Mostrando postagens com marcador penitência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador penitência. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Ascese: que é isso?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Vanderlei de Lima, 

eremita na Diocese de Amparo, BA

 

‘Ascese é um termo grego (áskesis) que significa exercício. Especialmente o treinamento do atleta para competir nas Olimpíadas ou do soldado convocado para a guerra.

Ora, os cristãos adotaram essa palavra para designar os exercícios ou práticas de autodomínio a fim de estarem ‘em forma’ nas horas de combate contra as provações que nos atacam cotidianamente. Essa ascese pode ser ativa (subdividida em negativa e positiva) ou passiva, conforme veremos neste artigo.

É ativa quando o cristão faz, por vontade própria, seu exercício movido pela graça de Deus. Será positiva sempre que o fiel se dedicar a um trabalho complexo como visitar doentes incuráveis ou portadores de moléstias contagiosas, atender a menores infratores, visitar presídios etc. Será negativa sempre que a pessoa ascética deixa de fazer algo que muito lhe agrada tal como seria para alguns tomar um delicioso sorvete, assistir a um filme, fazer uma viagem etc.

É passiva quando a pessoa não procura a penitência ou a cruz, mas esta vem até ela pelas circunstâncias diversas da vida e é aceita com resignação, sem, no entanto, deixar, se for o caso, de buscar os meios legítimos para se livrar do revés (doença, questões judiciais, perseguições no emprego etc.).

Como enunciamos, contudo, a ascese ativa se subdivide em negativa e positiva. A negativa leva o fiel a se esforçar para remover todos os obstáculos que o impeçam de rumar à perfeição e ao crescimento do amor a Deus e ao próximo. Com esses exercícios levados a sério, a pessoa é capaz de dizer ‘sim’ ou ‘não’ de modo livre e decidido quando as circunstâncias o exigirem, independentemente do que a maioria acha. Aqui entram o jejum de alimentos que deem prazer, a aceitação voluntária da perseguição sofrida, a humilhação injusta dos superiores ou encarregados etc.

Já a ascese positiva consiste em exercer atividades que levem ao crescimento do amor a Deus e ao próximo e à prática das demais virtudes dando especial atenção àquela virtude que a pessoa mais precisa (se é grosseira ou ríspida, pedirá a mansidão; se orgulhosa, suplicará a humildade; se negligente, rezará para obter a diligência etc.). Mesmo o esforço por rezar continuamente e sem distrações pode ser um grande exercício de ascese a quem tem dificuldade com algo metódico que leve ao conhecimento de Deus como é a Missa, o terço, a via-sacra, por exemplo.

Óbvio é que a ascese positiva complementa a negativa, visto que a vida cristã não é feita apenas do ‘não’, ainda que este seja necessário, mas do ‘sim’ dado a Deus rumo à santidade. Daí a abstinência (de carne, de programas de TV, de leituras etc.) não ter a última palavra na vida cristã. Ela deve ser, antes de tudo, a preparação para se libertar das amarras deste mundo a fim de se obter maior intimidade com o Pai do céu.

Em outras palavras : na medida em que nos penitenciamos, vamos fazendo morrer em nós o velho homem, Adão, a fim de que possa viver o novo homem, Cristo, cuja plena estatura somos chamados a atingir (cf. Ef 4,13).

Por fim, resta entender uma importante verdade : se é lícito (e é) batalhar pela conquista de troféus nas competições deste mundo, muito mais importante é a batalha pelos bens eternos, conforme nos assegura o grande Apóstolo São Paulo : ‘Os atletas abstêm-se de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível’ (1Cor 9,25).

Possam as reflexões acima levar-nos ao reforço da prática da ascese na vida do dia a dia, com a graça de Deus.

Para aprofundamento : E. Bettencourt. Curso de Espiritualidade. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2006, p. 37-69.’ 


Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/03/26/ascese-que-e-isso/ 

terça-feira, 9 de julho de 2019

O penitente fala a Deus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Papa Francisco confissão
*Artigo de Silvonei José,
jornalista


‘O Vaticano voltou a reafirmar nesta semana a inviolabilidade do segredo da confissão em resposta a iniciativas legislativas de vários países para revelar casos de abuso sexual de padres conhecidos em confissões.

