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sábado, 1 de agosto de 2026

O que tem mais vida na Ordem hoje

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Comunidade de Quilvo. © AIM.

*Artigo da Irmã Ainzane Juanicotena, OCSO

Mosteiro de Quilvo, Chile


‘Recebemos o Espírito de filhos, e dizemos Abba, Pai’ (Rom. 8, 15)


‘Tudo o que é vivificante é um presente imerecido, e o maior presente que recebi da Ordem, o mais vivificante, é o dom da filiação.

Como todo o dom que vem da mão de Deus, saboreamo-lo com a consciência de que somos pecadores, pobres, perdoados e resgatados. Somos acolhidos como o filho pródigo, quando volta para o Pai (Luc 15, 11-32), ou como a menina a quem ele disse ‘Talitha Kumi’ (Mat 5, 41, ou como Lázaro saído do túmulo (Jo 11, 44). O Pai acolhe-nos por meio do Filho que, nos seus dias mortais exclamou : ‘Ninguém me tira a vida, eu a dou livremente’ e que aprendeu a obediência pelo sofrimento (cf 10, 18; Heb 5, 8).

Ora vivemos no centro de uma crise global em que a vida é arrastada quase de forma imperceptível para uma desolação terrível : um mundo de guerra, de pandemia, de fome, de morte, de ódio, um mundo de egoísmo extremo, desintegrado e desintegrante.

O mundo da comunicação tecnológica também abriu suas asas e atrai instantaneamente, a informação é rápida, abundante e variada. Ainda não tivemos tempo para cuidar de tudo o que é oferecido, e já outras propostas chegam; e entramos pouco a pouco num modo pré-estabelecido de comportamento na sociedade. Deixamos de pensar, de nos interrogar sobre o além, sobre o porquê das coisas, tornamo-nos como que anestesiados, deixamo-nos entrar na sociedade cansados, tornamo-nos indiferentes, perdemos o gosto pela vida, preferimos não ter problemas, não arriscar, e fechamo-nos à ideia de que a vida é algo que se recebe. E no entanto, ao mesmo tempo há no coração humano um desejo que aspira ardentemente e que grita, procurando o encontro com Deus. Um desejo que reconhece que recebemos a vida, e que por causa disso podemos transmiti-la, pois ninguém pode dar o que não tem, e é somente transmitindo a vida que ela se mantém em nós e passa para os outros. Porque somos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gen 1, 26) temos em nós uma marca que grita, desejando o encontro com o seu Criador, um movimento contínuo nos habita que caminha para o encontro entre Deus e eu, através de uma relação entre um Tu e um Eu. Por isso a nossa vida é feita para os outros, e é somente através dos outros que podemos nos encontrar.

Concretamente somos chamados a olhar, a lutar pela vida de Deus e a servi-la nos outros, em cada irmão da comunidade, com esse otimismo antropológico cisterciense, que afirma energicamente que a última palavra sobre o homem nunca será o pecado, mas o dom de Deus, o fato de ser feito à sua imagem e semelhança.

Quer tenhamos consciência, ou não, cada ser humano tem em si a marca daquilo para que Deus o criou, e que somos seus filhos. Pois o desejo mais profundo do coração humano é ficar diante da face de Deus, aderir a ele com toda a liberdade.

A vida começada por um desejo lancinante, situada num espaço e num tempo concretos, no hoje, começa a tomar forma por meio do despertar da íntima relação com Deus, do dom da filiação que temos com Ele. A filiação recebida por meio do Filho Jesus Cristo, que deixou sua marca em nós, impressa em cada átomo do nosso ser e em toda a criação. Uma marca que procura o seu Criador e nos faz filhos para sempre.

Somos filhos de Deus, marca que não se apaga, mas a relação que temos com Deus, o dom da filiação, forma-se através da relação com pessoas concretas, e num lugar concreto. A contemplação de Cristo, a relação direta com Ele na escuta, como no encontro com a Palavra viva é a base para poder viver com fé e obediência a relação com a comunidade, o abade e a Ordem. Apoiados sobre a tradição da Ordem, os costumes da casa na continuidade da vida, sobre testemunhas concretas que deram sua vida por nós, e que a dão hoje, vivemos o dom de dar a nossa vida a Deus na relação com os outros. Minha vida dada a Deus concretiza-se amando minhas irmãs e o dom que recebo de Deus recebe-se das mãos delas. Minha relação com os outros reflete a minha relação com Deus e vice-versa.

A gratuidade do dom recebido, o fato de me saber amada é a minha garantia, nada se perde quando tudo é oferecido; é somente por meio da ação de graças que minha vida tem gosto e cor. Reconhecer- me como filha amada, livre, pobre, pecadora que precisa de perdão e de amor.

A vida comunitária, com os olhos fixos num fim único, Cristo, é uma escola de sabedoria e de energia poderosa, e a nova resposta ao individualismo que tanto nos afeta hoje. É a expressão mais autêntica do fato que somos criados para a relação : é somente através dos outros que posso ver quem sou e caminhar assim para Cristo; o espelho dos outros permite-me reconhecer-me, situar-me numa realidade, ver meu caminho para saber onde estou, ter a luz que preciso para viver a conversão que Deus me pede, e que não consigo sem os outros.

A força para este elan de conversão está em reconhecer-me miserável e me saber objeto de misericórdia, sustentada pelo Cristo através de minhas irmãs de comunidade, reconhecê-lo no concreto da vida, que serve de trampolim para me levar a viver o dom da obediência, como resposta ao amor recebido.

Este caminho da obediência cristifica-me, pois é o modo de ser do Filho Jesus Cristo. É o nosso modo de amar, a condição da realização plena. A obediência é a nossa oração, e para que isso seja possível é necessário ajoelhar-se diante do mistério de Cristo feito carne, quer vivendo-o no Ofício, quer escutando-o na lectio, quer ficando em silêncio, quer no serviço que me é pedido cada dia. É o caminho, o sustentáculo, a fonte da nossa fé no Filho de Deus que se fez homem.

