domingo, 31 de maio de 2026

Ecos de cidades ricas em história

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mario Panizza

 

‘A Argélia abrange uma área muito extensa, delimitando um ambiente diferenciado tanto pela natureza do território como pela composição dos centros urbanos. As razões dessa variedade são múltiplas : sobretudo climáticas e geográficas, mas também históricas, ligadas às vicissitudes de conquistas e de libertação que marcaram o desenvolvimento de todo o país. A Argélia e a Tunísia formavam a Numídia, reino berbere que se torna, sob Massinissa, um importante aliado de Roma. Após a conquista pelos Vândalos e, sobretudo, na sequência da chegada dos Árabes, a estrutura social transforma-se profundamente. De facto, a cultura islâmica introduz mudanças que se consolidam ao longo de muitos séculos. As cidades enriquecem-se com mesquitas e palácios caracterizados por uma arquitetura funcional e estilisticamente definida, complementada, além disso, por decorações de particular cuidado e requinte. Depois de ter feito parte do Império Otomano, a partir de 1830 é território de conquista da França; e só em 1962, após seis anos de uma guerra feroz e sangrenta, alcança a independência.

Do ponto de vista geográfico e climático, o país é caracterizado por três faixas paralelas que se sucedem de norte a sul : a costeira, com um clima temperado que beneficia da influência do mar, bastante verde, chegando mesmo a apresentar florestas na Região da Cabília, embora as fontes de água doce sejam bastante limitadas, tal como, aliás, em toda a região magrebina; a faixa central, a estepe, que cobre uma superfície muito vasta, árida, povoada de arbustos, utilizada para a pastagem, com um clima de fortes amplitudes térmicas; por fim, a faixa mais meridional, o deserto, que tende a expandir-se e a conquistar cada vez mais superfície a norte. Para contrariar esta pressão, que as variações climáticas estão a acelerar, foi criada uma barreira verde com 1500 quilômetros de comprimento e 20 de profundidade.

No seio desta rica diversidade ambiental, algumas áreas apresentam ecossistemas preciosos, mas frágeis, que devem ser salvaguardados, como o Parque nacional do Tassili n’Ajjer, patrimônio da Unesco desde 1982, rico em testemunhos de arte rupestre pré-histórica. Em 1982, foram também incluídos no patrimônio da Unesco os sítios do Vale da M’zda, de Djémila, de Tipasa e de Timgad. Os três últimos correspondem a cidades romanas, estruturadas segundo o traçado clássico do cardo e do decumano.

Djémila apresenta uma condição particular : situada a 900 metros de altitude, adapta o traçado urbanístico romano a um terreno montanhoso, desenvolvendo-se dentro de uma área circundada pelos limites orográficos que acompanham dois riachos na direção norte-sul. Nascida como um pequeno centro, expande-se ao longo de todo o período da dominação romana, dotando-se de importantes edifícios públicos, sagrados e de serviço para a cidade. Os vestígios arqueológicos descrevem claramente o desenho de um plano geral que conserva intactas, ainda hoje, algumas partes monumentais, incluindo o Arco de Caracala.

Uma situação totalmente diferente é a de Tipasa, cidade costeira cuja origem está ligada à função de entreposto comercial no Mediterrâneo, utilizado pelos romanos também para fins militares na conquista da Mauritânia. Os vestígios encontram-se dentro de uma estrutura romana bem definida; pertencem, contudo, a um conjunto de testemunhos sobrepostos que remetem para as civilizações que se sucederam. A terceira cidade romana Patrimônio da Unesco é Timgad, situada no interior, nas encostas das montanhas a sul de Constantina. O traçado urbano é o canônico, onde a ordem das vias e a disposição dos serviços estão contidas num perímetro de desenho regular, projetado ad hoc no momento da fundação. Mandada construir pelo imperador Trajano em 100 d.C., Timgad servia de guarnição militar. Desenterrada das areias do deserto, foi descoberta no século XIX, revelando um conjunto de monumentos muito bem conservados. O Fórum, a Biblioteca, o Arco triunfal e as termas descrevem uma cidade de dimensões notáveis, que o tempo projetou muito além dos limites do recinto militar original.

Porém, a história urbana da Argélia não reside apenas nas cidades romanas; um capítulo muito importante é ocupado pela medina árabe, que condensa um modelo de vida comunitária que ainda hoje reúne todas as funções que dão vida à cidade : a residência, o artesanato, o comércio. Uma medina de particular interesse é a de Constantina, a terceira cidade da Argélia depois da capital e de Orano, que se apresenta numa condição orográfica muito particular : ergue-se sobre um planalto elevado, a 700 metros de altitude, circundado por um fosso muito profundo, escavado por um curso de água. A sua ligação ao território é assegurada por pontes de vão único que marcam os pontos de acesso à cidade, delineando as suas linhas de travessia interna.

Porém, a medina mais rica em elementos artísticos é sem dúvida a Kasba de Argel, inserida na lista do patrimônio da UNESCO em 1992, que se abre para o mar num ponto de grande beleza paisagística. Inclui edifícios históricos, tanto civis como religiosos, mas, acima de tudo, completa uma faixa de terra firme onde se sucedem obras arquitetônicas de várias épocas e de grande relevância.

Percorrendo o passeio marítimo, depara-se com o monumento Maqam Echahid, erigido em 1982, vinte anos após o fim da guerra de libertação, em honra dos mártires da independência. Este monumento, que constitui um símbolo bem presente, não só pela sua dimensão e posição isolada e visível mesmo de longe, reúne no seu interior testemunhos e documentação fotográfica da resistência da população à dura repressão francesa.

