Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo de Gustavo Cavalcante
‘Após mais de mil dias de combates ininterruptos e caminhando para completar três anos, a guerra no Sudão consolidou-se como uma das crises humanitárias mais graves atualmente. Sem qualquer solução política à vista, o conflito entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) mergulhou o país em um colapso prolongado, marcado por violência sistemática contra civis, destruição de infraestrutura básica e desintegração do Estado.
Nesse período, o Sudão tornou-se, segundo o Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), a maior crise de
deslocamento forçado do mundo, incluindo refugiados e deslocados internos.
Desde abril de 2023, mais de 12 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar
suas casas. O número supera o de crises históricas como as da Síria e da
Ucrânia, refletindo a velocidade e a escala inéditas da emergência sudanesa.
Metade dessas pessoas deslocadas são crianças,
muitas desacompanhadas, expostas a riscos extremos de violência, fome e
exploração, tanto dentro do país quanto nos Estados vizinhos que as acolhem.
É nesse contexto que o líder do ACNUR, Barham
Salih, realizou sua primeira visita oficial à crise sudanesa, com passagem pelo
leste do Chade, principal destino dos refugiados que fogem da região de Darfur,
epicentro dos confrontos. Ao encontrar famílias deslocadas múltiplas vezes pela
guerra, Salih classificou a situação como uma ‘calamidade humanitária de
proporções avassaladoras’.
Após mil dias de guerra
A guerra no Sudão teve início em 15 de abril de
2023, quando confrontos armados eclodiram entre as Forças Armadas Sudanesas
(SAF), comandadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e as Forças de Apoio
Rápido (RSF), lideradas por Mohamed Hamdan Dagalo. O conflito emergiu de
disputas pelo controle do poder após o golpe militar de 2021 e rapidamente se
espalhou por diversas regiões do país, incluindo a capital, Cartum. Desde
então, sucessivas tentativas de cessar-fogo fracassaram, e não houve avanços
significativos rumo a uma solução política duradoura.
Ao longo de mais de mil dias de guerra, o Sudão
passou por um processo acelerado de fragmentação territorial. Enquanto o
Exército manteve maior presença no leste e em partes estratégicas do país, as
forças paramilitares consolidaram controle em amplas áreas do oeste, especialmente
na região de Darfur. Essa divisão enfraqueceu ainda mais as instituições
estatais, comprometeu a administração pública e dificultou o acesso humanitário
a áreas sob controle de diferentes atores armados.
A violência escalou sobretudo nas regiões de Darfur,
Cartum e Cordofão. Em Darfur, cidades como El Fasher, Geneina e Nyala foram
palco de combates intensos, cercos prolongados e ataques contra comunidades
civis, forçando deslocamentos repetidos da população. Na capital e em áreas
metropolitanas, confrontos urbanos, bombardeios e tiroteios transformaram
bairros densamente povoados em zonas de guerra, levando milhões de pessoas a
fugir em busca de segurança.
Relatórios de organizações humanitárias e das
Nações Unidas documentam ataques sistemáticos contra civis e infraestrutura
essencial. Hospitais, mercados, escolas e campos de deslocados foram atingidos
ou saqueados, comprometendo gravemente a capacidade de resposta humanitária.
Trabalhadores da saúde e equipes de socorro também foram alvo de violência, o
que reduziu ainda mais o funcionamento de serviços básicos em áreas afetadas
pelo conflito.
Como consequência direta da guerra, o sistema de
saúde sudanês entrou em colapso. Mais de 70% das unidades hospitalares deixaram
de operar totalmente ou parcialmente, segundo dados da Organização Mundial da Saúde
(OMS). A destruição de instalações, a escassez de profissionais e a falta de
insumos agravaram o avanço da fome e de doenças evitáveis, como cólera, sarampo
e malária. Em um contexto de deslocamento em massa e acesso limitado à água
potável e à alimentação, esses fatores ampliaram o impacto humanitário do
conflito sobre a população civil.
Epicentro do deslocamento forçado global
Com a intensificação e a prolongação do conflito, o
Sudão tornou-se o epicentro do deslocamento forçado global. Dos 12 milhões de
pessoas obrigadas a deixar suas casas, cerca de 9 milhões permanecem deslocadas
internamente, vivendo em condições precárias dentro do próprio Sudão, muitas
vezes em áreas de difícil acesso humanitário ou próximas às linhas de combate.
As demais cruzaram fronteiras internacionais, buscando proteção principalmente
em países vizinhos como Chade, Sudão do Sul, Egito, Etiópia e Uganda.