Para que isso seja possível, é necessário que a obediência seja acompanhada pela alegria, uma alegria nem artificial, nem fingida, me mostrando feliz mas machucada por dentro, ou isenta de sofrimento. Mas uma alegria que seja sempre pascal, feita da cruz e da glória de cada dia. Se a obediência não for vivida com alegria, não é verdadeira obediência; deve partir da raiz de ser filhos, herdeiros e amados; e como filhos somos livres, felizes e desejosos de responder a este amor da forma mais plena, como Cristo o fez e nos ensinou com sua obediência.

A confiança, a certeza de ser filha de Deus, vivendo num tempo e num espaço concretos, em que cada segundo é um novo nascimento para a vida plena com Cristo. Isto é a respiração do nosso organismo, a batida do nosso coração. É viver na sua presença, alegrar-se com o desenrolar do dia e com a comunidade que Deus me deu. É cultivar a alegria em nós e naqueles que vêm, ajudando-os a reconhecer o desejo pessoal e comunitário de felicidade e de verdade, e isto não está nas observâncias nem num número maior de irmãs. Mas vai mais longe, está na procura e na qualidade e na profundidade da relação com Cristo, fruto do modo comum do sentir e da vontade para andar no caminho da plenitude presente, e assim ir todas juntas para a vida eterna (RB 72, 12).

Não se trata de alcançar ou de depender dos frutos espirituais do caminho da comunidade, nem da morte ou da vida da comunidade, mas da perfeita conformidade com a vontade de Deus. Sem esta consciência da alegria de viver com Deus, tornamo-nos áridas, sem gosto e sem entusiasmo. Perdemos a chama que nos fez querer a vida e viver como verdadeiros cristãos; enchemo-nos de amargura, que é a inimiga da vida. Quem vive verdadeiramente está pronto para dar a vida. Quantas vezes nos agarramos às nossas seguranças, aos nossos esquemas para não dar a vida, e esquecemo-nos de viver? Devemos viver com o desejo de acompanhar o Cristo na sua paixão até à ressurreição.

Devia haver nos nossos corações uma alegria pronta para jorrar para a vida aberta para a novidade, para nos reconhecermos livres e abertas para receber e dar o perdão. Devia me abrir a formas novas, objetivos novos, devia examinar-me e ver que coisas outrora davam vida e agora não dão. Devia eliminar preconceitos, arriscar, ousar, inovar, nunca me limitar, identificar-me com os outros, ser jovem com os jovens, criança com as crianças, venerar os anciãos. Procurar sempre a vida… deixar que os outros nos atrapalhem!

Quantas vezes nos agarramos aos nossos critérios e não deixamos entrar a graça nova que Deus nos oferece a cada instante? Quantas vezes nos agarramos a nós mesmos e não sabemos reconhecer o bem nas ações dos outros? Quantas vezes nos agarramos às estruturas e esquecemos que as estruturas devem estar a serviço da vida nova dada pelo Espírito Santo no nosso caminho? Há tanto sofrimento no mundo… e eu não sou capaz de ter compaixão pela irmã que está a meu lado?

Devemos aprender (como o Filho aprendeu cf. Heb 5, 8-9) de cada acontecimento, e dos outros, com toda a novidade e particularidade que o distingue, que o outro traz algo à minha vida. Devo ser uma fonte disponível para todos, ser receptiva e receber, vivendo aberta aos outros, amando-os a cada instante, sem essas fantasias românticas sobre o bem, que canonizam o nosso mal, e dissimulam a necessidade de conversão, mas com realismo. Para amar e aceitar plenamente como são, aqueles que Deus pôs perto de mim, sem criticar, sem queixas, nem resistências, mas com uma misericórdia lúcida, valorizando-os, sem me deixar levar pelo mal que cometeram, mas acreditando na boa vontade e no bem que se encontra em cada um.

Assim me deixo fazer e formar pelos outros. É somente por meio de pessoas concretas, com nomes e rostos concretos que posso me deixar formar por Deus. É somente por meio da mediação humana dos outros que posso deixar Deus agir em mim e encarnar em mim. O outro é o sacramento da vontade de Deus na minha vida.

A regra de vida nos nossos mosteiros é viver na obediência filial, de modo concreto e segundo o carisma da nossa Ordem, numa comunidade, sob uma regra e um abade, com o olhar fixo na vida eterna e com o condimento saboroso da fé. A filiação divina faz-se carne graças a estes três pilares fundamentais :

– Comunidade : é o lugar aonde me posso deixar fazer por meio do Senhor através dos outros. É o Corpo-Igreja aonde acontece o encontro com Deus, aonde todos somos membros e o Cristo é a cabeça. Nossa comunidade é o Corpo de Cristo, é uma Igreja monástica que vive em comunhão com a Igreja universal.

É o lugar aonde recebo o perdão e a vida cotidiana, é o lugar aonde aparece a minha miséria, aonde faço a experiência das minhas fraquezas, dos meus limites, dos meus pecados, e aonde sou carregada, me reconhecendo amada apesar da minha pobreza. É o lugar onde posso abrir minhas asas e ir para Cristo através do serviço aos outros, pelo trabalho e pelo dom de mim mesma.

– Abade / abadessa : é a pessoa que faz as vezes de Cristo no mosteiro, é o abade, a abadessa da comunidade que vive para a servir; e a comunidade forma o seu abade, sua abadessa. A pureza de coração é fundamental na minha relação com meu abade / abadessa, a verdade comigo mesma para viver essa relação, reconhecer minhas amarguras, minhas obscuridades, minhas inconsequências, minha luzes e meus sucessos, poder ser transparente com ele, saber-me filho / filha dessa pessoa concreta, que representa a Cristo.

– A Regra : é a estrutura vital da nossa vida; sua forma é cristocêntrica e dá-nos a maneira concreta para viver o evangelho. Viver, não realizar. Porque todas as nossas ações têm irradiação no mundo inteiro. Irradiação que não depende do nosso mérito, ou falta de mérito, mas do encontro com Cristo, como diz o Sal 33, 5 ‘olhai para ele e sereis irradiantes’.

