quarta-feira, 29 de abril de 2026

A busca da verdade que ilumina e salva

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Arthur Roche,

Cardeal prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a disciplina dos Sacramentos


‘A 1 de novembro de 2025, o Papa Leão XIV celebrou na praça de São Pedro a solenidade de Todos os Santos na presença de representantes do mundo educativo que se reuniram em Roma para o Ano Santo : nessa ocasião, proclamou o presbítero São John Henry Newman Doutor da Igreja e «co-padroeiro, com São Tomás de Aquino, de todos os agentes que participam no processo educativo» (Homilia).

O Dicastério para o culto divino e a disciplina dos sacramentos emitiu um Decreto em nome do Santo Padre (Prot. N. 760/25, a 9 de novembro de 2025, festa da Dedicação da Basílica de Latrão), pelo qual São John Henry Newman, presbítero e doutor da Igreja, foi inscrito no Calendarium Romanum Generale a 9 de outubro, com o grau de memória facultativa. Juntamente com o Decreto, foram publicados, em latim, os textos a serem inseridos em todos os Calendários, no Missale Romanum, na Liturgia Horarum e no Martyrologium Romanum. Cabe agora às Conferências episcopais traduzir, aprovar e, após a confirmatio/recognitio deste Dicastério, publicar os textos litúrgicos para tal celebração, conforme previsto pelas normas vigentes [cf. Carta Apostólica em forma de Motu próprio Magnum principium em AAS 109/10 (2017) 967-970; Decreto aplicativo Postquam Summus Pontifex em Notitiae 57 (2021) 152-222].

A inclusão de São John Henry Newman no Calendarium Romanum Generale, por ocasião da sua proclamação como doutor da Igreja universal, tem como objetivo propor a sua figura como um exemplo extraordinário da busca constante da verdade que ilumina e salva.

Na homilia da celebração eucarística durante a qual se realizou o rito da proclamação de São John Henry Newman, o Papa Leão XIV recordou que «a referência à noite que nos rodeia recorda-nos um dos textos mais conhecidos de São John Henry, o hino Luz terna, suave, leva-me mais longe». E continuou : «É tarefa da educação oferecer esta Luz Terna àqueles que, de outra forma, poderiam permanecer aprisionados pelas particularmente insidiosas sombras do pessimismo e do medo. Por isso, gostaria de vos dizer : desarmemos as falsas razões da resignação e da impotência e façamos circular no mundo contemporâneo as grandes razões da esperança». O falecido Papa Francisco, na encíclica Dilexit nos, salientava também outro facto significativo da vida de São John Henry Newman, que «tomou como lema a frase ‘Cor ad cor loquitur’, porque, além de toda a dialética, o Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir do seu Sagrado Coração. Seguindo ele, grande pensador, esta mesma lógica fazia com que o lugar do encontro mais profundo consigo mesmo e com o Senhor não fosse a leitura ou a reflexão, mas o diálogo orante, de coração a coração, com Cristo vivo e presente» (n. 26).

Nos textos litúrgicos desta celebração, a Coleta revela-nos a essência do percurso espiritual do Santo : Deus guiou-o com a sua ‘luz terna’ até o conduzir na paz da sua Igreja. Essa sua viagem torna-se uma inspiração e um motivo de súplica também para nós, que desejamos ser levados para fora das sombras e das aparências, a fim de chegar à plena luz da verdade.

A proposta das leituras bíblicas pretende iluminar algumas características da vida e da pessoa do Santo. A primeira leitura, tirada do Livro do Eclesiástico, apresenta um homem que, pela vontade do Senhor, é preenchido com o espírito da inteligência (cf. Ecli 39, 8-14). O Salmo (39, 2 e 4ab.7-8a.8b-9.10), com o seu refrão — Eis que venho. No rolo do livro está-me prescrito que devo cumprir a Vossa vontade— faz com que a assembleia expresse o desejo de viver, como o Santo, a plena docilidade à vontade de Deus, mesmo em situações adversas. O trecho evangélico, precedido pela aclamação com a qual a assembleia reconhece e acolhe o único Pai que está nos céus e o único mestre, Cristo (cf. Mt 23, 9b.10b), é tirado do Evangelho segundo Mateus (13, 47-52), no qual o Reino de Deus é comparado com uma rede lançada ao mar que recolhe toda a espécie de peixes. Só quem se torna discípulo pode compreender a parábola do Reino, tornando-se assim como um dono de casa «que tira coisas novas e velhas do seu tesouro». John Henry Newman fez-se discípulo em busca da verdade de Deus : tornou-se, por isso, para a comunidade dos crentes um doutor da fé, capaz de tirar do seu tesouro coisas novas e coisas velhas, recorrendo a todo o tesouro da revelação, do qual a sabedoria dos Santos nunca deixa de tirar proveito.

Na Liturgia das Horas, após a nota hagiográfica, é proposta como segunda leitura do Ofício das Leituras uma passagem retirada da Apologia pro Vita Sua, obra escrita pelo Santo em 1864, na qual ele relata a sua experiência de conversão ao catolicismo, comparando-a com um navio que entra no porto depois de ter deixado para trás o mar agitado.

Por fim, o Martyrologium Romanum coloca o elogio ao Santo doutor em primeiro lugar entre os santos lembrados a 9 de outubro.

A inclusão desta celebração no Calendarium Romanum Generale ajuda-nos a contemplar São John Henry Newman como um homem conduzido pela ‘luz terna’ da graça de Deus para encontrar a paz na Igreja católica. As suas contribuições de grande relevância teológica e eclesiológica, bem como as suas composições poéticas e devocionais, continuam a inspirar o caminho espiritual e intelectual dos fiéis, enquanto a sua busca constante por sair das sombras e das aparências e chegar à plenitude da verdade permanece um exemplo luminoso para cada discípulo do Ressuscitado.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-03/por-003/a-busca-da-verdade-que-ilumina-e-salva.html


domingo, 26 de abril de 2026

A visão antropológica nos santos padres da Igreja e na atualidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘Nós estamos num período muito importante na vida humana onde se ressaltam o desejo forte pela paz entre os povos e nações. Nós rezamos ao Senhor pelo dom da paz. Nós temos presentes a visão de Deus verdadeiro, Uno e Trino, a criação, as pessoas, as suas obras, a necessidade do cuidado com as obras do Criador. Deus criou o ser humano; homem e mulher os fez à sua imagem e semelhança (cfr. Gn 1,27). Nestes últimos anos e meses estamos presenciando uma série de casos de feminicídios, a morte de mulheres por serem mulheres, muitas vezes por seus maridos, companheiros ou ex-companheiros. Pela Palavra de Deus que coloca a igualdade entre o homem e mulher somos nós convidados a lutar pela vida superando a morte de muitas pessoas, sobretudo com as mulheres. A seguir, vejamos nós ver a forma como os santos padres, os primeiros escritores cristãos colocaram a visão antropológica que sirva de inspiração para agir bem no mundo atual.

