Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf
‘Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou.’ (Gn 1,27)
‘O essencial é invisível aos olhos.’ (Antoine de Saint-Exupéry)
‘Há uma cena
que, de tão comum, talvez já nem nos espante. Uma pessoa sentada diante da tela
do celular, procurando uma resposta rápida. Pergunta o melhor caminho que a
livre dos engarrafamentos, organiza a agenda, escolhe uma música, escreve uma
mensagem rápida de aniversário para alguém, edita uma imagem para atender
melhor às expectativas do seu público, pede uma opinião, compara preços. Em
poucos segundos, uma pequena máquina parece saber muito sobre seus gostos, seus
horários, suas palavras mais usadas, suas preferências, seus medos e até seus
projetos.
A tecnologia
entrou em nossa casa sem bater à porta. Sentou-se à mesa e tomou o espaço do
diálogo em nossas refeições, ocupou o bolso, atravessou a escola, o trabalho, a
oração, a política, a economia, as relações. Está no relógio que mede nossos
passos, no aplicativo que sugere o que devemos comprar, no algoritmo que decide
o que veremos primeiro, na voz artificial que nos responde com paciência. E,
diante de tudo isso, talvez a grande pergunta não seja apenas o que a
inteligência artificial pode fazer por nós, mas o que ela pode fazer conosco.
A publicação
da encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, sobre a
salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, chega até nós
como um convite para pensarmos sobre o papel da IA e o lugar do ser humano. Não
como medo do futuro ou de um presente que nos desafia e desinstala. Não como
rejeição do progresso. Mas como discernimento. A Igreja, quando olha para os sinais
dos tempos, deve fazê-lo com a sabedoria do Evangelho, perguntando sempre pela
vida, pela dignidade, pela justiça, pela verdade e pelo cuidado.
A
inteligência artificial pode ajudar. Seria injusto negar isso. Ela pode
facilitar pesquisas, aproximar saberes, auxiliar diagnósticos, ampliar formas
de comunicação, favorecer processos educativos, organizar trabalhos, tornar
acessíveis conteúdos antes distantes. Há nela uma potência real, e toda
potência humana precisa ser acolhida com responsabilidade. O problema começa
quando a ferramenta deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar da
consciência. Quando a resposta rápida substitui o pensamento. Quando a
eficiência toma o lugar do discernimento. Quando a imagem perfeita apaga a
verdade do rosto. Quando a máquina aprende cada vez mais sobre nós, enquanto
nós começamos a esquecer quem somos.
É
precisamente aqui que a fé cristã tem uma palavra a oferecer. O ser humano não
é apenas dado, perfil, cálculo, consumo, produtividade ou desempenho. O ser
humano é imagem de Deus. Tem rosto, corpo, memória, história, fragilidade,
desejo, feridas, esperança, vocação e alma. Nenhum sistema é capaz de medir
plenamente a dor de uma mãe diante do filho enfermo, a saudade que aperta o
peito de quem perdeu alguém, o silêncio de quem reza, o cansaço de quem
trabalha para pôr o pão na mesa, a alegria simples de uma família reunida, o
gesto de quem estende a mão sem esperar retorno. A alma não cabe no algoritmo.
Talvez essa
seja uma das verdades que mais precisamos recordar. Podemos organizar
informações, mas não podemos reduzir a vida ao que pode ser processado. Podemos
produzir imagens, mas não podemos fabricar presença. Podemos simular respostas
afetuosas, mas não podemos substituir o encontro. Podemos acelerar tarefas, mas
não podemos apressar o amadurecimento do coração. Há dimensões da existência
que só se compreendem pela convivência, pela escuta, pela paciência e pelo
amor.
Jesus de
Nazaré não salvou a humanidade por meio de um sistema. Salvou encontrando
pessoas. Ele olhou nos olhos da samaritana junto ao poço. Tocou o leproso que
todos evitavam. Chamou Zaqueu pelo nome. Chorou diante do túmulo de Lázaro.
Sentou-se à mesa com pecadores. Escutou o grito dos cegos à beira do caminho.
