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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Constituição Sacrosanctum Concilium: Marco fundamental na história da Liturgia da Igreja Católica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Lino Rampazzo


‘A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, promulgada em 4 de dezembro de 1963, constitui o primeiro documento conciliar promulgado pelo Concílio Vaticano II e representa um marco fundamental na história da liturgia da Igreja Católica. Seu objetivo não foi simplesmente introduzir modificações nos livros e nas formas celebrativas, mas promover uma renovação da vida cristã a partir da compreensão mais profunda da liturgia.

 A palavra ‘liturgia’ vem do grego ‘leiton ergon’ e significa, ao pé da letra, ‘obra pública’. Para nós, refere-se à oração pública e oficial da Igreja. A ‘liturgia’ é definida pelo Concílio Vaticano II como ‘o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo’ e ‘obra de Cristo Sacerdote e do seu corpo que é a Igreja’ (Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 7).

Esse documento conciliar afirma que a liturgia contribui de modo eminente para que os fiéis expressem em suas vidas e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a verdadeira natureza da Igreja (cf. Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, 2), por isso, a reforma litúrgica deve ser compreendida dentro de uma perspectiva mais ampla : a liturgia está relacionada à vida da Igreja, à evangelização, à santificação dos fiéis e à glorificação de Deus.

Mais de seis décadas depois da promulgação da constituição conciliar, o Papa Leão XIV dedicou, em 2026, uma série de catequeses à Sacrosanctum Concilium

A primeira catequese, realizada em 20 de maio de 2026, apresenta a liturgia como realidade intimamente vinculada ao mistério de Cristo. A segunda, de 27 de maio, trata da relação entre tradição e desenvolvimento. A terceira, de 3 de junho, aborda o rito, o sinal e o símbolo. A quarta, de 24 de junho, concentra-se no mistério eucarístico. A quinta, de 5 de agosto, trata da oração da Igreja. A sexta, de 12 de agosto, reflete sobre o ano litúrgico.

Um dos pontos mais importantes das catequeses de Leão XIV consiste em afirmar que a Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não pode ser reduzida a um projeto de alteração das cerimônias litúrgicas, pois tem como principal objetivo conduzir a Igreja à contemplação e ao aprofundamento do vínculo vivo que a constitui : o mistério de Cristo. 

O segundo elemento fundamental da interpretação de Leão XIV é a centralidade do mistério pascal. Para o Papa, o mistério cristão é o acontecimento da paixão, morte, ressurreição e glorificação de Cristo. Esse mistério não pertence apenas ao passado. Na liturgia, ele se torna sacramentalmente presente. Essa perspectiva permite compreender uma das afirmações mais importantes da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium : ‘Pela liturgia, especialmente pelo sacrifício eucarístico, realiza-se a obra da nossa redenção’ (2).

Na liturgia, Cristo continua a agir pelo poder do Espírito Santo. Ele santifica a Igreja e a associa à sua oferta ao Pai. O Papa recorda que Cristo está presente na Palavra proclamada, nos sacramentos, nos ministros, na comunidade reunida e, de modo eminente, na Eucaristia, portanto, a liturgia não é simplesmente uma reunião da comunidade cristã, é uma ação na qual Cristo mesmo atua na sua Igreja.

A liturgia possui também uma forte dimensão eclesiológica, pois a Igreja não existe separadamente dela; pelo contrário, a liturgia manifesta e edifica a Igreja.

Na primeira catequese, Leão XIV utilizou uma imagem particularmente significativa : a Igreja nasce do lado aberto de Cristo na cruz e, na liturgia, Cristo continua a agir nela pelo Espírito Santo. A celebração eucarística, portanto, não apenas manifesta a Igreja, contribui para edificá-la como corpo de Cristo. Ao celebrar a Eucaristia, a Igreja recebe o corpo de Cristo e torna-se aquilo que recebe. O Papa retoma, nesse contexto, a tradição de Santo Agostinho para mostrar que existe uma relação íntima entre o corpo eucarístico recebido e o corpo eclesial constituído.

Outro aspecto particularmente importante é a compreensão da relação entre tradição e progresso. Nesse sentido, a reforma litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II deve ser compreendida em continuidade com a tradição viva da Igreja. A Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium não propõe uma ruptura com o passado. O princípio fundamental apresentado pelo concílio é conservar a sã tradição e, ao mesmo tempo, abrir caminho para um progresso legítimo, conforme o número 23 da constituição.

Assim como a Igreja é um organismo vivo, também sua liturgia pode desenvolver-se historicamente sem perder sua identidade fundamental.

Estas breves considerações não têm a pretensão de apresentar toda a riqueza teológica e pastoral da Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium; mesmo assim, podem ser um incentivo para estudar e valorizar essa importante constituição conciliar.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-constituicao-sacrosanctum-concilium-marco-fundamental-na-historia-da-liturgia-da-igreja-catolica.html

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

São Pio X, Papa (1835–1914)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘Recapitular todas as coisas em Cristo.’ (Ef 1,10)


Da infância ao episcopado

‘Giuseppe Sarto nasceu em Riese, na região de Treviso, em 2 de junho de 1835. Era o segundo de dez filhos de uma família pobre. Com a ajuda de sacerdotes e do patriarca de Veneza, também natural de Riese, conseguiu estudar gratuitamente no seminário de Pádua.

Aos 17 anos, perdeu o pai, que trabalhava como funcionário público. As autoridades locais ofereceram-lhe o emprego paterno para que pudesse ajudar a família, mas sua mãe, Margarida, recusou a proposta. Mesmo trabalhando intensamente como costureira para sustentar os filhos, desejava que Giuseppe seguisse sua vocação sacerdotal.