Deus os fez homem e mulher

São Clemente, bispo de Roma, Papa, século I afirmou a criação humana, homem e mulher, por Deus Criador na qual Ele a plasmou por suas próprias e imaculadas mãos, ao dizer : Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, fazendo-os homem e mulher, masculino e feminino (cfr. Gn 1,26-27). Cumpridas todas as obras os aprovou o Senhor Deus e os bendisse, dizendo que era para eles crescerem e multiplicarem-se (cfr. Gn 1, 28). Criados desta forma, nós somos chamados, tanto os homens como as mulheres a fazer a vontade divina com toda a nossa força e praticar obras de justiça, de paz e de amor [1].

A Palavra de Deus falou da criação humana

A Carta de Barnabé, um escrito no final do século I disse que a criação humana foi obra de Deus Uno e Trino, pois o Senhor disse ao Filho : ‘Façamos o homem, homem e mulher, à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar’ (Gn 1, 28). e vendo a obra de suas mãos saindo de uma forma muito boa disse também o Senhor para eles crescerem e multiplicarem-se e possam encher a terra (cfr. Gn 1, 28) [2]. Por isso Deus nos criou de uma forma tão bem constituídos de modo que é preciso viver a unidade entre o homem e a mulher sem um dominar o outro ou tirar-lhe a própria vida.

Formou-os à sua imagem

A Carta a Diogneto, escrito do século II disse que Deus deu ao ser humano, homem e mulher a palavra e a razão para contemplar o Criador de todas as coisas. E somente a eles permitiu-lhes a graça da contemplação, o olhar para o alto, para o seu Criador. Ele os formou à sua Imagem, enviando-lhes seu Filho Unigênito, para anunciar-lhes o Reino dos céus. Desta forma o ser humano amando o seu Criador ele se torna imitador da sua bondade [3].

A dignidade do ser humano

Teófilo de Antioquia, bispo do século II teve presente coisas boas em relação à criação em geral, mas em relação à criação humana não existem palavras que expressem a sua grandeza, ainda que a narração da Escritura divina seja breve. O fato maravilhoso de Deus ao dizer : ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’ (Gn 1,26) dá a entender a dignidade do ser humano, homem e mulher. Ele disse estas palavras a seu próprio Verbo e à sua Sabedoria. Ele também ordenou que o ser humano se alimentasse das ementes da terra e buscassem o bem de toda a criação, incluída a sua, a humana [4].

Deus glorificado na sua criatura

Santo Ireneu de Lião, bispo, século III afirmou que Deus será glorificado na sua criatura, conformada e modelada no seu próprio Filho, pois pelas mãos do Pai, isto é, por meio do Filho e do Espírito Santo, o ser humano, homem e mulher e não uma parte tornam-se semelhante a Deus [5]. Nós vemos a importância da criação por parte de Deus Criador ao ser humano na visão de Deus que é Uno e Trino concedendo-lhes todas as graças para uma vida feliz e realizada.

A bondade do Criador

Tertuliano, padre da Igreja dos séculos II e III afirmou a bondade do Criador ao criar as coisas deste mundo. O fato era este : Deus viu aquilo que estava realizando, honrava-o, completando a bondade de suas obras pelo seu olhar. Deus bendizia as coisas boas, para que Ele fosse sempre anunciado bom em todos os aspectos, em todos os tempos e eras, tanto no dizer como no fazer. O mundo foi constituído de bens do Senhor. No entanto, para quem as coisas eram preparadas senão para aquele que seria à sua imagem e semelhança? A divina bondade criou, não só com uma palavra de ordem o ser humano, mas com um ato generoso da sua mão, com uma benigna promessa : ‘Façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança’(Gn 1,26).

A referência é sempre à bondade, não como uma virtude do Criador, mas como uma Pessoa, porque Ela falou, plasmou o homem e a mulher do lodo até fazê-los de carne, sendo um ato de amor de Deus. ‘A bondade soprou até fazê-los tornarem-se uma alma, não morta, mas viva’ [6]. A bondade o fez senhor de todas as coisas, não só para dominá-las, mas para dar-lhes o nome. Novamente Deus previu para ele uma ajuda : ‘Não é bom que o homem esteja só, de modo que Ele criou a mulher’(Gn 2,18 )[7]. Nós percebemos a importância do ser humano ser criado à imagem e semelhança de Deus.

À nossa Imagem

Santo Agostinho, Bispo de Hipona séculos IV e V afirmou que Deus criou o ser humano dando as graças de ser a sua imagem e semelhança.  Em seguida o Senhor disse que ele tenha o poder sobre os peixes do mar e sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais, privados da razão (cfr. Gn 1,28) [8]. Para o Bispo de Hipona o fato de que o ser humano é imagem e semelhança de Deus são dons divinos para serrem vividos na realidade familiar, comunitária e não tem significado de destruição das criaturas, mas amor a mesma e serviço para que todos vivam bem na paz e no amor.

Nós somos convidados a viver a Palavra de Deus na igualdade e no amor entre as pessoas, homens e mulheres. Nós lutemos em favor da vida para que se afaste a violência contra as mulheres e os casos de feminicídios. A Diocese de Marabá tem um projeto, um pacto contra o feminicídio para que seja implantado sempre mais nas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. O Senhor nos ajude nesta missão de viver a fraternidade, o amor entre as pessoas e um dia na eternidade, no Reino de Deus.’

 

[1] Cfr. Lettera ai Corinzi, 33,4-8 di Clemente di Roma. In: Lúomo immagine somigliante di Dio. Milano: Paoline, 1991, pgs. 87-88.

