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sexta-feira, 12 de junho de 2026

A vida humana na era da inteligência artificial

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou.’ (Gn 1,27)

‘O essencial é invisível aos olhos.’ (Antoine de Saint-Exupéry)


‘Há uma cena que, de tão comum, talvez já nem nos espante. Uma pessoa sentada diante da tela do celular, procurando uma resposta rápida. Pergunta o melhor caminho que a livre dos engarrafamentos, organiza a agenda, escolhe uma música, escreve uma mensagem rápida de aniversário para alguém, edita uma imagem para atender melhor às expectativas do seu público, pede uma opinião, compara preços. Em poucos segundos, uma pequena máquina parece saber muito sobre seus gostos, seus horários, suas palavras mais usadas, suas preferências, seus medos e até seus projetos.

A tecnologia entrou em nossa casa sem bater à porta. Sentou-se à mesa e tomou o espaço do diálogo em nossas refeições, ocupou o bolso, atravessou a escola, o trabalho, a oração, a política, a economia, as relações. Está no relógio que mede nossos passos, no aplicativo que sugere o que devemos comprar, no algoritmo que decide o que veremos primeiro, na voz artificial que nos responde com paciência. E, diante de tudo isso, talvez a grande pergunta não seja apenas o que a inteligência artificial pode fazer por nós, mas o que ela pode fazer conosco.

A publicação da encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, chega até nós como um convite para pensarmos sobre o papel da IA e o lugar do ser humano. Não como medo do futuro ou de um presente que nos desafia e desinstala. Não como rejeição do progresso. Mas como discernimento. A Igreja, quando olha para os sinais dos tempos, deve fazê-lo com a sabedoria do Evangelho, perguntando sempre pela vida, pela dignidade, pela justiça, pela verdade e pelo cuidado.

A inteligência artificial pode ajudar. Seria injusto negar isso. Ela pode facilitar pesquisas, aproximar saberes, auxiliar diagnósticos, ampliar formas de comunicação, favorecer processos educativos, organizar trabalhos, tornar acessíveis conteúdos antes distantes. Há nela uma potência real, e toda potência humana precisa ser acolhida com responsabilidade. O problema começa quando a ferramenta deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar da consciência. Quando a resposta rápida substitui o pensamento. Quando a eficiência toma o lugar do discernimento. Quando a imagem perfeita apaga a verdade do rosto. Quando a máquina aprende cada vez mais sobre nós, enquanto nós começamos a esquecer quem somos.

É precisamente aqui que a fé cristã tem uma palavra a oferecer. O ser humano não é apenas dado, perfil, cálculo, consumo, produtividade ou desempenho. O ser humano é imagem de Deus. Tem rosto, corpo, memória, história, fragilidade, desejo, feridas, esperança, vocação e alma. Nenhum sistema é capaz de medir plenamente a dor de uma mãe diante do filho enfermo, a saudade que aperta o peito de quem perdeu alguém, o silêncio de quem reza, o cansaço de quem trabalha para pôr o pão na mesa, a alegria simples de uma família reunida, o gesto de quem estende a mão sem esperar retorno. A alma não cabe no algoritmo.

Talvez essa seja uma das verdades que mais precisamos recordar. Podemos organizar informações, mas não podemos reduzir a vida ao que pode ser processado. Podemos produzir imagens, mas não podemos fabricar presença. Podemos simular respostas afetuosas, mas não podemos substituir o encontro. Podemos acelerar tarefas, mas não podemos apressar o amadurecimento do coração. Há dimensões da existência que só se compreendem pela convivência, pela escuta, pela paciência e pelo amor.

Jesus de Nazaré não salvou a humanidade por meio de um sistema. Salvou encontrando pessoas. Ele olhou nos olhos da samaritana junto ao poço. Tocou o leproso que todos evitavam. Chamou Zaqueu pelo nome. Chorou diante do túmulo de Lázaro. Sentou-se à mesa com pecadores. Escutou o grito dos cegos à beira do caminho. Deixou que uma mulher marcada pela dor tocasse em suas vestes. Caminhou com discípulos desanimados na estrada de Emaús. Partiu o pão. Lavou os pés. Entregou a vida.

O Evangelho é profundamente humano porque nos ensina que, antes da função, existe uma pessoa. Antes do número, um rosto. Antes da eficiência, uma vida. Antes da resposta, uma escuta. Antes da produtividade, uma dignidade que não pode ser negociada. O Cristo não nos tratou como peças de uma engrenagem religiosa. Tratou-nos como filhos e filhas amados pelo Pai.

Por isso, a discussão sobre a inteligência artificial não pode ser apenas técnica. Ela é espiritual, ética e profundamente humana. Que mundo estamos construindo quando deixamos algoritmos decidirem o que vemos, o que desejamos, o que consumimos, quem encontramos e até de quem desconfiamos? Que tipo de coração vai sendo formado quando as relações se tornam respostas automáticas e a verdade passa a ser manipulada por imagens, vozes e textos que parecem reais, mas podem nascer da mentira? Que humanidade permanece quando trabalhadores são descartados em nome da eficiência e quando os pobres, os idosos, os migrantes e os vulneráveis se tornam ainda mais invisíveis diante de sistemas que não conhecem compaixão?

Uma sociedade que já descartava pessoas antes das máquinas corre o risco de usar as máquinas para descartar com mais velocidade. Esse é o perigo. Não a tecnologia em si, mas o coração humano quando se acostuma a usar tudo sem perguntar a quem serve. A pergunta cristã precisa ser outra : essa inteligência está a serviço da vida? Está a serviço dos pobres? Está a serviço da verdade? Está a serviço do cuidado? Ajuda-nos a sermos mais humanos ou apenas mais rápidos?

Talvez o grande desafio deste tempo seja aprender a usar a inteligência das máquinas sem perder a sabedoria do coração. Precisamos de tecnologia, sim, mas precisamos ainda mais de consciência. Precisamos de inovação, mas também de ternura. Precisamos de ciência, mas também de ética. Precisamos de ferramentas, mas não podemos abrir mão da responsabilidade. O mundo não será salvo por respostas mais velozes, se perdermos a capacidade de olhar nos olhos. Não haverá futuro verdadeiramente humano se a mesa estiver vazia, se o trabalhador for esquecido, se a verdade for adulterada e se a dignidade dos pequenos continuar sendo tratada como detalhe.

A fé cristã nos recorda que Deus não criou um dado. Criou uma pessoa. Não soprou vida em uma estatística. Soprou vida em um ser capaz de amar. E esse sopro divino permanece em cada ser humano, mesmo quando o mundo tenta reduzi-lo a função, mercado ou imagem. Reconhecer isso é uma forma de resistência. Cuidar do humano, neste tempo de tantas inteligências artificiais, talvez seja uma das expressões mais urgentes da nossa fé.

