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domingo, 18 de outubro de 2026

O complexo mundo novo da tecnologia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Jackson Erpen

 

A reflexão sobre a comunicação social e a missão evangelizadora da Igreja ganha especial atualidade diante das profundas transformações tecnológicas que marcam o nosso tempo. Muito antes da revolução das redes sociais, da comunicação digital e da inteligência artificial, São João Paulo II já percebia que os meios de comunicação não eram apenas instrumentos para transmitir uma mensagem, mas espaços capazes de moldar a cultura, as relações humanas, a formação da consciência e os próprios comportamentos. Na Carta apostólica O rápido desenvolvimento, publicada em 2005, o Pontífice polonês retomou o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II e insistiu que a Igreja não poderia permanecer à margem dessa nova realidade : era preciso entrar no ‘areópago da comunicação’, compreender suas linguagens e integrar o Evangelho na nova cultura criada e amplificada pelas tecnologias.

Ainda no âmbito das comunicações, Pe. Gerson Schmidt nos propõe hoje a reflexão ‘O complexo mundo novo da tecnologia’ :

‘A Carta apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘o rápido desenvolvimento’, dirigida aos responsáveis pelas comunicações sociais, premia a introdução desse nosso aprofundamento de hoje. Diz assim, no número 01, a introdução desse documento pontifício : ‘O rápido desenvolvimento das tecnologias no campo da mídia é certamente um dos sinais do progresso da sociedade de hoje. Olhando para estas novidades em constante evolução, torna-se ainda mais atual o que se lê no Decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II Inter Mirifica, promulgado pelo meu venerado predecessor, o servo de Deus Paulo VI, a 4 de Dezembro de 1963 : ‘Entre os maravilhosos inventos da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a Santa Igreja acolhe e fomenta aqueles que dizem respeito, principalmente, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens’(Inter Mirifica, n.1).

Segue, Papa João Paulo II, no número 2, dizendo assim : ‘A mais de quarenta anos após a publicação daquele documento – Inter Mirifica - é muito oportuno voltar a refletir sobre os ‘desafios’ que as comunicações sociais constituem para a Igreja, a qual, como realçou o Papa Paulo VI, ‘se sentiria culpável diante do seu Senhor se não usasse estes poderosos meios’(Exortação Apostólica Evangelii Nunciandi, número 35). Ou seja, Se a Igreja não utilizar os Modernos Meios de Comunicação – o rádio, a TV, o telefone, a internet, hoje a Inteligência Artificial, etc. será culpada diante de Deus no seu trabalho de levar o Evangelho a todos os povos. Continua essa Carta Apostólica do Santo Polonês : ‘Com efeito, a Igreja não está chamada unicamente a usar os mass media para difundir o Evangelho mas, hoje como nunca, está chamada também a integrar a mensagem salvífica na ‘nova cultura’ que os poderosos instrumentos da comunicação criam e amplificam. Ela sente que o uso das técnicas e das tecnologias da comunicação contemporânea é parte integrante da sua missão no Terceiro Milênio. Movida por esta consciência, a comunidade cristã deu passos significativos no uso dos instrumentos da comunicação na informação religiosa, na evangelização e na catequese, na formação dos operadores pastorais do setor e na educação para uma responsabilidade madura dos usufruidores e destinatários dos vários instrumentos da comunicação’.