[2] Cfr. Carta de Barnabé, 6,11-12. In: Padres Apostólicos, São Paulo: Paulus, 1995, pgs. 294-295.

[3] Cfr. Carta a Diogento, 10,2-4. In: Padres Apologistas, São Paulo, Paulus, 1995, pg. 27.

[4] Cfr. Segundo Livro a Autólico 2,18 de Teófilo de Antioquia, In: Padres Apostólicos, Idem, pg. 248.

[5] Cfr. Ireneu de Lião, V,6,1. São Paulo: Paulus, 1996, pg. 530.

[6] Cfr. Contro Marcione, 22 di Tertulliano. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 132.

[7] Cfr. Idem, pg. 132.

[8] Cfr. La Genesi alla Lettera 3,20,30-32. In: L’uomo immagine somigliante di Dio, Idem, pg. 255.

  

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-04/visao-antropologica-santos-padres-igreja-atualidade.html

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O tesouro da reciprocidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Cardeal Jose Tolentino de Mendonça 


‘A relação entre filosofia e teologia não tem sido simplesmente de coexistência académica, mas uma aventura de reciprocidade. Como observou S. João Paulo II no prefácio da encíclica Fides et ratio : «Fé e razão são como duas asas com as quais o espírito humano levanta voo para a contemplação da verdade». Contudo, na contemporaneidade, essas asas parecem bater em frequências diferentes, gerando, muitas vezes, uma crise de inteligibilidade.

Contudo, no século XX a relação não só se consolidou, como se renovou numa base convergente : «Já não vos chamo servos, mas amigos» (João 15, 12-17). Expandindo a referência joanina, foi enfatizada a necessidade ogiae. Segundo Karl Rahner (1904-1984), figura central do pensamento teológico do século passado, a filosofia não se limita a embelezar a teologia, mas antes a fornecer-lhe uma linguagem conceptual que lhe confere o rigor científico necessário. Não paradoxalmente, este processo introspetivo — certamente de natureza epistemológica — abre as portas a um caminho não isento de incertezas, mas aberto a horizontes inexplorados e perspectivas dignas de serem trilhadas. Desta forma, a filosofia continua a ser um interlocutor essencial que não só estrutura logicamente o método, como também ajuda a articular a experiência da fé face às questões de um mundo em constante e rápida transformação. A teologia cristã, desde as suas origens patrísticas, reconheceu que o anúncio do Logos exigia a universalização das categorias do pensamento grego. Quando a presença da filosofia está ausente, a teologia corre o risco de se refugiar no fideísmo ou num sentimentalismo desprovido de rigor intelectual.

Bento XVI, no seu magistério, procurou repetidamente examinar este lugar onde o encontro não é apenas necessário, mas também profícuo, como quando — refletindo sobre o contributo da religião para o debate cultural contemporâneo — destaca «a profunda concordância entre o que é grego no melhor sentido e o que é fé em Deus sobre o fundamento da Bíblia» e, alargando o âmbito da sua reflexão ao prólogo do Evangelho de João, afirma que «Logos significa tanto razão como palavra, uma razão que é criadora e capaz de comunicar, mas, precisamente, como razão».

Por isso, não se pode deixar de reconhecer o contributo da teologia para o pensamento filosófico, que foi enriquecido com perspectivas singulares. O debate sobre a Trindade e a Encarnação levou à definição da pessoa como subsistência relacional, um conceito fundamental para a antropologia, a psicologia e a ética moderna. A ideia de um mundo criado a partir do nada (ex nihilo) introduziu a distinção entre essência e existência, levando a filosofia a questionar a contingência radical do ser, tal como a análise detalhada do pecado e da graça deslocou a atenção do intelectualismo grego para a centralidade da vontade e da liberdade pessoal. Neste contexto, os teólogos desenvolveram e aperfeiçoaram a teoria da analogia, fundamental para a gnoseologia e para a filosofia da linguagem. Além disso, a visão teológica do homem como ‘imagem de Deus’ forneceu o fundamento ontológico para o conceito universal de dignidade humana e, sucessivamente, para os direitos humanos. Graças à teologia, o conceito linear e providencial do tempo substituiu a antiga visão cíclica, abrindo caminho às ideias modernas de progresso e significado da história. Ao analisar mais de perto, percebe-se que a crise atual surge — pelo menos em parte — como uma problematização do formato da reciprocidade. A crise da linguagem exacerba a dificuldade de propor verdades eternas num mundo de significados fluidos e em constante transformação. O cientificismo nega qualquer conhecimento que não seja empiricamente demonstrável. E, dulcis in fundo, um subjetivismo exacerbado, no limite da paranoia, reduz a verdade a um somatório de experiências individuais, por sua vez interpretadas segundo cânones tão elásticos quanto volúveis. Precisamente neste território fronteiriço, uma justa reciprocidade entre teologia e filosofia serve de filtro. A sua amizade obriga ambas a manterem coerência interna e relevância externa. Nesta viagem — rica não só de incógnitas, mas também de agradáveis ​​surpresas — encontra-se um indício favorável no prefácio da constituição apostólica Veritatis gaudium, que propõe o caminho da transdisciplinaridade, exercida com criatividade como «fermentação de todos os saberes dentro do espaço de Luz e Vida oferecido pela Sabedoria que dimana da Revelação de Deus».

A filosofia, portanto, é uma companheira que interroga e aprofunda. Com as suas perguntas, mesmo as incómodas, contribui para a capacidade de admiração e, por vezes, até de voltar atrás ou reconfigurar-se, redescobrindo — sem complexos — a própria falibilidade e vulnerabilidade. Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), filósofa e mística, personifica esta síntese. Para ela, a busca da verdade era, em si mesma, uma oração. Através da fenomenologia, ela foi capaz de criar uma ponte ideal entre a humanidade impaciente e aquela voz grave que ressoa na alma e cujo chamamento, como dizia Santo Agostinho, não pode ser silenciado. Esta perspectiva dialógica permite que a teologia não seja um sistema fechado, mas antes um conhecimento voltado para fora.

Sem dúvida, a relação entre teologia e filosofia não está isenta de tensões. Mas, ao mesmo tempo, emergem vislumbres de futuro, bem como tantas pontes de diálogo inesperadas entre o pensamento filosófico e o teológico. A crise nem sempre é um crepúsculo : por vezes é um parto. Perante estes amplos horizontes, «a razão científica — como argumentou o Papa Francisco — deve alargar os seus limites na direção da sabedoria, para não se desumanizar e empobrecer. Desta forma, a teologia pode contribuir para o debate atual sobre ‘repensar o pensamento’, demonstrando que se trata de um conhecimento verdadeiramente crítico, como conhecimento sapiencial».

