sexta-feira, 2 de outubro de 2026

100 anos do Altar do Sagrado Coração de Jesus do Mosteiro de São Bento de São Paulo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Joao Baptista Barbosa Neto, OSB


O Mosteiro de São Bento de São Paulo, com mais de 400 anos bem no centro da cidade, guarda histórias bem curiosas. São poucos os fiéis que, embora admirem o tesouro da arte beuronense, conhecem as histórias do cenóbio. O altar do Sagrado Coração de Jesus, que fica bem à porta que dá acesso a clausura dos monges, por exemplo, é um ex-voto.

A atual igreja foi construída a partir de 1910, com a demolição do prédio anterior. Terminou dois anos depois, podendo verificar na atual fachada, o ano de 1912. A decoração interna, no entanto, durou mais 10 anos, quando foi consagrada a basílica em 1922, pelo legado papal, o cardeal beneditino, Dom Aidano Gasquet. Ocorreu que pouco tempo depois, ainda com o cheiro de tinta fresca, explodiu a Revolução Tenentista, e a igreja foi o primeiro edifício atingido por balas de canhão na cidade.

Foram 23 dias de terror, entre 5 e 28 de junho. As famílias abastadas, com suas fazendas de café no interior, deixaram a cidade. Os pobres foram os que mais sofreram. Não tendo para onde fugir, muitos tiveram que permanecer em casa, numa situação de guerra urbana. Os paralelepípedos das ruas foram arrancados para se fazerem trincheiras e barricadas. Quem saísse às ruas poderia ser confundido e por isso atingido por balas. E muitos o foram.

Atendendo as necessidades da população de então, o abade e os monges fizeram de tudo para ajudar, transformando o mosteiro em um hospital improvisado para acolher os que sofriam. O abade Dom Miguel Kruse enviou monges a alguns bairros mais afastados para atender a população mais necessitada, distribuindo remédios e comida. Ao menos 6.000 pessoas foram atendidas.

Foi uma verdadeira guerra com mais de 500 mortos, 5.000 feridos e 1.182 prédios destruídos. Sinais deste período podem ser vistos ainda hoje no mosteiro. Quem vem em direção ao Largo de São Bento pelo Viaduto Santa Ifigênia, poderá se deparar com a parede lateral do Colégio de São Bento com marcas de projéteis.

Após o conflito, o então abade mandou erguer um belíssimo altar em honra ao Sagrado Coração de Jesus como agradecimento a Deus por ter protegido o mosteiro, os monges e quem no prédio se abrigou, durante aqueles fatídicos dias. Ao lado da imagem do Sagrado Coração de Jesus, Santa Mactildes (monja beneditina) e Santa Margarida Maria de Alacoque (monja da ordem das visitandinas). Estas duas santas eram devotas do Sagrado Coração. A primeira iniciou a devoção ainda na Idade Média; a segunda teve a graça da visão no século XVI.



A Revolução Tenentista tem esse nome pelo fato de a maioria dos soldados revoltosos ostentarem a patente de tenente. Dentre algumas de suas exigências estavam a renúncia do Presidente da República, o mineiro Artur Bernardes (1875-1955), a formação de um governo provisório e o voto secreto.

Há exatos 100 anos, a ser comemorado em 05 de outubro de 2026, o Mosteiro de São Bento terá um dia todo dedicado ao Coração de Jesus, com uma missa solene, às 7h e consagração do mosteiro e de seus monges ao Sagrado Coração de Jesus, às 17h, durante o Ofício de Vésperas.

 


 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O anel de noivado da Virgem Maria

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento


No ritual católico atual do matrimônio, estão previstas a bênção e a entrega das alianças, popularmente chamadas de ‘troca de alianças’, no sentido de um presente oferecido mutuamente pelos noivos.

Historicamente, o uso de anéis em casamentos remonta ao Antigo Egito. Seu simbolismo, porém, é muito variado e específico. No judaísmo, foi no período medieval que se determinou o uso de alianças lisas, de ouro ou prata, sem incrustações de pedras, ranhuras ou formatos incomuns.

Essa informação poderia colocar em dúvida a autenticidade de uma relíquia conhecida como Santo Anello, o anel que, segundo a tradição, a Santíssima Virgem teria recebido de São José por ocasião de seu casamento. Contudo, não existe um relato documental único e integral sobre a maneira como eram realizados os casamentos judaicos. As Sagradas Escrituras não descrevem esse ritual, embora seus elementos jurídicos, com algumas variações, já existissem.

A arqueologia encontrou inúmeros anéis, confeccionados com materiais diversos, na Terra Santa. Não se sabe, contudo, para quais finalidades eram utilizados. Sabe-se que os rituais ou contratos matrimoniais não se limitavam a uma cerimônia realizada em um único momento.

Ainda hoje, no âmbito da Igreja, muitas pessoas se referem ao casamento apenas como ‘bênção’. Em razão de uma formação catequética insuficiente, algumas desconhecem que, além de sacramento, o matrimônio também possui natureza contratual, pois não é recebido individualmente. Além disso, o casamento existe em sua forma natural entre os não batizados. Para os batizados, porém, Cristo o elevou à dignidade de sacramento.

Na Antiga Aliança, o casamento ainda não havia sido elevado à condição sacramental, mas já possuía elementos religiosos. A cerimônia também compreendia etapas legais que precisavam ser cumpridas.

O Santo Anello encontra-se na Itália. Estudos indicam que sua origem pode ser coerente com a Terra Santa do século I. Feito de calcedônia, o objeto, no que se refere à tradição judaica, assemelha-se à chamada ‘moeda de aquisição’, que o noivo deveria oferecer à noiva. Na forma original do ritual, utilizava-se uma moeda, posteriormente substituída por um presente de valor.

Muitos costumes antigos foram codificados tardiamente pelos rabinos. Por isso, práticas anteriormente permitidas passaram a ser proibidas pelos costumes posteriores.

A relíquia está preservada em uma capela da Catedral de San Lorenzo, em Perugia, na Itália. Para abrir o relicário, guardado em um cofre, são necessárias 14 chaves.

