Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl.
OSB)
Bispo de Marabá, PA
‘A ascese é
um dos pontos importantes no seguimento a Jesus Cristo, na vida cristã e ela
também foi de enorme envergadura nos primeiros séculos do cristianismo, com os
padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos sabendo que muitos viveram
esta dimensão em suas comunidades e nos desertos. Nesses primeiros séculos da
vida cristã entendamos nós que a palavra ‘padre’ é dada no sentido de fundador
de comunidades cristãs, muitas vezes convertido do paganismo ao cristianismo,
de modo que teve uma missão importante na vida comunitária, esta pessoa podia
ser do ministério sacerdotal, mas também podia ser um leigo, ou uma leiga,
pessoa não ligada necessariamente ao sacramento da ordem sacerdotal. O termo
Padre neste período era mais no sentido de fundador, coordenador de
comunidades. A ascese é dada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo (cfr.
Mt 22,37-39). Nós fazemos uma análise na forma como a ascese cristã se
desenvolveu no período antigo e ilumina a vida atual no seguimento a Jesus
Cristo e à sua Igreja.
O significado
da palavra ascese
A ascese vem
do verbo grego ‘askein’ que se refere ao treinar para uma corrida, exercitar-se
para adquirir um certo ideal, virtude. A ascese significava um exercício
sistemático para se alcançar algo fundamentado, uma missão maior. Para a
Sagrada Escritura a ascese muito tem a dizer ao povo que passou por provações
no deserto, a intimidade reservada com Deus, a libertação da escravidão da
Babilônia, a semelhança com a vida de São João Batista no deserto e na vida
pública, como o novo Elias [1].
A ascese
também significou uma ação interior para adquirir a unidade com Deus, através
da virtude, da oração, dos sacramentos, de uma vida empenhada no amor a Deus,
ao próximo como a si mesmo [2].
A prática de
Jesus
Jesus esteve
ao lado das pessoas de todas as categorias, das mulheres, dos pecadores, das
pessoas necessitadas (cfr. Mc 2,16; Mt 11,18; Mc 15,41) pedindo os valores da
conversão de vida (cfr. Mc 1,15), para assim estar no caminho da vida
verdadeira. Jesus exigia das autoridades e de seus discípulos, as condições para
entrar no Reino de Deus, pelo despojamento e pela vida caritativa, a superação
do legalismo, o empenho pela cruz, o amor dos irmãos e no seu seguimento (cfr.
Mc 8,34; Mt 19,21) [3].
A ascese na
Igreja antiga
São Clemente
de Roma, bispo, Papa no final do século I afirmou a importância dos dons para
serem servidos à comunidade. Tudo deveria estar a serviço da comunidade. Ele
disse que o forte cuide do fraco, o fraco respeite o forte, o rico socorra o
pobre, o pobre agradeça a Deus por alguém lhe dar a suprir a sua indigência; o
sábio mostre a sua sabedoria em boas obras; o humilde viva o amor; o puro viva
em comunhão com as pessoas e com Deus [4]. Santo Inácio de Antioquia,
bispo no século I e início do século II afirmava que era preciso fugir as
profissões desonestas. Ele também tinha presentes os maridos para que amassem
as suas esposas e as esposas seus maridos e que se alguém permanecesse na
castidade, vivesse na humildade. Ele dizia também que os homens e as mulheres
que se casassem que se fizesse a sua união com o parecer do bispo, para que o
seu matrimônio fosse segundo o Senhor, para a honra das pessoas e de Deus [5].
A ascese no
monaquismo antigo
O monaquismo
surgiu na Igreja antiga com Santo Antão, o patrono dos monges e de todo o
movimento monacal [6]. O movimento surgiu com homens e mulheres que
entravam no deserto adentro para uma vida solitária, comunitária, feita pela
oração e pelo trabalho, leitura da Sagrada Escritura. Eles e Elas tinham
presentes os patriarcas do AT, Moisés, os profetas, São João Batista, mas
sobretudo Jesus Cristo, o verdadeiro asceta que evangelizou os pobres, curou os
doentes, expulsou os demônios, enfrentou e denunciou as hipocrisias das
autoridades religiosas, políticas; Ele se retirava frequentemente para a oração
no monte (cfr. Mt 14,23), mas descia para o anúncio do Reino de Deus. Jesus se
tornou o modelo a ser seguido na vida monástica. A ascese ganhará o sentido de retirar-se
para a oração, mas também comprometer-se na vida familiar, comunitária, social
para um dia participar do Reino dos Céus [7].
As Sagradas
Escrituras e a oração
Os padres da
Igreja, os primeiros escritores cristãos tinham presentes as Sagradas Escrituras
para vivenciar a ascese. As pessoas deveriam fazer as coisas segundo a Vontade
de Deus e ter presentes também as Sagradas Escrituras. Desta forma o monge do
deserto via nas Escrituras Sagradas o princípio formal da própria existência.
As Escrituras eram as mãos de Deus que continuavam a plasmar o ser humano para
uma vida conforme a Vontade de Deus [8].
As Sagradas
Escrituras conduziam a pessoa para a oração com Deus e à unidade com as
pessoas. Era preciso o conhecimento das Sagradas Escrituras, mas também era
preciso estar tudo acompanhado pelas orações, para não ficar somente num
conhecimento puramente intelectual [9]. As pessoas monacais ensinavam as
outras pessoas a meditar a Palavra de Deus, a ruminar como se devesse mastigar
a Palavra de Deus, de Jesus para se tornar um verdadeiro e fundamental
alimento, capaz de nutrir-se espiritualmente para a vida cotidiana e a
preparação para a vida sobrenatural [10].
Para uma vida
ascética o tempo não se media para os monges e as monjas; Era aquilo que se
meditava, sobretudo a Palavra de Deus, a oração e os sacramentos, determinavam
o quanto tempo desejava a se tornar assimilável a vida ascética com Deus, com
as pessoas, com as comunidades, para que assim as pessoas vivessem a unidade
com Deus em vista da vida eterna [11]. Nós acreditamos a importância da
ascese na atualidade para que saibamos discernir o certo e o errado sob a luz
do Espírito Santo e mantenhamo-nos unidos a Igreja, a Esposa de Jesus Cristo, e
nós sejamos os seus membros ativos, participativos para a glória de Deus Pai.’
[1] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Nuovo
Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum
Augustinianum. Casa Editrice Marietti- Genova-Milano. 2006, pgs.
571-572.
[2] Cfr. Ascèsi. In: Il
Vocabolario Treccani, Il Conciso. Lavìs, Trento,1998, pg. 127.
[3] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Idem,
pg. 572,
[4] Cfr. Clemente aos Romanos, 38,2. In: Padres
Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.
[5] Cfr. Inácio a Policarpo, 5,2. In: Idem, pg.
123.
[6] Cfr. Santo Atanásio. Vida e Conduta
de Santo Antão. São Paulo: Paulus, 2002.
[7] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In:
Ibidem, pg. 573.
[8] Cfr. Nazzareno Treccioni, L´Ascesi
nei Padri del Deserto. Attraverso gli apoftegmi. Todi (PG). Tau
Editrice, 2022, pgs.113-114.
[9] Cfr. Idem, pg. 114.
[10] Cfr. Ibidem, pg. 115.
[11] Cfr. Ibidem, pg. 115.
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/ascese-igreja-primitiva-padres-igreja.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário