Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Ex-presidente da AIM
‘Uma das
principais características da nossa vida é o ser cenobítica. Vivemos em
comunidade e damos testemunho, juntos, da realidade do Corpo de Cristo. Há,
aqui, algo de profundamente misterioso, pois mesmo que o homem seja um animal
social, temos que reconhecer que a vida comum não é fácil. São Bento fala disto
a que dá muita importância.
‘Os cenobitas
são os que vivem em comum, num mosteiro, e combatem sob uma Regra e um abade;
através de provação diuturna no mosteiro, instruídos na companhia de muitos,
aprendem a lutar contra o demónio. São bem adestrados nas fileiras fraternas.
São livres diante dos costumes do mundo e de sua conduta. Não estão encerrados
nos seus próprios apriscos, mas nos do Senhor. A satisfação dos desejos não é
para eles lei’ (RB 1).
Passam a vida
num lugar estável, com sua comunidade e, salvo por razão especial, no próprio
mosteiro. É assim que se pode fazer um primeiro retrato do projeto cenobítico,
segundo São Bento, e segundo o cap. 1 da Regra.
No começo da
Regra, a preocupação de São Bento é a da conversão pessoal. A comunidade
seria como um meio para esta conversão, para fazer a experiência do caminho da
caridade. Mas ao longo da Regra, e sobretudo no fim, percebe-se uma abertura
para a dimensão propriamente comunitária, como um bem em si. Se este projeto
comunitário é tão importante, precisamos de alguns meios para caminhar e
sobretudo para conseguir viver os equilíbrios difíceis, que fazem que cada um
possa se sentir no seu lugar nesta comunidade, segundo sua personalidade.
As funções e
as pessoas
Numa
comunidade o abade tem uma função quase impossível. É como o vigário de Cristo.
Isto quer dizer que ele deve apontar aquele que é o abade verdadeiro, o Cristo,
que se dá como Palavra de Deus, por meio do seu ensinamento e por seu exemplo.
É a mesma coisa para outros que exercem responsabilidades na comunidade. Uma
das dificuldades da nossa vida comunitária, está em confundir a função com a
pessoa. E isto a tal ponto que os que não têm um cargo grande sentem-se
complexados e vivem, conscientemente ou inconscientemente, uma verdadeira
inveja; como se não existissem aos olhos dos outros, pois a tentação de
acreditar que só têm valor pelo que fazem, é muito grande. Mas pode haver a
tentação oposta : querer existir pelo que se é, sem coincidir com a função que
se deve exercer. Quer dizer, querer sentir-se realizado primeiro, e depois
exercer uma responsabilidade. Este é o melhor modo de atribuir a si mesmo um
poder subjetivo, chegando à sedução. É uma grande ilusão situar-se diante do
abade e da comunidade neste registro. Parece-me que uma das qualidades mais
importantes dos responsáveis seja a honestidade em assumir sua
responsabilidade, sem negar o que se é, mas pondo-o a serviço do que se deve
realizar. A atitude do abade deve continuamente apontar ao Cristo. Por causa
desta honestidade o abade pode agir segundo a natureza que o Senhor lhe deu,
sem se preocupar demais com os comentários de todo o tipo, que inevitavelmente
são feitos à sua atuação ou comportamento. Assim pode não haver desequilíbrio
entre as aspirações pessoais de quem assume o cargo, e as aspirações legítimas
dos outros membros da comunidade, porque todos são chamados a se pôr a serviço
uns dos outros, sem se esconderem atrás da função, ou sem impor o peso de
sua subjetividade.
Precisa
definir em que consiste a honestidade; São Bento aponta alguns aspectos :
alimentar um duplo ensinamento mais por atos do que por palavras. Aliás São
Bento diz que o abade deve ser o primeiro a aplicar a Regra na sua totalidade.
Que seja casto, sóbrio, misericordioso : terá sempre diante dos olhos sua
própria fraqueza, e se lembrará de não quebrar a cana já rachada. Não seja
turbulento, nem inquieto; não seja excessivo nem obstinado; não seja ciumento,
nem muito desconfiado. Assim, poderá talvez não fazer acepção de pessoas, nem
amar mais o nascido livre, do que o originário de condição servil, ou de outras
categorias sociais ou culturais : porque servos ou livres somos todos um em
Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão…
Mostrará a todos a mesma caridade. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu :
reger almas e servir aos temperamentos de muitos. Na distribuição dos cargos se
conduzirá com discernimento e moderação, lembrando-se da discrição do Santo
Jacó, que dizia : se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão
todos num só dia. (cf RB 64 e 2)
Esta vida
honesta é um projeto difícil, mas é também a chave de uma vida livre segundo a
vontade de Deus. Se, como abade, me acontecer sentir algumas dificuldades nesta
liberdade, é porque o enraizamento não é bastante ‘honesto’. Esta palavra honestidade
pode parecer insuficiente, mas vem de São Bento, no cap. 73.
