quarta-feira, 19 de agosto de 2026

As grandes civilizações africanas - O Genocídio de Ruanda

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Em nossas últimas publicações ou gravações temos revisto algumas das páginas mais tristes da história do Continente Africano como ditaduras que se estabeleceram em diversões países, massacres, regimes brutais que se instalaram e guerras em diversas partes do continente.

Uma página que não pode ser esquecida e que precisa ensinar às gerações de hoje e de amanhã foi o triste genocídio que aconteceu em Ruanda.

Razões de uma guerra

Há muito tempo Ruanda vinha vivendo uma guerra civil que já durava cerca de 4 anos. O sangrento conflito tinha de um lado a etnia hutu, que dirigia o governo do país e do outro lado a etnia tutsi, da Frente Patriótica da Ruanda (RPF). Naquele ano, os hutus deram início a um movimento de extermínio dos rivais, numa das maiores atrocidades já acontecidas na era contemporânea. Durante o conflito, as Forças Armadas de Ruanda (FAR) deram aos civis da etnia hutu armas brancas para que pudessem se defender, mas elas acabaram sendo usadas no genocídio.

O estopim do conflito aconteceu no dia 6 de abril de 1994. O avião que levava o presidente de Ruanda Juvenal Habyarimana e o presidente do Burundi Cyprien Ntaryamira, ambos da etnia hutu foi derrubado enquanto se preparava para pousar no aeroporto de Kigali, capital de Ruanda, provocando a morte de todos os seus ocupantes. Mesmo sendo posteriormente descoberto que o míssil que provocou a queda foi lançado por extremistas hutus, forças tutsis foram culpadas pelo atentado. A morte dos dois líderes hutus é vista como o fato catalisador do massacre.

A etnia hutu deu início ao assassinato em massa dos tutsis e de hutus moderados logo nas primeiras horas depois que o avião foi derrubado. Líderes militares que deviam ser apaziguadores insuflaram a multidão que foi aconselhada a ‘dar início ao trabalho e não poupar ninguém. Já no dia seguinte a matança se espalhou por várias províncias do país.

Nos meses seguintes, a matança da população tutsi alcançou índices alarmantes. Algumas contagens indicaram depois que cerca de 800 mil ruandeses foram mortos nos primeiros seis meses de genocídio num trabalho sistemático orientado pelos líderes do movimento.

O massacre foi maior, sobretudo, nas áreas urbanas do país e durante o genocídio até mesmo hutus acusados de serem simpatizantes ou simplesmente por parecerem tutsis foram também mortos.

Rádios e jornais locais foram usados para espalhar propaganda, incitar a violência e orientar os assassinos.

A tensão entre as duas etnias que já existia no passado foi intensificada no período de colonização, primeiro pela Alemanha e depois pela Bélgica, que favorecia a minoria tutsi para exercer cargos de poder. Quando o país se tornou independente, a maioria hutu assumiu o controle, gerando perseguições e fugas de tutsis para países vizinhos.

Desdobramentos do conflito

Em resposta ao genocídio, a RPF ligada aos tutsis começou também a planejar seus ataques e, começando pelo norte, avançou até a capital Kigali, cercando a cidade e cortando a linha dos suprimentos que a abasteciam. Desta forma conseguiu o controle de grandes áreas do interior e também os arredores da capital.

No dia 4 de julho, a RPF finalmente retomou a capital Kigali, derrotou as forças governistas ruandesas e encerrou os mais de 100 dias de massacre enquanto o governo hutu fugiu para o vizinho Zaire, atual Congo.

Em Ruanda hoje existem dois feriados públicos para lembrar o genocídio. O ‘Genocide Memorial Day’ celebrado no dia 7 de abril e o ‘Liberation Day’ que acontece no dia 4 de julho e a semana posterior ao dia 7 de abril é considerada luto oficial.

O governo de Ruanda contabiliza o número de 1.174.000 pessoas mortas no genocídio, numa média de 10 mil por dia e apenas cerca de 300 mil tutsis conseguiram sobreviver, mas muitas mulheres são portadoras de HIV, por terem sido violentadas durante o conflito

Hoje o país continua sofrendo as consequências do genocídio. Milhões de pessoas da etnia hutu se refugiaram nos países vizinhos temendo a retaliação tutsi. Além dos enormes campos de refugiados, no período subsequente a situação levou a duas guerras contra o Congo e a morte de milhões de outras pessoas.

A comunidade internacional foi muito criticada por não ter feito os esforços suficientes para evitar o que estava acontecendo em Ruanda.

Em novembro de 1994, o Conselho de Segurança da ONU instituiu o Tribunal Criminal Internacional por Ruanda (ICTR, na sigla em inglês) para julgar os líderes do genocídio, como também houve julgamentos locais no próprio país.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-genocidio.html


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Deus nos chama pelo nome

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Antes que a agitação do dia tome conta dos pensamentos e do tempo, alguém se senta à beira da cama e respira fundo. Ainda não organizou as tarefas, não assumiu os papéis que deverá desempenhar nem respondeu às expectativas que o aguardam. Por alguns instantes, tudo parece suspenso diante daquele corpo cansado que tenta despertar por inteiro e assimilar o que foi sonho e o que é realidade.

Talvez seja o cansaço acumulado. Talvez seja a alma pedindo espaço antes de ser novamente tomada pelas urgências. Nesse intervalo entre o sono e a vida que recomeça, uma pergunta bate suavemente à porta do coração : há quanto tempo não escuto o que Deus tenta dizer em mim?