O outro símbolo bem visível do mar, este de caráter religioso, é a Grande Mesquita, imponente tanto na sua estrutura arquitetônica como no perfil do seu minarete. Embora ‘moderna’ pelas linhas geométricas que a compõem e que marcam as naves e as colunas encimadas por arcos mouriscos, é a mesquita mais antiga da cidade, datada de 1018.

Símbolo da religião católica é a Basílica menor de Nossa Senhora de África, construída a partir de 1855 e consagrada em 1872, na zona norte da cidade, num alto promontório panorâmico. Também aqui a verticalidade é o elemento de destaque que se impõe sobre a cidade. A altitude do local (124 metros acima do nível do mar) e a altura de uma cúpula muito importante, que ocupa grande parte do volume interior do edifício, definem um terceiro polo da cidade.

Fora da capital, Leão XIV deslocou-se para visitar Annaba, cidade à beira-mar, quase na fronteira com a Tunísia, onde viveu e foi bispo Santo Agostinho até 430, ano em que a cidade foi conquistada pelos Vândalos de Genserico. Annaba, que tem origens muito antigas, torna-se uma cidade romana em todos os sentidos, organizada num traçado ortogonal que, ainda hoje, conserva importantes vestígios arqueológicos : algumas casas, o fórum e as termas com revestimento em mosaico. A partir dos vestígios arqueológicos de Hipona, o nome da antiga cidade romana, capta-se o perfil da cidade moderna, onde se destaca a silhueta da Basílica de Santo Agostinho : um edifício, construído entre 1881 e 1907 em estilo mourisco, que apresenta uma fachada simétrica delimitada nas laterais por duas torres altas. O valor simbólico do monumento está fortemente ligado à vida do santo que, através da sua atividade pastoral e dos seus escritos, deixou um pensamento voltado para a conciliação entre religião e filosofia ocidental.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/ecos-de-cidades-ricas-em-historia.html

 

sábado, 30 de maio de 2026

Liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade - Ano A

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Diácono Luiz Carlos Gomes,

Diácono permanente da Arquidiocese de Maringá 

 

‘Deus enviou seu filho ao mundo, para que o mundo seja salvo por Ele’ (Jo 3,16-18)

‘A solenidade da Santíssima Trindade é uma espécie de síntese do Tempo Pascal, no sentido ‘mistério’ do termo. Ela nos coloca diante do mistério de Deus, com toda Sua grandeza, e revela o Seu infinito amor por nós. 

Celebrar a Santíssima Trindade não é celebrar três deuses, mas um único Deus em três Pessoas : Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus que se desdobra em três Pessoas para que possamos ter acesso a Ele. Um Deus que se revela no Seu mistério porque nos ama infinitamente e quer que O conheçamos, que O encontremos e O percebamos no dia a dia da nossa vida. 

O Evangelho de hoje fala diretamente desse amor de Deus Pai pelos Seus filhos, pela humanidade, pelo mundo. 

João afirma que ‘Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna’. É um gesto extremo de amor o que Deus fez por nós ao se fazer um de nós na Pessoa do Filho e se encarnar. Antes ninguém conhecia Deus. Não se podia ver o rosto de Deus. 

O amor é o único meio de reconhecê-lO e d’Ele se revelar para nós. Ao enviar Seu Filho, primeiro o Pai revela o Seu infinito amor e, segundo, o Seu rosto. Deus se fez um de nós para que tivéssemos acesso a Ele e o conhecêssemos na pessoa de nossos irmãos e irmãs. Esse gesto do Pai narrado no Evangelho de hoje é demonstração do Seu imenso amor. Ele nos ama e quer que tenhamos a vida plena, a vida eterna. 

Que a Santíssima Trindade nos faça verdadeira comunidade de irmãos, sempre prontos a ajudar o próximo, na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo.’ 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://arquidiocesedemaringa.org.br/artigos/2381/reflexao-liturgia-da-solenidade-da-santissima-trindade-ano-a-31-05-2026-29-05-2026

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A necessidade de sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Pinci


‘Nos últimos anos, o mundo parece ter voltado a colocar questões que pensávamos estarem enterradas sob a modernidade e a secularização : o que significa viver com sentido? Qual é a nossa relação com o divino? Guerras, pobreza, migrações, crises ecológicas e económicas abalaram as nossas certezas, colocando em primeiro plano a fragilidade e a vulnerabilidade do ser humano. E, nesta tensão, muitas mulheres estão a assumir um diálogo antigo e novo ao mesmo tempo : o regresso ao sagrado, ou pelo menos a uma forma de espiritualidade que não se limite à ausência de fé, mas que se torne uma experiência concreta, vivida, prática.

Não é por acaso que, como observa Emilia Palladino, professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é precisamente o medo – uma emoção originária, necessária à sobrevivência – que reabre o espaço da espiritualidade. Num mundo marcado pelo mistério e pela incerteza, a busca de um ‘além’ torna-se uma forma de atravessar esse medo sem sermos por ele dominados. A espiritualidade, escreve ela, não o cancela, mas orienta-o, transforma-o numa alavanca para continuar a viver e a procurar sentido.