João Paulo II recorda essa mudança de época, de um mundo conectado numa grande aldeia global. Lembramos que a ‘aldeia global’ é o conceito cunhado pelo sociólogo canadense Herbert Marshall McLuhan para explicar a ideia de que o avanço tecnológico tende a encurtar distâncias, recriando no planeta a situação social que ocorre em uma aldeia. Pelos meios eletrônicos, as pessoas estariam se reconectando em um mundo globalizado. Segundo McLuhan, as mídias de massa, fruto da evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação, interligaram o mundo, estreitando suas relações econômicas, políticas e sociais. Diante desse fato e realidade moderna ou pós-moderna, essa Carta Apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘O RÁPIDO DESENVOLVIMENTO’, diz assim no número 03 : ‘São numerosos os desafios para a nova evangelização num mundo rico de potencialidades comunicativas como o nosso. Tendo isto em consideração, na Carta encíclica Redemptoris missio quis realçar que o primeiro areópago do tempo moderno é o mundo da comunicação, capaz de unificar a humanidade tornando-a como se costuma dizer ‘uma aldeia global’. Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas. A nossa época é uma época de comunicação global, onde muitos momentos da existência humana se desenrolam através de processos mediáticos, ou pelo menos, se devem confrontar com eles. Limito-me a recordar a formação da personalidade e da consciência, a interpretação e a estruturação dos vínculos afetivos, o desenvolvimento das fases educativas e formativas, a elaboração e a difusão de fenômenos culturais, o desenvolvimento da vida social, política e econômica’. O documento referendado é assinado e publicado por Joannes Paulus II, em 24 de janeiro de 20205, memória de São Francisco de Sales, patrono dos jornalistas. É o dia também que todos os anos os Papas divulgam a Mensagem para o dia Mundial da Comunicações Sociais. Atento aqui que há mais de 20 anos, o santo de nosso tempo, alertava para visão nova da realidade onde o indivíduo nasce já mergulhado na tecnologia. Repetimos o que já apontamos. Atentos ao que o Papa falava já em 2005, 39 dias antes de sua morte, em 02 de abril daquele ano, na festa do Domingo da Misericórdia por ele instituído : Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas’.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-10/complexo-mundo-novo-da-tecnologia-pe-gerson-schmidt.html


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Uma inovação tecnológica que tenha em consideração o bem comum

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Paolo Ruffini


‘Desde quando o mundo está em guerra? Há quantos anos passam imagens de guerra nos nossos televisores, computadores e smartphones? E quantas vozes e rostos da frente de batalha ouvimos e vimos realmente? Vozes e rostos que talvez já não existam, que se apagaram como num jogo : game on – game over.

Não ouvimos. Não vimos. Mas sabemos algo : não eram vozes e rostos virtuais; eram crianças, mulheres e homens, que talvez não tivessem escolhido estar em guerra. Não nos preocupávamos com eles.

Neste tempo ferido pelo seu balanço diário de bombas, mortos, medo; à beira de um abismo de violência que corre o risco de ser infinito, parece ter voltado à moda a teoria de Carl von Clausewitz sobre a guerra como forma de escrita, linguagem, comunicação.

Mas a sua gramática incorreta — que acaba por transformar o meio em fim — impede-nos de chamar cada coisa pelo seu nome.

Dizemos que vemos, mas não vemos. Que ouvimos, mas não ouvimos. E assim corremos o risco de nos perdermos a nós próprios, a nossa humanidade. Também por isso o Papa Leão XIV nos convidou a refletir sobre o valor sagrado do nosso rosto.

Uma boa maneira de o fazer é ir à raiz primordial da questão : evitar enfrentar os desafios que temos à nossa frente permanecendo na ignorância, na superfície; na onda de slogans fáceis que, utilizando a linguagem e a lógica de guerra, confirmam a ideia de que tudo se baseia na conquista e de que a verdade é a opinião de quem vence.

Devemos voltar a refletir sobre o significado próprio das palavras; e — como o Papa nos convidou reiteradamente a fazer — encontrar uma resposta evangélica ao desafio do tempo.

Guardar. O que significa esta palavra, que muitos de nós aprendemos quando éramos crianças? Certamente usávamo-la mais na oração ao anjo, a quem somos «confiados pela Piedade celestial», do que no uso comum das nossas conversas, onde infelizmente se tornou obsoleta. Outrora, preservar definia o ato de cuidar amorosamente de alguém ou de algo.

Na sociedade do descarte, como a definiu com palavras duras o Papa Francisco, quem guarda realmente?

E o quê? E quem? Certamente não o faz quem pensa que guardar significa conservar algo numa gaveta, colocá-lo e deixá-lo lá; ou quem pensa que, para guardar uma alternativa à comunicação de guerra, é preciso impedir que as pessoas vivam o dinamismo da própria vida.

Ser guardado não significa tornar-se objeto passivo, inerte. A salvaguarda é um exercício ativo. Exige uma ação. Ao mesmo tempo, não é intrusiva, mas precisamente respeitosa, amorosa. Pacífica. Guardar é um ato de responsabilidade nunca igual a si mesmo. Muda com o tempo e no tempo.