Numa nota da Penitenciaria Apostólica, a Santa Sé indicou que não admite exceções ‘nem no âmbito eclesial nem no âmbito civil’ ao segredo da confissão, porque ‘provém diretamente do direito divino revelado’ e ‘está enraizado na própria natureza da Santa Comunhão’.

De fato, a essência do cristianismo e da Igreja está encerrada no sacramento da Reconciliação’, acrescenta a nota assinada pelo penitenciário-mor, cardeal Mauro Piacenza, que foi aprovada no dia 21 de junho passado pelo Papa Francisco e divulgada nesta semana.

Aponta-se que ‘uma certa ânsia de informação se espalhou nas últimas décadas... até o ponto em que o 'mundo da comunicação' parece querer 'substituir' a realidade’.

Segundo a Penitenciaria, ‘ao invocar a opinião da opinião pública como último tribunal, muitas vezes são divulgadas informações de todos os tipos, inclusive em relação às esferas mais privadas e confidenciais’.

Isso inevitavelmente afeta a vida eclesial e induz a ‘julgamentos imprudentes, prejudicando de forma ilegítima e irreparável a boa reputação dos outros, bem como o direito de cada pessoa a defender sua privacidade’, observa a nota.

Fala-se da existência de um ‘preocupante preconceito negativo para com a Igreja Católica’, especialmente a partir dos escândalos de abusos, ‘horrivelmente perpetrados por alguns membros do clero’.

Por esta razão, acrescenta-se que, mesmo depois das declarações dos episcopados de países que tentam introduzir iniciativas contra o segredo da confissão, a Santa Sé intervém para reafirmar os princípios do segredo confessional.

O confessor, segundo o Código de Direito Canônico, nunca está autorizado, por qualquer razão, a trair o penitente com palavras ou de qualquer outra forma’, recorda.

É também ‘absolutamente proibido ao confessor fazer uso do conhecimento obtido com a confissão’.

O sigilo sacramental ‘deve ser mantido’ mesmo se o confessor não conceda a absolvição.

O cardeal Piacenza recordou ao Vatican News que ‘é oportuno destacar que o texto da Nota não pode e não quer ser de algum modo uma justificação ou uma forma de tolerância dos execráveis casos de abusos perpetrados por parte de membros do clero’. ‘Nenhum compromisso é aceitável no promover a proteção dos menores e das pessoas vulneráveis e na prevenção e combate a todas as formas de abuso, no espírito do que tem sido constantemente reafirmado pelo Papa Francisco e recentemente regulado com o Motu Proprio 'Vox estis lux mundi' (7 de maio de 2019)’.

Ao publicar a Nota sobre a importância do fórum interno e a inviolabilidade do sigilo sacramental - acrescenta -, é certa convicção da Penitenciaria de que ‘a defesa do sigilo sacramental e a santidade da confissão nunca poderão constituir alguma forma de conivência com o mal, ao contrário, representam o único verdadeiro antídoto ao mal que ameaça o homem e o mundo inteiro; são a real possibilidade de abandonar-se ao amor de Deus, de deixar-se converter, e transformar-se por este amor…’.

De acordo com o penitenciário-mor, além disso, no que diz respeito à ‘absoluta inviolabilidade do sigilo sacramental’, ‘é essencial insistir sobre a incomparabilidade do sigilo confessional com o sigilo profissional a que estão sujeitas certas categorias (médicos, farmacêuticos, advogados, etc.), a fim de evitar que as legislações seculares a apliquem ao sigilo - inviolável –, derrogações legitimamente previstas para o segredo profissional.’

O segredo da confissão ‘não é uma obrigação imposta a partir do exterior, mas uma exigência intrínseca do sacramento e, como tal, não pode ser cancelado nem mesmo pelo penitente’. O penitente não fala ao confessor-homem, mas a Deus, portanto tomar posse daquilo que é de Deus seria um sacrilégio.


Fonte :

quinta-feira, 7 de março de 2019

Cuidado com as penitências absurdas na Quaresma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Resultado de imagem para quaresma deserto
*Artigo do Prof. Felipe Aquino


Olhando para Jesus, desfigurado e destruído na cruz, entendemos o horror que é o pecado. Foi preciso a morte de Cristo para que nos livrássemos do pecado e da morte eterna, a separação da alma de Deus. Então, a Igreja nos propõe 40 dias de penitência, de resistência contra o pecado na Quaresma.

