segunda-feira, 29 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - Países africanos que nunca foram colonizados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Para quem conhece um pouco de história sabe que a maior parte do mundo já foi colonizado, em especial pela Europa. Primeiro veio a colonização da América, depois da Oceania, depois da Ásia e por último veio a colonização da África. E, quando falamos da África, já publicamos aqui nessa coluna 25 textos e gravamos 25 áudios, o continente foi retalhado pelas grandes potências europeias que formaram diversas colônias. Mas existem dois países que apresentam uma grande novidade porque nunca foram colonizados.

O continente africano é formado hoje por 54 países reconhecidos pelas Nações Unidas, sendo o continente com o maior número de países no mundo, distribuídos em cinco regiões principais: Norte, Meridional (Sul), Central, Ocidental e Oriental.

Contexto

Até o fim do século XIX, a maior parte do continente africano era desconhecida, principalmente a região central desse continente. As grandes potências europeias da época, com exceção de Portugal, estavam até então mais focadas em suas colônias na Ásia.

Em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim que leva esse nome por ser a cidade alemã o lugar de sua realização. Um dos objetivos dessa reunião entre as potências europeias era a de se reorganizar o mapa geográfico do mundo. Para isso era preciso fazer a divisão e partilha da África entre essas nações colonizadoras. Ao final da referida conferência praticamente todo o continente africano já havia sido repartido em colônias e pertenciam as potências europeias. Mas, no entanto, havia apenas dois países que permaneceram independentes : A Etiópia e a Libéria. 

Etiópia livre

A Etiópia, era um país bem antigo e independente possuindo uma bem sucedida relação com outros países.

Fato curioso é que em 1896, a Itália, que também havia ganho alguns poucos territórios no continente africano durante a conferência subestimou a Etiópia, tentando coloniza-la, porém ao invadir o país africano foi repelido e sofreu uma derrota, que chamou a atenção do mundo inteiro na época, pelo fato de um país africano pobre conseguir derrotar um país europeu, visto como uma potência emergente. A Itália havia surgido como país unificado há menos de 30 anos, em 1879, sendo considerado ‘o primo pobre da Europa’.

Em outros momentos, como no início da Segunda Guerra Mundial, acontecida entre 1939 e 1945, a Itália tentou reconquistas a Etiópia, mas também desta vez foi malsucedida em seu intento, pois a Etiópia contou com a ajuda de outros países.

Apesar dessa aparente liberdade, a Etiópia passou por situações complexas em sua história como no tempo da ditadura de Hailé Selassié, e hoje enfrenta uma grave crise humanitária marcada pela insegurança alimentar aguda, seca e riscos de novos conflitos no Norte (Tigray). O país também lida com tensões geopolíticas, desafios econômicos e instabilidade

Um país formado por ex-escravos

O outro país africano que nunca foi colonizado pelos europeus tem uma história bastante curiosa. Isso porque foi fundado em 1824, por escravos libertos dos EUA. Naquela época, uma organização americana chamada American Colonization Society (em tradução livre, Sociedade Americana de Colonização) havia sido criada com o propósito de levar escravos libertos e negros nascidos livres de volta para a África.

Na época a ideia parecia bem absurda afinal, tanto os ex-escravos quanto os nascidos livres eram americanos. Mas, naquele tempo, o pensamento racista e escravista permitia esse tipo de conclusão. Levar a população negra para a África seria, na visão desta organização, um modo de impedir o aumento da criminalidade ou os casamentos interraciais.

Hoje, essa ideia parece absurda e até mesmo bizarra, mas na época foi bastante apoiada nos Estados Unidos. O projeto foi financiado através da arrecadação de dinheiro em vários estados, recebendo o apoio até mesmo do presidente, James Monroe.

Em meados de 1821, o território da já Libéria havia sido definido, e os primeiros migrantes já haviam chegado. Em 1822, foi criada a capital, Monróvia, nomeada em homenagem ao presidente Monroe.

Apenas em 1824 o país foi fundado oficialmente sob esse nome, que tencionava indicar ‘país da liberdade’. Apesar da conexão bastante próxima com seu país de origem, os agora liberianos declararam sua independência em 1847. Mesmo assim, sua ligação próxima com os Estados Unidos manteve de fora os demais colonizadores europeus.

Quando a região da Libéria foi demarcada, não havia sido levado em consideração os povos que já viviam na região. A divisão forçada do território foi um dos fatores que levaram aos conflitos e guerras civis enfrentadas no país no século seguinte, gerando um país hoje muito pobre e devastado.

Hoje a Libéria está em processo de estabilização após uma cruel guerra civil, reconstruindo suas forças armadas e consolidando a democracia. Sendo também considerada um dos países mais pobres do mundo, enfrenta desafios econômicos e sociais, com grande dependência da agricultura e mineração. A segurança melhorou, mas viajantes devem ter cautela.

Etiópia e Libéria, os dois países têm histórias muito curiosas : um deles conseguiu expulsar os colonos, e o outro tinha acabado de ser formado por imigrantes negros que fugiram da escravidão no Estados Unidos, mas na atualidade enfrentam os mesmos problemas e desafios que marcam a realidade de outros países do continente.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-05/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-paises.html

 

sábado, 27 de junho de 2026

Estar em Tizi Ouzou, na Argélia, moldou-me como missionário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Vista da Basílica Notre-Dame-d'Afrique, em Argel.