Todos estes desafios podem ser vistos, de qualquer maneira, de forma positiva, tanto que não será mais possível prescindir do diálogo com as várias ciências, as diferentes expressões culturais e as outras religiões. Será, portanto, necessário promover o seu estudo, assim como o das tradições filosóficas menos conhecidas nos contextos eclesiásticos (consideremos o pensamento asiático e africano ou o pensamento oral dos povos aborígenes). Parece evidente que a filosofia não esgotou de forma alguma a sua função, mas serve como polaridade recíproca, abrindo canais de comunicação e compreensão mútua. Portanto, ela — certamente enriquecida pelas contribuições de outras disciplinas — continua a ser imprescindível não só nas fases iniciais da formação para o presbitério, mas também ao longo de toda a vida sacerdotal.

Neste caminho de abertura mútua, será possível respirar um vigor totalmente original, portador de novidades e capaz de revelar filões até agora deixados à margem ou totalmente desconhecidos. Durante o recente Jubileu do mundo educativo, o Papa Leão XIV traça o método a seguir quando afirma que «quem estuda eleva-se, amplia os seus horizontes e as suas perspectivas, para recuperar um olhar que não se fixa apenas no chão, mas é capaz de olhar para o alto : para Deus, para os outros, para o mistério da vida. Esta é a graça do estudante, do investigador, do estudioso : receber um olhar amplo, que sabe ir longe, que não simplifica as questões, que não teme as perguntas, que vence a preguiça intelectual e, assim, derrota também a atrofia espiritual».

Neste tempo — feito de empenho, solicitude e criatividade na resposta aos sinais dos tempos — essas perguntas constituirão um apoio para reforçar a formação teológica; aliás, podem até revitalizá-la se a filosofia for concebida não como uma concorrente ameaçadora, mas como uma amiga colaboradora verdadeiramente genial. E, inspirando-se na história de Lila e Lenù, protagonistas do romance de Elena Ferrante, a filosofia e a teologia são «duas metades de uma mesma pessoa, ligadas por um fio invisível».’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-04/por-004/o-tesouro-da-reciprocidade.html

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

«Que os fortes nos ouçam para que não se tornem fracos na injustiça»

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Andrea Tornielli


‘Nasceu a 2 de março de 1876, há cento e cinquenta anos. Foi eleito a 2 de março de 1939, dia do seu aniversário. Eugenio Pacelli, Papa Pio XII, escolheu para o seu brasão episcopal a imagem de uma pomba com um ramo de oliveira e o lema Opus iustitiae pax («A paz é fruto da justiça»). Assumiu o pontificado nas vésperas da Segunda Guerra mundial. Assim que tomou posse, tudo fez para evitar o início do conflito. As suas palavras são atuais como nunca.

Na sua mensagem radiofônica de 24 de agosto de 1939, imediatamente após o Pacto Molotov-Ribbentrop e uma semana após a invasão da Polónia pelo exército alemão, Pio XII disse : «Hoje, quando, apesar das Nossas repetidas exortações e do Nosso particular interesse, os receios de um sangrento conflito internacional se tornam cada vez mais persistentes; hoje, quando a tensão dos ânimos parece ter atingido um ponto em que o desencadear do terrível turbilhão da guerra parece iminente, dirigimos com espírito paternal um novo e mais fervoroso apelo aos Governantes e aos povos : aos primeiros, para que, deixando de lado as acusações, as ameaças e as causas de desconfiança mútua, procurem resolver as diferenças atuais pelo único meio adequado para tal, ou seja, através de acordos comuns e leais aos últimos, para que, com calma e serenidade, sem agitação indevida, incentivem as tentativas pacíficas daqueles que os governam».

«É com a força da razão — acrescentou o Papa Pacelli — e não com a das armas, que a Justiça avança. E os impérios não fundados na Justiça não são abençoados por Deus. A política emancipada da moral trai aqueles que a desejam assim». Estas palavras da mensagem radiofônica permanecem célebres : «O perigo é iminente, mas ainda há tempo. Nada se perde com a paz. Tudo se pode perder com a guerra».

O Pontífice apelou à negociação e à diplomacia : «Que os homens voltem a compreender-se uns aos outros. Que retomem as negociações. Negociando com boa vontade e com respeito pelos direitos mútuos, perceberão que negociações sinceras e eficazes nunca estão impedidas de alcançar um sucesso honroso. E que se sintam grandes — verdadeiramente grandes — se, silenciando as vozes da paixão, tanto coletiva como individual, e permitindo que a razão reine suprema, tiverem poupado o sangue dos irmãos e a ruína da pátria».

Esta mensagem incluía ainda um apelo direto aos ‘fortes’ : «Que os fortes nos ouçam, para que não se tornem fracos na injustiça. Que os poderosos nos ouçam, se desejam que o seu poder não seja de destruição, mas sim para apoiar o povo e salvaguardar a tranquilidade, a ordem e o trabalho».

Este apelo, como se sabe, foi ignorado. Durante os anos da guerra, Pio XII, através das suas mensagens radiofônicas, lançou as bases para um novo equilíbrio global, saudando a instituição das Nações Unidas. Poucos meses após o fim do sangrento conflito que custou a vida a mais de 60 milhões de pessoas, na sua mensagem radiofônica de Natal de 1945, afirmou : «Quem procura segurança para o futuro não deve esquecer que a única verdadeira garantia reside na própria força interior, isto é, na proteção da família, dos filhos, do trabalho, no amor fraterno, no abandono de todo o ódio, de toda a perseguição ou opressão injusta contra cidadãos honestos, na leal concórdia entre os Estados, entre os povos».

Na passagem seguinte, o Papa falou sobre aquilo a que hoje chamamos fake news, a manipulação da opinião pública, crucial na promoção de guerras : «Para isso, é necessário que renunciemos em todos os lugares à criação artificial, pelo poder do dinheiro, pela censura arbitrária, pelos julgamentos unilaterais e pelas declarações falsas, de uma suposta opinião pública que move o pensamento e a vontade dos eleitores como caniços agitados pelo vento. Deve-se dar o devido valor à verdadeira e grande maioria, composta por todos aqueles que vivem honesta e pacificamente do seu trabalho, no seio das suas famílias, e que desejam fazer a vontade de Deus».