Ordenado padre aos 23 anos, foi nomeado vigário paroquial em Tombolo, onde permaneceu por nove anos. Depois, tornou-se pároco em Salzano, exercendo o ministério por mais nove anos. Em 1875, foi transferido para Treviso, onde atuou como cônego, chanceler episcopal e diretor espiritual do seminário.

Cumpria suas responsabilidades com dedicação e competência. Frequentemente levava documentos para casa a fim de concluir o trabalho durante a noite. Sua proximidade com o povo e o cuidado especial com os pobres conquistaram a estima de todos. Após a morte do bispo local, foi escolhido vigário capitular.

Em 1884, o Papa Leão XIII nomeou-o bispo de Mântua. A diocese atravessava um período difícil, tanto internamente quanto nas relações com o poder civil. Dom Giuseppe Sarto conseguiu pacificar os ânimos e promoveu uma profunda renovação da vida cristã.

Em 1893, foi criado cardeal e nomeado patriarca de Veneza. Precisou, porém, esperar vários meses para assumir a sede, pois o governo italiano reivindicava o direito de interferir na escolha do patriarca.

Em Veneza, dedicou-se especialmente à formação do clero, à catequese, à renovação da liturgia e à assistência aos pobres. Preocupava-se não apenas com a vida espiritual dos futuros sacerdotes, mas também com seus estudos teológicos, bíblicos, litúrgicos, canônicos e sociais.

Nesse período, conheceu o jovem músico Lorenzo Perosi, cujo talento reconheceu e incentivou. Mais tarde, confiou-lhe a renovação do canto litúrgico em Veneza e, posteriormente, em Roma.

A vida religiosa do povo também ganhou novo vigor. Os adultos recebiam formação na fé; as crianças eram preparadas cuidadosamente para a Primeira Comunhão e a Crisma; e as celebrações litúrgicas eram realizadas com dignidade.

O Cardeal Sarto vivia de maneira simples e generosa. Ao chegar a Veneza, recusou-se a mandar confeccionar novas vestes cardinalícias. Pediu que suas irmãs ajustassem as vestes usadas por seu antecessor, para que o dinheiro economizado fosse destinado aos pobres.

Amado pelo povo e reconhecido como um pastor zeloso, ficou profundamente abalado quando seu nome começou a ser considerado no conclave. Entre lágrimas, pediu aos cardeais que não o elegessem, pois se julgava incapaz de assumir o pontificado. Seu pedido, porém, não foi atendido.

Um Papa pastor

O conclave teve início em 1º de agosto de 1903. Nas primeiras votações, parecia certa a eleição do Cardeal Mariano Rampolla, secretário de Estado do falecido Papa Leão XIII. No entanto, o cardeal de Cracóvia comunicou o veto do imperador Francisco José, da Áustria, à sua candidatura.

Por sugestão do próprio Rampolla, os cardeais desistiram de elegê-lo e passaram a apoiar o patriarca de Veneza, Cardeal Giuseppe Sarto, conhecido pela santidade de vida, firmeza doutrinal e moderação nas questões sociais.

No Vaticano, Pio X manteve seu estilo de vida simples. Abandonou alguns costumes da corte pontifícia que considerava incompatíveis com a simplicidade evangélica. Deixou de usar o plural majestático, dispensou os aplausos tradicionais na Basílica de São Pedro e procurou manter contato direto com as pessoas.

Levou suas irmãs para Roma, oferecendo-lhes apenas um pequeno apartamento e uma renda suficiente para viver. Quando lhe perguntaram qual título nobiliárquico deveriam receber, respondeu que lhes bastava serem chamadas de ‘irmãs do Papa’. Nenhum de seus parentes recebeu privilégios durante o pontificado.

Uma de suas principais preocupações foi a formação sacerdotal. Nas regiões em que os bispos não possuíam recursos para manter seminários, promoveu a criação de seminários regionais sob a responsabilidade da Santa Sé. Também incentivou os estudos nas faculdades pontifícias e fundou o Pontifício Instituto Bíblico.

Na Exortação Haerent Animo, dirigida ao clero, apresentou orientações para a vida espiritual dos sacerdotes. O documento tornou-se uma importante referência para a formação nos seminários.

Pio X também promoveu uma ampla reforma litúrgica, contribuindo para a renovação da vida de oração da Igreja e preparando o caminho para reformas posteriores. Considerava a Missa dominical o centro da vida cristã, na qual os fiéis deveriam ser alimentados pela Palavra de Deus e pela Eucaristia.

Incentivou a Comunhão frequente e permitiu que as crianças devidamente preparadas recebessem a Eucaristia.

Embora não pudesse visitar livremente as paróquias de Roma devido às tensões políticas da época, convidava semanalmente uma comunidade paroquial para ir à Basílica de São Pedro, onde explicava o Evangelho e celebrava a Missa.

Para favorecer a formação religiosa do povo, promoveu a elaboração do catecismo que ficou conhecido por seu nome. Organizado em perguntas e respostas, o texto apresentava a doutrina católica de modo simples e acessível, permitindo que também as pessoas com pouca instrução pudessem compreendê-la e memorizá-la.

Realizou ainda uma reforma da Cúria Romana, distinguindo as funções administrativas das judiciais. Também criou comissões para preparar o novo Código de Direito Canônico, posteriormente promulgado, em 1917, por seu sucessor, Bento XV.

Nas relações com os governos, procurou limitar a interferência política na escolha dos bispos e impediu qualquer intervenção externa nos futuros conclaves.