Para o cristão — disse o Papa Francisco — guardar é ser como São José, proteger a própria vida, a dos outros e a da Igreja : «Cuidar uns dos outros, cuidar-nos mutuamente».

A custódia, diz-nos hoje o Papa Leão XIV, é o lugar da presença e da relação. Cabe a cada um de nós — perante a tentação individualista, que teoriza quase como uma regra o desinteresse pelo destino do outro, e como remédio a ignorância e o esquecimento — escolher o paradigma de Caim («Sou porventura eu o guarda do meu irmão?», Gn 4, 9) ou o de Jesus («Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei», Jo 13, 34-35).

Compete a nós salvaguardar o nosso coração, ou deixá-lo endurecer. Preservar a nossa mente, ou deixá-la atrofiar.

Tudo isto — recorda-nos o Papa de modo brusco — está intimamente relacionado com a inteligência artificial que, por sua vez, não deve ser deixada a si mesma. Também porque não é propriamente inteligente.

Os algoritmos podem ajudar-nos — certamente — na comunicação e no conhecimento. Mas não têm voz nem rosto humanos. Executam cálculos, para isto instruídos por inteligências humanas. Mas não estão cientes do que calculam. Nem são, de forma alguma, expressão da singularidade de cada pessoa e da sua alteridade única e irrepetível em relação a todos os outros seres humanos do presente, do passado e do futuro.

Podem simular, fingir, enganar-nos e fazer-nos crer que, pelo contrário, sim, são capazes de pensar e sentir, de ter rostos e vozes. E de saber tudo, de conhecer tudo. Como Deus!

Podem simular emoções, construir relações fundamentadas num verdadeiro engano.

Mas precisamente por isto é necessário compreender, salvaguardar e preservar a diferença ontológica entre a chamada inteligência artificial e a inteligência humana.

Devemos preservar a nossa capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, o pensamento de um cálculo estatístico, o rosto dos outros da simulação de uma máquina, a voz dos outros de um sintetizador vocal que a imita. O rosto e a voz de Deus, do rosto e da voz mutáveis de uma máquina. A guerra da paz. Os jogos de guerra, da paciente construção da paz.

Por isso é importante educar-nos e educar para o cuidado de nós próprios; para compreender que — embora seja apenas um punhado de empresas, como nos recorda o Papa, que hoje controla o oligopólio da comunicação digital — somos nós os stakeholders dos dados que a IA processa. Somos nós que devemos tutelar nas relações a beleza de encontros não mediados por um ‘intermediário técnico’ : «Uma centelha elétrica, um impulso, uma rede, uma ligação, um satélite», como Ryszard Kapuściński observava de modo perspicaz.

Nós somos chamados a escolher entre a sabedoria e a ignorância, entre a liberdade de pensamento e a submissão a um pensamento único. Como escreve o Papa Leão na sua Mensagem : «Consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem paternidade nem amor».

Sem dúvida, sei bem que neste ponto se poderia levantar uma objeção teórica : quem é exatamente o ‘nós’ a que se faz frequentemente referência quando se fala de responsabilidade na gestão do ecossistema digital?

A Mensagem do Papa Leão XIV dissipa a ambiguidade interessada que muitas vezes acompanha esta interrogação. E levanta o véu de uma certa hipocrisia coletiva através da qual muitas vezes tendemos a lavar as mãos, a eludir ou minimizar as nossas responsabilidades.

Com efeito, o ‘nós’ não designa um sujeito indistinto ou abstrato, mas o conjunto concreto dos atores sociais envolvidos, cada qual no próprio âmbito de competência.

Ele diz respeito às empresas tecnológicas e aos gestores das plataformas digitais, chamados a não ter o máximo lucro como único critério de orientação das suas escolhas; a optar, salvaguardar e promover uma visão da inovação tecnológica, que tenha em consideração a dimensão do bem comum.

Mas a mesma responsabilidade envolve diretamente os informáticos e os programadores. Compete a eles a tarefa de programar e desenvolver sistemas de inteligência artificial — incluindo os modelos linguísticos de grandes dimensões — segundo critérios de transparência, responsabilidade social e atenção às consequências éticas das tecnologias produzidas.’ 