Pio XII concluiu : «A futura obra da paz visa banir do mundo qualquer uso agressivo da força, qualquer guerra ofensiva. Quem não acolheria de bom grado tal propósito, e especialmente a sua efetiva implementação? Se isto não for apenas um gesto de boa vontade, porém, é necessário excluir toda a opressão e toda a ação arbitrária, tanto interna como externa».’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-04/por-004/que-os-fortes-nos-oucam-para-que-nao-se-tornem-fracos-na-injust.html


 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Uma grande abadessa do século XX: Madre Pia Gullini

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Maria Augusta Tescari, OCSO

Mosteiro de Vitorchiano, Itália


‘Nas realidades da história e da vida de nossas comunidades, existem caminhos que escapam a uma análise superficial : é preciso cavar fundo para reconhecer as vias secretas que a Providência usa para abrir um caminho entre as contradições humanas.

Às vezes nos surpreendemos com a fecundidade da comunidade de Vitorchiano, que deu origem a numerosas fundações. Esta milagrosa vitalidade pode ser explicada pela lei evangélica do grão de trigo que morre e que, ao morrer, dá muito fruto. Todos sabem do sacrifício da Irmã Maria-Gabriella, mas, na complexa história da comunidade que foi durante muito tempo a Cinderela da Ordem por suas origens e sua pobreza material e intelectual, havia outro grão menos conhecido, de qualidade um tanto extraordinária : madre Pia Gullini, abadessa de Grottaferrata de 1931 a 1940 e de 1946 a 1951. Nela, a humildade, a maternidade e o sentido da Igreja atingiram, a nosso ver, um grau excepcional.

Sabemos que Madre Pia sempre teve o desejo de fazer uma fundação; ela comparava esse desejo a uma árvore que ela cultivava e que outros (os superiores e as circunstâncias) continuamente cortavam, mas que ainda estava viva. Em 1948, ela escrevia a um abade da Ordem :

‘Quando o Senhor quiser, dirá a esta árvore : ‘Faze crescer as tuas flores’, será a sua primavera e ninguém poderá impedir o seu florescimento.’

E ao mesmo correspondente, quatro anos depois :

‘O Eterno procede lentamente, mas sempre consegue. Estou segura d’Ele e deixo a Ele sua liberdade infinita. Se eu já estiver com Ele quando Ele realizar esse desejo, ajudarei em dobro.’

Profetisa, Madre Pia o fora em diversas ocasiões : em relação ao então nascente ecumenismo e à utilidade de difundir a simples mensagem de amor e doação da irmã Maria-Gabriella, mas também sobre sua própria morte e a impossibilidade de unir-se à sua comunidade em Vitorchiano, sua comunidade que para lá foi transferida de Grottaferrata em 1957. E bem sabemos que os profetas nunca tiveram uma vida fácil…

Sua vida

Ela nasceu em 16 de agosto de 1892 em Verona, onde sua família residiu por vários anos por causa do trabalho de seu pai. Maria Elena Gullini pertencia a uma família da alta burguesia bolonhesa. Seu pai, Arrigo, era engenheiro ferroviário : trabalhou na Itália e em Montenegro.  Ele se estabeleceu com sua família em Roma, provavelmente por causa dos estudos universitários de seus três filhos. Foi subdiretor dos Caminhos de Ferro do Estado além de presidente e administrador da importante Sociedade dos Estaleiros de Gênova, a Ansaldo.

Sua mãe, Celsa Rossi, distinguia-se por sua excepcional beleza, por uma extraordinária bondade e inteligência; na juventude pensara na vocação religiosa, mas não fora capaz de realizá-la; muito piedosa, viveu com intensidade a sua fé e procurou transmiti-la aos filhos. Reservada, não gostando de tudo o que era vaidade, deixou de bom grado que a filha mais velha, bela e empreendedora, a substituísse nas obrigações mundanas : Maria, portanto, acompanhava o pai às diversas recepções e refeições da alta sociedade.

Uma amiga relata que, no escritório do engenheiro Gullini, havia um grande retrato a óleo de Maria em um vestido de noite preto e branco, muito decotado e deixando os braços nus – para grande desgosto de sua mãe –, um retrato que revelava o lugar que a filha mais velha ocupava na vida social do pai. Madre Pia dizia que foi durante um baile, experimentando sua insatisfação diante das coisas fúteis e passageiras, que tomou a decisão de seguir a vocação religiosa.

Dos 8 aos 18 anos, estudou em Veneza, com as Damas do Sagrado Coração, recebendo ali a educação que então se dava às moças de boa família. O ensino era dado em francês. Com seu temperamento artístico, Maria se destacava em música e em pintura. Aos dez anos, recebeu a primeira comunhão das mãos do patriarca José Sarto, futuro São Pio X. Aos 12 anos, viu-se em perigo de morte devido a uma peritonite tuberculosa que a deixou, ao longo da vida, uma infeliz disposição à fadiga. Ela era muito viva, orgulhosa e rebelde, até violenta, ávida de liberdade, com evidentes qualidades de ‘líder’; amava a natureza, compadecia profundamente com o sofrimento dos outros e com as necessidades dos pobres, íntegra e leal, sem o menor traço de respeito humano. Ela passava as férias de verão na vila da propriedade da família perto de Bolonha ou em Montenegro. Por conta do trabalho do pai, foi madrinha na inauguração de trechos da ferrovia e as fotos de família a mostram com buquês de flores na mão enquanto corta uma fita. Parentes distantes ou camponeses ainda se lembram da chegada da ‘Demoiselle’ na casa de campo dos avós e como ela estava atenta em cuidar de suas necessidades materiais e espirituais.

Ela estudava, com o pai, inglês e alemão pelo método Berlitz – uma novidade na época! – e com uma ‘professora’ que vinha em casa para as aulas práticas. Esportiva, adorava patinação e equitação, frequentando cavalgadas em Roma. Após a declaração de guerra, fez o curso de enfermagem em ‘La Samaritana’, com o desejo de ir para a frente de batalha para tratar de soldados feridos. Seu pai se opôs ao projeto. Maria ia à missa quase todas as manhãs com a mãe e ensinava catecismo às crianças da elegante paróquia de São Camilo e da periférica de Santa Helena, em Prenestino, que ela amava. A frequência com que visitava as Irmãzinhas da Assunção de Via Nino Bixio a levava a acompanhá-las frequentemente, praticando com elas a ajuda aos pobres.