‘A relíquia possui uma longa história. Em 985, Ranieri, um ourives de Chiusi, teria adquirido o anel de um comerciante judeu. Ele permaneceu em Chiusi até 1473. Naquele ano, frei Winter, de Mainz, roubou-o com a intenção de levá-lo para seu país. Durante o percurso, porém, foi impedido de prosseguir por causa de um nevoeiro considerado prodigioso, em Perugia, e decidiu deixar o Anel Sagrado naquele local. Após o roubo, teve início um conflito promovido por Chiusi, cujo exército era comandado por Anton Felice Dei.

Além do anel conservado em Perugia, existem outros dois anéis atribuídos a São José na Europa : o anel de noivado, conservado na Catedral de Notre-Dame, em Paris, e o anel ‘diário’, guardado na Igreja de São José, em Messina.

O anel de Messina chegou às margens do estreito no início do século XVI, quando o nobre Dom Filippo La Rocca o recebeu como presente do arcebispo de Barcelona. A relíquia permaneceu por quase um século no Palácio La Rocca, em Messina. Posteriormente, em 9 de abril de 1618, foi doada por Dom Cristoforo La Rocca à Igreja da Confraria dos Carpinteiros.

Apesar dos efeitos do tempo, a importante relíquia permanece conservada na Igreja de São José, em Messina. Durante muitos anos, era conduzida em procissão no dia 19 de março, juntamente com a imagem de prata do santo. Embora pouco conhecido, o anel confirma a importância do patrimônio histórico-religioso da cidade de Messina, que deve ser valorizado e promovido.

O historiador e escritor de Chiusi Fulvio Barni também relata : Foi esculpido em um pedaço de ônix. Seu trabalho é bastante modesto e, portanto, não podemos chamá-lo de uma verdadeira joia, mas, na realidade, para os fiéis, é um tesouro de valor inestimável. Refiro-me ao que a lenda e a tradição acreditam ser o anel com o qual Maria de Nazaré, mãe de Jesus, se casou com José.

Conservado em Chiusi por quase cinco séculos, o anel encontra-se atualmente na Catedral de San Lorenzo, em Perugia, na Itália. A primeira menção oficial à relíquia está registrada em um documento datado de 25 de maio de 1474, elaborado pelo então chanceler de Chiusi, Leonetto Cavallini. A ausência de registros anteriores provavelmente se deve à inexistência, nos arquivos históricos municipais, de seções documentais anteriores a 1400.

A relíquia atraía grandes multidões de peregrinos, proporcionando considerável retorno econômico à cidade. Talvez essa tenha sido a verdadeira motivação para o roubo. O anel era exposto à veneração dos fiéis três vezes ao ano : na segunda-feira de Pentecostes, também conhecida como Festa da Páscoa Rosada; em 3 de julho, festa da padroeira Santa Mustiola; e em 3 de agosto, para os peregrinos de toda a Itália que retornavam de Assis, onde buscavam obter a indulgência conhecida como Perdão de Assis.

Raramente, e somente em circunstâncias excepcionais, a relíquia era exibida fora dessas datas para pessoas de grande importância. Entre as personalidades dos séculos passados, destacam-se o imperador Carlos IV da Boêmia, em 17 de abril de 1355; o papa Eugênio IV, em 1443; os cardeais Orsini e Dei Conti, em 1436; o capitão Francesco di Niccolò Piccinino, comandante dos homens de armas de Siena, em 15 de outubro de 1431; a duquesa de Camerino; e outras pessoas ilustres.

O Anel, entretanto, nunca havia saído dos muros de Chiusi. O duque Filippo Maria Visconti, que sofria de uma doença ocular, pediu que a relíquia fosse enviada a Milão. Seu pedido foi recusado, apesar das orações, das súplicas e das determinações do papa Eugênio IV e da Signoria de Siena. Acreditava-se, em uma combinação de fé e superstição, que o objeto possuía propriedades milagrosas para a cura de doenças oculares.

Fazio degli Uberti também menciona essa crença em sua obra Dittamondo :

Esse caminho é muito conhecido : bondade do Anel virtuoso e santo, que é tão bom para preservar a visão.

O relato apresentado a seguir é um resumo do texto do padre Giovanni Crisostomo Trombelli, que encontrou um rascunho da narrativa sobre a chegada do Anel da Virgem Maria a Chiusi. O documento foi localizado em um manuscrito do século XI, preservado na Biblioteca Angélica, em Roma. Em 1765, com a autorização de seus superiores, o sacerdote transcreveu o texto e o publicou em sua obra Mariae sanctissimae vita ac gesta.

Hugo da Toscana, duque desde 961, casou-se com Judite, sobrinha do imperador Oto III. Ambos apreciavam joias e pedras preciosas. Naquela época, vivia em Chiusi um ourives experiente chamado Ainerio, homem de confiança da nobreza para a realização de compras importantes.

Em 985, Ainerio recebeu a notícia de que um judeu romano, retornando do Oriente, havia trazido consigo ouro, joias e pedras preciosas. Imediatamente, informou à condessa aquilo que soubera. Ela lhe forneceu dinheiro e o enviou a Roma para que adquirisse bens de qualidade.

O ourives partiu e, ao chegar a Roma, realizou tantas compras que gastou todo o dinheiro que lhe havia sido confiado. Depois de concluído o negócio, o comerciante judeu quis presenteá-lo, como recompensa pelas aquisições, com um anel de calcedônia de fabricação modesta.

Ainerio olhou para o objeto com desdém e perguntou se o comerciante pretendia zombar dele. O judeu respondeu :

Não o despreze, pois não há dinheiro no mundo que o compre. Este é o anel com o qual José se casou com Maria de Nazaré. Foi-me transmitido por meus antepassados e, embora não sigamos o cristianismo, sempre o conservamos com devoção. Há algum tempo desejo oferecê-lo aos cristãos. Quem melhor do que você para conservá-lo com honra? Coloque-o em um lugar digno e dedique-se a ele.

