domingo, 26 de julho de 2026

O Cenobitismo, equilíbrios comunitários

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

Ex-presidente da AIM


‘Uma das principais características da nossa vida é o ser cenobítica. Vivemos em comunidade e damos testemunho, juntos, da realidade do Corpo de Cristo. Há, aqui, algo de profundamente misterioso, pois mesmo que o homem seja um animal social, temos que reconhecer que a vida comum não é fácil. São Bento fala disto a que dá muita importância.

‘Os cenobitas são os que vivem em comum, num mosteiro, e combatem sob uma Regra e um abade; através de provação diuturna no mosteiro, instruídos na companhia de muitos, aprendem a lutar contra o demónio. São bem adestrados nas fileiras fraternas. São livres diante dos costumes do mundo e de sua conduta. Não estão encerrados nos seus próprios apriscos, mas nos do Senhor. A satisfação dos desejos não é para eles lei’ (RB 1).

Passam a vida num lugar estável, com sua comunidade e, salvo por razão especial, no próprio mosteiro. É assim que se pode fazer um primeiro retrato do projeto cenobítico, segundo São Bento, e segundo o cap. 1 da Regra.

No começo da Regra, a preocupação de São Bento é a da conversão  pessoal. A comunidade seria como um meio para esta conversão, para fazer a experiência do caminho da caridade. Mas ao longo da Regra, e sobretudo no fim, percebe-se uma abertura para a dimensão propriamente comunitária, como um bem em si. Se este projeto comunitário é tão importante, precisamos de alguns meios para caminhar e sobretudo para conseguir viver os equilíbrios difíceis, que fazem que cada um possa se sentir no seu lugar nesta comunidade, segundo sua personalidade.

As funções e as pessoas

Numa comunidade o abade tem uma função quase impossível. É como o vigário de Cristo. Isto quer dizer que ele deve apontar aquele que é o abade verdadeiro, o Cristo, que se dá como Palavra de Deus, por meio do seu ensinamento e por seu exemplo. É a mesma coisa para outros que exercem responsabilidades na comunidade. Uma das dificuldades da nossa vida comunitária, está em confundir a função com a pessoa. E isto a tal ponto que os que não têm um cargo grande sentem-se complexados e vivem, conscientemente ou inconscientemente, uma verdadeira inveja; como se não existissem aos olhos dos outros, pois a tentação de acreditar que só têm valor pelo que fazem, é muito grande. Mas pode haver a tentação oposta : querer existir pelo que se é, sem coincidir com a função que se deve exercer. Quer dizer, querer sentir-se realizado primeiro, e depois exercer uma responsabilidade. Este é o melhor modo de atribuir a si mesmo um poder subjetivo, chegando à sedução. É uma grande ilusão situar-se diante do abade e da comunidade neste registro. Parece-me que uma das qualidades mais importantes dos responsáveis seja a honestidade em assumir sua responsabilidade, sem negar o que se é, mas pondo-o a serviço do que se deve realizar. A atitude do abade deve continuamente apontar ao Cristo. Por causa desta honestidade o abade pode agir segundo a natureza que o Senhor lhe deu, sem se preocupar demais com os comentários de todo o tipo, que inevitavelmente são feitos à sua atuação ou comportamento. Assim pode não haver desequilíbrio entre as aspirações pessoais de quem assume o cargo, e as aspirações legítimas dos outros membros da comunidade, porque todos são chamados a se pôr a serviço uns dos outros, sem se esconderem  atrás da função, ou sem impor o peso de sua subjetividade.

Precisa definir em que consiste a honestidade; São Bento aponta alguns aspectos : alimentar um duplo ensinamento mais por atos do que por palavras. Aliás São Bento diz que o abade deve ser o primeiro a aplicar a Regra na sua totalidade. Que seja casto, sóbrio, misericordioso : terá sempre diante dos olhos sua própria fraqueza, e se lembrará de não quebrar a cana já rachada. Não seja turbulento, nem inquieto; não seja excessivo nem obstinado; não seja ciumento, nem muito desconfiado. Assim, poderá talvez não fazer acepção de pessoas, nem amar mais o nascido livre, do que o originário de condição servil, ou de outras categorias sociais ou culturais : porque servos ou livres somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão… Mostrará a todos a mesma caridade. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu : reger almas e servir aos temperamentos de muitos. Na distribuição dos cargos se conduzirá com discernimento e moderação, lembrando-se da discrição do Santo Jacó, que dizia : se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia. (cf RB 64 e 2)

Esta vida honesta é um projeto difícil, mas é também a chave de uma vida livre segundo a vontade de Deus. Se, como abade, me acontecer sentir algumas dificuldades nesta liberdade, é porque o enraizamento não é bastante ‘honesto’. Esta palavra honestidade pode parecer insuficiente, mas vem de São Bento, no cap. 73.

