domingo, 5 de julho de 2026

O drama de mães haitianas, migrantes e invisíveis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Federico Piana


‘Em meio à poeira de um porão, Monique encontra-se deitada em um colchão imundo : rosto abatido, mas com olhos radiantes; ela segura, em seus braços, uma pequena criatura, que chora desesperada. Mas, graças a Deus, sinal que está viva. Monique é um nome fictício, mas a sua história não : é uma imigrante haitiana, trinta anos, que, para escapar da violência das gangues e da profunda crise econômica, em que se encontra seu país; no maior desespero, ela decidiu cruzar a fronteira para a República Dominicana, ano passado. Aquela pequena criatura, aos gritos e pranto, ainda mantém as pálpebras fechadas e o cordão umbilical pendurado. Sua mãe, que pede para permanecer no anonimato, narra a sua história.

Vidas clandestinas

Monique nunca sequer pensou em dar à luz em uma unidade de saúde dominicana, pois não possui os documentos necessários e, atualmente, corre o risco de ser deportada. Então, ela não perde tempo : quando as dores do parto se intensificaram e tendo chegado a hora, decidiu dar à luz ao seu filho na clandestinidade, como fazem muitas mulheres haitianas.

Prisões e repatriações

Padre Germain Clerveau dirige o ‘Service Jésuite aux migrants - Solidarité fwontalye-Haïti’, uma organização jesuíta que cuida dos migrantes, repatriados e deslocados internos nas áreas fronteiriças entre o Haiti e a República Dominicana. O sacerdote, que conhece bem a situação, revela à mídia do Vaticano : ‘Inúmeros testemunhos relatam casos de mulheres grávidas presas em hospitais, perto de centros de saúde ou até em suas casas. Algumas são expulsas logo depois do parto; outras são separadas de seus entes queridos ou de seus recém-nascidos, antes de serem repatriadas para o Haiti’. É precisamente isso que Monique queria evitar, mesmo correndo o risco de perder seu filho e sua própria vida.

Porões e degradação

Não é incomum que os partos acontecem em porões, abrigos improvisados, quartos superlotados e barracos sem eletricidade, sem água potável ou saneamento adequado terminam em tragédia, com hemorragias, infecções, partos prematuros e mortes. Segundo dados coletados pelo nosso Serviço Jesuíta aos Migrantes, ‘muitas mães e bebês morreram em condições terríveis como esta. Ninguém, por enquanto, sabe o número exato dessas mortes, mesmo porque ninguém tem coragem de denunciá-las : mulheres como Monique são ajudadas por parteiras improvisadas, parentes, vizinhos ou outros migrantes, que jamais pensariam em recorrer às autoridades. De acordo com dados do Riess, ‘Repositório de Informações e Estatísticas do Serviço Nacional de Saúde’, citados pela imprensa internacional, em pouco tempo, os partos de mulheres haitianas, em hospitais dominicanos, diminuíram em cerca de 60%.

Dignidade ferida

‘Como pode acontecer algo assim?’, pergunta Dom Pierre-André Dumas, bispo haitiano de Anse-à-Veau-Miragoâne e vice-Presidente da Conferência Episcopal Haitiana. E reitera : ‘A dor dessas mulheres imigrantes na República Dominicana é também a dor dos Bispos de seu país. A Conferência Episcopal acompanha o que está acontecendo com profunda preocupação. Trata-se de uma situação que ultrapassa toda sensibilidade humana. Esta é uma grave ferida na dignidade. Nós, como Igreja, devemos defender a vida desde o seu início até o fim. Ninguém deve ser privado de assistência médica’.

Resposta humanitária

Algumas mulheres haitianas, como Monique, gostariam de obter um visto ou mudar seu status. Mas, por enquanto, o governo não está oferecendo aos imigrantes haitianos a oportunidade de regularizar a sua situação. Por isso, o Padre Clerveau acredita que ‘uma resposta humanitária urgente e o respeito dos princípios fundamentais dos direitos humanos são urgentemente necessários, sobretudo, o direito à saúde, tutela, maternidade, dignidade e não discriminação das mulheres, independentemente de seu status imigratório ou nacionalidade’.

Equilíbrio dos direitos

Na República Dominicana, os imigrantes haitianos representam 70% de todos os imigrantes no país (535.000), segundo dados das Nações Unidas de 2024. Segundo Dom Dumas ‘esta enorme pressão não pode ser ignorada e cabe ao governo dominicano o direito de regulamentar as práticas em suas fronteiras e a aplicação das próprias leis de imigração : ‘Isso já havia sido abordado, em 2004, pela Conferência Episcopal Dominicana. Tal direito deve ser equilibrado com o dever de respeitar sempre a dignidade humana e os direitos fundamentais. A preocupação dos Bispos, portanto, não é o princípio da regulamentação, mas as consequências humanitárias, que podem surgir da aplicação deste princípio’.

Garantir a assistência

‘Com base nas informações, que obtivemos, as operações de controle de imigração envolvem a presença regular de forças de segurança em muitas unidades de saúde e controles também após a assistência’ : é o que afirma o Padre Clerveau, que, com sua equipe do ‘Serviço Jesuíta para Migrantes’, não desiste e promete continuar trabalhando para garantir o acesso à saúde materna, sem medo de prisões ou deportações.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-06/drama-maes-haitianas-migrantes-invisiveis.html

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Tolkien, esperança e o combate do nosso tempo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Sergio Carvalho


‘Na sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV surpreendeu muitos leitores ao recorrer ao universo literário de J. R. R. Tolkien e a uma das frases mais emblemáticas de Gandalf. Alguns terão visto apenas um detalhe curioso, quase uma piscadela de olho cultural. Mas talvez seja muito mais do que isso. Talvez seja um sinal dos tempos.

