Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Desde quando
o mundo está em guerra? Há quantos anos passam imagens de guerra nos nossos
televisores, computadores e smartphones? E quantas vozes e rostos da frente de
batalha ouvimos e vimos realmente? Vozes e rostos que talvez já não existam,
que se apagaram como num jogo : game on – game over.
Não ouvimos.
Não vimos. Mas sabemos algo : não eram vozes e rostos virtuais; eram crianças,
mulheres e homens, que talvez não tivessem escolhido estar em guerra. Não nos
preocupávamos com eles.
Neste tempo
ferido pelo seu balanço diário de bombas, mortos, medo; à beira de um abismo de
violência que corre o risco de ser infinito, parece ter voltado à moda a teoria
de Carl von Clausewitz sobre a guerra como forma de escrita, linguagem,
comunicação.
Mas a sua
gramática incorreta — que acaba por transformar o meio em fim — impede-nos de
chamar cada coisa pelo seu nome.
Dizemos que
vemos, mas não vemos. Que ouvimos, mas não ouvimos. E assim corremos o risco de
nos perdermos a nós próprios, a nossa humanidade. Também por isso o Papa Leão
XIV nos convidou a refletir sobre o valor sagrado do nosso rosto.
Uma boa
maneira de o fazer é ir à raiz primordial da questão : evitar enfrentar os
desafios que temos à nossa frente permanecendo na ignorância, na superfície; na
onda de slogans fáceis que, utilizando a linguagem e a lógica de guerra,
confirmam a ideia de que tudo se baseia na conquista e de que a verdade é a
opinião de quem vence.
Devemos
voltar a refletir sobre o significado próprio das palavras; e — como o Papa nos
convidou reiteradamente a fazer — encontrar uma resposta evangélica ao desafio
do tempo.
Guardar. O
que significa esta palavra, que muitos de nós aprendemos quando éramos
crianças? Certamente usávamo-la mais na oração ao anjo, a quem somos «confiados
pela Piedade celestial», do que no uso comum das nossas conversas, onde
infelizmente se tornou obsoleta. Outrora, preservar definia o ato de cuidar
amorosamente de alguém ou de algo.
Na sociedade
do descarte, como a definiu com palavras duras o Papa Francisco, quem guarda
realmente?
E o quê? E
quem? Certamente não o faz quem pensa que guardar significa conservar algo numa
gaveta, colocá-lo e deixá-lo lá; ou quem pensa que, para guardar uma
alternativa à comunicação de guerra, é preciso impedir que as pessoas vivam o
dinamismo da própria vida.
Ser guardado
não significa tornar-se objeto passivo, inerte. A salvaguarda é um exercício
ativo. Exige uma ação. Ao mesmo tempo, não é intrusiva, mas precisamente
respeitosa, amorosa. Pacífica. Guardar é um ato de responsabilidade nunca igual
a si mesmo. Muda com o tempo e no tempo.
Para o
cristão — disse o Papa Francisco — guardar é ser como São José, proteger a
própria vida, a dos outros e a da Igreja : «Cuidar uns dos outros, cuidar-nos
mutuamente».
A custódia,
diz-nos hoje o Papa Leão XIV, é o lugar da presença e da relação. Cabe a cada
um de nós — perante a tentação individualista, que teoriza quase como uma regra
o desinteresse pelo destino do outro, e como remédio a ignorância e o
esquecimento — escolher o paradigma de Caim («Sou porventura eu o guarda do meu
irmão?», Gn 4, 9) ou o de Jesus («Amai-vos uns aos outros,
como Eu vos amei», Jo 13, 34-35).
Compete a nós
salvaguardar o nosso coração, ou deixá-lo endurecer. Preservar a nossa mente,
ou deixá-la atrofiar.
Tudo isto —
recorda-nos o Papa de modo brusco — está intimamente relacionado com a
inteligência artificial que, por sua vez, não deve ser deixada a si mesma.
Também porque não é propriamente inteligente.
Os algoritmos
podem ajudar-nos — certamente — na comunicação e no conhecimento. Mas não têm
voz nem rosto humanos. Executam cálculos, para isto instruídos por
inteligências humanas. Mas não estão cientes do que calculam. Nem são, de forma
alguma, expressão da singularidade de cada pessoa e da sua alteridade única e
irrepetível em relação a todos os outros seres humanos do presente, do passado
e do futuro.
Podem
simular, fingir, enganar-nos e fazer-nos crer que, pelo contrário, sim, são
capazes de pensar e sentir, de ter rostos e vozes. E de saber tudo, de conhecer
tudo. Como Deus!
Podem simular
emoções, construir relações fundamentadas num verdadeiro engano.
Mas
precisamente por isto é necessário compreender, salvaguardar e preservar a
diferença ontológica entre a chamada inteligência artificial e a inteligência
humana.
Devemos
preservar a nossa capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, o pensamento
de um cálculo estatístico, o rosto dos outros da simulação de uma máquina, a
voz dos outros de um sintetizador vocal que a imita. O rosto e a voz de Deus,
do rosto e da voz mutáveis de uma máquina. A guerra da paz. Os jogos de guerra,
da paciente construção da paz.
Por isso é
importante educar-nos e educar para o cuidado de nós próprios; para compreender
que — embora seja apenas um punhado de empresas, como nos recorda o Papa, que
hoje controla o oligopólio da comunicação digital — somos nós os stakeholders dos
dados que a IA processa. Somos nós que devemos tutelar nas relações a beleza de
encontros não mediados por um ‘intermediário técnico’ : «Uma centelha elétrica,
um impulso, uma rede, uma ligação, um satélite», como Ryszard Kapuściński
observava de modo perspicaz.
Nós somos
chamados a escolher entre a sabedoria e a ignorância, entre a liberdade de
pensamento e a submissão a um pensamento único. Como escreve o Papa Leão na sua
Mensagem : «Consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos
anónimos, sem paternidade nem amor».
Sem dúvida,
sei bem que neste ponto se poderia levantar uma objeção teórica : quem é
exatamente o ‘nós’ a que se faz frequentemente referência quando se fala de
responsabilidade na gestão do ecossistema digital?
A Mensagem do
Papa Leão XIV dissipa a ambiguidade interessada que muitas vezes acompanha esta
interrogação. E levanta o véu de uma certa hipocrisia coletiva através da qual
muitas vezes tendemos a lavar as mãos, a eludir ou minimizar as nossas
responsabilidades.
Com efeito, o
‘nós’ não designa um sujeito indistinto ou abstrato, mas o conjunto concreto
dos atores sociais envolvidos, cada qual no próprio âmbito de competência.
Ele diz
respeito às empresas tecnológicas e aos gestores das plataformas digitais,
chamados a não ter o máximo lucro como único critério de orientação das suas
escolhas; a optar, salvaguardar e promover uma visão da inovação tecnológica,
que tenha em consideração a dimensão do bem comum.
Mas a mesma
responsabilidade envolve diretamente os informáticos e os programadores.
Compete a eles a tarefa de programar e desenvolver sistemas de inteligência
artificial — incluindo os modelos linguísticos de grandes dimensões — segundo
critérios de transparência, responsabilidade social e atenção às consequências
éticas das tecnologias produzidas.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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