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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A Comunidade de Tibirine: exemplo de sinodalidade [1]

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Marie-Dominique Minassian,

teóloga 


‘O tema da sinodalidade não é um capítulo de um tratado de eclesiologia, menos ainda, uma moda, um slogan ou um novo termo a utilizar ou a explorar em nossas reuniões. Não! A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, sua forma, seu estilo, sua missão.’ [2]

 

‘O Papa Francisco que se dirigia à sua diocese de Roma, explicava em termos simples, mas, todavia, incisivos, a tomada de consciência, que ele desejaria suscitar toda a Igreja. A sinodalidade diz algo sobre nós, sobre nossa identidade, sobre esse entre nós, que devemos fazer crescer, para expandir em seguida.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, com a consciência de que escutar é mais do que ouvir. É uma escuta recíproca na qual cada um tem algo a aprender [3]. Isto nos coloca imediatamente na pista do que há para escutar e da maneira que nós escutamos e comunicamos. São somente palavras que trocamos, palavras que passam entre nós, ou é mais? Para explicar o modelo de sinodalidade que ele gostaria de promover na vida da Igreja, o Papa Francisco nos oferece um exemplo na pessoa do santo que lhe é caro : são Francisco de Assis escutou a voz de Deus, escutou a voz do pobre, escutou a voz do doente, escutou a voz da natureza e transformou tudo isso em um modo de vida [4].

A escuta da Palavra

É aqui que começamos a entrever um paralelo entre são Francisco e Tibirine. Porque Tibirine é também um estilo de vida, uma vida de escuta. Quando lemos os escritos que desvendam essa espiritualidade, percebemos que o que foi primeiro em sua experiência foi a escuta da Palavra de Deus. Para monges, não há nada de original... Por tudo isso, os monges são uma lembrança permanente para toda a Igreja daquilo que é essencial na vida cristã : viver a partir do Outro, encontrado primeiro, nesta Palavra que chega a nós.

Aqui está um primeiro texto de Cristiano de Chergé, o prior dessa comunidade, que partilha conosco um pouco de sua experiência desta Palavra.

A Palavra de Deus é um poço. Toda Palavra, cada Palavra... No deserto de nossa linguagem há ‘palavras vazias’, e há também ‘poços’ (como a torneira de água morna, a palavra fria ou calorosa), a palavra da boca para fora e a palavra do coração. Quem quiser escutar Deus descobrirá esses poços, cada um, o seu. A Palavra que é entregue, ainda deve ser perfurada, sondada...[5].

A partir do momento em que nos arriscamos à beira deste poço, entramos no dinamismo da Palavra que revelará palavras que vivem em nós. Estamos do lado da água morna, da água fria ou da água quente? De quê nossas palavras são preenchidas? Esta é uma pergunta diante da qual a Palavra nos colocará constantemente. Somos efetivamente o lugar da encarnação para a Palavra? Correspondemos ao Amor que nos chama quando a lemos ou quando a escutamos?

Escutemos nosso irmão Cristiano aos seus irmãos, num Capítulo :

É Ele [Deus] que escutamos [Palavra], é Ele que celebramos, é sua obra que queremos fazer. Isto quer dizer que aprendemos a nos ANULAR : investimos inteiramente sem ocupar espaço. A Palavra conheceu o risco de se confiar a nós... não é para que A encerremos em nosso sentido (isto seria contrassenso), nem em nossa maneira de lê-La, como se fôssemos nós que devíamos torná-La viva. Ela VIVE diferente de nós. Não temos que dar sopro a Ela... em vez disso, descobrir que Ela é realmente nosso SOPRO [6].

Quando abrimos o livro, o que nos acontece é efetivamente o sopro do outro. Como a vela de um barco que infla, não somos nós que fazemos o barco avançar, é o sopro, o vento. Cabe a nós expor-nos, aceitar deixar-nos levar por este vento, este sopro que é o do Espírito. Irmão Cristóvão, o mais jovem da comunidade, avança a mesma ideia à sua maneira :

Permanecer em sua palavra : não repeti-la docilmente como uma lição aprendida, mas habitá-la, enraizar-se nela, viver nela, morrer nela até se conformar a ela, pouco a pouco, desposar seu movimento, o Sopro [7].

Então, o que devemos esperar quando abrimos o livro? Devemos esperar uma conversão, um profundo movimento de conversão ao outro : um êxodo e uma conversão para todos.

Voltemos ao irmão Cristiano que, em outro Capítulo aos seus irmãos vai nos permitir dar um passo a mais :

O objeto da lectio : um meio privilegiado na escola da contemplação e para o despertar ‘da fé na realidade da presença de Deus em si e ao redor de si’. Ela é ‘fonte de oração contínua’ que é união do coração a Deus que fala ao coração. ‘Descubra o Coração de Deus na Palavra de Deus’ (são Gregório). O resultado? Quem ler vai receber a graça de encarnar esta Palavra em sua vida, que será totalmente transformada. Cf. a pergunta de Jesus ao escriba : ‘O que você lê na Escritura : O que está escrito’? A TEB traduz ‘Como você lê’? (Lc 10, 26)... Faça isto e viverá [...].

‘Conformemo-nos interiormente à Escritura’, diz são Bernardo. Isaac de l’Étoile : ‘Que Cristo seja para nós, exterior e interiormente, o Livro escrito. Apresente sua vida para que os outros leiam’! Uma verdadeira ascese da inteligência e do comportamento [8].

Um longo texto muito denso : façamos alguns destaques...

Primeiramente, quanto mais lemos a Palavra de Deus, mais entramos no mistério de uma Presença : a realidade da presença de Deus em nós. Pouco a pouco nos tornamos cada vez mais sensíveis a esta presença de Deus em nós, mas também ao nosso redor. A sensibilidade do ouvido interior vai aguçar a escuta exterior. Descobrimos que Deus fala... e que Ele o faz através dos outros e dos acontecimentos...

Segundo destaque : quanto mais lemos a Palavra de Deus, mais recebemos a graça, de encarnar o que esta Palavra significa em nossa vida, se acreditamos nela, e de partilhar o que esta Palavra quer trazer de fruto em nossa vida.

Por fim : Apresente sua vida para que outros leiam. Parece-me que devemos encontrar ali, a força e o desejo do testemunho, algo que fale naturalmente, que transpire Deus, e que leve os outros a se perguntarem sobre a fonte profunda de nossa existência. Irmão Roger de Taizé tinha esta belíssima recomendação : Fale de Deus somente se lhe fizerem perguntas, mas viva de maneira que lhas façam.