Um santo diante dos desafios de seu tempo

Embora sua santidade seja amplamente reconhecida, Pio X também foi um homem marcado pelo contexto histórico e eclesial em que viveu. Sua visão da Igreja refletia a compreensão predominante no início do século XX, fortemente baseada na distinção entre a hierarquia e os fiéis.

Nesse contexto, observou com grande preocupação o movimento conhecido como modernismo. Muitos membros da Igreja consideravam que algumas de suas propostas colocavam em risco a integridade da fé católica.

Pio X combateu essas ideias com firmeza, embora esse enfrentamento tenha levado, em alguns casos, a excessos e perseguições contra pessoas que defendiam novas formas de reflexão teológica.

São Pio X morreu em 20 de agosto de 1914, profundamente abalado pelo início da Primeira Guerra Mundial. Procurou, sem sucesso, atuar como mediador para evitar o conflito.

Quando o embaixador da Áustria lhe pediu que abençoasse as tropas austro-húngaras que partiam para a guerra, o Papa recusou-se e respondeu com firmeza :

‘Eu abençoo a paz!’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-pio-x-papa-1835-1914.html

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Melodia e espiritualidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão 


‘Uma das principais reclamações que se escuta por todos os lados é a sensação de estar perdido, sem condução, sem direção. Não se sabe bem de onde se vem nem para onde se vai. Muitos chegam a dizer que perderam o sentido da vida.

A busca por sentido, por certa estabilidade emocional e por um propósito claro faz parte das questões existenciais. Há uma angústia natural que constitui a existencialidade do sujeito.

Os gregos desenvolveram um sistema sonoro, entre outros processos artísticos, que ajudava, de forma catártica, no alívio das angústias humanas e no desenvolvimento do pensamento filosófico. O teatro, por exemplo, foi uma das mais profundas terapias corporais e mentais entre os gregos. Nossa escala musical nasce nesse contexto e o cristianismo desenvolveu, de forma única e esplêndida, a junção da melodia com sua doutrina de vida.

A música cristã tem relação direta com os instintos vitais em todos os sentidos. Jesus é o pastor, o Pastor Belo. Ele é aquele que conduz o rebanho e a melodia que direciona o sentido da vida, trazendo àquele que escuta sua voz a vitória da vida sobre a morte. É uma melodia que transcende a existência e desenvolve o eu mais profundo que habita cada um: o eu do ser. ‘Ser’ significa aqui existir plenamente, sentir a vida de dentro para fora.

A melodia na liturgia é fundamental na condução das ovelhas sob a voz do pastor, que as chama não mais de servos, mas de irmãos. Quando a melodia é bem estruturada, composta com a necessária espiritualidade e bem cantada, conduz o coração ao sentimento de que a vida vale a pena ser vivida’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/melodia-e-espiritualidade.html

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A busca da verdade que ilumina e salva

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Arthur Roche,

Cardeal prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a disciplina dos Sacramentos


‘A 1 de novembro de 2025, o Papa Leão XIV celebrou na praça de São Pedro a solenidade de Todos os Santos na presença de representantes do mundo educativo que se reuniram em Roma para o Ano Santo : nessa ocasião, proclamou o presbítero São John Henry Newman Doutor da Igreja e «co-padroeiro, com São Tomás de Aquino, de todos os agentes que participam no processo educativo» (Homilia).

O Dicastério para o culto divino e a disciplina dos sacramentos emitiu um Decreto em nome do Santo Padre (Prot. N. 760/25, a 9 de novembro de 2025, festa da Dedicação da Basílica de Latrão), pelo qual São John Henry Newman, presbítero e doutor da Igreja, foi inscrito no Calendarium Romanum Generale a 9 de outubro, com o grau de memória facultativa. Juntamente com o Decreto, foram publicados, em latim, os textos a serem inseridos em todos os Calendários, no Missale Romanum, na Liturgia Horarum e no Martyrologium Romanum. Cabe agora às Conferências episcopais traduzir, aprovar e, após a confirmatio/recognitio deste Dicastério, publicar os textos litúrgicos para tal celebração, conforme previsto pelas normas vigentes [cf. Carta Apostólica em forma de Motu próprio Magnum principium em AAS 109/10 (2017) 967-970; Decreto aplicativo Postquam Summus Pontifex em Notitiae 57 (2021) 152-222].

A inclusão de São John Henry Newman no Calendarium Romanum Generale, por ocasião da sua proclamação como doutor da Igreja universal, tem como objetivo propor a sua figura como um exemplo extraordinário da busca constante da verdade que ilumina e salva.

Na homilia da celebração eucarística durante a qual se realizou o rito da proclamação de São John Henry Newman, o Papa Leão XIV recordou que «a referência à noite que nos rodeia recorda-nos um dos textos mais conhecidos de São John Henry, o hino Luz terna, suave, leva-me mais longe». E continuou : «É tarefa da educação oferecer esta Luz Terna àqueles que, de outra forma, poderiam permanecer aprisionados pelas particularmente insidiosas sombras do pessimismo e do medo. Por isso, gostaria de vos dizer : desarmemos as falsas razões da resignação e da impotência e façamos circular no mundo contemporâneo as grandes razões da esperança». O falecido Papa Francisco, na encíclica Dilexit nos, salientava também outro facto significativo da vida de São John Henry Newman, que «tomou como lema a frase ‘Cor ad cor loquitur’, porque, além de toda a dialética, o Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir do seu Sagrado Coração. Seguindo ele, grande pensador, esta mesma lógica fazia com que o lugar do encontro mais profundo consigo mesmo e com o Senhor não fosse a leitura ou a reflexão, mas o diálogo orante, de coração a coração, com Cristo vivo e presente» (n. 26).

