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quinta-feira, 25 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Moçambique

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Estamos estudando a história da África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Nos textos passados conhecemos um pouco da história, da organização e da atual situação de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Hoje nos debruçamos sobre mais um país da África Portuguesa, Moçambique.

Rica tradição de povos e culturas

Situado no sudeste da África, Moçambique é um país que possui uma rica história que remonta a muitos séculos. Desde o período pré-colonial, passando pela luta pela independência até chegar na era pós-colonial, Moçambique passou por diversas mudanças e transformações políticas, sociais e culturais que influenciaram profundamente sua história.

O nome Moçambique, primeiramente utilizado para a Ilha de Moçambique, primeira capital da colônia seria derivado do nome de um comerciante árabe que ali viveu, Musa Al Bik, Mossa Al Bique ou Ben Mussa Mbiki.

Moçambique era habitado por várias tribos e reinos ligados ao povo Bantu nos séculos III a V da Era Crista, quando parte considerável da Europa e do norte da África faziam parte do Império Romano. Foram eles que introduziram a agricultura e o sedentarismo, substituindo comunidades nômades.

Depois disso, veio a influência Suíli-Árabe a partir do século X. A costa marítima da região foi dominada por entrepostos comerciais árabes, com a ilha de Moçambique tornando-se um centro comercial.

Moçambique era habitado então por várias tribos e reinos, incluindo o Império Monomotapa, que governou a região entre os séculos XV e XVII. O império ficou famoso por causa de suas minas de ouro que atraíam comerciantes árabes e portugueses para a região.

Durante esse período, a região também era conhecida por ser um importante centro de comércio de escravos, com muitos africanos sendo capturados e vendidos como escravos para outras partes do mundo. No entanto, também existiam rotas comerciais prósperas que ligavam Moçambique a outros países africanos, como Zimbábue, Malawi e Tanzânia.

Foi aí que em 1498, chegaram os portugueses, liderados pelo navegador Vasco da Gama que buscava o caminho das Índias. A presença portuguesa concentrou-se inicialmente na costa, com o nome do país.

A partir daí, começou o processo de colonização do país, que durou até a independência em 1975. Durante o período colonial, os portugueses exploraram os recursos naturais de Moçambique e utilizaram a mão-de-obra africana para trabalhar nas plantações e minas.

Portugal, porém, somente consolidou o controle sobre todo o território no final do século XIX, criando fronteiras e administrando através de companhias concessionárias com trabalho forçado.

O processo de colonização não foi aceito livremente, acontecendo resistência indígena, com líderes como Ngungunhana, até o início do século XX. 

O processo de independência

A colonização provocou muitos malefícios, trazendo conflitos e tensões, com a população nativa sendo reprimida e discriminada pelos colonizadores. Houve várias revoltas e insurreições contra o domínio português, como a Guerra de Libertação, que durou de 1964 a 1974 e culminou na independência de Moçambique.

A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) iniciou a luta armada em 25 de setembro de 1964 e a independência foi proclamada onde anos depois em 25 de junho de 1975, Samora Machel o líder da luta contra Portugal tornou-se o primeiro presidente.

Aqueles que haviam atuado na luta pela independência não se entendiam explodindo então no país a Guerra Civil que durou de 1977 a 1992. A FRELIMO enfrentou a RENAMO numa guerra civil que causou grande sofrimento para a população, contando também com o apoio de potências estrangeiras de um lado e de outro.

Na atualidade

Moçambique continua enfrentando significativos desafios na reconstrução do país e na consolidação da democracia. Sua economia continua sendo frágil e a infraestrutura limitada e os serviços básicos bastante limitados.

A capital e maior cidade do país, Maputo, chamada de Lourenço Marques, durante o domínio português concentra uma grande população.

Nos últimos anos, Moçambique tem registrado um crescimento econômico significativo, impulsionado principalmente pelo setor de mineração e gás natural. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos em áreas como pobreza, corrupção e desigualdade social.