Aos pedidos de casamento que lhe eram feitos, opunha-se com recusas que afligiam a família : ‘Não, não é bonito! Falta requinte! Ele é muito alto! Ele é muito pequeno!…’ Levada a refletir na presença de um par ‘ideal’, consentiu em ficar noiva, mas não oficialmente, de um muito simpático jovem engenheiro de Veneza, mas quando este último, um oficial da frente de batalha, quis que seu vínculo fosse esclarecido, Maria, que havia tomado consciência de sua vocação religiosa, lhe respondeu que não se casaria com ele.

Seu confessor e diretor espiritual foi um conhecido padre do Santíssimo Sacramento, o padre Di Lorenzo; foi ele quem mais ferozmente se opôs à sua entrada na Trapa (segundo ele, com o seu temperamento exuberante e inclinado à autonomia, não seria possível que Maria escolhesse o silêncio e a obediência dos trapistas), mas depois tornou-se um hóspede assíduo de Grottaferrata. Além disso, Maria Gullini, num primeiro momento, não tinha a menor intenção de entrar na Trapa. O serviço e a assistência aos pobres a atraíram para uma congregação ativa e, apesar da oposição de sua família, ela pediu para ser admitida nas Irmãzinhas da Assunção. Alta, bonita, cheia de vida e inteligente, ela tinha qualidades excepcionais demais para ser aceita ‘sic et simpliciter’. Madre Teresa, a superiora, mandou-a pedir conselho a Dom Norbert Sauvage, procurador dos trapistas, e este a obrigou a fazer um retiro de oito dias na Trapa de Grottaferrata, em clausura.

Era 14 de novembro de 1916 e Maria escrevia :

‘Faço este retiro orando pelos pecadores : quanto ao resultado, Senhor, inspira o pai e farei exatamente o que ele me disser.’

E Dom Norbert que, no início de seu retiro lhe havia anunciado : ‘Falaremos de Jesus Cristo’, disse-lhe :

‘Senhorita, parece-me que sois chamada para uma vida de amor; Jesus parece querer de vós o sacrifício completo. Vossa natureza quer a vida ativa, vossa alma exige e reclama a vida contemplativa’ e lhe propõe imediatamente a Trapa. Mas não aqui.

‘Em Laval, um dos primeiros mosteiros da Ordem, vivem oitenta monjas, entre as quais muitas jovens. Um demônio como vós, em tal massa de freiras, não se destacará muito.’

É muito provável que Dom Norbert tenha pensado em assegurar a senhorita Gullini uma boa formação monástica para fazê-la, em seguida, retornar a Grottaferrata para dirigir a comunidade, mas os documentos não nos permitem afirmar que houve um acordo com a abadessa de Grotta sobre este assunto.

Mas é certo que a partir desse momento começa um período de combate para Maria : com seus pais, com seu confessor e com outros padres que acusavam Dom Norbert de tê-la influenciado, mas sobretudo consigo mesma, que não queria se render à graça. O resultado desse combate foi a vitória de seu ‘doce Senhor’ e a entrada de Maria em Laval em 28 de junho de 1917. A forma desinibida de agir da jovem desconcertou as monjas de Laval, como já havia espantado as monjas de Grottaferrata, mas a vocação era evidente, assim como a boa vontade da candidata, e por essa razão, houve paciência de ambos os lados. Em 29 de setembro de 1917, Irmã Pia – este nome lhe foi dado em memória do Papa que lhe deu a primeira comunhão em Veneza – tomou o hábito cisterciense; em 16 de julho de 1919 emitiu os primeiros votos e, três anos depois, na mesma data, emitiu a profissão perpétua.

Em 1923, foi nomeada mestra das irmãs conversas, que somavam cerca de quarenta. Eis Madre Pia, em Laval, tal como a evocam as irmãs conversas :

‘Madre Pia tornou-se Madre mestra quase imediatamente após sua profissão. Minha Reverenda Madre Lutgarde confiava nela; ela dizia que, exceto alguns defeitos externos, minha madre Pia era perfeita. Ela era quem eu mais amava; foi ela quem mais me fez bem : fiquei encantada ao ouvi-la falar de Jesus e ao ver seu espírito de fé...’

Ela era uma alma ardente do amor de Deus; ela amava a Regra. Ela ia lavar as irmãs mais velhas, arrumar suas camas antes das quatro horas. Nunca tinha trabalhado no jardim, mas veio cavar com as irmãs e depois agradeceu... Tinha qualidades para tudo... Sua Madre mestra lembrava de sua extrema simplicidade e descreveu-a como uma alma magnânima, ardente, capaz de todos os sacrifícios.

A partir de 1923, Madre Agnès Scandelli, abadessa de Grottaferrata, solicitou a Laval ajuda de pessoal para a muito pobre comunidade italiana; mas Madre Lutgarde só pôde conceder-lhe – relutantemente – três anos depois! E essa ajuda foi naturalmente a italiana Madre Pia : ‘Estamos fazendo um grande sacrifício e Madre Pia também; mas não queremos recusar nada ao bom Deus’. O motivo da repatriação da jovem monja era outro : Madre Pia sofria de um início de tuberculose e esperava-se que uma mudança de ares lhe fizesse algum bem, o que de fato aconteceu, embora lentamente. Madre Pia chegou a Grottaferrata em 9 de novembro de 1926. A dura partida de ‘seu’ mosteiro de Laval foi muito dolorosa, e a integração em sua nova comunidade foi tudo menos fácil. A recém-chegada, de cultura e formação diferentes, doentia, com dons humanos excepcionais, provocava reações de rejeição. Sua decisão no ano seguinte de se estabilizar em Grotta foi heroica, dadas as circunstâncias.

