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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A necessidade de sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Pinci


‘Nos últimos anos, o mundo parece ter voltado a colocar questões que pensávamos estarem enterradas sob a modernidade e a secularização : o que significa viver com sentido? Qual é a nossa relação com o divino? Guerras, pobreza, migrações, crises ecológicas e económicas abalaram as nossas certezas, colocando em primeiro plano a fragilidade e a vulnerabilidade do ser humano. E, nesta tensão, muitas mulheres estão a assumir um diálogo antigo e novo ao mesmo tempo : o regresso ao sagrado, ou pelo menos a uma forma de espiritualidade que não se limite à ausência de fé, mas que se torne uma experiência concreta, vivida, prática.

Não é por acaso que, como observa Emilia Palladino, professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é precisamente o medo – uma emoção originária, necessária à sobrevivência – que reabre o espaço da espiritualidade. Num mundo marcado pelo mistério e pela incerteza, a busca de um ‘além’ torna-se uma forma de atravessar esse medo sem sermos por ele dominados. A espiritualidade, escreve ela, não o cancela, mas orienta-o, transforma-o numa alavanca para continuar a viver e a procurar sentido.

Os testemunhos reunidos neste número mostram uma pluralidade de perspectivas. Cécile, ajoelhada diante da Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa em Paris, tem nas mãos um caderno com os nomes de entes queridos desaparecidos na guerra no Sudão. O seu corpo estremece como num soluço abafado, mas a oração torna-se um gesto de resistência, memória e esperança. Nesta cena, tão concreta e poderosa, o sagrado não é abstrato : é cuidado, atenção, presença. E é guardado por mulheres, pelas religiosas que gerem a capela, mas também por quem reza sozinho, em silêncio.

A professora Valérie Aubourg, que dirige a nova Faculdade Eclesiástica de Ciências Sociais da Universidade Católica de Lyon, ajuda-nos a interpretar este fenómeno com um olhar mais amplo. Após o Concílio Vaticano II, muitas práticas visíveis – peregrinações, gestos de devoção – foram postas de lado como formas antiquadas. Hoje, também graças à chegada dos migrantes católicos, estas práticas ressurgem, mas sob novas formas : muitas vezes individualizadas, interiorizadas, mas capazes de devolver sentido à comunidade e ao rito. Peregrinações, estátuas, cerimônias religiosas : não são um regresso nostálgico, mas uma reinvenção do sagrado, onde as mulheres são frequentemente protagonistas na transmissão de gestos e significados.

Também na sociedade laica, o debate está vivo. Flavia Trupia, crente que se dedica à comunicação e à retórica, observa que a religião católica continua a ser uma lição de amor e respeito impossível de substituir. No entanto, muitas mulheres como ela mantêm-se distantes das instituições, atraídas pela espiritualidade, mas não pelos rituais hierárquicos. Então a questão é : se há espaço para falar de Deus, será este o momento das mulheres? Será a sua voz que hoje pode redefinir o sagrado, tornando-o acessível, inclusivo e capaz de responder aos dilemas concretos do nosso tempo?

É uma questão que atravessa também a Igreja a partir de dentro. A jovem teóloga Paola Franchina diz isso com palavras claras : «Sou católica, mas não quero ser um eco». A sua reflexão realça um ponto crucial : a presença das mulheres é ampla, mas o seu acesso aos lugares de decisão permanece limitado. Não é apenas uma questão de visibilidade, mas de poder, de reconhecimento real da capacidade de influenciar. Permanecer na Igreja, para muitas, não é uma adesão passiva, mas uma escolha consciente, muitas vezes árdua : uma forma de pertença acompanhada pelo desejo de transformação. Uma voz que não se limita a ressoar, mas que pede para ser ouvida.

Não é por acaso que a cultura contemporânea explora tensões semelhantes. No cinema, o realizador vencedor de um Óscar, Paolo Sorrentino, coloca uma questão essencial : de quem são os nossos dias? É a interrogação que atravessa o seu último filme, La grazia, onde a ‘graça’ não é apenas um conceito jurídico, mas uma dimensão interior, capaz de salvar sem ter de explicar. É uma pergunta que ressoa profundamente no nosso tempo, intercetando uma busca generalizada de sentido, suspensa entre fé, dúvida e desejo.