A história de Moçambique é rica e complexa, refletindo as influências de várias culturas e povos ao longo dos séculos. Desde o período pré-colonial até os dias atuais, Moçambique passou por muitas mudanças e transformações, enfrentando desafios significativos ao longo do caminho. No entanto, a resiliência e a força do povo moçambicano permitiram que o país se recuperasse e prosperasse, abrindo novas oportunidades para o futuro.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mocambique.html

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Angola

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Começamos a estudar a África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Como bem sabemos, o atual território africano foi retalhado numa série de colônias propriedade de várias nações europeias, e o país lusitano foi aquele que consolidou um dos maiores impérios.

O nome Angola deriva da palavra banto n’gola, título utilizado pelos reis do antigo Reino de Ndongo, no século XVI, localizado na atual região do país. Os portugueses adaptaram o título do monarca, como o ‘Angola Kiluange’, para ‘Angola’ ao se referirem às terras de Ndongo. Ngola era um termo banto que significa ‘força’ ou ‘rei/poderoso’ na língua quimbundo.

Da ocupação à colonização portuguesa

Localizada na costa ocidental da África, Angola conta com uma rica e diversificada história que remonta aos tempos antigos. Sua história é marcada por períodos de colonização, em que fez parte do Império Colonial Português, conflitos internos e lutas pela independência, seguidos por anos de instabilidade política e guerra civil.

Os primeiros habitantes conhecidos da região eram os San, grupo de caçadores-coletores que deixaram evidências de sua presença na forma de pinturas rupestres em várias partes do país. Esses grupos foram posteriormente deslocados pelos povos bantos, que chegaram à região por volta do século III a.C. formando diversos reinos ao longo da costa e no interior.

Durante a Idade Média europeia, o Reino do Congo se tornou uma importante potência na região, formando um dos grandes reinos africanos, estendendo-se seu domínio numa grande parte do que é hoje Angola, bem como em partes da atual República Democrática do Congo e Gabão. O comércio de marfim e escravos era importante para a economia do reino e a religião cristã foi introduzida pelos missionários portugueses no final do século XV.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Congo, marcando o início do contato português com os povos da região. Em 1575, os portugueses fundaram a cidade de Luanda, que se tornou a capital da colônia de Angola. Durante o período colonial, os portugueses estabeleceram plantações de café, algodão e sisal, bem como exploraram minas de diamantes e cobre.

Durante o século XIX, Angola tristemente se tornou um importante centro de comércio de escravos, com milhares de pessoas sendo capturadas e levadas para trabalhar nas plantações das Américas. A abolição da escravatura em 1865, teve um impacto significativo na economia de Angola, levando à mudança para o comércio de matérias-primas.

Na década de 1950, surgiram os primeiros movimentos nacionalistas em Angola, com o objetivo de conquistar a independência em relação a Portugal. O Movimento Popular de Libertação de Angola (conhecido pela sigla MPLA) foi fundado em 1956, seguido pelo Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) em 1961 e pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) em 1966.

A luta pela independência se intensificou durante a década de 1960, com os movimentos nacionalistas lutando contra as forças portuguesas. A guerra se estendeu até a década de 1970, quando a Revolução dos Cravos em Portugal levou à retirada das forças portuguesas de Angola. Em novembro de 1975, o MPLA, que contava com o apoio da União Soviética e Cuba declarou a independência de Angola.

A independência não trouxe a desejada paz para Angola. A luta pelo poder entre o MPLA e a UNITA provocou uma guerra civil que durou quase 30 anos. Ainda hoje existem milhões de minas terrestres plantadas em diversas regiões do país e essa continuam fazendo suas vítimas.

Angola hoje

O português é a língua oficial de Angola e 60% dos moradores declararam ser sua língua materna, embora estimativas indiquem que 70% da população fale uma das línguas nativas como primeira ou segunda língua. Além do português, Angola abriga cerca de onze grupos linguísticos principais, que podem ser subdivididos em cerca de noventa dialetos.

Alguns dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade são angolanos. Sua literatura costuma representar com realismo a dor e o preconceito sofridos pelo povo do país. Entre os principais nomes da literatura angolana estão José Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa e Pepetela.