Deixou que uma mulher marcada pela dor tocasse em suas vestes. Caminhou com
discípulos desanimados na estrada de Emaús. Partiu o pão. Lavou os pés.
Entregou a vida.
O Evangelho é
profundamente humano porque nos ensina que, antes da função, existe uma pessoa.
Antes do número, um rosto. Antes da eficiência, uma vida. Antes da resposta,
uma escuta. Antes da produtividade, uma dignidade que não pode ser negociada. O
Cristo não nos tratou como peças de uma engrenagem religiosa. Tratou-nos como
filhos e filhas amados pelo Pai.
Por isso, a
discussão sobre a inteligência artificial não pode ser apenas técnica. Ela é
espiritual, ética e profundamente humana. Que mundo estamos construindo quando
deixamos algoritmos decidirem o que vemos, o que desejamos, o que consumimos,
quem encontramos e até de quem desconfiamos? Que tipo de coração vai sendo
formado quando as relações se tornam respostas automáticas e a verdade passa a
ser manipulada por imagens, vozes e textos que parecem reais, mas podem nascer
da mentira? Que humanidade permanece quando trabalhadores são descartados em
nome da eficiência e quando os pobres, os idosos, os migrantes e os vulneráveis
se tornam ainda mais invisíveis diante de sistemas que não conhecem compaixão?
Uma sociedade
que já descartava pessoas antes das máquinas corre o risco de usar as máquinas
para descartar com mais velocidade. Esse é o perigo. Não a tecnologia em si,
mas o coração humano quando se acostuma a usar tudo sem perguntar a quem serve.
A pergunta cristã precisa ser outra : essa inteligência está a serviço da vida?
Está a serviço dos pobres? Está a serviço da verdade? Está a serviço do
cuidado? Ajuda-nos a sermos mais humanos ou apenas mais rápidos?
Talvez o
grande desafio deste tempo seja aprender a usar a inteligência das máquinas sem
perder a sabedoria do coração. Precisamos de tecnologia, sim, mas precisamos
ainda mais de consciência. Precisamos de inovação, mas também de ternura.
Precisamos de ciência, mas também de ética. Precisamos de ferramentas, mas não
podemos abrir mão da responsabilidade. O mundo não será salvo por respostas
mais velozes, se perdermos a capacidade de olhar nos olhos. Não haverá futuro
verdadeiramente humano se a mesa estiver vazia, se o trabalhador for esquecido,
se a verdade for adulterada e se a dignidade dos pequenos continuar sendo
tratada como detalhe.
A fé cristã
nos recorda que Deus não criou um dado. Criou uma pessoa. Não soprou vida em
uma estatística. Soprou vida em um ser capaz de amar. E esse sopro divino
permanece em cada ser humano, mesmo quando o mundo tenta reduzi-lo a função,
mercado ou imagem. Reconhecer isso é uma forma de resistência. Cuidar do
humano, neste tempo de tantas inteligências artificiais, talvez seja uma das
expressões mais urgentes da nossa fé.
Que saibamos,
então, atravessar este tempo com lucidez e esperança. Que a tecnologia esteja
em nossas mãos, mas não governe o nosso coração. Que ela nos ajude a servir
melhor, educar melhor, cuidar melhor, comunicar melhor. Mas que nunca nos roube
o silêncio, a oração, a memória, a compaixão, a verdade e a capacidade de
reconhecer no outro a imagem viva de Deus.
Oração
Senhor,
dá-nos sabedoria para viver este tempo novo sem nos perdermos de nós mesmos e
dos nossos irmãos e irmãs. Ensina-nos a usar com responsabilidade aquilo que a
inteligência humana criou, sem esquecer que toda inteligência deve servir ao
amor. Que as máquinas nos ajudem, mas não nos substituam no cuidado. Que os
algoritmos organizem caminhos, mas não apaguem o rosto dos irmãos. Que a
técnica avance, mas que a ternura caminhe conosco. E que, em cada escolha,
saibamos recordar que fomos criados à tua imagem e chamados a fazer da vida um
gesto de encontro, serviço e esperança. Amém.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/a-vida-humana-na-era-da-inteligencia-artificial.html
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