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domingo, 6 de setembro de 2026

A ascese na Igreja primitiva, nos padres da Igreja e na vida atual

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘A ascese é um dos pontos importantes no seguimento a Jesus Cristo, na vida cristã e ela também foi de enorme envergadura nos primeiros séculos do cristianismo, com os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos sabendo que muitos viveram esta dimensão em suas comunidades e nos desertos. Nesses primeiros séculos da vida cristã entendamos nós que a palavra ‘padre’ é dada no sentido de fundador de comunidades cristãs, muitas vezes convertido do paganismo ao cristianismo, de modo que teve uma missão importante na vida comunitária, esta pessoa podia ser do ministério sacerdotal, mas também podia ser um leigo, ou uma leiga, pessoa não ligada necessariamente ao sacramento da ordem sacerdotal. O termo Padre neste período era mais no sentido de fundador, coordenador de comunidades. A ascese é dada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo (cfr. Mt 22,37-39). Nós fazemos uma análise na forma como a ascese cristã se desenvolveu no período antigo e ilumina a vida atual no seguimento a Jesus Cristo e à sua Igreja.

O significado da palavra ascese

A ascese vem do verbo grego ‘askein’ que se refere ao treinar para uma corrida, exercitar-se para adquirir um certo ideal, virtude. A ascese significava um exercício sistemático para se alcançar algo fundamentado, uma missão maior. Para a Sagrada Escritura a ascese muito tem a dizer ao povo que passou por provações no deserto, a intimidade reservada com Deus, a libertação da escravidão da Babilônia, a semelhança com a vida de São João Batista no deserto e na vida pública, como o novo Elias [1].

A ascese também significou uma ação interior para adquirir a unidade com Deus, através da virtude, da oração, dos sacramentos, de uma vida empenhada no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo [2].

A prática de Jesus

Jesus esteve ao lado das pessoas de todas as categorias, das mulheres, dos pecadores, das pessoas necessitadas (cfr. Mc 2,16; Mt 11,18; Mc 15,41) pedindo os valores da conversão de vida (cfr. Mc 1,15), para assim estar no caminho da vida verdadeira. Jesus exigia das autoridades e de seus discípulos, as condições para entrar no Reino de Deus, pelo despojamento e pela vida caritativa, a superação do legalismo, o empenho pela cruz, o amor dos irmãos e no seu seguimento (cfr. Mc 8,34; Mt 19,21) [3].

A ascese na Igreja antiga

São Clemente de Roma, bispo, Papa no final do século I afirmou a importância dos dons para serem servidos à comunidade. Tudo deveria estar a serviço da comunidade. Ele disse que o forte cuide do fraco, o fraco respeite o forte, o rico socorra o pobre, o pobre agradeça a Deus por alguém lhe dar a suprir a sua indigência; o sábio mostre a sua sabedoria em boas obras; o humilde viva o amor; o puro viva em comunhão com as pessoas e com Deus [4]. Santo Inácio de Antioquia, bispo no século I e início do século II afirmava que era preciso fugir as profissões desonestas. Ele também tinha presentes os maridos para que amassem as suas esposas e as esposas seus maridos e que se alguém permanecesse na castidade, vivesse na humildade. Ele dizia também que os homens e as mulheres que se casassem que se fizesse a sua união com o parecer do bispo, para que o seu matrimônio fosse segundo o Senhor, para a honra das pessoas e de Deus [5].

A ascese no monaquismo antigo

O monaquismo surgiu na Igreja antiga com Santo Antão, o patrono dos monges e de todo o movimento monacal [6]. O movimento surgiu com homens e mulheres que entravam no deserto adentro para uma vida solitária, comunitária, feita pela oração e pelo trabalho, leitura da Sagrada Escritura. Eles e Elas tinham presentes os patriarcas do AT, Moisés, os profetas, São João Batista, mas sobretudo Jesus Cristo, o verdadeiro asceta que evangelizou os pobres, curou os doentes, expulsou os demônios, enfrentou e denunciou as hipocrisias das autoridades religiosas, políticas; Ele se retirava frequentemente para a oração no monte (cfr. Mt 14,23), mas descia para o anúncio do Reino de Deus. Jesus se tornou o modelo a ser seguido na vida monástica. A ascese ganhará o sentido de retirar-se para a oração, mas também comprometer-se na vida familiar, comunitária, social para um dia participar do Reino dos Céus [7].