Essa prática é baseada na vida do povo de Deus. Durante 40 dias e 40 noites, caiu o dilúvio que inundou a terra e extinguiu a humanidade pecadora (cf. Gn. 7,12). Durante 40 anos, o povo escolhido vagou pelo deserto, em punição por sua ingratidão, antes de entrar na terra prometida (cf. Dt 8,2). Durante 40 dias, Ezequiel ficou deitado sobre o próprio lado direito, em representação do castigo de Deus iminente sobre a cidade de Jerusalém (cf. Ez 4,6). Moisés jejuou durante 40 dias no Monte Sinai antes de receber a revelação de Deus (cf. Ex 24, 12-17). Elias viajou durante 40 dias pelo deserto, para escapar da vingança da rainha idólatra Jezabel e ser consolado e instruído pelo Senhor (cf. 1 Reis 19,1-8). O próprio Jesus, após ter recebido o batismo no Jordão, e antes de começar a vida pública, passou 40 dias e 40 noites no deserto, rezando e jejuando (cf. Mt 4,2). É um tempo de luta contra o mal.

São Paulo nos oferece uma indicação precisa : ‘Nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça’, porque Ele diz : ‘No tempo favorável, eu te ouvi; no dia da salvação, vim em teu auxílio’. Este é o ‘tempo favorável’, este é ‘o dia da salvação’ (2 Cor 6,1-2). A liturgia da Igreja aplica essas palavras de modo particular ao tempo da Quaresma. ‘Convertei-vos e crede no Evangelho’ e ‘Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar’.

Convite à conversão

O primeiro convite é à conversão, um alerta contra a superficialidade de nossa maneira de viver. Converter-se significa mudar de direção no caminho da vida: uma verdadeira e total inversão de rumo. Conversão é ir contra a corrente, contra a vida superficial, incoerente e ilusória que, frequentemente, nos arrasta, domina e torna-nos escravos do mal ou pelo menos prisioneiros dele.

Jesus Cristo é a meta final e o sentido profundo da conversão, Ele é o caminho ao qual somos chamados a percorrer, deixando-nos iluminar pela sua luz e sustentar pela sua força. A conversão é uma decisão de fé, que nos envolve inteiramente na comunhão íntima com a pessoa viva e concreta de Jesus. A conversão é o ‘sim’ total de quem entrega sua vida a Jesus pela vivência do Evangelho. ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho’ (Mc 1,15).

As penitências não são para fazer mal

Para vencermos a nós mesmos, nossas fraquezas e paixões desordenadas, a Igreja recomenda, sobretudo na Quaresma, o jejum, a esmola e a oração como ‘remédios contra o pecado’, a fim de dominar as fraquezas da carne e aproximar-se de Deus. Portanto, não se deve fazer penitências exageradas, uma mortificação que leve a pessoa a ficar doente ou a se sentir mal. O jejum exige, sim, passar um pouco de fome durante o dia, mas sem causar mal à pessoa, sem tirar a sua condição de trabalhar, rezar etc.

Saber calar pode ser uma boa penitência

Há formas boas de mortificação, como cortarmos aquilo que nos agrada, seja para o corpo ou para o espírito, mas há pessoas que fazem excessos : peregrinações longas demais, penitências até com feridas, prejudicando a saúde. Deus não quer isso, Ele não nos pede o impossível.

Qual mortificação eu preciso fazer? É aquela que abate o meu pecado. Se eu sou soberbo, então minha penitência deve ser o exercício de humildade : vencer todo orgulho, ostentação, vaidade, exibicionismo, desejo de aparecer, de impor-se aos outros e saber calar.

Se seu pecado é o apego aos bens materiais e ao dinheiro, então eu preciso exercitar muito a boa e farta esmola, o desprendimento do mundo e das criaturas. Se meu mal é a luxúria e a impureza, então, vou exercitar a castidade nos olhos, ouvidos, leituras, pensamentos e atos. Se sou irado, vou conquistar a mansidão; se sou invejoso, vou buscar a bondade; se sou preguiçoso, vou trabalhar melhor e ser diligente em servir aos outros sem interesses.