Todos os dias somos desafiados a escutar : Você escutará hoje sua Palavra? (Sl 94). Interpele o salmista, toda manhã, no Ofício de Vigílias... Irmão Cristiano comenta aos seus irmãos :

É HOJE que a Palavra será lida no HOJE de Deus, é hoje, também, que devemos acolhê-La, ESCUTÁ-La. Eternamente, o Pai diz do Verbo : Eu hoje Te gerei! No mistério da encarnação a geração do verbo se realiza em todos os que nasceram de Deus, porque O acolheram todos os dias. Este Salmo nos lembra que a eternidade só tem hoje para se significar, para se encarnar [9].

É hoje que a Palavra será lida no hoje de Deus. A fórmula é muito elegante... Há como dois hoje : o nosso, o de Deus, e toda a graça a receber e a viver, é que os dois hoje se tornem apenas um. E quando os dois hoje coincidem, é isso que cria eternidade. A eternidade só tem hoje para se significar e se encarnar. Geralmente o irmão Cristiano se lembra disso em seus escritos. É uma bela missão, pessoal e comunitária.

Por que irmão Cristiano insiste neste hoje? Passamos nosso tempo em comunidade, lendo e relendo a Palavra; a liturgia no-la apresenta ano após ano, e podemos ter a impressão de conhecer os textos de cor! Por que lê-los e relê-los senão por que devemos recebê-los hoje? A Palavra não muda, nós é que mudamos... Então, a Palavra que não muda poderá, portanto, nos dizer algo novo a nós que mudamos... vamos escutar algo diferente para a nossa vida hoje. A Palavra solicita nosso coração todos os dias para despertá-lo. Cabe a nós saborear cada vez mais o que há de único no nosso hoje [10]. Maravilha! Ali sentimos o contemplativo que nos convida a viver nossa vida como ela é. E sabemos que o hoje em Tibirine não foi sempre fácil. Foi até mesmo extremamente penoso, trágico, e até ao fim sob pressão dos acontecimentos. Então, podemos receber essas palavras com sua história como pano de fundo, que nos atesta que só há poesia e mística em seus escritos e em sua experiência. Existe um realismo e um segredo espiritual ali, para nos fazer atravessar toda a nossa existência, com todo o seu peso de alegrias e sofrimentos. Existe ali uma vitalidade que pode nos atingir a qualquer momento em nossa leitura da Palavra : é o Espírito Santo. Irmão Cristiano nos explica...

O Espírito Santo é a vida de Deus. Ele é a vida do Verbo. É Ele, então, que dá vida à Palavra de Deus... que mantém a vida desta linguagem humana confiada à fé da Igreja para que ela descubra incessantemente o falar de Deus. Como qualquer vida, esta é feita para ser dada, para ser recebida, para ser vivida. Depende de nós que esta Palavra seja para nós, e no mundo de hoje Palavra de vida ou, ao contrário, ‘letra morta’.

Quanto mais lemos a Palavra, mais nos familiarizamos com a maneira de falar de Deus. Sabemos que Ele fala de múltiplas maneiras na Bíblia. Portanto, cabe a nós escolher entrar em conivência com o falar de Deus para que esta Palavra se torne exatamente a palavra de vida que os outros esperam, porque necessitam dela. Esta é a nossa missão : oferecer aquilo de que os outros precisam. E Deus conta conosco para fazer isso.

Mais uma vez um certo realismo nos será oferecido nestas linhas do prior de Tibirine :

A volta à Palavra é onerosa. Ela implica uma ‘lectio’, ou seja, acolhimento do Espírito Santo com, no começo, esta atitude de pobreza, de escuta, de silêncio interior que é a única que pode fazer 'desta' Palavra a nossa 'vida' de hoje. Irmão Henrique [Vergès [11]] dizia ao irmão Michel : o que esperamos do senhor são textos, palavras que foram meditadas (seja os Salmos, as leituras, as intenções do Ofício, as introduções ou as homilias na missa). Isso também significa que se é legítimo confiar no que os outros escreveram, pregaram, pensaram sobre os textos que necessitamos comentar (e não me privo disso), é preciso sempre, para que nossa palavra seja viva e dê vida, que ela seja o fruto de nossa própria experiência, que se misture ali alguma coisa de nosso próprio sangue [12].

Poderíamos pensar que esta reflexão diz respeito apenas aos padres, mas, de fato, já que devemos apresentar nossa vida para os outros LEREM, toda a nossa vida pode tornar-se uma pregação, sob a ação do Espírito Santo. No entanto, há muitas condições para que este seja efetivamente o caso.

Primeiro, realmente acolher o Espírito Santo em nós, acreditar em sua ação. Porque o desafio é que nos tornemos palavra de vida para os outros. E para isto é preciso que algo de nosso próprio sangue se misture à nossa palavra. Para escapar das palavras vazias precisamos deixar o Espírito Santo apoderar-se de nossa vida e consentir que a Palavra nos conduza aos lugares que necessitam de conversão, não visitados por nós mesmos, para que a força do amor se manifeste em nossa fraqueza. Há, portanto, no Espírito, esta força capaz de nos colocar no caminho, de nos colocar na vida e, assim, nos colocar em alerta diante da palavra do outro.

A escuta recíproca

Isto nos leva à segunda dimensão da escuta : a escuta recíproca. Retomemos o fio de nossa reflexão com o Papa Francisco :

O Espírito Santo, em sua liberdade, não conhece fronteiras e, também, não se deixa limitar pelas filiações [...]. O Espírito Santo precisa de nós. Escute-O, escutando-se mutuamente [13].

Poderíamos ser tentados a dizer que, em vez disso, é uma visão horizontal, mas é o contrário : é uma visão teologal de nossas relações. Quando recebemos o Espírito Santo na Palavra de Deus, nossos ouvidos e nossos corações se abrem e se conjugam para escutar mais amplamente e fazer leitura divina dos outros, que por sua vez se tornam, para nós, uma palavra da parte de Deus.

Todos podem participar desse esforço de tradução contínua da Palavra [...]. Jamais tiraremos uma foto do Espírito Santo. Na diversidade de nossos temperamentos e de nossas culturas, cada um de nós tem algo a dizer sobre esta Palavra que é nossa vida [14].

Isto é o que estamos tentando viver como cristãos : uma tradução contínua da Palavra. Irmão Cristiano tem outra bela fórmula para dizer o que é a Igreja : A Igreja é a encarnação contínua. Isto é lindo! Façamos para que a encarnação continue sendo verdadeira, em nós e entre nós. Isto é sério e importante. Façamos para que a encarnação continue sendo verdadeira, em nós e entre nós. Isto é sério e importante. Façamos para que a encarnação continue sendo verdadeira, em nós e entre nós. Então, coloquemo-nos muitas vezes diante deste convite. Mas, jamais percamos de vista, para não sermos vencidos, porque é o Espírito Santo que é o agente de nossas boas relações!