Ainerio recebeu o anel e o guardou em sua bolsa, sem dar crédito às palavras do comerciante. Ao retornar a Chiusi, colocou-o em uma caixa, junto a outros objetos de pouco valor, e se esqueceu dele.

Alguns anos depois, o único filho de Ainerio faleceu. Desolado e profundamente entristecido, o pai mandou levar o corpo do menino à igreja para a celebração de um funeral solene. Enquanto a multidão de parentes e amigos acompanhava silenciosamente a cerimônia fúnebre, teria ocorrido um milagre : o menino abriu os olhos e sentou-se sobre o caixão.

Ele contou que havia chegado ao limiar do Céu e visto a Virgem Maria aproximar-se dele e dizer :

Volte para seu pai e diga-lhe que aquilo que lhe foi dito na Terra também foi confirmado no Céu. Ele guarda aquilo que um amigo lhe deu como se não tivesse valor algum.

O menino explicou que a mensagem se referia ao anel da Virgem Maria. Ao ouvir essas palavras, o pai, atônito, lembrou-se do presente que havia esquecido.

O filho voltou a falar :

O bem-aventurado Arcanjo Miguel e o papa São Calisto reclamaram dos votos que você fez e não cumpriu. Você prometeu restaurar a Igreja de São Calisto e ir rezar no Santuário de São Miguel Arcanjo, no Gargano. Por isso, Cristo colocou dois fios de cabelo em meu corpo : um da barba de São Calisto, enrolado em meu braço, e outro da Mãe de Deus, em meu pescoço.

Após mostrar aos presentes aquilo que acabara de mencionar, o menino pegou uma caixa que havia sido colocada na cabeceira do caixão, abriu-a, retirou o anel e declarou : Agora voltarei para o lugar de onde fui enviado, mas, antes, retirarei os cabelos de meu corpo, para que sejam guardados com grande veneração, juntamente com o anel, na Igreja da Virgem Santa Mustiola.

Antes de morrer, o menino também teria indicado o lugar onde desejava ser sepultado : Cavem em um lugar onde pendem imagens de metal, encontrem um sarcófago de mármore e sepultem-me ali.

Alguns dias depois, o anel e os dois fios de cabelo foram expostos à veneração dos fiéis. A condessa Gualdrada também quis contemplá-los e, de maneira considerada indigna, pegou o anel e o colocou no dedo, que teria ficado imediatamente paralisado.

Uma compreensão mais literal do simbolismo da relíquia pode ser encontrada no seguinte versículo do Cântico dos Cânticos : ‘Grave o meu nome no seu coração e no anel que está no seu dedo’ (Ct 8,6).

Desse modo, o significado do anel de sinete compreendia uma marca interna e outra externa. A marca externa servia como testemunho público de um amor, enquanto a interna representava a realidade mais profunda desse mesmo amor.

Ainda que não seja possível comprovar a autenticidade da relíquia, ela nos recorda o amor profundo e verdadeiro entre São José e Nossa Senhora. Por meio de Jesus, esse amor se abre e se estende a todos nós.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-anel-de-noivado-da-virgem-maria.html


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Instintos sonoros

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘A vida é soberana. As teorias e ideias estão sob a força que a vida exerce sobre tudo e, muitas vezes, são quebradas, arrebentadas quando não são revisadas e ressignificadas. Assim também ocorre com a musicalidade: está imersa nas leis da vida e do universo.

O corpo humano é palco onde todas as questões psíquicas são encenadas, dramatizadas e expressas. A musicalidade não existe sem o corpo, por isso, a música sempre teve como base a corporeidade que o humano comporta. Pode-se até mesmo dizer que música é corporeidade.

O próprio Evangelho apresenta um sentido de corporeidade ao afirmar que ‘a fé sem obras é morta’ (Tg 2,17) e que ‘conhece-se uma árvore pelos frutos que ela dá’ (Mt 7,20). A mensagem é clara : não se pode permanecer no mundo das ideias sem alcançar o mundo das atitudes.

O canto gregoriano é uma imensa expressão da corporeidade católica e base das mais múltiplas formas musicais. A herança dele está incorporada nos instintos musicais por conta de sua estrutura tão refinada entre palavra e melodia, o que traz uma constância entre ideia e ação. Não há canto sem o corpo e, assim, a oração se torna instinto de vida no corpo e na alma. Infelizmente, o canto gregoriano tem sofrido muitas deformações devido a um modismo que, como outros, logo passa porque a verdade das estruturas é permanente.

O canto gregoriano soube conduzir os mais nobres sentimentos entre o humano e o divino e sempre faz o coração humano retornar aos seus instintos de harmonia, paz e concórdia. É um canto que precisa do corpo em sua totalidade e do pleno desenvolvimento dos instintos musicais.

São Gregório Magno soube fazer do canto a maior arte e ciência na escola da oração.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/instintos-sonoros.html


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

As grandes civilizações africanas - O Mundo Islâmico e a África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

  

‘Originalmente existiram na África vários povos que formaram reinos ou confederação de tribos bem avançadas do ponto de vista econômico, militar e organizadas socialmente. No norte do continente existiram grandes civilizações com a que se formou durante milênios no Egito que se desenvolveu ao longo do Rio Nilo e a de Cartago que chegou a enfrentar a grande potência romana. No sul do Deserto do Saara existiram grandes civilizações, mas a história também mudou a partir dos séculos XV e XVI com a chegada das nações europeias e depois, a partir do século XIX, com a formação dos grandes impérios coloniais.

Diversas áreas do continente africano também passaram por profundas mudanças, especialmente a partir do século VII ao serem assimiladas e integradas ao Império Muçulmano ao final da primeira onda de conquistas. Egito e África do Norte foram as regiões que mais sofreram modificações em sua organização graças a esse processo de assimilação.

O Egito Islâmico e a expansão muçulmana

O Egito islâmico se tornou uma importante província muçulmana entre o século VII e o final do século XI mesmo que afastada do califado, sendo transformada no centro do potente Império dos Fatímidas, originalmente simples celeiro, posteriormente principal entreposto comercial entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico. Em várias ocasiões o Egito exerceu grande influência no destino de outras partes da África; sendo o ponto de partida da conquista árabe no século VII. Essa primeira onda islamizou a África do Norte e a do século XI, levou ao processo completo de arabização.