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-06/por-006/uma-inovacao-tecnologica-que-tenha-em-consideracao-o-bem-comum.html

 

sábado, 4 de outubro de 2025

Tessalônica, as Igrejas ortodoxas e o desafio tecnológico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Beatrice Guarrera


‘‘A Igreja ortodoxa e sua teologia continuarão a se interessar pelos desenvolvimentos científicos, pela cultura e civilização, pelos eventos sociais e pelas condições históricas em que se desenrola a vida dos fiéis. As tensões que inevitavelmente existem entre a identidade cristã e a vida contemporânea devem servir como oportunidades para um encontro criativo, destacando a relevância do Evangelho cristão.’ Foi o que afirmou o patriarca ecumênico Bartolomeu, na cerimônia oficial de abertura do segundo congresso internacional pelo centenário da revista ‘Theologia’, realizado em Tessalônica, na Grécia, de 29 de setembro a 1º de outubro. O evento reuniu delegados das Igrejas autocéfalas e especialistas internacionais abordando o tema ‘Teologia ortodoxa e ontologia da tecnologia : consequências antropológicas, políticas, econômicas, sociais e culturais’. Na noite de segunda-feira, a esplêndida igreja de São Demétrio, em Tessalônica, ressoou com cantos sagrados executados pelo coro ‘José Estudita, arcebispo de Tessalônica’, aguardando a delegação para a cerimônia de abertura. O evento também contou com a presença do presidente da Grécia, Konstantinos Tasoulas, do arcebispo Hieronymos II de Atenas e de toda a Grécia, e dos demais primazes das Igrejas ortodoxas da Bulgária, Chipre e Albânia.

Fé e ciência como colaboradoras

‘Estamos particularmente contentes com o encontro entre a teologia ortodoxa e a tecnologia’, continuou Bartolomeu. ‘Neste encontro, fé e ciência não participam como adversárias, mas como colaboradoras e parceiras a serviço do homem.’ A visão de um choque inevitável entre fé e ciência, de fato, ‘surge de uma incompreensão da essência e do propósito dessas duas grandes forças espirituais, a saber, fé e ciência’. Em seu diálogo, continuou ele, ‘a verdade também se revela : a pessoa humana é sempre mais do que a ciência pode apreender, que a abordagem do homem como criação divina, à imagem e semelhança de Deus, confere à sua existência o maior valor possível, enquanto a negação do Transcendente leva a uma diminuição gradual do respeito pelo homem’.

O homem e a tecnologia

‘Nenhum intelecto - afirmou em seguida o patriarca ecumênico - pode ​​questionar plenamente os benefícios da ciência e da tecnologia. No entanto, também é inegável que a ciência não pode oferecer respostas e soluções para os grandes problemas existenciais e sociais que afligem a humanidade’. Portanto, é importante compreender a diferença entre as duas, sabendo que ‘a civilização tecnológica é uma tentativa dinâmica do homem de responder à questão central : o que é o homem? E, no futuro, a busca por novas respostas para essa questão continuará’. Nenhuma civilização, concluiu Bartolomeu, ‘constitui uma solução definitiva para o enigma humano; nenhuma civilização cria um paraíso terrestre para o homem’. Com esse entendimento havia partido os trabalhos da conferência na Faculdade de Teologia da Universidade Aristóteles de Tessalônica. Igreja, ciência, política e tecnologia foram o foco da primeira sessão da manhã, que deu origem a um animado debate. Entre os palestrantes, estavam também o metropolita Daniel de Sófia e patriarca da Igreja ortodoxa búlgara, e o primaz Georgios III, da Igreja ortodoxa de Chipre. Muitas questões foram abordadas : a tecnologia pode substituir a oração? A dimensão sacramental de uma liturgia é diminuída se transmitida online? Qual é a ontologia das mídias sociais e quais são as possibilidades de proclamar o Evangelho por meio delas?

