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sexta-feira, 29 de maio de 2026

A necessidade de sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Pinci


‘Nos últimos anos, o mundo parece ter voltado a colocar questões que pensávamos estarem enterradas sob a modernidade e a secularização : o que significa viver com sentido? Qual é a nossa relação com o divino? Guerras, pobreza, migrações, crises ecológicas e económicas abalaram as nossas certezas, colocando em primeiro plano a fragilidade e a vulnerabilidade do ser humano. E, nesta tensão, muitas mulheres estão a assumir um diálogo antigo e novo ao mesmo tempo : o regresso ao sagrado, ou pelo menos a uma forma de espiritualidade que não se limite à ausência de fé, mas que se torne uma experiência concreta, vivida, prática.

Não é por acaso que, como observa Emilia Palladino, professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é precisamente o medo – uma emoção originária, necessária à sobrevivência – que reabre o espaço da espiritualidade. Num mundo marcado pelo mistério e pela incerteza, a busca de um ‘além’ torna-se uma forma de atravessar esse medo sem sermos por ele dominados. A espiritualidade, escreve ela, não o cancela, mas orienta-o, transforma-o numa alavanca para continuar a viver e a procurar sentido.

Os testemunhos reunidos neste número mostram uma pluralidade de perspectivas. Cécile, ajoelhada diante da Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa em Paris, tem nas mãos um caderno com os nomes de entes queridos desaparecidos na guerra no Sudão. O seu corpo estremece como num soluço abafado, mas a oração torna-se um gesto de resistência, memória e esperança. Nesta cena, tão concreta e poderosa, o sagrado não é abstrato : é cuidado, atenção, presença. E é guardado por mulheres, pelas religiosas que gerem a capela, mas também por quem reza sozinho, em silêncio.

A professora Valérie Aubourg, que dirige a nova Faculdade Eclesiástica de Ciências Sociais da Universidade Católica de Lyon, ajuda-nos a interpretar este fenómeno com um olhar mais amplo. Após o Concílio Vaticano II, muitas práticas visíveis – peregrinações, gestos de devoção – foram postas de lado como formas antiquadas. Hoje, também graças à chegada dos migrantes católicos, estas práticas ressurgem, mas sob novas formas : muitas vezes individualizadas, interiorizadas, mas capazes de devolver sentido à comunidade e ao rito. Peregrinações, estátuas, cerimônias religiosas : não são um regresso nostálgico, mas uma reinvenção do sagrado, onde as mulheres são frequentemente protagonistas na transmissão de gestos e significados.

Também na sociedade laica, o debate está vivo. Flavia Trupia, crente que se dedica à comunicação e à retórica, observa que a religião católica continua a ser uma lição de amor e respeito impossível de substituir. No entanto, muitas mulheres como ela mantêm-se distantes das instituições, atraídas pela espiritualidade, mas não pelos rituais hierárquicos. Então a questão é : se há espaço para falar de Deus, será este o momento das mulheres? Será a sua voz que hoje pode redefinir o sagrado, tornando-o acessível, inclusivo e capaz de responder aos dilemas concretos do nosso tempo?

É uma questão que atravessa também a Igreja a partir de dentro. A jovem teóloga Paola Franchina diz isso com palavras claras : «Sou católica, mas não quero ser um eco». A sua reflexão realça um ponto crucial : a presença das mulheres é ampla, mas o seu acesso aos lugares de decisão permanece limitado. Não é apenas uma questão de visibilidade, mas de poder, de reconhecimento real da capacidade de influenciar. Permanecer na Igreja, para muitas, não é uma adesão passiva, mas uma escolha consciente, muitas vezes árdua : uma forma de pertença acompanhada pelo desejo de transformação. Uma voz que não se limita a ressoar, mas que pede para ser ouvida.

Não é por acaso que a cultura contemporânea explora tensões semelhantes. No cinema, o realizador vencedor de um Óscar, Paolo Sorrentino, coloca uma questão essencial : de quem são os nossos dias? É a interrogação que atravessa o seu último filme, La grazia, onde a ‘graça’ não é apenas um conceito jurídico, mas uma dimensão interior, capaz de salvar sem ter de explicar. É uma pergunta que ressoa profundamente no nosso tempo, intercetando uma busca generalizada de sentido, suspensa entre fé, dúvida e desejo.

Esta mesma tensão é também visível em algumas experiências artísticas atuais, onde o sagrado se mistura com a vida pessoal e a busca interior. Na obra da cantora espanhola Rosalía, por exemplo, a espiritualidade sobressai através de diversas referências, que vão desde as santas cristãs até figuras como Simone Weil. São presenças que se tornam pontos de referência interiores. A oração, aprendida em criança ao lado da avó, regressa como um gesto simples e diário. Ao mesmo tempo, a música torna-se um espaço onde o divino é procurado, evocado e, por vezes, até questionado. Não se trata de uma fé ostentada ou rígida, mas de algo autêntico, que passa pelo corpo, pela voz e pela memória.

Neste sentido, a sua busca dialoga profundamente com a de tantas mulheres : uma espiritualidade que não se limita a guardar o passado, mas que o reelabora, o põe em movimento. As peregrinações já não coincidem necessariamente com os percursos tradicionais rumo a destinos sagrados codificados, mas assumem novas formas, muitas vezes pessoais e informais : caminhos sem destinos pré-estabelecidos, viagens lentas pela natureza, experiências de silêncio ou de busca interior que cada um constrói de acordo com a própria necessidade de sentido. Nestes percursos, tal como nos gestos quotidianos de cuidado — dedicar tempo a si próprio, aos outros, ao que nos rodeia — o sagrado não se apresenta como algo separado ou já definido, mas como uma experiência encarnada, que ganha forma na vida concreta. É um sagrado nunca definitivo, que não se deixa fixar de uma vez por todas, mas permanece sempre em devir, aberto, em contínua transformação.

Este número de Mulheres Igreja Mundo não pretende sintetizar todas as vozes. As entrevistas, reportagens e relatos de viagem aqui reunidos mostram uma pluralidade de abordagens : quem se aproxima de uma espiritualidade pessoal, quem redescobre práticas antigas com novos olhos, quem dialoga com a religião através da cultura e da filosofia. Em todas elas, porém, percebe-se um elemento comum : a necessidade de sentido, de comunidade e de beleza. E são as mulheres que encarnam, hoje, muitas dessas práticas, tanto dentro das instituições como fora delas, com uma liberdade de escolha que torna a sua espiritualidade original e poderosa.

Talvez os nossos dias pertençam realmente àqueles que sabem ouvir, rezar, guardar a memória e a esperança. O sagrado é gesto concreto, cuidado, atenção ao outro e graça de ânimo. E talvez, nesta época de questões globais e tensões íntimas, as mulheres sejam a voz que fala ao presente, reinventando o diálogo entre o céu e a terra, entre a fé e a vida.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/a-necessidade-de-sentido.html

 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Como encontrar o sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf


‘Compete a cada um de nós tomar consciência da contribuição única e insubstituível, dentro deste desacertado conjunto de incertezas com que deparamos, a fazer a descoberta pessoal do sentido da vida e, quem sabe, contribuir na descoberta de um sentido comum que possa ser o fundamento da paz na sociedade.

Uma das coisas mais importantes que podemos fazer na descoberta do sentido de nossas vidas é nos lembrarmos desta orientação : ‘Tudo que podemos fazer é estudar a vida das pessoas que parecem haver encontrado suas respostas às questões em torno das quais gira em última análise a vida humana e compará-la com a vida daquelas que não as encontraram’ (Charlotte Bühler).

Há meios importantes pelos quais se pode chegar ao sentido da vida. Um deles consiste em dedicar-se a um trabalho ou a fazer uma ação que serve como meio para expressar nossas capacidades de nos dedicarmos a algo e servirmos; outro é encontrar alguém a quem se dedicar. Em outras palavras, o sentido pode ser encontrado no trabalho, mas também no amor. O mais importante é que mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando o destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além dela e, assim, mudar-se. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo (cf. Viktor E. Frankl, Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, pp. 156-157, Editora Sulina).

Será possível dar às pessoas existencialmente frustradas um sentido para suas vidas? Não, não será possível. Nem o médico, nem o psicólogo, nem o religioso podem dar o sentido à vida de alguém porque não são oniscientes, não conhecem totalmente a vida humana e não são onipotentes, não podem fazer tudo, principalmente porque não é possível dar sentido à vida, somente encontrá-lo.

O sentido da vida não pode ser dado, mas, encontrado, descoberto. Tem que ser encontrado pela própria pessoa – não dentro de si, mas além dela, pois é dotada da capacidade de autotranscendência. Encontrar o sentido está em estreita relação com a percepção da realidade. Cada situação com que deparamos constitui um desafio e a possibilidade de escolher concreta e objetivamente o que fazer numa situação possibilita descobrir seu sentido. É por isso que só se pode encontrar o sentido, porque ele é objetivo, não podemos atribuí-lo a nosso bel-prazer.

Não se trata de pôr, de colocar um sentido nas coisas, mas de extraí-lo delas, de perceber o sentido de cada uma das situações com que nos defrontamos. O sentido está na possibilidade e na necessidade que cada situação concreta da vida nos possibilita, é aquilo que é preciso nesses momentos e essa possibilidade de sentido é sempre, como a própria situação, única e irrepetível. Uma vez feita a escolha, deixamos de lado outras possibilidades que nunca mais se repetirão.

O sentido de uma situação, se o encontrarmos e colocarmos em prática, torna-se real de uma vez para sempre. Aquela possibilidade de sentido que se nos apresentava naquele momento e naquele lugar, aqui e agora, torna-se eterna e salva no passado. O ser passado, isto é, algo realizado, é também uma forma de ser, talvez a mais segura. Tudo aquilo que realizamos e criamos fica guardado, conservado no interior do passado, e nem o tempo pode apagar.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/como-encontrar-sentido.html