Perdoar pode ser mais importante

São Francisco de Sales, doutor da Igreja, dizia que a melhor penitência é aceitar, com resignação, os males que Deus permite que nos atinjam, porque Ele sabe do que precisamos, e assim nossos pecados são vencidos. As penitências que Deus nos manda é melhor do que aquela imposta por nós mesmos. Então, aceite, especialmente na Quaresma, sem reclamar, sem culpar ninguém, todos os males, dores, aborrecimentos e injúrias que sofrer, e ofereça tudo a Deus pela sua conversão. Pode ser que dar o perdão a quem lhe ofendeu seja mais importante do que ficar 40 dias sem fazer isso ou aquilo. Uma visita a um doente, a um preso, o consolo de alguém aflito pode ser mais importante que uma peregrinação demorada. Tudo é importante, mas é preciso observar o mais importante para a realidade espiritual.’


Fonte :

segunda-feira, 16 de março de 2015

Quaresma : tempo de Jejuar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘Uma das práticas quaresmais marcantes é a penitência, sobretudo no comer e no beber. Tal penitência pode consistir numa simples abstinência, que é renúncia a algum alimento, ou pode chegar ao jejum, que consiste no privar-se das refeições de modo total ou parcial. É muito importante a prática de tal forma de penitência. Aliás, eram o jejum e a abstinência que, na Igreja Antiga, davam uma fisionomia própria ao tempo quaresmal.

Mas, por que jejuar? Por que se abster de alimentos? É necessário compreender o sentido profundo que o cristianismo dá a essas práticas para não ficarmos numa atitude superficial, às vezes até folclórica, ou por ignorância pura e simples, desprezarmos algo tão belo e precioso no caminho espiritual do cristão.

O jejum nos ensina que somos radicalmente dependentes de Deus. Na tradição judaica, na Escritura, a palavra nephesh significa, ao mesmo tempo, vida e garganta. A ideia que isso exprime é que nossa vida não vem de nós mesmos, não a damos a nós próprios; nós a recebemos continuamente : ela entra pela nossa garganta com o alimento que comemos, a água que bebemos, o ar que respiramos. Jamais o homem pode pensar que se basta a si mesmo, que pode se fechar para Deus. Quando jejuamos, sentimos certa fraqueza e lerdeza, às vezes nos vem mesmo um pouco de tontura. Isso faz parte da ‘psicologia do jejum’ : recorda-nos o que somos sem esta vida que vem de fora, que nos é dada por Deus continuamente.

A prática do jejum impede-nos, então, da ilusão de pensar que a nossa existência, uma vez recebida, é autônoma, fechada, independente. Nunca poderemos dizer : ‘A vida é minha; faço como eu quero’! A vida será, sempre e em todas as suas etapas, um dom de Deus, um presente gratuito, e nós seremos sempre dependentes Dele. Esta dependência nos amadurece, nos liberta de nossos estreitos e mesquinhos horizontes, nos livra da autossuficiência e nos faz compreender ‘na carne’ nossa própria verdade, recordando-nos que a vida é para ser vivida em diálogo de amor com Aquele que no-la deu.

O alimento é uma de nossas necessidades básicas, um de nossos instintos mais fundamentais, juntamente com a sexualidade. A abstenção do alimento nos exercita na disciplina, fortalecendo nossa força de vontade, aguçando nossa capacidade de vigilância, dando-nos a capacidade para uma verdadeira disciplina. Nossa tendência é ir atrás de nossos instintos, de nossas tendências, de nossa vontade desequilibrada. Aliás, essa é a grande fraqueza e o grande engano do mundo atual. Dizemos : ‘não vou me reprimir; não vou me frustrar’, e vamos nos escravizando aos desejos mais banais e às paixões mais contrárias ao Evangelho e ao amor pelo próximo.

O próprio Jesus, de modo particular, e a Escritura, de modo geral, nos exortam à vigilância e à sobriedade. O jejum e a abstinência, portanto, são um treino para que sejamos senhores de nós mesmos, de nossas paixões, desejos e vontades. Assim, seremos realmente livres para Cristo, sendo livres para realizar aquilo que é reto e desejável aos olhos de Deus! Jesus mesmo afirmou que quem comete pecado é escravo do pecado. É muito importante exercitar-se com a abstinência. Não basta malhar o corpo; é preciso malhar o coração!