Nos textos litúrgicos desta celebração, a Coleta revela-nos a essência do percurso espiritual do Santo : Deus guiou-o com a sua ‘luz terna’ até o conduzir na paz da sua Igreja. Essa sua viagem torna-se uma inspiração e um motivo de súplica também para nós, que desejamos ser levados para fora das sombras e das aparências, a fim de chegar à plena luz da verdade.

A proposta das leituras bíblicas pretende iluminar algumas características da vida e da pessoa do Santo. A primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico, apresenta um homem que, pela vontade do Senhor, é preenchido com o espírito da inteligência (cf. Ecli 39, 8-14). O Salmo (39, 2 e 4ab.7-8a.8b-9.10), com o seu refrão — Eis que venho. No rolo do livro está-me prescrito que devo cumprir a Vossa vontade— faz com que a assembleia expresse o desejo de viver, como o Santo, a plena docilidade à vontade de Deus, mesmo em situações adversas. O trecho evangélico, precedido pela aclamação com a qual a assembleia reconhece e acolhe o único Pai que está nos céus e o único mestre, Cristo (cf. Mt 23, 9b.10b), é tirado do Evangelho segundo Mateus (13, 47-52), no qual o Reino de Deus é comparado com uma rede lançada ao mar que recolhe toda a espécie de peixes. Só quem se torna discípulo pode compreender a parábola do Reino, tornando-se assim como um dono de casa «que tira coisas novas e velhas do seu tesouro». John Henry Newman fez-se discípulo em busca da verdade de Deus : tornou-se, por isso, para a comunidade dos crentes um doutor da fé, capaz de tirar do seu tesouro coisas novas e coisas velhas, recorrendo a todo o tesouro da revelação, do qual a sabedoria dos Santos nunca deixa de tirar proveito.

Na Liturgia das Horas, após a nota hagiográfica, é proposta como segunda leitura do Ofício das Leituras uma passagem retirada da Apologia pro Vita Sua, obra escrita pelo Santo em 1864, na qual ele relata a sua experiência de conversão ao catolicismo, comparando-a com um navio que entra no porto depois de ter deixado para trás o mar agitado.

Por fim, o Martyrologium Romanum coloca o elogio ao Santo doutor em primeiro lugar entre os santos lembrados a 9 de outubro.

A inclusão desta celebração no Calendarium Romanum Generale ajuda-nos a contemplar São John Henry Newman como um homem conduzido pela ‘luz terna’ da graça de Deus para encontrar a paz na Igreja católica. As suas contribuições de grande relevância teológica e eclesiológica, bem como as suas composições poéticas e devocionais, continuam a inspirar o caminho espiritual e intelectual dos fiéis, enquanto a sua busca constante por sair das sombras e das aparências e chegar à plenitude da verdade permanece um exemplo luminoso para cada discípulo do Ressuscitado.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-03/por-003/a-busca-da-verdade-que-ilumina-e-salva.html


quinta-feira, 9 de abril de 2026

A liturgia siro-malabar São Tomé, o Apóstolo da Índia, nosso Pai na fé

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Clément Ettaniyil, OSB

Abade de Kappadu (Índia)


‘Em 52 D.C., São Tomé, o Apóstolo, chegou à costa de Malabar, em Kerala, no sul da Índia. Em 3 de julho de 72 d. C., São Tomé foi martirizado em Mylapur. O domingo de 3 de julho de 2022 marcou o 1950º aniversário do martírio de São Tomé. Neste ano jubilar da chegada de São Tomé, é bom refletir sobre a liturgia da Igreja siro-malabar.

A liturgia siro-malabar pertence à família litúrgica siríaca oriental que foi desenvolvida pelos discípulos de São Tomé. A missa de rito siro-malabar chama-se Qurbana que significa : oferenda, dádiva ou oblação. Qurbana resume todo o mistério da salvação em sua celebração da eucaristia. Existem três formas da Santa Missa na Igreja siro-malabar : a forma simples, a forma solene e a forma mais solene, Raza, que é o traço distintivo da liturgia siro-malabar. Se celebrado corretamente, são precisas duas horas e meia para completar o Raza.

A palavra Raza poderia também significar : ‘mistério’. A Raza é a celebração da Cruz, da Palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo que são três representações vivas de Nosso Senhor. Eles têm prioridade suprema em várias orações, hinos e rituais da Raza. O mistério da Cruz, da Palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo é completamente desvendado na Raza. A cruz sem a figura de Cristo significa o Senhor ressuscitado. ‘Ele não está aqui, mas ressuscitou’ (Lucas 24, 5). A Pomba no alto da cruz significa a teologia paulina sobre o papel do Espírito Santo na Ressurreição. O lótus abaixo indica a tentativa dos cristãos de São Tomé de interpretar o significado da cruz no contexto indiano. O lótus, na cultura indiana, é o símbolo da pureza; é a nossa flor nacional. A cruz sobre o lótus explica como o cristianismo indiano está bem integrado no país. Os botões prestes a desabrochar nas quatro extremidades desta cruz da ressurreição significam a nova vida e a esperança do Senhor ressuscitado. A cruz no topo dos três degraus significa o Calvário no qual a cruz foi erguida.

A Raza começa com a procissão para a Bema (pequeno altar no centro da igreja) e as duas velas são colocadas sobre a Bema simbolizando o Antigo e o Novo Testamentos. Os diáconos que carregam as velas durante a procissão simbolizam os discípulos chamados a ser luz do mundo. A Raza é introduzida pela lembrança do mandamento de Cristo (Lc 22, 19), tanto pelo celebrante como pelos fiéis. A Raza começa com a proclamação da encarnação de Nosso Senhor por meio do símbolo do hino dos anjos : ‘Glória a Deus nas alturas...’ (Lc 2, 14). Gradualmente, a comunidade adoradora entra no contexto do Antigo Testamento, da encarnação e da vida oculta de Jesus nos ritos introdutórios. A comunidade responde pronunciando : Amém, que significa : ‘Verdadeiramente, que assim seja, fielmente, certamente’; esta palavra ‘Amém’ é como a reconstituição de todo o Mistério da Salvação. Na Raza, ‘Amém’ é usado 65 vezes.