Os testemunhos reunidos neste número mostram uma pluralidade de perspectivas. Cécile, ajoelhada diante da Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa em Paris, tem nas mãos um caderno com os nomes de entes queridos desaparecidos na guerra no Sudão. O seu corpo estremece como num soluço abafado, mas a oração torna-se um gesto de resistência, memória e esperança. Nesta cena, tão concreta e poderosa, o sagrado não é abstrato : é cuidado, atenção, presença. E é guardado por mulheres, pelas religiosas que gerem a capela, mas também por quem reza sozinho, em silêncio.

A professora Valérie Aubourg, que dirige a nova Faculdade Eclesiástica de Ciências Sociais da Universidade Católica de Lyon, ajuda-nos a interpretar este fenómeno com um olhar mais amplo. Após o Concílio Vaticano II, muitas práticas visíveis – peregrinações, gestos de devoção – foram postas de lado como formas antiquadas. Hoje, também graças à chegada dos migrantes católicos, estas práticas ressurgem, mas sob novas formas : muitas vezes individualizadas, interiorizadas, mas capazes de devolver sentido à comunidade e ao rito. Peregrinações, estátuas, cerimônias religiosas : não são um regresso nostálgico, mas uma reinvenção do sagrado, onde as mulheres são frequentemente protagonistas na transmissão de gestos e significados.

Também na sociedade laica, o debate está vivo. Flavia Trupia, crente que se dedica à comunicação e à retórica, observa que a religião católica continua a ser uma lição de amor e respeito impossível de substituir. No entanto, muitas mulheres como ela mantêm-se distantes das instituições, atraídas pela espiritualidade, mas não pelos rituais hierárquicos. Então a questão é : se há espaço para falar de Deus, será este o momento das mulheres? Será a sua voz que hoje pode redefinir o sagrado, tornando-o acessível, inclusivo e capaz de responder aos dilemas concretos do nosso tempo?

É uma questão que atravessa também a Igreja a partir de dentro. A jovem teóloga Paola Franchina diz isso com palavras claras : «Sou católica, mas não quero ser um eco». A sua reflexão realça um ponto crucial : a presença das mulheres é ampla, mas o seu acesso aos lugares de decisão permanece limitado. Não é apenas uma questão de visibilidade, mas de poder, de reconhecimento real da capacidade de influenciar. Permanecer na Igreja, para muitas, não é uma adesão passiva, mas uma escolha consciente, muitas vezes árdua : uma forma de pertença acompanhada pelo desejo de transformação. Uma voz que não se limita a ressoar, mas que pede para ser ouvida.

Não é por acaso que a cultura contemporânea explora tensões semelhantes. No cinema, o realizador vencedor de um Óscar, Paolo Sorrentino, coloca uma questão essencial : de quem são os nossos dias? É a interrogação que atravessa o seu último filme, La grazia, onde a ‘graça’ não é apenas um conceito jurídico, mas uma dimensão interior, capaz de salvar sem ter de explicar. É uma pergunta que ressoa profundamente no nosso tempo, intercetando uma busca generalizada de sentido, suspensa entre fé, dúvida e desejo.

Esta mesma tensão é também visível em algumas experiências artísticas atuais, onde o sagrado se mistura com a vida pessoal e a busca interior. Na obra da cantora espanhola Rosalía, por exemplo, a espiritualidade sobressai através de diversas referências, que vão desde as santas cristãs até figuras como Simone Weil. São presenças que se tornam pontos de referência interiores. A oração, aprendida em criança ao lado da avó, regressa como um gesto simples e diário. Ao mesmo tempo, a música torna-se um espaço onde o divino é procurado, evocado e, por vezes, até questionado. Não se trata de uma fé ostentada ou rígida, mas de algo autêntico, que passa pelo corpo, pela voz e pela memória.

Neste sentido, a sua busca dialoga profundamente com a de tantas mulheres : uma espiritualidade que não se limita a guardar o passado, mas que o reelabora, o põe em movimento. As peregrinações já não coincidem necessariamente com os percursos tradicionais rumo a destinos sagrados codificados, mas assumem novas formas, muitas vezes pessoais e informais : caminhos sem destinos pré-estabelecidos, viagens lentas pela natureza, experiências de silêncio ou de busca interior que cada um constrói de acordo com a própria necessidade de sentido. Nestes percursos, tal como nos gestos quotidianos de cuidado — dedicar tempo a si próprio, aos outros, ao que nos rodeia — o sagrado não se apresenta como algo separado ou já definido, mas como uma experiência encarnada, que ganha forma na vida concreta. É um sagrado nunca definitivo, que não se deixa fixar de uma vez por todas, mas permanece sempre em devir, aberto, em contínua transformação.

Este número de Mulheres Igreja Mundo não pretende sintetizar todas as vozes. As entrevistas, reportagens e relatos de viagem aqui reunidos mostram uma pluralidade de abordagens : quem se aproxima de uma espiritualidade pessoal, quem redescobre práticas antigas com novos olhos, quem dialoga com a religião através da cultura e da filosofia. Em todas elas, porém, percebe-se um elemento comum : a necessidade de sentido, de comunidade e de beleza. E são as mulheres que encarnam, hoje, muitas dessas práticas, tanto dentro das instituições como fora delas, com uma liberdade de escolha que torna a sua espiritualidade original e poderosa.