Para que essa tradução seja ativa, temos que alargar muito a nossa atenção para entrarmos nesta riqueza do Espírito Santo que fala em cada um de nós. Não deixar ninguém de lado : isto começa a se tornar difícil porque temos tendências – muito naturais – a nos retrairmos, quando não nos reconhecemos verdadeiramente no que é dito pelos outros. Nesse esforço de tradução – que é um processo -, o essencial é conservar sempre no coração o desejo de estar junto dessa Palavra, de estar pessoalmente e junto aderindo a essa Palavra de vida e, então, em conversão perpétua, em escuta dessa diferença que nos obriga e nos mover através do outro em direção ao Único.

É pela bondade que o homem é chamado a dominar o universo, mas desviando- se do bem, ele cedeu à tentação da ilusão e da força. E a confissão da bondade de Deus reflete-se no acolhimento do semelhante : Esta é a carne da minha carne... Deus necessita de minha conversão ao outro para continuar a criar-me livremente à sua imagem, homem e mulher, de geração em geração [15].

Este trecho do Capítulo é muito importante, pois ressalta o critério de boa saúde de nossas comunidades, que é exatamente o acolhimento do semelhante. No fundo, quanto mais acolhedor eu sou, mais acolhedoras são as nossas comunidades, e mais estamos nesta confissão da bondade de Deus, e vice-versa. A saúde espiritual é isto. Ela implica uma conversão permanente ao outro. Que exigência! Tibirine era uma pequena comunidade... menos de dez irmãos, então : impossível fugir! Aliás, diziam que esta comunidade seria impossível, com temperamentos fortes, origens sociais diferentes, teologias diferentes, opções diferentes... e, no entanto, juntaram forças, formaram uma comunidade... e que comunidade! Então, tudo é possível na força, na adesão que o Espírito Santo nos oferece para entrarmos na conversão permanente aos outros. O prior de Tibirine tem uma bela maneira de expressar isso :

O que buscamos entre nós, em nossas comunidades, não está à flor da pele, nem mesmo do coração. Acabamos sabendo que isso nos mantém profundamente!

Assim, a contemplação só é possível onde há abertura à comunidade de vida, a toda a família humana...

E só há comunidade possível onde houver abertura à contemplação das maravilhas de Deus escondidas em cada um, sinais do Único que estão escritos em nossos rostos como tantas diferenças prometidas à comunhão dos santos.

Mesmo que ainda seja necessário isso, por pouco tempo, é difícil a gente enxergar [16].

Que lucidez! Claro, isso não é fácil de ver! O olhar contemplativo ao qual Cristiano nos convida, pode salvar-nos de muitas coisas. Evidentemente ele vai além do olhar superficial, ou de uma reação epidérmica. Vamos bem mais profundamente, na raiz do que permite considerar o outro, vê-lo na luz de sua mais verdadeira identidade.

Porque somos todos feitos de carne e de sangue, nos tornaremos todos membros do corpo de Cristo. O Verbo se faz carne em cada um de nós, isto é, todo irmão segundo a carne pode tornar-se Palavra de Deus para mim [17].

Esta citação desafia-nos, e o que ela aponta, deve ainda poder fazer uma viagem dentro de nós : isto exige acreditar nela. Acreditar que há crescimento, que as coisas andam. Isso significa que você não pode congelar ninguém, não pode enquadrar ninguém : o outro tem sempre a capacidade de crescer, de ser até maior do que a imagem que tenho dele agora. E isso é uma boa notícia : Todo irmão segundo a carne pode tornar-se Palavra de Deus para mim, lembrava irmão Cristiano, com razão. No entanto, seu realismo ainda se junta a nós neste novo trecho :

Não se surpreenda que a Palavra seja difícil de aceitar e que ela nos leve sempre mais longe, além de nossas margens ou dos nossos pontos e apoio. Chegará o dia em que, parando de atolar na lama, aceitaremos em cair definitivamente, e isso será a vida.

Não se surpreenda que o outro tenha uma palavra a nos transmitir e se tornar, em nome de Deus, junto de mim. Se acolho esta palavra que é vida, para ele, eu me exponho a descobrir nela um eco do Verbo único e eterno. Comunhão profunda entre dois seres, quando se tornaram verdadeiramente nutritivos um para o outro, e estão inclinados a ficarem juntos em silêncio, porque a palavra que os une é espírito e vida, e Presença real e inexprimível.

Também não se surpreenda que este irmão seja uma Palavra difícil de entender e que seja preciso superar muitos murmúrios internos ou externos antes que seja criado entre nós o clima de amor que lhe permitirá entregar-se ao que há de melhor e de eterno [18].

Quando nos arriscamos a seguir o Evangelho, até em sua radicalidade, devemos estar à espera de uma viagem, para largarmos as amarras, longe de nossas zonas de conforto. Este é também um tema caro ao Papa Francisco. As periferias não são apenas as periferias externas; existem nossas próprias periferias internas. É preciso igualmente ir encontrá-las. Preparemo-nos, então, para uma viagem, para irmos escutar até ao fim os ecos do Verbo. O Vaticano II nos ofereceu uma fórmula interessante. Os Padres conciliares falavam das Sementes do Verbo, escondidas, entregues à nossa escuta. Precisamos redescobri-las em todas as coisas, em toda pessoa.

Mas temos que reconhecer que não vemos imediatamente nosso irmão, nossa irmã, como uma Palavra de Deus. Os murmúrios internos, mesmo se não sejam verbalizados, existem no mais profundo de nós mesmos, e não devemos nos entregar a isso, mas realmente perseverar para contribuir com o clima de amor. Irmão Cristóvão tem uma bela maneira de formular o desejo que pode nos inspirar : Gostaria de juntar-me a essa terra pacificada onde rezo o Nosso Pai, sem esquecer ninguém.

Talvez isso possa nos convidar a entrar nessa benevolência que nos permitirá ver, discernir no outro, o que ele tem de melhor e eterno. Aqui, também, a maneira monástica de vive-la, é esclarecedora :

A escuta recíproca é um justo equilíbrio entre palavra e silêncio [...]. Porque a palavra é também um valor monástico [não a tagarelice nem a palavra barulhenta].

Sou cristão, cordial o suficiente, com cada irmão? Isto não exclui as tensões, as divergências, os pontos de vista. Meu irmão é sempre maior do que eu imagino. Na pior das hipóteses ele vale muito mais do que a ideia que ele tem de mim!

Tenho a coragem da correção fraterna evangélica : vá procurar seu irmão... ganhe- -o (Mt 18,15ss).