Agosto, mês vocacional, oferece-nos essa oportunidade. Não apenas para pensarmos nas vocações sacerdotais e religiosas, tão belas e necessárias à Igreja, mas para perguntarmos pelo sentido de nossa existência, pelo lugar que ocupamos no mundo e pela maneira como respondemos ao amor de Deus.

Vocação não é somente escolher um estado de vida, é descobrir para quem e para que as nossas vidas se entregam.

Vivemos num tempo de muita agitação e pouca escuta. Há vozes que cobram, comparam e impõem padrões de sucesso. Há também ruídos interiores : medos, culpas, inseguranças, necessidade de reconhecimento e receio de não corresponder às expectativas. Às vezes, o maior barulho não vem de fora, vem de dentro.

Nesse emaranhado, podemos desaprender a escutar Deus. Não porque Ele tenha deixado de chamar, mas porque nossos corações estão ocupados demais para reconhecer sua voz.

A história de Samuel ilumina esse caminho. Durante a noite, o menino ouve alguém chamá-lo pelo nome : ‘Samuel, Samuel’. Pensando que fosse Eli, levanta-se e vai ao encontro do sacerdote. Isso se repete. Samuel escuta, mas ainda não reconhece. Com a ajuda de Eli, aprende a responder : ‘Fala, Senhor, teu servo escuta’ (1Sm 3,10).

Deus chama pelo nome, mas respeita o tempo de Samuel. Não o força nem o envergonha por não compreender de imediato. Chama novamente, espera e coloca ao seu lado alguém capaz de ajudá-lo a discernir.

Assim também acontece conosco. Nem sempre reconhecemos a voz de Deus na primeira vez. Podemos confundi-la com medo, obrigação, desejo pessoal ou expectativa alheia, por isso, a vocação necessita de silêncio, oração, acompanhamento, comunidade e tempo. Precisa de interioridade e de pessoas que, como Eli, ajudem-nos a reconhecer o chamado de Deus.

O Papa Leão XIV tem recordado que a vocação nasce no mais profundo do coração, como descoberta de um dom gratuito que Deus faz florescer em nós. Não é imposição nem destino fechado, é encontro, diálogo e resposta de amor. A interioridade, portanto, não é fuga do mundo, mas o lugar onde a vida reencontra sua fonte. Quem guarda o coração volta à realidade com maior inteireza.

Sobre traçar novos mapas de esperança, o Papa afirma que os jovens desejam profundidade e precisam de espaços de silêncio, discernimento e diálogo com Deus. Essa necessidade também alcança os adultos. Quantas pessoas passam anos cumprindo tarefas e sustentando responsabilidades, mas já não perguntam o que Deus deseja fazer florescer em suas vidas? Continuam caminhando, mas perderam o sentido do caminho.

Falar de vocação é, portanto, falar do modo como Deus nos chama a amar. Existe a vocação de quem educa, cuida de uma pessoa enferma, constitui família, trabalha com honestidade, serve à comunidade, consagra-se ao Reino ou permanece fiel em tarefas pequenas e quase invisíveis.

Toda vocação verdadeira nasce do amor e se concretiza no serviço. Sem serviço, o chamado transforma-se em vaidade. Sem amor, a missão torna-se peso. Sem escuta, corremos o risco de confundir nossos desejos com a vontade de Deus.

Jesus também chamou pelo nome. Chamou Pedro e André à beira do lago, Mateus na coletoria, Zaqueu sobre uma árvore e Maria Madalena no jardim da ressurreição. O chamado de Jesus nunca fecha a pessoa em si mesma, ele a coloca a caminho, na direção do cuidado, da misericórdia, da justiça e do anúncio do Reino.

Talvez a principal pergunta vocacional não seja ‘O que eu quero ser?’, mas ‘Onde Deus me chama a amar mais?’. Essa pergunta retira a vocação do campo da aparência e a devolve ao campo da entrega. A vida não é apenas carreira, produtividade ou reconhecimento, a vida é resposta, é dom recebido e devolvido em forma de serviço.

Neste mês vocacional, tenhamos coragem de silenciar, levantar o olhar e escutar a vida com reverência. Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez chegue aos poucos, como a luz entrando pela janela, o café perfumando a casa ou a semente germinando escondida na terra, mas Deus continua chamando e chama cada pessoa pelo nome.

Senhor, ensina-nos a escutar. No meio dos medos, dá-nos confiança. No meio das dúvidas, concede-nos discernimento. Ajuda-nos a reconhecer tua voz nos encontros que nos humanizam, nas dores do mundo que pedem cuidado e nos dons que colocaste em nós. Dá-nos coragem para responder, humildade para caminhar e generosidade para transformar a vida em serviço. Amém.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/deus-nos-chama-pelo-nome.html


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Prevenir os abusos nas comunidades de mulheres

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Isabelle Jonveaux


‘O tema dos abusos, especialmente por parte de padres contra crianças, é atualmente onipresente nas notícias eclesiásticas. A questão dos abusos contra monjas e religiosas demorou mais para ganhar visibilidade na mídia. Na Europa, foi principalmente com o documentário da Arte [1] em 2019 que esse tema entrou na consciência do público em geral. No entanto, a luta das religiosas contra esses abusos e para trazê-los à atenção da Igreja começou muito antes, enfrentando muitas dificuldades. Como socióloga da vida monástica, tenho me deparado, ao longo das minhas investigações desde 2004 na Europa e desde 2013 na África, com várias situações de abuso. Mas os abusos geralmente não começam com agressões sexuais; abusos de autoridade e abusos espirituais preparam, de certa forma, o terreno.

