terça-feira, 19 de maio de 2026

Um povo em fuga: uma em cada quatro pessoas está deslocada

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Valerio Palombaro


‘O Sudão está cada vez mais dilacerado por uma guerra sangrenta que, em três anos, gerou a mais grave crise de deslocados do mundo. Os combates diminuem em algumas áreas do país, mas intensificam-se noutras, gerando deslocamentos contínuos de pessoas desesperadamente à procura de lugares seguros.

Pelo menos 15 milhões de sudaneses foram forçados a abandonar as suas casas desde 15 de abril de 2023 : mais de 11 milhões são deslocados internos e 4 milhões procuram refúgio nos países vizinhos. Segundo o Alto comissariado da Onu para os refugiados (Acnur), atualmente um em cada quatro sudaneses está deslocado : para muitos deles trata-se de um ciclo repetido de fuga em busca de uma relativa segurança, antes de terem de fugir novamente.

«O conflito está muito aceso no Darfur, no Cordofão e, nas últimas semanas, estendeu-se à zona do Blue Nile, ou seja, na parte este do país, perto da fronteira com a Etiópia», declara aos meios de comunicação do Vaticano Antonia Vadalà, associate reporting officer do Acnur no Sudão, salientando, por outro lado, que algumas zonas estão a recuperar, com dificuldade, uma relativa estabilidade : «Em Cartum (reconquistada em março de 2025 pelas Forças armadas sudanesas após sangrentas batalhas com as Forças de apoio rápido, n.d.r) regressaram mais de um milhão e meio de pessoas e há estados como Al Jazira e Sennar, no sudeste, que no início da guerra eram muito atingidos pelos combates, mas que agora se encontram mais estáveis».

Vadalà trabalha em Kofti, no estado meridional do White Nile, perto da fronteira com o Sudão do Sul. «Kofti encontra-se neste momento numa posição intermédia — explica-nos ao telefone —: é uma cidade mais ou menos estável, embora tenhamos assistido a um aumento dos ataques com drones nas últimas semanas e esteja muito próxima do Cordofão. Por isso, temos fluxos diários de deslocados internos que chegam das zonas de conflito aberto no Cordofão central e meridional. No White Nile, contabilizamos cerca de 400.000 deslocados internos e, além disso, temos os refugiados que chegam do Sudão do Sul, onde também se verifica um aumento das hostilidades e onde o conflito recomeçou no estado do Alto Nilo. Temos dez campos que acolhem outros 400.000 refugiados do Sudão do Sul. Portanto, há cerca de 800.000 deslocados no Estado do White Nile, com chegadas diárias a aumentar». Estes números em crescimento devem-se, além dos combates nas regiões limítrofes e no vizinho Sudão do Sul, também aos refugiados sudaneses que regressam  «Porque os sudaneses querem voltar para o seu país e, sempre que veem uma oportunidade, aproveitam-na».

O Acnur acolhe estas pessoas com tendas, alojamentos comunitários e bens de primeira necessidade. «Vão desde kits para cozinhar a colchões para dormir ou baldes para recolher a água — conta Vadalà —. As pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, chegam em condições terríveis e num grave estado de trauma psicológico e, em alguns casos, também físico; por isso, há um empenho de encaminha-las para as estruturas competentes onde possam receber o apoio necessário».

As crianças, juntamente com as mulheres, são aquelas que mais sofrem com o conflito. «Muitas delas acabaram separadas das próprias famílias — sublinha a operadora humanitária do Acnur —. Estima-se, por exemplo, que cerca de 58.000 crianças tenham chegado sozinhas aos países vizinhos, atravessando fronteiras, separadas das suas famílias durante a fuga, e muitas delas encontraram-se também feridas e profundamente traumatizadas». E depois há todo o problema ligado à educação : «Por um lado, as crianças veem-se praticamente obrigadas a tornar-se adultas devido ao conflito e a ter de ajudar as suas famílias também do ponto de vista laboral; por outro, as escolas, em muitos casos, foram transformadas em campos para deslocados, pelo que há todo um trabalho a fazer para devolver às salas de aula o seu papel de espaços de ensino e para reconstruir um sistema educativo necessário a fim de devolver a estas crianças um futuro».

Mas sobre as perspectivas de um futuro melhor pesa também a escassa atenção internacional e o corte nos financiamentos ao desenvolvimento. «Trata-se de um corte real — garante a associate officer do Acnur —. Desde janeiro tivemos realmente pouquíssimos fundos disponíveis e fomos obrigados a escolher entre as intervenções a realizar. O Acnur recebeu apenas 16 por cento dos fundos de que necessita e já estamos em meados de abril».

O conflito no Médio Oriente e o encerramento do estreito de Ormuz também têm um forte impacto no martirizado Sudão. «Vimo-lo nas últimas semanas, sobretudo com o aumento do preço do petróleo e, consequentemente, da gasolina, que obviamente teve um impacto direto na época agrícola no Sudão, porque este é o período em que se começam a trabalhar os campos com máquinas agrícolas, mas também com o aumento dos preços dos fertilizantes. Assim, sentimos na prática o impacto da guerra e temos a certeza de que também afetará a produção agrícola deste ano no Sudão».’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/um-povo-em-fuga-uma-em-cada-quatro-pessoas-esta-deslocada.html

 

domingo, 17 de maio de 2026

Como rezava Maria

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Linda Pocher, 

teóloga 

 

‘Como rezava Maria? Certamente não recitava o rosário, nem a via-sacra. Não ia à missa todos os dias e não fazia a adoração eucarística. Não conhecia novenas ou devoções como as nossas.

No entanto, a ausência destas formas que nos são familiares não impediu Maria de cultivar a sua vida interior, numa troca contínua com o Deus vivo. De facto, a oração de Maria não é, antes de mais, um conjunto de práticas, mas uma forma de estar com Deus. É uma atitude interior que permeia a vida diária. Não está separada dos dias, habita-os. É uma atitude que envolve a escuta, o olhar, o caminho, o coração e as mãos.

A oração de Maria começa pela escuta, mas não por uma escuta passiva. Trata-se de uma escuta que se torna diálogo, de um silêncio que é o berço das palavras mais verdadeiras. Mesmo daquelas, por vezes, incómodas. Na Anunciação, depois de ter escutado com atenção, não fica em silêncio : pergunta. «Como será isso?». E o seu desejo de compreender é o espaço que se abre para que Deus se possa revelar. Maria entra em relação : acolhe a Palavra e, ao mesmo tempo, questiona-a. Nesta troca, a sua fé toma forma.