Talvez os nossos dias pertençam realmente àqueles que sabem ouvir, rezar, guardar a memória e a esperança. O sagrado é gesto concreto, cuidado, atenção ao outro e graça de ânimo. E talvez, nesta época de questões globais e tensões íntimas, as mulheres sejam a voz que fala ao presente, reinventando o diálogo entre o céu e a terra, entre a fé e a vida.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/a-necessidade-de-sentido.html

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

As grandes civilizações africanas - A Diáspora Africana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘O termo 'Diáspora' a partir do grego antigo tem o significado de dispersão, implicando no ato de espalhar-se de grupos étnicos ou religiosos que deixam seu local de origem se espalhando pelo mundo. O termo foi muito usado principalmente para se referir ao exílio judeu para fora da terra de Israel ou da Palestina e à subsequente dispersão do povo judeu pelo mundo. Seu significado foi ampliado para designar a dispersão de qualquer povo para fora de seu país de origem. Desta forma quando falamos da diáspora africana estamos falando do deslocamento de pessoas e povos para fora de seu continente. Dispersão sempre fala de uma ação forçada por diversos motivos.

Diáspora e formação de comunidades de afrodescendentes

A Diáspora Africana refere-se ao deslocamento forçado e obrigatório de povos africanos e de seus descendentes para outras partes do mundo, especialmente para as Américas, Europa, Caribe e Oriente Médio, resultando na formação de comunidades afrodescendentes fora do continente africano. Embora esse processo tenha raízes muito antigas, foi durante o tráfico transatlântico de escravizados, entre os séculos XV e XIX, que a diáspora africana assumiu proporções gigantescas, com consequências profundas e duradouras para as sociedades envolvidas.

Estima-se que enquanto existiu a escravidão coo negócio mais de 12 milhões de africanos tenham sido capturados e transportados em condições brutais pelos colonizadores europeus, sobretudo portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, para serem explorados como mão de obra barata nas plantações e minas de colônias de várias partes do mundo, sobretudo, nas Américas.

O processo violento da dispersão provocou não apenas a ruptura de laços familiares e culturais na África, como também o surgimento de novas formas de resistência e reconstrução identitária nos territórios para onde esses povos foram levados. Mesmo sob as condições desumanas da escravidão, os africanos originários e seus descendentes lutaram para preservar suas tradições religiosas, linguísticas, musicais, gastronômicas e filosóficas, influenciando decisivamente a formação das culturas nacionais. No Brasil, por exemplo, a presença africana está profundamente entranhada nas expressões populares, na música, na religião, na culinária e na linguagem. Em Cuba, no Haiti, no Caribe, nos Estados Unidos e em outros lugares, o legado africano também se manifesta como uma força cultural que integra pessoas e grupos.

Razões da dispersão

A diáspora africana, no entanto, não foi motivada somente pela escravidão, incluindo também movimentos migratórios voluntários de africanos em épocas mais recentes, como no período pós-colonial, a partir do século XX, quando milhões de pessoas migraram para a Europa e para as Américas em busca de melhores condições de vida, educação e liberdade.

Em todos esses contextos e independente das motivações, a diáspora implica numa luta constante contra o preconceito, racismo, a desigualdade e a exclusão social, como se percebe no movimento de migração africana em direção aos países da Europa e América do Norte. Além do mais, ela implica numa busca de afirmação de identidade cultural e racial e pela valorização das raízes africanas. A luta pela identidade racial e cultural, mesmo em países estrangeiros está na base e origem de movimentos sociais, políticos e culturais importantes como o pan-africanismo, a negritude, o movimento dos direitos civis nos EUA, o movimento negro no Brasil, entre tantos outros.

A Diáspora Africana não é apenas um fenômeno histórico de dispersão geográfica, mas uma dinâmica de resistência, reinvenção cultural e afirmação de dignidade humana, que conecta a África e o mundo de maneira profunda e contínua.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-diaspora.html

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

As grandes civilizações africanas - África, Berço do Mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

  

‘Nos últimos tempos a historiografia tem estudado mais de perto a história do continente africano. Com isso, sua história e a organização dos povos existentes no continente na fase anterior à chegada do europeu ganham novas formatações e o continente aos poucos vai resgatando a sua importância. A própria cartografia já começa a criar modelos de mapas e cartas geográficas que, diferentemente do que se fez durante mais de 15 séculos, a África vai ganhando uma centralidade maior.

A África do norte, localizada acima do Deserto do Saara, manteve relações mais estreitas com a Europa no tempo do Império Romano que incluiu diversas regiões em seu imenso domínio. No Norte da África os romanos se depararam com Cartago, uma potência comercial e marítima que se opôs ferozmente a Roma. Apenas depois da derrota de Cartago nas chamadas Guerras Púnicas e com sua submissão é que Roma teve abertas as portas do Mar Mediterrâneo, com a possibilidade de se expandir pelo norte da África, Oriente Médio e partes do extremo Oriente, chegando até a Índia.

Outro caso específico é o do Egito que ao longo do Rio Nilo que nasce no coração da África constituiu uma das maiores civilizações de todos os tempos. Porém, na maioria das vezes o estudo da Civilização Egípcia não considera como se ela fosse parte do continente.

Ao longo de vários milênios o Deserto do Saara foi quase que intransponível, como que separando a África em duas partes, acima e abaixo do deserto.

A verdadeira descoberta do Continente Africano

Durante séculos a historiografia repetia a narrativa de que ‘a África foi descoberta pelos navegadores portugueses’, especialmente a chamada Áfica Negra ou Sub-Saariana. Esta ideia, além de historicamente limitada, ignorava o papel central do continente africano na formação da humanidade e das primeiras civilizações conhecidas.