*Artigo de Dulce Araújo


- Padre Guy, obrigada por estar connosco na Rádio Vaticano. Poderia apresentar-se e dizer-nos como é que veio parar a Argel?

‘Eu sou o Padre Guy Sawadogo, natural do Burkina Faso. Sou da Congregação dos Missionários de África, mais conhecidos por ‘Padres Brancos’. Cheguei à Argélia há 21 anos como seminarista. Fiz os meus dois anos de estágio pastoral, aqui na Argélia, entre 2005 e 2007. Depois, fui fazer estudos teológicos em Kinshasa. Após a minha ordenação sacerdotal, em julho de 2011, pedi para regressar à Argélia. E quando vim, em vez de ficar na Diocese de Ghardaïa, onde tinha feito o estágio, o meu superior provincial sugeriu que fosse trabalhar na cidade de Tizi Ouzou, Diocese de Argel. Fiquei lá sete anos, a seguir aos quais fui por um ano para Argel; dali ausentei-me do país para fazer estudos de Antropologia Social e Desenvolvimento. Em finais de 2021 voltei de novo para a Argélia. E atualmente estou na Comunidade dos Missionários da África que se ocupa da Basílica ‘Notre-Dâme-d’Afrique’, em Argel. Mas eu trabalho principalmente no Centro de Estudos Diocesano ‘Les Glycines’, um Centro Cultural da Diocese de Argel, da Igreja na Argélia.’

- Porque é que pediu para voltar para a Argélia?

Quando fazia o noviciado, lia muito sobre a vida de padres brancos. A Congregação foi fundada aqui na Argélia, em 1868, pelo Cardeal Charles Lavigerie, terceiro bispo de Argel, primeiro arcebispo e primeiro Cardeal da Argélia. E ele nos enviou para levar o Evangelho a diversos países da África. E quando líamos a vida dos primeiros missionários de África, eu ficava impressionado, ao ver, ao ler, ao ouvir os nomes de pessoas, de certos lugares como Ghardaia, Metlili, Ouargla, Basílica ‘Notre Dâme d’Afrique’... e dizia : ‘este país gostaria de o conhecer um dia!’ Então, quando já estávamos a terminar o período do noviciado, o secretário para a formação foi-nos visitar para saber onde é que queríamos fazer o estágio pastoral. E eu disse que queria ir para um país de maioria muçulmana. Então propuseram-me a Argélia. Vim então para Ghardaia, onde trabalhei sobretudo no nosso centro cultural que se chama ‘Centro Cultural e de Documentação Subsaariana’. Trabalhava também com os migrantes que ali estavam (trabalhadores), muitos a caminho da Europa e que encontraram ali um lugar onde podiam trabalhar, ganhar algum dinheiro para enviar à família. Havia ali dois grupos : um que tinha, de certo modo, decidido ficar porque o que queriam era ir para a Europa ganhar dinheiro e deram-se conta de que em Ghardaia podiam trabalhar e ganhar dinheiro. Eram pessoas que trabalhavam nos campos de palmeira, nos jardins, pomares, enfim, na agricultura, na rega, que se ocupavam do gado e que trabalhavam também na construção civil, ou em fábricas, oficinas, etc.

Dado que eu falo djola, pois que nasci na região ocidental do Burkina-Faso, onde se fala djola, uma variante da língua bambara, falada no Mali, conseguia comunicar facilmente com eles, pois eram em grande parte malianos. Então quase que me adotaram e muitos deles pediam-me para os ajudar, para os acompanhar ao hospital se necessário, para fazer compras para eles, porque nem sempre conseguiam sair... e eu fazia tudo isso como um irmão, estando ao lado deles, sem infringir as leis, mas simplesmente procurando compreender a sua situação, ajudando-os a suavizar as coisas e a viver sem muitos problemas.

E quando fui ordenado padre e me pediram para regressar à Argélia os meus amigos perguntavam-me como era possível que, estando em Kinshasa, no Congo, país com uma Igreja tão dinâmica, quisesse vir para a Argélia, onde a Igreja é tão pequena, quase insignificante. E disse-lhes que era uma história de amor, que queria conhecer este país, as pessoas e poder fazer algo juntamente com elas, acompanhá-las naquilo que estamos a viver. E, portanto, para mim, foi algo muito, muito interessante, muito agradável vir para aqui.

E quando cheguei em Tizi Ouzou como jovem padre, as pessoas com que tinha trabalhado antes já não eram as mesmas. Já não eram propriamente migrantes trabalhadores, mas sobretudo estudantes — estudantes argelinos, claro, mas também muitos estudantes estrangeiros, de quase todos os países da África subsaariana. E foi interessante trabalhar com jovens que procuravam adquirir conhecimentos intelectuais e acadêmicos, e outros que estavam em formação profissional. E foi bonito ver como jovens que chegaram à Argélia aos dezessete anos, que lá passaram quatro, cinco ou mais anos, se tornaram adultos maduros e regressaram para as suas terras com uma riqueza de experiências e de conhecimentos do que viveram, tanto a nível pessoal como intelectual, aqui na Argélia. Isso realmente impressionou-me.