Foi a partir do Egito que os beduínos árabes iniciaram um movimento rumo ao Sul, penetrando em outras regiões, levando ao declínio alguns reinos cristãos existentes na antiga Núbia e Sudão, próximos ao Rio Nilo.

O Egito durante este período deixou de ser uma terra cristã e a maioria da sua população se converteu ao islã, mas algumas igrejas monofisistas da Núbia e da Etiópia continuaram resistindo ao avanço do islã.

Ao longo dos séculos XII e XIII, o Egito se consolidou como uma potência islâmica fazendo frente aos cruzados ocidentais e aos invasores mongóis do período medieval.

Dificuldades no meio do caminho

Na região do Magreb, os conquistadores árabes enfrentaram grande resistência dos berberes e somente ao final do século VII lograram submeter as principais regiões.

A maioria dos berberes converteu­‑se então ao islã e, malgrado o ressentimento que lhes inspirava a dominação política árabe, se tornaram­ partidários da nova fé, contribuindo para propagá­‑la do outro lado do estreito de Gibraltar, na Península Ibérica e além do Saara.

Esses guerreiros berberes formavam grande parte dos exércitos muçulmanos que conquistaram a Espanha, que arrancaram a Sicília dos bizantinos e conduziram vitoriosas campanhas no Egito e na Síria.

Desse modo, a África do Norte passou a ocupar uma posição­‑chave no mundo muçulmano, política e economicamente.

Sob o domínio muçulmano, a região do norte da África esteve novamente ligada a uma economia de importância mundial, desempenhando papel de primeiro plano, passando por um novo crescimento demográfico, urbanização e retomada da prosperidade econômica e social.

Isso explica o fato do Egito, mesmo tendo decaído de importância, ainda é um dos principais países do mundo árabe, tendo feito frente à expansão de Israel durante várias décadas do século XX e XXI.

Expansão religiosa e militar

Deve-se aos berberes, depois de aderirem a algumas seitas do islã, a introdução da religião muçulmana ao Sul do Saara, pois as caravanas de comerciantes berberes que atravessavam o grande deserto em direção às regiões mais férteis da África não transportavam somente mercadorias, mas ajudavam a propagar as novas concepções religiosas e culturais.

Esta expansão rumo ao sul trouxe uma nova dimensão econômica para a África do Norte. O ouro retirado do Sudão afluía para a costa do Mar Mediterrâneo em quantidades cada vez maiores, provocando a ascensão econômica de numerosas dinastias muçulmanas reinantes no Oeste.

Além disso, a exploração das minas de sal do Saara intensificou­‑se, como resposta à crescente demanda da África subsaariana por esta indispensável substância mineral.  Essas trocas com a África subsaariana constituíram, durante vários séculos um ramo de um frutuoso comércio.

Nas últimas décadas do século XX e XXI a África continua a sofrer com a ação de grupos islâmicos radicais como o Boko Haran que agem em diversos países tanto do norte como do sul do Saara, levando imenso sofrimento à população, especialmente das comunidades cristãs.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mundo-islamico.html

 

domingo, 27 de setembro de 2026

São Vicente de Paulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria


 Sacerdote e fundador dos lazaristas (1581–1660)


‘‘Não conseguir ver uma pessoa sofrer sem que se sofra com ela; vê-la chorar sem chorar com ela… É um ato do amor que faz compenetrar os corações um dentro do outro e sentir aquilo que o outro sente, bem diferente do agir dos homens que não experimentam sentimento algum ao ver o tormento dos aflitos e o sofrimento dos pobres. (…) Ser cristão e ver o próprio irmão sofrer sem sofrer com ele, sem estar doente com ele, significa não ter piedade, ser cristão apenas de nome’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud LUBICH, 1994, p. 92–93).

O carisma deste gigante da caridade é o amor concreto que enfrenta os problemas e os resolve, não por espírito de filantropia, mas porque vê em quem sofre o próprio Jesus que lhe repete : ‘Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber…’ (Mateus 25,31ss).

Vicente nasceu no dia 24 de abril do ano de 1581, perto de Pouy, na Gasconha, de uma família de pobres camponeses. Embora dotado de uma grande inteligência, até os 15 anos não fez outra coisa senão conduzir à pastagem as poucas ovelhas e os poucos porquinhos para ajudar a família a ir levando a vida.

Um advogado da região de Dax, impressionado com o talento do jovem, falou com os pais, dizendo-lhes que era um pecado não fazê-lo estudar e ofereceu-se para pagar-lhe as despesas. Uma providência inesperada e uma grande esperança para o futuro da família. Vicente, por sua vez, não esperava outra coisa e lançou-se sobre os livros com todo o empenho. Naqueles tempos e naquela região, estudar significava encaminhar-se para a carreira eclesiástica, na esperança de agarrar-se o mais rápido possível em uma boa renda. Vicente estudou durante três anos no colégio dos padres franciscanos de Dax; depois tornou-se clérigo e, com a ajuda de seu patrono e com a venda de um par de bois da parte do pai, inscreveu-se na universidade de Toulouse. Aos 19 anos, conseguiu fazer-se ordenar sacerdote pelo bispo de Périgueux e continuou os estudos até tornar-se bacharel em teologia. Esperava obter um bom ganho tornando-se pároco, mas não o conseguiu. No entretempo, perdeu o pai e, para ajudar a família, abriu uma escola particular sem grande sucesso; ao contrário, sobrecarregou-se de dívidas. Nesse período, inseriu-se a história, por ele mesmo narrada : enquanto viajava de Marseille a Narbonne, foi aprisionado por piratas turcos e foi vendido como escravo em Tunis, tornando-se servo de um frade que por amor ao dinheiro se fez muçulmano. Vicente o convenceu a voltar atrás e juntos fugiram em uma embarcação leve para a França. Em Avignon, o frade fez sua abjuração nas mãos do delegado pontifício, Pedro Montório, e os três partiram para Roma.