O seu «faça-se em mim segundo a tua palavra» nasce assim, de um diálogo verdadeiro. Maria não se limita a receber uma mensagem : deixa-se envolver. A oração, para ela, é este encontro em que Deus se revela e o ser humano se expõe.

Deste diálogo nasce um novo olhar. O Evangelho diz que Maria «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração». O seu não é um olhar distraído. É atento e paciente. Não descarta o que não compreende, não força os acontecimentos. Conserva e espera. Assim, a realidade torna-se para ela um lugar a interpretar.

Esta forma de olhar marca também o crescimento de Jesus. Nas suas parábolas, encontramos um olhar capaz de ler a vida : uma semente, um campo, um rosto encontrado na rua. Ver as pessoas na sua singularidade e na sua necessidade já é oração. É reconhecer que cada encontro pode tornar-se revelação.

A oração de Maria é também um caminho. Os Evangelhos mostram-na em movimento : em direção à montanha para encontrar Isabel, em direção a Belém, em direção ao Egito, até Jerusalém. Os seus pés contam uma fé concreta. Não permanece parada quando a vida muda de rumo. Levanta-se e parte.

A profecia de Simeão, que fala de uma espada que lhe atravessará o coração, é como um raio de luz que nos introduz na sua interioridade. De fato, na Escritura, a espada indica a Palavra de Deus que penetra e ilumina até à medula dos ossos.

Maria conhecia certamente a Escritura de cor : os salmos, os profetas, os provérbios e as histórias do seu povo. Tal como o Filho faria mais tarde com os discípulos de Emaús, a Mãe comparava cada acontecimento presente com essa Palavra. A espada, portanto, é o discernimento : a necessidade de aprender a reconhecer, passo a passo e não sem esforço, o que Deus está a realizar na sua vida e na vida daqueles que lhe são confiados.

O seu caminho, portanto, é um confronto contínuo com o mistério do Filho. Compreender e não compreender, reter e deixar ir. Neste movimento interior, Maria aprende a conhecer-se a si mesma e a missão de Jesus. A sua oração do coração é busca fiel e disponibilidade para se deixar transformar. Por fim, Maria reza com as mãos. As mãos que, em Belém, envolveram um recém-nascido em panos : um gesto simples, mas necessário. Deus confiou-se a essas mãos, na vida e na morte, e essas mãos protegem e sustentam. Na vida oculta de Nazaré, são mãos que amassam o pão, remendam, tiram água, acariciam, consolam. O cuidado da horta, de alguns cabritos. Também isto é oração, tal como uma ferida ligada, uma lágrima enxugada sem pedir explicações.

Nestes gestos diários a vida cresce. O cuidado torna-se linguagem. A matéria - o pão, a água, a lã - torna-se sinal de uma presença. A oração de Maria não se separa da concretude da existência. Está no que ela faz todos os dias.

E depois, ainda, no trecho de caminho mais longo, de Caná ao Calvário : escuta, diálogo, caminho, cuidado. Os gestos de toda a vida, agora entrelaçados com as vidas de outras e outros, discípulos e discípulas como ela. Amigas e amigos do Filho e da Mãe, com quem partilhar a alegria e o espanto, a dor e o medo.

Podemos imaginá-la, por fim, reunida no calor primaveril do cenáculo, à espera do Pentecostes, a contar as memórias d’Ele quando era criança e adolescente, àquelas mulheres e àqueles homens em quem a esperança recomeçava a germinar. E depois sair para anunciar até aos confins da terra : «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes». Tudo isto é a sua oração.

Diálogo que abre a visão de um futuro de justiça e de paz, olhar que guarda os seus rebentos, passo que confia no caminho, coração que discerne, mãos que cuidam. Não um conjunto de práticas, mas uma vida inteira vivida diante de Deus.’


Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/como-rezava-maria.html


sexta-feira, 15 de maio de 2026

«Stat crux dum volvitur orbis»

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Francesco Patton, ofm


‘Para milhões de fiéis, o lugar onde Jesus foi crucificado representa o eixo em torno do qual gira o mundo : «O mundo não é nada perante a cruz. Martino, décimo primeiro general de Chartreux, deu este lema à sua ordem : Stat crux dum volvitur orbis» (V. Hugo, Os miseráveis). O Calvário é o ponto em que Cristo crucificado reconciliou a humanidade com Deus e demoliu o muro da inimizade que separava os homens (cf. Ef 2, 13-20). A atual basílica do Santo Sepulcro guarda e protege os locais sagrados mais importantes ligados ao mistério da nossa redenção e, mais precisamente, os lugares ligados à crucificação, à morte e sepultura de Jesus Cristo e à sua ressurreição. Para os cristãos do Oriente, este lugar é simplesmente a Anastasis, a Ressurreição. Mas antes de chegarmos à mensagem pascal do Sepulcro vazio (objeto do próximo artigo), é necessário que nos detenhamos na rocha do Gólgota, ou seja, no mistério da cruz.

A gênese do lugar : uma pedreira de resíduos

A investigação arqueológica moderna, apoiada pelos estudos do franciscano Virgilio Corbo (V. Corbo, Il Santo Sepolcro di Gerusalemme, FPP, 1981, 3 vols.) e pelas recentes prospeções, lideradas pela equipa da Professora Francesca Romana Stasolla, ajudou-nos a conhecer em profundidade a história deste local. Nos séculos VII-I a.C., esta área era uma vasta pedreira situada fora dor muros de Jerusalém (Corbo, op. cit., vol. 1, pp. 29-31). Os pedreiros da época procuravam a pedra malaky, apreciada pela sua dureza, mais precisamente na zona do atual Calvário encontraram uma rocha de qualidade inferior, friável e veiada. Este esporão foi, portanto, poupado da extração e abandonado, permanecendo como uma elevação isolada.