Que saibamos, então, atravessar este tempo com lucidez e esperança. Que a tecnologia esteja em nossas mãos, mas não governe o nosso coração. Que ela nos ajude a servir melhor, educar melhor, cuidar melhor, comunicar melhor. Mas que nunca nos roube o silêncio, a oração, a memória, a compaixão, a verdade e a capacidade de reconhecer no outro a imagem viva de Deus.

Oração

Senhor, dá-nos sabedoria para viver este tempo novo sem nos perdermos de nós mesmos e dos nossos irmãos e irmãs. Ensina-nos a usar com responsabilidade aquilo que a inteligência humana criou, sem esquecer que toda inteligência deve servir ao amor. Que as máquinas nos ajudem, mas não nos substituam no cuidado. Que os algoritmos organizem caminhos, mas não apaguem o rosto dos irmãos. Que a técnica avance, mas que a ternura caminhe conosco. E que, em cada escolha, saibamos recordar que fomos criados à tua imagem e chamados a fazer da vida um gesto de encontro, serviço e esperança. Amém.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-vida-humana-na-era-da-inteligencia-artificial.html

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Eucaristia, fonte de vida e salvação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Flavio Jose Lima da Silva


‘A Eucaristia é fonte de vida, é alimento espiritual que nos dá força e vitalidade, alimento que nos santifica. Nela, Cristo se torna esse alimento essencial para a nossa existência; é a ceia sacramental na qual Ele atualiza sua presença e sua entrega à comunidade cristã.

A Igreja nos ensina que a Eucaristia nasceu da vontade e do mandato do próprio Cristo. Nela, celebramos o encontro entre Deus e o ser humano em Cristo, na nova aliança selada na cruz. Portanto, o cristão deve fazer de tudo para estar sempre em comunhão com esse alimento que sustenta e conduz gradativamente à salvação.

O Catecismo da Igreja apresenta, antes de tudo, a Eucaristia como ‘sacrifício de louvor’ ao Pai, pela obra da criação e da redenção, e também como memorial sacrifical de Cristo e de seu corpo, a Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1356-1372). Na celebração da Missa não se realiza um novo sacrifício, nem se repete o de Cristo, mas atualiza-se sacramentalmente sempre o mesmo e definitivo sacrifício da cruz.

A chave para a compreensão do sacrifício eucarístico é o memorial. A Missa é o memorial sacramental do sacrifício único e irrepetível da cruz. Esse sacrifício cristão se cumpriu de uma vez por todas na entrega pessoal de Cristo, que superou e aboliu os sacrifícios de coisas e animais apresentados no Antigo Testamento.

Sendo assim, compreende-se que a Eucaristia é sacrifício, pois constitui a presença de Cristo crucificado, glorioso e intercessor, que apresenta diante do Pai, por nós, o seu sacrifício único para a nossa salvação. Esse oferecimento eucarístico do sacrifício de Cristo é, ao mesmo tempo, ato de fé, obediência e conformidade vital, que gera salvação.

Por fim, ao tomarmos consciência de que a Eucaristia é fonte de vida e salvação, alimento que nos sustenta em nossa caminhada de fé, devemos, como cristãos católicos, buscar constantemente esse alimento salvífico. Sem ele, nossa vida espiritual torna-se deficiente, sem sentido e sem rumo, pois Jesus Cristo se entregou gratuitamente como sacrifício, como alimento que sacia toda a nossa fome. A Eucaristia nos completa, purifica e santifica todo o nosso ser.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/eucaristia-fonte-de-vida-e-salvacao.html

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A vida não pode ser quebrada!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Luiz Antônio de Araújo Guimarães  

 

‘O quinto mandamento da Lei de Deus é uma máxima em favor da vida : ‘Não matar!’. No entanto, preservar a vida do outro não se resume a não matá-lo com armas, mas também a respeitá-lo em sua integridade como ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

A vida deve ser compreendida em sua amplitude. É como observar um quadro formado por peças de um quebra-cabeça : cada peça, quando colocada em seu devido lugar e unida às demais, revela a beleza do todo. Se uma dessas peças for retirada, seja grande ou pequena, compromete a imagem completa. Esse exemplo nos ajuda a entender que todo ser humano tem seu valor, sua beleza real – a de ser filho de Deus –, e isso precisa ser preservado.

Essa é a visão que todos deveriam ter uns dos outros, a fim de não destruir a vida de quem quer que seja. E, aqui, ‘destruir’ é como ‘quebrar’, ou seja, retirar uma peça do belo quadro da vida, deixando uma lacuna, ferindo o conjunto. Não se mata ou destrói alguém apenas com armas de fogo ou armas brancas, mas também com fofocas, atitudes de má-fé, escândalos, enfim, comportamentos que ferem a dignidade do outro enquanto pessoa.

Por esse motivo, a Igreja, de modo profético, fala em defesa da integridade física e espiritual. O YouCat (Catecismo Jovem da Igreja Católica), no parágrafo 386, ensina : ‘O mandamento ‘Não matarás’ presente em Êxodo 20, refere-se tanto à integridade física quanto à espiritual. Qualquer utilização da violência é um grave pecado’.

Catecismo da Igreja Católica também deixa claro que o escândalo é um pecado grave contra a integridade : ‘O escândalo é a atitude ou comportamento que leva outrem a fazer o mal. O escandaloso transforma-se em tentador do seu próximo; atenta contra a virtude e a retidão, podendo arrastar o irmão para a morte espiritual. O escândalo constitui uma falta grave se, por ação ou omissão, levar deliberadamente outra pessoa a cometer uma falta grave’ (2284).

O escândalo atinge tanto a vítima quanto o causador. Quem faz o mal, receberá o mal de volta. Fazer mal ao outro é, de certa forma, fazer mal a si. Ninguém fica imune! Entretanto, se sua vida é voltada para abençoar, incentivar e elevar os outros, o retorno será sempre favorável. Mãos que fazem o bem não têm a mesma disposição para praticar o mal.

Sendo assim, não antecipe a morte física de ninguém, nem contribua para sua morte espiritual. Para refletir sobre isso, responda no íntimo do seu coração :

  • Minhas atitudes são boas ou más?
  • Tenho sido causa de elevação ou de rebaixamento das pessoas?
  • O que alimento nos meus ouvidos e deixo sair da minha boca é algo que faz bem ao próximo?