Fiquei, portanto, sete anos com os jovens em Tizi Ouzou. Claro que havia também a comunidade cristã com alguns cristãos argelinos e todos esses estudantes estrangeiros. Trabalhamos em conjunto para construir uma paróquia, uma comunidade cristã unida. E funcionou muito, muito bem. Estou verdadeiramente grato por estes sete anos que passei em Tizi-Ouzou, anos que me moldaram como missionário, como um Padre Branco.

- Agora, aqui em Argel, o que é que faz exatamente?

Bem, estou em Argel desde 2018. No primeiro ano, trabalhei quase a tempo inteiro na Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, a receber visitantes, a maioria muçulmanos. Em média, recebemos mais de 500 pessoas por dia nessa Basílica. Pessoas que vêm visitar a Basílica, que estão a descobrir a Igreja pela primeira vez, que fazem perguntas sobre o cristianismo para o compreender um pouco melhor e também para participar neste tipo de diálogo, uma espécie de abordagem... Portanto, o nosso papel aqui é principalmente fomentar o diálogo entre cristãos e muçulmanos, mostrar-lhes quem somos e perguntar-lhes quem são enquanto muçulmanos. E eles, por sua vez, dizem-nos quem são, é uma abordagem. Portanto, não estamos aqui para dizer : ‘Vocês, muçulmanos, são...’ Não! Eles dizem-nos quem são e nós lhes dizemos quem somos como cristãos.

Desde 2022, trabalho sobretudo no Centro Diocesano de Estudos ‘Les Glycines’, fundado há 60 anos pelo Cardeal Étienne Duval. Este Centro acolhe pessoas interessadas em aprender o árabe argelino, o árabe clássico e outras línguas. Temos uma biblioteca bastante grande, formada mediante legados de comunidades religiosas que deixaram a Argélia nas décadas de 1960 e 70, bem como de argelinos ilustres que doaram as suas coleções, ou de pessoas que trabalharam em Argel e doaram os seus acervos à biblioteca. Acadêmicos de todo o mundo consultam o nosso catálogo online e vêm fazer investigações na nossa coleção ou noutras coleções em Argel, aproveitando também a oportunidade para visitar o nosso Centro.

Organizamos também conferências, sempre relacionadas com a Argélia. O nosso foco principal é a Argélia, vista sob diferentes perspectivas, pois o nosso Centro é especializado em Ciências Humanas e Sociais. Temos coleções de arqueologia, arquitetura, história, sociologia, antropologia, etnologia e, claro, religião também. Assim, as pessoas vêm e encontram o que procuram. É isso!

Poderia falar-nos um pouco sobre a realidade dos trabalhadores imigrantes aqui em Argel e na Argélia em geral? Como é a vida deles e que dificuldades enfrentam? Como é a relação deles com a sociedade? Como funciona exatamente?

Bem, não vemos trabalhadores estrangeiros com muita frequência. No que toca a imigrantes, sobretudo trabalhadores e africanos da África subsaariana, vemo-los nalguns estaleiros de construção e também nas ruas. E em conversas com funcionários da OIM, na sede desta Organização Internacional para as Migrações, aqui em Argel, compreendi que está a ser feito um enorme trabalho para ver como podem ser ajudados a ter um estatuto legal na Argélia, a trabalhar legalmente e a deslocar-se com mais facilidade. Se isto se concretizar, será realmente maravilhoso para estas pessoas que se encontram na Argélia de passagem ou procurando construir uma vida melhor nos seus países de origem. Vejo por exemplo, trabalhadores asiáticos, principalmente chineses, que vêm trabalhar em obras de construção, imagino que de uma forma muito regulamentada e legal. Assim, se pudéssemos fazer o mesmo para os trabalhadores vindos da África subsaariana, seria um grande mérito para a Argélia em relação aos africanos.

- Tem-se alguma ideia de quantos são? E a maioria deles é ‘clandestina’ (entre aspas)?  

Não sei o número exato. Depende das regiões. Estão muito mais presentes nalgumas regiões do que noutras. Em Argel, por ser a capital, vemo-los um pouco mais em obras de construção civil, e noutras regiões, mais em trabalhos agrícolas... mas, em zonas como Tizi Ouzou, que não está na rota migratória, vemos muito poucos migrantes. Ali, os estrangeiros, vindos da África subsaariana, são sobretudo estudantes. Mas noutras regiões como Argel e ao longo da costa argelina, nas grandes cidades, e por vezes mesmo no Saara argelino, vemos migrantes que estão apenas de passagem, a caminho da Europa. Mas é difícil dizer quantos são; talvez as autoridades, talvez o ACNUR, possam fornecer alguns dados. Eu vejo muitos, muitos mesmo. Mas, não sei quantos são.

- E a sociedade aceita-os facilmente. Ou é verdade que há um pouco de racismo, como alguns dizem?