Não sendo psicóloga, não trabalho com vítimas ou casos diretos de abuso, mas questiono as estruturas que possibilitam tais abusos. Busco destacar os elementos estruturais que abrem caminho para esses desvios, às vezes invisíveis. Naturalmente, não se trata aqui de considerar que todas as comunidades femininas apresentam indiscriminadamente os mesmos riscos, mas sim de identificar modos de funcionamento que podem favorecer abusos de autoridade, espirituais ou sexuais.

 1. Questionar as estruturas das comunidades femininas

Identifico aqui cinco níveis de estruturas, cuja combinação pode permitir formas de abuso e eventualmente promover o silêncio das vítimas.

• Estrutura interna de autoridade nas comunidades femininas

Ficou claro durante as minhas investigações que as estruturas de autoridade são, em média, mais rígidas nas comunidades femininas em comparação com as comunidades masculinas. A autoridade nessas comunidades está muito mais centrada na figura da superiora. Muitas vezes, quando pedia algo a uma irmã em uma comunidade de monjas, como uma entrevista, a resposta era : ‘Você precisa perguntar à Madre Abadessa’, enquanto os homens frequentemente eram capazes de me dar sua própria resposta. Essa estrutura de autoridade leva ao que a cisterciense Michaela Pfeifer chama de ‘mentalidade hospitalar’, onde as irmãs não se responsabilizam mais, mas abandonam toda a sua vontade adulta à superiora. Por que a obediência é vivenciada de forma diferente em comunidades que, no entanto, seguem a mesma regra, como as beneditinas? A irmã beneditina americana Shawn Carruth destaca que a obediência foi desenvolvida na Igreja como uma virtude propriamente feminina, associada à humildade, em uma estrutura patriarcal : ‘A obediência é dada à estrutura patriarcal ao ser dada àqueles que entendem o poder como controle. O silêncio impede as mulheres de expressar nossa própria realidade e nossa própria compreensão da realidade do mundo. [...] A humildade imposta às mulheres nos ensina a aceitar uma posição subordinada e o rótulo de incapacidade que nos é imposto pelas pressuposições patriarcais’. As estruturas de autoridade mais rígidas nas comunidades femininas seriam, nesse sentido, um resquício da autoridade masculina sobre os mosteiros femininos.

• Estruturas hierárquicas institucionais e sistemas de acompanhamento

Devido às estruturas hierárquicas institucionais existentes, a maioria das comunidades femininas está sob a autoridade de figuras masculinas. Muitas delas estão diretamente sob a jurisdição do bispo. Em algumas ordens mistas, as comunidades femininas estão sistematicamente acompanhadas por comunidades masculinas, enquanto as comunidades masculinas são sempre acompanhadas por comunidades masculinas. As estruturas de autoridade também se relacionam com a tomada de decisões e a gestão de bens. Além disso, em algumas dioceses, o emprego de religiosas é regulado por contratos específicos nos quais a irmã receberá um salário menor do que um leigo ou um irmão em posição igual.

• Relações entre comunidades masculinas e femininas

As relações de gênero entre comunidades masculinas e femininas se manifestam nos eventos do cotidiano, especialmente nas diferenças de status atribuídas aos superiores masculinos. Por exemplo, em uma celebração em um mosteiro beneditino na Áustria, onde representantes de mosteiros vizinhos foram convidados, os abades estavam sentados no coro com os monges, enquanto a priora do mosteiro de beneditinas vizinho estava com algumas irmãs na assembleia. Ainda é raro, como lamentou um beneditino austríaco em uma entrevista, que irmãs preguem retiros para os monges, enquanto a maioria dos retiros para as monjas é pregada por homens. Além disso, é comum, mesmo na Europa, que irmãs apostólicas sirvam padres ou comunidades masculinas, por exemplo, para tarefas de limpeza e cozinha, o que implica diretamente em uma relação não igualitária. Algumas comunidades femininas até foram fundadas com esse propósito.

• Relações entre comunidades de irmãs e padres

Em algumas comunidades femininas, especialmente em comunidades novas, a figura do padre permanece uma autoridade incontestável.  Isso significa que um padre que tenha se comportado de maneira inadequada em relação a uma irmã, não será questionado. Assim, uma irmã austríaca de uma comunidade nova – que já saiu desde então – me contou que quando um padre visitava a comunidade, as irmãs tinham que interromper tudo o que estavam fazendo para servi-lo.

• Estruturas espaciais e organização do espaço

As estruturas espaciais às vezes podem favorecer os abusos ou o silêncio que os segue, especialmente em relação aos locais onde as irmãs encontram os padres, bem como a maneira como a autoridade do padre é encenada na igreja. Pude observar, por exemplo, numa nova comunidade uma elevação de cerca de dois metros do presbitério acima do coro das estalas das irmãs, enquanto outras comunidades femininas, pelo contrário, reorganizam a sua capela para induzir uma maior igualdade entre o padre e as irmãs, bem como entre a Liturgia da Palavra e a da Eucaristia no altar durante a Missa.