O cenário de Angola hoje é marcada por um contexto socioeconómico desafiador, caracterizado por elevada pobreza, desigualdade e insegurança alimentar, afetando grande parte da população. Apesar de ser um país rico em recursos como petróleo e diamantes, os desafios incluem a necessidade de muitas melhorias na saúde, educação e infraestrutura, além do combate à corrupção. Apesar dos esforços de reconstrução, a infraestrutura ainda enfrenta dificuldades em todo o país.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-angola.html


quarta-feira, 27 de maio de 2026

As grandes civilizações africanas - A Diáspora Africana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘O termo 'Diáspora' a partir do grego antigo tem o significado de dispersão, implicando no ato de espalhar-se de grupos étnicos ou religiosos que deixam seu local de origem se espalhando pelo mundo. O termo foi muito usado principalmente para se referir ao exílio judeu para fora da terra de Israel ou da Palestina e à subsequente dispersão do povo judeu pelo mundo. Seu significado foi ampliado para designar a dispersão de qualquer povo para fora de seu país de origem. Desta forma quando falamos da diáspora africana estamos falando do deslocamento de pessoas e povos para fora de seu continente. Dispersão sempre fala de uma ação forçada por diversos motivos.

Diáspora e formação de comunidades de afrodescendentes

A Diáspora Africana refere-se ao deslocamento forçado e obrigatório de povos africanos e de seus descendentes para outras partes do mundo, especialmente para as Américas, Europa, Caribe e Oriente Médio, resultando na formação de comunidades afrodescendentes fora do continente africano. Embora esse processo tenha raízes muito antigas, foi durante o tráfico transatlântico de escravizados, entre os séculos XV e XIX, que a diáspora africana assumiu proporções gigantescas, com consequências profundas e duradouras para as sociedades envolvidas.

Estima-se que enquanto existiu a escravidão coo negócio mais de 12 milhões de africanos tenham sido capturados e transportados em condições brutais pelos colonizadores europeus, sobretudo portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, para serem explorados como mão de obra barata nas plantações e minas de colônias de várias partes do mundo, sobretudo, nas Américas.

O processo violento da dispersão provocou não apenas a ruptura de laços familiares e culturais na África, como também o surgimento de novas formas de resistência e reconstrução identitária nos territórios para onde esses povos foram levados. Mesmo sob as condições desumanas da escravidão, os africanos originários e seus descendentes lutaram para preservar suas tradições religiosas, linguísticas, musicais, gastronômicas e filosóficas, influenciando decisivamente a formação das culturas nacionais. No Brasil, por exemplo, a presença africana está profundamente entranhada nas expressões populares, na música, na religião, na culinária e na linguagem. Em Cuba, no Haiti, no Caribe, nos Estados Unidos e em outros lugares, o legado africano também se manifesta como uma força cultural que integra pessoas e grupos.

Razões da dispersão

A diáspora africana, no entanto, não foi motivada somente pela escravidão, incluindo também movimentos migratórios voluntários de africanos em épocas mais recentes, como no período pós-colonial, a partir do século XX, quando milhões de pessoas migraram para a Europa e para as Américas em busca de melhores condições de vida, educação e liberdade.

Em todos esses contextos e independente das motivações, a diáspora implica numa luta constante contra o preconceito, racismo, a desigualdade e a exclusão social, como se percebe no movimento de migração africana em direção aos países da Europa e América do Norte. Além do mais, ela implica numa busca de afirmação de identidade cultural e racial e pela valorização das raízes africanas. A luta pela identidade racial e cultural, mesmo em países estrangeiros está na base e origem de movimentos sociais, políticos e culturais importantes como o pan-africanismo, a negritude, o movimento dos direitos civis nos EUA, o movimento negro no Brasil, entre tantos outros.

A Diáspora Africana não é apenas um fenômeno histórico de dispersão geográfica, mas uma dinâmica de resistência, reinvenção cultural e afirmação de dignidade humana, que conecta a África e o mundo de maneira profunda e contínua.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-diaspora.html

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

As grandes civilizações africanas - África, Berço do Mundo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

  

‘Nos últimos tempos a historiografia tem estudado mais de perto a história do continente africano. Com isso, sua história e a organização dos povos existentes no continente na fase anterior à chegada do europeu ganham novas formatações e o continente aos poucos vai resgatando a sua importância. A própria cartografia já começa a criar modelos de mapas e cartas geográficas que, diferentemente do que se fez durante mais de 15 séculos, a África vai ganhando uma centralidade maior.