Na realidade, o bravo clérigo, segundo alguns, havia administrado de modo falimentar um pensionato que lhe foi confiado em Toulouse e havia fugido carregado de dívidas, dilapidando a herança de uma rica senhora e vendendo um cavalo que tomou como empréstimo. A comovente história africana, sempre de acordo com esta versão, servia para fazer-lhe perdoar os débitos e permitir-lhe, após ter ficado dois anos escondido, tentar um novo trabalho.

Como a carta em que Vicente narra essa aventura é autógrafa, outros historiadores autorizados consideram-na verdadeira. Certamente, até este momento, Vicente não era uma relíquia de santo e o demonstra o fato de que, após um ano de permanência em Roma, voltou a Paris em busca de fortuna.

Com efeito, conseguiu alistar-se entre os capelães da corte, porém com um estipêndio de fome, que apenas lhe permitia sobreviver sem poder ajudar sua pobre mãe, que se tornara viúva. Finalmente, em 1612, foi nomeado pároco nas proximidades de Paris.

Contava já com 31 anos de idade e, impressionado com a vida de oração de alguns de seus paroquianos, deixou de lado as preocupações materiais e de carreira, e começou a ensinar o catecismo, a visitar os doentes e a ajudar os pobres. O contato com a vida real reabriu-lhe o coração à oração e à meditação da palavra de Deus. Se os paroquianos foram seus primeiros mestres com sua vida, o instrumento de que a providência se serviu para operar nele uma profunda transformação foi Pedro de Bérulle que, o acolhendo em seu Oratório, o formou em uma profunda espiritualidade.

Estava dando os primeiros passos nesta nova vida, quando de Bérulle o aconselhou a aceitar o encargo de preceptor junto à família de Filipe Emanuel dei Gondi, general das galeras régias. Vicente aceitou e foram quatro anos difíceis, tendo de lutar duramente para perseverar em uma escolha de vida verdadeiramente evangélica. Abriam-se diante dele dois caminhos : o da carreira, com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer seu pé-de-meia, e a do serviço aos pobres, com uma vida cada vez mais semelhante à do Mestre.

Vivendo no castelo de seus senhores, foi-lhe possível verificar com os próprios olhos que havia na França dois estilos de vida : o dos ricos, que gozavam neste mundo dos bens da terra e esperavam gozar no outro os bens celestes; e o dos pobres que, depois de uma vida infeliz neste vale de lágrimas, imaginavam encontrar interceptada também a porta do céu, devido à sua ignorância e aos vícios em que muitas vezes a miséria os afundava. A senhora Gondi também compartilhava as preocupações do seu capelão e ofereceu uma soma de dinheiro àqueles religiosos que, a cada cinco anos, quisessem pregar uma missão às massas camponesas de suas terras. Ninguém se apresentou e Vicente, assustado com uma tarefa tão desmedida, abandonou o castelo sem tampouco avisar os patrões.

Os oratorianos de Bérulle, que alimentavam uma grande confiança nesse padre inquieto, ofereceram-lhe a possibilidade de exercer o seu ministério em uma nova paróquia do campo em Châtillon-les-Dombes. Aí começou a revelar-se o carisma vicentino. Ele próprio gostava de contar este humilde começo.

Certo domingo, enquanto me vestia para celebrar a missa, vieram me dizer que em uma casa isolada das outras, a um quarto de légua de lá, estavam todos doentes, e em estado de necessidade indescritível. Fui com isso dolorosamente atingido e na pregação não deixei de recomendá-los com afeto… Depois das vésperas, tomei comigo um bom homem, burguês da cidade, e nos pusemos juntos a caminho para ir lá. Pela estrada, encontramos mulheres que nos ultrapassavam, outras que voltavam atrás… Havia tantas que me faziam pensar em uma procissão…. (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541) Vicente fez então esta consideração : ‘Hoje estes pobrezinhos terão mais que o necessário; dentro de alguns dias, estarão novamente em necessidade!’. O que fazer? ‘Eu propus’ – continua o santo – ‘a todas aquelas boas pessoas, que a caridade havia inspirado, que cada qual se encarregasse de um dia, para trabalhar pela vida também de quem isso viesse acontecer depois’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541).

A caridade organizada! Caridade, porque tudo deve partir daquele amor que faz ver em todo pobre a presença viva de Jesus; organizada, porque os cristãos são tais somente quando se moverem conscientes de formar um só corpo, como na primeira comunidade de Jerusalém. E se deu conta de que, para alcançar o escopo, não era preciso nem mesmo serem ricos, bastava serem frequentemente solidários.

Seu apelo foi imediatamente acolhido e surgiu o primeiro grupo de pessoas dispostas a servir os necessitados. Ele os chamou Caridade e deu às associadas o nome de ‘servas dos pobres’. Em três meses, a instituição possuía um regulamento próprio, aprovado pelo bispo, mas, acima de tudo, produzia seus frutos.

A senhora Gondi não se conformava com o fato de haver perdido seu capelão e conseguiu fazê-lo retornar às suas terras. Vicente aceitou, com uma condição : de poder morar não no castelo, mas no campo, e dedicar-se ao cuidado espiritual e material dos camponeses. As condições foram imediatamente aceitas e ele começou a fundar as Caridades em todas as aldeias, agregando a elas não somente mulheres, mas também homens. Era seu desejo que umas e outros trabalhassem juntos, mas devido à mentalidade do tempo não foi possível e somente as Caridades das mulheres permaneceram em ação.

Mais tarde, em 1833, sua ideia seria retomada por Emmanuel Bailly, em Paris, que, juntamente com Frederico Ozanam, faria florescer as Conferências de São Vicente de Paulo.