2. A irmã na estrutura religiosa

O segundo nível de questionamento envolve o lugar da irmã individual nessas estruturas. As estruturas de autoridade e obediência operam em três níveis : intelectual, espiritual e corporal.

a. Nível intelectual

O abuso de autoridade é mais fácil quando a distribuição do conhecimento é desigual. Identifiquei em minhas investigações uma desigualdade significativa no acesso de monges e monjas aos estudos. O acesso mais amplo dos irmãos aos estudos está inicialmente relacionado à função de padre, que envolve pelo menos cinco anos de filosofia e teologia. Assim, na Áustria, 95% dos monges beneditinos têm pelo menos um mestrado. As monjas têm mais dificuldades para acessar estudos e formações, seja porque algumas ordens historicamente cultivaram uma recusa aos estudos por humildade (como as Clarissas), ou porque a clausura mais rígida das comunidades femininas dificulta o acesso a estudos fora do mosteiro. No entanto, a falta de formação intelectual e conhecimento pode levar a diferentes formas de abuso. Uma trapistina na África que havia participado de aulas ministradas por um psicólogo me disse em uma entrevista :

‘Às vezes, aqui, como não conhecemos nossos direitos, há coisas que não são normais. [...] Eu vi coisas no mosteiro que às vezes são impostas pelo abade, coisas que não são normais. Às vezes, o jovem tem o direito. [...] Mas porque o abade não conhece bem os direitos dele ou porque o jovem não conhece seus direitos, o jovem sofrerá as consequências. Mas com o doutor, aí sim, vemos claramente que às vezes há coisas que suportamos, mas não deveríamos.’

A falta de conhecimento sobre os direitos definidos para os professos, noviços ou superiores pode levar a situações de abuso que não são reconhecidas como tal pela vítima. Estudos ou outras formações, ao contrário, podem ajudar a reduzir esses desvios.

b. Nível espiritual

Na vida religiosa feminina, a autoridade espiritual é exercida tanto pela superiora quanto pelo padre encarregado do acompanhamento espiritual das irmãs. O abuso espiritual ocorre principalmente quando desvios sectários ou abusos de autoridade são justificados de maneira religiosa. Dentro das comunidades de irmãs, esse tipo de abuso ocorre especialmente quando o padre acompanhante da comunidade ou de irmãs específicas é uma autoridade incontestável e quando o acompanhante espiritual ou confessor é imposto pela superiora. Centralizar o poder espiritual em torno de um único padre em um mosteiro de monjas apresenta um risco maior de abuso espiritual.

c. Nível corporal e intimidade

O nível corporal de intimidade nas estruturas de autoridade da vida religiosa feminina é o que se mostra mais crítico na possibilidade de realização de diferentes formas de abuso. A renúncia à posse geralmente resulta, em grande parte dos mosteiros, na ausência de conta bancária pessoal. Dependendo da configuração, os monges e monjas recebem uma mesada para comprar o que precisam, podem se servir em uma sala de materiais ou solicitar o que precisam. As pesquisas mostraram que a configuração onde absolutamente tudo é recebido e/ou solicitado é mais frequente nos mosteiros de irmãs. Também é mais frequente que as freiras peçam por escrito ao ecônomo, e às vezes até ao superior, o que necessitam. Este sistema torna-se problemático quando aborda a privacidade de cada irmã. Assim, a irmã austríaca citada anteriormente disse que se lavou sem sabonete por dez anos, pois só havia um tipo disponível e ela não podia pedir outro. A questão se torna ainda mais íntima quando se trata da higiene menstrual. Essa irmã também contou que apenas um tipo de proteção higiênica era oferecido e que não era possível solicitar outros tipos. Da mesma forma, um beneditino no Quênia, que acompanha espiritualmente uma comunidade de irmãs que estudei, me disse que as irmãs precisam pedir por escrito tudo o que precisam. Aquelas que não ousam pedir produtos de higiene menstrual precisam se virar com o que encontram, apesar dos riscos para sua saúde. O controle dos corpos em sua intimidade está atualmente se tornando uma forma de ascese que não apenas não é mais plausível, mas também se assemelha a um abuso de autoridade. O corpo e a intimidade são, portanto, locais particularmente centrais para observar os riscos de abuso de autoridade nos mosteiros femininos, que levam as monjas a uma perda de posse de seus corpos que pode abrir espaço para outros tipos de abuso.

Conclusão

Isso representa um rápido panorama dos diferentes níveis de estrutura das comunidades femininas que podem - novamente, não se trata de considerá-los sistemáticos, uma vez que o abuso é perpetrado por indivíduos específicos - levar a abusos de autoridade, espirituais ou sexuais. A prevenção de vários tipos de abuso, ocorridos internamente nas comunidades ou por padres ou religiosos contra irmãs, deve, portanto, passar pelo questionamento dessas estruturas. Muitas dessas estruturas são heranças de séculos de dominação masculina na Igreja, bem como de espiritualidades de obediência e humildade exacerbada nos mosteiros femininos, que tendem a diminuir o livre arbítrio. Questionar essas estruturas significa, por um lado, destacar o que pode favorecer os desvios, e que em parte pode ter efeitos no recrutamento, mas também evidenciar o trabalho de algumas comunidades para ajustar essas estruturas e, assim, reduzir os riscos.’

[1] Arte: canal de televisão cultural franco-alemão. [Nota do editor].