Qual é o teor da palavra, a coloração das palavras que penso (sem dizer forçosamente que habitam em mim ? [19]

O que jogamos na atmosfera, com nossos pensamentos, com nossas palavras...?

Quanto à correção fraterna, é difícil e, raramente, falamos dela... ela desagrada, mesmo. Sou o guardião do meu irmão? Sim, somos o guardião do nosso irmão, de nossa irmã. Resta encontrar o clima de amor interior, a terra pacificada que nos permitirá encontrar a atitude e a palavra certas. Exercício difícil, mas que não deve se abandonado. No fundo, o maior realismo para o cristão é o da esperança :

Assumir a esperança será experimentar a ressurreição na ação em todas as realidades humanas, mesmo as mais opacas, mesmo aquelas pelas quais aparentemente passamos. [...].

Em todo lugar, onde o diálogo ocorre para dar origem a uma linguagem nova.

Em todo lugar, onde o medo é levado firmemente, desarmado, como encantamos uma serpente.

Em todo lugar, onde cobras e palavras venenosas são engolidas, sem que sejam modificadas as razões profundas que, mesmo assim, temos que amar.

Em todo lugar em que a doença se torna um lugar de encontro, de partilha, de solicitude, lugar de purificação, lugar de um SIM à saúde de Deus. [20]

Experimentar a ressurreição pode ser um belo convite : a ressurreição está operando em minha vida? Onde a vejo ganhar terreno em mim? Irmão Cristiano nos dá alguns elementos como resposta : em todo lugar onde há diálogo, então, em todo lugar onde podemos dialogar mais, haverá mais comunidade, haverá mais vida, mais ressurreição; em todo lugar onde o medo cede terreno, onde o encaramos, o desarmamos. Não é mais ele que assume, somos nós que o sufocamos e, então, a vida pode recomeçar. O que nos governa? O contrário do medo não é a coragem, é a confiança... Acampados no terreno da confiança, podemos, então, resistir em outro nível : o da palavra.

E em todo lugar onde as cobras e as palavras venenosas são engolidas – elas estão em toda parte! -; como desarmamos isso? Bem : amando mesmo assim. O abade Pedro tinha essa fórmula recorrente : Amar mesmo assim... apesar de tudo. Acima de tudo, não abandone esta missão de amar mesmo assim. Isso nos mantém saudáveis espiritualmente, e é um sim franco e maciço à saúde de Deus em nós, como uma esperança obstinada. Irmão Cristiano desenvolve muito este aspecto da esperança em suas diversas comunicações :

Definitivamente, este é o plano da esperança que abrange todos os outros, e podemos considerar a paciência como a expressão cotidiana, como, de alguma forma, a encarnação da ‘pequena esperança’. E quanto mais for assim, mais paciência você terá para se dedicar! Não é de admirar, então, que a vida religiosa no seu conjunto, colocada na órbita da esperança do Reino vindouro, seja o crisol por excelência das mais variadas e refinadas paciências. Paulo VI afirmava nas entrelinhas, quando definia a caridade na vida comunitária (Evangelica Testificatio 39) como esperança ativa do que os outros podem tornar-se, com a ajuda do nosso apoio fraterno. ‘O sinal da verdade é encontrado na feliz simplicidade com que todos se esforçam para compreenderem o que importa a cada um’. [21]

Entramos aqui no núcleo duro do que é a escuta recíproca : tentar ir ao encontro do que importa a cada um. Estamos longe da epiderme! Devemos cavar a Palavra de Deus que é meu irmão, minha irmã; desejar profundamente encontrá-los, e ali ajudá-los também a se descobrirem e a se tornarem sempre mais irmão, irmã. Temos parte ativa nesse crescimento, como guardião. Este é o nosso trabalho de esperança em nós mesmos, mas também no outro - nunca renunciar de ser verdadeiramente irmão, verdadeiramente irmã -: permanecer no clima de amor, de esperança, de caridade e sentir a comunidade crescer em si e ao redor de si.

A escuta dos acontecimentos

Quanto mais crescemos na escuta da Palavra de Deus que nos transforma, mais ela nos ajuda a encontrar e a ver o outro, como uma palavra para nós. Bem mais : a escuta se faz extensiva, abraça a totalidade do real e tudo que nos acontece. Assim, progressivamente, são também os acontecimentos que se tornam uma palavra significativa para nós e para nosso caminho para Deus.

Escutemos novamente o Papa Francisco :

É preciso sair dos 3-4% que representam os mais próximos, e ir mais longe para escutar os outros que, às vezes, lhe insultarão, lhe expulsarão, mas é preciso escutar o que eles pensam, sem querer impor nossas coisas : deixe o Espírito nos falar. [22]

É interessante... Ficar nos 3-4% que nos cercam e que nos são próximos, é realmente privar-nos de uma grande parte do real... A ideia defendida pelo Papa é, então, ir encontrar os 96% que nos faltam – as famosas periferias – com a consciência real de que sentimos profundamente a falta desses outros. Isto nos ajuda igualmente a compreender a dimensão essencial da Igreja: a catolicidade.

Não podemos compreender a ‘catolicidade’ sem nos referirmos a este campo amplo e hospitaleiro, que nunca marca as fronteiras. Ser Igreja é uma maneira de entrar na grandeza de Deus. [23]

Este é um pensamento muito sedutor : ser Igreja é entrar na grandeza de Deus! É necessário flexibilidade, saber esticar, levantar e acolher Deus como Ele é : maior do que nosso coração. Uma nova citação nos permite perceber a maneira pela qual a comunidade de Tibirine viveu isto :

Certamente você teria notado que ele [Monsenhor Teissier] falou o significado da nossa presença se ela passasse por essa crise dolorosa em seu ambiente. A menção de nossa vizinhança é justa : não podemos ser sinal de um dom se eles não estão ali para acolhê-lo, para desejá-lo. Melhor... Não podemos pretender dar Jesus a eles, de alguma forma, sem receber Jesus deles, de alguma forma. Isto também faz parte do próprio condicionamento da encarnação. Há interdependência. Muitos não receberam Jesus... mas aos que O receberam, Ele concedeu se tornarem o que Ele mesmo era, não apenas cristãos, mas bem melhor do que isto, filhos de Deus [24].

Entrar na grandeza de Deus significa que não somos cristãos, muçulmanos, budistas... somos em última análise, essencialmente, filhos de Deus. E ali, há apenas um acampamento : o dos amados de Deus. Voltamos à perspectiva da escuta recíproca. Devemos ser capazes de receber a vida de Deus de todos os outros, dos 96% que nos esperam no exterior de nosso ciclo de proximidade.