A África do norte, localizada acima do Deserto do Saara, manteve relações mais estreitas com a Europa no tempo do Império Romano que incluiu diversas regiões em seu imenso domínio. No Norte da África os romanos se depararam com Cartago, uma potência comercial e marítima que se opôs ferozmente a Roma. Apenas depois da derrota de Cartago nas chamadas Guerras Púnicas e com sua submissão é que Roma teve abertas as portas do Mar Mediterrâneo, com a possibilidade de se expandir pelo norte da África, Oriente Médio e partes do extremo Oriente, chegando até a Índia.

Outro caso específico é o do Egito que ao longo do Rio Nilo que nasce no coração da África constituiu uma das maiores civilizações de todos os tempos. Porém, na maioria das vezes o estudo da Civilização Egípcia não considera como se ela fosse parte do continente.

Ao longo de vários milênios o Deserto do Saara foi quase que intransponível, como que separando a África em duas partes, acima e abaixo do deserto.

A verdadeira descoberta do Continente Africano

Durante séculos a historiografia repetia a narrativa de que ‘a África foi descoberta pelos navegadores portugueses’, especialmente a chamada Áfica Negra ou Sub-Saariana. Esta ideia, além de historicamente limitada, ignorava o papel central do continente africano na formação da humanidade e das primeiras civilizações conhecidas.

A ideia ou conceito de ‘Descobrimento’ conforme acontece em relação ao Brasil ou às Américas é limitado. Assim como hoje não se aceita mais a noção de que o Brasil ou a América tenham sidos descobertos, a África também não foi descoberta, mas foi se revelando ao mundo.

A arqueologia moderna é categórica : a espécie humana surgiu na África. Os fósseis mais antigos do Homo Sapiens foram descobertos em localidades da Etiópia, datados de 195 mil anos no passado ou em localidades do Marrocos, datados de 300 mil anos no passado. Esses testemunhos confirmam que o continente africano foi o primeiro lar da humanidade e de lá, em levas sucessivas, os humanoides foram se espalhando por outras regiões.

Como vimos nos textos passados, séculos antes de qualquer navegador europeu cruzar o Oceano Atlântico ou o Oceano Índico, já existiam na África reinos, impérios e centros urbanos altamente organizados e ali existiram grandes civilizações que as vezes não são consideradas como parte da África. Trazemos aqui alguns exemplos da grandeza que existiu na África antes da chegada dos europeus.

Norte da África : Civilização de Cartago e Egito Antigo. Cartago era expert em navegação e comércio marítimo.

𝐊𝐞𝐦𝐞𝐭 (𝐄𝐠𝐢𝐭𝐨 𝐀𝐧𝐭𝐢𝐠𝐨) : Foi pioneiro em escrita, astronomia, matemática e medicina. A mumificação alcançou um alto grau de especialização no Egito.

𝐍𝐮́𝐛𝐢𝐚 𝐞 𝐊𝐮𝐬𝐡 : Por serem rivais, por vezes foram dominados pelo Egito, mas legaram diversos exemplos de arquiteturas monumentais próprias.

G𝐚𝐧𝐚, 𝐌𝐚𝐥𝐢 𝐞 𝐒𝐨𝐧𝐠𝐡𝐚𝐢 : Esses impérios controlavam o comércio trans-saariano e desenvolveram centros de saber como Timbuktu.

𝐆𝐫𝐚𝐧𝐝𝐞 𝐙𝐢𝐦𝐛𝐚𝐛𝐮𝐞 : Se constituiu como cidade-estado monumental, símbolo da engenharia africana medieval.

Todos esses exemplos citados foram construídos, preservados e projetados pelo próprio povo africano. Antes da expansão europeia provocada pelo Capitalismo Comercial, africanos já realizavam viagens marítimas, comerciais e científicas. Os núbios e os egípcios navegavam pelo Rio Nilo e também alcançaram o Levante, o Mediterrâneo, o Mar Egeu e possivelmente a Arábia e o Oceano Índico. O Reino de Axum existente onde hoje está a Etiópia e Eritreia já mantinha comércio internacional com Roma, Pérsia, Arábia e Índia no século I da Era Cristã. O Império de Mali empreendeu expedições atlânticas antes mesmo das viagens de Cristóvão Colombo ou Vasco da Gama, incluindo a famosa expedição do imperador Abu Bakr II no século XIV.