As Sagradas Escrituras e a oração

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos tinham presentes as Sagradas Escrituras para vivenciar a ascese. As pessoas deveriam fazer as coisas segundo a Vontade de Deus e ter presentes também as Sagradas Escrituras. Desta forma o monge do deserto via nas Escrituras Sagradas o princípio formal da própria existência. As Escrituras eram as mãos de Deus que continuavam a plasmar o ser humano para uma vida conforme a Vontade de Deus [8].

As Sagradas Escrituras conduziam a pessoa para a oração com Deus e à unidade com as pessoas. Era preciso o conhecimento das Sagradas Escrituras, mas também era preciso estar tudo acompanhado pelas orações, para não ficar somente num conhecimento puramente intelectual [9]. As pessoas monacais ensinavam as outras pessoas a meditar a Palavra de Deus, a ruminar como se devesse mastigar a Palavra de Deus, de Jesus para se tornar um verdadeiro e fundamental alimento, capaz de nutrir-se espiritualmente para a vida cotidiana e a preparação para a vida sobrenatural [10].

Para uma vida ascética o tempo não se media para os monges e as monjas; Era aquilo que se meditava, sobretudo a Palavra de Deus, a oração e os sacramentos, determinavam o quanto tempo desejava a se tornar assimilável a vida ascética com Deus, com as pessoas, com as comunidades, para que assim as pessoas vivessem a unidade com Deus em vista da vida eterna [11]. Nós acreditamos a importância da ascese na atualidade para que saibamos discernir o certo e o errado sob a luz do Espírito Santo e mantenhamo-nos unidos a Igreja, a Esposa de Jesus Cristo, e nós sejamos os seus membros ativos, participativos para a glória de Deus Pai.’

 

[1] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum Augustinianum. Casa Editrice Marietti- Genova-Milano. 2006, pgs. 571-572.

[2] Cfr. Ascèsi. In: Il Vocabolario Treccani, Il Conciso. Lavìs, Trento,1998, pg. 127.

[3] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Idem, pg. 572,

[4] Cfr. Clemente aos Romanos, 38,2. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995, pg. 51.

[5] Cfr. Inácio a Policarpo, 5,2. In: Idem, pg. 123.

[6] Cfr. Santo Atanásio. Vida e Conduta de Santo Antão. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Cfr. J. Gribomont. Ascesi. In: Ibidem, pg. 573.

[8] Cfr. Nazzareno Treccioni, L´Ascesi nei Padri del Deserto. Attraverso gli apoftegmi. Todi (PG). Tau Editrice, 2022, pgs.113-114.  

[9] Cfr. Idem, pg. 114.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 115.

[11] Cfr. Ibidem, pg. 115. 

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-07/ascese-igreja-primitiva-padres-igreja.html


sexta-feira, 12 de maio de 2023

Ascese: que é isso?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Ascese é um termo grego (áskesis) que significa exercício. Especialmente o treinamento do atleta para competir nas Olimpíadas ou do soldado convocado para a guerra.

Ora, os cristãos adotaram essa palavra para designar os exercícios ou práticas de autodomínio a fim de estarem ‘em forma’ nas horas de combate contra as provações que nos atacam cotidianamente. Essa ascese pode ser ativa (subdividida em negativa e positiva) ou passiva, conforme veremos neste artigo.

É ativa quando o cristão faz, por vontade própria, seu exercício movido pela graça de Deus. Será positiva sempre que o fiel se dedicar a um trabalho complexo como visitar doentes incuráveis ou portadores de moléstias contagiosas, atender a menores infratores, visitar presídios etc. Será negativa sempre que a pessoa ascética deixa de fazer algo que muito lhe agrada tal como seria para alguns tomar um delicioso sorvete, assistir a um filme, fazer uma viagem etc.