O fluxo contínuo de refugiados tem imposto pressão
sobre as comunidades anfitriãs e a infraestrutura local nos países de acolhida,
muitos deles já marcados por fragilidade econômica e crises próprias. Campos de
refugiados e áreas de assentamento improvisadas enfrentam superlotação,
escassez de água potável, serviços de saúde limitados e sistemas de saneamento
insuficientes. A capacidade de resposta humanitária tem sido afetada pelo
subfinanciamento crônico, agravando as condições de vida tanto dos refugiados
sudaneses quanto das populações locais que os recebem.
A região de Darfur permanece como a área mais
afetada pela guerra no Sudão e concentra alguns dos episódios mais graves de
violência desde o início do conflito. Cidades estratégicas como El Fasher e
Geneina enfrentaram cercos prolongados, combates intensos e sucessivas
ofensivas armadas, que resultaram em grande número de mortos, destruição de
bairros inteiros e deslocamentos em massa da população civil. A instabilidade
persistente dificultou a atuação de autoridades locais e inviabilizou o
funcionamento regular de serviços essenciais.
Relatórios das Nações Unidas e de organizações
humanitárias registram massacres, ataques direcionados contra grupos étnicos
não árabes e o uso sistemático da violência sexual como instrumento de guerra,
especialmente em áreas sob controle de milícias aliadas às Forças de Apoio
Rápido. Em Geneina e em localidades vizinhas, foram documentadas execuções
sumárias, incêndios de vilarejos e perseguições com motivação étnica, levando a
acusações de limpeza étnica. Esses episódios contribuíram para a fuga em massa
de civis e para o agravamento da crise humanitária na região.
Atualmente, centenas de milhares de civis
permanecem sitiados em Darfur, com acesso extremamente limitado a alimentos,
água potável, assistência médica e ajuda humanitária. As rotas de fuga
disponíveis são consideradas perigosas, frequentemente atravessando áreas de
combate ou regiões controladas por grupos armados, o que expõe os deslocados a
novos episódios de violência, extorsão e separação familiar. Como resultado,
muitas pessoas são forçadas a se deslocar repetidas vezes, sem encontrar
condições mínimas de segurança ou estabilidade.
Presença do ACNUR
A crise sudanesa foi a pauta principal da primeira
viagem internacional de Barham Salih, novo chefe do ACNUR, que em janeiro deste
ano visitou o leste do Chade. A região é atualmente o principal destino de
pessoas que fogem da guerra no Sudão (cerca de 400 mil, segundo dados da ONU),
especialmente da região de Darfur, e recebe novos refugiados diariamente desde
o início do conflito em abril de 2023. A agenda teve como foco a avaliação
direta das condições humanitárias e o diálogo com autoridades locais e
organizações parceiras.
Durante a visita, Salih esteve em assentamentos que
abrigam famílias sudanesas deslocadas múltiplas vezes pela guerra, muitas das
quais cruzaram a fronteira após longos deslocamentos forçados e em situação de
extrema vulnerabilidade. O Alto Comissário ouviu relatos de violência, perdas
familiares e dificuldades de acesso a abrigo, água, alimentação e serviços
básicos. As visitas de campo buscaram dimensionar os impactos do fluxo contínuo
de refugiados tanto sobre os deslocados quanto sobre as comunidades anfitriãs.
Em declarações públicas, Barham Salih classificou a
situação como uma ‘calamidade humanitária de proporções avassaladoras’ e
destacou o papel do Chade ao manter suas fronteiras abertas. ‘Ao oferecer
proteção, status legal e segurança aos refugiados, o Chade está demonstrando um
compromisso fundamental com os princípios da proteção internacional’, afirmou.
Ao mesmo tempo, ressaltou que o país não pode arcar sozinho com a resposta à
crise, diante da escala do deslocamento sudanês.
O Alto Comissário fez um apelo direto à comunidade
internacional por mais financiamento, alertando para o impacto da redução de
recursos sobre a capacidade de resposta humanitária. Em seus pronunciamentos,
Salih enfatizou a necessidade de garantir dignidade e proteção internacional às
pessoas refugiadas, além de investir em soluções duradouras e no apoio às
comunidades anfitriãs, que enfrentam pressão crescente sobre serviços e
infraestrutura em razão da chegada massiva de refugiados sudaneses.