Esta mesma tensão é também visível em algumas experiências artísticas atuais, onde o sagrado se mistura com a vida pessoal e a busca interior. Na obra da cantora espanhola Rosalía, por exemplo, a espiritualidade sobressai através de diversas referências, que vão desde as santas cristãs até figuras como Simone Weil. São presenças que se tornam pontos de referência interiores. A oração, aprendida em criança ao lado da avó, regressa como um gesto simples e diário. Ao mesmo tempo, a música torna-se um espaço onde o divino é procurado, evocado e, por vezes, até questionado. Não se trata de uma fé ostentada ou rígida, mas de algo autêntico, que passa pelo corpo, pela voz e pela memória.

Neste sentido, a sua busca dialoga profundamente com a de tantas mulheres : uma espiritualidade que não se limita a guardar o passado, mas que o reelabora, o põe em movimento. As peregrinações já não coincidem necessariamente com os percursos tradicionais rumo a destinos sagrados codificados, mas assumem novas formas, muitas vezes pessoais e informais : caminhos sem destinos pré-estabelecidos, viagens lentas pela natureza, experiências de silêncio ou de busca interior que cada um constrói de acordo com a própria necessidade de sentido. Nestes percursos, tal como nos gestos quotidianos de cuidado — dedicar tempo a si próprio, aos outros, ao que nos rodeia — o sagrado não se apresenta como algo separado ou já definido, mas como uma experiência encarnada, que ganha forma na vida concreta. É um sagrado nunca definitivo, que não se deixa fixar de uma vez por todas, mas permanece sempre em devir, aberto, em contínua transformação.

Este número de Mulheres Igreja Mundo não pretende sintetizar todas as vozes. As entrevistas, reportagens e relatos de viagem aqui reunidos mostram uma pluralidade de abordagens : quem se aproxima de uma espiritualidade pessoal, quem redescobre práticas antigas com novos olhos, quem dialoga com a religião através da cultura e da filosofia. Em todas elas, porém, percebe-se um elemento comum : a necessidade de sentido, de comunidade e de beleza. E são as mulheres que encarnam, hoje, muitas dessas práticas, tanto dentro das instituições como fora delas, com uma liberdade de escolha que torna a sua espiritualidade original e poderosa.

Talvez os nossos dias pertençam realmente àqueles que sabem ouvir, rezar, guardar a memória e a esperança. O sagrado é gesto concreto, cuidado, atenção ao outro e graça de ânimo. E talvez, nesta época de questões globais e tensões íntimas, as mulheres sejam a voz que fala ao presente, reinventando o diálogo entre o céu e a terra, entre a fé e a vida.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/a-necessidade-de-sentido.html

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Semana Santa: tempo de recolhimento e reflexão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Felipe Aquino,

professor

 

‘São Paulo explica a grandeza desse amor de Deus por nós com as seguintes palavras aos romanos : ‘Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós : quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida’ (Romanos 5,8-10).

Cristo veio a este mundo para nos salvar, para morrer por nós. Deus, humanizado, morreu por nós. O que mais poderíamos exigir do Senhor para nos demonstrar Seu amor? Sem isso, a humanidade estaria definitivamente longe de Deus por toda a eternidade, vivendo o inferno, a separação do Pai. Por quê? Porque o homem pecou e peca desde os nossos primeiros antepassados; e o pecado é uma ofensa grave a Deus, uma desobediência às Suas santas Leis, a qual rompe nossa comunhão com Ele. Por isso, diante da justiça divina, somente uma reparação de valor infinito poderia sanar essa ofensa da humanidade ao Senhor. E como não havia um homem sequer capaz de reparar, com seu sacrifício, essa ofensa infinita a Deus, então, Ele próprio, na Pessoa do Verbo, veio realizar essa missão.

O que podemos exigir do Senhor?

Não pense que Deus é malvado e exige o sacrifício cruento de Seu Filho na cruz por mero deleite ou para se vingar da humanidade. Não, não se trata disso. Acontece que o Senhor é amor, mas também é justiça. O amor de Deus é justo. Quem erra deve reparar seu erro. Humanamente, exigimos isso, e essa lei só não existe entre os animais. Então, como a humanidade prevaricou contra Deus, ela tinha de reparar essa ofensa não simplesmente a Ele, mas à justiça divina sob a qual este mundo foi erigido. Sabemos que, no Juízo Final, Deus fará toda justiça com cada um; e cada injustiça da qual fomos vítimas também será reparada no dia do juízo.

Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício

Assim, vemos o quanto Deus ama, valoriza e respeita o homem. O Verbo Divino se apresentou diante do Pai e ofereceu-se para salvar a Sua mais bela criatura, gerada à Sua imagem e semelhança (cf. Gênesis 1,26).

A Carta aos Hebreus explica bem este fato transcendente : ‘Eis por que, ao entrar no mundo, Cristo diz : Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse : ‘Eis que venho (porque é de mim que está escrito no rolo do livro), venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’ (Sl 39,7ss). Disse primeiro : Tu não quiseste, tu não recebeste com agrado os sacrifícios nem as ofertas, nem os holocaustos, nem as vítimas pelo pecado (quer dizer, as imolações legais). Em seguida, ajuntou : Eis que venho para fazer a tua vontade. Assim, aboliu o antigo regime e estabeleceu uma nova economia. Foi em virtude desta vontade de Deus que temos sido santificados uma vez para sempre, pela oblação do corpo de Jesus Cristo. Enquanto todo sacerdote se ocupa diariamente com o seu ministério e repete inúmeras vezes os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e, logo em seguida, tomou lugar para sempre à direita de Deus’ (Hebreus 10,5-10).

A Semana Santa celebra, todos os anos, esse acontecimento inefável : a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo para a salvação da humanidade, para o resgate desta das mãos do demônio e a sua transferência para o mundo da luz, para a liberdade dos filhos de Deus. Estávamos todos cativos do demônio, que no Paraíso tomou posse da humanidade pelo pecado. E com o pecado veio a morte (cf. Rom 6,23).

Mas agora Jesus nos libertou, ‘pagou o preço do nosso resgate’. Disse São Paulo : ‘Sepultados com ele no batismo, com ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. Mortos pelos vossos pecados e pela incircuncisão da vossa carne, chamou-vos novamente à vida em companhia com ele. É ele que nos perdoou todos os pecados, cancelando o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente ao encravá-lo na cruz. Espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfando deles pela cruz’ (Col 2,12-14).

Quando fomos batizados, aplicou-se a cada um de nós os efeitos da Morte e Ressurreição de Cristo; a pia batismal é, portanto, o túmulo do nosso homem velho e o berço do nosso homem novo, que vive para Deus e Sua justiça. É por isso que, na Vigília Pascal do Sábado Santo, renovamos as promessas do batismo.

O cristão que entendeu tudo isso celebra a Semana Santa com grande alegria e recebe muitas graças. Por outro lado, aqueles que fogem para as praias e os passeios, fazendo dela apenas um grande feriado, é porque ainda não entenderam a grandeza dessa data sagrada e não experimentaram ainda suas graças. Ajudemos essas pessoas a conhecer tão grande mistério de amor!

A espiritualidade dos três dias

O cristão católico, convicto, celebra com alegria cada função litúrgica do Tríduo Pascal e da Páscoa. Toda a Quaresma nos prepara para celebrar com as disposições necessárias a Semana Santa. Ela se inicia com a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém (Domingo de Ramos). O povo simples e fervoroso aclama Jesus como Salvador. E grita : ‘Hosana!’; ‘Salva-nos!’ Ele é o Redentor do homem. Nós também precisamos proclamar que Ele e só Ele é o nosso Salvador (cf. At 4,12).

Na Missa dos Santos Óleos, a Igreja celebra a Instituição do Sacramento da Ordem e a bênção dos santos óleos do batismo, da crisma e da unção dos enfermos. Na Missa do Lava-pés, na noite da Quinta-Feira Santa, a Igreja celebra a Última Ceia de Jesus com os apóstolos, na qual o Senhor instituiu a Sagrada Eucaristia e lhes deu as últimas orientações.

Na Sexta-Feira Santa, a Igreja guarda o Grande Silêncio diante da celebração da Morte do seu Senhor. Às três horas da tarde, é celebrada a Paixão e Morte do Senhor. Em seguida, há a Procissão do Senhor morto por cada um de nós. Cristo não está morto nem morre outra vez, mas celebrar a Sua Morte é participar dos frutos da Redenção.