É passiva quando a pessoa não procura a penitência ou a cruz, mas esta vem até ela pelas circunstâncias diversas da vida e é aceita com resignação, sem, no entanto, deixar, se for o caso, de buscar os meios legítimos para se livrar do revés (doença, questões judiciais, perseguições no emprego etc.).

Como enunciamos, contudo, a ascese ativa se subdivide em negativa e positiva. A negativa leva o fiel a se esforçar para remover todos os obstáculos que o impeçam de rumar à perfeição e ao crescimento do amor a Deus e ao próximo. Com esses exercícios levados a sério, a pessoa é capaz de dizer ‘sim’ ou ‘não’ de modo livre e decidido quando as circunstâncias o exigirem, independentemente do que a maioria acha. Aqui entram o jejum de alimentos que deem prazer, a aceitação voluntária da perseguição sofrida, a humilhação injusta dos superiores ou encarregados etc.

Já a ascese positiva consiste em exercer atividades que levem ao crescimento do amor a Deus e ao próximo e à prática das demais virtudes dando especial atenção àquela virtude que a pessoa mais precisa (se é grosseira ou ríspida, pedirá a mansidão; se orgulhosa, suplicará a humildade; se negligente, rezará para obter a diligência etc.). Mesmo o esforço por rezar continuamente e sem distrações pode ser um grande exercício de ascese a quem tem dificuldade com algo metódico que leve ao conhecimento de Deus como é a Missa, o terço, a via-sacra, por exemplo.

Óbvio é que a ascese positiva complementa a negativa, visto que a vida cristã não é feita apenas do ‘não’, ainda que este seja necessário, mas do ‘sim’ dado a Deus rumo à santidade. Daí a abstinência (de carne, de programas de TV, de leituras etc.) não ter a última palavra na vida cristã. Ela deve ser, antes de tudo, a preparação para se libertar das amarras deste mundo a fim de se obter maior intimidade com o Pai do céu.

Em outras palavras : na medida em que nos penitenciamos, vamos fazendo morrer em nós o velho homem, Adão, a fim de que possa viver o novo homem, Cristo, cuja plena estatura somos chamados a atingir (cf. Ef 4,13).

Por fim, resta entender uma importante verdade : se é lícito (e é) batalhar pela conquista de troféus nas competições deste mundo, muito mais importante é a batalha pelos bens eternos, conforme nos assegura o grande Apóstolo São Paulo : ‘Os atletas abstêm-se de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível’ (1Cor 9,25).

Possam as reflexões acima levar-nos ao reforço da prática da ascese na vida do dia a dia, com a graça de Deus.

Para aprofundamento : E. Bettencourt. Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006, p. 37-69.’ 


Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/03/26/ascese-que-e-isso/ 

domingo, 9 de abril de 2023

A mística e a ascese no tempo pascal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


‘Nesta Semana Santa de 2023, circulou entre meus amigos, em nossas redes sociais, essa passagem de Dom Luigi Giussani, sacerdote italiano fundador do movimento Comunhão e Libertação : ‘Se alguém entrar na Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa, Sábado Santo, Páscoa, nestes quatro dias, sem olhar para o rosto de Cristo e nada mais, mas com a preocupação de seus pecados, da sua perfeição, de como deve meditar; acabará cansado, retomando seus dias como antes. Pelo contrário, olhar para o rosto de Cristo muda. Mas, para que Ele nos mude, é preciso encará-lo verdadeiramente, desejando o bem, desejando a Verdade : ‘Tudo sou capaz, Senhor, se estou contigo, tu és a minha força’. É um Tu que domina e não leis que devem ser respeitadas’ (É possível viver assim? São Paulo : Cia Ilimitada, 2008).

Minha esposa e eu ficamos particularmente impactados pela comparação dessa passagem com algumas exortações que costumamos ouvir para que nos esforcemos para participar das celebrações da Semana Santa ou para sermos, a partir dessa Páscoa, mais comprometidos com as boas obras e com a luta por uma sociedade mais justa. As duas exortações, para a participação litúrgica e para o compromisso com o bem dos irmãos, são justíssimas, não estamos fazendo aqui nenhuma objeção a elas. Porém, a passagem de Dom Giussani abre uma outra janela, descortina um outro modo de olhar o mundo e viver a fé.