A ideia ou conceito de ‘Descobrimento’ conforme acontece em relação ao Brasil ou às Américas é limitado. Assim como hoje não se aceita mais a noção de que o Brasil ou a América tenham sidos descobertos, a África também não foi descoberta, mas foi se revelando ao mundo.

A arqueologia moderna é categórica : a espécie humana surgiu na África. Os fósseis mais antigos do Homo Sapiens foram descobertos em localidades da Etiópia, datados de 195 mil anos no passado ou em localidades do Marrocos, datados de 300 mil anos no passado. Esses testemunhos confirmam que o continente africano foi o primeiro lar da humanidade e de lá, em levas sucessivas, os humanoides foram se espalhando por outras regiões.

Como vimos nos textos passados, séculos antes de qualquer navegador europeu cruzar o Oceano Atlântico ou o Oceano Índico, já existiam na África reinos, impérios e centros urbanos altamente organizados e ali existiram grandes civilizações que as vezes não são consideradas como parte da África. Trazemos aqui alguns exemplos da grandeza que existiu na África antes da chegada dos europeus.

Norte da África : Civilização de Cartago e Egito Antigo. Cartago era expert em navegação e comércio marítimo.

𝐊𝐞𝐦𝐞𝐭 (𝐄𝐠𝐢𝐭𝐨 𝐀𝐧𝐭𝐢𝐠𝐨) : Foi pioneiro em escrita, astronomia, matemática e medicina. A mumificação alcançou um alto grau de especialização no Egito.

𝐍𝐮́𝐛𝐢𝐚 𝐞 𝐊𝐮𝐬𝐡 : Por serem rivais, por vezes foram dominados pelo Egito, mas legaram diversos exemplos de arquiteturas monumentais próprias.

G𝐚𝐧𝐚, 𝐌𝐚𝐥𝐢 𝐞 𝐒𝐨𝐧𝐠𝐡𝐚𝐢 : Esses impérios controlavam o comércio trans-saariano e desenvolveram centros de saber como Timbuktu.

𝐆𝐫𝐚𝐧𝐝𝐞 𝐙𝐢𝐦𝐛𝐚𝐛𝐮𝐞 : Se constituiu como cidade-estado monumental, símbolo da engenharia africana medieval.

Todos esses exemplos citados foram construídos, preservados e projetados pelo próprio povo africano. Antes da expansão europeia provocada pelo Capitalismo Comercial, africanos já realizavam viagens marítimas, comerciais e científicas. Os núbios e os egípcios navegavam pelo Rio Nilo e também alcançaram o Levante, o Mediterrâneo, o Mar Egeu e possivelmente a Arábia e o Oceano Índico. O Reino de Axum existente onde hoje está a Etiópia e Eritreia já mantinha comércio internacional com Roma, Pérsia, Arábia e Índia no século I da Era Cristã. O Império de Mali empreendeu expedições atlânticas antes mesmo das viagens de Cristóvão Colombo ou Vasco da Gama, incluindo a famosa expedição do imperador Abu Bakr II no século XIV.

Quando os navegadores portugueses chegaram às costas africanas no século XV, encontraram cidades, portos, sistemas fiscais, exércitos organizados, complexas estruturas políticas e religiosas. Ou seja, encontraram povos já descobertos por si mesmos há milénios. Portanto, a ideia de ‘Descoberta’ ganhou força como forma de legitimação da expansão comercial da Europa.

Num caso ou no outro o que se chamou de ‘descoberta’ foi, na verdade, o primeiro contato europeu, e não a revelação de um continente desconhecido.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-africa-berco.html



domingo, 24 de maio de 2026

O sagrado que separa, o santo que aproxima

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Cettina Militello


Não sei se se pode falar de um regresso ao sagrado. Se assim fosse, para nós cristãos seria uma derrota. Com efeito, apesar de ser antropologicamente uma categoria fundamental, o ‘sagrado’ está por sua natureza marcado pela separação. A tal ponto que é necessário exorcizar tudo o que lhe é próximo ou adverso.

Pelo contrário, a categoria teológica fundamental para nós cristãos é o ‘santo’, traço conotativo de Deus, cujo mistério somos chamados a partilhar. Em síntese, o sagrado como separação/distância; o santo como participação/proximidade. O sagrado como algo que inspira temor e tremor, o santo como encontro gratificante e divinizante.

Claramente, a secularização prevista para meados ou para o final do milénio não se concretizou, pelo menos não da maneira radical que tinha sido profetizada. Sob outras modalidades, a necessidade de espiritualidade abriu caminho mesmo sem se dirigir a uma realidade pessoal transcendente e, portanto, resolvendo-se numa prática ou num método de saúde mental.

Meditar como esvaziamento da mente, como técnica de relaxamento. Não como encontro com o totalmente Outro, como busca daquilo a que Agostinho chamava Beleza tão amada, fora da qual o ser humano não encontra descanso nem quietude.

Para mim, é difícil decifrar estas realidades, em grande parte autorreferenciais. A este respeito, lamento aquilo que várias vezes indiquei como uma interrupção na corrente de transmissão da fé.