Essa reflexão é mais que necessária, pois nada acontece por acaso. O que sai de você revela o que está em seu coração e em sua mente. Muitas vezes, quem agride foi anteriormente agredido, quem faz o mal foi amaldiçoado pelos outros, por isso, o olhar para dentro de si é essencial. Como já dizia Mestre Eckhart, grande místico frade dominicano : ‘Se gostares de ti próprio, gostarás de todas as pessoas como de ti mesmo. Se gostas menos de alguma pessoa do que de ti mesmo, é porque nunca conseguiste gostar de ti verdadeiramente’.

Esse é o verdadeiro termômetro para não violar as vidas dos outros, ou seja, ame-se e amará; perdoe-se e perdoará; viva a felicidade e será causa de felicidade!

Pare e reflita no mais íntimo do seu ser : a vida é um dom precioso – não só a sua, mas a de todos. Se quer viver bem, mantenha o outro vivo em seu coração e em suas atitudes, assim, não violará a obra do Criador, que fez a todos à sua imagem e semelhança. Quem vive segundo essa dinâmica descobre a verdadeira felicidade : preservando a vida, vive-se a plenitude dela.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-vida-nao-pode-ser-quebrada.html

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Morte e vida na Regra de São Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Jean-Pierre Longeat, OSB


‘No livro do Deuteronômio, Moisés fala ao povo de Deus, de modo muito decisivo no momento em que ele mesmo ia morrer, sem ter visto a Terra Prometida :

‘Eu te proponho hoje a vida ou a morte, escolhe a vida e viverás’! (Deut 30,19).

A vida monástica levou a sério este apelo. Desde o começo da Regra São Bento retoma o apelo do Senhor :

‘E procurando o Senhor o seu operário na multidão, ao qual clama, retomando o salmo 33 : ‘Quem quer a vida? Quem deseja dias felizes?’diz ainda : ‘ Se, ouvindo, responderes : ‘Eu’, dir-te-á Deus ‘Se queres a verdadeira vida, a vida com Deus para sempre… Então procura a paz e segue-a’ (Pról. 14-16).

E também no fim do Prólogo :

‘De modo que não nos separando nunca do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob sua doutrina, até a morte, participemos pela paciência, dos sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros do seu Reino’ (Prol. 50)

No cap. 4 sobre os instrumentos das boas obras, São Bento volta ao tema da morte e da vida na existência de um monge : ‘Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo’ (RB 4, 46). Não há nada de mórbido nisso, é simplesmente sublinhar que a vida nesta terra, por mais importante que seja, é uma passagem e que agarrar-se a ela não dá a chave da existência. É, ao mesmo tempo, uma questão de orientação do desejo para a verdadeira vida e de vigilância sobre o cotidiano das palavras e dos atos.

Concretamente isto traduz-se por uma atenção na escuta obediente, para que o amor circule livremente entre nós. Assim no capítulo sobre a humildade, São Bento diz : ‘O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o apóstolo : Fez-se obediente até à morte’ (RB 7, 34). Mais uma vez é questão do mistério pascal. O quarto grau completa o anterior, mostrando como isso exige paciência e perseverança; trata-se de ‘não se entregar, nem ir embora’ até ao fim, para saborear a vida verdadeira.

Isto se vive sobretudo no quadro da liturgia, em que a alternância regular do dia e da noite reatualiza na nossa vida o mistério pascal de Cristo : ao pôr do sol com as Vésperas, em que Cristo morre na cruz, na noite escura das Vigílias com o combate que se passa nos salmos, ao nascer do sol com as Laudes, manhã da ressurreição, e ao longo das Horas Menores seguindo o caminho do sol e a paixão do Filho do Homem.

Isto também interfere igualmente no comportamento para com os doentes. Estes nos lembram a fragilidade da existência e a proximidade da última passagem. São Bento diz para reconhecer neles o Cristo, o Cristo sofredor e moribundo, e, no entanto mesmo nessas circunstâncias, testemunha constante da vida que está em Deus.

Do mesmo modo, São Bento pede que se tenha cuidado com as crianças, os hóspedes, os peregrinos, os pobres; neles reconhece-se o Cristo pobre, confrontado com a fragilidade da existência.

Para mostrar ainda mais esta relação com Cristo no seu mistério da Páscoa, a Regra prevê em diversas circunstâncias o rito do lava-pés. Na acolhida dos hóspedes, e também cada semana, quando os monges entram no serviço do refeitório e da cozinha, mesmo se esse rito não se faz mais hoje. Esta dimensão do serviço manifesta a participação na morte e na ressurreição de Cristo. O rito do lava-pés tem todo o sentido em ligação com a refeição eucarística, como Jesus fez na véspera da sua paixão.

O monge torna-se pobre de qualquer pertença pessoal. No dia de sua profissão, faz doação de tudo o que possui; sobretudo de si mesmo, pois está dito que a ‘partir desse dia nem sobre o próprio corpo tem poder’ (RB 53, 25). É por isso que em certas épocas, a liturgia da profissão simbolizava a morte espiritual do novo candidato, que, prostrado, ficava coberto com um pano preto. Ou então, o professo ficava coberto com um capuz durante três ou oito dias, antes de se descobrir e aparecer como testemunha da ressurreição, segundo o modelo da liturgia do batismo. Lembremos também o ‘encorajamento’ que outrora os monges trapistas faziam quando se encontravam ‘Irmão, caminhemos para a morte’, ou então, aqueles monges que, cada dia, cavavam o seu túmulo para experimentarem a vaidade das coisas que passam. Estes costumes já não se praticam hoje, pois colocou-se o polo da vida e da ressurreição no seu devido lugar. Mas a vida monástica tem que vigiar para manter o equilíbrio das duas dimensões do mistério pascal. Uma nunca vai sem a outra.

No fim da Regra São Bento, resume-se assim a vida dos monges :

‘Nada absolutamente anteponham a Cristo, que nos conduza juntos para a vida eterna’ (RB 72, 11-12).

A morte e a vida só se compreendem bem, na vida monástica, à luz do mistério pascal de Cristo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/118

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Como encontrar o sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf


Compete a cada um de nós tomar consciência da contribuição única e insubstituível, dentro deste desacertado conjunto de incertezas com que deparamos, a fazer a descoberta pessoal do sentido da vida e, quem sabe, contribuir na descoberta de um sentido comum que possa ser o fundamento da paz na sociedade.

Uma das coisas mais importantes que podemos fazer na descoberta do sentido de nossas vidas é nos lembrarmos desta orientação : ‘Tudo que podemos fazer é estudar a vida das pessoas que parecem haver encontrado suas respostas às questões em torno das quais gira em última análise a vida humana e compará-la com a vida daquelas que não as encontraram’ (Charlotte Bühler).

