Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo de Sergio Carvalho
‘Na sua primeira
encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV surpreendeu muitos
leitores ao recorrer ao universo literário de J. R. R. Tolkien e a uma das
frases mais emblemáticas de Gandalf. Alguns terão visto apenas um detalhe
curioso, quase uma piscadela de olho cultural. Mas talvez seja muito mais do
que isso. Talvez seja um sinal dos tempos.
A frase de
Gandalf «Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao
nosso alcance para socorrer os anos em que fomos colocados…» tornou-se uma
espécie de manifesto contemporâneo diante da incerteza, das guerras, das crises
culturais e do cansaço espiritual que atravessa o Ocidente. O Papa sabe disso.
E sabe também que milhões de pessoas encontraram em Tolkien não apenas
fantasia, mas uma verdadeira gramática moral para compreender o bem, o mal, a
esperança e o sacrifício.
Tolkien era um
católico profundamente convicto. A sua obra está impregnada de uma visão cristã
da história : a luta entre luz e trevas, a fidelidade dos pequenos, a corrupção
do poder absoluto, a importância da amizade, da misericórdia e da perseverança.
Na trilogia O Senhor dos Anéis não vence o mais forte. Vence
quem permanece fiel.
Ao citar
Gandalf, Leão XIV aproxima-se de uma linguagem capaz de dialogar com gerações
inteiras que cresceram entre livros, filmes e culturas digitais. É um gesto
pastoral inteligente. Durante décadas, a Igreja falou sobretudo através de
categorias clássicas, teológicas ou filosóficas. Hoje, percebe-se cada vez mais
que também a literatura, o cinema e a cultura popular podem tornar-se ‘átrios
dos gentios’, espaços de encontro entre fé e humanidade.
A escolha de
Tolkien não é inocente. Vivemos um tempo marcado por uma sensação coletiva de
impotência. Muitos sentem que o mundo está demasiado complexo, demasiado
polarizado, demasiado ferido para ser transformado. A tentação do desânimo
tornou-se uma epidemia silenciosa. E é precisamente aí que a frase de Gandalf
ganha uma força quase espiritual : não controlamos o tempo histórico, mas somos
responsáveis pela forma como o habitamos.
Há nesta
ideia um eco profundamente evangélico. Jesus nunca prometeu aos discípulos
facilidade ou sucesso imediato. Pediu-lhes apenas fidelidade. O cristianismo
não é uma religião de vencedores triunfalistas, mas de homens e mulheres
capazes de acender pequenas luzes na noite. Como Frodo, Sam ou Gandalf, também
o cristão é chamado a caminhar mesmo sem ver claramente o fim da estrada.
Talvez por
isso a referência do Papa tenha causado tanto impacto. Porque une duas
linguagens que muitos julgavam incompatíveis : a tradição cristã e a cultura
contemporânea. Num tempo em que tantos acusam a Igreja de estar distante das
novas gerações, esta citação mostra precisamente o contrário : a fé continua
capaz de dialogar com os símbolos, narrativas e perguntas do nosso tempo.
Existe,
ainda, outra lição importante. Gandalf não pergunta quanto tempo temos.
Pergunta o que fazemos com ele. Num mundo obcecado pela produtividade, pela
velocidade e pela distração permanente, a grande questão volta a ser moral e
espiritual. O que fazemos com os dias que nos são dados? Que legado deixaremos?
Que esperança transmitiremos?
No fundo, a
encíclica de Leão XIV recorda-nos algo essencial : mesmo em tempos sombrios, a
esperança continua a ser uma escolha. Não é ingênua. Não é alienada. Mas
profundamente humana e cristã.
E talvez
Tolkien sorrisse ao ver que, muitos anos depois, um Papa encontrou em Gandalf
palavras capazes de iluminar o coração do mundo contemporâneo.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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