A radicalidade da nossa vida para viver o encontro com Cristo a partir de uma humanidade, num tempo e num mundo concretos, faz o encontro com nossos irmãos concretos. No aqui e no hoje que olham para a eternidade. Todos os elementos da nossa vida se encontram nesta realidade do hoje. Fazer o que tenho que fazer, estar aonde devo estar, é a nossa oferenda, é a nossa oração.

Podemos encontrar estes aspetos na nossa Ordem. A paternidade e a maternidade espirituais são vividas e ajudam-nos nos gerando mutuamente. Mas são sempre um desafio.

A filiação que devemos oferecer a Cristo, a cada momento, é um testemunho vivo no interior da Ordem, a relação com o Abade Geral, a Casa Mãe, o Pai Imediato, as casas filhas e irmãs, a interdependência mútua, aonde a respiração e do coração comum são o Cristo. Somos filhos numa comunidade concreta, que pertence a uma Ordem concreta, regida por uma estrutura sólida, onde o que domina sempre é esta união filial de amor que temos entre nós. Isto expressa o fato real de ser gerado, de receber uma identidade, um rosto, das mãos de um outro que faz o lugar de Cristo. Esta filiação não é sentimental, mas evangélica; por isso é um caminho de fé, muito mais profundo do que as aparências.

O amor de Cristo por cada um de nós, reconhecer-se amado por Deus e reconhecer o amor de Deus nos outros, viver o eterno presente da realidade cotidiana, é o dom mais precioso que podemos experimentar, é a própria Vida. É viver enraizados na realidade presente, com a consciência de estar imersos numa vida transitória, cujo destino final é Deus.

Viemos para viver com Cristo, a morte a si mesmo é a condição para viver; a vida borbulha, renova-se, é sempre um presente que temos de agradecer, porque o maior dom de Deus é a vida, e a capacidade de a saborear dá paz para assumir conscientemente e com alegria o sentimento do nosso destino livremente escolhido, como resposta a um amor que nos ama e nos escolheu por primeiro (1 Jo 4, 19).

É somente crescendo que podemos ajudar os outros a crescer em Cristo e desenvolver uma paternidade ou maternidades espirituais, em resposta ao fato de sermos filhas e filhos de Deus.

Devemos viver num mundo do além, em que os sonhos se tornam realidade, e ver já no presente a luz do amor de Deus, que será a vida futura. Isso é viver unida a Cristo, com os olhos fixos nele, enfrentando o cotidiano à essa luz, com o olhar voltado para a cristificação total nele, com tudo e com todos.

Sejamos agradecidos pelo que não merecemos, perdoando o que já nos foi perdoado, e acima de tudo amemos sempre e a cada instante com o amor que só um filho de Deus pode entender, o de Cristo. 

Que a Virgem Maria nos guie com seu amor de Mãe, para esta união íntima, ousada, viva, reconhecida, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


quinta-feira, 30 de julho de 2026

As grandes civilizações africanas - O Zaire e a ditadura de Mobutu Sese Seko

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘O termo Zaire para designar um país da África é usado em dois contextos históricos : Era o antigo nome do país que hoje é conhecido como República Democrática do Congo (RDC) e também usado para designar a histórica província no noroeste de Angola.

Entre 1971 e 1997, a atual República Democrática do Congo (RDC) foi renomeada Zaire pelo ditador Mobutu Sese Seko.

O nome vem de uma derivação portuguesa do termo local ‘nzadi ou nzere’ que significa ‘o rio que engole todos os rios’.

Nessa região existiu o antigo e poderoso Reino do Congo, um dos maiores de toda a África. A capital, M’Banza Congo, foi fundada em 1390, sendo a maior e mais organizada cidade da África subequatorial.

Em 1482, o explorador português Diogo Cão desembarcou na foz do rio Zaire, onde ocorreram os primeiros contatos com o rei do Congo, que levaram à cristianização da região, tanto que a cidade de M'Banza Congo abrigou a primeira igreja católica da África Subsaariana, declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Depois dos portugueses veio o domínio belga sobre o Congo, período marcado por um dos regimes mais brutais da história colonial. Na Conferência de Berlim celebrada em 1885, o território foi entregue ao Rei Leopoldo II como sua colônia privada, disfarçada sob um título bonito : ‘missão civilizatória e humanitária’.

O foco principal era primeiro a extração de marfim e depois da borracha para atender à demanda global. Para forçar o trabalho pesado, o regime impôs cotas de produção. Trabalhadores enfrentavam castigos físicos severos, espancamentos e mutilações caso falhassem em atingir as metas. Por causa das doenças, fome, assassinatos e trabalho escravo aconteceram cerca de 10 milhões de mortes nesse período. Além disso, as riquezas minerais do Congo foram completamente espoliadas.

Devido às denúncias internacionais dos abusos o Parlamento belga retirou o controle pessoal do rei e anexou o território em 1908, transformando-o em colônia oficial. Embora os níveis extremos de violência tenham diminuído, a exploração econômica continuou, focada na mineração (cobre, urânio, diamantes), além de um forte controle cultural e discriminação institucional.

O processo de descolonização foi precipitado e, em 30 de junho de 1960, o país conquistou sua independência sob a liderança do primeiro-ministro Patrice Lumumba.

A era Mobutu

Estabelecido após a independência da Bélgica (1960), com o golpe sob Patrice Lumumba, o regime de Mobutu impôs uma política conhecida como ‘Authenticité’, apagando nomes coloniais, forçando também a população a abandonar os nomes cristãos em favor dos tradicionais africanos. Nese contexto, o Congo foi transformado em Zaire.

A era de governo de Mobutu ficou marcada pelo seu estilo extravagante e autoritário de atuar. Ele adotou para si um extenso nome africano, Mobutu Sese Seko Kuku Ngbendu Wa Za Banga, e promoveu uma ideologia que buscava africanizar a cultura do país. Ele ainda promoveu a ‘Mobutização’ da sociedade envolvendo a exibição de sua imagem por toda parte, desde notas de dinheiro até relógios e, além disso, sua palavra era lei.