A oração do Senhor é recitada três vezes na Raza, como em outras formas de Qurbana. Enquanto característica distintiva da liturgia siríaca oriental, a oração do Senhor é recitada no início e no final da Raza. Após o rito da Reconciliação, a comunidade fiel, imaculada, de coração puro e rosto confiante invoca o Pai que está nos céus usando o Pai Nosso, como é costume em todas as liturgias, inclusive na Igreja latina.

Uma das orações frequentemente repetidas na Raza é : ‘Rezemos, a paz esteja conosco’. É o diácono quem a pronuncia. É usada quinze vezes em diferentes contextos. De certa forma, Raza é uma celebração da paz, do Senhor ressuscitado. A utilização dos salmos nos conduz no Mistério da encarnação e permite-nos identificar-nos com a vida do Antigo Testamento e proclamá-la como parte do Mistério de nossa história de salvação.

Uma das características únicas da Raza é a observância de um rito especial após os salmos, nomeadamente o Hino do Santuário e o Beijo da Cruz. Após a oração sacerdotal, que segue os salmos, o primeiro diácono entrega a cruz ao celebrante na Bema. Depois de homenageá-la com um beijo, ele ajuda o arquidiácono, os diáconos, os outros ministros e os fiéis a beijar a cruz. O coro canta o Hino do Santuário durante esse momento.

O hino de ressurreição Laku Mara d-Kolla, cantado três vezes durante a Raza, é atribuído a Simeão Bar Sabba (323-341). É um hino de celebração da vitória sobre o sofrimento, a morte e Satanás. Quando Laku Mara é cantado, o véu do santuário é tirado. É nossa tradição manter o santuário velado. O véu tem a função de revelar e esconder. O véu do santuário separa o santuário do restante da igreja. O véu, ao ocultar o santuário, revela aos participantes o Mistério do céu que está além da percepção do homem, a menos que seja revelado a ele. O véu do santuário indica que o céu está escondido à percepção humana ordinária. É na liturgia que experimentamos o céu. O véu do santuário simboliza Jesus, que é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2, 5), e a revelação é identificada com a abertura do céu (Lc 4, 25). A lâmpada suspensa do santuário simboliza a presença de Deus e também representa Cristo como a luz do mundo.

Em nossa liturgia, o rito do incenso ocorre cinco vezes. O rito do incenso indica a glorificação de Deus, o perdão dos pecados e a santificação do homem. Durante o hino de Laku Mara, o diácono incensa todo o santuário, toda a igreja e a comunidade reunida. O incenso é um símbolo de nossa submissão total a Deus, da oração da comunidade que sobe ao céu; é também um sinal de perdão dos pecados. Durante o rito de preparação, o cálice e a patena são incensados. O incenso faz parte da procissão do livro dos Evangelhos. No início da oração eucarística Qudasha, em sinal de reverência e adoração para com os dons eucarísticos e o altar, o celebrante os incensa. Finalmente, durante o rito da reconciliação como símbolo do perdão dos pecados, o celebrante, os diáconos, a comunidade, o altar e os Santos Mistérios nele colocados são incensados. Este elaborado rito de incensação durante o rito de reconciliação é visto apenas na liturgia siro-malabar.

A vida pública de Nosso Senhor é comemorada durante a liturgia da Palavra na Raza. Começa com o Trisagion (Is 6, 3; Ap 4, 8) cantado três vezes. A Igreja reconhece este hino como aquele que proclama o papel da Santíssima Trindade na salvação do homem e que expressa a grande alegria da assembleia litúrgica em ouvir, compreender e acolher os detalhes desta história da salvação através da Sagrada Escritura.

Há quatro leituras bíblicas na Raza que correspondem ao dia do tempo litúrgico. Em geral, as leituras são tiradas da Lei, dos Profetas, do Apóstolo e do Evangelho. As quatro leituras da Raza são uma celebração completa de toda a Bíblia e uma confissão incondicional nela como fonte da fé cristã. A combinação do hino responsorial (Shurraya), dos hinos pedagógicos (Turgamma) e do hino Aleluia (Zummara) durante a Raza mostra o quanto a Palavra de Deus é importante para o ser humano. Os hinos de ensino antes da leitura do Apóstolo e do Evangelho e a procissão solene do livro dos Evangelhos são características únicas da liturgia siro-malabar, particularmente para a Raza. Uma única vela é carregada durante a leitura da epístola. Isso significa que as revelações anteriores a Jesus são imperfeitas.

No final do canto do Aleluia, o arquidiácono e o diácono, acompanhados de todos os outros ministros, levam o livro dos Evangelhos e a cruz colocados respectivamente à direita e à esquerda do altar. O arquidiácono conduz a procissão levando o evangeliário à fronte; chega à Bema e entrega o livro ao celebrante. O celebrante primeiro o beija, depois o entrega aos demais ministros e a todos os fiéis para que o beijem. Os diáconos dirigem-se à entrada do santuário, defrontam-se com o povo e alternam a Turgamma do Evangelho com a comunidade. No final do Turgamma, o celebrante canta o evangelho, enquanto os diáconos ficam de cada lado dele com velas acesas e o arquidiácono à sua esquerda segurando a cruz. Após o canto do evangelho, o celebrante fecha o evangeliário, beija-o e o entrega ao diácono à sua direita, que o coloca sobre a mesa na Bema. A cruz também é colocada na mesma mesa.

O segundo diácono propõe a oração de intercessão, que apresenta a real disposição e situação dos fiéis. A resposta às orações de intercessão, ‘Senhor, tende piedade de nós’ (Mt 20, 29-34; Mt 15, 22; Lc 17, 13), mostra a boa atitude de quem pede as graças recebidas. Após as orações de intercessão, o celebrante reza em voz alta com as mãos estendidas. Terminada a oração, o arquidiácono pega a cruz e a entrega ao celebrante que, por sua vez, a entrega ao diácono à sua esquerda. O celebrante então pega o livro dos Evangelhos e o entrega ao diácono à sua direita. Os diáconos sobem ao altar e ficam de frente um para o outro diante dele.

Há a imposição de mãos no final da liturgia da Palavra. Deve-se notar que a bênção deve ser dada diretamente por Deus e, portanto, durante esse tempo, todos na comunidade, incluindo o celebrante, inclinam suas cabeças. O celebrante vai acompanhado do arquidiácono até o meio da nave, próximo a um grande véu (com uma cruz nele impressa), estendido ao chão, e recita a oração de frente para o altar. Na liturgia da Palavra celebramos a vida pública de Jesus e no rito de preparação das oferendas comemoramos a sua paixão, sua morte e o seu sepultamento. O rito de preparação é uma preparação imediata para a parte central do Qurbana. Agora o diácono dispensa todos os não batizados, os pecadores que não receberam a devida reconciliação de suas faltas e os catecúmenos que ainda não podem receber a Sagrada Comunhão. Em seguida, o segundo diácono beija e recebe o livro dos Evangelhos das mãos do primeiro diácono, e o primeiro diácono beija e recebe a cruz das mãos do segundo diácono. O evangeliário e a cruz são então colocados à direita e à esquerda do altar, simbolizando que o Filho e o Espírito Santo estão sentados à direita e à esquerda do Pai.

O celebrante então começa o hino e o coro e os diáconos respondem. Após cada parte do hino, o celebrante se ajoelha e beija três vezes o véu no chão, levanta-se e abençoa a comunidade com o sinal da cruz. Ele faz isso nos outros três lados do véu e retorna à posição original de frente para o altar. Os diáconos, agora voltados para o altar, cantam os versos : ‘Para sempre mais...’, voltam-se para o celebrante e cantam : ‘Imploramos a tua grande misericórdia...’. O celebrante e os diáconos cantam os versos : ‘Eis que estou convosco...’ e ‘Pela vossa graça...’ três vezes respectivamente. Ao final de cada série, os diáconos descem até o celebrante. Quando chegam ao véu e ficam de frente para o celebrante, todos cantam : ‘Salva-nos das tentações...’. Todos então se prostram juntos e beijam o véu. Ajoelhado, o celebrante abençoa os diáconos. Então todos se levantam e o celebrante os abençoa. O arquidiácono e os diáconos beijam a sagrada Paina do celebrante. Todo o ritual que é exclusivo dos cristãos de São Tomé da Índia é considerado como uma humilhação do celebrante, como uma preparação imediata para a anáfora Qudasha, a veneração da cruz e como uma cerimônia de despedida do celebrante que em breve deixará o Bema.

O celebrante lava as mãos na Bema como símbolo de purificação da comunidade enquanto o arquidiácono e o diácono vão para o bethgaze – os tesouros são dispostos em ambos os lados do altar. O cálice e a patena são preparados no bethgaze sul e norte, respectivamente. Em cada Raza, são preparadas apenas as partículas necessárias para a comunhão. Enquanto o coro canta os hinos próprios, o arquidiácono e o diácono trazem as oferendas eucarísticas ao altar que simboliza o cortejo fúnebre de Nosso Senhor. O arquidiácono em seguida os ergue em suas mãos em forma de cruz, coloca-os sobre o altar e cobre-os com um pano quadrado, soseppa, para simbolizar o sepultamento de Nosso Senhor e a cobertura do túmulo com uma pedra.

Na segunda parte da Raza, a comunidade recorda todos aqueles que estão intimamente ligados ao Mistério da salvação numa perspectiva cristã típica de São Tomé : a Santíssima Trindade, a Santíssima Virgem Maria, todos os apóstolos – muito especialmente São Tomé –, os patriarcas, os mártires, os justos, os confessores e os defuntos. O Credo é solenemente pronunciado pela comunidade enquanto se orienta à oração eucarística, parte central da memória do mistério da salvação na Raza.

O celebrante aproxima-se do altar com toda a humildade, prostrando-se três vezes no caminho. Ao chegar ao altar, beija o centro, a direita e a esquerda dele, representando respectivamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Na Anáfora, o celebrante solicita três vezes orações à comunidade, o que é uma expressão da íntima relação entre o celebrante e a assembleia litúrgica no corpo eclesial. Durante o Qudasha, o apogeu do evento de Cristo, a morte e ressurreição de Jesus é celebrada e proclamada. A Ressurreição é proclamada como ação suprema do Espírito Santo. Assim, a ação decisiva do Espírito Santo na salvação humana é proclamada também na Anáfora por meio do rito típico da Epiclese. No Qudasha dos apóstolos Mar Addai e Mar Mari, há orações de súplica e ação de graças. São pronunciadas pelo celebrante de cabeça baixa, voz baixa, mas audível e modulada. No final da segunda oração, g’hanta, canta-se o hino ‘Santo Senhor’ (Is 6,3; Ap 4,8). No meio das terceira e quarta orações g’hanta, inserem-se, respectivamente, a narrativa da instituição e a epiclese.

