quinta-feira, 9 de abril de 2026

A liturgia siro-malabar São Tomé, o Apóstolo da Índia, nosso Pai na fé

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Clément Ettaniyil, OSB

Abade de Kappadu (Índia)


‘Em 52 D.C., São Tomé, o Apóstolo, chegou à costa de Malabar, em Kerala, no sul da Índia. Em 3 de julho de 72 d. C., São Tomé foi martirizado em Mylapur. O domingo de 3 de julho de 2022 marcou o 1950º aniversário do martírio de São Tomé. Neste ano jubilar da chegada de São Tomé, é bom refletir sobre a liturgia da Igreja siro-malabar.

A liturgia siro-malabar pertence à família litúrgica siríaca oriental que foi desenvolvida pelos discípulos de São Tomé. A missa de rito siro-malabar chama-se Qurbana que significa : oferenda, dádiva ou oblação. Qurbana resume todo o mistério da salvação em sua celebração da eucaristia. Existem três formas da Santa Missa na Igreja siro-malabar : a forma simples, a forma solene e a forma mais solene, Raza, que é o traço distintivo da liturgia siro-malabar. Se celebrado corretamente, são precisas duas horas e meia para completar o Raza.

A palavra Raza poderia também significar : ‘mistério’. A Raza é a celebração da Cruz, da Palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo que são três representações vivas de Nosso Senhor. Eles têm prioridade suprema em várias orações, hinos e rituais da Raza. O mistério da Cruz, da Palavra de Deus e do Corpo e Sangue de Cristo é completamente desvendado na Raza. A cruz sem a figura de Cristo significa o Senhor ressuscitado. ‘Ele não está aqui, mas ressuscitou’ (Lucas 24, 5). A Pomba no alto da cruz significa a teologia paulina sobre o papel do Espírito Santo na Ressurreição. O lótus abaixo indica a tentativa dos cristãos de São Tomé de interpretar o significado da cruz no contexto indiano. O lótus, na cultura indiana, é o símbolo da pureza; é a nossa flor nacional. A cruz sobre o lótus explica como o cristianismo indiano está bem integrado no país. Os botões prestes a desabrochar nas quatro extremidades desta cruz da ressurreição significam a nova vida e a esperança do Senhor ressuscitado. A cruz no topo dos três degraus significa o Calvário no qual a cruz foi erguida.

A Raza começa com a procissão para a Bema (pequeno altar no centro da igreja) e as duas velas são colocadas sobre a Bema simbolizando o Antigo e o Novo Testamentos. Os diáconos que carregam as velas durante a procissão simbolizam os discípulos chamados a ser luz do mundo. A Raza é introduzida pela lembrança do mandamento de Cristo (Lc 22, 19), tanto pelo celebrante como pelos fiéis. A Raza começa com a proclamação da encarnação de Nosso Senhor por meio do símbolo do hino dos anjos : ‘Glória a Deus nas alturas...’ (Lc 2, 14). Gradualmente, a comunidade adoradora entra no contexto do Antigo Testamento, da encarnação e da vida oculta de Jesus nos ritos introdutórios. A comunidade responde pronunciando : Amém, que significa : ‘Verdadeiramente, que assim seja, fielmente, certamente’; esta palavra ‘Amém’ é como a reconstituição de todo o Mistério da Salvação. Na Raza, ‘Amém’ é usado 65 vezes.

A oração do Senhor é recitada três vezes na Raza, como em outras formas de Qurbana. Enquanto característica distintiva da liturgia siríaca oriental, a oração do Senhor é recitada no início e no final da Raza. Após o rito da Reconciliação, a comunidade fiel, imaculada, de coração puro e rosto confiante invoca o Pai que está nos céus usando o Pai Nosso, como é costume em todas as liturgias, inclusive na Igreja latina.

Uma das orações frequentemente repetidas na Raza é : ‘Rezemos, a paz esteja conosco’. É o diácono quem a pronuncia. É usada quinze vezes em diferentes contextos. De certa forma, Raza é uma celebração da paz, do Senhor ressuscitado. A utilização dos salmos nos conduz no Mistério da encarnação e permite-nos identificar-nos com a vida do Antigo Testamento e proclamá-la como parte do Mistério de nossa história de salvação.

