neste mês que a tradição da
Igreja consagrou à Virgem Maria. Não é apenas um costume devocional, é uma
pedagogia espiritual. É como se a Igreja, conhecedora da fragilidade dos nossos
afetos e da dispersão dos nossos dias, convidasse-nos a reaprender a amar,
olhando para aquela que soube amar sem reservas.
Falar de Maria, no entanto, exige um deslocamento
interior. Não se trata de falar sobre uma personagem distante, envolta em
imagens idealizadas, trata-se de deixar-se alcançar por uma presença materna e
acolhedora. A teologia mais recente, em sintonia com o Concílio Vaticano II,
tem insistido nisso com vigor : Maria não pode ser compreendida isoladamente,
mas no coração do mistério de Cristo e da Igreja. Ela é mulher concreta,
discípula, peregrina da fé. Justamente por isso, torna-se espelho daquilo que a
Igreja é chamada a ser.
Nesse horizonte, o título ‘coração de Maria’
adquire uma densidade que vai muito além de uma linguagem afetiva. O coração,
na tradição bíblica, não é apenas o lugar dos sentimentos, é o centro da
pessoa, onde se decide a vida. Quando o Evangelho nos diz que Maria ‘guardava
todas essas coisas, meditando-as em seu coração’ (Lc 2,19), revela-nos uma
mulher que não vive na superficialidade dos acontecimentos, mas na profundidade
do sentido, da fé e da esperança. Uma mulher que acolhe, discerne, sofre,
espera e ama, por isso, contemplar o coração de Maria é contemplar uma forma de
existir diante de Deus e diante do mundo.
Neste ano, essa contemplação ganha uma ressonância
ainda mais profunda. Celebramos os oitenta anos da consagração do Brasil ao
imaculado coração de Maria. Em 1946, num contexto marcado por incertezas
históricas e feridas ainda abertas no mundo provocadas pelas guerras, pelo medo
de novos conflitos, pela necessidade de reconstrução material e espiritual, a
Igreja no Brasil confiou o país ao coração de uma mãe como ato teológico de
confiança e reconhecimento de que ela cuida de cada um de nós. Consagrar é
reconhecer que não nos pertencemos, é admitir que nossa história precisa ser
atravessada por uma presença que nos reorienta, que nos humaniza, que nos
reconduz ao essencial.
O gesto de consagração permanece atual, talvez hoje
mais do que nunca. Em um tempo fragmentado, marcado por tantas formas de
violência, por indiferenças que se naturalizam e por uma crise profunda de
sentido, voltar ao coração de Maria é reencontrar um lugar de recomposição
interior. Não um refúgio alienante, mas uma fonte de lucidez e de compromisso.
A tradição espiritual recorda que o coração de
Maria é escola. Escola de escuta, porque ela acolhe a Palavra antes de
anunciá-la. Escola de disponibilidade, porque sua resposta não nasce do
controle, mas da confiança. Escola de fidelidade, porque permanece de pé mesmo
quando tudo parece ruir. Escola de ternura, porque sua presença nunca se impõe,
mas sustenta.
É precisamente aqui que a espiritualidade
claretiana encontra um de seus pontos mais luminosos. Santo Antônio Maria
Claret não fala do coração de Maria como uma ideia, mas como quem experimentou
um pertencimento. Ele insiste com veemência : não basta que os missionários,
hoje conhecidos como claretianos, sejam chamados ‘filhos do coração de Maria’,
é necessário serem e sentirem-se filhos. Há, nessa afirmação, uma exigência
espiritual profunda. Não se trata de um título honorífico, mas de uma
configuração existencial. Ser filho do coração de Maria é deixar-se educar por
esse coração.
O que significa ser educado por Maria? Significa
aprender a ter um coração missionário, inquieto diante da dor do mundo.
Significa cultivar uma fé encarnada, que não separa oração e vida. Significa
desenvolver uma sensibilidade capaz de perceber o sofrimento oculto das
pessoas. Significa, sobretudo, deixar que o próprio coração seja moldado
segundo as virtudes que nela resplandecem : humildade que não se exibe,
fortaleza que não endurece, pureza que integra, caridade que se doa.
Claret compreendeu que a missão nasce do coração e
que não há verdadeira evangelização sem transformação interior, por isso, ao
confiar sua congregação ao coração de Maria, ele não estava apenas
estabelecendo uma devoção, ele indicava um caminho formativo, um itinerário de
configuração.
Nesse sentido, o mês mariano não pode ser reduzido
a práticas repetitivas que não tocam a vida. Ele é convite à conversão do
coração. É tempo de reorganizar afetos, de purificar intenções, de reencontrar
a coerência entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.
Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo.
Não nos falta informação religiosa, falta-nos interioridade. Não nos faltam
discursos sobre Deus, falta-nos experiência de Deus que transforma o cotidiano.
É exatamente aí que Maria se torna presença decisiva porque nela fé e vida não
se separam. Palavra e existência coincidem.
Celebrar os oitenta anos da consagração do Brasil
ao coração de Maria é, portanto, mais do que recordar um evento do passado, é
perguntar, com honestidade, o que fizemos dessa entrega, é interrogar se nosso
país tem permitido que esse coração materno eduque nossas relações, inspire
nossas escolhas, ilumine nossas estruturas.
Talvez a resposta não seja confortável, mas o
caminho permanece aberto. Maio volta a nos visitar e, com ele, essa
possibilidade sempre nova de recomeço. Não um recomeço ruidoso, mas silencioso,
como é o amor verdadeiro, como é o coração de uma mãe. Talvez seja isso que
Maria continua a nos ensinar : que Deus não transforma o mundo apenas com
grandes gestos, mas com corações que, em silêncio, deixam-se transformar por
Ele.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/no-coracao-de-maria-o-brasil-reaprende-a-ser-filho.html