Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo da Irmã Jennifer Mechtild Horner, OSB
Mosteiro de Beech Grove (Estados Unidos)
‘No dia 10 de outubro de 2021, começo do processo
sinodal, o Papa Francisco pronunciou uma homilia na qual descreveu os elementos
necessários do que deve ser um sínodo. O Papa Francisco declarou que celebrar a
sinodalidade é caminhar juntos no mesmo caminho. Olhando o modo como Jesus
caminhou com os outros, o Papa mostrou os três caminhos que somos chamados a
pegar juntos, como comunidade de fiéis. Somos chamados a encontrar, a escutar a
discernir. Escutando, e depois lendo a homilia do Papa, fui tocada pelo modo
como descrevia o modo de vida beneditino, sem o nomear.
O modo de vida monástica é verdadeiramente um
caminho de encontro. É através do encontro que esperamos crescer na confiança,
confiança em Deus e uns nos outros. Este encontro acontece diariamente no
recinto do mosteiro, quando uma irmã encontra outra. Este encontro convida cada
monja a abrir-se à outra, fazendo espaço no seu coração para as necessidades e
os olhares da outra. É através do cotidiano de cada encontro que uma irmã se
abre à possibilidade de conversão, tendo a coragem de falar e a humildade de
escutar. Cada encontro é moldado pela profundidade da escuta. É a profundidade
da escuta que nos muda e nos leva à conversão.
Começando a Regra com a palavra ‘obsculta’ ESCUTA,
São Bento diz claramente como devemos viver, como monjas, a vida comum. Somos
chamadas a ‘escutar com o ouvido do coração’. É na escuta, na escuta mútua, que
uma comunidade caminha para Deus. É este caminho juntas que nos levará para
onde somos chamadas, o próprio coração de Deus. Trata-se de nos escutarmos umas
às outras para que possamos, verdadeiramente, escutar o que Deus nos diz. Não se
trata de escutar algumas, mas de escutar a todas. O nosso carisma de
hospitalidade leva-nos ainda mais longe. Por meio do nosso carisma de
hospitalidade somos chamadas a encontrar os que estão fora do mosteiro, e
também aqueles que encontramos, que vêm à procura de conselhos, ou cuidados.
No cap. 3 da Regra, São Bento diz ao Abade,
abadessa, prioresa, que cada vez que uma decisão importante deve ser tomada,
deve convocar toda a comunidade, para que cada membro possa ser escutado.
É esta escuta mútua, no seio da comunidade, que está no coração do que o Papa
Francisco entende por sinodalidade. Segundo ele, todos devem ser escutados, não
somente alguns. Isso é bem diferente do que se faz no mundo, e até mesmo na
Igreja. Por isso o apelo do Papa para este sínodo é um verdadeiro presente para
a nossa Igreja. Não é somente o clero que fala, mas todos, para que a voz de
Deus possa ressoar em toda a Igreja.
Embora São Bento queira que cada um seja ouvido, o
cap.3 diz como cada irmã deve participar quando se reúne para um conselho. Cada
membro deve falar com humildade, sem defender teimosamente suas ideias.
Evidentemente, cada partilha faz-se no quadro da Regra e não deve sair dela. Os
membros não devem seguir o desejo de seu próprio coração e não devem enfrentar a
abadessa, ou a prioresa com agressividade. No cap. 69, São Bento diz claramente
que nenhum membro deve ter a pretensão de defender um outro. Cada um fala por
si. Isto permite a cada membro dizer o que pensa, mas de modo a não atrapalhar
a comunidade. Quando se é chamado a consulta, escutando-se uns aos outros,
pode-se discernir o movimento do Espírito. A abadessa/prioresa, por seu lado,
deve escutar profundamente e refletir sobre o que é partilhado, para poder
tomar uma decisão. Esta decisão não é tomada levianamente, mas de modo a
construir a comunidade e trazer a paz.
São Bento quer que todo o mundo seja escutado, dos
mais novos aos mais velhos, mas isso não é uma democracia. Sim, todos devem ser
escutados, mas quando uma decisão é tomada, cada irmã é chamada a obedecer. São
Bento sabia que as decisões devem ser tomadas, e que todo o mundo não obtém o
que queria. Quantas vezes ouvimos depois : ‘Você não me escutou’? ou ‘não fui
ouvida’? Na realidade a pessoa foi ouvida, mas o que foi decidido não era o que
ela queria. Todas já passamos por isso. É difícil partilhar o que temos no
coração, e constatar que a comunidade é chamada a ir numa direção diferente. É
isso a escuta e o discernimento comunitários. Dizer o que pensamos, escutar
a voz das outras e estar abertas à voz da comunidade no seu conjunto. É quando
abandonamos a vontade própria, que podemos escutar verdadeiramente o Espírito
no meio de nós. Para crescer neste campo, temos de experimentar várias vezes
que a nossa voz conta. Quando experimentamos isso, podemos aprender a crescer
na confiança.