Sob o regime de Mobutu, o Zaire viu crescer a corrupção em níveis inimagináveis, a má administração econômica e uma repressão brutal de opositores políticos. Mobutu acumulou uma riqueza pessoal significativa, enquanto a maioria dos cidadãos do Zaire vivia na pobreza.

O regime de Mobutu chegou ao fim em 1997, quando Laurent-Désiré Kabila liderou uma rebelião apoiada por vários países vizinhos para derrubá-lo. Isso marcou o início de um período conturbado na história com conflitos e instabilidade persistente. Depois dele o nome do país voltou a ser Congo.

O legado de Mobutu continua a afetar o Congo até hoje, com desafios significativos, incluindo instabilidade política, corrupção, problemas econômicos e sociais. O país passou por várias mudanças desde a queda de Mobutu, incluindo a transição para uma república democrática, mas ainda enfrenta desafios complexos enquanto busca estabilidade e desenvolvimento.

Por outro lado, o passado colonial tem sido alvo de reavaliações e debates profundos nos últimos anos. O Rei Philippe da Bélgica expressou ‘profundo pesar’ pelas feridas históricas do período colonial, e estátuas de Leopoldo II foram alvo de protestos e remoções.

Nos últimos tempos leste do país vive um cenário de guerra civil e tensão regional, com confrontos intensos entre o exército congolês e grupos rebeldes, como o M23. Ruanda é frequentemente acusada de apoiar os rebeldes do M23, o que mantém a região em constante instabilidade e risco de escalada militar.

O aumento da violência e os abusos dos direitos humanos deslocaram milhões de pessoas internamente. Tentativas de mediação, como as conversações em Luanda, têm sido buscadas para tentar pacificar a região.

E para complicar, a República Democrática do Congo (RDC) enfrenta agora no primeiro semestre de 2026, uma grave crise humanitária e de segurança, agravada pela emergência de saúde global. O país lida com o recrudescimento de um surto de ebola na região, A situação levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar emergência de saúde pública internacional, último estágio antes da declaração de epidemia.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-06/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-zaire.html


domingo, 26 de julho de 2026

O Cenobitismo, equilíbrios comunitários

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Ex-presidente da AIM


‘Uma das principais características da nossa vida é o ser cenobítica. Vivemos em comunidade e damos testemunho, juntos, da realidade do Corpo de Cristo. Há, aqui, algo de profundamente misterioso, pois mesmo que o homem seja um animal social, temos que reconhecer que a vida comum não é fácil. São Bento fala disto a que dá muita importância.

‘Os cenobitas são os que vivem em comum, num mosteiro, e combatem sob uma Regra e um abade; através de provação diuturna no mosteiro, instruídos na companhia de muitos, aprendem a lutar contra o demónio. São bem adestrados nas fileiras fraternas. São livres diante dos costumes do mundo e de sua conduta. Não estão encerrados nos seus próprios apriscos, mas nos do Senhor. A satisfação dos desejos não é para eles lei’ (RB 1).

Passam a vida num lugar estável, com sua comunidade e, salvo por razão especial, no próprio mosteiro. É assim que se pode fazer um primeiro retrato do projeto cenobítico, segundo São Bento, e segundo o cap. 1 da Regra.

No começo da Regra, a preocupação de São Bento é a da conversão  pessoal. A comunidade seria como um meio para esta conversão, para fazer a experiência do caminho da caridade. Mas ao longo da Regra, e sobretudo no fim, percebe-se uma abertura para a dimensão propriamente comunitária, como um bem em si. Se este projeto comunitário é tão importante, precisamos de alguns meios para caminhar e sobretudo para conseguir viver os equilíbrios difíceis, que fazem que cada um possa se sentir no seu lugar nesta comunidade, segundo sua personalidade.

As funções e as pessoas

Numa comunidade o abade tem uma função quase impossível. É como o vigário de Cristo. Isto quer dizer que ele deve apontar aquele que é o abade verdadeiro, o Cristo, que se dá como Palavra de Deus, por meio do seu ensinamento e por seu exemplo. É a mesma coisa para outros que exercem responsabilidades na comunidade. Uma das dificuldades da nossa vida comunitária, está em confundir a função com a pessoa. E isto a tal ponto que os que não têm um cargo grande sentem-se complexados e vivem, conscientemente ou inconscientemente, uma verdadeira inveja; como se não existissem aos olhos dos outros, pois a tentação de acreditar que só têm valor pelo que fazem, é muito grande. Mas pode haver a tentação oposta : querer existir pelo que se é, sem coincidir com a função que se deve exercer. Quer dizer, querer sentir-se realizado primeiro, e depois exercer uma responsabilidade. Este é o melhor modo de atribuir a si mesmo um poder subjetivo, chegando à sedução. É uma grande ilusão situar-se diante do abade e da comunidade neste registro. Parece-me que uma das qualidades mais importantes dos responsáveis seja a honestidade em assumir sua responsabilidade, sem negar o que se é, mas pondo-o a serviço do que se deve realizar. A atitude do abade deve continuamente apontar ao Cristo. Por causa desta honestidade o abade pode agir segundo a natureza que o Senhor lhe deu, sem se preocupar demais com os comentários de todo o tipo, que inevitavelmente são feitos à sua atuação ou comportamento. Assim pode não haver desequilíbrio entre as aspirações pessoais de quem assume o cargo, e as aspirações legítimas dos outros membros da comunidade, porque todos são chamados a se pôr a serviço uns dos outros, sem se esconderem  atrás da função, ou sem impor o peso de sua subjetividade.