Com o passar dos séculos, os buracos provocados pelas atividades de extração encheram-se de detritos e terra, transformando a zona numa necrópole suburbana intercalada por pequenas parcelas agrícolas. Isto explica perfeitamente a descrição do evangelista João : «No lugar onde tinha sido crucificado, havia um jardim». O Gólgota, o ‘lugar do crânio’, estava, portanto, já na origem «dividido em várias propriedades : uma que poderia pertencer ao governo, onde também era possível realizar as crucificações; uma a um jardineiro ou horticultor e uma da qual José de Arimateia poderia ser o proprietário» (B. Bagatti, «Golgota, Cranio, Calvario», em B. Bagatti — E. Testa, Il Golgota e la Croce, FPP, 1978, pp. 24-25; cf. também V. Corbo, op. cit., vol. 1, pp. 29-32). O local da crucificação era, portanto, um pedestal natural perfeito para as execuções romanas, que exigiam locais visíveis e próximos das vias de trânsito para desempenhar uma função dissuasora. Além disso, a sensibilidade judaica determinava que tal ocorresse fora do perímetro dos muros da cidade, em analogia à prática da lapidação a ser executada fora do acampamento, tanto para os blasfemos (cf. Lv 24, 14) como para os profanadores do sábado (cf. Nm 15, 35-36). O próprio autor da Carta aos Hebreus, numa interpretação sacrificial da morte de Jesus, observa que «os corpos dos animais, cujo sangue é levado pelo sacerdote ao santuário para a expiação dos pecados, são queimados fora do acampamento. Foi por isso que também Jesus, a fim de purificar o povo com o Seu próprio sangue, padeceu fora das portas» (Heb 13, 11-12).

O Calvário : o lugar onde se manifestou o maior amor

Atualmente, o Calvário é — por assim dizer — uma capela lateral elevada no interior da basílica. A colina original está englobada. De facto, os arquitetos de Constantino trabalharam, a partir do ano 326 d.C., para isolar o Sepulcro e o lugar da Crucificação, nivelando toda a área e eliminando os aterros artificiais e os templos pagãos preexistentes mandados erguer pelo imperador Adriano (cf. V. Corbo, op. cit., pp. 33-118, vol. 1).

O esporão do Gólgota foi ‘esculpido’ e regularizado : a rocha circundante foi removida, deixando apenas o monólito central. Hoje, ao subir os íngremes degraus que conduzem à capela, caminha-se sobre essa mesma rocha que viu Cristo dar a vida por nós. Foi nessa altura que Ele invocou o perdão para os seus assassinos (cf. Lc 23, 34) e acolheu o bom ladrão (cf. Lc 23, 39-43), foi ainda ali que nos confiou à Mãe e confiou a Mãe a nós (cf. Jo 19, 25-27), pediu de beber (cf. Jo 19, 28), passou de se sentir abandonado por Deus (cf. Mc 15, 34 e Mt 27, 46) a abandonar-se nas mãos do Pai (cf. Lc 23, 46), levando à plenitude o sentido da encarnação (cf. Jo 19, 30) e tornando-se a nossa paz e a nossa reconciliação (cf. Ef 2, 13-20). Foi ali que Jesus manifestou o maior amor (cf. Jo 15, 13), dando a vida por uma humanidade pecadora (cf. Rm 5, 8). Protegida por uma lastra de vidro, a pedra mostra uma profunda fenda. Não se trata apenas de um dado geológico : para a tradição, é a memória do terramoto descrito pelos Evangelhos (cf. Mt 27, 51), o sinal físico de uma ruptura que separa o mundo antigo da nova criação, contemporâneo do rasgar do véu do templo, que assinala a passagem do antigo templo para o novo templo, que é o próprio Jesus (cf. Jo 2, 19).

O túmulo de Adão : o sangue que redime a humanidade

Precisamente sob o altar do Calvário, ao nível do pavimento da basílica, abre-se a Capela de Adão. Aqui, o simbolismo arqueológico e o teológico fundem-se de modo indissociável. A fenda observada no nível superior continua até aqui, revelando o coração da rocha. Segundo uma tradição antiquíssima, o crânio do primeiro homem, Adão, teria sido sepultado justamente sob o lugar da crucificação do ‘Novo Adão’.

O significado é poderoso : o sangue de Cristo, ao escorrer através da fenda da terra, alcança os restos do precursor da humanidade, lavando o pecado do Progenitor no próprio momento do sacrifício na cruz. Este espaço, onde a rocha nua emerge de forma prepotente das paredes, funciona como ligação entre o tempo pré-histórico do Gênesis e o tempo histórico da Redenção. É aqui que se compreende porque o Gólgota é o vértice do mundo : não pela sua altura física, mas pela profundidade do mistério que guarda. É nesta narrativa que se funda também a iconografia que frequentemente representa o Crucificado com um crânio aos pés, simbolizando Adão. O próprio nome ‘Gólgota’, isto é, ‘lugar do crânio’, poderia ter orientado para esta leitura.

Adriano : uma tentativa de apagar o que involuntariamente preserva

Um aspeto paradoxal da história do Gólgota diz respeito ao imperador Adriano. Após a supressão da revolta de Bar Kochba em 135 d.C., ele decidiu apagar todos os vestígios de identidade judaica e cristã de Jerusalém, refundando-a como Aelia Capitolina. Para profanar os lugares santos, Adriano mandou construir um vasto terraço artificial sobre o Gólgota e o Sepulcro, erigindo sobre este último um templo dedicado a Júpiter e sobre o primeiro uma estátua de Afrodite.

Os historiadores cristãos antigos, como Eusébio de Cesareia, interpretaram este ato como uma tentativa de erradicar o culto (cf. L. Franco, Eusebio da Cesarea, Vita di Costantino, 3, 26, BUR, 2009, pp. 278-279). Contudo, do ponto de vista arqueológico, ao cobrir o local com toneladas de material de aterro e selá-lo com um santuário pagão (dedicado a Júpiter e Vênus), o imperador preservou involuntariamente a configuração original dos lugares, protegendo-os da erosão e garantindo que, dois séculos depois, a imperatriz Helena e o bispo de Jerusalém , Macário, pudessem identificá-los. Sem esse templo pagão, a memória do Gólgota poderia ter-se dispersado entre os escombros de uma cidade em contínua evolução.

Santa Helena e a descoberta da Vera Cruz

Nas entranhas da basílica, descendo ainda mais abaixo da rocha do Calvário, chega-se à Capela de Santa Helena e, por fim, à gruta da Descoberta da Vera Cruz, situada numa das partes mais antigas da pedreira. Helena chegou a Jerusalém em 326 d.C. com o objetivo preciso de recuperar o mais importante Lugar Santo e de procurar a relíquia mais preciosa : a cruz na qual Jesus Cristo morreu.