A resposta humanitária à crise no Sudão enfrenta
grave escassez de recursos, com o financiamento atualmente abaixo de 10% do
valor considerado necessário pelas agências das Nações Unidas e organizações
parceiras. Esse déficit compromete a capacidade operacional em um contexto de
necessidades crescentes, marcado por deslocamentos em larga escala e acesso
limitado a áreas afetadas pelo conflito. Como resultado, programas considerados
essenciais vêm sendo reduzidos ou suspensos em diferentes regiões.
Entre os impactos diretos dos cortes de verba está
a redução de serviços de água, saúde e proteção. Organizações humanitárias
relatam o fechamento de espaços seguros para mulheres e crianças, que ofereciam
apoio psicossocial, proteção contra violência de gênero e acesso a serviços
básicos. A interrupção desses programas tem ampliado a exposição de grupos
vulneráveis a riscos adicionais em campos de deslocados e comunidades
anfitriãs.
Além disso, agências humanitárias também alertam
para o aumento da vulnerabilidade à violência, exploração e trabalho infantil.
Diante desse cenário, organizações que atuam na linha de frente apontam sinais
de exaustão operacional, destacando que a continuidade da resposta depende de
novos aportes financeiros e de acesso humanitário seguro às populações
afetadas.
Retornos tímidos
A redução parcial dos combates em Cartum e em
algumas áreas do centro do Sudão abriu espaço para retornos limitados de
pessoas deslocadas ao longo dos últimos meses. Com a diminuição da intensidade
dos confrontos em determinados bairros da capital e em cidades próximas,
famílias que haviam fugido durante os momentos mais críticos da guerra passaram
a tentar regressar às suas comunidades de origem, após longos períodos de
deslocamento interno.
Segundo dados de agências humanitárias, cerca de
2,6 milhões de pessoas tentaram retornar às áreas de onde haviam sido forçadas
a sair desde o início do conflito. Esses movimentos ocorreram tanto dentro de
Cartum quanto em outros centros urbanos, como Omdurman, Wad Madani e partes do
estado de Gezira, impulsionados pela percepção de maior segurança relativa e
pela dificuldade de permanecer por longos períodos em locais de acolhimento
precários.
Ao chegar, no entanto, muitas famílias encontraram
casas destruídas ou danificadas, ausência de serviços básicos e infraestrutura
severamente comprometida. Hospitais, escolas, sistemas de abastecimento de água
e fornecimento de energia elétrica seguem inoperantes em diversas áreas,
dificultando a retomada da vida cotidiana e o acesso a condições mínimas de
sobrevivência.
As organizações humanitárias alertam que esses
retornos ocorrem em um contexto de insegurança persistente, com presença de
grupos armados, risco de novos confrontos e acesso limitado à assistência.
Diante da destruição generalizada e da falta de serviços essenciais, os
retornos são considerados frágeis e instáveis, com possibilidade de novos
deslocamentos caso a situação de segurança volte a se deteriorar.
O que esperar para o futuro
Após mais de mil dias de guerra e perto de
completar três anos de guerra, o Sudão expõe de forma clara os desafios
enfrentados pelo sistema internacional de resposta a deslocamentos forçados em
larga escala. A dimensão da crise, que já deslocou mais de 12 milhões de
pessoas, coloca à prova a capacidade das agências humanitárias e dos Estados de
garantir proteção, assistência e soluções duradouras em um contexto de conflito
prolongado e instabilidade regional.
A atuação do ACNUR ocorre em meio a restrições
severas de recursos, com impactos diretos sobre a continuidade de programas
essenciais. A escassez de financiamento limita a capacidade da agência de
responder ao ritmo acelerado dos deslocamentos, ampliar a assistência nos
países de acolhida e sustentar iniciativas de proteção e integração. Nesse
cenário, a resposta humanitária depende cada vez mais das decisões políticas e
financeiras dos Estados, tanto no apoio às operações quanto na manutenção de
políticas de asilo e proteção internacional.
Organizações humanitárias alertam para o risco de o
Sudão se tornar uma crise prolongada e gradualmente normalizada, à medida que o
conflito se estende e a atenção internacional se dispersa entre múltiplas
emergências globais. A continuidade da violência, somada à falta de avanços
diplomáticos consistentes, tende a perpetuar ciclos sucessivos de deslocamento,
retorno precário e novas fugas. Diante desse cenário, as agências da ONU
reiteram que a interrupção do ciclo de guerra e deslocamento depende, em última
instância, de uma solução política para o conflito. Sem avanços nesse campo, a
crise humanitária no Sudão deve seguir se aprofundando, com impactos duradouros
para milhões de pessoas deslocadas e para a estabilidade da região.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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