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

As virgens de São Lucas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento


‘Muitas vezes não é tão simples encontrar os fatos que envolvem uma história, ainda que busquemos documentos ou fatos científicos em imagens que carregam com seu simbolismo uma história. Assim, ao tratarmos dos ícones atribuídos a São Lucas, se realmente são originais ou réplicas, não podemos afirmar com certeza histórica, porém, essa piedosa origem formou devoções que marcaram e marcam em nossos dias a história da Igreja e se tornaram verdadeiras relíquias, ainda que não se possam provar origens apostólicas.

A Igreja distingue a sagrada tradição e a tradição de uma história. Enquanto a sagrada tradição é a transmissão da Palavra viva de Deus e sua revelação, a tradição religiosa está ligada a ela mas não possui a infalibilidade.

Ícones sagrados são portadores da sagrada tradição em sua iconografia, mas muitas vezes possuem uma piedosa tradição quanto à sua origem. A veneração dessas imagens é atestada na era patrística. Em um movimento iconoclasta no século VII, originado possivelmente por influência do surgimento do Islã e sua influência intelectual, foram destruídos testemunhos antigos da veneração cristã, por isso, fora a tradição, perdemos muitos testemunhos históricos que poderiam ser provas das histórias que a seguir apresentaremos.

Antigos relatos contam que São Lucas, além de médico, pintou imagens da Virgem (se não pintou com cores, com certeza ‘pintou’ a imagem da Virgem escrevendo em seu Evangelho e nos Atos).

Conta-se que produziu 72 ícones que entregou aos 72 discípulos do Senhor, dos quais fazia parte. A tradição também identificou muitos desses ícones que seriam cópias, herdeiros da graça de uma imagem original, ícones da Virgem como o de Częstochowa, que se acredita estar pintado no tampo da mesa da casa de Nazaré, e Salus Populi Romani, que teria sido pintado em parte do tampo da mesa da última ceia, pois trazem na atribuição da origem referências ao evangelista.

Não queremos ignorar essa origem, pois o que levou muitos santos a venerar esses ícones seria atribuir as pinturas ao Evangelista, porém, essas imagens hoje por si se tornaram relíquias e histórias vivas da Igreja. Os dois mencionados ícones já estão ligados às histórias de muitos papas, além da presença na vida de muitos santos.

Como a tradição eclesiástica atribui o número 70 de forma simbólica, sem que exista um documento histórico único com exatamente setenta nomes, listei a seguir os ícones mais famosos atribuídos a São Lucas na Grécia, Chipre, monte Athos e no resto do mundo.

Na tradição oriental uma imagem não é pintada, mas escrita, o que nos aponta para a Palavra, a busca pela verdadeira imagem da Virgem; no fundo é a busca de trazermos ou escrever essa imagem em nós.

‘Portanto, todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória que vem do Senhor. Essa glória vai ficando cada vez mais brilhante e vai nos tornando cada vez mais parecidos com o Senhor, que é o Espírito.’ (2Cor 3,18)’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/as-virgens-de-sao-lucas.html


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

As grandes civilizações africanas - Sudão, a guerra sem fim

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Como é bem sabido de todos, na atualidade acontecem conflitos armados em mais de 40 lugares do mundo mas, sem dúvida alguma, um dos conflitos mais cruéis entre todos acontece no Sudão, país localizado no noroeste da África.

Ataques contra civis, deslocamentos em massa da população, agressões sexuais contra mulheres e crianças, deterioração da assistência no campo da saúde e educação, colapso dos serviços básicos continuam a assolar o país marcado por graves violações dos direitos humanos.

Os ataques vêm se intensificando nos últimos tempos e as violações se tornaram sistemáticas, ligadas a questões étnicas, políticas, religiosas e geográficas.

O Sudão é o 3º maior país da África em área geográfica, atrás apenas da Nigéria e da República Democrática do Congo, com população de aproximadamente 40 milhões de habitantes.

Grandeza do passado e história conturbada

No atual território, na antiguidade floresceram duas grandes civilizações, a dos núbios e a de Kush. Alguns faraós originários da Núbia, governaram o Egito durante a 25ª dinastia, ficando conhecidos como ‘faraós negros’. O primeiro grande faraó núbio a unificar o Egito foi Piiê, que iniciou a conquista durante o século VIII a.C., sendo sucedido por outros da mesma dinastia. Depois a Núbia perdeu sua autonomia se tornando uma das províncias do Egito.

No século XVIII, os turcos muçulmanos aproveitaram a rivalidade entre as tribos e dominaram a região até 1898, quando chegaram os britânicos que incluíram o Sudão em seu vasto império. A dominação britânica durou até 1955, quando o país alcançou a independência com a proclamação da República do Sudão.

A independência, porém, não trouxe a paz almejada e o país passou a viver uma fase de grande instabilidade com tensões políticas, étnicas e religiosas. Em 2011, o Sudão do Sul se separou criando um país independente. Mas os conflitos e a crise civil continuam sendo uma constante na região até a atualidade.

Dor e sofrimento

A maior parte dos ataques são promovidos pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), nome da sigla em inglês, dado a um grupo paramilitar que trava uma sangrenta guerra civil contra as Forças Armadas Sudanesas comandadas pelo Chefe de Estado que domina o poder após um golpe de estado.

Desde 2023 o país mergulhou numa guerra civil e os combates e ataques já causaram cerca de 12 milhões de deslocados entre os mais de 40 milhões de habitantes, com pelo menos 150 mil mortes, numa das piores crises humanitárias do século XXI que nem a ação da ONU consegue resolver.

O conflito repercute, sobretudo, sobre as crianças sem direito à educação, vítimas de abuso sexual e recrutadas como soldados por parte de grupos armados.

Conforme relatório da ONU, 55% das escolas estão inacessíveis por terem sido destruídas, danificadas ou transformadas em abrigos para os deslocados internos. O número de professores diminuiu muito e os materiais didáticos também são escassos.

Dois países com nomes parecidos

Ao tratarmos dessa triste realidade da guerra que abalou e continua trazendo pesadas consequências até hoje, não podemos nos esquecer que hoje existem dois países com o mesmo nome: Sudão e Sudão do Sul. A guerra à qual nos referimos acontece mais no Sudão.

Até 2011, eram um único país, se separando após décadas de guerra civil motivada por profundas diferenças étnicas, religiosas e econômicas entre o norte que é majoritariamente árabe e muçulmano e o sul em que a maioria de sua população é cristã ou ainda pratica o antigo culto animista.  Antes da separação, os dois formavam o maior país do continente africano em extensão territorial.

O termo Sudão deriva de uma expressão árabe ‘Bilad al-Sudan’, que literalmente significa ‘Terra dos Negros’. Historicamente esse era o nome dado pelos árabes à vasta região africana localizada ao sul do Deserto do Saara.

O Sudão desempenhou um importante papel ao longo de séculos no relacionamento com a grande civilização constituída onde hoje temos o Egito moderno.

Quando o governo central, localizado na capital Cartum, tentou impor a lei islâmica a todo o território, a decisão foi fortemente rejeitada pelo sul e o conflito se estabeleceu, também por razoes econômicas, porque embora a maior parte das reservas de petróleo esteja localizada no Sudão do Sul, a infraestrutura de refino e os portos de escoamento para exportação ficam no Sudão.

Em 2011, após um referendo de autodeterminação, o sul declarou independência, tornando-se o Sudão do Sul, transformando-se numa das nações mais jovens do mundo, enquanto o território original manteve o nome de Sudão, mas as diferenças entre os dois países continuam gritantes. Ambos são marcados pelas guerras civis e conflitos internos, o que aprofunda as desigualdades socioeconômicas no país e a instabilidade política.  O Sudão ou República do Sudão é um país mais populoso, com mais de 40 milhões de habitantes, com sua economia sendo duramente afetada pelos conflitos internos e pela instabilidade política do país.

O Sudão do Sul ou República do Sudão do Sul também é rico em recursos naturais, possuindo uma população bem menor, por volta de 11 milhões de habitantes.

Os dois países se aproximam na realidade do subdesenvolvimento, com a maioria de sua população vivendo na zona rural, com a falta de recursos e com a necessidade de que os olhos do mundo possam estar mais voltados para eles.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-sudao.html


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A graça de uma fundação e a experiência do retorno

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Capela do Mosteiro Christ the Word, Macheke, Zimbábue. © AIM.

*Artigo de Dom Robert Igo, OSB

Abade de Ampleforth, Reino Unido


‘Quando me pediram em 1995 para ir ao Zimbábue e estabelecer uma fundação monástica, eu tinha cinco boas razões pelas quais não era a pessoa certa. Felizmente, ouvi a voz do Espírito Santo e disse ‘sim’. Se tivesse ouvido a voz da dúvida e do medo, teria perdido a maior graça da minha vida. Quatro anos de investigação minuciosa pela comunidade de Ampleforth levaram os irmãos a dar um passo de fé, mas poucos provavelmente entenderam completamente o que essa decisão significaria, especialmente aqueles aos quais foi pedido para fazer a fundação. Não existem livros que descrevam claramente as regras básicas para estabelecer uma fundação monástica. É verdadeiramente uma jornada de fé.

As fundações estão longe de serem fáceis e, como o parto, são desordenadas, dolorosas, cheias de medo e ansiedade, mas ao mesmo tempo, transformam a vida. O que vinte e cinco anos me ensinaram? A resposta simples e verdadeira é que aprendi mais do que posso expressar em uma breve reflexão. Minha estada no Zimbábue abriu minha mente e coração, aprofundou minha fé cristã e minha compreensão da vida monástica.

Desde o início, fomos ao Zimbábue respeitando a nova cultura que estávamos adotando. Aprendemos muito cedo a ser flexíveis e criativos, mantendo-nos abertos ao que a experiência diária nos apresentava. No entanto, estávamos convencidos de que precisávamos ser muito claros sobre a essência da vocação monástica que queríamos compartilhar com os outros : uma vida de fé, fundamentada na Palavra de Deus e guiada pela Regra. Uma vida nutrida pelo Ofício Divino e vivida em uma comunidade forte que subsistia do trabalho de suas próprias mãos. Sentíamos que tínhamos uma semente para plantar, chamada ‘sabedoria monástica’, e que nossa prioridade era ouvir e aprender no solo onde essa semente deveria ser lançada. A escuta e a vontade de aprender eram valores essenciais.

Antes mesmo de colocar os pés no solo zimbabuense, começamos a voltar ao essencial e revisar os diferentes elementos da Regra de São Bento. Essa reflexão coletiva nos levou à convicção de que precisávamos ser uma comunidade ‘em formação’ para nos tornarmos uma comunidade capaz de formar os outros. Por isso, demos grande importância a construir uma verdadeira comunidade de irmãos, uma família que não apenas rezava junta, mas também trabalhava junta, assumindo a responsabilidade pela cozinha, limpeza, manutenção, etc. Acreditávamos que nossa vida junto era a maior ferramenta de evangelização. Decidimos não aceitar postulantes em nossa comunidade por dez anos, dando-nos tempo para aprender o idioma, a cultura e construir uma família na qual outros pudessem se integrar. 