Precisa definir em que consiste a honestidade; São Bento aponta alguns aspectos : alimentar um duplo ensinamento mais por atos do que por palavras. Aliás São Bento diz que o abade deve ser o primeiro a aplicar a Regra na sua totalidade. Que seja casto, sóbrio, misericordioso : terá sempre diante dos olhos sua própria fraqueza, e se lembrará de não quebrar a cana já rachada. Não seja turbulento, nem inquieto; não seja excessivo nem obstinado; não seja ciumento, nem muito desconfiado. Assim, poderá talvez não fazer acepção de pessoas, nem amar mais o nascido livre, do que o originário de condição servil, ou de outras categorias sociais ou culturais : porque servos ou livres somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão… Mostrará a todos a mesma caridade. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu : reger almas e servir aos temperamentos de muitos. Na distribuição dos cargos se conduzirá com discernimento e moderação, lembrando-se da discrição do Santo Jacó, que dizia : se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia. (cf RB 64 e 2)

Esta vida honesta é um projeto difícil, mas é também a chave de uma vida livre segundo a vontade de Deus. Se, como abade, me acontecer sentir algumas dificuldades nesta liberdade, é porque o enraizamento não é bastante ‘honesto’. Esta palavra honestidade pode parecer insuficiente, mas vem de São Bento, no cap. 73.

‘Escrevemos esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou de início de vida monástica… Tu, porém, quem quer que sejas, que te apressas para a Pátria celeste, realiza com a auxílio de Cristo esta mínima regra de iniciação, e, então, chegarás, com a proteção de Deus aos maiores cumes de doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém.’

O Diálogo

São Bento quer que cada um encontre seu lugar na comunidade, podendo falar. É este o sentido do cap. 3 ‘Da Convocação dos irmãos a Conselho’. Dissemos que todos fossem chamados a conselho, porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Mas esta fala deve ser feita com muita sabedoria : ‘Deem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade’. De fato, isto nem sempre é fácil. Por um lado, as questões que dizem respeito à vida do mosteiro são numerosas, e nem todas podem ser objeto de debate; aliás é por isso que existe um conselho. Por outro lado, infelizmente, é raro encontrar uma comunidade em que todos saibam escutar-se mutuamente. Já se sabe de antemão o que pensar das palavras de tal ou tal. A tal ponto que certas palavras não são levadas suficientemente em conta.

E no entanto, no mosteiro, cada um tem um lugar único. Cada um tem uma inteligência única alimentada por sua experiência particular. Um é perfeitamente natural e sem complexos, e fala como lhe vem à ideia, sem se interrogar muito. Um outro é capaz de trazer uma reflexão sobre os princípios abstratos de uma ação; outro, ao contrário, falará sobre o modo prático de pôr a coisa em ação. Esta escuta mútua é capital para se viver em comunidade, e não acontece só em reuniões do capítulo, deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Percebe-se muitas vezes que alguns se afastam da vida comunitária porque não se leva em conta o que dizem. Cada um quer expressar alguma coisa, isso está mesmo na originalidade da natureza humana; se não pode fazê-lo no grupo em que vive, definha, e às vezes procura noutro lugar um espaço mais propício. Aqueles que pensam ter algo mais interessante a dizer que os outros, façam um esforço de paciência para escutar. Pode parecer menos apropriado, e no entanto é útil. Assim cada um poderá existir neste diálogo, que é uma componente essencial do amor. Tudo se faça, porém, com discrição, discernimento. Não se trata de dizer qualquer coisa, seja de que modo for, ou a quem for, sob o pretexto que se precisa falar.

Obediência

Como consequência da escuta mútua, vem a obediência, essa qualidade de atenção uns aos outros.

‘Não só ao abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus’ (RB 71).

Que há de mais belo do que uma comunidade em que os irmãos, as irmãs, independentemente de sua idade, de sua função, de sua origem e de sua formação, se obedecem uns aos outros! Em vez de se picarem uns aos outros, exercendo essa tentação de poder que só leva a incompreensões, conflitos, injustiças profundas! Como é maravilhoso fazer tudo para se compreenderem, em todo o sentido do termo, de se servirem, de se encontrarem num verdadeiro serviço mútuo!

É triste que muitas vezes nossa maneira de olhar o outro leve marcas de inveja. Todos temos dons diferentes, por que querer ter os dons dos outros em vez de fazer frutificar os nossos, que são sempre infinitamente preciosos para todos? Um sabe acolher magnificamente. Outro sabe contar ou organizar. Outro sabe cantar, ou ensinar. Outro sabe acompanhar os outros em caminhos difíceis. Outro sabe viver um silêncio frutuoso, ou ainda suportar santamente a doença, ou dizer uma boa palavra, guiar um trator, consertar um carro, ou dirigir na perfeição. Alguns sabem escrever livros, outros cozinhar admiravelmente, ou manter um lugar numa ordem perfeita, ou perfeitamente limpa! Que mais? Não há ninguém sem dons ou qualidades, mas só estão verdadeiramente a serviço da comunidade, se a pessoa aceitar pô-los a serviço e desenvolvê-los, e a comunidade os acolhe e obedece a eles.

Isto significa que não pode haver ideias feitas sobre os outros na vida comum. Escutam-se muitas vezes julgamentos sobre os outros, até mesmo rejeições; quanto mais se rejeita, mais o outro se sente incapaz. O amor é a esperança imensa da confiança, apesar de todas as tentações de rejeição que se pode sentir dentro de si mesmo.

Assim pode-se obedecer positivamente, acolher-se mutuamente, amar-se, reconhecer-se, perdoar-se, construir-se, edificar-se mutuamente, e encontrar aquele equilíbrio bom numa comunidade aberta, onde o impossível pode tornar-se testemunho para uma difusão da Boa Nova : Cristo quebrou o muro do ódio.

Eis a verdadeira alegria na conversão do coração.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Permanecer humano em tempos de algoritmos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Renata Moraes


‘Em um tempo marcado pelo avanço acelerado da inteligência artificial, pela automação do trabalho e pela crescente digitalização das relações humanas, o Papa Leão XIV apresenta ao mundo a Carta encíclica Magnifica Humanitas. O documento convida a sociedade a refletir sobre uma questão fundamental : como preservar a dignidade da pessoa humana em uma era em que as máquinas parecem ocupar espaços cada vez mais centrais na vida cotidiana?