As ‘Crônicas’ falam de uma pressão por parte de seus pais para retê-la na Itália, mas de acordo com algumas cartas ou outros documentos é possível deduzir uma discreta insistência por parte dos superiores maiores, preocupados com o futuro de Grotta, privada de irmãs capazes de suceder à abadessa, idosa e doente. Tendo deixado seu mosteiro nas disposições interiores de um inteiro sacrifício – ‘um sacrifício nunca é recusado... eu irei para onde Deus me chama’ –, Madre Pia superou seu desejo de voltar para Laval e as insistências de Laval para recuperá-la : ela continuou, no entanto, a correspondência com sua querida Madre Lutgarde até 1942, e, com a comunidade, até três anos antes de sua morte.

A situação muito difícil da comunidade de Grotta, muito ligada à sua abadessa, pesa muito a já frágil saúde de Madre Pia que, em 1928, viu agravar-se os seus ataques hepáticos a ponto de a obrigarem a sofrer uma intervenção cirúrgica – naquela época bastante delicada – o que a colocou em risco de morte por alguns dias.

Naquele momento, uma irmã conversa entre as mais velhas ofereceu sua vida pela recuperação de sua jovem coirmã. Ela se recuperou depois de uma estadia com sua família, foi subprioreza, enfermeira, depois prioresa, mostrando total obediência à Madre Agnès, embora sofresse de muitas coisas que, na comunidade, deveriam ser mudadas e que não foram.

Em 1931, Madre Agnès Scandelli, após trinta e três anos como superiora, renunciou. Madre Pia foi então nomeada abadessa por decisão pontifícia, seguindo um decreto do Cardeal Lega, bispo de Frascati, que traz a data de 30 de dezembro de 1931. Era impossível, de fato, proceder a uma eleição regular, dada a afeição que as freiras tinham por sua antiga superiora. Não é difícil imaginar a coragem e a fé necessárias numa situação tão particular : mas Madre Pia soube conquistar a estima e o amor da comunidade que a confirma, quase unanimemente, nas eleições de 1935 e 1938. Ela quis fazer de Grotta uma Trappe como eu mesmo vi, aludindo à sua tão amada Laval.

Embora as próprias paredes do convento estivessem impregnadas de oração e espírito de sacrifício, Grottaferrata parecia mais uma comunidade franciscana do que uma comunidade cisterciense. Empreender uma transformação era difícil por causa da pobreza – muitas vezes a conta mensal do padeiro era paga pela família Gullini –, também por causa da pequena dimensão e produtividade da propriedade (dois hectares e meio), e ainda por causa da casa inadequada, o pequeno número de coristas, a presença de algumas irmãs que lhe eram hostis e, posteriormente, as repercussões da Segunda Guerra Mundial.

Em 1939, irmã Maria-Gabriella faleceu e começou então para Grotta e sua abadessa um período muito fecundo, mas também muito tempestuoso. Em dezembro de 1940, portanto antes do final de seu terceiro triênio, Madre Pia foi obrigada a apresentar sua renúncia. As dificuldades – o caso não era novo, tratando-se de uma mulher inteligente e de forte vontade – vieram sobretudo dos superiores masculinos. Nas decisões que levaram à sua renúncia, certamente pesaram, além dos pontos de vista divergentes sobre a condução da comunidade, a correspondência sobre o ecumenismo e a publicação da biografia da irmã Maria-Gabriella, uma abertura que não era compreendida nem aprovada por todos!

A excelente Madre Tecla Fontana, que sucedeu a Madre Pia no governo da comunidade, confiou-lhe o noviciado, e Madre Pia, como boa educadora que era, consagra-se com alegria à formação das jovens, enquanto continuava sua enorme correspondência e suas relações ecumênicas.

Seis anos mais tarde, em 1946, ela foi reeleita abadessa e confirmada, por um voto quase unânime, já no primeiro escrutínio de 1949. Durante esses anos, ela também manteve a direção do noviciado. As oposições irreconciliáveis, embora muito poucas em número, persistiam : Madre Pia esperava o apoio do novo Abade geral e do superior de Frattocchie, recentemente nomeado, para iniciar uma fundação à qual vinha pensando há anos; mas, em 1951, antes do final de seu triênio, eclodiu uma crise que vinha se gestando há muito tempo. Em 19 de abril, o superior (que ainda não havia sido eleito abade) e o Padre imediato, o abade de Mont-des-Cats, reuniram a comunidade após o ofício de Noa e anunciaram que Madre Pia havia apresentado sua renúncia ‘por motivos particulares’ e que já havia deixado a comunidade.

Madre Tecla retomou as rédeas da comunidade como superiora ad nutum. Foi um estrondo de trovão em céu sereno : a quase totalidade da comunidade nunca compreendeu os verdadeiros motivos dessa partida.

Madre Pia esperou em Roma, na casa das irmãs Ursulinas, até que seu passaporte lhe fosse concedido. Naqueles dias que deveriam ter sido muito tristes, eu a vi calma e serena : ela parecia uma hóspede real e não uma irmã em viagem de exílio! Partiu para a Abadia de La Fille-Dieu, onde deveria permanecer por oito anos, até ser chamada de volta à Itália. Em 1953, não lhe foi permitido retornar à sua pátria, nem para a eleição abacial, nem para as eleições políticas, embora duas outras irmãs italianas presentes no mosteiro suíço tenham podido voltar para lá.

Deixemos agora as irmãs de La Fille-Dieu descrevê-la durante sua estadia :

‘Madre Pia era a própria bondade : sua amabilidade, seu rosto sorridente nos faziam bem. Gostávamos  de encontrá-la, porque seus grandes gestos pareciam nos envolver em seu coração. Ela tinha uma imensa piedade por aquelas que sofriam : ela queria consolá-las, ajudá-las... Seu espírito de fé a levava em direção a Jesus Hóstia : ela ficaria horas perto do Tabernáculo. Ela era uma grande silenciosa, permanecendo unida a Deus e vivendo em Sua presença. Seu talento como artista nos prestou grandes serviços... – Ela passou oito anos em La Fille-Dieu, dando o exemplo de uma religiosa perfeita; era uma alma generosa, de um grande espírito de fé, de uma caridade perfeita e cheia de uma delicadeza verdadeiramente materna, um coração de ouro que pensava apenas em agradar. Era uma alma silenciosa : para ela, o silêncio era uma audiência de amor com Nosso Senhor. Toda a minha vida, eu O agradecerei por ter vivido em contato com ela. Ela se apagava, procurava passar despercebida. De todas as virtudes ela deu o exemplo, e até mesmo o heroísmo. Uma grande monja : nosso Te Deum ambulante...’