A frase de Gandalf «Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que fomos colocados…» tornou-se uma espécie de manifesto contemporâneo diante da incerteza, das guerras, das crises culturais e do cansaço espiritual que atravessa o Ocidente. O Papa sabe disso. E sabe também que milhões de pessoas encontraram em Tolkien não apenas fantasia, mas uma verdadeira gramática moral para compreender o bem, o mal, a esperança e o sacrifício.

Tolkien era um católico profundamente convicto. A sua obra está impregnada de uma visão cristã da história : a luta entre luz e trevas, a fidelidade dos pequenos, a corrupção do poder absoluto, a importância da amizade, da misericórdia e da perseverança. Na trilogia O Senhor dos Anéis não vence o mais forte. Vence quem permanece fiel.

Ao citar Gandalf, Leão XIV aproxima-se de uma linguagem capaz de dialogar com gerações inteiras que cresceram entre livros, filmes e culturas digitais. É um gesto pastoral inteligente. Durante décadas, a Igreja falou sobretudo através de categorias clássicas, teológicas ou filosóficas. Hoje, percebe-se cada vez mais que também a literatura, o cinema e a cultura popular podem tornar-se ‘átrios dos gentios’, espaços de encontro entre fé e humanidade.

A escolha de Tolkien não é inocente. Vivemos um tempo marcado por uma sensação coletiva de impotência. Muitos sentem que o mundo está demasiado complexo, demasiado polarizado, demasiado ferido para ser transformado. A tentação do desânimo tornou-se uma epidemia silenciosa. E é precisamente aí que a frase de Gandalf ganha uma força quase espiritual : não controlamos o tempo histórico, mas somos responsáveis pela forma como o habitamos.

Há nesta ideia um eco profundamente evangélico. Jesus nunca prometeu aos discípulos facilidade ou sucesso imediato. Pediu-lhes apenas fidelidade. O cristianismo não é uma religião de vencedores triunfalistas, mas de homens e mulheres capazes de acender pequenas luzes na noite. Como Frodo, Sam ou Gandalf, também o cristão é chamado a caminhar mesmo sem ver claramente o fim da estrada.

Talvez por isso a referência do Papa tenha causado tanto impacto. Porque une duas linguagens que muitos julgavam incompatíveis : a tradição cristã e a cultura contemporânea. Num tempo em que tantos acusam a Igreja de estar distante das novas gerações, esta citação mostra precisamente o contrário : a fé continua capaz de dialogar com os símbolos, narrativas e perguntas do nosso tempo.

Existe, ainda, outra lição importante. Gandalf não pergunta quanto tempo temos. Pergunta o que fazemos com ele. Num mundo obcecado pela produtividade, pela velocidade e pela distração permanente, a grande questão volta a ser moral e espiritual. O que fazemos com os dias que nos são dados? Que legado deixaremos? Que esperança transmitiremos?

No fundo, a encíclica de Leão XIV recorda-nos algo essencial : mesmo em tempos sombrios, a esperança continua a ser uma escolha. Não é ingênua. Não é alienada. Mas profundamente humana e cristã.

E talvez Tolkien sorrisse ao ver que, muitos anos depois, um Papa encontrou em Gandalf palavras capazes de iluminar o coração do mundo contemporâneo.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-06/por-006/tolkien-esperanca-e-o-combate-do-nosso-tempo.html


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Santo Agostinho e a IA: o pensamento agostiniano na Magnifica humanitas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Enrique Eguiarte


‘Neste comentário, frei Enrique Eguiarte, OAR, um dos maiores especialistas contemporâneos em Santo Agostinho, analisa o profundo pano de fundo agostiniano presente na Encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV. A partir das referências explícitas e implícitas ao bispo de Hipona, o autor mostra como conceitos centrais da tradição agostiniana — a dignidade humana, a verdade, a justiça, a paz e a unidade — iluminam o debate contemporâneo sobre a Inteligência Artificial (IA), o mundo digital e o futuro da humanidade.

Babel ou Jerusalém : a grande decisão do mundo digital

A nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, segue em todos os momentos um esquema nitidamente agostiniano. Desde as imagens que propõe no início do documento — a torre de Babel e a reconstrução da muralha de Jerusalém por parte de Neemias — ficam resumidos os principais conteúdos da encíclica.

Deste modo, aqueles que buscam nos elementos tecnológicos e cibernéticos novos modos de dominação e de exercício do poder, esquecendo a dignidade do ser humano, são comparados aos construtores da torre de Babel. A eles a encíclica dirige uma exortação e um chamado para redescobrir não apenas a dignidade de toda pessoa humana, mas também a necessidade de viver na verdade. Para isso, parte dos princípios essenciais da Doutrina Social da Igreja, não apenas para comentá-los, mas para aplicá-los ao uso e ao usufruto dos meios digitais contemporâneos.

Como fundamento do pensamento de Leão XIV — e não poderia ser de outro modo — aparece a figura luminosa de Santo Agostinho. Dele são mencionados quatro textos explícitos e um implícito.

O primeiro deles, e com uma lógica evidente ao tratar da dignidade do ser humano e de sua grandeza, é a conhecida passagem das Confissões : ‘Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti’ (conf. 1,1).

Trata-se de um texto que resume admiravelmente tudo o que o pontífice apresenta sobre a dignidade humana. De fato, como assinala o Papa, reiterando a doutrina clássica da Igreja, o ser humano possui dignidade porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Por isso, toda pessoa não apenas possui dignidade, mas também uma grandeza implícita e ontológica, que não depende de sua produtividade nem de sua valorização externa.

Essa grandeza é inerente ao seu ser, pois foi criada à imagem de Deus e traz em si um coração inquieto que a impulsiona para Ele, sendo a única criatura do universo chamada a participar eternamente da vida divina.