Ao tentar nos tornar tal comunidade, enquanto nos adaptávamos a uma cultura diferente, o clima nem sempre era agradável ou confortável. Isso envolveu tempo, tolerância, erros, mal-entendidos e perseverança. As pessoas não se tornam necessariamente uma comunidade simplesmente porque vivem lado a lado no mesmo prédio. Lembrávamos constantemente que a dimensão comunitária era prioritária e que dela surgiria nosso apostolado.

Pensar e refletir sobre a formação foi um presente adicional. Através de nossa reflexão, percebemos que queríamos transmitir principalmente a vida e não apenas costumes. Aprendi de forma concreta o risco de convidar as pessoas a se tornarem membros de um grupo em vez de orientá-las no caminho do discipulado. Essa reflexão coletiva foi em si mesma uma formação vital para a comunidade. Finalmente, nosso documento de formação, ‘Uma Vida de Transformação’, nasceu e, de fato, toda a comunidade incorporou essa formação; certamente fomos enriquecidos por toda essa experiência.

A terceira experiência seminal foi o relacionamento com a Igreja em sentido amplo e com a localidade em que vivíamos. Através de retiros no mosteiro e em outros lugares, compartilhando com nossos visitantes e com a confiança que os bispos depositaram em nós, sentimo-nos parte integrante da Igreja local e, portanto, apreciamos muito melhor os desafios e problemas que outros enfrentavam. Isso também era verdade para as pessoas da região. Nossa ação de caridade (ajudar a financiar a educação das crianças, alimentar as famílias necessitadas, prestar um pouco de assistência médica) que pudemos oferecer permitiu um relacionamento real com a população local. As pessoas da região conheciam o mosteiro e conheciam os irmãos. Fazíamos parte de suas vidas.

Uma jornada de fé viva em um ambiente onde a fé era vibrante, viva e crescente era empolgante e cheia de desafios, mas não estava isenta de problemas. Todos os dias tínhamos que confiar em Deus. O que encontrei ao retornar à Europa é uma Igreja que frequentemente parece cansada e envelhecida. Uma Igreja que muitas vezes parece amarrada à sua infraestrutura, que com muita frequência se dá a sua própria missão. Uma Igreja onde a conversa gira em torno da diminuição dos números em vez das oportunidades futuras. Voltar a um mosteiro de longa tradição sedentária, de maior porte e enfrentando um período de transição não foi sempre simples. O contraste entre uma pequena comunidade em crescimento que permitia espontaneidade e senso de família e uma comunidade imersa em estilos de vida institucionais exigia paciência, humildade e sensibilidade. A comparação nunca é útil se levar a favorecer uma coisa em detrimento de outra. Aprendi a respeitar a diferença e a vê-la como uma oportunidade, não como uma ameaça. Sempre amei minha comunidade, quer no Zimbábue, quer em Ampleforth. Na verdade, uma das maiores lições que aprendi é que a qualidade de nossa vida juntos é o que importa, não importa onde estejamos. O testemunho que damos à fé e o cuidado que temos um pelo outro são nosso testemunho do Evangelho da vida. Minha estadia no Zimbábue em um mosteiro jovem e em crescimento, no entanto, me permitiu sonhar.

Portanto, sonho com uma família monástica, não apenas um grupo de monges que vivem no mesmo edifício. Uma família apaixonada pelo Evangelho e que valoriza um encontro vivo com Jesus. Discípulos de Jesus cuja vida de oração é uma porta que os atrai, a eles e aos outros, para a grande sede de Deus e do serviço ao mundo. Uma comunidade de irmãos que reconhece os dons individuais, as necessidades e limitações de cada membro de sua família, cuidando criativamente e de maneira prática uns dos outros, trabalhando na construção de entendimento e confiança mútuos. Uma comunidade onde o amor não é apenas uma palavra piedosa, mas uma experiência vivida e sentida. Uma comunidade onde trabalhamos para criar um senso de pertencimento.

Sonho com uma fraternidade monástica acolhedora e aberta aos outros, especialmente àqueles que estão em busca de fé, significado e propósito. Filhos de São Bento que veem na prática fiel dos votos a primeira ferramenta de evangelização e que têm uma verdadeira missão de introduzir os outros a um relacionamento com Cristo. Uma comunidade que é um recurso espiritual dinâmico para a diocese e além, buscando oportunidades para celebrar a fé com uma variedade de pessoas. Uma comunidade que deseja ser santa e incentivar os outros a fazer o mesmo. Uma comunidade que deseja viver plenamente a sua vida.

Isso é o que minha experiência em uma fundação me trouxe : a capacidade de sonhar com algo diferente; minha experiência de retorno ao lugar onde minha vocação começou, agora como abade, é compartilhar humildemente esse sonho com os outros.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

As grandes civilizações africanas - A Grande Guerra Africana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Frequentemente as guerras ocupam as manchetes de jornais e internet, sabendo que na atualidade mais de 40 conflitos ocorrem simultaneamente em nosso planeta. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, por exemplo, ou a guerra entre os Estados Unidos e Irã e mesmo entre Israel e os palestinos expuseram várias realidades terríveis de uma guerra, como o aumento do número de refugiados, os milhares de feridos, mutilados e mortos e a destruição de cidades e vilas como se viu na Faixa de Gaza. Mas a guerra mais sangrenta desde a Segunda Guerra Mundial não ocorre na Europa, no Sudeste Asiático e não ocorreu também no Oriente Médio.