Enquanto isso, na Itália, a abadessa, eleita em 1953 e responsável pela transferência da comunidade de Grottaferrata para Vitorchiano, renunciou em 1958 por motivos de saúde. Foi nomeada uma superiora ad nutum. Em 1959, estava sendo preparada uma eleição abacial e Madre Pia foi oficialmente convocada de volta a Vitorchiano pelo Padre imediato; não sabemos se seu chamado tinha como objetivo sua possível eleição como abadessa ou o exercício de uma responsabilidade subalterna; a comunidade, em sua grande maioria, a solicitava e os superiores que a destituíram agora apoiavam seu retorno. Mas quem perceberia que Madre Pia estava à beira da morte na época? Que, dado seu estado de saúde, a viagem da Suíça, por si só, seria muito cansativa? De qualquer forma, não era sua responsabilidade decidir, mas apenas obedecer : ela partiu, muito cansada, mas serena.

No dia 22 de fevereiro de 1959, ela deixou o mosteiro que a havia acolhido e onde havia desejado morrer. No dia 25, sob a intervenção de seu irmão médico, impressionado com sua aparência debilitada, ela foi hospitalizada na policlínica de Roma, onde recebeu muitas transfusões. Um mieloma em um estado muito avançado foi diagnosticado, além de danos irreparáveis nos rins, coração e outros órgãos. Madre Pia aceitou os cuidados e atenções que lhe foram dados com um reconhecimento desapegado, com tranquilidade e com o sorriso.

Em 15 de abril, ela saiu do hospital e foi recebida pelas irmãs Betlemitas para lá continuar, sob controle, uma terapia doravante inútil, enquanto aguardava para retornar a Vitorchiano. Ela tinha plena consciência de que não poderia assumir cargos de liderança; ela sentia que estava se aproximando de sua morte. Ela via claramente – e disse isso com calma e desapego real – que nunca mais se uniria à sua comunidade em vida : ‘Iremos ao Senhor antes de irmos para lá’, disse ela.

Sabendo que ela estava hospitalizada, eu fui visitá-la; ela estava sentada em uma poltrona. Essa visita me impressionou muito. Nenhuma palavra sobre o passado, nenhuma palavra sobre o futuro. Nenhum sinal de alegria – mesmo discreto – que uma pessoa em sua situação teria o direito de sentir; porque, acontecesse o que acontecesse, essa viagem à Itália era uma reabilitação.

Seu retorno a Vitorchiano estava programado para 5 de maio, dia da Ascensão. Ela morreu de um colapso cardíaco em 29 de abril, dia em que a Ordem celebrava, de acordo com o calendário litúrgico da época, o aniversário da morte de São Roberto, seu fundador favorito entre os fundadores de Cister. Provavelmente ela se identificava com sua busca, seu desejo de fundação e sua renúncia.

Madre Pia tinha 67 anos e 40 anos de profissão. Foi a primeira irmã a ser enterrada no novo cemitério de Vitorchiano, de acordo com a previsão que ela havia feito a uma monja italiana de La Fille-Dieu.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Qual o sentido dos santos da Igreja?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Adelmo Sergio Gomes

  

‘A Igreja Católica, desde muitos séculos, proclama os seus santos. O primeiro processo formal de canonização foi realizado pelo Papa João XV, que elevou aos altares o bispo de Augsburgo, Dom Ulrique, no ano 993.

Os santos refletem a graça de Cristo. Eles não são importantes por si mesmos, mas porque são reflexos de Cristo Jesus. Para alguns a santidade é exclusiva de alguns escolhidos, no entanto, todos os fiéis são chamados à santidade. A santidade não é algo inatingível. Os santos podem brotar em todas as épocas, em qualquer cultura ou em qualquer condição social. Cada santo manifesta um aspecto do mistério de Cristo com sua história e personalidade específica. São João Paulo II refletiu a misericórdia, São Francisco a pobreza radical, Santo Agostinho o intelecto a serviço da fé e outros, a força do martírio. Diante disso, o que vemos é a infinita riqueza de Cristo. 

A Igreja não ‘produz’ santos : ela os reconhece mediante a manifestação do povo. Por meio da canonização, a Igreja confirma formalmente que a pessoa viveu as virtudes cristãs de forma heroica e que sua intercessão junto a Deus é eficaz. A pessoa foi uma imagem viva do Evangelho de Jesus Cristo. Para a Igreja, o santo também é modelo de vida, é um itinerário seguro a ser seguido. A canonização afirma que aquela pessoa já tem a visão de Deus e que pode interceder por todos os fiéis. Isso reafirma a comunhão dos santos : que os fiéis estão ligados intimamente àqueles que nos precederam e que há uma troca de dons entre o Céu e a Terra. 

A santidade não é um privilégio de alguns, mas um chamado universal : ‘Sede santos, porque eu, vosso Deus, sou santo’ (Lv 19,2). A Constituição Dogmática Lumen Gentium (Concílio Vaticano II) apresenta um capítulo inteiro sobre a santidade, o ‘Chamado universal à santidade’. 

Não é preciso ser padre, bispo ou o fundador de alguma ordem para ser santo. A santidade é para todos os crentes. Os leigos em sua vida cotidiana podem ser santos. Exemplos de leigos santos : Santa Gianna Beretta Molla, mãe de família; São Luís Martin, pai de família; São Domingos Sávio e Santo Carlos Acutis, os jovens; São José, o trabalhador; São Tomás More, o intelectual. Para ser santo não é preciso ser protagonista de grandes feitos, mas viver o amor de Deus nos pequenos gestos. Santa Teresinha chamava isso de ‘a pequena via’. 

A virtude básica da santidade é a humildade. O santo não se reconhece como santo e se o assim fizesse deixaria de sê-lo. A santidade é uma prerrogativa de Deus, que nela participa o santo. 

Por fim, as vidas dos santos são itinerários de fé, confirmações de que o Espírito Santo continua agindo na história do povo de Deus. Os santos são os nossos irmãos exemplares, que testemunharam a ressurreição. No fim fica o chamado do Apocalipse : ‘Quem tem sede, venha; quem deseja, receba de graça a água da vida’ (22,17). ’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/qual-o-sentido-dos-santos-da-igreja.html