Em segundo lugar, o Papa cita outro texto que, de algum modo, percorre toda a encíclica como um baixo contínuo. Trata-se do pensamento apresentado por Santo Agostinho em A Cidade de Deus, convertido no fundamento de toda esta obra e, ao mesmo tempo, no centro da teologia agostiniana da história : ‘Dois amores edificaram duas cidades’.

Posteriormente, o bispo de Hipona explica quais são esses dois amores : ‘o amor de si mesmo até o desprezo de Deus e o amor de Deus até o desprezo de si mesmo’ (ciu. 14,28). Esta é a alternativa diante da qual se encontra todo ser humano e segundo a qual constrói uma das duas cidades.

Novamente, como assinala acertadamente o Papa no início da encíclica, é necessário optar entre Babel e Jerusalém. Para Santo Agostinho, a cidade deste mundo é Babilônia, cujo nome está etimologicamente relacionado com Babel, pois ambas significam — como recorda o próprio Agostinho aludindo às línguas semíticas — ‘confusão’ (en. Ps. 136,1).

Frente a isso, a cidade de Deus pode identificar-se espiritualmente com Jerusalém. Por isso Santo Agostinho destaca que Jerusalém pode ser interpretada exegeticamente como ‘visão de paz’ (en. Ps. 136,1), meta última da peregrinação do ser humano neste mundo.

Assim, a Doutrina Social da Igreja ajuda para que os elementos próprios da Inteligência Artificial e do mundo digital possam se orientar e se converter em ferramentas úteis para os peregrinos que se dirigem a Deus, e não, pelo contrário, em obstáculos que não apenas arrebatam a dignidade dos seres humanos, mas acabam se tornando impedimentos para sua autêntica realização.

Justiça, paz e dignidade humana no pensamento de Santo Agostinho

Posteriormente, cita-se um texto da Enarratio in Psalmum 84, no qual Santo Agostinho comenta o versículo do Salmo 84,11b (85,11b) : ‘A justiça e a paz se beijam’.

Santo Agostinho comenta :

‘Ninguém há que não deseje estar em paz, mas nem todos querem praticar a justiça. […] Mas tu deves praticar a justiça, já que a paz e a justiça se beijam, não estão em discórdia. E tu, por que não estás de acordo com a justiça? Por exemplo, diz-te a justiça : não roubes, e tu não lhe dás ouvidos; não cometas adultério, e te fazes de surdo; não faças a outro o que não queres que façam a ti; não fales de outros o que não queres que falem de ti. […] Queres encontrar-te com a paz? Pratica a justiça’ (en. Ps. 84,12).

Na extensa passagem recolhida pela encíclica, o bispo de Hipona assinala que não pode existir paz sem justiça, insistindo que ambos os elementos são inseparáveis. Onde há justiça, favorece-se necessariamente o surgimento da paz.

Em seu comentário ao salmo, Santo Agostinho introduz ainda outro elemento fundamental para a encíclica : o mistério da Encarnação, embora este segundo texto não tenha sido usado no documento pontifício.

A natureza humana goza de uma dignidade insuspeitada porque o Filho de Deus assumiu a carne no seio da Virgem Maria. Precisamente a isso alude Santo Agostinho pouco depois do texto citado pelo Papa, quando comenta o versículo : ‘A verdade brotou da terra’.

O bispo de Hipona interpreta estas palavras como uma referência ao nascimento de Cristo, pois Ele é a Verdade que se fez verdadeiramente carne no seio de Maria, simbolizada pela terra fecunda (cf. en. Ps. 84,13).

Unidade, comunhão e corpo de Cristo na era digital

Uma terceira citação é extraída do Sermão 272, uma brevíssima homilia que Santo Agostinho pregou em um domingo de Páscoa aos seus fiéis, especialmente aos neófitos ou infantes, como gostava de chamá-los.

Este é o texto :

‘O que vemos tem aspecto corporal; o que entendemos, fruto espiritual. Portanto, se queres entender o corpo de Cristo, ouve o Apóstolo que diz aos fiéis : Vós sois o corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12,27). Em consequência, se vós sois o corpo de Cristo e seus membros, sobre a mesa do Senhor está posto o mistério que vós mesmos sois : recebeis o mistério que sois vós. A isso que sois, respondeis ‘Amém’, e ao responder (assim) o confirmais. Ouves, pois : ‘Corpo de Cristo’, e respondes : ‘Amém’. Sê membro do corpo de Cristo, para que o teu ‘Amém’ responda à verdade’.

Neste texto, breve, mas denso, Santo Agostinho sublinha dois elementos que o Papa retoma expressamente : a unidade e o compromisso de perseverar nela, pois todos formamos o Corpo de Cristo, bem como a santidade, dado que esse Corpo é santo.

Por isso adquire grande relevância a resposta dos fiéis : o ‘Amém’. Esta afirmação não apenas expressa a fé na presença real do Corpo de Cristo nas espécies eucarísticas, mas também o duplo compromisso de trabalhar pela construção da paz e de viver santamente como membros dignos desse mesmo Corpo.

A última citação de Santo Agostinho é implícita, pois o Papa retoma palavras pronunciadas em seu discurso à Cúria Romana por ocasião da saudação de Natal em 22 de dezembro de 2025, onde reiterou a frase agostiniana escolhida como lema pontifical : In illo uno unum, ou seja, ‘naquele que é um, sejamos todos um’ (en. Ps. 127,3).

Também aqui aparece o convite à unidade, ao trabalho comum e à construção compartilhada da cidade de Deus, a Jerusalém celestial. Unidos, como Neemias na reconstrução de Jerusalém, e não dispersos no egoísmo próprio de Babel.