O Rito de Reconciliação sublinha a reconciliação da humanidade com o Pai celeste por meio do auxílio do Espírito Santo. Este rito começa com a oração : ‘Paz aos que estão no céu...’ que é uma combinação da teologia paulina nas epístolas do cativeiro e a teologia dos salmos. Os Salmos 51 e 122 são usados para incitar um coração arrependido, pronto para confessar os pecados e pedir a absolvição. Ao partir o Corpo e misturá-lo com o Sangue, proclama-se o efeito purificador da Sagrada Qurbana, bem como o papel da Santíssima Trindade na celebração dos Mistérios. Após misturar o Corpo com o Sangue, as duas metades são colocadas sobre a patena, uma em cima da outra em cruz, de modo que o lado partido da partícula na parte inferior fique voltado para o cálice, e o da partícula na parte superior, para o celebrante. Em seguida, o celebrante faz o sinal da cruz na própria fronte e na dos diáconos. Este é um resumo de um elaborado rito de reconciliação que existia na Igreja primitiva. Com a oração de diálogo na segunda parte do rito da Reconciliação, Raza se torna um ato público de reconciliação com seus aspectos verticais e horizontais. Esta saudação é uma confissão pública de que a Santíssima Trindade se entrega totalmente em Jesus Cristo ao Homem.

Como todos os que não são dignos de continuar são dispensados no final da liturgia da Palavra, a comunhão é um ato muito ‘privilegiado’ durante a Raza. A comunhão sob as duas espécies que são consagradas em cada celebração é distribuída à comunidade. No rito de comunhão, os fiéis são unidos ao Corpo ressuscitado do Senhor. Tornam-se assim herdeiros do Reino dos Céus. Após a comunhão, a comunidade, o diácono e o celebrante exprimem separadamente a sua ação de graças. Em seguida, após a oração do Senhor, o Huttamma, a oração final (selamento) é dita pelo celebrante com o sinal da cruz e a bênção, estando um pouco à direita da porta do santuário. A Raza termina com a despedida do celebrante ao altar, com a oração : ‘Descanse em paz, altar do perdão...’. Ele a diz isso sozinho, em silêncio, e beija o altar.

O rito siro-malabar Qurbana é uma liturgia que apresenta um mundo místico único. A experiência mística deste mundo está além da lógica e das ideias humanas. Ele leva os seres humanos ao Céu, isto é, eleva a terra ao Céu e faz descer o Céu à terra. A liturgia é o ponto de encontro do Céu e da terra e eles se tornam um. Portanto, o desafio de Zofar a Jó é também um desafio para todos nós : ‘Podeis descobrir as coisas profundas de Deus? Podeis descobrir o limite do Todo-Poderoso?’ (Jó 11, 7-8).’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O monaquismo cisterciense de rito guèze

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Negusse Woldai, OCist

Abade da comunidade de Asmara, Eritreia

Guèze (ou ge’ez) é a língua clássica da Abissínia, hoje usada somente como língua litúrgica. No nosso mosteiro rezamos as horas do Ofício em guèze, mas as leituras da Escritura e dos Padres são em tigrigna na Eritreia, e em amharique na Etiópia; ambas as línguas derivam da guèze.

 

‘Desde o começo, a intenção da Igreja e do nosso fundador, o venerável Abba Fesseha Ghebreamlak, era erigir um monaquismo católico indígena, paralelo à Igreja ortodoxa, igreja irmã existente na Abissínia (Etiópia e Eritreia).

Por iniciativa e mediação da Congregação para as Igrejas orientais, a congregação cisterciense de Casamari tornou-se o berço do projeto aceitando o futuro fundador Abba Fesseha Ghebreamlak, que era padre diocesano, e outros que lhe seguiram os passos.

Foram formados segundo a Regra de São Bento, as Constituições da congregação de Casamari, com a intenção de seguir o rito guèze, uma vez retornados ao país, e de estabelecer a vida monástica cisterciense na Eritreia.

Em 1940, o primeiro grupo de cistercienses, três italianos e quatro Eritreus chegaram à capital da Eritreia, Asmara, para começar o primeiro mosteiro num lugar chamado Beleza, a 13 km da capital. Mais tarde, em 1948 o mosteiro foi transferido para Asmara.

Não era fácil ter dois ritos, latino e guèze, no mesmo mosteiro durante os primeiros decenios, mas conseguiram caminhar juntos sob a Regra de São Bento. Em 1960, quando o primeiro monge Eritreu Abba Thimoteos Tesemma foi eleito superior, só o rito guèze era usado na Etiópia e na Eritreia. Como observância comum cisterciense, vivemos segundo o lema : Ora et Labora.

Vida Litúrgica

Nossa salmodia contem 150 salmos e 15 cânticos dos profetas; é contínua, e é repartida em duas semanas. Isto significa que a cada duas semanas começamos com o salmo 1.

A liturgia monástica das Horas, na semana tem :

1. 1º Noturno : os salmos e as leituras respetivas da Escritura, seguidos de uma curta oração chamada Liton

2. 2º Noturno Salmos respetivos e leitura dos Padres, seguido de Weddasie Mariam (louvor à Virgem Maria de Santo Efrem o Sírio)

3. Laudes : Salmos respetivos seguidos de Kidan Zalalit (do Testamentum Domini) I e II

4. Divina Liturgia (a santa missa)

5. Terça e Sexta às 12, 30

6. Vésperas às 18, 15 todos os dias (15, 30 nas festas)

7. Capítulo e Completas às 20, 45, que terminam com o Salve Regina em língua guèze.

Nos domingos e dias de festa, a nossa salmodia é o Ofício Divino da catedral segundo a liturgia de rito guèze. Como de costume, na véspera, as Vésperas são cantadas, e muito cedo as Vigílias começam ao canto do galo, quer dizer às 3 ou 4 horas até à Divina Liturgia ou Santa Missa. Os domingos comuns têm um tema próprio e um nome.