Então, o que isso deu de muito concreto para a história dos monges de Tibirine? Anualmente, na carta circular dirigida aos pais, amigos e próximos da comunidade, podemos colher algumas das audácias, fruto da escuta do ambiente, que os levou a viver coisas, às vezes, surpreendentes.

E aqui estamos no capítulo numa votação um tanto revolucionária. Trata-se de oferecer dois cômodos de um edifício, quase desocupado, às Irmãzinhas de Jesus, que procuram um lugar de descanso e de oração, propício e seguro para a fraternidade, em que as Irmãzinhas da região, particularmente as do Saara, poderão recuperar suas forças, durante o tempo de calor muito forte. Nosso recinto se torna misto, é certo, mas sua vocação contemplativa é, assim, multiplicada por dois (pelo menos!). Consultado, o cardeal foi categórico : esta á a melhor solução. Evidentemente, há cinco anos eu teria dito a você... (?). Não! Há cinco anos você não teria nem mesmo pensado em apresentar tal questão! E isto é verdade, obviamente [25].

Estamos em 1977, no meio muçulmano... uma comunidade contemplativa de homens, que abre espaço no interior da clausura, numa ala de um de seus edifícios, para acolher as Irmãzinhas de Jesus... Há um momento favorável, uma escuta do Espírito que torna as coisas maduras.

Segundo exemplo :

O Ribât (vínculo da Paz), há dez anos segue seu caminho unindo cristãos que querem estar diretamente atentos às dimensões espirituais da vida dos muçulmanos e integrando em sua abordagem de oração nossos irmãos de Alawiyyines de Medeia. Na primavera, nos perguntamos : Como a vida espiritual do outro me desafia na minha? [26]

Este grupo, o Ribât, era originalmente um grupo de cristãos que queriam compartilhar sua experiência do cotidiano vivido com os muçulmanos. Logo, eles se juntaram aos muçulmanos. Eles se reuniam duas vezes por ano, com uma questão para trabalhar pessoalmente com a finalidade de compartilhamento, durante os seis meses que não estavam juntos. Naquele ano, a pergunta era : Como a vida espiritual do outro me desafia na minha? Em seguida, passavam dois dias juntos compartilhando o fruto de sua experiência e da escuta profunda do seu cotidiano. Bela fecundidade no Espírito!

Novas realizações...

… Oferecemos uma grande sala (ex-sala de espera do referido PMI) aos nossos vizinhos como sala de oração, enquanto aguardamos a construção de uma mesquita prevista para o lugarejo. Assim, nossas orações coabitam há seis meses no mesmo recinto, e muitos de nós pensamos, de ambos os lados, que elas também mesclam bem no coração de Deus.

Desenvolvemos também a experiência de associação na exploração de parte do jardim fora dos muros. Quatro jovens pais de família compartilham conosco o trabalho e a venda de produtos de horticultura [27].

Também aí, uma originalidade : o acolhimento dos vizinhos muçulmanos para que venham rezar enquanto esperam a construção da mesquita do lugarejo. Esta é uma solidariedade bastante notável na oração e na partilha. A solidariedade também no trabalho, com a igualdade concretizada na parceria. Esta é uma forma original quando pensamos que normalmente as comunidades monásticas asseguram, antes, os serviços dos assalariados...

Essa escuta do Espírito ainda virá para apressar os irmãos em outro registro :

O que Berdine pede? A presença no meio deles de um homem de oração (monge) para confirmá-los e apoiá-los no desejo de se afastarem definitivamente da espiral das drogas, do álcool, da deriva... e, também, para compreendê-los em suas quedas, em suas recaídas, em seus desejos e sua sede secreta. Padre João da Cruz ajudou a iniciar esta comunidade em 1972 como abade de Aiguebelle. Ele não cessou de acreditar nisso. Foi ele que nos pediu, e em tempo integral. E nós, também fomos responsáveis por um chamado da Igreja que se apresenta de outra forma. E o nosso irmão só partiu ao envio, em obediência... Um longo discernimento, resultando num emparelhamento acordado aqui e ali, na fé, talvez simplesmente porque, aqui e ali, a oração e o trabalho sejam os dois pulmões insubstituíveis da fidelidade à Vida (ora et labora)! [28]

O Redil de Berdine é uma comunidade no Sudeste da França que acolhe aqueles que ninguém mais quer acolher : drogados, alcoólatras, pessoas desagregadas... Esta comunidade pedia, então, que um dos monges de Tibirine se juntassem a eles em tempo integral. Como conciliar isso com a vocação monástica? Mais uma vez, a criatividade do Espírito levou-os a imaginar a fórmula de um emparelhamento, enviando o monge solicitado durante os dois meses de verão a Berdine com, reciprocamente, estadas de moradores de Berdine que também vinham a Tibirine para passar um tempo com a comunidade. A demanda unilateral se transformou em troca. Esta é uma ilustração perfeita de tudo que evocamos anteriormente : arriscamo-nos à escuta das necessidades dos outros e inventamos...

Um último exemplo é retirado da carta circular de 1992, dirigida aos pais, amigos e próximos da comunidade. Foi o início do que foi chamado de década negra, ou seja, o início das violências na Argélia que levou ao assassinato de dezenas de milhares de argelinos e religiosos beatificados que se recusaram a deixar o país.

Em uma recente meditação, Mons. Teissier evoca Maria aos pés da cruz : ‘Quando o povo sofre, já é muito estar ali, para suportar juntos este sofrimento agora. Não devemos esperar para fazer algo, até que sejam superados os difíceis acontecimentos pelos quais estamos passando... É também nesse momento que Jesus supera seu sofrimento e o grito de desesperança, com um pequeno gesto de afeição filial e de amizade fraterna : - Aqui está sua mãe... aqui está seu filho -! Este é o pequeno gesto de ternura humana. Aparentemente não está no nível do drama..., entretanto, anuncia e prepara o futuro’. Nesse contexto, concordamos em participar do Conselho Presbiteral e, também, em acolher e conduzir um retiro para os padres da diocese (liderado pelo bispo) [29].

Termino de propósito com este exemplo e, finalmente, com esta pergunta que nunca deixou de acompanhar os irmãos de Tibirine até ao seu sequestro : que ternura humana podemos oferecer nas atuais circunstâncias? Esta pergunta está bem ao nosso alcance. Ela não para de nos solicitar. Para qualificar a nossa presença cristã, a palavra ternura não seria tomada sobre si, consigo, como uma busca permanente? O que podemos jogar na atmosfera hoje, senão esta ternura que toca, que vai ao coração, sem muitas palavras, mas que diz o essencial?

Rumo a uma escuta completa

Concluamos... O que lemos, ouvimos, esboçamos por intermédio da comunidade Tibirine?