A ‘lenda’ da descoberta das três cruzes é transmitida por uma dupla tradição : Rufino de Aquileia (R. di Aquileia Historia Ecclesiastica, Livro X, cap. 7-8, aprox. 402 d.C.) narra uma nobre gravemente doente que é curada ao contacto com a Vera Cruz; Sócrates Escolástico e Sozomeno (Sócrates Escolástico, Historia Ecclesiastica, Livro I, cap. 17, aprox. 439-440 d.C.; Livro II, cap. 1, 44, aprox. 443-450 d.C.) relatam que o bispo Macário mandou colocar um cadáver em contato com as três cruzes, e que este — ao tocar na verdadeira relíquia — voltou à vida. Na Idade Média, seria Tiago de Varazze (T. de Varazze, Legenda Aurea, Capítulo LXIV, cerca de 1260 d.C.), a retomar a cena que mais tarde seria representada por Piero della Francesca, entre 1442 e 1466, na Capela Bacci da basílica de São Francisco em Arezzo. Já em 160 d.C., o bispo Melitão de Sardes escreve : «foi no centro da praça e da cidade, em plena luz do dia e à vista de todos, que ocorreu o injusto assassínio do Justo. Assim, Ele é elevado no madeiro e uma inscrição é colocada para indicar quem é o morto» (cf. Melitão de Sardes, Peri Pascha, 94-95, in R. Cantalamessa, I più antichi testi pasquali della Chiesa, Ed. Litúrgicas, 1972, pp. 47-48). A Capela da Descoberta, com as suas paredes de rocha bruta, nas quais, no lado oriental, «se notam fragmentos de pinturas, talvez do século XII, nos quais está representado um Cristo crucificado (mutilado do peito para cima). No espaço entre as mãos de Maria e as de João surge um afresco ainda mais antigo» (cf. H. Fürst – G. Geiger, Terra Santa: Guida francescana per pellegrini e viaggiatori, Terra Santa Editora, 2018², pp. 445/1021), testemunha a passagem crucial entre a memória oral da Igreja primitiva e a vontade, afirmada na época constantiniana, de monumentalizar a fé.

A basílica do Martírio : o triunfo constantiniano

O primeiro grande edifício erguido por vontade de Constantino foi a basílica do Martírio, consagrada a 13 de setembro de 335. Não devemos imaginá-la como a atual estrutura cruzada, mas como uma sala imensa com cinco naves, orientada a ocidente, em direção ao Calvário. Nesta fase, o Gólgota permanecia ao ar livre, num pátio que funcionava como ligação entre a basílica do Martírio e a Anastasis.

A nobre Egéria, no século IV, descreve liturgias que se deslocavam fisicamente entre estes espaços, seguindo as etapas do drama da Paixão (Itinerarium Egeriae, II, 24-25; 30-37). O Calvário era ainda um esporão a céu aberto, decorado apenas por uma grande cruz gemada. Esta configuração manteve-se intacta durante quase três séculos, até à invasão persa de 614 e ao incêndio subsequente, que marcaram o início de uma longa série de destruições e reconstruções (cf. H. Fürst – G. Geiger, op. cit., pp. 422-425/1021).

Uma rocha que se torna pedra angular

O Gólgota, apesar das mutilações sofridas ao longo dos séculos — desde o ódio do califa Al-Hakim em 1009 até ao devastador incêndio de 1808 — permaneceu como um dos dois pontos focais da basílica. Os restauros do século XIX realizados pelos Greco-Ortodoxos conferiram ao lado esquerdo do Calvário (propriedade dos Gregos, mas com alguns direitos de uso também atribuídos aos Latinos) o aspeto atual. O lado direito do Calvário (propriedade dos Latinos, tal como a adjacente ‘Capela dos Francos’, que constituía a sua entrada medieval a partir do exterior) também foi alvo de intervenções de restauro dirigidas e coordenadas pelo arquiteto Antonio Barluzzi, a partir de 1934. Foram preservados e restaurados os vestígios da época cruzada (século XII). Foi realizado um ciclo ligado ao despojamento de Jesus e à sua crucificação (Luigi Trifoglio, m. 1939), e decoradas em mosaico toda a abóbada e as paredes (Pietro D’Achiardi, m. 1940). Uma descrição completa encontra-se em A. Pizzuto, Gerusalemme: Il Calvario. Arte, catechesi, preghiera, TSE, 2022.

O valor do Gólgota não reside na sua estética, mas no seu testemunho. Ele recorda-nos que a salvação não é uma ideia abstrata, mas um acontecimento ocorrido num tempo e num lugar precisos. O peregrino, ao chegar aqui, deveria simplesmente poder fazer a experiência do apóstolo Paulo e dizer com ele : o «Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gl 2, 20), deixando-se alcançar pelo convite da antiga inscrição latina do século XII : «Exaltai aquele que foi crucificado na carne, glorificai aquele que foi sepultado por nós» (T. Tobler, Theoderici Libellus de locis sanctis editus aprox. A. D. 1172, St. Gallen 1865, p. 19).’


Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/stat-crux-dum-volvitur-orbis.html

 

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Melodia e espiritualidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Uma das principais reclamações que se escuta por todos os lados é a sensação de estar perdido, sem condução, sem direção. Não se sabe bem de onde se vem nem para onde se vai. Muitos chegam a dizer que perderam o sentido da vida.

A busca por sentido, por certa estabilidade emocional e por um propósito claro faz parte das questões existenciais. Há uma angústia natural que constitui a existencialidade do sujeito.

Os gregos desenvolveram um sistema sonoro, entre outros processos artísticos, que ajudava, de forma catártica, no alívio das angústias humanas e no desenvolvimento do pensamento filosófico. O teatro, por exemplo, foi uma das mais profundas terapias corporais e mentais entre os gregos. Nossa escala musical nasce nesse contexto e o cristianismo desenvolveu, de forma única e esplêndida, a junção da melodia com sua doutrina de vida.

A música cristã tem relação direta com os instintos vitais em todos os sentidos. Jesus é o pastor, o Pastor Belo. Ele é aquele que conduz o rebanho e a melodia que direciona o sentido da vida, trazendo àquele que escuta sua voz a vitória da vida sobre a morte. É uma melodia que transcende a existência e desenvolve o eu mais profundo que habita cada um: o eu do ser. ‘Ser’ significa aqui existir plenamente, sentir a vida de dentro para fora.