Esse trágico episódio ocorreu na África, mais precisamente na República Democrática do Congo e suas consequências são sentidas até hoje, pois o país não consegue voltar à normalidade.

A Grande Guerra Africana

O conflito conhecido como a Grande Guerra Africana ou Segunda Guerra do Congo ocorreu entre os anos de 1998 e 2008. O país era um barril de pólvora, com mais de 200 grupos étnicos, muitos inimigos entre si.

Essa guerra se transformou no mais mortal conflito do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, envolvendo nove nações africanas e mais de 20 grupos armados, causando cerca de 5 milhões de mortes e devastando a conhecida região dos Grandes Lagos.

O Congo, conhecido anteriormente como Zaire possui imensa riqueza mineral com grandes jazidas de ouro, diamantes e outras matérias primas fundamentais para as tecnologias globais, sobretudo, o coltan, matéria prima usada na indústria que produz os modernos aparelhos de comunicação.

Após ajudar Laurent-Désiré Kabila a chegar ao poder em 1997, derrotando Mobutu Sese Seko que havia governado o país de 1965 a 1997, naquela que ficou conhecida como Primeira Guerra do Congo, Ruanda e Uganda, dois países fronteiriços, foram privados do poder. Laurent Kabila expulsou suas tropas por medo de interferência, desencadeando uma invasão liderada pelos antigos aliados.

Esses países invadiram o leste do Congo buscando reprimir grupos rebeldes hostis aos seus governos que haviam fugido para o país. A República Democrática do Congo recebeu apoio de Angola, Zimbábue, Namíbia e Chade. Ruanda e Uganda, por sua vez, receberam o apoio de várias milícias rebeldes locais.

O conflito rapidamente se transformou em uma guerra por procuração, pois visava guerra o controle da exploração de recursos. Algumas províncias orientais, especialmente Kivu do Norte e do Sul tornaram-se o epicentro de uma violência sem precedentes contra a população civil.

O triste legado de um conflito

A pressão de algumas potências ocidentais, entre elas a Grã-Bretanha, forçou os demais países africanos a sair do Congo, firmando acordos com o governo congolês.

A guerra terminou formalmente entre 2002 e 2003 graças aos acordos internacionais de paz, incluindo o chamado Acordo de Pretória, África do Sul. Apesar disso, diversos grupos armados continuaram a espalhar o caos e o terror no interior do país.

Para completar esse ‘caldeirão de instabilidade’, o presidente Joseph Kabila que deveria deixar o governo no final de 2016, realizando eleições gerais, não cumpriu sua palavra. Um novo acordo político foi feito, acertando sua permanência no poder e novas eleições foram marcadas para o final de 2018.

A transição de poder no Congo aconteceu em janeiro de 2019, quando Félix Tshisekedi tomou posse como presidente, após vencer eleições marcadas por muitos casos de violência e com resultado contestado por Joseph Kabila que foi assassinado em 2021.

A Grande Guerra Africana causou a morte de cerca de 5 milhões de pessoas e apenas para se ter uma ideia, a Guerra na Síria que durou muito mais tempo provocou cerca de 500 mil mortes.

Apesar dos acordos, a estabilidade de longo prazo nunca foi alcançada, porque tensões geopolíticas e exploração ilegal de recursos continuam a alimentar a violência. As províncias de Kivu, no leste do país, continuam sendo palco de confrontos entre o exército regular e grupos rebeldes como o M23, apoiados por países da região como Ruanda num ciclo interminável de crises humanitárias.

A República Democrática do Congo (RDC) está enfrentando uma crise política e de segurança muito séria em 2026, que causa uma catástrofe humanitária com mais de 7 milhões de deslocados. A corrupção e a fraqueza do Estado mantêm o país entre os mais pobres do mundo.

O presidente Félix Tshisekedi, reeleito, precisa lidar com forte insatisfação interna devido a ineficácia no combate aos rebeldes e a corrupção desenfreada. E pra complicar ainda mais a situação veio agora o surto provocado pelo vírus ebola que já matou centenas de pessoas e infectou muito mais.

Dois países, desafios semelhantes

É importante recordar que existem dois países com nomes muito próximos numa mesma região. Também na África, fazendo fronteira com a República Democrática existe também a República do Congo, da qual Brazzaville tornou-se a capital. Em 1958, uma colônia francesa pré-existente foi dividida em quatro países atuais e, em 28 de novembro do mesmo ano, a região do Congo Central tornou-se a República do Congo, declarada independente da França no dia 15 de agosto de 1960.

Portanto, são dois estados distintos na África Central. Ambos devem seu nome ao rio do mesmo nome, mas têm histórias e dimensões diferentes. Também chamado Congo-Brazzaville, a antiga colônia francesa possui tamanho muito menor, com cerca de 6 milhões de habitantes, enquanto a República Democrática é bem maior, possui população próxima de 115 milhões de habitantes.

Os dois países são separados a oeste pelo Rio Congo e suas respectivas capitais Kinshasa e Brazzaville são as duas capitais mundiais mais próximas de todos os tempos.’


Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-06/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-grande-guerra.html