Abordamos o que vislumbramos ser uma lectio completa. Estes monges nos ensinam o que é uma escuta completa que tem a sua origem no acolhimento amplo, franco e obstinado da Palavra de Deus. Um acolhimento determinado da Palavra que aumenta a escuta recíproca entre nós, e nos faz entrar numa capacidade mais ampla de escutar toda a vida, acontecimentos, contexto, e assim reassumir tudo o que nos acontece à luz da presença de Deus em cada um de nós.

Esta escuta completa nos impulsiona a restaurar a criatividade do Espírito, aqui e agora. Isto é o que chamamos discernimento. O Papa Francisco, que é jesuíta, teria colocado imediatamente esta palavra. Apresentando-lhes o testemunho desta comunidade cisterciense-trapista cujo centro da vida é a lectio divina, vemos claramente o convite que nos é feito para redescobrir esta fonte em nossas comunidades cristãs. É uma herança para toda a Igreja e é ela que nos ajuda a viver ajustados aos desafios do nosso tempo.

Com o seu impulso e o seu convite dirigido a toda a Igreja para entrar na sinodalidade, o Papa Francisco põe no centro da nossa vida pessoal e eclesial esta escuta completa, este movimento profundo para entrarmos juntos na grandeza de Deus. Movimento extensivo, de abertura, que é o movimento da cruz, movimento de Cristo que, de braços abertos, nos chama incessantemente a este acolhimento franco, amplo, a ser oferecido a todos, a ser inventado todo hoje. A Palavra ainda e sempre quer produzir algo novo em nós. E este é o Espírito que está no comando para nos manter vivos… até à morte, se necessário (Irmão Cristóvão).’

 

[1] Esta conferência foi pronunciada no quadro das festividades do 150º aniversário da paróquia de Vevey (Suiça), em 5 de maio de 2022. O texto foi adaptado para a publicação, mas o estilo oral foi conservado.

Marie-Dominique Minassian é uma teóloga suíça, professora na Universidade de Friburgo, especialista da herança espiritual dos monges de Tibirine, membro da Associação para a proteção dos escritos dos sete irmãos de Tibirine.

[2] Papa Francisco, Discurso na Diocese de Roma, reunido em assembleia diocesana, 18 de setembro de 2021.

[3] Papa Francisco, Discurso pela comemoração do 50º aniversário da instituição do sínodo dos bispos, sala Paulo VI, sábado, 17 de outubro de 2015.

[4] Papa Francisco, Fratelli tutti, 48.

[5] Irmão Cristiano, homilia do 3º domingo da Quaresma, 14 de março de 1982, O Outro que esperamos, p. 57.

[6] Irmão Cristiano, Capítulo de terça-feira, 2 de julho de 1991, Deus para cada dia, p. 373.

[7] Irmão Cristóvão, nota da lectio não datada, sobre Jo 8,31.

[8] Irmão Cristiano, Capítulo do sábado, 23 de novembro de 1991, Deus para cada dia, pp. 384-385.

[9] Irmão Cristiano, Capítulo de 6 de março de 1986, Deus para cada dia, pp. 106-107.

[10] Irmão Cristiano, Capítulo de quinta-feira, 18 de julho de 1991, Deus para cada dia, p. 376.

[11] Irmão marista, próximo da comunidade, e um dos primeiros religiosos assassinados em 8 de maio de 1994, com irmã Paul-Hélène.

[12] Irmão Cristiano, Capítulo de terça-feira, 14 de junho de 1994, comentário do CEC 1100, Deus para cada dia, pp. 490-491.

[13] Papa Francisco, Discurso à diocese de Roma reunida em assembleia diocesana, 18 de setembro de 2021.

[14] Irmão Cristiano, Capítulo de terça-feira, 14 de junho de 1994, comentário do CEC 1100, Deus para cada dia, p. 491.

[15] Irmão Cristiano, Capítulo de quarta-feira, 23 de julho de 1986, Deus para cada dia, pp. 138-139.

[16] Irmão Cristiano, Capítulo de terça-feira, 12 de março de 1996, Deus para cada dia, p. 549.

[17] Irmão Cristiano, homilia do 21º domingo do Tempo Comum, 22 de agosto de 1982, O outro que esperamos, p. 74.

[18] Ibid., p. 74.

[19] Irmão Cristiano, Capítulo de sábado, 10 de fevereiro de 1990, Deus para cada dia, p. 315.

[20] Irmão Cristiano, homilia para a Ascensão quinta-feira, 20 de maio de 1982, O outro que esperamos, pp. 67-68.

[21] Irmão Cristiano, Capítulo de segunda-feira, 9 de dezembro de 1985, Deus para cada dia, p. 80.

[22] Papa Francisco, Discurso à diocese de Roma reunida em assembleia diocesana, 18 de setembro de 2021.

[23] Papa Francisco, Discurso à diocese de Roma reunida em assembleia diocesana, 18 de setembro de 2021.

[24] Capítulo do irmão Cristiano, de terça-feira, 9 de fevereiro de 1995. Nossa comunidade em seu ambiente, Deus para cada dia, p. 516.

[25] Cristiano de Chergé, Crônica da esperança 13 (Natal de 1977)., 13 de dezembro de 1977, Felizes os que esperam, p. 411.

[26] Carta circular da comunidade Notre Dame de l’Atlas 1988, Felizes aqueles que esperam, p. 706.

[27] Carta circular da comunidade Notre Dame de l’Atlas 1988, Felizes aqueles que esperam, pp. 707-708.

[28] Carta circular da comunidade Notre Dame de l’Atlas 1990, Felizes aqueles que esperam, p. 719.

[29] Carta circular da comunidade Notre Dame de l’Atlas 1992, Felizes aqueles que esperam, p. 733.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


sábado, 11 de abril de 2026

Escutar com o ouvido do coração - A Regra de São Bento e a sinodalidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Desenho do Irmão Yves, Abbaye de la Pierre-qui-Vire (França)

*Artigo da Irmã Jennifer Mechtild Horner, OSB

Mosteiro de Beech Grove (Estados Unidos)

 

‘No dia 10 de outubro de 2021, começo do processo sinodal, o Papa Francisco pronunciou uma homilia na qual descreveu os elementos necessários do que deve ser um sínodo. O Papa Francisco declarou que celebrar a sinodalidade é caminhar juntos no mesmo caminho. Olhando o modo como Jesus caminhou com os outros, o Papa mostrou os três caminhos que somos chamados a pegar juntos, como comunidade de fiéis. Somos chamados a encontrar, a escutar a discernir. Escutando, e depois lendo a homilia do Papa, fui tocada pelo modo como descrevia o modo de vida beneditino, sem o nomear.