A contribuição agostiniana de Magnifica humanitas

Assim, embora as citações textuais de Santo Agostinho não sejam numerosas, o pensamento agostiniano percorre toda a encíclica e sustenta suas linhas mestras : a caridade como princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja; o amor e a paixão pela verdade; a dignidade do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus — ideia presente nos diversos comentários agostinianos ao livro do Gênesis —; a busca da justiça; a oposição a toda forma de exploração humana; a rejeição da guerra; o amor à paz; o valor da formação e da educação; a fraternidade universal; e, finalmente, o destino eterno de todo ser humano.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-06/santo-agostinho-inteligencia-artificial-magnifica-humanitas-leao.html

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - Países africanos que nunca foram colonizados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Para quem conhece um pouco de história sabe que a maior parte do mundo já foi colonizado, em especial pela Europa. Primeiro veio a colonização da América, depois da Oceania, depois da Ásia e por último veio a colonização da África. E, quando falamos da África, já publicamos aqui nessa coluna 25 textos e gravamos 25 áudios, o continente foi retalhado pelas grandes potências europeias que formaram diversas colônias. Mas existem dois países que apresentam uma grande novidade porque nunca foram colonizados.

O continente africano é formado hoje por 54 países reconhecidos pelas Nações Unidas, sendo o continente com o maior número de países no mundo, distribuídos em cinco regiões principais: Norte, Meridional (Sul), Central, Ocidental e Oriental.

Contexto

Até o fim do século XIX, a maior parte do continente africano era desconhecida, principalmente a região central desse continente. As grandes potências europeias da época, com exceção de Portugal, estavam até então mais focadas em suas colônias na Ásia.

Em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim que leva esse nome por ser a cidade alemã o lugar de sua realização. Um dos objetivos dessa reunião entre as potências europeias era a de se reorganizar o mapa geográfico do mundo. Para isso era preciso fazer a divisão e partilha da África entre essas nações colonizadoras. Ao final da referida conferência praticamente todo o continente africano já havia sido repartido em colônias e pertenciam as potências europeias. Mas, no entanto, havia apenas dois países que permaneceram independentes : A Etiópia e a Libéria. 

Etiópia livre

A Etiópia, era um país bem antigo e independente possuindo uma bem sucedida relação com outros países.

Fato curioso é que em 1896, a Itália, que também havia ganho alguns poucos territórios no continente africano durante a conferência subestimou a Etiópia, tentando coloniza-la, porém ao invadir o país africano foi repelido e sofreu uma derrota, que chamou a atenção do mundo inteiro na época, pelo fato de um país africano pobre conseguir derrotar um país europeu, visto como uma potência emergente. A Itália havia surgido como país unificado há menos de 30 anos, em 1879, sendo considerado ‘o primo pobre da Europa’.

Em outros momentos, como no início da Segunda Guerra Mundial, acontecida entre 1939 e 1945, a Itália tentou reconquistas a Etiópia, mas também desta vez foi malsucedida em seu intento, pois a Etiópia contou com a ajuda de outros países.

Apesar dessa aparente liberdade, a Etiópia passou por situações complexas em sua história como no tempo da ditadura de Hailé Selassié, e hoje enfrenta uma grave crise humanitária marcada pela insegurança alimentar aguda, seca e riscos de novos conflitos no Norte (Tigray). O país também lida com tensões geopolíticas, desafios econômicos e instabilidade

Um país formado por ex-escravos

O outro país africano que nunca foi colonizado pelos europeus tem uma história bastante curiosa. Isso porque foi fundado em 1824, por escravos libertos dos EUA. Naquela época, uma organização americana chamada American Colonization Society (em tradução livre, Sociedade Americana de Colonização) havia sido criada com o propósito de levar escravos libertos e negros nascidos livres de volta para a África.

Na época a ideia parecia bem absurda afinal, tanto os ex-escravos quanto os nascidos livres eram americanos. Mas, naquele tempo, o pensamento racista e escravista permitia esse tipo de conclusão. Levar a população negra para a África seria, na visão desta organização, um modo de impedir o aumento da criminalidade ou os casamentos interraciais.

Hoje, essa ideia parece absurda e até mesmo bizarra, mas na época foi bastante apoiada nos Estados Unidos. O projeto foi financiado através da arrecadação de dinheiro em vários estados, recebendo o apoio até mesmo do presidente, James Monroe.

Em meados de 1821, o território da já Libéria havia sido definido, e os primeiros migrantes já haviam chegado. Em 1822, foi criada a capital, Monróvia, nomeada em homenagem ao presidente Monroe.

Apenas em 1824 o país foi fundado oficialmente sob esse nome, que tencionava indicar ‘país da liberdade’. Apesar da conexão bastante próxima com seu país de origem, os agora liberianos declararam sua independência em 1847. Mesmo assim, sua ligação próxima com os Estados Unidos manteve de fora os demais colonizadores europeus.

Quando a região da Libéria foi demarcada, não havia sido levado em consideração os povos que já viviam na região. A divisão forçada do território foi um dos fatores que levaram aos conflitos e guerras civis enfrentadas no país no século seguinte, gerando um país hoje muito pobre e devastado.

Hoje a Libéria está em processo de estabilização após uma cruel guerra civil, reconstruindo suas forças armadas e consolidando a democracia. Sendo também considerada um dos países mais pobres do mundo, enfrenta desafios econômicos e sociais, com grande dependência da agricultura e mineração. A segurança melhorou, mas viajantes devem ter cautela.

Etiópia e Libéria, os dois países têm histórias muito curiosas : um deles conseguiu expulsar os colonos, e o outro tinha acabado de ser formado por imigrantes negros que fugiram da escravidão no Estados Unidos, mas na atualidade enfrentam os mesmos problemas e desafios que marcam a realidade de outros países do continente.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-05/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-paises.html

 

sábado, 27 de junho de 2026

Estar em Tizi Ouzou, na Argélia, moldou-me como missionário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Vista da Basílica Notre-Dame-d'Afrique, em Argel.