‘Escrevemos
esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma
honestidade de costumes ou de início de vida monástica… Tu, porém, quem quer
que sejas, que te apressas para a Pátria celeste, realiza com a auxílio de
Cristo esta mínima regra de iniciação, e, então, chegarás, com a proteção de
Deus aos maiores cumes de doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém.’
O Diálogo
São Bento
quer que cada um encontre seu lugar na comunidade, podendo falar. É este o
sentido do cap. 3 ‘Da Convocação dos irmãos a Conselho’. Dissemos que todos
fossem chamados a conselho, porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o
que é melhor. Mas esta fala deve ser feita com muita sabedoria : ‘Deem pois os
irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade’. De fato, isto nem
sempre é fácil. Por um lado, as questões que dizem respeito à vida do mosteiro
são numerosas, e nem todas podem ser objeto de debate; aliás é por isso que
existe um conselho. Por outro lado, infelizmente, é raro encontrar uma
comunidade em que todos saibam escutar-se mutuamente. Já se sabe de antemão o
que pensar das palavras de tal ou tal. A tal ponto que certas palavras não são
levadas suficientemente em conta.
E no entanto,
no mosteiro, cada um tem um lugar único. Cada um tem uma inteligência única
alimentada por sua experiência particular. Um é perfeitamente natural e sem
complexos, e fala como lhe vem à ideia, sem se interrogar muito. Um outro é capaz
de trazer uma reflexão sobre os princípios abstratos de uma ação; outro, ao
contrário, falará sobre o modo prático de pôr a coisa em ação. Esta escuta
mútua é capital para se viver em comunidade, e não acontece só em reuniões do
capítulo, deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. Percebe-se
muitas vezes que alguns se afastam da vida comunitária porque não se leva em
conta o que dizem. Cada um quer expressar alguma coisa, isso está mesmo na
originalidade da natureza humana; se não pode fazê-lo no grupo em que vive,
definha, e às vezes procura noutro lugar um espaço mais propício. Aqueles que
pensam ter algo mais interessante a dizer que os outros, façam um esforço de
paciência para escutar. Pode parecer menos apropriado, e no entanto é útil.
Assim cada um poderá existir neste diálogo, que é uma componente essencial do
amor. Tudo se faça, porém, com discrição, discernimento. Não se trata de dizer
qualquer coisa, seja de que modo for, ou a quem for, sob o pretexto que se
precisa falar.
Obediência
Como
consequência da escuta mútua, vem a obediência, essa qualidade de atenção uns
aos outros.
‘Não só ao
abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas da mesma forma,
obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da
obediência irão a Deus’ (RB 71).
Que há de
mais belo do que uma comunidade em que os irmãos, as irmãs, independentemente
de sua idade, de sua função, de sua origem e de sua formação, se obedecem uns
aos outros! Em vez de se picarem uns aos outros, exercendo essa tentação de
poder que só leva a incompreensões, conflitos, injustiças profundas! Como é
maravilhoso fazer tudo para se compreenderem, em todo o sentido do termo, de se
servirem, de se encontrarem num verdadeiro serviço mútuo!
É triste que
muitas vezes nossa maneira de olhar o outro leve marcas de inveja. Todos temos
dons diferentes, por que querer ter os dons dos outros em vez de fazer
frutificar os nossos, que são sempre infinitamente preciosos para todos? Um
sabe acolher magnificamente. Outro sabe contar ou organizar. Outro sabe cantar,
ou ensinar. Outro sabe acompanhar os outros em caminhos difíceis. Outro sabe
viver um silêncio frutuoso, ou ainda suportar santamente a doença, ou dizer uma
boa palavra, guiar um trator, consertar um carro, ou dirigir na perfeição.
Alguns sabem escrever livros, outros cozinhar admiravelmente, ou manter um
lugar numa ordem perfeita, ou perfeitamente limpa! Que mais? Não há ninguém sem
dons ou qualidades, mas só estão verdadeiramente a serviço da comunidade, se a
pessoa aceitar pô-los a serviço e desenvolvê-los, e a comunidade os acolhe e
obedece a eles.
Isto
significa que não pode haver ideias feitas sobre os outros na vida comum.
Escutam-se muitas vezes julgamentos sobre os outros, até mesmo rejeições; quanto
mais se rejeita, mais o outro se sente incapaz. O amor é a esperança imensa da
confiança, apesar de todas as tentações de rejeição que se pode sentir dentro
de si mesmo.
Assim pode-se
obedecer positivamente, acolher-se mutuamente, amar-se, reconhecer-se,
perdoar-se, construir-se, edificar-se mutuamente, e encontrar aquele equilíbrio
bom numa comunidade aberta, onde o impossível pode tornar-se testemunho para
uma difusão da Boa Nova : Cristo quebrou o muro do ódio.
Eis a
verdadeira alegria na conversão do coração.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124
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