O modo de vida monástica é verdadeiramente um caminho de encontro. É através do encontro que esperamos crescer na confiança, confiança em Deus e uns nos outros. Este encontro acontece diariamente no recinto do mosteiro, quando uma irmã encontra outra. Este encontro convida cada monja a abrir-se à outra, fazendo espaço no seu coração para as necessidades e os olhares da outra. É através do cotidiano de cada encontro que uma irmã se abre à possibilidade de conversão, tendo a coragem de falar e a humildade de escutar. Cada encontro é moldado pela profundidade da escuta. É a profundidade da escuta que nos muda e nos leva à conversão.

Começando a Regra com a palavra ‘obsculta’ ESCUTA, São Bento diz claramente como devemos viver, como monjas, a vida comum. Somos chamadas a ‘escutar com o ouvido do coração’. É na escuta, na escuta mútua, que uma comunidade caminha para Deus. É este caminho juntas que nos levará para onde somos chamadas, o próprio coração de Deus. Trata-se de nos escutarmos umas às outras para que possamos, verdadeiramente, escutar o que Deus nos diz. Não se trata de escutar algumas, mas de escutar a todas. O nosso carisma de hospitalidade leva-nos ainda mais longe. Por meio do nosso carisma de hospitalidade somos chamadas a encontrar os que estão fora do mosteiro, e também aqueles que encontramos, que vêm à procura de conselhos, ou cuidados.

No cap. 3 da Regra, São Bento diz ao Abade, abadessa, prioresa, que cada vez que uma decisão importante deve ser tomada, deve convocar toda a comunidade, para que cada membro possa ser escutado. É esta escuta mútua, no seio da comunidade, que está no coração do que o Papa Francisco entende por sinodalidade. Segundo ele, todos devem ser escutados, não somente alguns. Isso é bem diferente do que se faz no mundo, e até mesmo na Igreja. Por isso o apelo do Papa para este sínodo é um verdadeiro presente para a nossa Igreja. Não é somente o clero que fala, mas todos, para que a voz de Deus possa ressoar em toda a Igreja.

Embora São Bento queira que cada um seja ouvido, o cap.3 diz como cada irmã deve participar quando se reúne para um conselho. Cada membro deve falar com humildade, sem defender teimosamente suas ideias. Evidentemente, cada partilha faz-se no quadro da Regra e não deve sair dela. Os membros não devem seguir o desejo de seu próprio coração e não devem enfrentar a abadessa, ou a prioresa com agressividade. No cap. 69, São Bento diz claramente que nenhum membro deve ter a pretensão de defender um outro. Cada um fala por si. Isto permite a cada membro dizer o que pensa, mas de modo a não atrapalhar a comunidade. Quando se é chamado a consulta, escutando-se uns aos outros, pode-se discernir o movimento do Espírito. A abadessa/prioresa, por seu lado, deve escutar profundamente e refletir sobre o que é partilhado, para poder tomar uma decisão. Esta decisão não é tomada levianamente, mas de modo a construir a comunidade e trazer a paz.

São Bento quer que todo o mundo seja escutado, dos mais novos aos mais velhos, mas isso não é uma democracia. Sim, todos devem ser escutados, mas quando uma decisão é tomada, cada irmã é chamada a obedecer. São Bento sabia que as decisões devem ser tomadas, e que todo o mundo não obtém o que queria. Quantas vezes ouvimos depois : ‘Você não me escutou’? ou ‘não fui ouvida’? Na realidade a pessoa foi ouvida, mas o que foi decidido não era o que ela queria. Todas já passamos por isso. É difícil partilhar o que temos no coração, e constatar que a comunidade é chamada a ir numa direção diferente. É isso a escuta e o discernimento comunitários. Dizer o que pensamos, escutar a voz das outras e estar abertas à voz da comunidade no seu conjunto. É quando abandonamos a vontade própria, que podemos escutar verdadeiramente o Espírito no meio de nós. Para crescer neste campo, temos de experimentar várias vezes que a nossa voz conta. Quando experimentamos isso, podemos aprender a crescer na confiança.

No chamado à sinodalidade, a abadessa/prioresa tem um papel importante. Deve escutar profundamente com o ouvido do coração, o que está no coração de cada membro. Evidentemente isso acontece quando a comunidade é chamada a conselho. Mas é importante lembrar que isso acontece também em outros momentos. De fato, toda a vida monástica é um chamado à sinodalidade. Dia após dia, como monges – monjas somos chamados a andar juntos no mesmo caminho. Somos chamados a escutarmo-nos não somente no Conselho, mas ao longo da vida, que vivemos juntos. Somos chamados a estar sempre ‘em modo de escuta’, quando cantamos os salmos, partilhamos a refeição na mesa comum, durante o tempo de trabalho manual e durante os recreios. Cada vez somos chamadas a percorrer juntas o mesmo caminho. Cada instante nos dá ocasião de escutar, e esta escuta diária permite-nos escutar mais profundamente, quando nos reunimos em Capítulo. É nesta escuta diária que crescemos na confiança umas nas outras. Por isso São Bento fala tão fortemente contra a murmuração. Murmurar é o contrário de escutar. Murmurar contra uma irmã, é em certo sentido, dizer seu nome em vão. É um corte e não uma verdadeira relação com a outra. A sinodalidade só pode acontecer se formos capazes de encorajar a outra e de começar a crescer na confiança.

A abadessa / prioresa tem de convidar a comunidade a um profundo amor umas pelas outras. Deve criar um espaço seguro em que se pode falar, ser ouvido e em que as diferenças são aceitas, mais do que temidas. Deve encorajar o amor, rejeitar a amargura para que o bom zelo prevaleça na comunidade e o mau zelo seja arrancado. A meta do caminho que percorremos juntas, é a mesma para todas. Conforme as palavras de São Bento : ‘Nada preferir ao amor de Cristo, que nos conduza juntas à vida eterna’.

A sinodalidade no modo de vida beneditino ultrapassa os muros do mosteiro e vive-se também de outro modo. À medida que as comunidades se agrupam em federações, ou em congregações, desenvolve-se uma outra forma de sinodalidade. As comunidades ajudam-se mutuamente, e, graças à partilha, tornam-se mais solidárias, o que lhes seria difícil se ficassem isoladas. Juntos, todos e todas gerem o carisma beneditino e passam-no de uma a outra geração.