A miséria, porém, não habitava somente nos campos; tinha a sua sede também na capital e em todas as grandes cidades, onde muitas vezes mostrava uma feição ainda mais dolorosa. Em Paris, em 1629, as servas dos pobres receberam o nome de damas da caridade, permitindo assim que também as mulheres nobres tomassem parte sem provocar reações desproporcionadas em seu ambiente e permitindo à nobreza parisiense colocar à disposição do santo seus recursos materiais que, de outro modo, teriam sido consumidos nas vaidades. Entre as damas, havia personalidades de destaque, como Luísa Maria de Gonzaga, futura rainha da Polônia, e a duquesa de Aiguillon, sobrinha do cardeal Richelieu.

O apostolado de Vicente nas aldeias rurais obteve tal sucesso que outros sacerdotes se uniram a ele, compartilhando seu ideal de serviço aos pobres e, no final, se encontrou com um excelente grupo de missionários rurais. Não somente os senhores Gondi, que proviam a suas necessidades materiais, mas também o arcebispo de Paris deu o seu apoio. Em Paris, eles receberam uma casa, primeiramente no antigo colégio dos Bons-Enfants, na rua Saint Victor, e depois no priorado de São Lázaro. Daí o nome de lazaristas dado a esses missionários.

O grupo dos sacerdotes reunia-se em congregação religiosa sem votos, empenhava-se em não buscar dignidades eclesiásticas e a pregar somente nos campos e nas galeras. No verão, quando os camponeses estão ocupados nos trabalhos dos campos, os missionários dirigiam-se às paróquias da cidade para ensinar o catecismo. Em seguida, Vicente aceitou que seus lazaristas se dedicassem à formação dos sacerdotes, dirigindo seminários e aceitando também missões no exterior, como em Madagascar.

Com as missões dos lazaristas, refloresceu nos campos a vida cristã e muitas jovens, trabalhando nas Caridades, sentiam o chamado a consagrar-se inteiramente ao serviço de Cristo nos pobres. Vicente, sempre atento aos planos de Deus, confiou-as a uma mulher excepcional, Luísa de Marillac, que compartilhava plenamente seu ideal, para que as formasse. O povo chamou estas jovens ‘filhas da caridade’, e Vicente e Marillac não quiseram que se tornassem religiosas com o perigo de perderem o frescor de seu carisma porque, como havia acontecido com as visitandinas de são Francisco de Sales, teriam sido forçadas a fechar-se em um convento.

O santo dizia-lhes : ‘Vós tendes por mosteiro somente as casas dos doentes e a da superiora; por cela, um aposento de aluguel, por capela, a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência… por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia!’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BIBLIOTHECA SANCTORUM, 1990, v. 12, p. 1160). Eram permitidos os votos, mas somente privados e anuais, para que todas desenvolvessem sua missão na mais plena liberdade e por puro amor.

O arcebispo de Paris acompanhava com simpatia a obra apostólica de Vicente e dos seus padres, e desejaria que todas as dioceses da França tivessem padres tão bem formados por doutrina e virtude. Começou por mandar os seus passarem quinze dias entre os lazaristas antes de serem ordenados. Em seguida, muitos retornavam para renovar-se no espírito e surgiram as Conferências da terça-feira. Todas as semanas, naquele dia, muitos sacerdotes se encontravam juntos em uma casa dos missionários e em comunhão fraterna renovavam sua vida à luz do evangelho.

A experiência começou a expandir-se como mancha de óleo e homens eminentes se consideraram honrados por poder tomar parte nela. Entre os primeiros, encontramos Olier, fundador dos sulpicianos, e Brandon e, em seguida, Bossuet e Rancé.

Richelieu, ao tomar conhecimento do espírito que animava esses padres, quis ter os nomes daqueles que ele pudesse promover a bispos. Também o rei pediu a mesma lista a Vicente e quando este foi chamado junto ao rei moribundo ouviu dizer-lhe que, se fosse curado, teria feito de modo que todos os bispos franceses passassem três anos de formação na casa dos lazaristas.

Dos padres aos seminaristas, a passagem foi rápida e muitas dioceses queriam que   seus futuros párocos fossem formados pelos lazaristas. Quando da morte do santo, já dirigiam doze seminários.

Se Vicente possuía um carisma para formar os padres e os futuros bispos, por que não chamá-lo a fazer parte do Conselho de Consciência, onde se decidia exatamente a nomeação dos bispos? A rainha Ana da Áustria impôs a sua escolha e a do príncipe de Condée de outros dois bispos, mas quem presidia o Conselho era o cardeal Mazarino, político requintado e sem escrúpulos.

Suas indicações e as de Vicente eram bem diferentes : o santo preocupava-se em fornecer nomes de ótimos pastores, ao passo que Mazarino queria homens ligados à sua linha política.

Vicente de Paulo não resistiu por muito tempo e sugeriu à rainha que afastasse o cardeal da corte, para o bem da França. Não o dissesse nunca! Quando Mazarino soube disso, agiu com toda a fúria, e a rainha, que comandava apenas por modo de falar, teve de dobrar-se a contragosto à vontade do cardeal e afastar Vicente para sempre do Conselho.

Se algo existia que estava em contradição com a espiritualidade vicentina era o jansenismo. O pensamento reformista de Cornélio Jansênio foi propagado na França por João du Vergier de Hauranne, conhecido como Saint-Ciran, que tinha sido colega e amigo de Vicente em Bérulle. Quando, porém, ele se opôs ao magistério da Igreja, Vicente dissociou-se formalmente e usou de seu prestígio junto aos bispos para impedir que eles o apoiassem.

Dizer o bem que este homem fez à França e à Igreja em geral é impossível. Não houve categoria de miseráveis que ele não socorresse. Falando dos galeotas, dos quais tornou-se capelão, dizia : ‘Quando elogiei sua resignação, quando compartilhei seus sofrimentos… quando beijei seus grilhões… então me ouviram’. A seu serviço, ele colocou seus missionários, as Damas e as Filhas da Caridade.

Ele se empenhou em resgatar os escravos cristãos das mãos dos turcos, levando para a França cerca de mil e duzentos.

Outra obra, fruto do seu amor, foi a de garantir uma casa para as crianças abandonadas. Segundo uma indicação dada pelo santo em 1657, suas obras davam assistência a cerca de trezentas e noventa e cinco crianças na cidade de Paris.