O jejum tem também a função de nos unir a Cristo no seu período de quarenta dias no deserto. Quaresma de Cristo, quaresma do cristão. Faz-nos, assim, participantes da paixão do Senhor, completando em nós o que faltou à cruz de Jesus. O cristão jejua por amor a Cristo e para unir-se a Ele, trazendo na sua carne as marcas da cruz do Senhor. É uma união com o Senhor que não envolve somente a alma, com seus sentimentos e afetos, mas também o corpo. É o homem todo, a pessoa na sua totalidade que se une ao Cristo. Nunca é demais recordar que a vida cristã atinge o homem em sua totalidade. Pelo jejum, também o corpo reza, também o corpo luta para colocar-se no âmbito da vida nova de Cristo Jesus. Também o corpo necessita, como o coração, ser esvaziado do vinagre dos vícios para ser preenchido pelo mel, que é o Espírito Santo de Jesus.

Portanto, o jejum e a abstinência fazem-nos recordar aqueles que passam privações, sobretudo a fome, abrindo-nos para os irmãos necessitados. Há tantos que, à força, pela gritante injustiça social em nosso País, jejuam e se abstêm todos os dias, o ano todo! O jejum nos faz sentir um pouco a sua dor, tão concreta, tão real, tão dolorosa! Por isso mesmo, na tradição mística e ascética da Igreja, o jejum e a abstinência devem ser acompanhados sempre pela esmola : aquele alimento do qual me privo já não é mais meu, mas deve ser destinado ao pobre. Eis o jejum perfeito : ele me abre para Deus e para os irmãos. Nesse sentido, é enorme a insistência seja da Sagrada Escritura, seja dos Padres da Igreja (os santos doutores dos primeiros séculos do cristianismo).

Temos necessidade de ser mais assíduos à prática do jejum e da abstinência. Resta-nos passar da teoria à prática. Seja nossa quaresma uma oportunidade para o jejum e abstinência, engrandecida com o bem da caridade fraterna, da esmola que se efetiva na atenção e preocupação ativa e concreta pelos pobres de todas as pobrezas.’.


Fonte :
* Artigo na íntegra de htt ://www.news.va/pt/news/quaresma-tempo-de-jejuar

sábado, 23 de fevereiro de 2013

QUE NOS TORNEMOS MELHORES

Por Maria Vanda (Ir. Maria Silvia, Obl. OSB)


                                                      

                                  A PERENE VALIDADE DO APELO QUARESMAL


                          O retorno desses dias que os mistérios da salvação humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.


                               Todos os anos, a Igreja, no tempo da Quaresma, convida seus filhos e filhas a acessar a misericórdia divina através de um programa de conversão evangélica. As celebrações litúrgicas desse período nos inserem naquela atmosfera penitencial que, paulatinamente, nos vai conduzindo ao monte santo da Páscoa. Por outras palavras, secundando o que dizia São Leão Magno, nesses quarenta dias dedicados a uma cuidadosa purificação especial, nos preparamos, reverentes, para usufruir os dons pascais.

 
                              UM PROCESSO TERAPÊUTICO

                               Com efeito, a penitência quaresmal se apresenta com um processo terapêutico de cura  do pecado e do mal que, voluntariamente ou não, praticamos. Já São Paulo advertia, na Carta aos Romanos, para essa realidade contraditória e incoerente que habita o ser humano: “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero”.   Contudo, longe de nos acomodarmos a um pessimismo estéril, sabemos que a graça de Cristo torna-se força de renovada transformação quando lhe abrimos de par em par as portas do coração. Por isso mesmo, com afetuosa solicitude, a Mãe Igreja propõe a seus filhos esse tempo favorável, exortando-os a não receber em vão a graça divina. Mediante um conjunto de práticas exteriores, queremos dar significado a nossa disposição interior para mudar de vida. Nosso Pai São Bento, ao organizar a programação quaresmal de seus monges, elenca algumas Dessas práticas.

                               Para vivenciar ao inverso a palavra de São Paulo há pouco mencionada, ou seja, fazendo o bem que queremos e evitando o mal que não queremos mais praticar, é necessário, antes de tudo, entrar no próprio íntimo e buscar a conversão do coração, pedindo com o Salmista: Criai em mim, ó Deus, um coração puro, renovai em mim um espírito resoluto. Sem essa “transformação cardíaca”, os atos de penitência, além de desprovidos de qualquer sentido, não passariam de meras formalidades. E contra tais estereótipos inócuos, o Salvador é taxativo no Evangelho: ai de vós...