A melodia na liturgia é fundamental na condução das ovelhas sob a voz do pastor, que as chama não mais de servos, mas de irmãos. Quando a melodia é bem estruturada, composta com a necessária espiritualidade e bem cantada, conduz o coração ao sentimento de que a vida vale a pena ser vivida’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/melodia-e-espiritualidade.html

 

domingo, 10 de maio de 2026

O véu de Maria em Chartres

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento


‘Maio é o mês de Maria, por isso, neste mês queremos apresentar uma relíquia mariana. 

A cidade de Chartres, ao sudeste da França, tem uma história que se funde com sua catedral, construída para abrigar uma rara relíquia da Virgem Maria : um véu que se liga aos mistérios da encarnação e do nascimento de Jesus. 

O véu de Maria (sancta camisa) é um pedaço retangular de seda que, segundo a lenda, Maria usou durante o anúncio do nascimento de Jesus pelo Anjo Gabriel e para alguns durante o nascimento milagroso e virginal de Jesus.

A história documentada remonta ao rei Carlos, o Calvo, que ofereceu o véu à Catedral de Chartres em 876. Seu avô, Carlos Magno, havia recebido o véu como presente da imperatriz bizantina Irene. Constantinopla de fato abrigou inúmeras relíquias, muitas vezes salvas da ameaça de impérios como os dos persas e dos árabes (Islã). Quando analisado no século XX, o tecido continha pólen da Palestina do primeiro século.

Em O véu de Notre Dame, Yves Delaporte explica : ‘Foi durante o cerco de Chartres pelos normandos em 911 que a relíquia adquiriu sua notoriedade e entrou para a história. O bispo, à vista dos combatentes, exibiu no topo da Porte Neuve o véu da Virgem Maria. Quando viram a venerada relíquia, a coragem dos exércitos cristãos dobrou, enquanto os pagãos ficaram aterrorizados… Todos atribuíram a vitória à divina ajuda e intercessão da Virgem Maria’. 

O véu de Maria foi colocado junto com outras relíquias em um relicário por volta do ano 1000 d.C. Tratava-se de um baú de madeira selado e revestido de ouro, geralmente situado no altar-mor do Oriente. Acreditava-se que o véu fosse uma espécie de túnica. Peregrinos vinham rezar perto dele. Como se acreditava que oferecia uma espécie de proteção divina, as túnicas daqueles que iam para a guerra, e mais tarde as túnicas oferecidas às rainhas da França quando estavam prestes a dar à luz, eram colocadas junto ao relicário. Eram então usadas ou guardadas por aqueles que buscavam proteção.

Quando grande parte da catedral foi severamente danificada por um incêndio em 1194, houve grande temor de que o véu tivesse sido destruído. Malcolm Miller explica : ‘A tragédia é narrada em Les miracles de Notre-Dame de Chartres, uma tradução de meados do século XIII feita por Jehan le Marchant de um texto latino anterior. A princípio, escreve o cronista, o povo se desesperou porque acreditava que a preciosa relíquia também havia sido queimada e, portanto, que a proteção de Maria sobre a cidade estava perdida, mas, no terceiro dia, uma procissão apareceu com a relíquia a salvo, aparentemente levada por sacerdotes para a cripta carolíngia sob o coro. O cardeal, então, declarou que esse era um sinal de Maria de que ela desejava uma igreja mais magnífica, e um grande entusiasmo foi imediatamente despertado para a reconstrução’.

No século XVII, o relicário foi aberto. Dentro dele havia um tecido exterior ornamentado (agora em exposição no Museu Municipal, no Jardim do Bispo) que protegia outro pedaço de tecido ‘muito fino e com um aspecto muito antigo, de seda. Este não tinha qualquer decoração ou cor. Estava danificado pela umidade e pela ação do tempo em alguns pontos’ (Delaporte, 14).

Michel Bouttier descreve o que aconteceu mais tarde : ‘Durante a revolução, o relicário foi destruído. No entanto, o véu, cortado em vários pedaços, foi conservado por diversas pessoas que o devolveram em 1809 e 1819’ (La Cathédrale de Chartres: sa construction. Paris: MB Editions, 1999, página 26).

Durante a Revolução Francesa, o véu foi cortado em pedaços. Alguns foram posteriormente devolvidos à catedral. Hoje, dois desses pedaços estão em exposição : o maior deles, guardado em um relicário do século XIX, encontra-se em uma capela no lado norte do deambulatório do coro; um pedaço menor está em exposição na Capela de Notre Dame Sous-Terre, na cripta.

É interessante esclarecermos que a doutrina de Santo Tomás de Aquino nos ensina que o milagre não nos concede a fé, mas, sim, a Palavra de Deus. As relíquias em si também não são fonte de nossa fé, mas, sim, o evento ou fato salvífico que funda essa fé e testemunhado na Palavra escrita. O que de fato desperta a fé de muitos é saber que Deus encarnou e nasceu como um homem. 

A relíquia, mesmo se não fosse a original, liga-se a uma original que de fato existiu, esse é o efeito que vemos nas reproduções, porém, o estudo natural de determinado objeto e mesmo de um elemento arqueológico traz para nós um contato com o fato original. Ao tratarmos desses objetos de que muitas vezes temos apenas um testemunho muito antigo, parece que nos ligam a algo muito mais antigo, assim, é interessante sabermos que ainda hoje o véu da Virgem, como sinal de proteção, é amplamente venerado em ícones, milagres e aparições especialmente no Oriente e não só no ambiente católico, mas nas Igrejas Orientais separadas de Roma. A imagem e a relíquia tornam-se portadoras de uma mensagem. Essa relíquia, nos papéis que lhe são atribuídos, sendo a mais divulgada como o véu que acompanhou o nascimento de Jesus, traz uma mensagem de proteção e acolhida materna muito forte. A catedral em si também atrai por inúmeras interpretações, sendo a mais original e oficial que representa a mãe Igreja e no seu interior acolhe e gera os cristãos. Sua cripta, onde se venera uma imagem medieval da Virgem – não mais a original –, é ainda um tipo de representação do útero materno. Podemos comparar as vestes perdidas de Adão e Eva no Éden com as vestes milagrosas do Senhor e da Senhora (um registrado no Evangelho o outro guardado por piedosas tradições). As vestes de Cristo, sendo tocadas, foram suficientes para a mulher com fluxo de sangue ser curada. A experiência dessa mulher tem se repetido com as relíquias e outros meios que estabelecem um contato com o Senhor. Como no Evangelho, em vez de Jesus perguntar quem tocou seu manto, Ele afirma perguntando ‘Quem me tocou?’ (Lc 8,45). 