Uma das características únicas da Raza é a observância de um rito especial após os salmos, nomeadamente o Hino do Santuário e o Beijo da Cruz. Após a oração sacerdotal, que segue os salmos, o primeiro diácono entrega a cruz ao celebrante na Bema. Depois de homenageá-la com um beijo, ele ajuda o arquidiácono, os diáconos, os outros ministros e os fiéis a beijar a cruz. O coro canta o Hino do Santuário durante esse momento.

O hino de ressurreição Laku Mara d-Kolla, cantado três vezes durante a Raza, é atribuído a Simeão Bar Sabba (323-341). É um hino de celebração da vitória sobre o sofrimento, a morte e Satanás. Quando Laku Mara é cantado, o véu do santuário é tirado. É nossa tradição manter o santuário velado. O véu tem a função de revelar e esconder. O véu do santuário separa o santuário do restante da igreja. O véu, ao ocultar o santuário, revela aos participantes o Mistério do céu que está além da percepção do homem, a menos que seja revelado a ele. O véu do santuário indica que o céu está escondido à percepção humana ordinária. É na liturgia que experimentamos o céu. O véu do santuário simboliza Jesus, que é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2, 5), e a revelação é identificada com a abertura do céu (Lc 4, 25). A lâmpada suspensa do santuário simboliza a presença de Deus e também representa Cristo como a luz do mundo.

Em nossa liturgia, o rito do incenso ocorre cinco vezes. O rito do incenso indica a glorificação de Deus, o perdão dos pecados e a santificação do homem. Durante o hino de Laku Mara, o diácono incensa todo o santuário, toda a igreja e a comunidade reunida. O incenso é um símbolo de nossa submissão total a Deus, da oração da comunidade que sobe ao céu; é também um sinal de perdão dos pecados. Durante o rito de preparação, o cálice e a patena são incensados. O incenso faz parte da procissão do livro dos Evangelhos. No início da oração eucarística Qudasha, em sinal de reverência e adoração para com os dons eucarísticos e o altar, o celebrante os incensa. Finalmente, durante o rito da reconciliação como símbolo do perdão dos pecados, o celebrante, os diáconos, a comunidade, o altar e os Santos Mistérios nele colocados são incensados. Este elaborado rito de incensação durante o rito de reconciliação é visto apenas na liturgia siro-malabar.

A vida pública de Nosso Senhor é comemorada durante a liturgia da Palavra na Raza. Começa com o Trisagion (Is 6, 3; Ap 4, 8) cantado três vezes. A Igreja reconhece este hino como aquele que proclama o papel da Santíssima Trindade na salvação do homem e que expressa a grande alegria da assembleia litúrgica em ouvir, compreender e acolher os detalhes desta história da salvação através da Sagrada Escritura.

Há quatro leituras bíblicas na Raza que correspondem ao dia do tempo litúrgico. Em geral, as leituras são tiradas da Lei, dos Profetas, do Apóstolo e do Evangelho. As quatro leituras da Raza são uma celebração completa de toda a Bíblia e uma confissão incondicional nela como fonte da fé cristã. A combinação do hino responsorial (Shurraya), dos hinos pedagógicos (Turgamma) e do hino Aleluia (Zummara) durante a Raza mostra o quanto a Palavra de Deus é importante para o ser humano. Os hinos de ensino antes da leitura do Apóstolo e do Evangelho e a procissão solene do livro dos Evangelhos são características únicas da liturgia siro-malabar, particularmente para a Raza. Uma única vela é carregada durante a leitura da epístola. Isso significa que as revelações anteriores a Jesus são imperfeitas.

No final do canto do Aleluia, o arquidiácono e o diácono, acompanhados de todos os outros ministros, levam o livro dos Evangelhos e a cruz colocados respectivamente à direita e à esquerda do altar. O arquidiácono conduz a procissão levando o evangeliário à fronte; chega à Bema e entrega o livro ao celebrante. O celebrante primeiro o beija, depois o entrega aos demais ministros e a todos os fiéis para que o beijem. Os diáconos dirigem-se à entrada do santuário, defrontam-se com o povo e alternam a Turgamma do Evangelho com a comunidade. No final do Turgamma, o celebrante canta o evangelho, enquanto os diáconos ficam de cada lado dele com velas acesas e o arquidiácono à sua esquerda segurando a cruz. Após o canto do evangelho, o celebrante fecha o evangeliário, beija-o e o entrega ao diácono à sua direita, que o coloca sobre a mesa na Bema. A cruz também é colocada na mesma mesa.