Uma outra experiência de sinodalidade está na Comunhão Internacional das Beneditinas (CIB). A primeira reunião da CIB em que participei, aconteceu na Coreia do Sul. Lembro-me a experiência da minha chegada ao mosteiro de Daegu, como se fosse ontem; estava um pouco nervosa, porque nunca tinha assistido a um tal encontro antes. As irmãs Coreanas no acolheram de braços abertos. Vínhamos de países diferentes, falávamos línguas diferentes, tínhamos roupas diferentes, e no entanto, éramos todas beneditinas. Sim, algumas eram irmãs, outras monjas, e certos hábitos eram diferentes por causa das culturas diferentes, mas a nossa essência era a mesma. Somos beneditinas na alma. Durante os dias em que estivemos juntas, escutamos profundamente e dialogámos sobre nossos pontos de vista e nossas sugestões, com respeito e sob o élan da graça. Tinhamos chegado como estrangeiras, e partimos como amigas. Andando no mesmo caminho, a CIB torna-se um lugar em que podemos crescer juntas e partilhar nosso carisma com o mundo.

Estou certa de que todas temos experiência de sinodalidade nas nossas comunidades, federações, congregações e CIB. Às vezes isso acontece facilmente, às vezes é difícil e, no entanto, a sinodalidade é sempre necessária se queremos crescer no modo de vida beneditina. É um presente que temos de partilhar com o mundo. Façamo-lo com coragem e determinação.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


domingo, 22 de março de 2026

Lectio divina, sinodalidade… e teocracia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Geraldo González y Lima, OSB

Abade do Mosteiro São Geraldo de São Paulo

 

‘Muitas das nossas comunidades monásticas vivem momentos difíceis com o envelhecimento de seus membros, a falta de vocações, as consequências sócio econômicas da pandemia, das mudanças climáticas etc, e devem tomar decisões complexas com respeito ao presente e ao futuro próximo.

Neste contexto, recebemos um apelo renovado do Papa Francisco para utilizar a tradição e a sabedoria do conceito de sinodalidade, na qual cada um é convidado a escutar e a ser escutado.

Quando se pensa em sinodalidade em termos beneditinos, pensa-se logo em RB 3 (cap. 3 da regra de São Bento) em que todos são chamados a conselho, incluindo os mais novos. No entanto, diante das decisões complexas e, às vezes com fortes consequências para as nossas comunidades, perguntamo-nos se somos uma ‘monarquia’, ou uma ‘democracia’, e a mesma tradição monástica nos lembra que não somos nem uma coisa, nem outra, mas uma ‘teocracia’, entendida como a comunidade que procura junta a vontade de Deus e sua realização concreta na vida.

Como então harmonizar ‘sinodalidade’ com ‘teocracia’ para procurar a vontade de Deus e sua realização nas nossas comunidades, segundo a tradição beneditina?

Uma vez mais a tradição monástica beneditina dá-nos um instrumento precioso : a lectio divina partilhada, comunitária! Usamos esse instrumento? Proponho essa possibilidade baseada na leitura bíblica dos discípulos de Emaús (Luc. 24, 13 – 35) :

‘13 Nesse mesmo dia, dois deles viajavam para um povoado chamado Emaús, a duas horas de caminho de Jerusalém, 14 e conversavam sobre todos esses acontecimentos.’

Nos caminhos e na história de salvação das nossas comunidades, falamos de tudo o que acontece, quer sejam momentos de dúvida e de dor, ou de felicidade e de alegria? Vale a pena lembrar que quando partilho uma dor, ela é dividida por dois, e quando partilho uma alegria, ela se multiplica.

‘15 Ora, enquanto caminhavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; 16 mas seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo.’

Aonde dois ou três estão reunidos em seu nome, quer dizer numa lectio partilhada, Não caminha Jesus no meio deles? Mesmo se às vezes não o reconhecemos por causa da aridez, ele ‘está’!

‘17 Jesus disse-lhes : que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando? E eles pararam com o rosto sombrio. 18 Um dos dois, chamado Cléofas, lhe perguntou : tu és o único forasteiro em Jerusalém, que ignora os fatos que nela aconteceram estes dias?’

Às vezes começamos tristemente a lectio divina, mas através da sua Palavra, Jesus não deixa de nos interrogar e de procurar a razão da nossa tristeza. Persevero na procura de Deus?

‘19 Ele disse-lhes : Quais? Responderam : o que aconteceu a Jesus o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo. 20 nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21 Nós esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel; mas com tudo isso, faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22 É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo 23 e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que tinham tido uma visão de anjos a declararem que está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres haviam dito; mas não o viram’.

Na lectio divina não encontramos constantemente a paixão, morte e ressurreição de Jesus? E na lectio não encontraremos o sentido da paixão, da morte e da ressurreição de nossas comunidades?

‘Sei que é Páscoa, porque mereci a alegria de te ver’ diz São Bento ao sacerdote que o foi visitar a Subiaco para celebrar a Páscoa com ele (II Dial. 1).

‘25 Ele então lhes disse : insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! 26 Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória? 27 E começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito.’

Por conseguinte, na lectio Jesus não nos fala da sua história de salvação e da nossa? Contudo para ter esta ‘inteligência’, quero dizer para fazer esta leitura divina dos acontecimentos baseados nas Sagradas Escrituras, é preciso sempre pedir a ajuda do Espírito Santo.

‘28 Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. 29 Eles, porém, insistiram dizendo : Fica conosco porque cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles. 30 E uma vez â mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o e depois partiu-o e distribuiu-o a eles. 31 Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém ficou invisível diante deles.’

Partilhando ‘a mesa da Palavra’, o ambão e partilhando a ‘mesa do Pão’, o altar, não reconhecemos quem é Jesus? Na sua Palavra partilhada não ‘permanece’ ele conosco?

‘32 E disseram um ao outro : Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras? 33 Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros (…)’

A lectio divina partilhada nessas ‘mesas’ não torna ardente os nossos corações? Não transforma a tristeza em alegria, e a falta de sentido em esperança? A lectio divina partilhada não nos dirige para a Jerusalém celeste, a Cidade da paz aonde se realiza a vontade de Deus sobre nós?

Não nos pergunta São Bento ‘que página, com efeito, ou que palavra da autoridade divina no Antigo e no Novo Testamento não é uma norma retíssima da vida humana? (RB 73, 3)

‘(…) que lhes disseram : 34 É verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. 35 E eles narraram os acontecimentos do caminho e como haviam reconhecido o Senhor na fração do pão.’

Não nos leva a lectio divina partilhada a ressuscitar com Jesus? Não seria também o caminho da ressurreição das nossas comunidades? Na lectio partilhada não fazemos a experiência do encontro com Jesus e do discernimento da vontade de Deus o Pai pelo Espírito Santo?

Não é este o sentido do ‘Suscipe me’ nas nossas comunidades : ‘Recebe-me Senhor, segundo a tua palavra e terei a vida, e não confundas a minha esperança’ Sal. 118, 116 ?

 Senhor,

Partilhando a tua palavra

Nós te reconhecemos no Pão da Vida

E na história da nossa salvação

Amem’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123