*Artigo de Dulce Araújo


- Padre Guy, obrigada por estar connosco na Rádio Vaticano. Poderia apresentar-se e dizer-nos como é que veio parar a Argel?

‘Eu sou o Padre Guy Sawadogo, natural do Burkina Faso. Sou da Congregação dos Missionários de África, mais conhecidos por ‘Padres Brancos’. Cheguei à Argélia há 21 anos como seminarista. Fiz os meus dois anos de estágio pastoral, aqui na Argélia, entre 2005 e 2007. Depois, fui fazer estudos teológicos em Kinshasa. Após a minha ordenação sacerdotal, em julho de 2011, pedi para regressar à Argélia. E quando vim, em vez de ficar na Diocese de Ghardaïa, onde tinha feito o estágio, o meu superior provincial sugeriu que fosse trabalhar na cidade de Tizi Ouzou, Diocese de Argel. Fiquei lá sete anos, a seguir aos quais fui por um ano para Argel; dali ausentei-me do país para fazer estudos de Antropologia Social e Desenvolvimento. Em finais de 2021 voltei de novo para a Argélia. E atualmente estou na Comunidade dos Missionários da África que se ocupa da Basílica ‘Notre-Dâme-d’Afrique’, em Argel. Mas eu trabalho principalmente no Centro de Estudos Diocesano ‘Les Glycines’, um Centro Cultural da Diocese de Argel, da Igreja na Argélia.’

- Porque é que pediu para voltar para a Argélia?

Quando fazia o noviciado, lia muito sobre a vida de padres brancos. A Congregação foi fundada aqui na Argélia, em 1868, pelo Cardeal Charles Lavigerie, terceiro bispo de Argel, primeiro arcebispo e primeiro Cardeal da Argélia. E ele nos enviou para levar o Evangelho a diversos países da África. E quando líamos a vida dos primeiros missionários de África, eu ficava impressionado, ao ver, ao ler, ao ouvir os nomes de pessoas, de certos lugares como Ghardaia, Metlili, Ouargla, Basílica ‘Notre Dâme d’Afrique’... e dizia : ‘este país gostaria de o conhecer um dia!’ Então, quando já estávamos a terminar o período do noviciado, o secretário para a formação foi-nos visitar para saber onde é que queríamos fazer o estágio pastoral. E eu disse que queria ir para um país de maioria muçulmana. Então propuseram-me a Argélia. Vim então para Ghardaia, onde trabalhei sobretudo no nosso centro cultural que se chama ‘Centro Cultural e de Documentação Subsaariana’. Trabalhava também com os migrantes que ali estavam (trabalhadores), muitos a caminho da Europa e que encontraram ali um lugar onde podiam trabalhar, ganhar algum dinheiro para enviar à família. Havia ali dois grupos : um que tinha, de certo modo, decidido ficar porque o que queriam era ir para a Europa ganhar dinheiro e deram-se conta de que em Ghardaia podiam trabalhar e ganhar dinheiro. Eram pessoas que trabalhavam nos campos de palmeira, nos jardins, pomares, enfim, na agricultura, na rega, que se ocupavam do gado e que trabalhavam também na construção civil, ou em fábricas, oficinas, etc.

Dado que eu falo djola, pois que nasci na região ocidental do Burkina-Faso, onde se fala djola, uma variante da língua bambara, falada no Mali, conseguia comunicar facilmente com eles, pois eram em grande parte malianos. Então quase que me adotaram e muitos deles pediam-me para os ajudar, para os acompanhar ao hospital se necessário, para fazer compras para eles, porque nem sempre conseguiam sair... e eu fazia tudo isso como um irmão, estando ao lado deles, sem infringir as leis, mas simplesmente procurando compreender a sua situação, ajudando-os a suavizar as coisas e a viver sem muitos problemas.

E quando fui ordenado padre e me pediram para regressar à Argélia os meus amigos perguntavam-me como era possível que, estando em Kinshasa, no Congo, país com uma Igreja tão dinâmica, quisesse vir para a Argélia, onde a Igreja é tão pequena, quase insignificante. E disse-lhes que era uma história de amor, que queria conhecer este país, as pessoas e poder fazer algo juntamente com elas, acompanhá-las naquilo que estamos a viver. E, portanto, para mim, foi algo muito, muito interessante, muito agradável vir para aqui.

E quando cheguei em Tizi Ouzou como jovem padre, as pessoas com que tinha trabalhado antes já não eram as mesmas. Já não eram propriamente migrantes trabalhadores, mas sobretudo estudantes — estudantes argelinos, claro, mas também muitos estudantes estrangeiros, de quase todos os países da África subsaariana. E foi interessante trabalhar com jovens que procuravam adquirir conhecimentos intelectuais e acadêmicos, e outros que estavam em formação profissional. E foi bonito ver como jovens que chegaram à Argélia aos dezessete anos, que lá passaram quatro, cinco ou mais anos, se tornaram adultos maduros e regressaram para as suas terras com uma riqueza de experiências e de conhecimentos do que viveram, tanto a nível pessoal como intelectual, aqui na Argélia. Isso realmente impressionou-me.

Fiquei, portanto, sete anos com os jovens em Tizi Ouzou. Claro que havia também a comunidade cristã com alguns cristãos argelinos e todos esses estudantes estrangeiros. Trabalhamos em conjunto para construir uma paróquia, uma comunidade cristã unida. E funcionou muito, muito bem. Estou verdadeiramente grato por estes sete anos que passei em Tizi-Ouzou, anos que me moldaram como missionário, como um Padre Branco.