‘A Igreja deve ter olhos sábios para ver o bem que há na tecnologia e alertar as pessoas sobre seus perigos’, explicou o primaz Joan, da Igreja ortodoxa autocéfala da Albânia, à mídia vaticana. ‘O problema não é a tecnologia, mas como a usamos.’ A pergunta a ser feita, segundo o primaz da Albânia, é se ‘podemos controlá-la e se ela pode ser vantajosa para nós, não apenas para o lucro, mas também pode ser uma vantagem para a nossa vida espiritual?’ Além disso, devemos reconhecer que todo ser humano deve sempre considerar as necessidades da alma tão importantes quanto as necessidades do corpo. ‘Devemos santificar a maneira como abordamos a tecnologia, para que ela possa beneficiar a humanidade e não ser uma ameaça a ela’, acrescenta Joan. Neste nosso tempo, a Igreja ortodoxa albanesa pode contar com um forte envolvimento dos jovens, acrescenta, numa época em que as pessoas estão ‘buscando’ um sentido, ‘mais do que nunca, a Igreja deve responder às suas perguntas. Esperando por elas, dando-lhes amor, compreensão e sempre lembrando que não somos um tribunal. Somos um hospital e não devemos julgá-las, mas ajudá-las.’

O que une o mundo é a fé em Deus

Numa época em que a nossa relação com o progresso tecnológico representa um desafio comum, a tecnologia pode unir Igrejas e povos? Georgios III, primaz da Igreja ortodoxa de Chipre, responde a esta pergunta numa entrevista à mídia vaticana : ‘A Igreja e o mundo usam a tecnologia, mas o que une as pessoas é a sua fé em Deus e o uso desta tecnologia como meio de alcançar os outros. Sendo a tecnologia neutra, pode ser usada positivamente, mas também pode ser usada destrutivamente. Dependendo da nossa humanidade e da nossa atitude, podemos usá-la a nosso favor.’ Portanto, o que devemos cultivar como cristãos é a relação com Deus, da qual flui a nossa relação com o mundo. Neste sentido, a Igreja de Chipre, que tem vivido divisões políticas e sociais durante décadas, pode transmitir uma importante mensagem de dignidade, disse Georgios III, um exemplo de Igreja que persevera diante do sofrimento.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-10/tessalonica-igrejas-ortodoxas-desafio-tecnologico.html

sábado, 5 de julho de 2025

O mundo anda depressa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS 


‘O mundo anda depressa e nós não podemos parar’, alertava São João Batista Scalabrini na segunda metade do século XIX e início do século XX. Com efeito, eram tempos de intensa atividade e turbulência devido aos efeitos, positivos e negativos, da Revolução Industrial. Há séculos, a filosofia, associada aos inventos científicos e tecnológicos, vinha sacudindo o torpor da era medieval. A razão e a técnica ganhavam a centralidade característica dos tempos modernos ou pós-modernos. Os passos da travessia humana sobre a face da terra experimentaram um salto sem precedentes, seja do ponto de vista da produção, produtividade e consumo, como do ponto de vista da velocidade das mudanças em curso.

Não sem razão, a existência de Scalabrini, quase toda ela, coincide com o ‘século do movimento’ (Peter Gay). Movimento de máquinas a vapor, como o trem, o carro, o navio… Mas também movimento de pessoas, tanto do campo para a cidade, quanto cruzando o oceano em direção às terras novas das Américas. A nova produção econômica, de caráter liberal e capitalista, necessitava transformar os camponeses em operários para o trabalho das fábricas incipientes. Mas precisava igualmente transformar parte deles em migrantes que pudessem engrossar o chamado ‘exército de reserva’, fator decisivo para o lucro como motor da acumulação de capital.

Mal podia imaginar, então, Scalabrini que a velocidade das mudanças chegasse ao grau tão vertiginoso que hoje nos atropela e, literalmente, nos deixa para trás. Os últimos 50 anos em particular, ou seja, desde as décadas de 1970-80, a revolução da informática, com sua tecnologia de ponta, vem apresentando uma avalanche de inovações que nos deixa aturdidos. E aqui não há como ignorar os paradoxos. Por um lado, a terra e o setor agrícola nunca produziu tantas toneladas de alimento como atualmente, de outro lado, o desperdício de alimentos e a fome jamais atingiram tantas pessoas. Hoje, ao redor de um bilhão de seres humanos em todo planeta sofrem de insegurança alimentar.