Promulgada em 15 de maio de 2026, a encíclica é a primeira do pontificado de Leão XIV e já nasce com forte significado histórico. A data de sua assinatura não foi escolhida por acaso : ocorreu exatamente 135 anos após a publicação da Carta encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, documento que inaugurou a doutrina social da Igreja e marcou a resposta católica aos desafios provocados pela Revolução Industrial.

Se no fim do século XIX a preocupação da Igreja recaía sobre as consequências da mecanização e da exploração dos trabalhadores, hoje o foco se volta para os impactos éticos, sociais e antropológicos da revolução digital. Para Leão XIV, a inteligência artificial representa a grande ‘coisa nova’ (res novae) do século XXI, capaz de influenciar profundamente a maneira como as pessoas trabalham, se relacionam, aprendem e até compreendem a própria identidade.

Mais do que um texto sobre tecnologia, a Carta encíclica Magnifica Humanitas é uma reflexão sobre o ser humano. O Papa alerta que o progresso técnico não pode ser confundido com progresso humano e recorda que nenhuma inovação será verdadeiramente benéfica se não estiver a serviço da vida, da fraternidade e do bem comum.

Entre Babel e Jerusalém

Uma das imagens centrais da encíclica é o contraste entre a torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém. Para o Papa Leão, Babel simboliza a tentação da humanidade de buscar poder ilimitado por meio da técnica, esquecendo-se de seus limites e de sua dependência de Deus. Jerusalém, por outro lado, representa a cidade construída coletivamente, fundada na solidariedade, no diálogo e na busca do bem comum.

A partir dessa metáfora bíblica, Leão XIV propõe uma reflexão profunda sobre os rumos da inteligência artificial. O documento alerta que os algoritmos não são neutros : eles carregam as intenções, valores e interesses daqueles que os desenvolvem, razão pela qual precisam ser submetidos a critérios éticos, transparência e mecanismos de regulação.

Outro aspecto fortemente criticado pelo Pontífice é o transumanismo, corrente que defende o uso da tecnologia para superar os limites biológicos humanos. Para o Papa, a fragilidade, a vulnerabilidade e os limites fazem parte da condição humana e possuem valor espiritual. São justamente essas características que tornam possível a experiência da compaixão, da misericórdia e da abertura à transcendência.

Ao mesmo tempo, a encíclica lança um apelo profético para que a inteligência artificial seja ‘desarmada’, deixando de servir exclusivamente a interesses econômicos, militares ou de dominação política.

A dignidade humana no centro

Para o teólogo e sacerdote Cônego Antônio Manzatto, a escolha da dignidade humana como eixo central da encíclica responde a uma preocupação permanente do cristianismo.

‘A dignidade da pessoa humana sempre foi a grande preocupação dos discípulos de Jesus Cristo. Ele veio para salvar toda a humanidade. Todas as pessoas foram criadas por Deus à sua imagem e semelhança’, afirma.

Segundo o religioso, a urgência do tema se torna ainda mais evidente diante das inúmeras situações de exclusão presentes no mundo contemporâneo, como a realidade dos migrantes, da população em situação de rua, dos trabalhadores submetidos a condições degradantes e das vítimas das guerras. Nesse contexto, a tecnologia não pode ser vista como um fim em si mesma.

‘O Papa lembra que a tecnologia não é um bem em si, mas está a serviço do ser humano. A tecnologia não é mais importante que as pessoas’, destaca o religioso.

Essa perspectiva aparece ao longo de toda a encíclica e se conecta diretamente aos quatro pilares da doutrina social da Igreja : dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade e subsidiariedade.

Oportunidades e riscos da inteligência artificial

Embora apresente diversas advertências, a Carta encíclica Magnifica Humanitas não adota uma postura de rejeição à tecnologia; pelo contrário, reconhece os benefícios que a inteligência artificial pode oferecer quando orientada para a promoção da vida humana.

O cientista da computação Carlos Alberto Marques Rabelo destaca que há aplicações extremamente positivas da inteligência artificial, especialmente na área da saúde : ‘Ferramentas de inteligência artificial podem tornar mais rápidos os processos diagnósticos e o desenvolvimento de novos medicamentos, além de auxiliar na compreensão do próprio funcionamento do corpo humano’.

Ele cita como exemplo o AlphaFold, sistema de inteligência artificial que revolucionou a pesquisa científica ao prever estruturas de proteínas e cujos desenvolvedores receberam o Prêmio Nobel de Química de 2024.

Ao mesmo tempo, o pesquisador alerta para desafios éticos cada vez mais urgentes : ‘Um dos maiores desafios é a salvaguarda da verdade. A desinformação já existia antes, mas hoje encontra na inteligência artificial um poderoso multiplicador’.

A preocupação ganha relevância especial em contextos eleitorais, diante da proliferação de conteúdos manipulados e de deepfakes capazes de atribuir a pessoas falas ou ações que nunca ocorreram. Segundo Rabelo, a disseminação dessas práticas compromete a confiança social e enfraquece os próprios fundamentos da democracia.

Atualização da Doutrina Social da Igreja

Um dos aspectos mais significativos da encíclica é sua inserção na tradição da doutrina social da Igreja. Leão XIV não apresenta uma ruptura, mas uma atualização dos princípios já consolidados pelo magistério diante das novas circunstâncias históricas.

Para Carlos Marques, a escolha do nome Leão XIV já sinalizava essa intenção desde o início do pontificado : ‘Quando Leão XIV foi eleito, imediatamente entendi que a escolha desse nome remetia a Leão XIII e sinalizava uma atenção às ‘coisas novas’ do nosso tempo, assim como Leão XIII se atentou às ‘coisas novas’ do fim do século XIX’, observa ele.

Na prática, a encíclica reaplica ao ambiente digital princípios permanentes da doutrina social. O bem comum passa a questionar a concentração de dados e poder nas mãos de poucas empresas. A destinação universal dos bens lembra que todos devem ter acesso às novas tecnologias. A justiça denuncia as desigualdades presentes na produção e no controle dos sistemas digitais. A solidariedade exige atenção às formas de exploração escondidas nas cadeias produtivas que sustentam o desenvolvimento tecnológico.