Há meios importantes pelos quais se pode chegar ao sentido da vida. Um deles consiste em dedicar-se a um trabalho ou a fazer uma ação que serve como meio para expressar nossas capacidades de nos dedicarmos a algo e servirmos; outro é encontrar alguém a quem se dedicar. Em outras palavras, o sentido pode ser encontrado no trabalho, mas também no amor. O mais importante é que mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando o destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além dela e, assim, mudar-se. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo (cf. Viktor E. Frankl, Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, pp. 156-157, Editora Sulina).

Será possível dar às pessoas existencialmente frustradas um sentido para suas vidas? Não, não será possível. Nem o médico, nem o psicólogo, nem o religioso podem dar o sentido à vida de alguém porque não são oniscientes, não conhecem totalmente a vida humana e não são onipotentes, não podem fazer tudo, principalmente porque não é possível dar sentido à vida, somente encontrá-lo.

O sentido da vida não pode ser dado, mas, encontrado, descoberto. Tem que ser encontrado pela própria pessoa – não dentro de si, mas além dela, pois é dotada da capacidade de autotranscendência. Encontrar o sentido está em estreita relação com a percepção da realidade. Cada situação com que deparamos constitui um desafio e a possibilidade de escolher concreta e objetivamente o que fazer numa situação possibilita descobrir seu sentido. É por isso que só se pode encontrar o sentido, porque ele é objetivo, não podemos atribuí-lo a nosso bel-prazer.

Não se trata de pôr, de colocar um sentido nas coisas, mas de extraí-lo delas, de perceber o sentido de cada uma das situações com que nos defrontamos. O sentido está na possibilidade e na necessidade que cada situação concreta da vida nos possibilita, é aquilo que é preciso nesses momentos e essa possibilidade de sentido é sempre, como a própria situação, única e irrepetível. Uma vez feita a escolha, deixamos de lado outras possibilidades que nunca mais se repetirão.

O sentido de uma situação, se o encontrarmos e colocarmos em prática, torna-se real de uma vez para sempre. Aquela possibilidade de sentido que se nos apresentava naquele momento e naquele lugar, aqui e agora, torna-se eterna e salva no passado. O ser passado, isto é, algo realizado, é também uma forma de ser, talvez a mais segura. Tudo aquilo que realizamos e criamos fica guardado, conservado no interior do passado, e nem o tempo pode apagar.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/como-encontrar-sentido.html


sábado, 24 de agosto de 2024

Em busca do essencial

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Montanhas Kinabalu, Borneu 


*Artigo do Padre Ricardo Fontana,

Reitor do Santuário Nossa Senhora de Caravaggio


‘O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin enviou a mensagem que o Papa Francisco escreveu expressando seus votos e reflexões por ocasião do 45º Encontro para a Amizade entre os Povos que acontece em Rimini, na Itália, entre os dias 20 e 25 de agosto, com o tema ‘Se não estamos em busca do essencial, então o que estamos procurando?’. O Papa Francisco inicia sua mensagem dizendo que : mesmo quando atravessamos tempos complexos, a busca daquilo que constitui o centro do mistério da vida e da realidade é de importância crucial. Diante do cenário que vivemos atualmente com problemas e desafios, encontramos um sentimento de impotência, levando a tomar atitudes derrotistas e passiva que pode levar a ‘arrastar a vida’ e a deixar-nos dominar pela insensibilidade da felicidade efêmera, a ponto de perder o sentido da existência. Neste cenário, portanto, a escolha de rastrear o que é essencial é mais pertinente do que nunca.

O Papa adverte sobre o perigo de perder a paixão pela vida, uma característica que, segundo Francisco, é muito comum nos dias de hoje, até mesmo entre os jovens; motivando a procurar, com paixão e entusiasmo, aquilo que revela a beleza da vida, respondendo à pergunta colocada por Dom Luigi Giussani quando afirmou com coragem : «O coração é corroído pela esclerose, isto é, pela perda da paixão e do gosto de viver. […] A velhice aos vinte e ainda mais cedo, a velhice aos quinze, esta é a característica do mundo de hoje’ (Il senso religioso, Milão 2013, 116˗117).

À medida que sopram os ventos frios da guerra, somando-se a fenômenos recorrentes de injustiça, violência e desigualdade, bem como à grave emergência climática e a uma mutação antropológica sem precedentes, é essencial parar e perguntar-nos : há algo que vale a pena viver e esperar?  O Papa nos convida a sermos mendigos do essencial, do que dá sentido à nossa vida, despojando do que pesa na vida quotidiana, seguindo o exemplo de um alpinista que, tendo chegado ao início da face rochosa, deve se livrar do supérfluo para poder subir mais rapidamente, recordando que ‘o que é essencial, mais belo, mais atraente e ao mesmo tempo mais necessário para nós é a fé em Cristo Jesus’ (Discurso ao Plenário do Dicastério para a Doutrina da Fé, 26 janeiro de 2024).

O Senhor salva a vulnerabilidade humana no tempo da adversidade, sendo o porto seguro que oferece resiliência, alegria e força ao barco da vida, que ficaria à mercê das ondas e correria o risco de afundar. A fé em Cristo Jesus é a condição para mergulhar verdadeiramente na história, para enfrentá-la sem fugir aos seus desafios, para encontrar a coragem de arriscar e amar mesmo quando parece não vale a pena a dor, viver no mundo sem nenhum medo. Como escreveu o então Arcebispo Montini : «Tu és necessário para nós, ó Cristo, ó Senhor, ó Deus conosco, para aprendermos o verdadeiro amor e caminharmos na alegria e na força da tua caridade, ao longo do caminho da nossa vida cansativa». (Omnia nobis est Christus. Carta pastoral à Arquidiocese de Milão para a Quaresma de 1955).

O Papa motiva a todos assumirem o controle de suas vidas sendo protagonistas do essencial e indispensável processo de mudança, contribuindo para a missão da Igreja de construir espaços onde a presença de Cristo possa ser sentida e experimentada, gerando um mundo novo, onde o amor, manifestado em Cristo, permaneça e transforme o planeta em um Templo de fraternidade, tendo o desejo comum de buscar  e aprofundar a fé em Jesus Cristo através da escuta do anúncio do Evangelho, que é fonte de libertação que faz florescer nos corações a força que cura e transforma a humanidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-08/em-busca-do-essencial.html

sábado, 30 de março de 2024

A Páscoa e o valor da vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Luis Eugênio Sanábio e Souza


Um ilustre teólogo da Igreja primitiva assim pôde dizer : ‘Fiducia christianorum resurrectio mortuorum; illam credentes, sumus’ = ‘A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos’ (Tertuliano, teólogo nascido em 155). Jesus Cristo pôde dizer : ‘Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá eternamente’ (João 11,25-26). Assim, a Igreja Católica ensina que a ressurreição de Cristo (e o próprio Cristo ressuscitado) é princípio e fonte de nossa ressurreição futura. Ressuscitaremos como Cristo, com Cristo e por Cristo.