As práticas ascéticas e a experiência mística

Nesse período, em função do décimo aniversário do pontificado de Francisco, li uma declaração do Papa que talvez ajude a entender melhor o que gostaria de mostrar. Numa entrevista ao padre jesuíta Antonio Spadaro, ele comenta que existe, na Companhia de Jesus, uma corrente que sublinha o ascetismo, o silêncio e a penitência, mas que ele, Bergoglio, se identifica mais com uma outra, mais mística. Ora, podemos nos perguntar, ascetismo e mística não estão intimamente ligados? Uma experiência mística não pressupõe uma prática ascética?

De fato, as duas coisas estão intimamente ligadas, como a carroça e os bois. Mas fica muito mais difícil avançar se os bois, colocados atrás, ‘empurrarem’ a carroça, ao invés de irem na frente, ‘puxando-a’. Existe uma deformação do ascetismo cristão que imagina que é a fidelidade às suas práticas que produz a experiência mística. Isso pode ser verdade num ascetismo estoico, de caráter disfarçadamente ateu, ou em algumas outras religiões. Mas, no cristianismo, é a própria experiência mística do encontro com Cristo que gera o desejo das práticas ascéticas, que se tornam respostas cheias de gratidão e de alegria Àquele que tanto nos amou primeiro.

O teólogo alemão Karl Rahner, no final do século passado, numa passagem famosa, declarou que os cristãos seriam ‘místicos’ ou seriam ‘nada’. Rahner não tinha dúvidas sobre o significado de suas palavras : o cristianismo só pode sobreviver enquanto encontro e relação de amor pessoal entre Cristo e o fiel. A afirmação, contudo, se empobrece quando é interpretada simplesmente como condenação ao moralismo e ao formalismo que invadiram muitas vezes a mentalidade cristã moderna. Sem dúvida, a mística supera essa mentalidade redutiva – mas essa superação é uma decorrência da primazia do amor. Quem quer interpretar a mística apenas como negação do formalismo e do moralismo não avança, pois sua riqueza está no amor. E isso não é fácil de entender numa sociedade como a nossa, onde se fala muito no amor, mas se tem muita dificuldade em vivê-lo realmente.

A contemplação do Cristo sofredor

Fomos acostumados a uma cultura imagética que valoriza as representações do Cristo sofredor e dos santos em êxtases supostamente místicos, mas que a nossos olhos contemporâneos parecem mais maneirismos que estados contemplativos. Essas imagens são acompanhadas por práticas devocionais onde predomina a subjetividade dos fiéis e não a objetividade do amor de Deus. Frequentemente, não são nem consideradas práticas ascéticas, pois estão mais centradas na exploração das emoções da pessoa do que num real cultivo da contemplação e da oração.

A experiência mística cristã é o encontro entre duas subjetividades – a do fiel e a de Cristo, que se torna presente de forma misteriosa, mas real. Como toda experiência afetiva, é moldada pela sensibilidade e pela emotividade de cada um. Existem os mais devocionais, aos quais agradam as imagens e o ambiente barroco do catolicismo da Contrarreforma, existem os mais contemplativos, que preferem o estilo dos ícones orientais e a austeridade das primeiras basílicas cristãs. Cristo não deixa de ir ao encontro das pessoas, sejam quais forem seus temperamentos e suas preferências.

Contudo, nesse tempo pascal, pode ser perigosa uma contemplação do Cristo sofredor e de suas dores como catarse para nossos próprios sofrimentos ou motivação para o empenho moral – e não como ocasião para perceber o Seu amor por nós. Uma ‘estética do sofrimento’ afasta frequentemente as pessoas da Igreja. Corresponde, muitas vezes, a um certo moralismo pelagiano, um desejo até arrogante de ‘estar à altura’ do sacrifício de Cristo por nós (sobre esse tema, vale a pena ler Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, GE 47ss).