Para o Cônego Manzatto, a contribuição específica da Igreja para esse debate não está no campo técnico, mas no discernimento ético : ‘A função da Igreja não é técnica. Sua missão é anunciar o Reino de Deus, por isso o Papa afirma que a inteligência artificial pode ser um bem se contribuir para o desenvolvimento integral dos seres humanos, na paz e na fraternidade, mas não deve ser instrumento de dominação’, ressalta.

Permanecer humano

Por fim, a Carta encíclica Magnifica Humanitas apresenta um convite que ultrapassa especialistas em tecnologia, governos e empresas. Trata-se de um chamado dirigido a toda a humanidade.

Em um mundo cada vez mais orientado pela produtividade, pela eficiência e pelos algoritmos, o Papa recorda que o verdadeiro valor da existência não está no desempenho, mas na capacidade de construir relações humanas autênticas.

‘Precisamos de um mundo de paz e fraternidade, não de um mundo dominado por algoritmos controlados por pessoas ou empresas que visam apenas o poder e a riqueza de alguns’, afirma Cônego Manzatto.

A encíclica convida os cristãos a conhecerem mais profundamente a doutrina social da Igreja e a assumirem seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa. Ao mesmo tempo, interpela todos os homens e mulheres de boa vontade a participarem desse debate que definirá os rumos do futuro.

Diante das promessas e dos riscos da inteligência artificial, Leão XIV recorda que nenhuma tecnologia é capaz de substituir aquilo que constitui a essência da humanidade : a capacidade de amar, de cuidar, de estabelecer vínculos e de reconhecer no outro a imagem de Deus. É nessa convicção que a Carta encíclica Magnifica Humanitas se apresenta como um dos documentos mais importantes do magistério recente, oferecendo à sociedade um critério seguro para discernir os caminhos da inovação sem perder de vista aquilo que realmente importa : permanecer humano.

Leia a encíclica na íntegra :

A Carta encíclica Magnifica Humanitas está disponível gratuitamente no portal oficial do Vaticano. O documento pode ser acessado em português pelo endereço vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html

A leitura integral permite compreender em profundidade as reflexões do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial, a dignidade humana e os desafios éticos da sociedade contemporânea.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-coracao-de-maria-coracao-da-igreja.html


quarta-feira, 22 de julho de 2026

As grandes civilizações africanas - Congo - A batalha de Ambuila

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Como já pudemos analisar em diversos artigos dessa coluna, ao longo da história a África viu a constituição de grandes impérios, que alcançaram alto grau de organização em todos os campos, indo do social ao político e religioso. A chegada dos europeus, a partir dos séculos XV e XVI mudou completamente esse panorama. No século XIX, a partir da realização da Conferência de Berlim, o continente africano seria retalhado em diversas propriedades, situação que se manteria até o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Ao longo das décadas de 1950 e 1960 teria início o processo de libertação, com a constituição das novas nações africanas, cujo número hoje chega a 54.

Amizade substituída pela rivalidade

No dia 29 de outubro de 1665, ocorreu a Batalha de Ambuila, um dos confrontos mais marcantes relacionados à presença portuguesa na África Central. O exército do Reino do Congo, comandado pelo rei Antonio I, enfrentou as forças coloniais de Portugal, vindas de Luanda, na atual Angola.

O embate foi brutal, terminando com a morte do rei congolês e a derrota de suas tropas, episódio que marcou o início do declínio definitivo do antigo e poderoso Reino do Congo que controlava também a região de Angola, onde Portugal viria a se estabelecer em fins do século XV.

Após a batalha, a cabeça de Antonio I foi levada como troféu para Luanda, e jamais foi devolvida. O gesto, além de simbólico, representava o domínio português sobre a região e o fim de uma era em que o Reino do Congo se constituiu como um dos estados africanos mais influentes na região do Atlântico.

O Reino do Congo havia florescido de forma contínua desde o século XIV, mantendo boas relações diplomáticas e comerciais com Portugal desde 1483. Por décadas, os dois reinos trocaram missões diplomáticas, religiosas e comerciais, mas com o avanço do tráfico de escravos e a cobiça sobre as terras angolanas, a amizade deu lugar à rivalidade. A tensão cresceu muito até que, em 1665, as fronteiras entre Congo e Angola se tornaram palco de guerra.

O exército congolês era numeroso, contando com um contingente entre 15 e 20 mil homens armados com lanças e arcos, além de alguns mosquetes adquiridos dos europeus. Já as forças portuguesas eram bem menores, com cerca de 450 soldados lusos e outros 15 mil auxiliares africanos. O diferencial, porém, era o fato de os portugueses serem possuidores de armas de fogo modernas, contando com apoio logístico colonial. A disciplina e o poder de fogo português acabaram sendo decisivos.

A disputa começou por causa de Ambuila (ou Mbwila), uma região rica e estratégica entre os dois reinos. O Congo a considerava parte de seu território, mas Portugal, por meio de Angola, afirmava soberania sobre ela. O confronto armado aconteceu quando ambos os exércitos marcharam para a mesma colina, se encontrando face a face no dia 29 de outubro de 1665.

Durante a batalha, o rei Antonio I lutou na linha de frente, acabando sendo morto em combate. Sua morte provocou o pânico e a dispersão nas fileiras congolesas. O corpo do rei foi mutilado e sua cabeça exibida em Luanda como símbolo da vitória portuguesa, um gesto que ecoaria por séculos na memória coletiva do Congo.

Decadência do Reino do Congo

A derrota em Ambuila fez com que o Reino do Congo mergulhasse numa prolongada guerra civil, com príncipes rivais disputando o trono. O reino, já havia sido cristianizado e mantinha relações diplomáticas com Roma, mas entrou em colapso político. O poder central se fragmentou, e o tráfico de escravos se intensificou, alimentando o sistema colonial europeu.

Apesar disso, após Ambuila, várias regiões do Congo resistiram à dominação estrangeira. Nobres e líderes locais mantiveram suas tradições e lutaram para preservar a autonomia do povo congolês. No entanto, o antigo império jamais se recuperou, e acabou se tornando um mosaico de pequenos reinos e províncias sob influência portuguesa.