                              Na verdade, o Senhor está sempre esperando de nós aquilo que, com tanta justeza, o Salmista também exprime: Sacrifício para Deus é um espírito contrito; não desprezais, ó Deus um coração contrito e humilhado Só um coração assim, convertido e restaurado, será capaz de produzir frutos de autêntica santidade. Análogo ensinamento vamos encontrar no Catecismo da Igreja Católica: Este esforço de conversão não é apenas uma obra humana. É o movimento do “coração contrito” atraído e movido pela graça a responder ao amor misericordioso de Deus que nos amou primeiro”10.
 

                                UM CORAÇÃO CONTRITO

                               Falamos de coração contrito. O profeta Ezequiel trata, em seu livro, da remoção de um coração de pedra que será substituído por um coração de carne: Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne11. Através da palavra profética, Deus nos convida a uma mudança de atitudes que consiste no “amolecimento” do coração contaminado pelo pecado e pelo orgulho. A contrição é a etapa de passagem do coração de pedra para o coração de carne, ou seja, do coração ferido pelo mal, pesado e enrijecido, para o coração purificado, renovado e recuperado na ordem da graça.

                              A contrição que converte e, sem dúvida, conseqüência da penitência interior, que justificasse as práticas penitenciais exteriores. Melhor explicando: os sinais visíveis de penitência expressam seus movimentos interiores.

                            E o que é penitência interior? É uma orientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo o nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às obras más que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua  graça.
 
                          Sabendo de tudo isso, nada mais resta senão por em prática, no cotidiano da vida, o que o Senhor está, aqui e agora, pedindo, a cada um de nós: Precisais deixar a vossa antiga maneira de viver e despojar-vos do homem velho, que vai se corrompendo ao sabor das paixões enganadoras. Por outro lado, precisais renovar-vos, pela transformação espiritual das vossas mente, e vestir-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, na verdadeira justiça e santidade.



                          UMA VIDA QUARESMAL

                          É costume nos mosteiros beneditinos que, no início da Quaresma, os monges entregam ao Abade uma cédula na qual escrevem algumas penitências que se propõem a praticar, durante a sagrada quarentena, com o propósito de se corrigirem das faltas cometidas. Pretendem assim não apenas celebrar a Santa Páscoa com o coração purificado de todas elas, mas também melhorar daí por diante a qualidade e prática de sua vida espiritual e humana. Concretamente, é o esforço que cada um realiza, buscando a transformação da própria mente a fim de tornar-se um homem novo, isto é, viver com o auxílio de graça, na verdadeira justiça e santidade.

 
                        Embora a Regra de São Bento trate da observância da Quaresma em capítulo específico, contudo, em muitas de suas passagens, o tema da conversão está sempre presente. No mencionado capítulo quando se afirma que a vida do monge deve ser, em todo o tempo, uma observância da Quaresma, claro está que o inteiro viver do monge é um processo gradual e permanente de renovação interior. Neste sentido, uma passagem do Prólogo da mesma Regra é bastante significativa: Espera o Senhor todos os dias que nos empenhemos em responder com atos às suas santas exortações. Por essa razão, os dias desta vida nos são prolongados como tréguas para a emenda dos nossos vícios, conforme diz o Apóstolo: então ignoras que a paciência de Deus te conduz à penitência? Pois diz o bom Senhor: “Não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva.

                       Portanto, o processo terapêutico de cura do pecado, já aludido, não se restringe apenas ao tempo quaresmal, que devemos guardar com toda pureza, mas é diário e perdura a vida inteira. Todos têm de se renovar a cada dia para evitar a ferrugem inerente à condição mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição,

                       A quem deseja se converter, Deus concede bom tempo. E, porque é bom, espera sempre que nos tornemos melhores. Tornar-se melhor significa deixar a graça divina operar em nosso íntimo, consentir que ela aja. É o que faz São Bento dizer: O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo.

                        Para efetivar essa terapia penitencial é preciso tomar as devidas providências. Quais?