A fé numa relíquia não está em poderes mágicos que possui, mas na realidade viva de uma pessoa viva e presente, cujo maior segredo reside em tocá-la com nossa fé viva em Jesus.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-veu-de-maria-em-chartres.html


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Concessão a rever ou progresso eclesiológico?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Marc Ouellet,

Cardeal prefeito emérito do Dicastério para os Bispos


‘Entre as decisões ousadas do Papa Francisco conta-se a nomeação de leigos e religiosas para cargos de autoridade geralmente reservados a ministros ordenados, bispos ou cardeais, nos dicastérios da Cúria romana. O Papa justificou esta inovação com o princípio sinodal, que exige uma maior participação dos fiéis na comunhão e na missão da Igreja. Esta iniciativa, porém, entra em conflito com o antigo costume de confiar cargos de autoridade a ministros ordenados. Tal costume encontra, certamente, respaldo no Concílio Vaticano II, que definiu a sacramentalidade do episcopado (LG 21). Daí a inquietação em torno de uma decisão papal que é respeitada, mas talvez considerada provisória. A ponto de alguns esperarem, no alvorecer do novo pontificado, que se reafirme a estreita ligação entre o ministério ordenado e a função de governação na Igreja.

Isto não significa, obviamente, pôr em causa o progresso doutrinal decisivo do Concílio, que reconheceu que o episcopado era um grau próprio do sacramento da Ordem, ao qual estavam necessariamente ligadas as funções de ensinar, santificar e governar (tria munera). Mas isto não significa que o sacramento da Ordem seja a fonte exclusiva de todo o governo na Igreja.

Retomo aqui brevemente a reflexão que esta decisão papal me levou a fazer por ocasião da publicação da Constituição Praedicate Evangelium sobre a reforma da Cúria romana. A justificação canônica exposta durante a apresentação desta Constituição não obteve consenso geral porque pareceu resolver uma questão controversa de séculos de forma voluntária ou arbitrária, adotando uma posição escolástica que o Papa teria assumido em detrimento do diálogo preliminar entre teólogos e canonistas.

Propus uma leitura teológica desta decisão do Sumo Pontífice que ultrapassa o quadro das controversas posições canônicas sobre a origem e a distinção entre o poder da Ordem e o poder da jurisdição na Igreja. Esta leitura encontra-se exposta no artigo que publiquei em 21 de julho de 2022 em L’Osservatore Romano, e desenvolvida na mesma linha no meu livro Parola, Sacramento, Carisma. Chiesa sinodale, rischi, opportunità (Siena, Cantagalli, 2024). Na sequência desta reflexão, dediquei uma energia considerável à meditação sobre a relação entre o Espírito Santo e a Igreja, e mais especificamente entre o Espírito Santo, os sete sacramentos e a sacramentalidade da Igreja no seu todo. Os especialistas reconhecem que a nossa teologia sacramental sofre de um défice pneumatológico que anda de mãos dadas com uma visão cristológica unilateral. Se é certo que os sete sacramentos são atos de Cristo, são também atos da Igreja resultantes da ação do Espírito Santo.

Este último acompanha sempre os atos sacramentais de Cristo ressuscitado, para edificar a Igreja-Sacramento, de que o Concílio Ecuménico Vaticano II fala desde o primeiro parágrafo da Constituição dogmática Lumen gentium. Além disso, a ação do Espírito Santo vai para além dos sacramentos e manifesta-se livremente nos carismas e ministérios que o Concílio, felizmente, reavaliou após séculos de desconfiança e subdesenvolvimento.

Esta orientação conciliar pressupõe, pois, uma renovada atenção à presença e à ação do Espírito Santo ao serviço da comunhão e da missão da Igreja. Reconhecemos, contudo, que não estamos habituados a discernir a sua presença e ação, uma vez que aprendemos a falar da graça em termos antropológicos, sem nomear a Pessoa divina que molda os efeitos do mistério pascal nas almas e nas estruturas da Igreja. Esta Pessoa divina é o Espírito Santo que vem do Pai pela mediação de Cristo ressuscitado, um Dom-Comunhão de que a Igreja é fruto e sacramento. Estamos ainda a trabalhar para compreender a sacramentalidade da Igreja no seu todo, como uma comunhão divino-humana que torna presente o mistério da comunhão trinitária. Esta comunhão parece difícil de definir e especificar no seu conteúdo. No entanto, os sete sacramentos existem precisamente para articular esta comunhão eclesial, de modo a que seja significativa e atrativa, tornando assim a Igreja mais missionária e relevante na sociedade.

Será que esta referência ao Espírito Santo, arquiteto da comunhão eclesial, é relevante para o ministério da governação na Igreja? Não basta ter as promessas de Jesus aos seus apóstolos no Evangelho, que lhes garantem a autoridade e lhes dão a certeza da sua presença permanente? Que significado ou eficácia adicional traz o Espírito Santo à sacramentalidade da Igreja? Não se limita o seu papel a ser auxiliar de Cristo ressuscitado, que permanece o ator central de toda a Ordem sacramental? Mas como podemos, então, fortalecer a ligação entre a Eucaristia e a Igreja, que é a chave da comunhão eclesial e o motor da sua expansão missionária? Estas questões revelam um campo de investigação ainda inexplorado que necessita de ser aprofundado para lançar mais luz sobre o gesto profético do Papa Francisco. Ele discerne a autoridade do Espírito Santo atuando para além do vínculo estabelecido entre o ministério ordenado e a governação da Igreja. Não se trata de substituir a governação carismática pela governação hierárquica. Contudo, de acordo com a orientação já consagrada no direito canônico (cân. 129, § 2), os ministros ordenados devem poder contar com pessoas dotadas de carismas, reconhecidas como tais e plenamente integradas no sistema administrativo, jurídico e pastoral da Cúria romana. Isto não significa confiar-lhes tarefas especificamente sacramentais em sentido cristológico, mas antes integrar os seus carismas ao serviço do Espírito Santo, que preside à comunhão da Igreja em todas as suas expressões. O facto de os dicastérios dedicados à comunicação, ao governo geral do Estado do Vaticano, à promoção do desenvolvimento humano integral, à vida, à família e aos leigos, e à promoção dos carismas religiosos ou das sociedades de vida apostólica serem dirigidos por leigos ou religiosos competentes com carismas reconhecidos pela suprema Autoridade não diminui o valor do seu serviço por falta de poder de Ordem. Os carismas do Espírito Santo exercem o seu peso de autoridade em áreas onde a ordenação sacramental não é necessária, onde pode até ser apropriado que a perícia seja de outra natureza; por exemplo, na gestão dos recursos humanos, na administração da justiça, no discernimento cultural e político, na administração financeira e no diálogo ecuménico. Em todas estas áreas, citadas a título de exemplo, pode imaginar-se uma colaboração entre clero, leigos e religiosos, em que a posição subalterna do ministro ordenado não seria inadequada ou questionável.