O segundo diácono propõe a oração de intercessão, que apresenta a real disposição e situação dos fiéis. A resposta às orações de intercessão, ‘Senhor, tende piedade de nós’ (Mt 20, 29-34; Mt 15, 22; Lc 17, 13), mostra a boa atitude de quem pede as graças recebidas. Após as orações de intercessão, o celebrante reza em voz alta com as mãos estendidas. Terminada a oração, o arquidiácono pega a cruz e a entrega ao celebrante que, por sua vez, a entrega ao diácono à sua esquerda. O celebrante então pega o livro dos Evangelhos e o entrega ao diácono à sua direita. Os diáconos sobem ao altar e ficam de frente um para o outro diante dele.

Há a imposição de mãos no final da liturgia da Palavra. Deve-se notar que a bênção deve ser dada diretamente por Deus e, portanto, durante esse tempo, todos na comunidade, incluindo o celebrante, inclinam suas cabeças. O celebrante vai acompanhado do arquidiácono até o meio da nave, próximo a um grande véu (com uma cruz nele impressa), estendido ao chão, e recita a oração de frente para o altar. Na liturgia da Palavra celebramos a vida pública de Jesus e no rito de preparação das oferendas comemoramos a sua paixão, sua morte e o seu sepultamento. O rito de preparação é uma preparação imediata para a parte central do Qurbana. Agora o diácono dispensa todos os não batizados, os pecadores que não receberam a devida reconciliação de suas faltas e os catecúmenos que ainda não podem receber a Sagrada Comunhão. Em seguida, o segundo diácono beija e recebe o livro dos Evangelhos das mãos do primeiro diácono, e o primeiro diácono beija e recebe a cruz das mãos do segundo diácono. O evangeliário e a cruz são então colocados à direita e à esquerda do altar, simbolizando que o Filho e o Espírito Santo estão sentados à direita e à esquerda do Pai.

O celebrante então começa o hino e o coro e os diáconos respondem. Após cada parte do hino, o celebrante se ajoelha e beija três vezes o véu no chão, levanta-se e abençoa a comunidade com o sinal da cruz. Ele faz isso nos outros três lados do véu e retorna à posição original de frente para o altar. Os diáconos, agora voltados para o altar, cantam os versos : ‘Para sempre mais...’, voltam-se para o celebrante e cantam : ‘Imploramos a tua grande misericórdia...’. O celebrante e os diáconos cantam os versos : ‘Eis que estou convosco...’ e ‘Pela vossa graça...’ três vezes respectivamente. Ao final de cada série, os diáconos descem até o celebrante. Quando chegam ao véu e ficam de frente para o celebrante, todos cantam : ‘Salva-nos das tentações...’. Todos então se prostram juntos e beijam o véu. Ajoelhado, o celebrante abençoa os diáconos. Então todos se levantam e o celebrante os abençoa. O arquidiácono e os diáconos beijam a sagrada Paina do celebrante. Todo o ritual que é exclusivo dos cristãos de São Tomé da Índia é considerado como uma humilhação do celebrante, como uma preparação imediata para a anáfora Qudasha, a veneração da cruz e como uma cerimônia de despedida do celebrante que em breve deixará o Bema.

O celebrante lava as mãos na Bema como símbolo de purificação da comunidade enquanto o arquidiácono e o diácono vão para o bethgaze – os tesouros são dispostos em ambos os lados do altar. O cálice e a patena são preparados no bethgaze sul e norte, respectivamente. Em cada Raza, são preparadas apenas as partículas necessárias para a comunhão. Enquanto o coro canta os hinos próprios, o arquidiácono e o diácono trazem as oferendas eucarísticas ao altar que simboliza o cortejo fúnebre de Nosso Senhor. O arquidiácono em seguida os ergue em suas mãos em forma de cruz, coloca-os sobre o altar e cobre-os com um pano quadrado, soseppa, para simbolizar o sepultamento de Nosso Senhor e a cobertura do túmulo com uma pedra.