Utilizamos instrumentos tradicionais de música durante o ofício catedral, tais como tambores, sistros, ou o bastão que dá o ritmo, a dança litúrgica acompanhada com o bater das palmas e as vozes das mulheres. Aqui também os fiéis se juntam à salmodia.

Temos nosso lecionário tradicional e calendário litúrgico (12 meses de 30 dias, mais 5 – ou no ano bissexto – 6 dias suplementares). Aqui inserimos algumas festas de santos e comemorações da Igreja romana e beneditina. Segundo a tradição da Igreja católica Etio-eritreia, a Divina liturgia quotidiana é celebrada ‘com voz baixa’, ou cantada, enquanto na tradição da Igreja ortodoxa irmã é sempre cantada, ao domingo, dias de festa e em ocasiões especiais, tais como casamentos, serviços fúnebres, ou missa de defuntos, batismo de bebês, ou nos sacramentos de confirmação e de comunhão (quer dizer os sacramentos de iniciação) que são administrados simultaneamente etc.

O jejum é observado 200 dias por ano, com rigor. Na tradição da Igreja ortodoxa, nos dias de jejum a Divina Liturgia é celebrada a partir do meio dia, enquanto nós a celebramos de manhã. 

A música e o gestual do rito guèze são a reprodução do serviço musical e do gestual celeste. Os cantores estão separados em dois coros : do lado direito está simbolicamente o dos anjos querubins, do lado esquerdo o dos serafins. A coreografia dos cantores simboliza a paixão de Cristo.

O kabaro é um tambor de madeira em forma cónica em pele de vaca, coberto por um tecido que representa o sudário que cobriu o corpo de Cristo, ou o tecido que cobriu seu rosto, quando os soldados romanos o esbofetearam. A pequena membrana do tambor simboliza o Novo Testamento, a grande membrana o Antigo Testamento.

O bastão do coro representa a cruz de Cristo. A cabeça representa a cabeça do cordeiro pascal, símbolo do Cristo.

O sistro representa a escada de Jacó. É feito de dois montantes verticais, simbolizando o Antigo e o Novo Testamento. A junção dos dois, no cimo formando a Bíblia. Segundo alguns, o som do sistro simboliza o ruído das asas dos serafins e dos querubins no céu.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Que vos agrade o cantar dos meus labios

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ricardo Abrahão

 

‘Muitos são os que dizem fazer de tudo para agradar a Deus. Poucos são os que realmente se colocam em busca dele. Buscar a Deus com sinceridade do coração sem a pretensão do encontro. Como assim? A pretensão carrega a busca de vaidade e orgulho e para buscar ao Senhor é preciso despojar-se de si. É um esvaziar-se de tudo o que alimenta o orgulho. Quem busca a Deus é porque já o encontrou e entende que é na constante busca que se encontra a atividade do amor. O Catecismo da Igreja Católica inicia dizendo que o homem é ‘capaz’ de Deus : ‘O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso’ (27). Esse é o sentido do cantar na Igreja. Cantar em comunidade.

O canto tem um papel fundamental na liturgia católica : é constante busca de Deus. Sendo assim, deve ser bem-estruturado, usando todos os recursos possíveis para que a tarefa musical se faça sem reservas. 

Há uma grande confusão entre entusiasmo e impulso. Praticamente se ouve nas igrejas canto impulsivo, sem técnica, sem estudo e, o mais perigoso, sem entusiasmo. Cantar com entusiasmo é se encontrar mergulhado nas verdades do Espírito Santo. O entusiasmo quando verdadeiro só pode ser fruto do silêncio; Deus não vem na tempestade, mas somente na brisa suave, no sussurro delicado. O profeta Elias encontrou o estado de canto, ou seja, na suavidade da presença de Deus ele ficou encantado. Estar encantado é se encontrar em estado de canto. Por que o barulho tomou conta das igrejas? Porque o encantamento e o entusiasmo sobre o amor de Deus são substituídos pelos impulsos da vaidade humana sem o filtro do silêncio e do verdadeiro preparo espiritual. Isso não quer dizer que o amor de Deus não está presente no coração das pessoas, nada disso, mas o amor do Senhor tem se misturado com as ilusões do amor próprio, então, o resultado não é espiritual totalmente. Seria como se lêssemos o cardápio para matar a fome. É necessário muito trabalho para que o cardápio se concretize à mesa! Falar de Deus pelos impulsos não é a mesma coisa que falar em Deus pelo entusiasmo.

Música é oração e a oração católica é feita com música. Somente no exercício do silêncio se pode encontrar o Espírito Santo e abrir os lábios para emitir, com entusiasmo, os sons que chegam a Deus. A música cristã necessita de exame de consciência! O monge beneditino Anselm Grün, no seu livro A saúde como tarefa espiritual, convida ao pensamento : ‘Quem sou eu diante do meu Deus? Como estou? O exame de consciência propriamente dito é o encontro com Deus’. É questão de silêncio, escuta e humildade. Que a música seja portadora de entusiasmo a todos que desejam caminhar ao encontro com o Senhor!

‘Que vos agrade o cantar dos meus lábios e a voz da minha alma; que ela chegue até vós, ó Senhor, meu Rochedo e Redentor!’ (Sl 18 [19]).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/que-vos-agrade-o-cantar-dos-meus-labios-2.html