A experiência histórica da Igreja demonstra que a tradição das grandes ordens religiosas e das diversas formas de vida consagrada ou apostólica pressupõe uma governação interna do carisma, uma vez que este tenha sido oficialmente reconhecido e aprovado pela autoridade hierárquica. Um capelão de religiosas, por exemplo, não pode arrogar-se o direito de impor as suas opiniões aos responsáveis da comunidade que serve. O ministério pastoral não pode substituir a autoridade do carisma. Quando o Papa nomeia uma mulher para chefiar um dicastério, não está a delegar jurisdição em qualquer pessoa; está a confiar a uma pessoa reconhecida como competente num certo nível de experiência eclesial, em virtude de um carisma, uma responsabilidade superior que permanece dentro da estrutura e garantida pela jurisdição geral do Santo Padre sobre a Cúria romana.

A abordagem canônica parece inclinada a considerar o Espírito Santo apenas como o garante global da Instituição. Parece carecer dos meios para discernir os sinais do Espírito, os seus impulsos pessoais e comunitários, e os carismas particulares com que Ele dota os membros do Corpo de Cristo. Falta-lhe uma pneumatologia, que foi substituída ou por um certo positivismo histórico ou por um paralelo sui generis com o direito civil, como no caso do Código de 1983, que ignora a palavra carisma e fala dela apenas em termos de patrimônio. É necessário retomar o diálogo entre canonistas e teólogos à luz da pneumatologia, para que se possa desenvolver pacificamente um ‘direito de graça’, conduzindo à liberdade de integrar indivíduos carismáticos, leigos ou religiosos, em posições de autoridade na Cúria romana e nas administrações diocesanas. Isto já acontece em muitos lugares, e não apenas por falta de clérigos.

Concessão provisória a ser revista ou progresso eclesiológico? Não tenho dúvidas de que o gesto do Papa Francisco é promissor para o futuro, pois inaugura o reconhecimento da autoridade dos carismas pela autoridade hierárquica, em conformidade com as orientações do Concílio, que convida os pastores a «reconhecerem neles (os leigos) os ministérios e os carismas, para que todos cooperem segundo as suas capacidades e com um só coração na obra comum» (LG 30, 33). Isto contribuirá, nomeadamente, para restaurar a imagem da autoridade pastoral, desacreditada pelo flagelo do clericalismo, pelo espírito de casta, pela preservação dos privilégios, pela ambição de ascender na hierarquia — em suma, por uma mentalidade fechada que concebe o serviço de governo em termos de poder e é incapaz de valorizar os carismas segundo o seu grau de autoridade. Porque, como afirma o Concílio, é necessário que todos nós, «‘praticando a verdade na caridade, cresçamos de todas as maneiras para aquele que é a cabeça, Cristo; pelo influxo do qual o corpo inteiro, bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a ação proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade’ (Ef 4, 15-16)» (LG 30).’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-03/por-003/concessao-a-rever-ou-progresso-eclesiologico.html

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Maria, alegria no encontro com Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Brás Lorenzetti


‘Os versículos acima, que inspiram esta página, fazem parte do texto bíblico de Lucas, referente à visita de Maria a Isabel e o início do cântico do Magnificat. Com razão diz o comentário da Bíblia Ave-Maria que dificilmente se vê uma atenção tão grande e detalhada do que acontece com os pobres. Nesse ponto, mais que um acontecimento, o texto fala de uma experiência de vida que vai ter consequências não só para si e suas famílias, mas para a história da salvação e para a humanidade inteira. O texto mostra a ação de Deus na história por meio dos pobres.

Magnificat mostra que enquanto os grandes e poderosos dominam o mundo, eles o fazem pelo poder, e nessa ação fica à margem uma imensidão de excluídos e marginalizados. A ação e a obra de Deus, porém, são realizadas por meio de pessoas insignificantes a essa sociedade do poder. O que se percebe é que, em nossos dias, os grandes do mundo não agem de forma diferente : o exercício do poder ainda acontece pela violência e pela guerra que destroem vidas. 

Justamente por isso, o Magnificat se transforma em um hino revolucionário, pois reflete a liberdade de uma alma autenticamente livre e mais, um verdadeiro convite à libertação. O que Maria proclama equivale a ver e sentir a ação de Deus no coração, na vida do crente, que não só deve proclamar a ação de Deus que liberta, mas também ser um convite a alcançar a libertação pela força do seu Espírito. Por outro lado, se a sociedade é injusta e opressora, significa que ela não é obra de Deus.

Assim, mais do que um cântico de resignação, o Magnificat é uma verdadeira força libertadora e, como tal, fruto do encontro com o Deus da vida, gerador de uma alegria profunda, própria daqueles que se colocam a serviço do Reino e não visam primeiramente à sua pessoa, mas à obra que gera vida em nome do próprio Deus.

Magnificat proclama a alegria do autêntico encontro com Deus, alegria que se baseia não na derrota dos opositores ou no acúmulo de bens, mas na ação e na presença do próprio Deus, dando força a pessoas consideradas desqualificadas da sociedade. Deus age em favor dos pobres e humildes, mas é preciso que da parte desses humilhados haja também uma disposição em dar início à ação de Deus.