Quando os navegadores portugueses chegaram às costas africanas no século XV, encontraram cidades, portos, sistemas fiscais, exércitos organizados, complexas estruturas políticas e religiosas. Ou seja, encontraram povos já descobertos por si mesmos há milénios. Portanto, a ideia de ‘Descoberta’ ganhou força como forma de legitimação da expansão comercial da Europa.

Num caso ou no outro o que se chamou de ‘descoberta’ foi, na verdade, o primeiro contato europeu, e não a revelação de um continente desconhecido.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-africa-berco.html



terça-feira, 24 de março de 2026

As grandes civilizações africanas - A rica história do continente africano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Muitos estudantes provenientes de países localizados nesse continente, ao trabalhar suas teses de mestrado (Licença) ou doutorado preferem, em vez de aprofundar temas próprios da cultura ou da história de seu continente, debruçando-se sobre temas próprios da Europa. Não que isso não seja importante, mas perde-se a oportunidade de tornar mais conhecido a história que somente a parir dos anos de 1960 ou 1970 passou a ser melhor explorado.

A verdadeira ‘descoberta’ da África

Assim como aconteceu em relação ao Brasil ou às Américas a historiografia refez o conceito de ‘descoberta’, não mais como o ‘achamento’ de um povo desconhecido, mas sim como encontro de civilizações.

Desde os primeiros estudos acadêmicos e científicos sobre a história e culturas da África, muitas vezes houve a tendência em se considerar o continente como uma região sem história ou com uma história menos significativa do que outras regiões do mundo. Essa perspectiva é incorreta por desconsiderar a rica e complexa história do continente africano, como já vimos ao falar dos grandes reinos existentes na África antes da chegada dos europeus a partir dos séculos XV e XVI.

Em comparação com outras regiões do mundo, como Europa ou Ásia, a documentação histórica sobre a África é mais limitada em alguns aspectos. Isso não significa, porém, que a África não tenha tido uma história rica e influente ao longo dos séculos. Na verdade, a história da África é tão antiga quanto a de qualquer outra região do mundo, com suas culturas, sociedades e civilizações existindo por milhares de anos antes do contato com o Ocidente.

Uma nova historiografia

Uma das razões pelas quais a África é frequentemente considerada um continente sem história, ou de uma história muito recente com pouco mais de 500 anos, é por causa da narrativa eurocêntrica que dominou a produção de conhecimento ao longo da história. Isso levou à suposição de que a África não tinha uma história escrita ou uma cultura significativa antes da chegada dos europeus. Hoje se entende que a história africana era contada de forma diferente pela sua gente, em diferentes partes do continente. Diferentemente da Europa em que a história passou a ser escrita mais cedo, na África valia muito a Tradição Oral, presente ainda hoje em vários povos.

Ainda hoje existe uma visão bastante preconceituosa sobre a África, assim como acontece em relação a outras partes daquilo que antigamente era chamado de ‘Terceiro Mundo’ ou de ‘Países em Desenvolvimento’ frequentemente associada à pobreza e ao subdesenvolvimento. Isso acaba levando a uma desvalorização da história e das culturas do continente, sem considerar a riqueza cultural e a diversidade de grupos étnicos, línguas e tradições que existem na África.

A história da África inclui as antigas civilizações do Egito e da Núbia que floresceram há mais de 03 mil anos. Inclui também o Império de Mali, que governou uma grande parte da África Ocidental entre os séculos XIII e XVI. Além disso, a África teve várias outras sociedades, culturas e reinos poderosos ao longo de sua história, incluindo os Impérios Ashanti, Songhai, Zulu e Kongo, entre outros.