                        A ATITUDE FUNDAMENTAL: ESCUTAR

                        Primeiramente, escutar. O ato de escuta é condição preliminar para se realizar algo. A palavra escutada pede, exorta: completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede na Boa Nova. Converter-se e crer, dois movimentos que se completam. A voz divina que “in illo tempore”, começava assim sua pregação na Galiléia, continua admoestando os homens e as mulheres de todas as épocas a se transformarem. Por conseguinte, cada um, por semelhante convite mude de conduta e viva!É fundamental, para tanto, nos dispormos ao diálogo com esse Deus paciente, que prolonga com trégua os dias desta vida para a emenda dos nossos vícios: ele é indulgente, é favorável, é paciente, é bondoso e compassivo. Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas. Vejamos como isso pode acontecer.

                       O penitente começa se dispondo, com um coração filial, a escutar o Filho recomendado pela voz paterna: escuta, filho: este é o meu Filho amado.  Se o Cristo, o Filho amado do Pai, é objeto de amor preferencial do monge: Nada absolutamente anteponham a Cristo,  escutar sua palavra é caminho seguro para quem pretende enveredar pelos caminhos de uma vida santa. Ela nos estimula a fazer, o quanto antes, aquele “transplante cardíaco” anunciado pelo profeta Ezequiel e reavivado pela admoestação do Salmista: Hoje , se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações.

                       Gregório Magno, em duas passagens de seus escritos, dá a medida exata da importância que tem a Palavra de Deus na vida não só do monge, mas de todo cristão: realmente, o que é a Sagrada Escritura senão uma carta de Deus onipotente a sua criatura?... Procura meditar todos os dias a palavra de teu Criador. Começa a conhecer, na Palavra de Deus, o coração de Deus para desejares, mais ardentemente, os bens eternos, e que teu coração se inflame de desejos ainda maiores pelas alegrias do céu. E: A Palavra de Deus cresce juntamente com quem a lê... Dela tirarás proveito na medida em que progredires.... Melhor se descobre o maravilhoso poder da Palavra de Deus quando o coração de quem está lendo é penetrado de amor pelas coisas vindas do alto.

                       Por isso, a prática da "lectio divina" recomendada pela Regra de São Bento, com maior empenho no tempo quaresmal, ressalta o valor da Sagrada Escritura como única e exclusiva fonte inspiradora da conversão cristã e monástica. Mesmo assim, não basta somente escutá-la. Nossos propósitos e esforços ascéticos só lograrão êxito se forem bem alicerçados pela obediência e pela oração.

                       Pela atitude de obediência ouvem o que digo e me obedecem. o monge responde por atos as interpelações que o Senhor lhe dirige enquanto ouve, coração atento, sua palavra, procurando executar eficazmente tudo o que dela hauriu. Cumprindo - a com fidelidade , ele será feliz: Andai pelos caminhos que vos ordenei para serdes felizes.
 

 
                      AGIR SOBRE SI MESMO

                      Partindo dessa premissa, chegamos ao segundo estágio da terapia penitencial: AGIR.

                     Por outros termos: a escuta amorosa e obediente da Palavra de Deus, que cresce juntamente conosco, nos instiga a responder com atos às santas exortações.  É preciso mudar a nossa maneira de pensa e de agir, dar uma nova orientação à própria vida, deixar o Espírito Santo agir à vontade para, com seu divino cinzel, esculpir na pedra bruta que somos a imagem de Jesus Cristo.

                  
                      Fiéis ao dom da graça que nos converte e santifica, de coração contrito e humilde, perseveremos em nossos propósitos de uma vida nova para que nos tornemos melhores.

                      Concluamos rezando com Balduíno de Cantuária: Arranca de mim Senhor, o coração de pedra. Tira o coração incircunciso; dá-me um coração de novo, coração de carne, coração puro! Tu purificador dos corações e amante dos corações puros, apossa-te do meu coração e nele habita, envolvendo-o e enchendo-o. Tu, superior ao que tenho de mais elevado, interior ao que tenho de mais íntimo! Tu, forma da beleza e selo da santidade, marca meu coração com a tua misericórdia, Deus de meu coração e minha parte, Deus para sempre.

Amém.”.

 
                                                   (Texto escrito por Dom Mathias Fonseca de Medeiros OSB é monge do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro).    "In Revista Beneditina de Espiritualidade Monástica Ano V – Jan/fev -2008 pg. 3 usque 11".

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um luxo para os cristãos



Este artigo foi gentilmente cedido por Dom João Evangelista Kovas, OSB,
monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo.