Portanto, se a necessidade de sacralidade revela uma interrogação, uma instância apesar de tudo excedente e permanente, a desilusão é em relação a uma geração, a minha, que não foi capaz de transmitir a fé. E refiro-me precisamente àquela pietas diária, de que as mulheres eram guardiãs. Uma atitude instintiva e ingénua, mas que não obstante tudo transmitia, juntamente com as regras da vida, também os rudimentos da fé; educava para uma oração vocal, por mais repetitiva que fosse, que no entanto denotava uma pausa, uma interrupção no cansaço quotidiano, também ele monótono, ligado à sobrevivência, ao cuidado e à nutrição do dia a dia, à obrigação de acompanhar a vida desde o nascimento até à morte, tarefa fundamental das mulheres.

Não sei o que restou disto. Dir-se-ia muito pouco. Os espaços de nicho incluem tanto os da meditação como método de relaxamento, como os da inquietude de pensar e manifestar a própria fé. E talvez seja a partir destes últimos que, com o passar do tempo, algo possa mudar.

Numa transição de época como a que vivemos, a exigência de sentido torna-se mais acentuada. Certamente, pode-se adormecê-la com a euforia, a droga, a perda de respeito, o desperdício de si mesmo. Mas não se pode apagá-la completamente, e não é por acaso que a vemos explodir, quer como caso literário, quer como fenómeno de pensamento.

As mulheres estão presentes nestes cenários, também elas cansadas de procurar a sua razão de existir neste mundo. Agora livres das obrigações culturais pretensiosamente atribuídas ao seu sexo, elas podem moldar a sua vida a seu bel-prazer. Podem casar-se ou optar por não o fazer; ter filhos ou recusar-se a tê-los; podem comprometer-se no social ou perder-se na futilidade autorreferencial das redes sociais, vitrines de vazio e tagarelice, espaços de pura e ostensiva autoafirmação. Mas também podem assumir a responsabilidade pelos outros, pelo mundo, pelos animais e pelas pessoas; podem abraçar as causas mais díspares, com toda a liberdade, e não porque isto está inscrito no seu ventre fecundo.

É claro que, embora representem uma minoria, as mulheres falam de Deus e o Deus de que falam é muito diferente do Deus dos seus pais (e das suas mães). Aquelas que o procuram, revivendo a mesma paixão de tantas mulheres do passado, hoje têm a possibilidade de aceder a instrumentos que outrora lhes eram negados. Podem ‘tomar a palavra’, orientando deste modo as próprias palavras de maneira diferente, conferindo-lhes novos significados.

O Deus de que as mulheres falam não se insere na esfera do sagrado, no sentido de que não é a sua supremacia que elas procuram. Certamente haverá também aquelas que recorrem à sacralidade sob o sinal destrutivo do poder, mas não são a maioria. Talvez sejam mais visíveis e, por isso, mais imitadas. Mas o Deus das mulheres é todo-poderoso no sentido original do termo pantokrator. Em vez de potência e poder absoluto, ele sugere apoio e abraço. É o Deus que tudo contém, tudo sustenta, tudo acompanha, e cujo nome reconfortante e pacificador é misericórdia.

Devo aos meus estudos a possibilidade de falar de Deus de outro modo. E espero sinceramente que o meu esforço e o de tantas outras mulheres que perseguem as mesmas idealidades acabem por ressoar na sua autenticidade. Eis o sentido da vida, da nossa vida de mulheres (assim como de homens) : reside inteiramente na possibilidade de nos colocarmos frente a frente, uns com os outros, num diálogo frutífero vis-à-vis que, em última análise, revela o cerne da questão : todos nós, homens e mulheres, fomos criados à imagem de Deus e, por isso mesmo, somos chamados à relação e ao cuidado recíproco.

Se me for lícito, falar de Deus da parte das mulheres significa decliná-lo diversamente, ou seja, levar a sério o paradigma do seu ‘fazer-se carne’ e transformar, precisamente a ‘carne’, no lugar emblemático — teológico — da experiência de proximidade.

Durante séculos, falávamos de Deus como ‘o ser’ por excelência, reproduzindo, até sem o querer, o modelo aristotélico do motor imóvel. Pelo contrário, o Deus cristão é um Deus ‘em devir’, que renuncia à natureza divina para fazer sua a condição indigente do ser humano. É um Deus que se faz carne. E isto implica a assunção da debilidade humana, do limite, da fragilidade. A assunção da impotência, da dor, da morte à maneira de qualquer outro ser humano.

O nosso monofisismo projetou no homem Jesus os traços do divino. Nunca levou a sério o seu crescimento, as suas escolhas, as suas angústias, a sua dor, o seu suor de sangue perante a morte. Inclusive quando nos apaixonávamos sentimentalmente pela sua humanidade, às vezes com mecanismos imitativos sadomasoquistas, isto é, castigando a nossa carne para imitar o seu sofrimento, nunca nos passou pela mente interpretar o mistério da sua vida num horizonte de fragilidade e dúvida, num horizonte de debilidade. No entanto, as faixas que o envolveram quando nasceu, cobrindo a sua nudez, assim como as vestes das quais foi despojado para ser colocado no patíbulo, não eram uma ficção, como se afinal a sua identidade divina prevalecesse sobre tudo. Pelo contrário, o homem Jesus sofreu como qualquer outro homem; trabalhou como qualquer outro homem; teve os estímulos e as sugestões que acompanham a vida de todos nós, e dos quais são emblema as chamadas ‘tentações’.

Pois bem, gostaria que as mulheres falassem de Deus, articulando o seu nome inefável em sinal de solicitude e de cuidado; acima de tudo, gostaria que reconhecessem no Filho o paradigma daquela relação que descreve Deus diante de Deus, na dança trinitária de Pai, Filho e Espírito. Uma dança que agora reconhece a carne como conotado próprio de Deus e, por isso, interioriza a finitude e o limite.