Não podemos desconsiderar que além dessas riquezas, a história da África inclui também períodos de colonização e opressão, que tiveram um impacto significativo na região e na sua cultura. A própria escravidão não nasceu apenas com os europeus sendo já praticada antes de sua chegada, seja pelos berberes que transitavam pelo deserto, pelos muçulmanos que dominariam o comércio em várias rotas e também por tribos e aldeias africanas.

A história da África é rica, complexa e diversa, e deve ser valorizada e estudada como qualquer outra história mundial. A ideia de que a África é um continente sem história é uma concepção ultrapassada e prejudicial que deve ser abandonada. É importante compreender e valorizar a história e as culturas do continente africano para se ter uma visão completa e precisa da história mundial e da humanidade.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-rica.html


terça-feira, 3 de março de 2026

As grandes civilizações africanas - Cidades Iorubás

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘A partir do século IX, na região da atual Nigéria foram formadas várias cidades da civilização iorubá. Essa região já era habitada por esse povo desde o século IV. 

Os iorubás nunca unificaram suas cidades, porém, mantiveram a mesma cultura como língua, religião e costumes. Era uma espécie de cidades-estado que existiram em outras regiões, sendo cada uma delas relativamente autônoma em relação às demais.

A cidade iorubá mais importante foi Ifé, sendo considerada sagrada, por ser o berço dos iorubás, segundo a crença local. Outra cidade importante era Oyo, um centro militar que no final do século XVII, já tinha se expandido até Daomé, no atual Benin.

Ifé foi um grande centro artesanal e artístico, sendo governada por um rei-sacerdote que tinha o título de Oni, enquanto nas outras cidades os governantes recebiam o título de Oba.

Outros grandes centros históricos eram Ibadan, Abeokuta), Ilorin, Ondo, Oxobô (Oshogbo), Ilesha e a cidade existente onde hoje temos moderna metrópole de Lagos, capital da Nigéria.

Essas cidades-estado formaram uma rica civilização que se organizava em torno de centros como Ifé e Oió, com forte tradição política e religiosa

Apesar do cristianismo e do islamismo terem chegado até os iorubás, a maioria desse povo sempre se manteve fiel às antigas tradições politeístas locais, sendo os orixás os seus deuses. Daí provém uma influência muito grande nas religiões de matriz africanas existentes, por exemplo, no Brasil.

Ao contrário do que se acredita, a crença nos orixás não se expandiu pela África, mantendo-se exclusivamente iorubá. Mas como muitos iorubás também chamados de nagôs ou anagôs pelos portugueses foram transformados em escravos e levados à força para a América, o culto aos orixás se misturou ao cristianismo imposto por portugueses e espanhóis, criando vários sincretismos religiosos que fazem parte da cultura americana como, por exemplo, o Candomblé e a Umbanda, no Brasil e o Vodu no Haiti, apesar de o Vodu também receber influências de outras culturas africanas.

A partir do século XV, as cidades iorubás também entraram num processo de declínio, apesar da cidade de Oyo ter se mantido até o século XIX. Muitos pesquisadores acreditam que a falta de unidade política foi uma das causas desse declínio, já que os iorubás não tiveram condições de se fortalecer para enfrentar o processo de escravização que lhes foi imposto.

Onde floresceram essas cidades estão hoje alguns países independentes como Nigéria, Benim e Togo. O iorubá é um dos mais de 250 idiomas falados na Nigéria e em alguns outros países da África Ocidental.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-01/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-iorubas.html

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império Zimbábue

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Durante o período que chamamos de Idade Média que classifica a História Europeia (séculos V ao XV), poderosos Estados se desenvolveram na África Ocidental e por sua enorme riqueza, tornaram-se o principal eixo de comércio entre o Mar Mediterrâneo e o interior da África.

Alguns dos reinos existentes na África podiam se rivalizar com qualquer uma das grandes civilizações que existiram no Oriente Médio ou Extremo Oriente. Uma dessas civilizações foi formada pelo Império Zimbábue.

Império Zimbábue

O Império Zimbábue existiu mais ou menos entre os anos de 1200 e 1400, no litoral da África Austral, onde hoje estão localizados Moçambique e o próprio Zimbábue. O território era povoado por populações do tronco linguístico banto, conhecidos como shonas.