No chamado à sinodalidade, a abadessa/prioresa tem
um papel importante. Deve escutar profundamente com o ouvido do coração, o que
está no coração de cada membro. Evidentemente isso acontece quando a comunidade
é chamada a conselho. Mas é importante lembrar que isso acontece também em
outros momentos. De fato, toda a vida monástica é um chamado à sinodalidade.
Dia após dia, como monges – monjas somos chamados a andar juntos no mesmo
caminho. Somos chamados a escutarmo-nos não somente no Conselho, mas ao longo
da vida, que vivemos juntos. Somos chamados a estar sempre ‘em modo de
escuta’, quando cantamos os salmos, partilhamos a refeição na mesa comum,
durante o tempo de trabalho manual e durante os recreios. Cada vez somos
chamadas a percorrer juntas o mesmo caminho. Cada instante nos dá ocasião de
escutar, e esta escuta diária permite-nos escutar mais profundamente, quando
nos reunimos em Capítulo. É nesta escuta diária que crescemos na confiança umas
nas outras. Por isso São Bento fala tão fortemente contra a murmuração.
Murmurar é o contrário de escutar. Murmurar contra uma irmã, é em certo
sentido, dizer seu nome em vão. É um corte e não uma verdadeira relação com a
outra. A sinodalidade só pode acontecer se formos capazes de encorajar a outra
e de começar a crescer na confiança.
A abadessa / prioresa tem de convidar a comunidade
a um profundo amor umas pelas outras. Deve criar um espaço seguro em que se
pode falar, ser ouvido e em que as diferenças são aceitas, mais do que temidas.
Deve encorajar o amor, rejeitar a amargura para que o bom zelo prevaleça na
comunidade e o mau zelo seja arrancado. A meta do caminho que percorremos
juntas, é a mesma para todas. Conforme as palavras de São Bento : ‘Nada
preferir ao amor de Cristo, que nos conduza juntas à vida eterna’.
A sinodalidade no modo de vida beneditino
ultrapassa os muros do mosteiro e vive-se também de outro modo. À medida que as
comunidades se agrupam em federações, ou em congregações, desenvolve-se uma
outra forma de sinodalidade. As comunidades ajudam-se mutuamente, e, graças à
partilha, tornam-se mais solidárias, o que lhes seria difícil se ficassem
isoladas. Juntos, todos e todas gerem o carisma beneditino e passam-no de uma a
outra geração.
Uma outra experiência de sinodalidade está na
Comunhão Internacional das Beneditinas (CIB). A primeira reunião da CIB em que
participei, aconteceu na Coreia do Sul. Lembro-me a experiência da minha
chegada ao mosteiro de Daegu, como se fosse ontem; estava um pouco nervosa,
porque nunca tinha assistido a um tal encontro antes. As irmãs Coreanas no
acolheram de braços abertos. Vínhamos de países diferentes, falávamos línguas
diferentes, tínhamos roupas diferentes, e no entanto, éramos todas beneditinas.
Sim, algumas eram irmãs, outras monjas, e certos hábitos eram diferentes por
causa das culturas diferentes, mas a nossa essência era a mesma. Somos
beneditinas na alma. Durante os dias em que estivemos juntas, escutamos
profundamente e dialogámos sobre nossos pontos de vista e nossas sugestões, com
respeito e sob o élan da graça. Tinhamos chegado como estrangeiras, e partimos
como amigas. Andando no mesmo caminho, a CIB torna-se um lugar em que podemos
crescer juntas e partilhar nosso carisma com o mundo.
Estou certa de que todas temos experiência de
sinodalidade nas nossas comunidades, federações, congregações e CIB. Às vezes
isso acontece facilmente, às vezes é difícil e, no entanto, a sinodalidade é
sempre necessária se queremos crescer no modo de vida beneditina. É um presente
que temos de partilhar com o mundo. Façamo-lo com coragem e determinação.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123
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