- Agora, aqui em Argel, o que é que faz exatamente?

Bem, estou em Argel desde 2018. No primeiro ano, trabalhei quase a tempo inteiro na Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, a receber visitantes, a maioria muçulmanos. Em média, recebemos mais de 500 pessoas por dia nessa Basílica. Pessoas que vêm visitar a Basílica, que estão a descobrir a Igreja pela primeira vez, que fazem perguntas sobre o cristianismo para o compreender um pouco melhor e também para participar neste tipo de diálogo, uma espécie de abordagem... Portanto, o nosso papel aqui é principalmente fomentar o diálogo entre cristãos e muçulmanos, mostrar-lhes quem somos e perguntar-lhes quem são enquanto muçulmanos. E eles, por sua vez, dizem-nos quem são, é uma abordagem. Portanto, não estamos aqui para dizer : ‘Vocês, muçulmanos, são...’ Não! Eles dizem-nos quem são e nós lhes dizemos quem somos como cristãos.

Desde 2022, trabalho sobretudo no Centro Diocesano de Estudos ‘Les Glycines’, fundado há 60 anos pelo Cardeal Étienne Duval. Este Centro acolhe pessoas interessadas em aprender o árabe argelino, o árabe clássico e outras línguas. Temos uma biblioteca bastante grande, formada mediante legados de comunidades religiosas que deixaram a Argélia nas décadas de 1960 e 70, bem como de argelinos ilustres que doaram as suas coleções, ou de pessoas que trabalharam em Argel e doaram os seus acervos à biblioteca. Acadêmicos de todo o mundo consultam o nosso catálogo online e vêm fazer investigações na nossa coleção ou noutras coleções em Argel, aproveitando também a oportunidade para visitar o nosso Centro.

Organizamos também conferências, sempre relacionadas com a Argélia. O nosso foco principal é a Argélia, vista sob diferentes perspectivas, pois o nosso Centro é especializado em Ciências Humanas e Sociais. Temos coleções de arqueologia, arquitetura, história, sociologia, antropologia, etnologia e, claro, religião também. Assim, as pessoas vêm e encontram o que procuram. É isso!

Poderia falar-nos um pouco sobre a realidade dos trabalhadores imigrantes aqui em Argel e na Argélia em geral? Como é a vida deles e que dificuldades enfrentam? Como é a relação deles com a sociedade? Como funciona exatamente?

Bem, não vemos trabalhadores estrangeiros com muita frequência. No que toca a imigrantes, sobretudo trabalhadores e africanos da África subsaariana, vemo-los nalguns estaleiros de construção e também nas ruas. E em conversas com funcionários da OIM, na sede desta Organização Internacional para as Migrações, aqui em Argel, compreendi que está a ser feito um enorme trabalho para ver como podem ser ajudados a ter um estatuto legal na Argélia, a trabalhar legalmente e a deslocar-se com mais facilidade. Se isto se concretizar, será realmente maravilhoso para estas pessoas que se encontram na Argélia de passagem ou procurando construir uma vida melhor nos seus países de origem. Vejo por exemplo, trabalhadores asiáticos, principalmente chineses, que vêm trabalhar em obras de construção, imagino que de uma forma muito regulamentada e legal. Assim, se pudéssemos fazer o mesmo para os trabalhadores vindos da África subsaariana, seria um grande mérito para a Argélia em relação aos africanos.

- Tem-se alguma ideia de quantos são? E a maioria deles é ‘clandestina’ (entre aspas)?  

Não sei o número exato. Depende das regiões. Estão muito mais presentes nalgumas regiões do que noutras. Em Argel, por ser a capital, vemo-los um pouco mais em obras de construção civil, e noutras regiões, mais em trabalhos agrícolas... mas, em zonas como Tizi Ouzou, que não está na rota migratória, vemos muito poucos migrantes. Ali, os estrangeiros, vindos da África subsaariana, são sobretudo estudantes. Mas noutras regiões como Argel e ao longo da costa argelina, nas grandes cidades, e por vezes mesmo no Saara argelino, vemos migrantes que estão apenas de passagem, a caminho da Europa. Mas é difícil dizer quantos são; talvez as autoridades, talvez o ACNUR, possam fornecer alguns dados. Eu vejo muitos, muitos mesmo. Mas, não sei quantos são.

- E a sociedade aceita-os facilmente. Ou é verdade que há um pouco de racismo, como alguns dizem?

Bem, os que trabalham, significa que estão em contato com parceiros ou dadores de trabalho argelinos. E, portanto, se trabalham, significa que, de forma ou doutra, há aceitação. E dizer se é há racismo ou não, bem, as experiências podem ser diferentes, dependem da região, das pessoas e do que fazem. Depende se as pessoas os vêm como trabalhadores aplicados, que trabalham arduamente, ou se são pessoas que estão ali a pedir esmola, a apanhar ou simplesmente a andar pelas ruas, então talvez a abordagem seja diferente. Também alguns estudantes dizem que sofrem com um certo olhar, um olhar de desprezo e tudo mais. Mas, mais uma vez, também depende, pois quando se chega se depara com uma sociedade muito diferente, por isso ser aceite no contexto dessa diferença, nem sempre é fácil, leva tempo. Depende como é que cada um reage. Alguns ficam logo frustrados, outros um pouco desorientados, outros são talvez mais resilientes e as coisas são para elas mais fáceis. Por isso, não posso dizer que seja fácil ou difícil. Não! É complexo, isso sim! Não há dúvida de que é uma verdadeira luta. Mas quando se conhece estas pessoas, se conhece este país, bem, é um país como qualquer outro, com os seus altos e baixos, com pessoas muito acolhedoras e pessoas nada acolhedoras. Acontece em qualquer lugar do mundo.’ 

