Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Abade do Mosteiro São Geraldo de São Paulo
‘Muitas das nossas comunidades monásticas vivem
momentos difíceis com o envelhecimento de seus membros, a falta de vocações, as
consequências sócio econômicas da pandemia, das mudanças climáticas etc, e
devem tomar decisões complexas com respeito ao presente e ao futuro próximo.
Neste contexto, recebemos um apelo renovado do Papa
Francisco para utilizar a tradição e a sabedoria do conceito de sinodalidade,
na qual cada um é convidado a escutar e a ser escutado.
Quando se pensa em sinodalidade em termos beneditinos,
pensa-se logo em RB 3 (cap. 3 da regra de São Bento) em que todos são chamados
a conselho, incluindo os mais novos. No entanto, diante das decisões complexas
e, às vezes com fortes consequências para as nossas comunidades, perguntamo-nos
se somos uma ‘monarquia’, ou uma ‘democracia’, e a mesma tradição monástica nos
lembra que não somos nem uma coisa, nem outra, mas uma ‘teocracia’, entendida
como a comunidade que procura junta a vontade de Deus e sua realização concreta
na vida.
Como então harmonizar ‘sinodalidade’ com ‘teocracia’
para procurar a vontade de Deus e sua realização nas nossas comunidades,
segundo a tradição beneditina?
Uma vez mais a tradição monástica beneditina dá-nos
um instrumento precioso : a lectio divina partilhada, comunitária! Usamos
esse instrumento? Proponho essa possibilidade baseada na leitura bíblica dos
discípulos de Emaús (Luc. 24, 13 – 35) :
‘13 Nesse mesmo dia, dois deles viajavam para um
povoado chamado Emaús, a duas horas de caminho de Jerusalém, 14 e conversavam
sobre todos esses acontecimentos.’
Nos caminhos e na história de salvação das nossas
comunidades, falamos de tudo o que acontece, quer sejam momentos de dúvida e de
dor, ou de felicidade e de alegria? Vale a pena lembrar que quando partilho uma
dor, ela é dividida por dois, e quando partilho uma alegria, ela se multiplica.
‘15 Ora, enquanto caminhavam e discutiam entre si,
o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; 16 mas seus olhos
estavam impedidos de reconhecê-lo.’
Aonde dois ou três estão reunidos em seu nome, quer
dizer numa lectio partilhada, Não caminha Jesus no meio deles? Mesmo se
às vezes não o reconhecemos por causa da aridez, ele ‘está’!
‘17 Jesus disse-lhes : que palavras são essas que
trocais enquanto ides caminhando? E eles pararam com o rosto sombrio. 18 Um dos
dois, chamado Cléofas, lhe perguntou : tu és o único forasteiro em Jerusalém,
que ignora os fatos que nela aconteceram estes dias?’
Às vezes começamos tristemente a lectio divina,
mas através da sua Palavra, Jesus não deixa de nos interrogar e de procurar a
razão da nossa tristeza. Persevero na procura de Deus?
‘19 Ele disse-lhes : Quais? Responderam : o que
aconteceu a Jesus o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e em
palavras diante de Deus e de todo o povo. 20 nossos chefes dos sacerdotes e
nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21 Nós
esperávamos que fosse ele quem iria redimir Israel; mas com tudo isso, faz três
dias que todas essas coisas aconteceram! 22 É verdade que algumas mulheres, que
são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo 23 e não tendo
encontrado o corpo, voltaram dizendo que tinham tido uma visão de anjos a
declararem que está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as
coisas como as mulheres haviam dito; mas não o viram’.
Na lectio divina não encontramos
constantemente a paixão, morte e ressurreição de Jesus? E na lectio não
encontraremos o sentido da paixão, da morte e da ressurreição de nossas
comunidades?
‘Sei que é Páscoa, porque mereci a alegria de te
ver’ diz São Bento ao sacerdote que o foi visitar a Subiaco para celebrar a
Páscoa com ele (II Dial. 1).
‘25 Ele então lhes disse : insensatos e lentos de
coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! 26 Não era preciso que o
Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória? 27 E começando por Moisés e
por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele
dizia respeito.’
Por conseguinte, na lectio Jesus não nos
fala da sua história de salvação e da nossa? Contudo para ter esta ‘inteligência’,
quero dizer para fazer esta leitura divina dos acontecimentos baseados nas
Sagradas Escrituras, é preciso sempre pedir a ajuda do Espírito Santo.
‘28 Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus
simulou que ia mais adiante. 29 Eles, porém, insistiram dizendo : Fica conosco
porque cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles. 30 E
uma vez â mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o e depois partiu-o e
distribuiu-o a eles. 31 Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele,
porém ficou invisível diante deles.’
Partilhando ‘a mesa da Palavra’, o ambão e
partilhando a ‘mesa do Pão’, o altar, não reconhecemos quem é Jesus? Na sua
Palavra partilhada não ‘permanece’ ele conosco?
‘32 E disseram um ao outro : Não ardia o nosso
coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?
33 Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí
reunidos os Onze e seus companheiros (…)’
A lectio divina partilhada nessas ‘mesas’ não
torna ardente os nossos corações? Não transforma a tristeza em alegria, e a
falta de sentido em esperança? A lectio divina partilhada não nos dirige
para a Jerusalém celeste, a Cidade da paz aonde se realiza a vontade de Deus
sobre nós?
Não nos pergunta São Bento ‘que página, com efeito,
ou que palavra da autoridade divina no Antigo e no Novo Testamento não é uma
norma retíssima da vida humana? (RB 73, 3)
‘(…) que lhes disseram : 34 É verdade, o Senhor
ressuscitou e apareceu a Simão. 35 E eles narraram os acontecimentos do caminho
e como haviam reconhecido o Senhor na fração do pão.’
Não nos leva a lectio divina partilhada a
ressuscitar com Jesus? Não seria também o caminho da ressurreição das nossas
comunidades? Na lectio partilhada não fazemos a experiência do encontro
com Jesus e do discernimento da vontade de Deus o Pai pelo Espírito Santo?
Não é este o sentido do ‘Suscipe me’ nas nossas
comunidades : ‘Recebe-me Senhor, segundo a tua palavra e terei a vida, e não
confundas a minha esperança’ Sal. 118, 116 ?
Senhor,
Partilhando a tua palavra
Nós te reconhecemos no Pão da Vida
E na história da nossa salvação
Amem’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123
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