Mas o que é ressuscitar? ‘Na morte, que é separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, ao passo que sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida a seu corpo glorificado. Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da ressurreição de Jesus’ (Catecismo da Igreja Católica n° 997). Mas quem ressuscitará?  Todos os homens que morreram. A Igreja explica que ‘os que tiverem feito o bem sairão para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento (João 5,29)’ (Catecismo da Igreja Católica n° 998).

Apoiando-se nas afirmações da Sagrada Escritura, a Igreja ensina que, quando tiver terminado o único curso de nossa vida terrestre, não voltaremos mais a outras vidas terrestres. De fato, a Bíblia nos diz que ‘os homens devem morrer uma só vez’ (Hebreus 9,27). Por isso a Igreja sempre declarou que ‘reincarnatio post mortem non habetur’ = ‘não existe reencarnação depois da morte’ (Catecismo da Igreja Católica n° 1013). Segundo a fé católica, cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num juízo particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação (purgatório), seja para entrar de imediato na felicidade do céu (comunhão eterna com Deus), seja para condenar-se de imediato para sempre (inferno).

A verdade da divindade de Jesus Cristo é confirmada por sua ressurreição. Sendo verdadeiro Deus, Jesus Cristo é ‘autor da vida’ (Atos dos Apóstolos 3,15).

Infelizmente nos nossos dias a vida humana é frequentemente e gravemente desrespeitada. Em alguns países, algumas autoridades ousam em propor legalizar um suposto direito de praticar o aborto. Na realidade, ‘a decisão deliberada de privar um ser humano inocente da sua vida é sempre má do ponto de vista moral e nunca pode ser lícita nem como fim, nem como meio para um fim bom’ (Papa João Paulo II: Encíclica Evangelium vitae n° 57). A Igreja, que está do lado da vida, reafirma que ‘o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis’ (Concílio Vaticano II: GS, 51).

Que a mensagem da Páscoa possa conservar em nós aquele desejável amor à vida humana que se fundamenta naquele que é ‘o caminho, a verdade e a vida’ (João 14,6).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-03/pascoa-valor-vida.html

terça-feira, 4 de julho de 2023

Ser monge na cidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Miguel Oliveira Panão 

Uma vida urbana atarefada parece retirar espaço ao desenvolvimento da nossa criatividade espiritual. Por outro lado, as mutações sociais poderiam estimular uma renovação das práticas espirituais que nos levam a ser mais criativos. Porém, a vida espiritual não se alimenta apenas das nossas crenças e das justificações das mesmas, mas de um contínuo crescimento da vida interior. Será viável uma vida monástica capaz de renovar a vida interior em contexto urbano?

Nos contextos da produtividade e reflexão sobre o efeito da tecnologia na experiência de vida que fazemos, têm surgido diversos temas que sempre fizeram parte da vida monástica. Existem sete aspectos onde a vida monástica poderia ajudar-nos a descobrir, gradualmente, o modo de sermos espiritualmente criativos.

Vida Simples. Os monges adotam uma vida de simplicidade e evitam excessos materiais. Nas cidades, a simplicidade traduz-se em práticas de minimalismo, como possuir apenas o necessário e evitar o consumo excessivo.

Meditação. A meditação é uma prática comum na vida monástica que ajuda a promover a paz interior e a clareza mental. Numa viagem de comboio, uma forma de meditar seria ler textos mais profundos e aproveitar as caminhadas pela cidade para pensar.

Serviço. O serviço aos outros caracteriza muitas comunidades monásticas e faz parte da dinâmica comunitária. Nas cidades, o voluntariado cresce com as assimetrias sociais, abrindo oportunidades para as práticas de bondade e generosidade. Um ouvido que escuta pode valer mais do que uma moeda.

Rotinas. A vida monástica é frequentemente estruturada em torno de uma rotina de oração, trabalho e repouso. Uma mudança de atitude mental diante das rotinas até chegar ao trabalho e depois do trabalho implica encarar que a regularidade ajuda a promover a produtividade e o bem-estar.

Silêncio e Solitude. O silêncio e a solitude valorizados em muitas tradições monásticas parecem ser impossíveis de viver num mundo urbanizado e conectado. Porém, apesar do ruído e multidão exterior, nada nos impede de encontrar o momento para o silêncio e solitude no nosso interior. Nem que seja a olhar para o chão do transporte público que nos leva para casa e deixar os pensamentos vaguear pela mente.

Estudo Contínuo. Muitas tradições monásticas valorizam o estudo contínuo, seja de textos religiosos, filosofia ou outros campos de conhecimento. Na sociedade da informação, aprender ao longo da vida é uma possibilidade acessível a todos. Basta crescer na sabedoria de distinguir facto de ficção.

Consciência e Respeito pela Natureza. O fumo dos carros e o ruído de fundo de que somente nos damos conta quando saímos da cidade pode dificultar a tomada de maior consciência da ligação que temos com o mundo natural, de modo a respeitá-lo e contemplá-lo. Procurar coisas novas e naturais pode ser o primeiro passo para descobrir a presença da Natureza onde menos esperamos, criando momentos de aproximação dessa que podem suscitar mais momentos de criatividade espiritual inesperada.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/978/ser-monge-na-cidade/

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Cardeal Hollerich: uma Igreja pobre uma Igreja viva

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Andrea Monda e Roberto Cetera


Jean-Claude Hollerich, 64 anos, cardeal arcebispo de Luxemburgo, é presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia e vice-presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, bem como Relator-geral para o Sínodo sobre a Sinodalidade. Com a abertura da fase continental do Sínodo sobre a Sinodalidade, aceitou de bom grado a oportunidade de conversar com L’Osservatore Romano sobre o andamento da mais difusa consulta da história da Igreja na Europa, e sobre os seus conteúdos. Encontramo-nos com ele na igreja paroquial em Roma da qual é titular, enquanto se entretém como um ‘bom pároco’ com as crianças da primeira comunhão. «A igreja não é este edifício - explica-lhes - igreja significa assembleia. A Igreja sois vós. Porque, como diz o Papa Francisco, sem os jovens não há igreja, pois Deus é jovem».  Depois, caminha na nossa direção e diz : «Estou realmente feliz por ser titular, não de uma das bonitas igrejas do centro histórico, mas desta paróquia de periferia; quando aqui venho redescubro a alegria de ser sacerdote no meio do povo».   

No mês passado, o cardeal Zuppi concedeu-nos uma longa entrevista sobre o Sínodo da Igreja Italiana, na qual, com muita honestidade, não escondeu o facto de a participação ter sido inferior ao esperado, tanto em quantidade como em qualidade. Qual é a sua visão sobre a atuação do Sínodo no panorama europeu? 

Sim, li aquela entrevista com grande interesse. Com igual honestidade, parece-me que as observações de Zuppi podem também se aplicar a outros países europeus, embora com as necessárias distinções entre um país e outro. Vedes, acredito que na Europa de hoje estamos a sofrer de uma patologia, isto é, não conseguimos enxergar claramente qual é a missão da Igreja.  Falamos sempre de estruturas, o que certamente não é um mal, porque as estruturas são importantes e certamente precisam de ser repensadas.  Mas não se fala o suficiente sobre a missão da Igreja. Que é anunciar o Evangelho. Anunciar, e sobretudo testemunhar, a morte e a ressurreição de Jesus o Cristo. Um testemunhar que o cristão deve interpretar principalmente através do seu compromisso no mundo para a salvaguarda da criação, para a justiça, para a paz.  O ensinamento do Papa Francisco é tudo e nada mais do que a explicação do Evangelho. Não é difícil de compreender isto. No mundo secularizado de hoje, o anúncio direto nem sempre é compreendido, mas o nosso testemunho sim.  Somos observados e avaliados no mundo pela forma como vivemos o Evangelho. É um pouco como os professores na escola : é certamente importante o que eles dizem, mas ainda mais importante é o que eles comunicam sobre si. No nosso caso, o que importa é a coerência com o Evangelho. Tomemos por exemplo a encíclica Laudato si’.  Muitos leram-na, inclusive entre os não-crentes, e entre quantos  não conhecem o Evangelho. E todos aqueles que a leram partilharam o seu valor, a sua importância, a sua urgência. Constatei isto diretamente nos meus contactos diários com políticos do parlamento  e da comissão europeia em Bruxelas. Todos leram, portanto, Laudato si’, e admiram-na.  E o mesmo se aplica a Fratelli tutti.  Ou seja, todos reconhecem a Papa Francisco a paternidade da proposta de um novo humanismo. Que muitas vezes propõe em solidão entre os grandes líderes mundiais.  Mas depois cabe a nós explicar que o humanismo de Francisco não é apenas uma proposta política, mas uma proclamação do Evangelho. Quem está fora da Igreja por vezes compreendem melhor o Evangelho do que os que estão dentro dela.  O Papa Francisco indicou assim esta forma de proclamar o Evangelho, que parte da realidade, aquela realidade que nos vê a todos como criaturas e filhos do mesmo Pai. Mas para responder à vossa pergunta inicial : em todos os países europeus nos sínodos falou-se muito de comunhão, de participação, mas muito pouco de missão. 

Certamente as dificuldades verificadas nos sínodos dos vários países foram influenciadas por uma certa defesa instintiva do próprio status por parte do clero e por outro lado por uma  atitude persistente de delegação dos leigos.

O conceito de sinodalidade foi introduzido pelo Papa Paulo vi como um requisito de colegialidade, de comunhão entre os bispos.  O Concílio Vaticano ii tinha a necessidade preliminar de completar o que tinha ficado por acabar com o Concílio Vaticano i, cujo foco estava inteiramente na figura e nas prerrogativas do pontífice romano. Assim, o esforço da assembleia foi, antes de mais, definir o papel do bispo. Mas a Lumen gentium introduziu pela primeira vez o conceito de ‘povo de Deus a caminho’ e da Igreja como ‘templo do Espírito Santo’, e tornou explícito o ‘sacerdócio universal’ que diz respeito a todos os batizados.   Então penso que estas intuições gigantescas dos padres conciliares ainda não foram suficientemente desenvolvidas.  Mas concordo plenamente com o Papa Francisco quando diz que são necessários cem anos para implementar um concílio. Passaram apenas 60... não estamos atrasados (diz isto com uma risada de coração ndr)!  Mas, brincadeiras à parte, devemos estar cientes de que o sacerdócio batismal nada tira ao sacerdócio ministerial. Pelo contrário, todos nós sacerdotes devemos compreender que não há sacerdócio ministerial sem um sacerdócio universal dos cristãos, pois dele tem origem.   Estou bem ciente de que a dificuldade de assimilar um conceito, no fundo tão elementar, é impedida por uma formação sacerdotal que ainda se mantém sobre uma «diversidade ontológica» que não existe. Os teólogos devem começar a trabalhar sobre isto e fornecer definições mais certas em torno do tema do caráter e da graça sacramental. Mas sobretudo, os bispos devem colocar as mãos a sério e profundamente na formação dos futuros sacerdotes.  Ainda hoje temos seminários que defino «tridentinos liberalizados».  Não devemos dar mais passos rumo à «liberalidade», mas empreender o caminho da «radicalidade».  A formação deve consistir em ser capaz de viver hoje o Evangelho de uma forma radical.

Também neste aspeto, olhemos para o Papa Francisco : na Europa ouvimos muitas vezes que Francisco é um Papa liberal.  O Papa Francisco não é liberal :  é radical.  Ele vive a radicalidade do Evangelho. É o paradigma integral não só da sua missão, mas da sua vida, porque interiorizou a radicalidade do Evangelho.  Pensai na sua radicalidade na misericórdia, e também na proclamação do Reino de Deus.  Vedes, não se pode manter um jovem separado do mundo, numa vida de tipo monástico durante seis anos e depois queixar-se que ele acaba por pressupor uma própria diversidade.   Também neste caso não é um problema - repito - de estruturas, mas, de missão. Precisamos de compreender, ou melhor, de recompreender, o que significa ser pastores hoje.  Assim como todos nos devemos perguntar o que significa ser cristãos hoje.   Esta é a questão.  E esta pergunta é também a marca deste pontificado : aceitar a inadequação de uma pastoral filha de épocas já passadas e repensar a missão. Uma escolha que tem difíceis e corajosas implicações teológicas.

E a atitude de delegação dos leigos?

Acho que, tanto devido aos resultados deste Sínodo como à redução das vocações, o equilíbrio entre leigos e clero será muito diferente no futuro do que o atual.  No entanto, existe um obstáculo ao desenvolvimento de um diálogo construtivo que deve ser removido primeiro. Refiro-me ao facto de que o confronto gira frequentemente apenas em volta do tema do «poder».  O sínodo alemão, por exemplo, é muito influenciado por este tópico.   Penso que limitar o confronto intra-eclesial à questão do poder é profundamente errado. Tanto da parte daqueles que «contestam» o poder, como da parte de quantos «defendem» o poder.  A sinodalidade vai muito além do discurso sobre o poder.  Se as pessoas perceberem a autoridade do bispo ou pároco como «poder», bem, então temos um problema. Pois somos ordenados para um ministério, para um serviço.  Autoridade não é poder. 