 
           No dia 22 deste mês de fevereiro de 2012, iniciamos o tempo quaresmal com a Quarta-feira de Cinzas. Na liturgia a Igreja reveste-se com a cor roxa, querendo significar o tempo propício para refletirmos com nossa vida o significado da palavra do Salvador: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

           De fato, ao longo do ano, as obrigações da vida nos consomem, a ponto de pensarmos se somos nós que vivemos em função delas ou, antes, são elas que devem servir ao propósito de contribuir para que tenhamos uma vida boa. Parar para refletir sobre nossa salvação, sobre a Palavra que o Senhor dirige para nós, parece um luxo que não podemos nos dedicar muito a ele. Somos obrigados a dar toda a nossa atenção para os acontecimentos correntes da vida. E, na maioria das vezes, deixamos mesmo de pensar sobre o significado de nossa vida.

            Deus não nos revelou sua presença viva no mundo, em benefício de seus filhos, para que nos esqueçamos dele e de nosso destino eterno. Não fomos abandonados nesse mundo, para que ficássemos todos entretidos e fustigados apenas com a ordem desse mundo. A revelação de Deus é um alento para a nossa alma de que necessitamos tanto. A graça de Deus e a sua justiça são verdadeiro respiro da alma, que vive nesse mundo com um anseio irrefreável de viver na presença de Deus e amá-lo de todo coração.

            Por isso, a Igreja na sua diligência para com as coisas do Senhor institui o Tempo da Quaresma. Um tempo de sobriedade para os cristãos, que deixam de se entreter exclusivamente com as coisas do mundo, para se voltar para Deus, para cuidar daquilo que é mais caro para nós, ainda que no correr do dia-a-dia temos a tendência de nos esquecermos. Esse é, sobretudo, o sentido da conversão, proposto nesse tempo especial, no qual somos levados a acreditar sempre mais na Palavra Daquele que não se esqueceu de nós e está sempre presente.

           O Tempo da Quaresma é também um tempo de penitência. Aliás, a penitência e a conversão estão intimamente ligadas entre si. A conversão é algo mais amplo do que a penitência. Ela significa toda nossa volta para o Senhor, o qual nos convida a nos achegarmos a ele e conhecê-lo sempre mais. Por isso, ela é antes motivo de satisfação e contentamento. A penitência é um capítulo dessa volta.

          O fato é que nosso afastamento de Deus é causa em nós de muito sofrimento e mesmo motivo pelo qual causamos sofrimento para outras pessoas, inclusive àquelas que estão ou estiveram mais próximas de nós. Esse testemunho do mal que carregamos é ainda mais doloroso e mesmo sem cura, quando não encontramos o caminho do perdão.

           A Palavra de Deus não nos quer condenar a esse tipo de vida. Por isso, o Senhor veio para nos salvar e prometeu uma vida em abundância: uma vida verdadeira, que não pode coexistir com a mentira e com a dureza de um coração de quem insiste em não reconhecer as próprias faltas e refugia-se no esquecimento.

          Muito do esquecimento de Deus que encontramos nesse mundo faz parte de uma tentativa frustrada de esquecer o mal que se cometeu. Não é preciso dizer que, no fun  do, nunca nos esquecemos desse mal. Se a mente se esquece, cedo ou tarde, o corpo nos lembra.

           Se o capítulo da penitência pode parecer muito duro para nós, ele, no entanto, esconde toda alegria do regresso para o Senhor. Como Jesus mesmo nos disse, ele não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo. O mundo pode recusar, de início, o perdão oferecido pelo Senhor, mediante o reconhecimento das próprias faltas. Porém, a fé nos recorda que seu perdão restaura nossas forças, nos ajuda a retomar o caminho do bem e da verdade e nos garante o prêmio para nós imerecido da vida eterna. Se nossos pecados nos afastam das coisas do alto, o perdão nos aproxima do seio caloroso de Deus.

      Que os cristãos saibam reconhecer a grandeza desse tempo de perdão e conversão. Trata-se de verdadeiro luxo, ao qual o mundo não se permite ter acesso, pois pensa que não e para si. Mas a Igreja que é Mãe nos apresenta constantemente esse dom que o Senhor nos faz e nos ajuda a esperar com alegria espiritual a celebração da Páscoa do Senhor.