Na Vigília Pascal, a Igreja canta o ‘Exultet’, o canto da Páscoa, a celebração da Ressurreição do Senhor, que venceu a morte, a dor, o inferno e o pecado. É o canto da Vitória. ‘Ó morte, onde está o teu aguilhão?’

A vitória de Cristo é a vitória de cada um de nós que morreu com Ele no batismo e ressuscitou para a vida permanente em Deus; agora e na eternidade.

Celebrar a Semana Santa é celebrar a vida, a vitória para sempre. É recomeçar uma vida nova, longe do pecado e em comunhão mais íntima com Deus. Diante de um mundo carente de esperança, que desanima da vida, porque não conhece a sua beleza, celebrar a Semana Santa é fortalecer a esperança que dá a vida. O Papa Bento XVI disse em sua Encíclica ‘Spe Salvi’ que sem Deus não há esperança, e sem esperança não há vida.

Esta é a Semana Santa que o mundo precisa celebrar para vencer seus males, suas tristezas e desesperanças.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.procampuseducacao.com.br/semana-santa-tempo-de-recolhimento-e-reflexao/

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

'Reconstruir a Casa do Senhor. Uma Igreja sem contraposições' – Segunda Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Isabella Piro



De que unidade devemos dar testemunho? E como oferecer ao mundo uma comunhão crível que não seja, genericamente, fraternidade? Estas foram as principais questões propostas na segunda de três meditações do Advento proferidas pelo Pe. Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia. O frade menor capuchinho propôs-as a Leão XIV e aos seus colaboradores da Cúria Romana na manhã desta sexta-feira, 12 de dezembro, na Sala Paulo VI. O tema escolhido para as três reflexões é: ""Aguardando e apressando a vinda do dia de Deus".


A Torre de Babel e o medo da dispersão

 

Após a primeira meditação de 5 de dezembro, dedicada à "Parusia do Senhor", nesta sexta-feira o Pe. Pasolini articulou sua reflexão em torno de três imagens: a Torre de Babel, o Pentecostes e a reconstrução do Templo de Jerusalém. A primeira imagem — a de uma cidade fortificada e uma torre imponente — é o emblema de uma família humana que, após o dilúvio, busca exorcizar "o medo da dispersão". Mas tal projeto esconde "uma lógica mortal", já que a unidade é buscada "não pela reconciliação das diferenças, mas pela uniformidade".

 

O pensamento único do totalitarismo do Século XX

 

"É o sonho de um mundo onde ninguém é diferente, ninguém corre risco, tudo é previsível", observou o padre Pasolini, tanto que a torre é construída não com pedras irregulares, mas com tijolos idênticos entre eles. O resultado é, sim, a unanimidade, mas uma unanimidade aparente e ilusória, porque "é alcançada ao custo da eliminação das vozes individuais".

A partir daí, o pensamento do pregador volta-se para os tempos modernos e contemporâneos, nomeadamente, para os totalitarismos do século XX que impuseram o "pensamento único", silenciando e perseguindo a dissidência. Mas "cada vez que a unidade é construída suprimindo as diferenças - acrescentou - o resultado não é a comunhão, mas a morte".

 

O consenso rápido das redes sociais e da IA

 

Também hoje, "na era das redes sociais e da inteligência artificial", os riscos da padronização não faltam, antes pelo contrário; surgem em novas formas, em que os algoritmos criam "bolhas de informação" unívocas, esquemas previsíveis que reduzem a complexidade humana em um padrão, plataformas que visam o consenso rápido, penalizando a "dissidência reflexiva".

Trata-se de uma tentação que "não poupa sequer a Igreja", explicou o capuchinho, recordando as muitas vezes ao longo da história em que a unidade da fé foi confundida com uniformidade, em detrimento do "ritmo lento da comunhão que não teme o confronto e não apaga as nuances".


A diferença é a gramática da existência

 

Um mundo construído sobre a utopia de cópias idênticas, continuou o sacerdote, "é a antítese da criação", porque "Deus cria separando, distinguindo, diferenciando" a luz das trevas, as águas da terra, o dia da noite. Nesse sentido, "a diferença é a própria gramática da existência", e rejeitá-la significa inverter "o impulso criador" em busca de uma falsa segurança que é, na verdade, "uma rejeição da liberdade".