Na segunda parte da Raza, a comunidade recorda todos aqueles que estão intimamente ligados ao Mistério da salvação numa perspectiva cristã típica de São Tomé : a Santíssima Trindade, a Santíssima Virgem Maria, todos os apóstolos – muito especialmente São Tomé –, os patriarcas, os mártires, os justos, os confessores e os defuntos. O Credo é solenemente pronunciado pela comunidade enquanto se orienta à oração eucarística, parte central da memória do mistério da salvação na Raza.

O celebrante aproxima-se do altar com toda a humildade, prostrando-se três vezes no caminho. Ao chegar ao altar, beija o centro, a direita e a esquerda dele, representando respectivamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Na Anáfora, o celebrante solicita três vezes orações à comunidade, o que é uma expressão da íntima relação entre o celebrante e a assembleia litúrgica no corpo eclesial. Durante o Qudasha, o apogeu do evento de Cristo, a morte e ressurreição de Jesus é celebrada e proclamada. A Ressurreição é proclamada como ação suprema do Espírito Santo. Assim, a ação decisiva do Espírito Santo na salvação humana é proclamada também na Anáfora por meio do rito típico da Epiclese. No Qudasha dos apóstolos Mar Addai e Mar Mari, há orações de súplica e ação de graças. São pronunciadas pelo celebrante de cabeça baixa, voz baixa, mas audível e modulada. No final da segunda oração, g’hanta, canta-se o hino ‘Santo Senhor’ (Is 6,3; Ap 4,8). No meio das terceira e quarta orações g’hanta, inserem-se, respectivamente, a narrativa da instituição e a epiclese.

O Rito de Reconciliação sublinha a reconciliação da humanidade com o Pai celeste por meio do auxílio do Espírito Santo. Este rito começa com a oração : ‘Paz aos que estão no céu...’ que é uma combinação da teologia paulina nas epístolas do cativeiro e a teologia dos salmos. Os Salmos 51 e 122 são usados para incitar um coração arrependido, pronto para confessar os pecados e pedir a absolvição. Ao partir o Corpo e misturá-lo com o Sangue, proclama-se o efeito purificador da Sagrada Qurbana, bem como o papel da Santíssima Trindade na celebração dos Mistérios. Após misturar o Corpo com o Sangue, as duas metades são colocadas sobre a patena, uma em cima da outra em cruz, de modo que o lado partido da partícula na parte inferior fique voltado para o cálice, e o da partícula na parte superior, para o celebrante. Em seguida, o celebrante faz o sinal da cruz na própria fronte e na dos diáconos. Este é um resumo de um elaborado rito de reconciliação que existia na Igreja primitiva. Com a oração de diálogo na segunda parte do rito da Reconciliação, Raza se torna um ato público de reconciliação com seus aspectos verticais e horizontais. Esta saudação é uma confissão pública de que a Santíssima Trindade se entrega totalmente em Jesus Cristo ao Homem.

Como todos os que não são dignos de continuar são dispensados no final da liturgia da Palavra, a comunhão é um ato muito ‘privilegiado’ durante a Raza. A comunhão sob as duas espécies que são consagradas em cada celebração é distribuída à comunidade. No rito de comunhão, os fiéis são unidos ao Corpo ressuscitado do Senhor. Tornam-se assim herdeiros do Reino dos Céus. Após a comunhão, a comunidade, o diácono e o celebrante exprimem separadamente a sua ação de graças. Em seguida, após a oração do Senhor, o Huttamma, a oração final (selamento) é dita pelo celebrante com o sinal da cruz e a bênção, estando um pouco à direita da porta do santuário. A Raza termina com a despedida do celebrante ao altar, com a oração : ‘Descanse em paz, altar do perdão...’. Ele a diz isso sozinho, em silêncio, e beija o altar.

O rito siro-malabar Qurbana é uma liturgia que apresenta um mundo místico único. A experiência mística deste mundo está além da lógica e das ideias humanas. Ele leva os seres humanos ao Céu, isto é, eleva a terra ao Céu e faz descer o Céu à terra. A liturgia é o ponto de encontro do Céu e da terra e eles se tornam um. Portanto, o desafio de Zofar a Jó é também um desafio para todos nós : ‘Podeis descobrir as coisas profundas de Deus? Podeis descobrir o limite do Todo-Poderoso?’ (Jó 11, 7-8).’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


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