Depois, nunca houve tantos meios e tanta facilidade de comunicação nas relações humanas, seja em termos de comunicação familiar e interpessoal, seja quanto à comunicação social, política ou cultural. Ao mesmo tempo, porém, a sensação de solidão e de abandono nunca pareceu tão profunda e tão angustiante. As cidades e metrópoles se converteram em amontoados de indivíduos isolados, fechados em si mesmos. Cresce o fenômeno da ‘multidão solitária’, para usar a expressão de David Riesman, na pesquisa e obra homônima. Em especial nas megalópoles, multidão passa a rimar com solidão. As pessoas estão conectadas à distância, pela Internet, mas evitam o encontro cara-a-cara, olho-no-olho. Emoções e sentimentos acabam sendo dominados, e explorados financeiramente, pelas gigantescas redes de telecomunicação.

Vale o mesmo para o caso dos transportes, individuais e coletivos, terrestres e aéreos. Crescem as técnicas que os tornam, simultaneamente, mais modernos, mais velozes e mais confortáveis. As distâncias diminuem de forma nunca vista. Finalmente, ‘o mundo se converteu numa aldeia global’. Mas o acesso a tais meios de última geração, rápidos e confortáveis, torna-se um luxo de poucos. A grande maioria da população depende do transporte público, onde é maior a aglomeração e menores os investimentos. Daí a sensação de deslocar-se como ‘sardinhas em lata’. Mesmo para o transporte privado, quanto mais aumenta a sofisticação, a rapidez e o conforto do veículo, maior a probabilidade de ficar horas parado no trânsito infernal das grandes cidades. De forma paradoxal, técnicas de ponta paralisam os carros de luxo. Contra o que dizia Scalabrni, fica-se imobilizado num mundo que anda depressa.

Não seria difícil multiplicar os exemplos contraditórios dos avanços tecnológicos. Em lugar de favorecer maior tempo de lazer e de criatividade, a Internet, o telefone celular e agora a Inteligência Artificial (IA) parecem devorar todo nosso tempo. Entramos no vórtice avassalador de uma pressa doentia, patológica, onde não há tempo para afetos, laços e amizades presenciais ou duradouras. Mais do que nunca, somos atropelados pela noção de que ‘time is money’. Tornamo-nos marionetes da IA e dos poucos milionários ou bilionários que faturam alto com toda essa correria. Quem sabe atualmente, se estivesse vivo, Scalabrini diria que ‘o mundo anda demasiadamente depressa, por isso devemos parar para reencontrar a nós mesmos, ao outro e ao totalmente Outro!’ 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-mundo-anda-depressa/

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O dilema das redes e a teologia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Recentemente a Netflix lançou um documentário chamado O dilema das redes, que teve um grande impacto sobre muitos. Mesmo já sabendo sobre a coleta de informações pelas redes sociais ou até mesmo sobre o modo de desenvolvimento desses aplicativos – feitos justamente para viciar, fazendo com que os usuários despendam o maior tempo possível diante das telas –, ainda assim muitas pessoas se chocaram em ouvir tão explicitamente tais fatos por seus desenvolvedores.

O documentário também traz um alerta importante : é preciso que a população lute para que haja regulação e responsabilização de tais empresas pelos dados que possuem e, principalmente, pelo que fazem com eles. Em uma sociedade como a nossa, em que informação é poder, é inconcebível permitir que as redes sociais, ou qualquer outro órgão empresarial ou estatal possa fazer o que quiser com nossos dados.

Nesse cenário, como teólogos e teólogas, é necessário que se pense em que medida a teologia se implica nessa realidade. Com isso em mente, gostaria de pensar dois pontos neste pequeno artigo : o primeiro tem a ver com aquilo que a teologia pode aprender com tudo isso; o segundo, com aquilo que a teologia pode ajudar nessa reflexão.

O que a teologia pode aprender? Em primeiro lugar, o documentário deixa claro algo que já sabemos : vivemos em um mundo conectado, rápido, com linguagem própria, habitado em sua maioria pelos jovens e adolescentes de nossa geração que, a partir da criação de bolhas, vivem e interagem sempre com as mesmas pessoas, ouvindo e vendo somente aquilo que mais gostam. Em outras palavras, criaram um mundo para si e, a partir dele, toda a realidade é justificada e explicada.

Nesse cenário, é imprescindível para o pensar teológico que a linguagem da teologia seja atualizada. Seus próprios termos e sua forma de explicar as coisas precisam ser revistas a fim de ser uma linguagem que faça sentido para as pessoas de nosso tempo. Isso não quer dizer abrir mão de seus pressupostos de fé. Muito pelo contrário, atualizar sua linguagem implica em tornar seu discurso acessível às pessoas de nosso tempo. Assim como a teologia dos primeiros séculos tomou diversos termos extrabíblicos para poder dizer a fé para aquele tempo, é imprescindível que a teologia atual faça o mesmo movimento, reconhecendo que somente as linguagens bíblica e tradicional não dão conta do momento tecnológico em que estamos inseridos. Sem isso, a teologia continuará em sua bolha, falando somente aos seus achando que está alcançando milhares de pessoas, quando, na verdade, vive uma retroalimentação que não ajuda em nada na mudança da sociedade. Sair da bolha é tarefa fundamental para a teologia do século 21.

Por outro lado, a teologia também pode contribuir na discussão. Ela, que parte da fé na revelação, vê o ser humano como aquele que foi criado imagem e semelhança de Deus. Um sujeito possuindo a liberdade deve ser capaz de usá-la para a promoção de uma vida harmoniosa com seus irmãos e irmãs, bem como com a própria natureza. Nesse sentido, o caráter relacional é fundante do ser humano. Se Deus é Trindade, como afirma a fé cristã, então o próprio Deus é também relação. Sendo o ser humano imagem e semelhança de Deus, pensar tal humano ausente de relação seria um absurdo para a fé.

A ética cristã, então, está baseada nesse pressuposto básico de que todos e todas são filhos e filhas do mesmo Deus e, portanto, estão em relação de igualdade, devendo, como irmãos e irmãs, construir uma sociedade na qual reina a justiça, a paz e a misericórdia. Da mesma forma, todo ser humano tem um valor em si mesmo, não baseado nas coisas externas e, desse modo, não é negociável. Nenhum ser humano é melhor que outro e, consequentemente, na relação entre iguais, não é aceitável que alguns tenham mais direitos que os outros. A quebra do direito de um é a quebra do direito de todos.

Com isso em mente, podemos dizer que a violação da privacidade do sujeito e o tratamento do ser humano como mero produto, o que é feito pelas redes sociais, mostra-se antiético e passível de denúncia, a partir dos pressupostos da ética cristã que mencionamos.

Assim, ao insistir no valor do ser humano como imagem e semelhança de Deus, a teologia contribui com um critério importante para se pensar a regulação e responsabilização das redes sociais. Se por um lado a teologia tem que aprender com as redes, por outro, deve também confrontá-la e, a partir da fé, tentar ensiná-la.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1485998/2020/12/o-dilema-das-redes-e-a-teologia/

terça-feira, 5 de junho de 2018

Igreja está de olho na realidade aumentada


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Monsenhor Tomasz Trafny, responsável do Departamento Ciência e Fé Vaticano Conselho Pontifício para a Cultura. Foto: IT People Group
Monsenhor Tomasz Trafny

*Artigo da Rádio Renascença


‘‘Há quem queira desenvolver o ser humano 2.0’. A frase é de Monsenhor Tomasz Trafny, responsável pelo departamento de Ciência e Fé do Conselho Pontifício para a Cultura.

Há alguns dias, Trafny deslocou-se do Vaticano até à capital portuguesa para participar na 6.ª edição do RALI - Realidade Aumentada em Lisboa, onde foi um dos oradores do debate sobre ‘O impacto da Realidade Aumentada na Cultura e no Homem’.

Em entrevista à Renascença, o sacerdote enaltece muitas vantagens das novas tecnologias, como a realidade aumentada e a realidade virtual, mas reconhece que há um ‘risco de isolamento’.

Sobre os que defendem que ‘não devemos ter limites no nosso auto-desenvolvimento’, ressalta : ‘Precisamos de pensar sobre este assunto e precisamos de saber lidar com estas pessoas, desafiá-las, manter o contato com elas.’