Sim, desejaria uma nova era do Espírito, cujo sopro gentil, revelando-nos na nossa fragilidade, nos tornasse capazes de a superar, abandonando desígnios demoníacos de poder para traçar horizontes autênticos de sororidade e fraternidade.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/o-sagrado-que-separa-o-santo-que-aproxima.html

 

sábado, 23 de maio de 2026

Pentecostes e a visão do Espírito Santo em São Basílio de Cesaréia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Vital Corbellini, 

Bispo de Marabá, PA


‘Nós estamos próximos de Pentecostes, a solenidade na vida eclesial, espiritual, religiosa nas quais nós comemoramos a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos com Maria Santíssima no Cenáculo. Pentecostes foi o grande acontecimento salvífico que marcou a vida da Igreja fazendo os apóstolos, testemunhas dignas de serem os discípulos missionários de Jesus Cristo na Obra da redenção pelo mundo, proveniente do Pai. Na realidade atual, nós almejamos um Novo Pentecostes para que a paz e o amor reinem nos corações das pessoas e dos povos, em vista de uma vida humana conforme o plano do Senhor. Nós veremos a seguir a visão de São Basílio a respeito do Espírito Santo, a sua Pessoa e os dons que Ele concede à humanidade.

As noções do Espírito Santo a partir das Escrituras

O Espírito Santo recebe os nomes de Espírito de Deus, o Espírito da Verdade, que vem do Pai (Jo 15,26). Ele é também conhecido como Espírito reto, Espírito principal (Sl 50, 12-14). Segundo São Basílio, é o Espírito Santo o seu nome próprio, Ele é o ser incorpóreo, inteiramente imaterial e simples [1]. A natureza humana tem estas noções em relação ao Espírito Santo.

Deus é Espírito

O Senhor Jesus disse à samaritana que acreditava necessário adorar em um determinado lugar, que o Ser incorpóreo é incircunscrito afirmando que Deus é Espírito (Jo 4,24). Desta forma ao ouvir falar do Espírito Santo, a pessoa fiel não deve imaginar uma natureza circunscrita ou sujeita a mudança, alteração semelhante à uma criatura. Por isso ao pensar ao Ser sublime, o Espírito Santo, dever-se-á ter presente uma substância inteligente, de poder infinito, de grandeza ilimitada, fora do tempo e dos séculos [2].

A busca da santificação

O Espírito Santo faz do ser humano uma contínua busca de santificação, porque Ele é Santo. Para Ele se dirigem os desejos intensos das pessoas que vivem segundo a virtude, quantas recebem o calor de seu sopro sendo amparadas para alcançar o fim adequado a sua natureza, que é a divina. Ele sempre aperfeiçoa às pessoas que o buscam de coração sincero, sem contudo, Ele mesmo de nada carecer [3].

Provedor de vida

Ele é o Ser que é provedor de vida, porque nele não há morte, destruição. Ele é a vida em plenitude junto com o Pai e o Filho. Ele não aumenta, mas possui a plenitude da vida, é consistente por si mesmo, estando em toda a parte. Ele concede a iluminação a toda a faculdade racional, para que descubra a verdade. Seu poder enche todas as coisas, comunicando-se às pessoas que são dignas, operando conforme à fé, a caridade [4].

Simples por essência

O Espírito Santo é simples por essência, e o seu poder se manifesta em milagres variados (Cfr. Hb 2,4). Ele está presente todo inteiro em cada ser. Ele é impassível na partilha, Ser que não falha na comunicação, iluminando a todo o ser que nele se volta com amor. Ele está presente em tudo, como se fosse o único às pessoas que são capazes de acolhê-lo, e Ele comunica a graça suficiente para todas as pessoas que usufruem da sua graça o quanto é possível por sua natureza [5].

A aproximação do Paráclito

São Basílio afirmou que é possível aproximar-se do Paráclito, do Espírito Santo se o ser humano fizer a sua parte, através da purificação e a recuperação da beleza própria da nossa natureza, na sua primitiva forma [6]. O Paráclito como um sol, penetrará os olhos purificados e mostrará em si a Imagem do ser Invisível. Na feliz contemplação da Imagem, a pessoa verá a inefável beleza do modelo originário [7].

As ações do Espírito Santo

É importante ver as ações que o Espírito Santo realiza nas pessoas, porque por meio Dele, elevam-se os corações, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem chegam à perfeição. Através da conversão de vida das pessoas, transforma o Espírito as pessoas em espirituais, através da comunhão com Ele [8]. O Espírito Santo dá a graça da inteligência dos mistérios, a percepção das coisas ocultas, a distribuição dos carismas, a cidadania celeste, o canto em coro com os anjos, a alegria interminável, a habitação junto de Deus, a semelhança com Deus [9].

Crer no Filho e no Pai

São Basilio disse que a pessoa unida ao Espírito acredita no Filho, da mesma forma a pessoa unida no Espírito crê no Pai. Ninguém pode dizer Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo (Cfr. 1 Cor 12,3). Desta forma é impossível adorar o Filho, a não ser no Espírito Santo, nem é possível invocar o Pai, a não ser no Espírito de adoção filial [10]. Por isto o Espírito Santo nos une com o Pai e o Filho e a todas as criaturas.