A Batalha de Ambuila simboliza o encontro trágico entre dois mundos: o africano tradicional e o europeu colonial. Foi o início do fim de um dos mais organizados reinos africanos pré-coloniais e o prelúdio de três séculos de dominação estrangeira. Hoje, a batalha é lembrada no Congo e em Angola como um marco da luta pela soberania africana.

A situação da República Democrática do Congo (RDC), anteriormente chamada de Zaire, é bem crítica, marcada por uma grave crise humanitária e conflitos armados intensos, especialmente no leste do país, com mais de 3,3 milhões de refugiados deslocados desde 2022. Grupos rebeldes, como o M23 (apoiado por Ruanda), controlam áreas estratégicas como a cidade de Goma, causando massacres e instabilidade, enquanto o governo enfrenta limitações no controle territorial. A tensão envolve interesses na riqueza mineral da área e disputas territoriais com Ruanda.

Apesar do imenso potencial econômico, o país continua hoje a sofrer com a exploração de recursos, corrupção, insegurança generalizada colocando a democracia em risco permanente.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-05/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-congo.html


segunda-feira, 20 de julho de 2026

As grandes civilizações africanas - O genocídio do Povo Herero - Namíbia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘A cada ano, no dia 27 de janeiro, diversos países celebram o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, data estipulada pela Organização das Nações Unidas para lembrar as atrocidades cometidas, sobretudo, contra os judeus e outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial.

O que muita gente não conhece são as profundas e antigas feridas deixadas pela Alemanha na Namíbia, no que agora é reconhecido como um genocídio praticado por forças coloniais.

O fato se refere aos anos 1904-1908, quando a atual Namíbia era uma colônia alemã no sudoeste da África. Milhares de pessoas foram mortas pelas forças coloniais na repressão dos levantes organizados por dois dos principais povos existentes na região, os herero e os nama, matando uma parte dos revoltosos e levando os demais para o deserto de Omaheke, no leste do país, onde muitos foram condenados a morrer de fome.

Os sobreviventes acabaram usados ​​como mão-de-obra escravizada. Os que não morriam de fome, morriam de exaustão, sede ou tiros. O estupro de mulheres foi também sistemático.

Origem dos conflitos e motivos da repressão

As fronteiras do chamado ‘Sudoeste Africano Alemão’, foram definidas em 1890, e ali se estabeleceu uma colônia, diferente das demais possessões da África. Primeiro os colonos começaram a chegar às cidades da costa atlântica que era bastante desértica, para depois alcançarem o interior. As autoridades coloniais consideravam a terra ideal para a criação de gado e logo os colonos alemães entraram em contato com os povos nativos, os Nama e Herero. 

No início, as relações dos alemães com o povo Herero eram relativamente cordiais, inclusive eles se converteram ao cristianismo e aceitaram a presença alemã.

Tanto os Namas como os Hereros assinaram tratados de proteção com a Alemanha e os dois grupos acabaram perdendo influência, gado e terras para os colonos.

Em 1897, uma epidemia de peste bovina dizimou grande parcela do rebanho de gado que era crucial para a riqueza dos Hereros, mas também para a sociedade em geral. Em 1903, menos de 5.000 alemães viviam em colônias, porém, precisavam de extensas terras para a agricultura. As autoridades coloniais reconheceram isso e usaram várias táticas para desapropriar as terras e os rebanhos bovinos dos Hereros, mesmo que isso significasse violar os tratados assinados anteriormente.

O racismo, a aplicação desigual da lei para indígenas e para colonos alemães, os maus-tratos aos povos Nama e Herero em terras ocupadas fizeram com que as tensões aumentassem ainda mais. Uma sentença leve proferida contra um colono que violou e assassinou a filha de um líder Herero tornou-se o símbolo desse tratamento desigual.

Em 1904, os guerreiros Herero mataram mais de 100 colonos alemães. A rebelião ou como os líderes Herero encararam isso, uma ação militar para retomar o controle, provocou ondas de choque que chegaram até Berlim.

Um general alemão (Lothar von Trotha) assumiu o comando do ‘Sudoeste Africano Alemão’ em meados de 1904, e milhares de soldados alemães invadiram a colônia, cercaram e destruíram a capacidade de luta ds hereros.

Começou então a fase de perseguição e extermínio dos hereros e estima-se que foram mortos cerca de 75 mil pessoas, homens, mulheres e crianças Herero, cerca de 75% da população. Morreram de sede, de fome, exposição e excesso trabalho nos frios e áridos campos de concentração. De 10 a 20 mil namas também morreram durante o regime colonial. Em comparação, as forças alemãs sofreram menos de mil baixas.

Reconhecimento tardio

Durante boa parte de sua história ao longo do séxulo XX a região da Namíbia era dependente da África do Sul até conseguir sua independência em 21 de março de 1990, após a Guerra de Independência da Namíbia. Começou então a luta pelo reconhecimento do genocício que foi reconhecido pela ONU em 1985.

Numa declaração bilateral conjunta completada em 2021, a Alemanha reconheceu o massacre e não genocídio cometido, prometendo cerca de 1,1 bilhão de euros ao Governo da Namíbia como compensação, a serem pagos nos próximos 30 anos.

Embora a Alemanha tenha formalmente pedido desculpas por ter cometido um crime que, na perspectiva atual, seria considerado um genocídio, não reconheceu os acontecimentos de 1904-1908 como um genocídio no sentido jurídico. Isso significa que a Alemanha não se considerava obrigada a pagar reparações.

Os líderes Herero e Nama dizem que nunca foram consultados, nem diretamente envolvidos nas negociações, já que o acordo foi entre a Alemanha e o Governo da Namíbia e não com grupos afetados. Em janeiro de 2023, advogados das comunidades Nama e Herero defenderam que a declaração conjunta germano-namibiana fosse declarada inválida por violar vários artigos da Constituição da Namíbia.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-06/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-genocidio-namibia.html