Bem, os que trabalham, significa que estão em contato com parceiros ou dadores de trabalho argelinos. E, portanto, se trabalham, significa que, de forma ou doutra, há aceitação. E dizer se é há racismo ou não, bem, as experiências podem ser diferentes, dependem da região, das pessoas e do que fazem. Depende se as pessoas os vêm como trabalhadores aplicados, que trabalham arduamente, ou se são pessoas que estão ali a pedir esmola, a apanhar ou simplesmente a andar pelas ruas, então talvez a abordagem seja diferente. Também alguns estudantes dizem que sofrem com um certo olhar, um olhar de desprezo e tudo mais. Mas, mais uma vez, também depende, pois quando se chega se depara com uma sociedade muito diferente, por isso ser aceite no contexto dessa diferença, nem sempre é fácil, leva tempo. Depende como é que cada um reage. Alguns ficam logo frustrados, outros um pouco desorientados, outros são talvez mais resilientes e as coisas são para elas mais fáceis. Por isso, não posso dizer que seja fácil ou difícil. Não! É complexo, isso sim! Não há dúvida de que é uma verdadeira luta. Mas quando se conhece estas pessoas, se conhece este país, bem, é um país como qualquer outro, com os seus altos e baixos, com pessoas muito acolhedoras e pessoas nada acolhedoras. Acontece em qualquer lugar do mundo.’ 

- Mais duas perguntas rápidas, Padre Guy. Em frente à Basílica de Notre-Dame-d'Afrique, vê-se um monumento que representa um túmulo, um caixão. Fale-nos um pouco desse monumento. E qual é a sua ligação com os imigrantes que, suponho, também morrem nas costas da Argélia?

Sim, é um cenotáfio que existe ali há mais de 150 anos. Desde a criação da Basílica, os padres fizeram esse monumento, em forma de caixão, em memória de todos aqueles que morreram no mar a tentar atravessar. E creio que, na altura da sua construção, foi sobretudo para os trabalhadores que morreram no mar, pois havia muitos pescadores à volta da Basílica. E é certo que, posteriormente, houve muito movimento de pessoas que iam e vinham, sobretudo de sul para norte, por mar, tentando atravessar para chegar à Europa. Tantas pessoas morrem, portanto, embora nas costas argelinas quase que não se ouve falar disso. De vez em quando ouve-se, todavia, dizer que na costa ocidental ou oriental algum barco virou. Aqui na Argélia, existe um fenômeno chamado ‘harraga’. São pessoas que utilizam pequenos barcos para tentar emigrar. Mas isto é severamente punido pela lei argelina. É uma forma de desencorajar os jovens que desejam migrar ilegalmente. Este monumento nos recorda a cada instante que é preciso fazer algo por uma vida melhor, por um mundo melhor, um mundo onde todos se possam sentir como cidadãos. Por ocasião da visita de Leão XIV esse túmulo foi renovado, caiado, para que ficasse com melhor aspecto. A inscrição que lá está é a mesma que está lá desde os tempos de Leão XIII, porque a basílica foi estabelecida como basílica durante o pontificado de Leão XIII. Foi Leão XIII quem nomeou o Cardeal Charles Lavigerie.

 - Uma última questão, P. Guy. Antes da entrevista referiu-se a cabo-verdianos, entre os emigrantes ou estudantes que auxiliais. Fale-nos um pouco sobre a presença de pessoas de países africanos de língua oficial portuguesa aqui e de que países são provenientes exatamente?

Ah, sim, há estudantes de língua portuguesa aqui na Argélia, principalmente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. São enviados pelos seus governos e são bolseiros. Quando chegam, a primeira coisa que fazem é aprender francês. Depois, continuam os seus estudos em diferentes lugares. E nos últimos anos, não sei qual é a quota que os países lusófonos têm para enviar estudantes, mas há cerca de dez anos, havia muitos, muitos, muitos falantes de português, muitos cabo-verdianos, muitos angolanos, muitos moçambicanos e muitos guineenses. Eram muitos. Portanto, havia estes quatro países juntos, o que significava centenas de estudantes aqui na Argélia, em diferentes províncias, em diferentes cidades, a encontrarem-se, a deslocarem-se muito juntos, e podia-se reconhecê-los pelos seus sotaques e, bem, também pela sua alegria de viver.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2026-06/p-guy-sawadogo-argelia.html

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Moçambique

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Estamos estudando a história da África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Nos textos passados conhecemos um pouco da história, da organização e da atual situação de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Hoje nos debruçamos sobre mais um país da África Portuguesa, Moçambique.

Rica tradição de povos e culturas

Situado no sudeste da África, Moçambique é um país que possui uma rica história que remonta a muitos séculos. Desde o período pré-colonial, passando pela luta pela independência até chegar na era pós-colonial, Moçambique passou por diversas mudanças e transformações políticas, sociais e culturais que influenciaram profundamente sua história.

O nome Moçambique, primeiramente utilizado para a Ilha de Moçambique, primeira capital da colônia seria derivado do nome de um comerciante árabe que ali viveu, Musa Al Bik, Mossa Al Bique ou Ben Mussa Mbiki.

Moçambique era habitado por várias tribos e reinos ligados ao povo Bantu nos séculos III a V da Era Crista, quando parte considerável da Europa e do norte da África faziam parte do Império Romano. Foram eles que introduziram a agricultura e o sedentarismo, substituindo comunidades nômades.

Depois disso, veio a influência Suíli-Árabe a partir do século X. A costa marítima da região foi dominada por entrepostos comerciais árabes, com a ilha de Moçambique tornando-se um centro comercial.

Moçambique era habitado então por várias tribos e reinos, incluindo o Império Monomotapa, que governou a região entre os séculos XV e XVII. O império ficou famoso por causa de suas minas de ouro que atraíam comerciantes árabes e portugueses para a região.

Durante esse período, a região também era conhecida por ser um importante centro de comércio de escravos, com muitos africanos sendo capturados e vendidos como escravos para outras partes do mundo. No entanto, também existiam rotas comerciais prósperas que ligavam Moçambique a outros países africanos, como Zimbábue, Malawi e Tanzânia.

Foi aí que em 1498, chegaram os portugueses, liderados pelo navegador Vasco da Gama que buscava o caminho das Índias. A presença portuguesa concentrou-se inicialmente na costa, com o nome do país.

A partir daí, começou o processo de colonização do país, que durou até a independência em 1975. Durante o período colonial, os portugueses exploraram os recursos naturais de Moçambique e utilizaram a mão-de-obra africana para trabalhar nas plantações e minas.

Portugal, porém, somente consolidou o controle sobre todo o território no final do século XIX, criando fronteiras e administrando através de companhias concessionárias com trabalho forçado.

O processo de colonização não foi aceito livremente, acontecendo resistência indígena, com líderes como Ngungunhana, até o início do século XX. 

O processo de independência

A colonização provocou muitos malefícios, trazendo conflitos e tensões, com a população nativa sendo reprimida e discriminada pelos colonizadores. Houve várias revoltas e insurreições contra o domínio português, como a Guerra de Libertação, que durou de 1964 a 1974 e culminou na independência de Moçambique.

A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) iniciou a luta armada em 25 de setembro de 1964 e a independência foi proclamada onde anos depois em 25 de junho de 1975, Samora Machel o líder da luta contra Portugal tornou-se o primeiro presidente.

Aqueles que haviam atuado na luta pela independência não se entendiam explodindo então no país a Guerra Civil que durou de 1977 a 1992. A FRELIMO enfrentou a RENAMO numa guerra civil que causou grande sofrimento para a população, contando também com o apoio de potências estrangeiras de um lado e de outro.

Na atualidade

Moçambique continua enfrentando significativos desafios na reconstrução do país e na consolidação da democracia. Sua economia continua sendo frágil e a infraestrutura limitada e os serviços básicos bastante limitados.

A capital e maior cidade do país, Maputo, chamada de Lourenço Marques, durante o domínio português concentra uma grande população.

Nos últimos anos, Moçambique tem registrado um crescimento econômico significativo, impulsionado principalmente pelo setor de mineração e gás natural. No entanto, o país ainda enfrenta desafios significativos em áreas como pobreza, corrupção e desigualdade social.

A história de Moçambique é rica e complexa, refletindo as influências de várias culturas e povos ao longo dos séculos. Desde o período pré-colonial até os dias atuais, Moçambique passou por muitas mudanças e transformações, enfrentando desafios significativos ao longo do caminho. No entanto, a resiliência e a força do povo moçambicano permitiram que o país se recuperasse e prosperasse, abrindo novas oportunidades para o futuro.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mocambique.html

 

terça-feira, 23 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa - Angola

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Começamos a estudar a África Portuguesa, formada pelos países marcados pela língua, por elementos culturais e religiosos advindos dessa metrópole europeia que, apesar de sua pequena dimensão conseguiu consolidar um vasto império colonial a partir dos séculos XV e XVI.

Como bem sabemos, o atual território africano foi retalhado numa série de colônias propriedade de várias nações europeias, e o país lusitano foi aquele que consolidou um dos maiores impérios.

O nome Angola deriva da palavra banto n’gola, título utilizado pelos reis do antigo Reino de Ndongo, no século XVI, localizado na atual região do país. Os portugueses adaptaram o título do monarca, como o ‘Angola Kiluange’, para ‘Angola’ ao se referirem às terras de Ndongo. Ngola era um termo banto que significa ‘força’ ou ‘rei/poderoso’ na língua quimbundo.

Da ocupação à colonização portuguesa

Localizada na costa ocidental da África, Angola conta com uma rica e diversificada história que remonta aos tempos antigos. Sua história é marcada por períodos de colonização, em que fez parte do Império Colonial Português, conflitos internos e lutas pela independência, seguidos por anos de instabilidade política e guerra civil.

Os primeiros habitantes conhecidos da região eram os San, grupo de caçadores-coletores que deixaram evidências de sua presença na forma de pinturas rupestres em várias partes do país. Esses grupos foram posteriormente deslocados pelos povos bantos, que chegaram à região por volta do século III a.C. formando diversos reinos ao longo da costa e no interior.

Durante a Idade Média europeia, o Reino do Congo se tornou uma importante potência na região, formando um dos grandes reinos africanos, estendendo-se seu domínio numa grande parte do que é hoje Angola, bem como em partes da atual República Democrática do Congo e Gabão. O comércio de marfim e escravos era importante para a economia do reino e a religião cristã foi introduzida pelos missionários portugueses no final do século XV.