Durante a tremenda guerra dos Trinta Anos, que destruiu regiões inteiras, semeando por toda parte a fome, foram os seus filhos que levaram socorro onde quer que fosse preciso com os meios então disponíveis, organizando a Obra das Sopas. Em uma única paróquia distribuíam cerca de 5 mil refeições.

Diz-se que Vicente recebia uma quantidade extraordinária de meios para suas obras e administrava um balanço que superava o de sua terra natal, com a não pequena diferença que suas moedas eram todas aplicadas a serviço dos pobres e as do Estado serviam muitas vezes para satisfazer as ambições de quem nunca tinha experimentado a fome.

De onde, no entanto, hauria este homem tanta vitalidade para entusiasmar a si mesmo e a seus filhos e filhas? O segredo do seu carisma era a caridade concreta. Ele havia harmonizado em seu espírito a espiritualidade de Bérulle, a de são Francisco de Sales e a de santo Inácio de Loyola. Do primeiro havia assimilado acima de tudo o espírito de oração que o mantinha unido a Deus também em meio às ocupações materiais mais envolventes; do segundo, havia apreendido o humanismo cristão que lhe permitia levar a santidade para dentro do mundo civil sem necessidade dos muros protetores do convento; por meio do terceiro, havia concentrado a fidelidade à Igreja que o impulsionava a servi-la especialmente naqueles setores onde a presença dos cristãos era mais carente.

A nota característica da espiritualidade vicentina nós a encontramos expressa de maneira quase comovente nestas palavras do santo, extraídas das suas Cartas e Conferências :

O serviço dos pobres deve ser preferido a tudo. Não deve haver atrasos. Se na hora da oração tiverdes de levar um remédio ou um socorro a um pobre, ide tranquilamente. Oferecei a Deus a vossa ação, unindo a ela a intenção da oração.

Não vos deveis preocupar e acreditar que haveis falhado, se pelo serviço dos pobres haveis deixado a oração. Não é deixar Deus, quando se deixa Deus por Deus, ou seja, deixar uma obra de Deus para fazer uma outra. Se deixardes a oração para dar assistência a um pobre, sabei que fazer isto é servir a Deus. A caridade é superior a todas as regras, e tudo deve referir-se a ela. É uma grande senhora : é preciso fazer o que ela manda. Todos aqueles que amarem os pobres em vida, não terão temor algum da morte. Sirvamos, portanto, os pobres com renovado amor e procuremos os mais abandonados. Eles são os nossos senhores e patrões. (SÃO VICENTE DE PAULO, 1985, carta 2.546)

Vicente concluiu a sua viagem terrena na manhã do dia 27 de setembro de 1660, atraindo a seu funeral uma multidão imensa composta de personalidades influentes e pessoas humildes. O calor da sua caridade havia unido muitos membros das duas classes sociais tão distantes entre si, despertando em todos a consciência da dignidade comum de filhos de Deus. Diz-se, às vezes, que Vicente criou apenas ‘enfermarias para os pobres’, sem efetuar uma ‘mudança nas estruturas’. À parte o fato de que a história tem seus tempos sempre longos, sem estas ‘enfermarias’, milhões de pobres teriam desaparecido desta terra sem nunca sentir junto deles o calor de um coração humano e talvez as estruturas teriam se tornado ainda mais desumanas.

Vicente de Paulo foi declarado bem-aventurado em 1729 e santo em 1737.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-vicente-de-paulo.html


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fulton Sheen e a missão como responsabilidade de toda a Igreja

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo com informações da Agencia Fides


‘Há episódios do Concílio Vaticano II que permanecem nas margens da memória conciliar, embora ajudem a compreender algumas de suas intuições mais profundas. Um deles envolve o bispo estadunidense Fulton J. Sheen, cuja participação na elaboração do decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, contribuiu para ampliar a própria pergunta sobre o que significa fazer missão. Entre os quase 2.500 bispos que participaram das quatro sessões conciliares, entre 1962 e 1965, Sheen foi membro da Comissão para as Missões e o único representante dos Estados Unidos a permanecer nessa comissão durante todo o Concílio.

Sua presença em Roma também se inscrevia numa relação pessoal com João XXIII. Antes mesmo da abertura do Concílio, Sheen havia percebido que algo novo estava se formando na Igreja. Em 1959, durante uma peregrinação a Lourdes, chamou sua atenção a multidão de peregrinos simples e pobres. ‘Eis a Igreja dos pobres’, teria dito a um companheiro, expressão que antecipava uma preocupação que levaria posteriormente à assembleia conciliar. O vínculo com o Papa Roncalli era igualmente significativo : como diretor nacional da Pontifícia Obra para a Propagação da Fé, Sheen encontrava-se anualmente com João XXIII, que lhe confidenciou, antes do anúncio público, sua decisão de convocar o Concílio.

A pergunta que mudou o foco da missão 

A contribuição mais expressiva de Sheen apareceu durante o debate sobre o esquema que daria origem ao decreto Ad Gentes. Em 9 de novembro de 1964, depois de numerosas críticas à primeira versão do texto, o bispo propôs uma mudança aparentemente simples, mas teologicamente significativa. Em vez de perguntar ‘O que são as missões?’, sugeriu perguntar : ‘Onde estão as missões?’

A mudança de perspectiva colocava em questão uma concepção geográfica da missão. Para Sheen, não bastava identificar como missionários os territórios classificados como ‘não cristãos’. Havia também dioceses extremamente pobres, com escassez dramática de sacerdotes, que necessitavam da solidariedade de toda a Igreja, embora não fossem oficialmente consideradas territórios de missão. Ele recordava bispos que lhe pediam ajuda vindos de regiões nas quais havia apenas poucos sacerdotes para áreas imensas. A questão, portanto, deixava de ser apenas administrativa : pode uma Igreja necessitada ser considerada menos missionária simplesmente porque não se encontra dentro de uma determinada categoria jurídica?