 

Deus restaura a dignidade às singularidades

 

A confusão de línguas com que Deus responde à Torre de Babel, portanto, não é uma punição, mas sim "uma cura", enfatizou o pregador da Casa Pontifícia: o Senhor "restitui a dignidade às singularidades", dando novamente à humanidade "o bem mais precioso", ou seja, "a possibilidade de não sermos todos iguais". Porque "não existe comunhão sem diferença".

 

Pentecostes, emblema da comunhão

 

A segunda imagem é a de Pentecostes, o emblema da comunhão apesar da ausência de uniformidade. Os apóstolos falam a sua própria língua, e os ouvintes a compreendem na sua, porque "a diversidade permanece, mas não divide"; as diferenças não são eliminadas para criar unidade, mas transformadas "no tecido de uma comunhão mais ampla".

 

A renovação da Igreja, uma necessidade perene

 

O padre Pasolini ilustrou então a terceira imagem: o Templo de Jerusalém, destruído e reconstruído muitas vezes. Cada reconstrução, explicou ele, "nunca pode ser um caminho linear", porque a compô-la serão "entusiasmos e lágrimas, novos impulsos e arrependimentos profundos". Tudo isso é "um precioso compêndio" para compreender "a perene necessidade" de renovação da Igreja, bem encarnada por São Francisco de Assis.

A Igreja, de fato, é chamada a permitir-se ser continuamente reconstruída para revelar "a beleza do Evangelho", permanecendo fiel a si mesma e, ao mesmo tempo, continuando a "colocar-se a serviço do mundo".

 

Acolher a variedade, não apagá-la

 

Longe de ser "uma necessidade extraordinária", enfatizou o padre Pasolini, a renovação eclesial é "a atitude ordinária" da Igreja fiel ao mandato apostólico e, sobretudo, não é uniformidade, nem "uma obra pacífica". A Igreja que se renova, de fato, é aquela capaz de "acolher a diversidade" e capaz  de "um combate espiritual autêntico", livre dos "atalhos de puro conservadorismo e de inovação acrítica". Porque a comunhão nunca é "um sentimento homogêneo", nem uma recíproca eliminação, mas antes um lugar de "escuta recíproca". Só assim, de fato, "a Igreja pode verdadeiramente voltar a ser o lar de todos".

 

O Concílio Vaticano II e a "Primavera do Espírito"

 

Uma última reflexão do padre Pasolini foi dedicada ao Concílio Vaticano II: sessenta anos após, a grande assembleia , frequentemente descrita como a "primavera do Espírito", emerge quer "um declínio das práticas, dos números e das estruturas históricas da vida cristã" quanto um novo fermento do Espírito, evidenciado pela "centralidade da Palavra de Deus", por um laicato "mais livre e mais missionário", por "um caminho sinodal" que se tornou uma "forma necessária" e por um cristianismo que "floresce em muitas regiões do mundo".

 

Retornar ao coração do Evangelho

 

O declínio, explicou o pregador, torna-se decadência se a Igreja perde a "consciência da própria natureza sacramental e se percebe como uma organização social", reduzindo a fé à ética, a liturgia à performance e a vida cristã a moralismo.

Em vez disso, para além de posições ideológicas, como o tradicionalismo e o progressivo, o declínio pode se tornar "um tempo de graça" no momento em que a Igreja retorna "ao coração do Evangelho", distanciando-se de "estratégias" humanas, de "contraposições que dividem e tornam estéril cada diálogo", bem como de "soluções imediatas e fáceis".

 

A Igreja, dom a ser protegido e serviço

 

Em última análise, concluiu o padre Pasolini, a Igreja não é algo a ser edificado segundo critérios humanos, mas é "um dom a ser recebido, protegido e servido" com gestos humildes, dia após dia, cada um com um fragmento de fidelidade e caridade. O pregador da Casa Pontifícia concluiu então sua reflexão com uma oração ao Senhor para que "o povo dos fiéis possa sempre progredir na construção da Jerusalém celeste".’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/segunda-pregacao-advento

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Sodoma e Gomorra de fato existiram?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Uma das narrativas bíblicas do Antigo Testamento que, com certeza, mais chama a atenção dos leitores é o diálogo de Abraão com Deus, quando o patriarca da nação invoca sua clemência para com duas cidades. Na passagem o Senhor anuncia a destruição de Sodoma e Gomorra. O motivo apresentado seria o elevado nível de promiscuidade e corrupção do povo. Assim está escrito :

‘Disse mais o Senhor : Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito’ (Livro do Gênesis, capítulo 18, versículo 20).

Abraão intercedeu pelo povo diversas vezes, perguntando ao Senhor que se houvesse homens justos no meio dos ímpios, ele pouparia a cidade :

‘Disse mais : Ora, não se irrite o Senhor, que ainda só mais esta vez falo : Se porventura se acharem ali dez justos? E Deus disse : Não a destruirei por amor dos dez’ (Livro do Gênesis, capítulo 18, versículo 32).

As Sagradas Escrituras contam que o Senhor poupou a família de Abraão enviando dois anjos à casa de Ló, seu sobrinho, que habitava a região a ser destruída. Eles o orientam a deixar a cidade, junto com sua família. Os anjos orientam ainda que ao sair da cidade não olhassem para trás, para não virarem estátua de sal. E por não haver ali sequer dez homens justos, a cidade foi destruída. A mulher de Ló, entretanto, ao se virar para traz imediatamente foi transformada numa estátua de sal. Assim está escrito no Livro de Gênesis

 ‘Então o Senhor fez chover enxofre e fogo desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra’ (Livro do Gênesis, capítulo 19, versículo 24).

Localização das cidades de Sodoma e Gomorra

Pouco se sabe de concreto sobre as cidades de Sodoma e Gomorra. Elas estavam situadas próximas ao mar Morto. A primeira referência bíblica a seu respeito está no livro do Gênesis (Gn 10,19). São as duas mais conhecidas, porém, na verdade, havia outras três cidades ao longo do Rio Jordão. Essas cinco cidades eram conhecidas como as Cidades da Planície.

Nas passagens que nos referenciam a destruição das cidades é motivada pela promiscuidade de seus moradores. Porém, outra versão indica que as cidades tenham sido destruídas porque seus habitantes eram cruéis e pouco hospitaleiros com os estranhos. A falta de hospitalidade comum naquela época era muito criticada por ser uma atitude contrária à fraternidade como está no evangelho de Mateus (Mt 10, 14-15) que diz :

‘E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.’

Outras informações históricas mostram que essas Cidades da Planície tiveram um passado difícil por serem cobiçadas. Bem antes do evento apocalíptico acontecer, Sodoma e Gomorra foram realmente devastadas pela guerra. Quedorlaomer, Rei de Elon, atacou as cidades, massacrou seus moradores e roubou todas as suas riquezas e alimentos.

Quem sabe por isso mesmo, seus habitantes tenham justificado o não seguimento da vontade de Deus, ao se tornarem rudes e hedonistas. Mas, no final, eles pagaram por isso da pior maneira possível.

O pecado de Sodoma e Gomorra

A Bíblia não deixa muito claro a razão da destruição de Sodoma e Gomorra, mas o profeta Ezequiel (EZ 16,49) já apresenta as cidades como expressão de pecado ao dizer :

‘Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã : Soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado.’

O Profeta Jeremias (Jr 23,14), por sua vez, acrescenta um detalhe a mais nesta questão :

‘Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda : cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.’

Uma leitura mais simples mostra estas cidades completamente sem lei, devido a sua riquezas e vida fácil proporcionadas pela fertilidade das planícies próximas ao Rio Jordão. Um homem, porém, foi digno de escapar da destruição se transformando em sinal de retidão daqueles que andam à luz do Senhor.

A segunda carta de Pedro (Pd 2, 6-9) enfatiza como Ló foi salvo por Deus, por ser ele um homem piedoso e justo. Ló e suas filhas conseguiram escapar sãos e salvos. A esposa de Ló, no entanto, não conseguiu porque ela desobedeceu a Deus e olhou para trás. Por isso ela foi transformada numa estátua de sal.  Na bíblia, o olhar para traz tem a interpretação de quem não conseguiu se desvencilhar das riquezas e da vida fácil.