- Mais duas perguntas rápidas, Padre Guy. Em frente à Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, vê-se um monumento que representa um túmulo, um caixão. Fale-nos um pouco desse monumento. E qual é a sua ligação com os imigrantes que, suponho, também morrem nas costas da Argélia?

Sim, é um cenotáfio que existe ali há mais de 150 anos. Desde a criação da Basílica, os padres fizeram esse monumento, em forma de caixão, em memória de todos aqueles que morreram no mar a tentar atravessar. E creio que, na altura da sua construção, foi sobretudo para os trabalhadores que morreram no mar, pois havia muitos pescadores à volta da Basílica. E é certo que, posteriormente, houve muito movimento de pessoas que iam e vinham, sobretudo de sul para norte, por mar, tentando atravessar para chegar à Europa. Tantas pessoas morrem, portanto, embora nas costas argelinas quase que não se ouve falar disso. De vez em quando ouve-se, todavia, dizer que na costa ocidental ou oriental algum barco virou. Aqui na Argélia, existe um fenômeno chamado ‘harraga’. São pessoas que utilizam pequenos barcos para tentar emigrar. Mas isto é severamente punido pela lei argelina. É uma forma de desencorajar os jovens que desejam migrar ilegalmente. Este monumento nos recorda a cada instante que é preciso fazer algo por uma vida melhor, por um mundo melhor, um mundo onde todos se possam sentir como cidadãos. Por ocasião da visita de Leão XIV esse túmulo foi renovado, caiado, para que ficasse com melhor aspecto. A inscrição que lá está é a mesma que está lá desde os tempos de Leão XIII, porque a basílica foi estabelecida como basílica durante o pontificado de Leão XIII. Foi Leão XIII quem nomeou o Cardeal Charles Lavigerie.

 - Uma última questão, P. Guy. Antes da entrevista referiu-se a cabo-verdianos, entre os emigrantes ou estudantes que auxiliais. Fale-nos um pouco sobre a presença de pessoas de países africanos de língua oficial portuguesa aqui e de que países são provenientes exatamente?

Ah, sim, há estudantes de língua portuguesa aqui na Argélia, principalmente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. São enviados pelos seus governos e são bolseiros. Quando chegam, a primeira coisa que fazem é aprender francês. Depois, continuam os seus estudos em diferentes lugares. E nos últimos anos, não sei qual é a quota que os países lusófonos têm para enviar estudantes, mas há cerca de dez anos, havia muitos, muitos, muitos falantes de português, muitos cabo-verdianos, muitos angolanos, muitos moçambicanos e muitos guineenses. Eram muitos. Portanto, havia estes quatro países juntos, o que significava centenas de estudantes aqui na Argélia, em diferentes províncias, em diferentes cidades, a encontrarem-se, a deslocarem-se muito juntos, e podia-se reconhecê-los pelos seus sotaques e, bem, também pela sua alegria de viver.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2026-06/p-guy-sawadogo-argelia.html

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Moçambique

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Estamos estudando a história da África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Nos textos passados conhecemos um pouco da história, da organização e da atual situação de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Hoje nos debruçamos sobre mais um país da África Portuguesa, Moçambique.

Rica tradição de povos e culturas

Situado no sudeste da África, Moçambique é um país que possui uma rica história que remonta a muitos séculos. Desde o período pré-colonial, passando pela luta pela independência até chegar na era pós-colonial, Moçambique passou por diversas mudanças e transformações políticas, sociais e culturais que influenciaram profundamente sua história.

O nome Moçambique, primeiramente utilizado para a Ilha de Moçambique, primeira capital da colônia seria derivado do nome de um comerciante árabe que ali viveu, Musa Al Bik, Mossa Al Bique ou Ben Mussa Mbiki.

Moçambique era habitado por várias tribos e reinos ligados ao povo Bantu nos séculos III a V da Era Crista, quando parte considerável da Europa e do norte da África faziam parte do Império Romano. Foram eles que introduziram a agricultura e o sedentarismo, substituindo comunidades nômades.

Depois disso, veio a influência Suíli-Árabe a partir do século X. A costa marítima da região foi dominada por entrepostos comerciais árabes, com a ilha de Moçambique tornando-se um centro comercial.

Moçambique era habitado então por várias tribos e reinos, incluindo o Império Monomotapa, que governou a região entre os séculos XV e XVII. O império ficou famoso por causa de suas minas de ouro que atraíam comerciantes árabes e portugueses para a região.

Durante esse período, a região também era conhecida por ser um importante centro de comércio de escravos, com muitos africanos sendo capturados e vendidos como escravos para outras partes do mundo. No entanto, também existiam rotas comerciais prósperas que ligavam Moçambique a outros países africanos, como Zimbábue, Malawi e Tanzânia.

Foi aí que em 1498, chegaram os portugueses, liderados pelo navegador Vasco da Gama que buscava o caminho das Índias. A presença portuguesa concentrou-se inicialmente na costa, com o nome do país.

A partir daí, começou o processo de colonização do país, que durou até a independência em 1975. Durante o período colonial, os portugueses exploraram os recursos naturais de Moçambique e utilizaram a mão-de-obra africana para trabalhar nas plantações e minas.

Portugal, porém, somente consolidou o controle sobre todo o território no final do século XIX, criando fronteiras e administrando através de companhias concessionárias com trabalho forçado.

O processo de colonização não foi aceito livremente, acontecendo resistência indígena, com líderes como Ngungunhana, até o início do século XX. 

O processo de independência

A colonização provocou muitos malefícios, trazendo conflitos e tensões, com a população nativa sendo reprimida e discriminada pelos colonizadores. Houve várias revoltas e insurreições contra o domínio português, como a Guerra de Libertação, que durou de 1964 a 1974 e culminou na independência de Moçambique.

A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) iniciou a luta armada em 25 de setembro de 1964 e a independência foi proclamada onde anos depois em 25 de junho de 1975, Samora Machel o líder da luta contra Portugal tornou-se o primeiro presidente.

Aqueles que haviam atuado na luta pela independência não se entendiam explodindo então no país a Guerra Civil que durou de 1977 a 1992. A FRELIMO enfrentou a RENAMO numa guerra civil que causou grande sofrimento para a população, contando também com o apoio de potências estrangeiras de um lado e de outro.

Na atualidade

Moçambique continua enfrentando significativos desafios na reconstrução do país e na consolidação da democracia. Sua economia continua sendo frágil e a infraestrutura limitada e os serviços básicos bastante limitados.

A capital e maior cidade do país, Maputo, chamada de Lourenço Marques, durante o domínio português concentra uma grande população.

Nos últimos anos, Moçambique tem registrado um crescimento econômico significativo, impulsionado principalmente pelo setor de mineração e gás natural. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos em áreas como pobreza, corrupção e desigualdade social.

A história de Moçambique é rica e complexa, refletindo as influências de várias culturas e povos ao longo dos séculos. Desde o período pré-colonial até os dias atuais, Moçambique passou por muitas mudanças e transformações, enfrentando desafios significativos ao longo do caminho. No entanto, a resiliência e a força do povo moçambicano permitiram que o país se recuperasse e prosperasse, abrindo novas oportunidades para o futuro.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mocambique.html

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Angola

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Começamos a estudar a África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Como bem sabemos, o atual território africano foi retalhado numa série de colônias propriedade de várias nações europeias, e o país lusitano foi aquele que consolidou um dos maiores impérios.

O nome Angola deriva da palavra banto n’gola, título utilizado pelos reis do antigo Reino de Ndongo, no século XVI, localizado na atual região do país. Os portugueses adaptaram o título do monarca, como o ‘Angola Kiluange’, para ‘Angola’ ao se referirem às terras de Ndongo. Ngola era um termo banto que significa ‘força’ ou ‘rei/poderoso’ na língua quimbundo.

Da ocupação à colonização portuguesa

Localizada na costa ocidental da África, Angola conta com uma rica e diversificada história que remonta aos tempos antigos. Sua história é marcada por períodos de colonização, em que fez parte do Império Colonial Português, conflitos internos e lutas pela independência, seguidos por anos de instabilidade política e guerra civil.

Os primeiros habitantes conhecidos da região eram os San, grupo de caçadores-coletores que deixaram evidências de sua presença na forma de pinturas rupestres em várias partes do país. Esses grupos foram posteriormente deslocados pelos povos bantos, que chegaram à região por volta do século III a.C. formando diversos reinos ao longo da costa e no interior.

Durante a Idade Média europeia, o Reino do Congo se tornou uma importante potência na região, formando um dos grandes reinos africanos, estendendo-se seu domínio numa grande parte do que é hoje Angola, bem como em partes da atual República Democrática do Congo e Gabão. O comércio de marfim e escravos era importante para a economia do reino e a religião cristã foi introduzida pelos missionários portugueses no final do século XV.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Congo, marcando o início do contato português com os povos da região. Em 1575, os portugueses fundaram a cidade de Luanda, que se tornou a capital da colônia de Angola. Durante o período colonial, os portugueses estabeleceram plantações de café, algodão e sisal, bem como exploraram minas de diamantes e cobre.

Durante o século XIX, Angola tristemente se tornou um importante centro de comércio de escravos, com milhares de pessoas sendo capturadas e levadas para trabalhar nas plantações das Américas. A abolição da escravatura em 1865, teve um impacto significativo na economia de Angola, levando à mudança para o comércio de matérias-primas.

Na década de 1950, surgiram os primeiros movimentos nacionalistas em Angola, com o objetivo de conquistar a independência em relação a Portugal. O Movimento Popular de Libertação de Angola (conhecido pela sigla MPLA) foi fundado em 1956, seguido pelo Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) em 1961 e pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) em 1966.

A luta pela independência se intensificou durante a década de 1960, com os movimentos nacionalistas lutando contra as forças portuguesas. A guerra se estendeu até a década de 1970, quando a Revolução dos Cravos em Portugal levou à retirada das forças portuguesas de Angola. Em novembro de 1975, o MPLA, que contava com o apoio da União Soviética e Cuba declarou a independência de Angola.

A independência não trouxe a desejada paz para Angola. A luta pelo poder entre o MPLA e a UNITA provocou uma guerra civil que durou quase 30 anos. Ainda hoje existem milhões de minas terrestres plantadas em diversas regiões do país e essa continuam fazendo suas vítimas.

Angola hoje

O português é a língua oficial de Angola e 60% dos moradores declararam ser sua língua materna, embora estimativas indiquem que 70% da população fale uma das línguas nativas como primeira ou segunda língua. Além do português, Angola abriga cerca de onze grupos linguísticos principais, que podem ser subdivididos em cerca de noventa dialetos.

Alguns dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade são angolanos. Sua literatura costuma representar com realismo a dor e o preconceito sofridos pelo povo do país. Entre os principais nomes da literatura angolana estão José Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa e Pepetela.

O cenário de Angola hoje é marcada por um contexto socioeconómico desafiador, caracterizado por elevada pobreza, desigualdade e insegurança alimentar, afetando grande parte da população. Apesar de ser um país rico em recursos como petróleo e diamantes, os desafios incluem a necessidade de muitas melhorias na saúde, educação e infraestrutura, além do combate à corrupção. Apesar dos esforços de reconstrução, a infraestrutura ainda enfrenta dificuldades em todo o país.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-angola.html