Vossa Eminência fala de uma inadequação da pastoral em relação aos tempos. Por quê? Em que tempos vivemos?

É muito interessante o que Zuppi diz na entrevista concedida a vós, quando tratais o tema da mudança antropológica.   E concordo com ele que este é o tema que mais precisa de nos interpelar.  Vedes, a minha geração já experimentou e está a experimentar mudanças que nenhuma geração experimentou antes. Eu diria que as maiores desde a invenção da roda. Com a diferença de que hoje tudo muda com uma velocidade inaudita há apenas algumas décadas.  É impressionante como, por exemplo, um rapaz de 15 anos já é radicalmente diferente de um rapaz de 20. Hoje nem sequer o podemos imaginar, mas haverá transformações antropológicas muito grandes. Sabendo que o homem só pode influenciar parcialmente a própria evolução. A questão que levantastes, e que precisa de ser mais desenvolvida, é que não estamos a falar de antropologia cultural, mas de mudanças que também dizem respeito à esfera biológica, natural.

E portanto também a pastoral deveria dar-se conta...

Não quero parecer tranchant, mas com muita franqueza, a nossa pastoral  fala a um homem que já não existe. Devemos ser capazes de proclamar o Evangelho, e fazer compreender o Evangelho, ao homem de hoje que, na sua maioria, o ignora. Isto implica uma grande abertura da nossa parte, e também uma disponibilidade - embora firmes no Evangelho - para nos deixarmos transformar também nós. 

Quando falamos de mudanças antropológicas, o pensamento corre em primeiro lugar para o da relação homem-mulher. A maior mudança. Já Paulo vi tinha-a prefigurada.

Sim. Humanae Vitae é um texto maravilhoso. É realmente uma pena que só tenha ficado na história por causa do julgamento sobre os contracetivos. Pensai por exemplo na ideia que propõe do amor esponsal como uma imagem do Deus Trino. Quando ensinei no Japão sobre estes temas, desenhava um triângulo explicativo cujos vértices eram :  sexualidade,  dom da vida e  amor esponsal.  Hoje, as coisas no mundo mudaram radicalmente. Antes, a sexualidade e o dom da vida eram separados, e agora também sexualidade e  afetividade. Muitos jovens vivem a sexualidade de uma forma totalmente separada da afetividade. E não inventaram isto sozinhos, mas aprenderam-no com o mundo adulto. O matrimónio - não apenas o  sacramental - é uma prática que caiu em desuso em grande parte da Europa. E o mesmo se aplica à transmissão da herança; as pessoas na Europa podem agora viver sem a herança cultural dos pais. Cada geração é praticamente um novo começo. E o distanciamento nas idades dado por uma população cada vez mais idosa dificulta ainda mais esta transmissão.

Cardeal Hollerich, permanecendo neste argumento, há a questão da adaptação da pastoral a estas mudanças antropológicas.

Certamente. E é precisamente a necessidade pastoral que tem suscitado uma reflexão sobre   o tema dos géneros que  suscitou algumas críticas. Há uma suposição que me inspirou.  Procuro, por quanto me é possível nas dificuldades do meu papel, manter uma relação pessoal viva com os jovens. Porque antes de ser cardeal sou um sacerdote; um pastor.  E vejo constantemente que os jovens deixam de considerar o Evangelho, se tiverem a impressão de que estamos a discriminar. Para os jovens de hoje, o valor mais elevado é a não discriminação. Não só a do género, mas também étnica, de proveniência, de classe social. Sobre a discriminação zangam-se mesmo! Há algumas semanas conheci uma jovem de vinte anos que me disse : «Quero deixar a Igreja, porque ela não acolhe casais homossexuais», e eu perguntei-lhe : «Sentes-te discriminada porque és homossexual?» e ela respondeu : «Não, não! Não sou lésbica, mas a minha melhor amiga é. Conheço o seu sofrimento, e não quero fazer parte daqueles que a julgam».  Isto fez-me refletir muito. 

Mas, cardeal, as igrejas protestantes que adotam uma abordagem mais liberal e abençoam casais homossexuais, não parece que encontrem uma maior apreciação entre os jovens...

Claro que não.  Porque isso não é suficiente.  Precisamos de uma mudança de paradigma cultural mais profunda, e de uma conversão de espírito. Não se trata de um problema de direito canónico, normas ou estruturas.   Foi o que o Papa disse à Igreja alemã. «Estai atentos a não começar pelas estruturas; começai antes pela vida do povo de Deus, pela missão, pela evangelização».  Anunciar o Evangelho hoje significa proclamar a alegria da vida em Deus, encontrar o sentido da vida em Jesus Cristo. O que não é uma frase feita, porque devemos ser capazes de comunicar que viver no seguimento de Cristo significa viver bem, significa desfrutar a vida. Somos chamados a anunciar uma boa notícia, não um conjunto de normas ou proibições. 

Onde a boa notícia é o kerigma original...

Sim, é claro.  Vedes a pós-modernidade, tal como o racionalismo que a precedeu, debate contra um limite insuperável.  Que é a perceção angustiante da finitude humana. Quanto mais cresce a capacidade intelectual e cognitiva do homem, mais resulta  evidente a sua incapacidade de responder à pergunta que o acompanha - racional mas também inconscientemente – por toda a sua existência : «por que a vida acaba?», «por que este meu ‘eu’, que ninguém mais conhece na sua profundidade, está destinado a morrer?». O movimento astuto da civilização de consumo na qual vivemos é esconder e exorcizar a questão, com o engano do mito da eterna juventude. Assim, a «nova evangelização» hoje é mostrar uma hóstia elevada dizendo «quem como deste pão nunca morre».  Uma ética do amor - e da misericórdia - é portanto sucedânea à revelação que «já não se morre».   Devemos gritar nas praças e  dos terraços «já não se morre»! E se não o gritarmos, limitando-nos a propor uma ética do bom viver, não podemos então queixar-nos de que já não há crentes!  Acreditar na vida eterna, no entanto, significa acreditar que a vida eterna já está aqui, agora.  E que como tal deve ser vivida, e desfrutada. Estou muito assustado neste sentido por uma crescente conceção funcionalista da vida, pela qual, se não funcionar, deita-se fora. Fiquei aterrorizado ao ver nos Países Baixos a extensão da prática da eutanásia até aos doentes psicológicos.  Isto também é o resultado da ideologia consumista penetrante : antes, se a  televisão se avariasse, levava-a ao reparador, e os  sapatos ao sapateiro; hoje deitamos-os fora. E querem fazer o mesmo com a vida, se esta não «funcionar», se se tornar um fardo para a sociedade, deitam-no fora.  O mesmo se aplica ao início da vida : preocupa-me ouvir no Parlamento Europeu aqueles que invocam a atribuição do status de direito «‘fundamental’ ao aborto, porque se é um direito fundamental então é um direito absoluto e por isso já não admite uma recusa de consciência.   Isto também é absurdo.  Lembremo-nos sempre que a vida, mesmo que limitada, é bela».