Ferramentas tecnológicas como a realidade aumentada preocupam o Vaticano?

Não é preocupar. Nós procuramos entender todas as novas tecnologias. A linha orientadora do Conselho Pontifício para a Cultura é acompanhar tudo o que está a crescer e a ganhar impacto cultural na nossa sociedade. As tecnologias digitais, realidade virtual, realidade aumentada, já estão a ter impacto na percepção de nós mesmos, estão a mudar a forma como nos relacionamos e seguramente, no futuro, vão ser ferramentas poderosas usadas por muitas pessoas, se não até pela maioria. Por isso, é importante compreender que tipo de dinâmica está por trás do desenvolvimento destas tecnologias e que tipo de impacto podemos esperar.


Mas vê riscos nestas novas tecnologias?

Algumas pessoas acreditam que não devemos ter limites no nosso auto-desenvolvimento e, claro, as novas tecnologias são consideradas como oportunidades para isso, pelos que acham que devemos usar todas as ferramentas para nos melhorarmos, melhorar as nossas performances a nível físico e mental, tentar desenvolver um novo tipo de ser humano, simbolicamente chamado ‘Humano 2.0’ ou ‘Humano +’. Este é, claro, um assunto muito interessante, não só do ponto de vista moral, mas também do ponto de vista antropológico e cultural. Demonstra-nos que as pessoas já não estão satisfeitas com elas próprias ou que não querem ter qualquer tipo de restrições no seu auto-desenvolvimento. Precisamos de pensar sobre este assunto e precisamos de saber lidar com estas pessoas, desafiá-las, manter o contato com elas.


E que vantagens encerram estas tecnologias?

Algumas tecnologias já trouxeram e podem vir a trazer benefício para a humanidade, mas também levantam novos desafios. Um dos desafios relacionados com a realidade virtual ou com a realidade aumentada é que, no futuro, conferências como estas poderão realizar-se num ambiente virtual e as pessoas poderão escolher a forma mais confortável de participar nelas. Estas tecnologias também nos demonstram que uma das questões em causa é a da solidão, do isolamento. Em muitos casos parece que as pessoas vão preferir ficar em casa e participar virtualmente em encontros deste gênero, em vez de viajar e de se encontrarem pessoalmente com os outros. Este é um dos aspectos a ter em conta, que a forma de nos relacionarmos uns com os outros vai mudar. Provavelmente, as pessoas vão tentar alienar-se e a tecnologia pode criar esta nova esfera de isolamento.


No que diz respeito à aplicação destas ferramentas na Igreja, acha que será possível, por exemplo, ir à missa em realidade aumentada?

Estas podem ser ferramentas úteis mas, claro, os sacramentos só podem ser recebidos presencialmente, por exemplo quando o sacerdote vai distribuir a comunhão. O mesmo acontece na assistência a pessoas doentes ou na confissão. Não se pode fazer isto através de tecnologias digitais. A realidade aumentada pode ser útil no sentido em que, por vezes, por razões de doença, de incapacidade de deslocação ou impossibilidade de estar em contato direto com o sacerdote, as pessoas podem encontrar conforto por poderem participar na Missa mas isso não substitui a vida sacramental.


Concluindo, está atento mas não preocupado?

A principal regra é que toda e qualquer tecnologia que possa trazer potenciais benefícios ao ser humano - para o melhorar, para que seja mais sensível, mais ponderado, e que nos permita alcançar um novo nível de conhecimento - deve ser apoiada e abraçada. Não quer dizer que não vejamos dificuldades ou que não tenhamos preocupações. Há preocupações em torno das novas tecnologias. A questão principal é: como é que vamos usar as novas tecnologias, com que propósito e objetivos e como é que mensagens podem ser disseminadas através delas em todo o mundo. É preciso não esquecer que a tecnologia digital é muito poderosa, tem inúmeras possibilidades mas também tem, digamos, alguns ‘lado negros’ que não podemos ignorar. Há questões de segurança e de privacidade, questões relacionadas com a capacidade de controlar as pessoas e de disseminar certas mensagens por todo o mundo.’


Fonte :