O Império do Zimbábue floresceu entre os séculos XI e XV, formando um poderoso reino no sul da África, centrado na capital Grande Zimbábue, famosa por suas impressionantes construções de pedra erguidas sem argamassa, sendo a maior estrutura de pedra pré-colonial da África Austral. 

O Reino de Zimbábue foi formado pelos shonas, um povo falante da lingua banto que havia inicialmente migrado para a África meridional a partir do século II d.C.

Os vestígios materiais desse império foram encontrados somente no século XIX e a principal marca encontrada foi o Grande Zimbábue ou Grande Casa de Pedra, uma construção enorme, complexa, sinal que demonstra ostentação e poder.

Este Império ficou conhecido por seu grande número de construções que são testemunhos do poder alcançado por ele. Foi um poderoso Estado com hegemonia na região localizada entre os rios Zambeze e Limpopo.

Estado poderoso

Formando um Estado poderoso e influente, atuava no comércio de minérios e seus governantes recebiam o título de Mwene Mutapa, mesma coisa que senhor das minas. Havia uma divisão social do trabalho bem estabelecida, com artesãos especializados no trabalho com cobre e ferro, ourives, escultores e tecelões.

A economia prosperou com o comércio de ouro, marfim e ferro, negociando com mercadores árabes, chineses e indianos. Sua sociedade era organizada com um rei e uma aristocracia, sustentada por uma vasta rede de estados tributários.

O império declinou por volta de 1450 devido a fatores como esgotamento de recursos e mudanças climáticas, levando à ascensão de outros reinos como o Monomotapa. 

Fatores ambientais como o desmatamento, solo enfraquecido, exaustão de recursos também contribuíram no processo de decadência.

O Império Monomotapa (ou Mutapa) e, mais tarde, o Império Rozvi, surgiram em seu lugar, mantendo a influência na região, que ainda se beneficiaria do comércio, mas com desafios crescentes devido à interferência europeia. 

Antes da chegada dos europeus, portugueses ao longo do século XV e dos colonos ingleses no século XIX, liderados por Cecil Rhodes de onde surgirá o nome de Rodésia, a região onde hoje é o Zimbábue era habitada pelos povos shona e ndebeles (zulus), sendo o império muito influente numa vasta região

O nome do país moderno, Zimbábue, é uma homenagem a este antigo e avançado império.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-01/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-zimbabue.html

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império Songai

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Sunni Ali Ber - fundador do império de Songai


*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR 

 

‘O Império Songai (ou Songhai) foi um poderoso estado pré-colonial da África Ocidental, que sucedeu ao Império Mali, atingindo seu auge nos séculos XV e XVI. Tendo sua capital em Gao, controlava as rotas comerciais que cortavam o Deserto do Saara e cidades importantes como Timbuktu e Djenné, mas foi conquistado pelos marroquinos em 1591, marcando o fim de seu domínio.

Conhecido por sua organização política centralizada, por um exército forte que tinha até cavalaria e frota fluvial e pela riqueza vinda do comércio de ouro e sal, foi o último grande império da região antes da colonização europeia. 

O Império Songai originou-se do povo Songai, que se estabeleceu na área de Gao no século VII. Inicialmente era um pequeno estado, mas começou a se expandir e a ganhar destaque no século XIV sob o comando do rei Sonni Ali.

A cidade de Gao localizada na curva do Rio Níger, na África ocidental, na região dos atuais Mali, Níger, Senegal, Gâmbia e Nigéria, centrada na curva do Rio Níger, se transformou num importante centro comercial, político e econômico, com poder militar.

Até o século XIV Gao esteva sob o poder do Império Mali, mas no século XV conquistou Tombuctu, um importante centro do Islã e ponto fundamental do comércio pelo Deserto do Saara. Neste momento ocorreu a formação do Império, num processo de expansão militar, liderados por Sonni Ali, e além de Tombuctu, conquistaram também Djenné. No Império se praticava o politeísmo religioso.

A sociedade Songai era diversificada e hierarquizada. No topo da pirâmide social estavam os nobres e funcionários do governo, seguidos por cidadãos livres, artesãos e agricultores. Os escravizados também eram uma parte significativa da sociedade, sendo adquiridos através da guerra ou do comércio. A diversidade étnica e linguística era prevalente, refletindo a vastidão do império.