Os antigos romanos tinham também sua versão da história. O escritor romano Ovídio escreveu uma fábula que mistura elementos da mitologia grega e romana, na história de Baucis e Filémon. Nessa história, os deuses Zeus e Hermes (ou Júpiter e Mercúrio, respectivamente na mitologia romana) viajaram para uma cidade disfarçados de homens, para tristemente descobrir que seus habitantes não eram hospitaleiros a não ser Filémon e sua esposa, Baucis, que os recebem e lhes dão comida. Os deuses então se revelam, avisando o casal para fugir, pois eles destruiriam a cidade.

Existe também uma versão da história no islamismo. A Sura Hude 11, 81 do livro do Alcorão tem uma versão ainda pior. Lá está escrito :

‘Então viaje com sua família no escuro da noite, e não deixe nenhum de vocês olhar para trás, exceto sua esposa. Ela certamente sofrerá o destino dos outros.’

Razões da destruição das cidades

Não existe uma clareza nos motivos que levaram à destruição das cidades impenitentes, mas em 2005, arqueólogos descobriram uma área na Jordânia conhecida como Telel Hamã. As ruinas e os objetos ali encontrados indicam possivelmente a localização das Cidades da Planície, com evidências de que o lugar foi devastado pelo fogo. Objetos de cerâmica que lá foram desenterrados mostram que a cerâmica se transformou em vidro depois de ser exposta a temperaturas extremamente altas.

A falta de água, as altas temperaturas do deserto e a terra que se tornou imprópria para a produção agrícola podem explicar as razões dos habitantes abandonarem as cidades. Mas nas Sagradas Escrituras, mais importante do que o fato em si, está a simbolização das cidades de Sodoma e Gomorra como lugares de pecado que são abomináveis para Deus, que sempre oferece, porém, a sua misericórdia e a possibilidade de conversão.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-06/curiosidades-biblia-sodoma-gomorra-existiram.html

sábado, 11 de outubro de 2025

Nossa Senhora Aparecida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Jaime Vieira Rocha


‘Neste mês de outubro celebramos Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Há mais de 300 anos a pequenina imagem, encontrada no Rio Paraíba, é sinal de que ‘Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe’. Mas, ‘em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. Uma lição sobre a humildade que pertence a Deus como traço essencial e que está no DNA de Deus. Há algo de perene para aprender sobre Deus e sobre a Igreja, em Aparecida; um ensinamento, que nem a Igreja no Brasil nem o próprio Brasil devem esquecer’ (PAPA FRANCISCO. Discurso no encontro com o Episcopado brasileiro. Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013). 

Essas palavras de Papa Francisco expressam o sentido de uma relação de devoção que vai além de religiosidade. Ela manifesta o sentido de nossa própria vocação como discípulos missionários de Jesus Cristo. Nosso modo de ser e de agir é iluminado por essa manifestação de Deus, inspirada em toda manifestação divina na história da humanidade. Sim, Deus vem ao encontro dos homens e das mulheres, reúne e conduz com seu Espírito Santo, formando os corações na vivência das virtudes, especialmente na humildade, como seu Filho ensinou e se colocou como modelo : ‘aprendei de mim porque sou manso e humildade de coração’ (Mt 11,29). A devoção à Nossa Senhora Aparecida é um patrimônio da religiosidade popular, está enraizado em nosso povo. Ao olhar para a pequenina imagem de nossa Padroeira, somos chamados a nos deixar envolver pela ternura divina pois, o encontro da imagem de nossa Mãe do Céu é para nós um impulso à missão, alicerçada no discipulado do seu Filho, manso e humilde de coração. 

A devoção à Nossa Senhora Aparecida leva-nos a contemplar a beleza e o significado do Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, lugar de peregrinação dos fiéis católicos, lá, encontramos a casa da Mãe de cada brasileiro. Todos os anos milhares de peregrinos acodem ao Santuário para honrar aquela que viveu o discipulado missionário como humildade e confiança na ação amorosa de nosso Deus. De lá, vem para todos nós o grande apelo da Igreja : todos os discípulos missionários reunidos sob o manto da Mãe do Céu morena, para juntos caminharmos anunciando a boa nova de Jesus Cristo.   