Em 1482, o navegador português Diogo Cão chegou à foz do rio Congo, marcando o início do contato português com os povos da região. Em 1575, os portugueses fundaram a cidade de Luanda, que se tornou a capital da colônia de Angola. Durante o período colonial, os portugueses estabeleceram plantações de café, algodão e sisal, bem como exploraram minas de diamantes e cobre.

Durante o século XIX, Angola tristemente se tornou um importante centro de comércio de escravos, com milhares de pessoas sendo capturadas e levadas para trabalhar nas plantações das Américas. A abolição da escravatura em 1865, teve um impacto significativo na economia de Angola, levando à mudança para o comércio de matérias-primas.

Na década de 1950, surgiram os primeiros movimentos nacionalistas em Angola, com o objetivo de conquistar a independência em relação a Portugal. O Movimento Popular de Libertação de Angola (conhecido pela sigla MPLA) foi fundado em 1956, seguido pelo Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA) em 1961 e pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) em 1966.

A luta pela independência se intensificou durante a década de 1960, com os movimentos nacionalistas lutando contra as forças portuguesas. A guerra se estendeu até a década de 1970, quando a Revolução dos Cravos em Portugal levou à retirada das forças portuguesas de Angola. Em novembro de 1975, o MPLA, que contava com o apoio da União Soviética e Cuba declarou a independência de Angola.

A independência não trouxe a desejada paz para Angola. A luta pelo poder entre o MPLA e a UNITA provocou uma guerra civil que durou quase 30 anos. Ainda hoje existem milhões de minas terrestres plantadas em diversas regiões do país e essa continuam fazendo suas vítimas.

Angola hoje

O português é a língua oficial de Angola e 60% dos moradores declararam ser sua língua materna, embora estimativas indiquem que 70% da população fale uma das línguas nativas como primeira ou segunda língua. Além do português, Angola abriga cerca de onze grupos linguísticos principais, que podem ser subdivididos em cerca de noventa dialetos.

Alguns dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade são angolanos. Sua literatura costuma representar com realismo a dor e o preconceito sofridos pelo povo do país. Entre os principais nomes da literatura angolana estão José Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa e Pepetela.

O cenário de Angola hoje é marcada por um contexto socioeconómico desafiador, caracterizado por elevada pobreza, desigualdade e insegurança alimentar, afetando grande parte da população. Apesar de ser um país rico em recursos como petróleo e diamantes, os desafios incluem a necessidade de muitas melhorias na saúde, educação e infraestrutura, além do combate à corrupção. Apesar dos esforços de reconstrução, a infraestrutura ainda enfrenta dificuldades em todo o país.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-04/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-angola.html


segunda-feira, 22 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - História da África Portuguesa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Azulejo 'Mulher preparando peixe' na cozinha do Palácio Pimenta 

Foto : Museu de Lisboa/Coleção on-line
 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

Chegada dos colonizadores portugueses

‘Os portugueses chegaram a Angola pela primeira vez através do navegador Diogo Cão (isso mesmo), entre 1483 e 1485, mas a colonização efetiva do território só foi iniciada bem mais tarde, já no século XVI, a partir de 1575, quando cerca de 400 colonos, sob a liderança de Paulo Dias de Novais, se fixaram na região, fundando a cidade de São Paulo de Luanda. Em Angola foi implantado o sistema de divisão do território em capitanias também utilizado no Brasil, bem como uma política de exploração de recursos naturais.

Angola possuía um território muito rico, destacando-se as minas de prata da região do Cambambe. Contudo a grande fonte de lucro passou a ser o tráfico de mão de obra escrava, destinada aos engenhos de açúcar do Brasil ou da Ilha Madeira, e também para São Tomé. Nesta fase o território de Angola se resumia a uma faixa litoral, que se foi se estendendo para o interior à medida que a exploração foi acontecendo e à medida que foram crescendo as exigências do tráfico de escravos.

Moçambique se torna colônia de Portugal

Moçambique foi visitado pela primeira vez pelos portugueses quando aí aportou a armada de Vasco da Gama que se destinava a Índia. Mas é possível que Pero da Covilhã possa ter estado em Moçambique, quando da sua estadia em Sofala em 1490. No ano de 1537 foi criada a feitoria de Tete, e em 1544, foi estabelecida a feitoria de Quelimane, que se tornou o local de concentração dos escravos que eram embarcados para Portugal, Brasil e outros destinos.

Moçambique também se revelou uma região rica em minerais preciosos como a prata, ouro, peles, marfim, especiarias e pérolas, recursos que tinha a exploração controlada pelos portugueses. Durante o século XVII foi conquistado e ocupado o reino de Zambéze. No século XVIII, Moçambique deixou de ser controlado pelo vice-reino da Índia passando a ser administrado diretamente por Portugal.

No século XIX, Moçambique, assim como Angola, e o corredor que existia entre as duas que regiões que hoje forma as atuais Zâmbia e Zimbabwe figuravam no chamado ‘Mapa Cor de Rosa’ que, de acordo com o projeto português ligava os dois territórios, controlando assim uma enorme faixa geográfica que se estendia do Oceano Atlântico ao Índico, de costa a costa.

Outras colônias portuguesas na África

A Guiné tornou-se uma importante colónia portuguesa, sobretudo pela produção de ouro, fator que atraiu os portugueses, que aí chegaram após a transposição do Cabo Bojador por Gil Eanes, em 1434. Desde o século XVII desenvolveram-se vários centros de colonização, sendo o território administrado por um capitão-mor.

As ilhas de Cabo Verde foram alcançadas por navegadores portugueses que voltavam da costa da Guiné, entre 1460 e 1462. As ilhas foram rapidamente povoadas por colonos provenientes da metrópole, não só cristãos, como também mouros e judeus, inclusive por pessoas deportadas. Escravos vindos da Guiné também foram levados para as ilhas e com isso a miscigenação racial e cultural ainda hoje é uma das características deste local.

O arquipélago de São Tomé e Príncipe foi descoberto por dois navegadores portugueses, Pero Escobar e João de Santarém, em 1470. Era um território desabitado e coberto por florestas virgens. Seu povoamento teve início em 1485, através de Álvaro de Caminha, capitão-donatário desta colónia. Mantendo nesta região uma vasta quantidade de mão de obra, sobretudo escravos oriundos de Angola e Moçambique, mas também judeus e mouros vindos da metrópole, aconteceu uma exploração em larga escala, primeiro do açúcar, depois do cacau e por fim do café. Também aqui a heterogeneidade da população é uma marca característica.

Durante os séculos de colonização os portugueses criaram numerosas instituições e infraestrutura, à semelhança da metrópole, mas permitir que se perdesse a condição de colónia, com a dependência política e econômica.

As colónias portuguesas da África foram as últimas das colónias africanas, dependentes de países europeus, a alcançar sua independência. Na sequência da Revolução de 25 de abril de 1974 em Portugal, chamada de ‘Revolução dos Cravos’, começou a luta pela independência que em algumas realidades aconteceu de forma violenta, gerando a guerra civil. A Guiné tornou-se independente em 23 de agosto de 1974, Moçambique em 25 de junho de 1975, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe em julho de 1975 e, por fim, Angola em 11 de novembro do mesmo ano.

Existe um traço do passado que liga estes países a Portugal, seja com as marcas da colonização que ainda continua forte, como também o passado comum, a língua portuguesa e os traços culturais.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-presenca-etiopia.html


sábado, 20 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - A partilha da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘A Europa dominou quase o mundo inteiro ao longo de vários séculos desde que começou a viajar para outros continentes, sobretudo, a partir da expansão comercial capitalista dos séculos XV e XVI, o que levou à formação de grandes impérios coloniais nos continentes periféricos do mundo.

Nesse assunto, normalmente nos lembramos do continente africano, que foi tomado, retalhado e explorado pelos diversos países europeus dentro do regime do Imperialismo que consolidou especialmente no final do século XIX. A África, porém, não foi totalmente dominada e temos dois países, Etiópia e Libéria, que escaparam da colonização. Deles falaremos num outro texto.

A divisão do continente africano

A divisão do continente africano que já acontecia desde o século XV, teve sua fase mais marcante na segunda parte do século XIX. A Conferência de Berlim celerada entre 1884 e 1885 organizou a delimitação das fronteiras da África entre as várias nações envolvidas. Nesta conferência foram definidas as normas que deveriam ser obedecidas pelas potências colonizadoras. Apesar do objetivo inicial da reunião ter sido o de acertar os limites conforme os interesses econômicos destes países na região, não foi possível alcançar um equilíbrio entre as ambições imperialistas de cada nação. A partilha da África foi decidida por Rússia, Estados Unidos e mais 14 países da Europa.

Líder do imperialismo na época, a Inglaterra dominou do norte do Mar Mediterrâneo até o extremo Sul do continente africano, região onde do Cabo da Boa Esperança. Benjamin Disraeli foi o grande nome da Inglaterra nessa discussão, pois conseguiu tomar o Canal de Suez do domínio francês e egípcio. Este canal encurtava a distância entre os centros da indústria europeia e as áreas de colonização da Ásia e além disso, ligava o mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho.

Disraeli adquiriu ações do governo egípcio, fazendo com que o canal de Suez e todo Egito tivessem dupla administração : inglesa e francesa. Já em 1904, o governo inglês apoiou a França na conquista do Marrocos, tendo como moeda de troca o abandono dos franceses das terras egípcias. Por fim, em 1885, a Inglaterra ainda anexou o Sudão, país localizado ao Sul do Egito.

A França, apesar de ter perdido o Egito para os britânicos, ficou com a maior parte do norte do continente dominando Argélia, Tunísia, ilha de Madagascar, Somália Francesa, Marrocos e Sudão que depois seria dominado pela Inglaterra.

A constante presença dos europeus no continente africano fez com que se desencadeassem diversas disputas colonialistas. Uma delas foi a Guerra dos Bôeres (1899-1902). A Inglaterra, que dominava há muito tempo a Colônia do Cabo, hoje África do Sul, entrou em conflito com os bôeres que eram colonos holandeses que dominavam as regiões de Orange e Transvaal.