Nesse raciocínio aparece uma das ideias mais fecundas de sua intervenção : a missão não deveria ser compreendida como uma tarefa de uma parte da Igreja em benefício de outra, mas como uma responsabilidade comum. Sheen contestava divisões excessivamente rígidas entre ‘Igrejas novas’ e ‘Igrejas antigas’. Para ele, a Igreja é um único Corpo de Cristo, cujos membros dependem uns dos outros. Por isso, defendia mecanismos de coordenação que permitissem responder às diferentes necessidades missionárias presentes no mundo.

Uma Igreja que não pode esquecer os pobres 

A questão da pobreza ocupava um lugar central nessa visão. Quando um dos padres conciliares propôs retirar do texto as referências à pobreza, Sheen defendeu justamente o contrário. Recorreu à imagem do globo terrestre para mostrar a concentração geográfica das desigualdades e apontou para a realidade de África, Ásia e América Latina.

Mas seu argumento ia além de uma análise econômica. A experiência de suas viagens pela América Latina e pela África havia transformado sua maneira de compreender a pobreza. Ele próprio escreveria posteriormente que começara a pensar menos no ‘problema da pobreza’ e mais nos pobres. A distinção é importante : deslocar o olhar de uma questão abstrata para rostos concretos significa reconhecer que a missão cristã acontece no encontro com pessoas e comunidades concretas.

Foi nesse contexto que Sheen formulou uma das frases mais marcantes associadas à sua participação no Vaticano II : ‘Como a castidade foi o fruto do Concílio de Trento e a obediência o fruto do Concílio Vaticano I, assim o espírito de pobreza seja o fruto deste Concílio Vaticano II.’ E acrescentou : ‘Somente uma Igreja ferida pela pobreza pode converter um mundo cético.’

A expressão ‘Igreja ferida pela pobreza’ contém uma inversão interessante. A pobreza deixa de ser apenas uma realidade diante da qual a Igreja exerce caridade e passa a interrogar a própria Igreja. Não se trata simplesmente de uma Igreja que ajuda os pobres, mas de uma Igreja que permite que a realidade dos pobres transforme suas prioridades, sua sensibilidade e sua maneira de cumprir a missão.

O bispo : não apenas para uma diocese 

O texto final de Ad Gentes, aprovado por ampla maioria, incorporou diversos elementos que convergiam com as preocupações apresentadas por Sheen : a responsabilidade da Igreja para com os pobres, a necessidade de coordenação da atividade missionária e uma compreensão ampla da responsabilidade episcopal. O decreto afirma que o bispo não é consagrado apenas para uma determinada diocese, mas também para a salvação do mundo inteiro.

A mesma lógica apareceu em sua participação na elaboração de Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal. Sheen defendia que os seminaristas tivessem contato direto com doentes, pobres, não católicos, católicos afastados da fé, presos e trabalhadores, além de passarem períodos nas missões com falta de pessoal. A intenção era fazer com que a formação pastoral não permanecesse restrita ao ambiente protegido do seminário, mas colocasse o futuro sacerdote em contato com as periferias humanas e eclesiais.

Sheen também apoiou vigorosamente o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, e interveio em favor de uma reflexão mais ampla sobre a contribuição das mulheres na vida da sociedade. No debate sobre Gaudium et Spes, valorizou especialmente a afirmação da dignidade e da liberdade da pessoa humana e sua relação inseparável com a salvação. Ao mesmo tempo, advertia que a abertura da Igreja ao mundo não deveria significar nem isolamento nem submissão aos critérios do próprio mundo.

A difícil palavra ‘mundo’ 

É justamente aqui que aparece uma das chaves para compreender o pensamento de Sheen sobre o período posterior ao Concílio. Ele não interpretava a abertura ao mundo como uma capitulação. Ao contrário, considerava que a Igreja deveria estar presente no mundo, dialogar com ele e reconhecer os sinais de verdade presentes nas diferentes culturas, mas sem perder a capacidade de discernimento.

Em suas conferências posteriores, Sheen identificou boa parte das tensões pós-conciliares numa confusão em torno da própria palavra ‘mundo’. De um lado, está o mundo como criação de Deus, realidade humana que a Igreja é chamada a amar e servir. De outro, está o ‘mundo’ no sentido bíblico de uma organização da existência fechada a Deus. Confundir essas duas realidades poderia, segundo ele, fazer com que a abertura se transformasse em assimilação.

Por isso, sua compreensão da renovação conciliar pode ser resumida não como rejeição nem como aceitação indiscriminada do mundo, mas como discernimento. Sheen recorria à antiga imagem dos semina Verbi, os ‘sementes do Verbo’ presentes nas culturas e nos contextos humanos. A tarefa da Igreja seria reconhecer essas sementes, ajudá-las a crescer e, ao mesmo tempo, distinguir o trigo do joio.

Uma intuição que permanece atual 

Vista a partir de hoje, a contribuição de Fulton Sheen para a reflexão conciliar sobre a missão ganha força justamente porque desloca a questão de fronteiras geográficas para uma pergunta muito mais abrangente : onde a Igreja é chamada a ser missionária?

A resposta que emerge de suas intervenções não se limita aos territórios tradicionalmente classificados como missionários. A missão está também onde há pobreza, falta de sacerdotes, afastamento da fé, sofrimento, exclusão e necessidade de esperança. Está nas dioceses e nas comunidades, mas também na formação dos futuros sacerdotes, no apostolado dos leigos, no diálogo com a cultura e na capacidade da Igreja de reconhecer aquilo que Deus já semeou no coração da humanidade.

É nesse sentido que a figura de Sheen ajuda a reler Ad Gentes : a missão não é um setor especializado da vida eclesial, delegado a alguns organismos ou regiões do mundo. Ela pertence à própria natureza da Igreja. E, para o bispo, essa responsabilidade ultrapassa os limites de sua diocese. A missão começa onde existe alguém a quem a Igreja é chamada a levar a luz da Palavra e o amor de Deus — inclusive quando esse alguém está muito mais perto do que as antigas fronteiras missionárias permitiam perceber.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-09/beatificacao-fulton-sheen-estadunidense-concilio-vaticano-ii.html