A economia se baseava no controle do comércio transaariano, com foco em ouro, sal, escravos e outros produtos. Os songais estabeleceram a unificação de pesos e medidas, o que facilitava a cobrança de impostos e as trocas comerciais.

Como acontece com todo império, também o Império Songai enfrentou a decadência enfraquecido por guerras civis e pela derrotado para o Sultanato Sádida de Marrocos na Batalha de Tondibi (1591) devido ao uso de armas de fogo. 

O Império foi o maior da história da África Ocidental. Seus centros urbanos, como Timbuktu, foram importantes polos de saber, cultura e difusão do Islã. Sua queda abriu caminho para a fragmentação e a dominação europeia, com os marroquinos estabelecendo um paxalique (província) em seu lugar.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-01/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-songai.html


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império de Mali

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Com o declínio de Gana ocorreram diversas disputas entre estados menores que eram submissos, ao século XII. Um desses estados era formado pelo povo conhecido por sosso, de etnia Soninke. Através das armas se impuseram e alcançaram a hegemonia regional no século XIII.

O Império era composto por 12 reinos menores ligados entre si, tendo como capital a cidade Kangaba. Os mandingas que eram o povo mais forte chamavam seu território de Manden, que significa terra dos mandingas.

O Império de Mali era formado por povos presentes na região situada entre o Rio Senegal e o Rio Níger. Dentre eles, o mais importante eram os mandingas, que já eram conhecedores do islã desde o século XI. Além deles, os soninquês, fulas, sossos e bozos também fizeram parte desse império.

Após anos de guerras entre os soninquês de Gana e os almorávidas (século XI), e depois das guerras com os sossos (século XII), Mali conseguiu sua independência e adotou o islamismo. Apesar de passar por um período de crise política e econômica, conseguiu se restabelecer e, em 1235, os mandingas de Mali conquistaram o território do antigo Império de Gana, sob a liderança de Maghan Sundiata, que recebeu o título de Mansa, que na língua mandinga significa ‘imperador’.

No domínio de Sundjata Keita, o maior representante do Império Mali, sua autoridade foi estendida sobre outras unidades políticas próximas, formando um estado unificado e hegemônico até o século XV.

Processo de expansão

Ao contrário do Império de Gana, que se preocupava mais em manter os povos dominados, a fim de controlar o comércio regional, o Império de Mali se impôs de forma centralista, estabelecendo fronteiras bem definidas e formulando leis por meio de uma assembleia chamada Gbara, composta por diversos povos do império. A aplicação da justiça era implacável, tanto que vários viajantes se referiam aos povos negros como ‘os que mais odeiam as injustiças - e seu imperador não perdoa ninguém que seja acusado de injusto’.

Acredita-se que o Império de Mali chegou a ter a atual extensão da Europa Ocidental.

Sua hegemonia, numa vasta região da África Ocidental ou África Negra, localizada abaixo do Deserto do Saara ocorreu devido à formação de um exército poderoso, ao controle da extração do ouro e a existência de uma administração eficiente. Esses fatores fizeram do Mali um dos impérios mais bem-sucedidos do continente africano.

Mali chegou a controlar todo o comércio de ouro local, porque o ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Também sob o reinado de Mussa, a cidade de Timbuktu (ou Tombuctu) se tornou uma das mais ricas e importantes da região. Sua universidade era um dos maiores centros de cultura muçulmana da época, e produziu várias traduções de textos gregos que ainda circulavam nos séculos XIV e XV. A grandiosidade de Timbuktu atravessou os tempos e, no século XIX, exploradores europeus se embrenharam pelos caminhos africanos, seguindo o rio Níger, em busca da lendária cidade.

O Império de Mali entrou em decadência a partir do final do século XIV, em função das disputas políticas internas e das incursões dos tuaregues, um povo berbere do deserto, sendo conquistado, no século XV, pelos songais que até então eram dominados por Mali. Foi nesse mesmo século que os portugueses, em pleno processo de expansão marítima, conheceram o já decadente Mali.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-mali.html