A descoberta de ouro e diamantes na região de Joanesburgo, área dominada pelos bôeres, foi o que atraiu o interesse britânico. A Guerra dos Bôeres estourou em 1899 durando até 1902. A Inglaterra saiu vitoriosa e anexou o território de Orange e Transvaal às suas colônias.

A Alemanha, outro país colonizador, dominava a região que atualmente é conhecida como República dos Camarões, Togo, sudeste e oriente da África. Já a Itália deteve o litoral da Líbia, Somália e Eritréia. A Bélgica ficou com o Congo.

Consequências do colonialismo

Esta divisão, feita de acordo com os interesses coloniais, criou diversos conflitos na sociedade africana, gerou sérios problemas étnicos, econômicos e políticos.

Essa partilha da África entre as nações pretendentes além de gerar uma forte exploração dos recursos vegetais, minerais e animais do continente gerou a miséria que toma a população do continente, originando também a dívida externa que cresce a cada ano.

A divisão artificial das fronteiras fez com que os países que foram sendo formado a partir dessa divisão tivesse em seu interior povos e tribos oponentes, o que explica várias guerras e massacres que continuam acontecendo no continente.

Somente no período posterior à Segunda Guerra Mundial as nações colonizadoras foram se retirando, dando início ao processo de formação das modernas nações africanas que em algumas regiões ainda não foi concluído.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-partilha.html

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - O início do comércio de escravos na África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Ao longo do estudo que estamos fazendo sobre a História da África, com suas mazelas, mas com sua riqueza cultural, religiosa e linguística, pudemos perceber como a nova vertente da historiografia moderna tem incluído essa história no contexto da história das civilizações e na história mundial.

Nas últimas décadas vem sendo resgatados elementos importantes da história da África, sua ancestralidade em relação a outras regiões do mundo. A própria definição do nome do continente ganha realce nessa relação.

A historiografia trabalha também uma nova versão do conceito de ‘descobrimento’, porque numa visão anterior, falava-se do descobrimento a partir da chegada de alguns povos europeus a partir dos séculos XV e XVI. Hoje não se fala em descobrimento como se os povos africanos tivessem sido achados do nada, mas entende-se como encontro de civilizações com suas riquezas, diferenças e mazelas. Não se trata mais de falar em termos de superioridade ou inferioridade, mas de encontro entre diferenças que se complementam.

Um dos elementos que está sendo reestudado é o da escravidão. Antes atribuída exclusivamente aos europeus que levaram milhões de escravos negros para diversas regiões das Américas, agora compreende-se que a escravidão já era praticada no continente antes mesmo da chegada dos europeus.

Registros da escravidão

Existem registros de comércio e transporte de escravos ao longo do Deserto do Saara que datam do terceiro milénio a.C., sendo os mais antigos registros encontrados. Em seu reinado o rei egípcio Sneferu atravessou a quarta catarata do Rio Nilo até o que é hoje o Sudão moderno para capturar escravos e enviá-los para o norte, a fim de trabalhar nas obras do reino.

Uma das ocorrências que aconteciam com frequência era a condenação dos prisioneiros de guerra à escravidão. Isso ocorria de forma regular no antigo Vale do Nilo e na África. Em geral, quando dois exércitos se encontravam, o mais forte ou vencedor se julgava no direito de dispor da vida dos derrotados como mão de obras em seus empreendimentos. Alguns estudiosos falam, inclusive, no avanço que a escravidão representou, pois em vez de decretar a morte dos derrotados, eles eram condenados a uma morte mais lenta, servindo como mão de obra barata nos trabalhos do reino ou do povo vencedor. Durante os tempos de conquista e depois de derrotados, os núbios, por exemplo, foram levados como escravos pelos antigos egípcios.

Nas páginas da bíblia, no Livro do Êxodo, existe também a narrativa da condenação dos filhos de Jacó e seus descendentes à escravidão no Egito.  

Os Garamantes, por exemplo, também dependiam fortemente do trabalho escravo da África subsaariana. Eles usaram escravos em suas próprias comunidades para construir e manter sistemas de irrigação subterrâneos conhecidos pelos berberes como foggara. O antigo historiador grego Heródoto registrou no século 5 a.C. que os Garamantes escravizaram etíopes habitantes das cavernas, conhecidos como Troglodytae, perseguindo-os com carruagens.

Quando Roma se firmou como potência, no início do Império Romano, a cidade de Lepcis estabeleceu um mercado para comprar e vender escravos do interior da África Bantu. Isso se tornaria bastante comum e algumas cidades se enriqueceram pelo comércio de escravos em seus mercados.

No século V d.C., a Cartago romano também estava negociando escravos negros trazidos através do Saara, tanto que o império chegou a impor um imposto alfandegário sobre o comércio de escravos. Escravos negros parecem ter sido valorizados como escravos domésticos por sua aparência exótica. Alguns historiadores argumentam que a escala do comércio de escravos neste período pode ter sido maior do que nos tempos medievais devido à alta demanda por escravos no Império Romano, seja para os trabalhos forçados como também pelas lutas onde alguns mais fortes se destacavam como gladiadores.

Claro que, apesar de ter uma origem anterior, a chegada dos europeus e a constituição dos grandes impérios coloniais fizeram com que o comércio escravagista assumisse proporções numéricas e de crueldade nunca vistas.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas0.html