Assim, começar de novo a partir de um túmulo vazio numa manhã de Domingo de Primavera em Jerusalém.

Claro que sim. Essa é a boa notícia! E quero acrescentar : todos são chamados a isso. Ninguém excluído : também os divorciados casados de novo, os homossexuais, todos. O Reino de Deus não é um clube exclusivo. Abre as suas portas a todos, sem discriminação. A todos!  Por vezes há debates na Igreja sobre a acessibilidade destes grupos ao Reino de Deus. E isto cria uma perceção de exclusão entre alguns do povo de Deus. Eles sentem-se excluídos e isto não é correto! Não se trata de sutilezas teológicas ou dissertações éticas : aqui é simplesmente uma questão de afirmar que a mensagem de Cristo é para todos!

No entanto, existe objetivamente um problema teológico. O senhor mesmo já o referiu em entrevistas anteriores, apelando a um repensamento da doutrina.

 O Papa Francisco recorda frequentemente a necessidade de a teologia se originar e desenvolver a partir da experiência humana, e não continuar a ser fruto apenas da elaboração académica. Muitos dos nossos irmãos e irmãs dizem-nos que seja qual for a origem e causa da sua orientação sexual, certamente não a escolheram. Não são «maçãs estragadas». São também fruto da criação. E em Bereshit lemos que em cada passo da criação Deus está satisfeito com a sua obra, dizendo «...e viu que era coisa boa». Dito isto, quero ser claro : não penso que haja espaço para um matrimónio sacramental entre pessoas do mesmo sexo, porque não há uma finalidade procriadora que o caraterize, mas isso não significa que a  relação afetiva não tenha valor algum. 

No entanto, os bispos belgas pronunciaram-se a favor da possibilidade de abençoar estas uniões.

Francamente, a questão não me parece decisiva. Se nos cingirmos à etimologia do ‘bem-dizer’, pensai  que Deus poderia alguma vez ‘dizer-mal’ de duas pessoas que se amam? Eu estaria mais interessado em discutir outros aspetos do problema. Por exemplo : o que está a impulsionar o vistoso crescimento da orientação homossexual na sociedade? Ou por que a percentagem de homossexuais nas instituições eclesiásticas é mais elevada do que na sociedade civil?

Cardeal Hollerich, Vossa Eminência é o presidente da Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia. Estamos a viver um momento dramático. Após quase 80 anos, a guerra voltou a aparecer na Europa. Por incrível que pareça, a ameaça nuclear nunca como antes de hoje se tornou atual.  Perante isto, a presença ativa da Europa política promotora eficaz de paz parece fraca, débil, não escutada.

Temos de fazer a paz. Promover a paz entre as nações é como fazer a paz entre homens : deve haver sempre um compromisso entre as respetivas razões presumidas. Todos devem procurar identificar-se com as razões dos outros, mesmo que não as partilhem. E a partir daí, encontrar um compromisso.  Caso contrário, podemos ter uma trégua do conflito armado, mas não uma verdadeira paz.  A história ensina-nos que os conflitos latentes mais cedo ou mais tarde explodem em guerras.  Este também era um conflito que se arrastava há muito tempo, mas ninguém queria realmente trabalhar pela paz. Dito isto, confirmo o que dizeis : a Europa política é muito fraca.  É assim porque a prioridade política da Europa é manter os seus países constituintes, que são muito diferentes uns dos outros, unidos às suas instituições, especialmente após o alargamento a 27.   Claro que, concentrando-se mais na dinâmica interna, enfraquece a sua projeção externa, o seu protagonismo político.  Mas os líderes europeus devem compreender que o equilíbrio não é alcançado ad intra, mas ad extra, através de políticas de confrontação e proposta original com outras potências.  E isto constitui hoje um grave vulnus nos equilíbrios mundiais porque a Europa tem a inspiração para a paz no seu adn. Acho que também as forças que se  inspiram no popularismo devem comprometer-se a redefinir a sua identidade. Atualmente, o léxico europeu comum ‘popular’ é identificado com ‘conservador’, e isto não é bom. Portanto, é necessário especificar ‘popular’ na tradição dos democratas-cristãos, que tanto significado tiveram em muitos países europeus. Ou seja, recuperar esse perfil ‘social’ dos populares que o liberalismo de certo modo obscureceu. Também porque o popularismo é o único antídoto sério para o populismo.

Mas o populismo parece ainda estar a aumentar em muitos países europeus.

Onde o populismo ganha, enfrenta o desafio do governo. O problema com o populismo é que ele fornece respostas simplificadas às questões cada vez mais complicadas colocadas pelo mundo de hoje.  Pensai, por exemplo, nas receitas soberanistas propostas a um mundo que, ao contrário, está cada vez mais inextricavelmente ligado.  Preocupo-me com o que poderá acontecer caso os populistas falhem o desafio do governo.  Iriam culpar irrevogavelmente outras pessoas : migrantes, refugiados, Bruxelas. Exacerbando ainda mais as tensões sociais. E não há absolutamente necessidade disso.

Mas acredita que as derivas autoritárias, ou como se diz hoje em dia, autocratas, ainda podem ter lugar na Europa?

Não sei. Espero que não. Mas acredito que todos devemos começar a pensar sobre as condições da democracia. Pensamos até agora que a democracia era a única forma política possível no Ocidente. Mas até no Ocidente podemos sentir alguns rangidos. Temos de pensar no que significa ser um país democrático, um continente democrático, hoje. Espera-nos um inverno rigoroso, no qual muitos sofrerão de frio, pobreza, desemprego : será um teste à resiliência da democracia.  Até agora a democracia era sustentada através do bem-estar da maioria, hoje isso não é suficiente. É fácil ser amigos e democratas no rico almoço de domingo, mais complicado no dia do jejum.

Uma última questão. Como imagina a Igreja na Europa daqui a 20 anos?

Será muito menor. A maioria dos europeus não conhecerá Deus nem o seu Evangelho. Menor, mas também mais viva. Creio que esta redução em números é, no plano de Deus, necessária para ganhar um novo impulso. Nalgumas partes do norte da Europa será predominantemente uma igreja de migrantes; os ricos autóctones  são os primeiros a abandonar o barco, porque o Evangelho choca com os seus interesses. O  desejo do Papa Francisco é este : uma igreja pobre, uma igreja viva.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-10/cardeal-hollerich-igreja-pobre-viva-entrevista.html