Nós almejamos um novo Pentecostes de modo que é preciso rezar e trabalhar para que Ele aconteça para a toda Igreja, para o mundo e a todos nós para que vivenciamos sempre mais o amor a Deus, ao próximo a como a si mesmo.’

 

[1] Cfr. Tratado sobre o Espírito Santo, 9,22. In: Basílio de Cesaréia. São Paulo: Paulus, 1998, pg. 114.

[2] Cfr. Idem, pgs. 114-115.

[3] Cfr. Ibidem, pg. 115.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem.

[6] Cfr. Ibidem9, 23, pg. 116.

[7] Cfr. Ibidem.

[8] Cfr. Ibidem.

[9] Cfr. Ibidem.

[10] Cfr. Ibidem, 11, 27, pg. 120. 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-05/santa-rita-cassia-monte-sibilla-historia-idade-media.html

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Santa Rita e o monte da Sibilla

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
A pedra com as marcas dos joelhos de Santa Rita em Roccaporena

*Artigo de Maria Milvia Morciano


‘Durante séculos, a paisagem dos Montes Sibilinos alimentou histórias de grutas misteriosas, lagos inquietos e figuras suspensas entre a lenda e a devoção. Entre as regiões das Marcas e Úmbria, numa região marcada por penhascos íngremes, planaltos isolados e alto risco sísmico, o mito da Sibila dos Apeninos e a memória de Santa Rita de Cássia coexistem até a era moderna.

Fontes medievais descrevem essas montanhas como isoladas e de difícil acesso. Histórias de necromantes e práticas mágicas surgiram ao redor do Lago Pilatos, enquanto a Gruta da Sibila se tornou um destino para viajantes de toda a Europa. Entre os séculos XV e XVI, a fama desses lugares se espalhou graças a ‘Paradis de la Reine Sibylle, de Antoine de La Sale, e ‘Guerrin Meschino’, de Andrea da Barberino.

A caminhada na montanha 

A Sibila aparece como uma rainha subterrânea que vive nas entranhas da montanha, rodeada por damas e cavaleiros em uma espécie de paraíso encantado. Mas por trás da beleza do reino, esconde-se um perigo : nas narrativas medievais, esse mundo assume uma qualidade ambígua e sombria. A caminhada até a caverna torna-se, assim, um teste moral, bem como uma aventura. Algumas versões da lenda descrevem uma ponte suspensa sobre o abismo — a pons subtilis mencionada por Gregório Magno — uma imagem de julgamento e da passagem para a vida após a morte : atravessá-la significava confrontar o pecado, a ilusão e a possibilidade de salvação. Esses contos retratam a ideia medieval específica da caminhada, suspensa entre a experiência real e a busca espiritual.

A montanha e o terremoto 

A própria conformação dos Montes Sibillini provavelmente contribuiu para o surgimento de lendas. Em uma região marcada por recorrentes terremotos, o movimento da terra tornou-se parte natural do imaginário coletivo. Deslizamentos de terra, cavidades naturais e lagos de montanha alimentaram histórias de aberturas para mundos subterrâneos e presenças misteriosas. Muitos nomes de lugares na área ainda conservam vestígios dessa herança narrativa : da Gola dell'Infernaccio ao Pizzo del Diavolo, até a Grotta della Sibilla.

A pedra de Santa Rita 

Ao longo do tempo, a tradição popular e alguns estudos frequentemente contrastaram a figura da Sibila com a de Santa Rita. Não muito longe dali, na região de Cássia, a tradição popular, por sua vez, associa a Pedra de Rocca Porena à figura de Santa Rita de Cássia, a santa úmbria que viveu entre os séculos XIV e XV, cuja devoção se espalhou para muito além dos Apeninos centrais. Também ali, a rocha entra na narrativa religiosa, mas com um significado oposto ao mundo instável da Sibila.

Segundo a devoção local, a santa se refugiava naquele contraforte da montanha, onde teria deixado a marca de seus joelhos. A montanha não é mais simplesmente uma cavidade escura ou a porta de entrada para um reino ambíguo, mas um ponto estável e vertical, voltado para cima. O movimento da terra e a descida para a caverna são contrabalançados pela estabilidade da rocha, quase uma resposta cristã ao antigo temor da terra se abrir. Talvez não seja coincidência que tenha sido precisamente nas proximidades desses lugares, em Preci, que uma das mais célebres escolas de cirurgia da Itália, renomada por sua oftalmologia e extração de cálculos, tenha surgido entre os séculos XVI e XVII. É como se, na mesma geografia que alimentara histórias de ritos mágicos e forças subterrâneas, a prática da medicina tivesse encontrado um novo espaço e autoridade.

Do mito à devoção 

Com o tempo, as narrativas da Sibila gradualmente se incorporaram ao folclore, enquanto a devoção a Santa Rita, figura de proteção e intercessão profundamente enraizada nos Apeninos da Úmbria, cresceu. A mesma paisagem que na Idade Média alimentou contos de cavernas, terremotos e presenças misteriosas foi, assim, reinterpretada por meio da oração, da peregrinação e do culto aos santos.

Nas Montanhas Sibillini, porém, o mito nunca desapareceu por completo. Ele continua a sobreviver em contos populares, em trilhas, em nomes de lugares e na percepção de uma montanha ao mesmo tempo bela e frágil, onde a natureza e a memória coletiva continuam a se moldar mutuamente.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-05/santa-rita-cassia-monte-sibilla-historia-idade-media.html