Que a nossa devoção à Nossa Senhora Aparecida nos lembre que a Mãe de Jesus é exemplo de mulher que se põe a caminho, que tem uma fé profética e que esteve sempre cheia de compaixão. São virtudes presentes na Virgem de Nazaré que nós, como seguidores de seu Filho somos chamados a experimentar e vivenciar. Que aprendamos a seguir Jesus do mesmo modo. Lembremo-nos : somos uma Igreja disposta a caminhar juntos, anunciando a obra de Deus e sua presença constante na vida dos homens e das mulheres, e parte da obra de Deus se realiza em nossa vida de discípulos missionários quando damos testemunho de compaixão. A sinodalidade que somos chamados a deixar que dê o toque em nossas atividades e em nossa compreensão das realidades de nossa Igreja, deve sempre fazer de nós testemunhas do evangelho da graça e da ternura divinas, destinadas a envolver todos os homens e mulheres. Que o exemplo da Padroeira do Brasil, Mãe Aparecida, seja seguido por todos!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.cnbb.org.br/nossa-senhora-aparecida-2/

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Qual a minha vocação?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Frei Ricardo da Cruz, ofmConv

 

'Essa é uma pergunta fundamental na vida de todo cristão. Por que devemos nos questionar sobre nossas vocações? É importante que nos questionemos sobre elas porque Deus tem um chamado único e pessoal para cada um de nós e descobrir esse chamado é essencial para vivermos com plenitude, liberdade e sentido. O chamado que Deus faz a cada um de nós é de amor, que requer uma resposta de amor. Quando falamos de vocação, não falamos apenas da religiosa e sacerdotal, mas de todas as vocações específicas, como o Matrimônio, a vida laical e missionária. 

Corresponder à vocação a que Deus nos chama é viver com radicalidade o Batismo. Todo ser humano é chamado à vida e à santidade, essas são vocações comuns a todos. A vida é um grande dom do amor de Deus; como dom dado gratuitamente, ele também deve ser ofertado dessa maneira. O segredo da realização de toda vocação está na doação de si. No Matrimônio, o casal doa-se um ao outro como Deus se doou à Igreja (cf. Ef 5,25). A vocação laical se realiza na doação de si ao outro em todos os ambientes em que está inserida, é ser sinal e transparência do Evangelho nos diversos ambientes em que transita. A vocação religiosa se realiza na consagração de si a Deus para o serviço e o bem do outro. A vocação sacerdotal é a doação de si àqueles que Jesus redimiu com seu sangue na cruz. Apesar de existir vocações diferentes, há um único objetivo : alcançar as bem-aventuranças, isto é, chegar à santidade. 

Deus nos chama em nossa integralidade, ou seja, do jeito que somos, com nossas luzes e sombras, vícios e virtudes. A dificuldade de correspondermos à vocação a que somos chamados, muitas vezes, gira em torno do pensamento de que não somos capazes ou, até mesmo, dignos da vocação a qual Deus nos chama, porém, a vocação é uma iniciativa de Deus e não um projeto pessoal. Ela deve ser assumida como graça e, por isso, não depende de nossas próprias forças, é dom gratuito de Deus, é Ele que nos sustenta. Vocação é a conformidade entre duas vontades, a de Deus e a nossa. É dom e decisão, dom de Deus e decisão nossa. 

Para alcançarmos a verdadeira felicidade e a liberdade de nossas vidas – que é ser aquilo que Deus nos chama a ser – é preciso saber qual a vocação de cada um. Uma vocação não discernida ou mal discernida pode gerar uma vida frustrada. O discernimento vocacional é importante para entendermos que a vocação não é um projeto pessoal, mas de Deus para nós.

Para responder à pergunta vocacional, faz-se necessária antes de tudo a intimidade com Deus. É no silêncio da oração que Ele nos responderá. Depois, é imprescindível o contato com a Palavra de Deus. Na oração falamos com Ele e na Palavra Ele fala conosco. Deus nos dá sinais nas pequenas coisas do dia a dia, a vocação vai se revelando no ordinário e não no extraordinário. Descobrir e corresponder à vocação a qual Deus nos chama é o segredo para uma vida feliz, livre e plena de sentido.'

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/qual-a-minha-vocacao.html