De onde vem a nossa alegria e qual a sua fonte? Olhando para Maria, do seu coração imaculado sentimos essa força e essa graça, que são as verdadeiras e autênticas alegrias de nossas vidas. No encontro com Deus buscamos a verdadeira alegria da vida!’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/maria-alegria-no-encontro-com-deus.html


terça-feira, 5 de maio de 2026

No coração de Maria, o Brasil reaprende a ser filho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf


‘Ditoso quem invoca Maria Santíssima, quem recorre ao imaculado coração de Maria com confiança.’

(Santo Antonio Maria Claret)

 

‘Maio chega sempre como quem bate à porta do coração. Não chega com pressa, mas com delicadeza. Há algo de profundamente humano e, ao mesmo tempo, profundamente divino neste mês que a tradição da Igreja consagrou à Virgem Maria. Não é apenas um costume devocional, é uma pedagogia espiritual. É como se a Igreja, conhecedora da fragilidade dos nossos afetos e da dispersão dos nossos dias, convidasse-nos a reaprender a amar, olhando para aquela que soube amar sem reservas.

Falar de Maria, no entanto, exige um deslocamento interior. Não se trata de falar sobre uma personagem distante, envolta em imagens idealizadas, trata-se de deixar-se alcançar por uma presença materna e acolhedora. A teologia mais recente, em sintonia com o Concílio Vaticano II, tem insistido nisso com vigor : Maria não pode ser compreendida isoladamente, mas no coração do mistério de Cristo e da Igreja. Ela é mulher concreta, discípula, peregrina da fé. Justamente por isso, torna-se espelho daquilo que a Igreja é chamada a ser.

Nesse horizonte, o título ‘coração de Maria’ adquire uma densidade que vai muito além de uma linguagem afetiva. O coração, na tradição bíblica, não é apenas o lugar dos sentimentos, é o centro da pessoa, onde se decide a vida. Quando o Evangelho nos diz que Maria ‘guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração’ (Lc 2,19), revela-nos uma mulher que não vive na superficialidade dos acontecimentos, mas na profundidade do sentido, da fé e da esperança. Uma mulher que acolhe, discerne, sofre, espera e ama, por isso, contemplar o coração de Maria é contemplar uma forma de existir diante de Deus e diante do mundo.

Neste ano, essa contemplação ganha uma ressonância ainda mais profunda. Celebramos os oitenta anos da consagração do Brasil ao imaculado coração de Maria. Em 1946, num contexto marcado por incertezas históricas e feridas ainda abertas no mundo provocadas pelas guerras, pelo medo de novos conflitos, pela necessidade de reconstrução material e espiritual, a Igreja no Brasil confiou o país ao coração de uma mãe como ato teológico de confiança e reconhecimento de que ela cuida de cada um de nós. Consagrar é reconhecer que não nos pertencemos, é admitir que nossa história precisa ser atravessada por uma presença que nos reorienta, que nos humaniza, que nos reconduz ao essencial.

O gesto de consagração permanece atual, talvez hoje mais do que nunca. Em um tempo fragmentado, marcado por tantas formas de violência, por indiferenças que se naturalizam e por uma crise profunda de sentido, voltar ao coração de Maria é reencontrar um lugar de recomposição interior. Não um refúgio alienante, mas uma fonte de lucidez e de compromisso.

A tradição espiritual recorda que o coração de Maria é escola. Escola de escuta, porque ela acolhe a Palavra antes de anunciá-la. Escola de disponibilidade, porque sua resposta não nasce do controle, mas da confiança. Escola de fidelidade, porque permanece de pé mesmo quando tudo parece ruir. Escola de ternura, porque sua presença nunca se impõe, mas sustenta.

É precisamente aqui que a espiritualidade claretiana encontra um de seus pontos mais luminosos. Santo Antônio Maria Claret não fala do coração de Maria como uma ideia, mas como quem experimentou um pertencimento. Ele insiste com veemência : não basta que os missionários, hoje conhecidos como claretianos, sejam chamados ‘filhos do coração de Maria’, é necessário serem e sentirem-se filhos. Há, nessa afirmação, uma exigência espiritual profunda. Não se trata de um título honorífico, mas de uma configuração existencial. Ser filho do coração de Maria é deixar-se educar por esse coração.

O que significa ser educado por Maria? Significa aprender a ter um coração missionário, inquieto diante da dor do mundo. Significa cultivar uma fé encarnada, que não separa oração e vida. Significa desenvolver uma sensibilidade capaz de perceber o sofrimento oculto das pessoas. Significa, sobretudo, deixar que o próprio coração seja moldado segundo as virtudes que nela resplandecem : humildade que não se exibe, fortaleza que não endurece, pureza que integra, caridade que se doa.

Claret compreendeu que a missão nasce do coração e que não há verdadeira evangelização sem transformação interior, por isso, ao confiar sua congregação ao coração de Maria, ele não estava apenas estabelecendo uma devoção, ele indicava um caminho formativo, um itinerário de configuração.

Nesse sentido, o mês mariano não pode ser reduzido a práticas repetitivas que não tocam a vida. Ele é convite à conversão do coração. É tempo de reorganizar afetos, de purificar intenções, de reencontrar a coerência entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.

Talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo. Não nos falta informação religiosa, falta-nos interioridade. Não nos faltam discursos sobre Deus, falta-nos experiência de Deus que transforma o cotidiano. É exatamente aí que Maria se torna presença decisiva porque nela fé e vida não se separam. Palavra e existência coincidem.

Celebrar os oitenta anos da consagração do Brasil ao coração de Maria é, portanto, mais do que recordar um evento do passado, é perguntar, com honestidade, o que fizemos dessa entrega, é interrogar se nosso país tem permitido que esse coração materno eduque nossas relações, inspire nossas escolhas, ilumine nossas estruturas.

Talvez a resposta não seja confortável, mas o caminho permanece aberto. Maio volta a nos visitar e, com ele, essa possibilidade sempre nova de recomeço. Não um recomeço ruidoso, mas silencioso, como é o amor verdadeiro, como é o coração de uma mãe. Talvez seja isso que Maria continua a nos ensinar : que Deus não transforma o mundo apenas com grandes gestos, mas com corações que, em silêncio, deixam-se transformar por Ele.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/no-coracao-de-maria-o-brasil-reaprende-a-ser-filho.html