‘Escrevemos esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou de início de vida monástica… Tu, porém, quem quer que sejas, que te apressas para a Pátria celeste, realiza com a auxílio de Cristo esta mínima regra de iniciação, e, então, chegarás, com a proteção de Deus aos maiores cumes de doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém.’

O Diálogo

São Bento quer que cada um encontre seu lugar na comunidade, podendo falar. É este o sentido do cap. 3 ‘Da Convocação dos irmãos a Conselho’. Dissemos que todos fossem chamados a conselho, porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Mas esta fala deve ser feita com muita sabedoria : ‘Deem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade’. De fato, isto nem sempre é fácil. Por um lado, as questões que dizem respeito à vida do mosteiro são numerosas, e nem todas podem ser objeto de debate; aliás é por isso que existe um conselho. Por outro lado, infelizmente, é raro encontrar uma comunidade em que todos saibam escutar-se mutuamente. Já se sabe de antemão o que pensar das palavras de tal ou tal. A tal ponto que certas palavras não são levadas suficientemente em conta.

E no entanto, no mosteiro, cada um tem um lugar único. Cada um tem uma inteligência única alimentada por sua experiência particular. Um é perfeitamente natural e sem complexos, e fala como lhe vem à ideia, sem se interrogar muito. Um outro é capaz de trazer uma reflexão sobre os princípios abstratos de uma ação; outro, ao contrário, falará sobre o modo prático de pôr a coisa em ação. Esta escuta mútua é capital para se viver em comunidade, e não acontece só em reuniões do capítulo, deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Percebe-se muitas vezes que alguns se afastam da vida comunitária porque não se leva em conta o que dizem. Cada um quer expressar alguma coisa, isso está mesmo na originalidade da natureza humana; se não pode fazê-lo no grupo em que vive, definha, e às vezes procura noutro lugar um espaço mais propício. Aqueles que pensam ter algo mais interessante a dizer que os outros, façam um esforço de paciência para escutar. Pode parecer menos apropriado, e no entanto é útil. Assim cada um poderá existir neste diálogo, que é uma componente essencial do amor. Tudo se faça, porém, com discrição, discernimento. Não se trata de dizer qualquer coisa, seja de que modo for, ou a quem for, sob o pretexto que se precisa falar.

Obediência

Como consequência da escuta mútua, vem a obediência, essa qualidade de atenção uns aos outros.

‘Não só ao abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus’ (RB 71).

Que há de mais belo do que uma comunidade em que os irmãos, as irmãs, independentemente de sua idade, de sua função, de sua origem e de sua formação, se obedecem uns aos outros! Em vez de se picarem uns aos outros, exercendo essa tentação de poder que só leva a incompreensões, conflitos, injustiças profundas! Como é maravilhoso fazer tudo para se compreenderem, em todo o sentido do termo, de se servirem, de se encontrarem num verdadeiro serviço mútuo!

É triste que muitas vezes nossa maneira de olhar o outro leve marcas de inveja. Todos temos dons diferentes, por que querer ter os dons dos outros em vez de fazer frutificar os nossos, que são sempre infinitamente preciosos para todos? Um sabe acolher magnificamente. Outro sabe contar ou organizar. Outro sabe cantar, ou ensinar. Outro sabe acompanhar os outros em caminhos difíceis. Outro sabe viver um silêncio frutuoso, ou ainda suportar santamente a doença, ou dizer uma boa palavra, guiar um trator, consertar um carro, ou dirigir na perfeição. Alguns sabem escrever livros, outros cozinhar admiravelmente, ou manter um lugar numa ordem perfeita, ou perfeitamente limpa! Que mais? Não há ninguém sem dons ou qualidades, mas só estão verdadeiramente a serviço da comunidade, se a pessoa aceitar pô-los a serviço e desenvolvê-los, e a comunidade os acolhe e obedece a eles.

Isto significa que não pode haver ideias feitas sobre os outros na vida comum. Escutam-se muitas vezes julgamentos sobre os outros, até mesmo rejeições; quanto mais se rejeita, mais o outro se sente incapaz. O amor é a esperança imensa da confiança, apesar de todas as tentações de rejeição que se pode sentir dentro de si mesmo.

Assim pode-se obedecer positivamente, acolher-se mutuamente, amar-se, reconhecer-se, perdoar-se, construir-se, edificar-se mutuamente, e encontrar aquele equilíbrio bom numa comunidade aberta, onde o impossível pode tornar-se testemunho para uma difusão da Boa Nova : Cristo quebrou o muro do ódio.

Eis a verdadeira alegria na conversão do coração.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


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