A justa contemplação mística do amor de Cristo por nós, ao invés disso, cria uma alegre gratidão, um desejo humilde de corresponder ao amor recebido. Não omite os sofrimentos de Cristo ou mesmo os nossos, mas permite que a misericórdia a tudo cubra e até mesmo as dores se tornem sinais de amor e beleza. Então, a participação na liturgia se torna verdadeiramente a bela celebração do Amor e o compromisso com os irmãos, particularmente com os que mais sofrem, se torna aquela conformação natural do coração do amante ao coração do Amado… E compreendemos melhor porque ‘seu fardo é leve e seu jugo, suave’ (Mt 11, 28-30).’ 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/04/09/a-mistica-e-a-ascese-no-tempo-pascal/

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma semente

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Padre Fernando Domingues,
Missionário Comboniano  

‘Foram 15 dias bem intensos pelas estradas do Mianmar, visitando os seminários naquele país do Extremo Oriente que costumávamos chamar Birmânia. No total da população do país, os cristãos são só 3 %, mas a vitalidade das comunidades é surpreendente.

A quase totalidade do povo é de religião budista. Como budista é a família do padre que me acompanhava. Não resisti a perguntar-lhe um dia : ‘Porque decidiste ser padre católico?

Ele contou-me. Era, e é de uma família em que todos são budistas muito devotos. Quando era pequeno, a sua mãe sonhava para ele um futuro como monge budista, e ele também o desejava com todo o coração. Tinham ficado bem gravados no seu coração os anos que tinha passado no mosteiro a aprender os ensinamentos de Buda, como todas as outras crianças da sua aldeia. É costume que todas as crianças, meninos e meninas, passem um tempo nos mosteiros; depois podem decidir continuar na vida monástica ou regressar à própria família civil. Quando terminou a universidade, era tempo para decidir, mas, antes de ir para o mosteiro, o jovem Ee Mwe quis conhecer também alguma coisa da religião cristã praticada por um missionário que vivia ali perto, com um pequeno grupo de fiéis. Estudou os Evangelhos e ficou encantado com a figura de Jesus. O que mais o entusiasmou, disse-me ele, foi ver como no Budismo é o homem que tenta por todos os meios aproximar-se de Deus; no Cristianismo, Deus não espera que lá cheguemos, é ele próprio que se faz homem e vem caminhar conosco. Estava decidido, apresentou-se ao padre católico com quem entretanto tinha feito amizade, e pediu para ser baptizado.

Não’, disse-lhe o padre, ‘todos na tua família são devotos budistas. Tens de pensar muito bem antes de decidir. Volta a falar comigo daqui a um ano’. O velho sonho de se consagrar a Deus continuava bem vivo na sua alma, e um ano depois de ser baptizado, entrou no seminário para se tornar padre. Foram mais dez anos de caminho, e agora é sacerdote católico.

Os budistas fazem ascese para tentar chegar até Deus; nós sabemos que Deus se fez homem em Belém e veio caminhar conosco. A verdade simples do Natal foi a primeira semente de fé na vida do meu amigo P.e Ee Mwe (pronuncia-se É Muí).

Era uma sementinha pequena também a fé levada pela primeira vez para aquelas terras por um grupo de comerciantes portugueses que tinham partido nas nossas caravelas destinadas ao Oriente e se estabeleceram ali, na margem esquerda do rio Yangon, no ano 1511. Eram apenas um pequeno grupo de gente simples, que mais tarde foram ‘desterrados’ e forçados a imigrar para uma zona montanhosa no Centro do país. Os descendentes deles ainda lá vivem hoje, e todos os conhecem como os ‘portugueses’. Encontrei alguns deles. Já não falam português, e da nossa terra mantêm alguns apelidos nas famílias, os olhos mais arredondados e a fé cristã. Este ano alguns deles participaram, em Yangon, na grande festa dos 500 anos da fé cristã no Mianmar, para a qual tive a alegria de ser convidado. Pode ser só coincidência, mas hoje um descendente daquele pequeno grupo de portugueses é arcebispo da capital do país.

Há sementes que têm uma força extraordinária! A fé cristã é uma delas.’


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukpuZVFyAhlGVjrix