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quinta-feira, 18 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - O início do comércio de escravos na África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Ao longo do estudo que estamos fazendo sobre a História da África, com suas mazelas, mas com sua riqueza cultural, religiosa e linguística, pudemos perceber como a nova vertente da historiografia moderna tem incluído essa história no contexto da história das civilizações e na história mundial.

Nas últimas décadas vem sendo resgatados elementos importantes da história da África, sua ancestralidade em relação a outras regiões do mundo. A própria definição do nome do continente ganha realce nessa relação.

A historiografia trabalha também uma nova versão do conceito de ‘descobrimento’, porque numa visão anterior, falava-se do descobrimento a partir da chegada de alguns povos europeus a partir dos séculos XV e XVI. Hoje não se fala em descobrimento como se os povos africanos tivessem sido achados do nada, mas entende-se como encontro de civilizações com suas riquezas, diferenças e mazelas. Não se trata mais de falar em termos de superioridade ou inferioridade, mas de encontro entre diferenças que se complementam.

Um dos elementos que está sendo reestudado é o da escravidão. Antes atribuída exclusivamente aos europeus que levaram milhões de escravos negros para diversas regiões das Américas, agora compreende-se que a escravidão já era praticada no continente antes mesmo da chegada dos europeus.

Registros da escravidão

Existem registros de comércio e transporte de escravos ao longo do Deserto do Saara que datam do terceiro milénio a.C., sendo os mais antigos registros encontrados. Em seu reinado o rei egípcio Sneferu atravessou a quarta catarata do Rio Nilo até o que é hoje o Sudão moderno para capturar escravos e enviá-los para o norte, a fim de trabalhar nas obras do reino.

Uma das ocorrências que aconteciam com frequência era a condenação dos prisioneiros de guerra à escravidão. Isso ocorria de forma regular no antigo Vale do Nilo e na África. Em geral, quando dois exércitos se encontravam, o mais forte ou vencedor se julgava no direito de dispor da vida dos derrotados como mão de obras em seus empreendimentos. Alguns estudiosos falam, inclusive, no avanço que a escravidão representou, pois em vez de decretar a morte dos derrotados, eles eram condenados a uma morte mais lenta, servindo como mão de obra barata nos trabalhos do reino ou do povo vencedor. Durante os tempos de conquista e depois de derrotados, os núbios, por exemplo, foram levados como escravos pelos antigos egípcios.

Nas páginas da bíblia, no Livro do Êxodo, existe também a narrativa da condenação dos filhos de Jacó e seus descendentes à escravidão no Egito.  

Os Garamantes, por exemplo, também dependiam fortemente do trabalho escravo da África subsaariana. Eles usaram escravos em suas próprias comunidades para construir e manter sistemas de irrigação subterrâneos conhecidos pelos berberes como foggara. O antigo historiador grego Heródoto registrou no século 5 a.C. que os Garamantes escravizaram etíopes habitantes das cavernas, conhecidos como Troglodytae, perseguindo-os com carruagens.

Quando Roma se firmou como potência, no início do Império Romano, a cidade de Lepcis estabeleceu um mercado para comprar e vender escravos do interior da África Bantu. Isso se tornaria bastante comum e algumas cidades se enriqueceram pelo comércio de escravos em seus mercados.

No século V d.C., a Cartago romano também estava negociando escravos negros trazidos através do Saara, tanto que o império chegou a impor um imposto alfandegário sobre o comércio de escravos. Escravos negros parecem ter sido valorizados como escravos domésticos por sua aparência exótica. Alguns historiadores argumentam que a escala do comércio de escravos neste período pode ter sido maior do que nos tempos medievais devido à alta demanda por escravos no Império Romano, seja para os trabalhos forçados como também pelas lutas onde alguns mais fortes se destacavam como gladiadores.

Claro que, apesar de ter uma origem anterior, a chegada dos europeus e a constituição dos grandes impérios coloniais fizeram com que o comércio escravagista assumisse proporções numéricas e de crueldade nunca vistas.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas0.html

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - A Escravidão Negra antes de Portugal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Antes da chegada dos europeus na África já existia a realidade da escravidão seja acima como abaixo do Deserto do Saara. A escravatura não nasceu com os países europeus, mas ganharam com eles dimensões nunca vistas, pois a escravidão ganha uma nova dimensão com comércio transatlântico. Quando os europeus avistaram África pela primeira vez no século XV, encontraram reinos bem organizados, alguns deles envolvidos num sistema de captura, servidão e comércio de pessoas.

Estrutura social e comércio de pessoas

A África estava inserida em redes de comércio de escravos antes dos europeus. O comércio transaariano e árabe,por exemplo, levou milhões de africanos para o Norte de África, Oriente Médio e Ásia. Alguns reinos africanos participavam da economia baseada na escravidão, trocando cativos por sal, tecidos, ouro e, mais tarde, por armas.

Em algumas regiões, a escravatura fazia parte da própria estrutura social e alguns reinos dependiam dela para sustentar a economia e afirmar o seu poder político. Prisioneiros de guerra, devedores, condenados por crimes de natureza civil ou povos considerados de fora podiam ser transformados em escravos, ou seja, o risco da escravização era um fenómeno que fazia parte da vida política africana.

Outro elemento que foi se consolidando com o tempo foi a constituição de algumas cidades como mercados para o comércio de escravos. Cidades como Benim ou Timbuktu tinham praças de venda onde as elites africanas comercializavam pessoas capturadas em guerras ou disputas internas. Quando os portugueses, por exemplo, começaram a negociar, não inventaram nada, entrando num sistema que já funcionava, comprando aquilo que os próprios africanos vendiam. Só mais tarde o tráfico transatlântico transformaria este comércio numa engrenagem global.

O que mudou com a chegada europeia não foi a existência da escravatura, mas a sua escala e intensidade. Armas de fogo, tecidos e bens de maior valor oferecidos pelos portugueses e, depois, por outras potências europeias aumentaram drasticamente o número de guerras internas. Alguns reinos africanos passaram a depender desse comércio para manter seu poder militar e político. Com colaboração ativa de elites locais, chefes de guerra, comerciantes e governantes é que o tráfico atlântico atingiu a dimensão que atingiu.

Diversificação de formatos

A escravatura praticada na África não era uniforme, existindo formas mais brandas em que o escravisado era integrado na servidão doméstica, mas também existiram formas extremamente violentas com trabalho forçado em larga escala, deportações internas, castigos severos e utilização de cativos como moeda diplomática.

Houve povos e líderes africanos que resistiram ativamente em relação tanto da escravatura interna como ao tráfico transatlântico. Em certas regiões do Congo, houve tentativas de restringir e mesmo de proibir o comércio de escravos com europeus. Além do mais, pessoas que haviam fugido fundaram comunidades livres em zonas de difícil acesso.

A grande responsabilidade europeia está na industrialização do tráfico de pessoas pela exploração de rivalidades entre tribos, pelo favorecimento a chefes de guerra que lucravam com a venda de prisioneiros.

Os europeus ampliaram a sistemática da escravatura e a transformaram num negócio internacional de escala brutal e muito lucrativo. Por isso, a escravidão de pessoas continua sendo uma das chagas mais profundas da história da humanidade em todos os formatos, em todos os tempos e lugares.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-escravidao.html

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A África durante a Idade Média

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Musa retratado segurando um Globo de Ouro Imperial no Atlas Catalão de 1375

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘De forma geral, o estudo da chamada Idade Média mostra que essa classificação que abrange o período do século V a XV se concentra em três eixos principais: a formação da cristandade na Europa Ocidental, o desenvolvimento do Império Bizantino na Europa Oriental e o nascimento e expansão da civilização islâmica, desde a Península Ibérica até a Pérsia, abrangendo também o norte da África e o sul da Europa.

Essa periodização histórica, abrangendo também os demais períodos serve para Europa, não se encaixando no estudo dos demais continentes.

Normalmente, quando se chega ao tema da expansão islâmica, a questão das civilizações que se desenvolveram na África nesse período é tratada, porém de forma muito suscinta e de forma pouco expressiva. A África na Idade Média constitui um tema que deve ser compreendido de forma sistemática, para que se possa compreender a formação do mundo moderno e nele as diversas potências europeias.

Formação histórica do continente africano

No continente africano diversas civilizações se destacaram desde a antiguidade. Foi o caso dos cartagineses estabelecidos no noroeste da África que são lembrados quando se fala da expansão do Império Romano do ocidente. Há o caso da civilização egípcia que floresceu no nordeste africano a partir do delta do rio Nilo e se tornou uma grande potência que não pode ser lembrada apenas pelas suas pirâmides. Recordamos também a civilização da Núbia, situada abaixo do Egito; o reino de Axum, que se desenvolveu na região da atual Etiópia, entre outras civilizações.

Essas civilizações, algumas em maior e outras em menor grau, mantiveram contato com as civilizações da Europa Ocidental, como a romana, e outras que se desenvolveram na Península Arábica, nas planícies iranianas e no Extremo Oriente.

O norte da África passou a sofrer, no período da Idade Média, uma intensa penetração da civilização árabe com a expansão islâmica. A partir do século VII, o islamismo passou a expandir-se por toda a Península Arábica e em direção ao norte africano e ao sul europeu, penetrando na Península Ibérica. Nesse período, houve um choque e um enriquecimento cultural da Europa pelo contato com as culturas africanas, e com as civilizações desse continente que já haviam sido cristianizadas.

Na região do Magrebe, a conversão ao islã ocorreu de forma sistemática, seja pelos reinos poderosos como o de Mali ou pelos povos nômades. Com a islamização, a prática da escravidão, que era bem comum no continente africano desde a Antiguidade, intensificou-se. Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu para estimular ainda mais a escravidão, que era praticada antes mesmo de Maomé, já no século VI, quando os mercadores árabes frequentavam os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos.

As populações negras que não se tornaram muçulmanas também consideravam a escravidão um fato normal e alguns reis africanos tinham centenas de escravos como soldados e em suas guardas pessoais.

Além do reino de Mali, outros reinos também tiveram destaque no continente africano nesse período, principalmente aqueles que se desenvolveram abaixo do deserto do Saara, tais como o Reino de Gana, o de Kanem-Bornu, Iorubá e Benin. A principal forma de contato e de comércio entre esses reinos eram as caravanas de camelos, que permitiam o deslocamento para longas distâncias em meio ao deserto com uma quantidade grande de mantimentos, pedras preciosas, escravos, metais, porcelanas, tapetes e muitas outras mercadorias.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html

sábado, 18 de março de 2023

Trabalho escravo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Cardeal Dom Sergio da Rocha,

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil


‘Numa época de grandes avanços científicos e tecnológicos, marcada pelo risco de alguém se tornar ‘escravo do trabalho’, perdura tristemente o trabalho escravo. Notícias a respeito têm sido veiculadas pela mídia, nem sempre recebendo a devida atenção, indignação e resposta efetiva. As vítimas têm o seu clamor sufocado, o que leva as novas formas de escravidão a se perpetuarem e a se agravarem. Dentre elas, estão migrantes provenientes das áreas mais pobres do país e pessoas que sofrem com a miséria e a fome. Notícias recentes sobre a exploração de trabalhadores provenientes do Nordeste, principalmente da Bahia, têm favorecido algum conhecimento e reflexão sobre esta dura realidade. O caso veio a público com particular intensidade, gerando reações de indignação, mas certamente muitas outras situações ocorrem sem conhecimento público, nem a necessária resposta,

 A capacidade humana de indignar-se perante esta forma de violação da vida e da dignidade das pessoas ainda se manifesta, trazendo esperança. Contudo, a comoção provocada pelo noticiário e pelas redes sociais não é suficiente. É preciso a ação decidida e permanente de autoridades e órgãos públicos, a mobilização da sociedade civil organizada, a participação de igrejas, universidades, meios de comunicação social e organizações de defesa dos direitos humanos. Iniciativas em andamento, como a Rede Um Grito pela Vida, de combate ao tráfico de pessoas, necessitam ser valorizadas e difundidas.

Além das ações de combate ao trabalho escravo, é preciso investir na sua prevenção. Para tanto, é preciso aprofundar a questão das suas causas para prevenir o surgimento de novos casos.  Há fatores, como a migração forçada em busca de sobrevivência ou melhores condições de vida, que tornam os trabalhadores presas fáceis de trabalho escravo. A miséria e a fome criam um terreno fértil para submeter a condições de escravidão, trabalhadores, migrantes, mulheres e crianças. É preciso combater as causas e não apenas os casos particulares. Além disso, são sempre muito necessárias campanhas veiculando informações e alertas para a população a fim de evitar que as pessoas se tornem vítimas de pessoas ou grupos inescrupulosos que se aproveitam da sua vulnerabilidade social. Sinais de esperança se descortinam no horizonte, como iniciativas de solidariedade e de justiça, ações de superação da miséria e da fome e projetos socioeducativos. Mas, é árduo e longo o caminho a percorrer para eliminar o trabalho escravo.  A complexidade e a gravidade da realidade social não devem ser motivo para a paralisia e o desânimo. É preciso dizer ‘não’ ao trabalho escravo e à escravidão de qualquer natureza, que não condiz com a dignidade da pessoa, ‘imagem e semelhança’ de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-03/cardeal-sergio-rocha-trabalho-escravo.html

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Francisco: ainda hoje há muitos homens e mulheres escravizados

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
FFrancisco recebeu participantes da Conferência de 'Solidariedade Trinitária Internacional'

*Artigo de Silvonei José


‘Ainda hoje há muitos homens e mulheres escravizados, disse o Papa Francisco recebendo na manhã desta segunda-feira (25.04), no Vaticano, os participantes da Conferência de ‘Solidariedade Trinitária Internacional’, expressão da Ordem da Santíssima Trindade. Depois de agradecer as palavras de saudação do Superior Geral Francisco disse que ficou impressionado ao ver como eles puderam atualizar o carisma da Ordem dando vida a esta organização, que defende a liberdade religiosa não de forma teórica, mas cuidando de pessoas que são perseguidas e encarceradas por causa de sua fé. Ao mesmo tempo - disse ainda -, não faltam estudo e reflexão da parte deles, que também encontram expressão na esfera acadêmica através do curso de estudos sobre liberdade religiosa no Angelicum, de Roma, uma cadeira com o nome de seu fundador São João de Matha.

Francisco parabenizou os presentes por este compromisso que estão cumprindo, inspirado no carisma original. Voltando depois ao tempo de São Francisco de Assis, disse o Papa : ‘o Espírito Santo suscitou naquele tempo - como sempre faz, em todas as épocas - testemunhas capazes de responder, segundo o Evangelho, aos desafios do momento’.

‘João de Matha foi chamado por Cristo a dar sua vida pela libertação dos escravos, tanto cristãos como muçulmanos. Ele não queria fazer isto sozinho, individualmente, mas fundou uma nova Ordem para este fim, uma ordem 'em saída', nova também em sua forma de vida, que deveria ser um apostolado 'no mundo'. E o Papa Inocêncio III deu sua aprovação e seu total apoio’.

Ordem da Santíssima Trindade e dos cativos’, ou seja, escravos, prisioneiros. Também esta combinação, destacou Francisco, faz refletir : a Trindade e os escravos. Não se pode deixar de pensar na primeira ‘pregação’ de Jesus na sinagoga de Nazaré, quando leu a passagem do profeta Isaías : ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, / por isso ele me ungiu / e me enviou para trazer a boa nova aos pobres, / para proclamar a libertação aos cativos / ... para libertar os oprimidos’ (Lc 4,18; cf. Is 61,1-2).

Jesus é o Enviado do Pai e é movido pelo Espírito Santo. Nele, toda a Trindade opera :

‘E a obra de Deus Amor, Pai, Filho e Espírito Santo, é a redenção do homem: por esta razão, Cristo derramou seu sangue na cruz. Em resgate por nós. Esta obra é prolongada na missão de toda a Igreja. Mas em sua Ordem encontrou uma expressão singular, peculiar, eu diria ‘literal’ - um pouco como a pobreza em Francisco -, ou seja, o compromisso com o resgate dos escravos’.

Francisco recordou que este carisma é, infelizmente, de uma atualidade flagrante! Seja porque mesmo em nosso tempo, que se vangloria de ter abolido a escravidão, na realidade há muitos, demasiados homens e mulheres, até mesmo crianças reduzidas a viver em condições desumanas, escravizadas. Seja porque, como evidenciado durante a conferência, a liberdade religiosa é violada, às vezes pisoteada em muitos lugares e de várias maneiras, algumas rudes e óbvias, outras sutis e ocultas.

Antigamente, - disse o Papa - era costume dividir a humanidade entre bons e maus : ‘‘Este país é bom...’. - ‘Mas fabrica bombas!’ - ‘Não, é bom’ - ‘E este é mau...’. Não, hoje a maldade permeou a todos e em todos os países há bons e maus. A maldade, hoje, está em toda parte, em todos os Estados. Também no Vaticano, talvez!

O Papa finalizou seu breve discurso agradecendo pelo trabalho da Ordem e os encorajou a prossegui-lo, também colaborando com outras instituições, eclesiais ou não, que compartilham de seu nobre propósito. Mas, por favor, disse, sem perder sua especificidade, sem ‘diluir’ o carisma.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-04/francisco-ainda-hoje-muitos-homens-e-mulheres-escravizados.html

terça-feira, 28 de abril de 2020

Freiras na linha de frente contra o tráfico de seres humanos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 GABRIELLA BOTTANI
Irmã Gabriella Bottani

*Artigo de Sivia Constantini

‘Um provérbio etíope diz que ‘quando as aranhas juntam suas redes, elas podem abater um leão’. Esse é o espírito que anima Talitha Kum, a rede internacional de vida consagrada contra o tráfico de seres humanos.

Hoje, a rede fundada em 1990 está em 92 países dos cinco continentes. Um pequeno exército de cerca de 2.000 colaboradores, dos quais a maioria são religiosas, mas também há leigos e religiosos, dedicando suas vidas à tarefa de tentar salvar os escravos do século XXI.

Sim, estamos falando mesmo de ‘escravos’. Porque, de acordo com a Organização Mundial do Trabalho, estima-se que cerca de 40 milhões de pessoas estejam reduzidas à escravidão no mundo, em 182 países. E os números parecem estar aumentando.

Para entender a dinâmica dessa triste e ampla realidade, conversamos com a irmã Gabriella Bottani, missionária comboniana e coordenadora da rede Talitha Kum, e perguntamos a ela como ainda podemos falar de escravidão em 2020.

Uma das causas dessa situação se deve à grave vulnerabilidade, que piorou nos últimos anos. De fato, a vulnerabilidade não é o problema, mas a exploração. E, para nós da Talitha Kum, é importante enfatizar isso, porque a vulnerabilidade pode se tornar um ponto de encontro, de solidariedade, não necessariamente um espaço onde se possa explorar com fins lucrativos.’

– Quem são os escravos hoje?

Atualmente, os que são mais explorados em sua vulnerabilidade são mulheres, crianças (meninos e meninas) e populações migrantes.

As estatísticas são bastante consistentes ao afirmar que 30% são crianças menores de 18 anos e jovens adultos. Logicamente, a idade está ligada à capacidade prestar serviços, como acontece no mercado do sexo ou na servidão doméstica.

– Quais são as formas mais comuns de escravidão?

A exploração sexual é uma das formas de escravidão, embora com várias conotações. Porque, além da prostituição, há a pornografia.

Outra forma de escravidão é a exploração do trabalho, em que um nicho importante é a servidão doméstica. Mas há também escravos na área de pastoreio, construção, mineração, pesca, principalmente na pesca em alto mar. Os contextos são muito diversos.

E depois há o tráfico de meninas para casamentos forçados. Trata-se de um fenômeno que afeta não apenas a Ásia e a África, porque também foram registrados casos no mundo ocidental, por exemplo, nos Estados Unidos, mas também na Itália. Muitas vezes, esses fenômenos estão ligados às comunidades de migrantes que residem em nossos países e, em outros casos, são casamentos combinados na internet.

– Como alguém se enquadra na rede de tráfico de pessoas?

O fenômeno é extremamente complexo. Mas o que está na base é o desejo de uma vida melhor, de encontrar um emprego melhor.

Às vezes, essas pessoas recebem propostas concretas de trabalho escravo, às vezes emigram porque ouviram, de boca a boca ou por um anúncio, que em um determinado país se vive bem. Assim como nós, quando pensamos nos Estados Unidos ou Alemanha e temos certeza de que, nesses locais, é mais fácil encontrar um emprego melhor, sem ter feito uma análise séria da situação.

Às vezes, eles simplesmente tentam escapar da pobreza, uma pobreza digna, nem sempre da miséria desesperada.

Em geral, aqueles que vivem em um contexto de miséria são explorados dentro do país. É mais difícil para eles nos alcançar.

– Portanto, você entra no sistema de tráfico por um ato da própria vontade?

Devemos nos perguntar o que é vontade e liberdade. Entram temas na definição de ‘tráfico’ hoje, o que nos leva a profundas questões existenciais. Porque, se banalizamos, dizemos ‘coitadinho, eles o/a recrutaram e o/a levaram contra sua vontade.’ Mas nós, quando vamos à rua e conversamos com os meninos e meninas que vivem nessa situação, percebemos que isso não se encaixa realidade.

Na Sicília, por exemplo, meninos e meninas que se prostituem estavam passando fome. Eles queriam ou não? Que alternativa eles receberam? É muito complexo, porque alternativas são dadas quando uma pessoa tem um conjunto de possibilidades para escolher.

As desigualdades e ferimentos causados ​​por um modelo perverso impedem a possibilidade de escolha.

Por exemplo, eu trabalhei no Brasil com meninas que nasceram nas favelas, em barracos, e algumas foram abusadas e viveram em uma pobreza terrível.

Essas meninas chegavam à escola e atingiam o terceiro e o quarto ano da escola primária sem saber ler nem soletrar. Elas tinham uma desorganização tão grande do seu eu que eram completamente fragilizadas.

Essas meninas eram automaticamente recrutadas para exploração sexual.

Uma delas um dia veio me ver, estava feliz, ela tinha 10 anos e trazia um bebê nos braços. ‘Tia, ela me disse, olha a coisa mais linda que já fiz! Eu não sabia que poderia fazer uma coisa tão bonita!’ O filho nasceu dessa situação de abuso.

Às vezes, definimos e rotulamos ‘tráfico’ em categorias que não correspondem à realidade.

Existem situações em que o ‘sim’ da pessoa é a única opção possível.

É um sistema perverso que cria dinâmicas de grande pobreza.

Pensemos agora no problema do coronavírus. Fizeram confinamentos em todos os lugares e as pessoas estão morrendo de fome. Estão sendo criadas áreas assustadoras de vulnerabilidade. Quais serão as consequências, não sabemos.


– O que a rede Talitha Kum está fazendo nesta fase da pandemia de Covid-19?

Neste momento, muitas irmãs são forçadas a ficar em casa porque não podem sair devido ao confinamento.

Em alguns casos, com algumas organizações da Conferência Episcopal Italiana, estamos preparando e distribuindo kits de mantimentos para levar às pessoas que, de outra forma, passariam fome. Como aquelas que são forçadas à prostituição e que, sem clientes, não têm como sobreviver.

Colocamos trabalhadores para fazer máscaras. Em outros casos, as freiras levam o material para a casa das pessoas em fase de recuperação, para que a terapia ocupacional possa continuar e não interromper essa atividade produtiva, como crochê, artesanato… ou outras coisas que estavam fazendo.

– Qual é o carisma das irmãs de Talitha Kum?

O que nos une na rede Talitha Kum é a ‘abordagem centrada na vítima’, ou seja, a pessoa é o centro.

Então, dependendo do contexto, nosso acompanhamento é abrangente: formação humana, espiritual e apoio psicossocial, o que leva à reintegração econômica e, em vários casos, trabalhamos juntos na comunidade.

Por exemplo, há o trabalho manual, e os produtos são vendidos posteriormente. A anuidade é certamente um dos pontos comuns dos diferentes centros.

– Quantas pessoas vocês já salvaram?

Pelo contrário, são eles que nos salvam!

Mas falemos mais sobre a recuperação da vida. Em 2018, fizemos uma espécie de censo e percebemos que havíamos oferecido serviço a cerca de 15.500 pessoas em um ano.

Os serviços são diversos : acompanhamento espiritual, serviços de formação, etc. O serviço é muito extenso e costumamos fazer isso em conjunto com outras organizações. Nós não estamos sozinhos. Contribuímos para o processo de cicatrização, que é lento e traumático.

– O Papa Francisco fez da ação de vocês uma prioridade de seu pontificado. Que palavras ele quis compartilhar com vocês?

O Papa Francisco nos informou em várias ocasiões que se importa com a nossa ‘missão’, como ele a definiu. Por exemplo, ele insistiu na capacidade de colaborar. E acho que esse é o grande desafio.

O apoio do Papa é um dom que nos impulsiona a continuar com responsabilidade.

– O que a leva a continuar nessa luta contra a escravidão?

Neste momento, recolho também o trabalho que as outras irmãs fazem, e há histórias de fracasso, e são também essas que nos levam a seguir em frente.

Mas lembro-me do abraço no final da última Assembléia Geral, dado a nós por uma sobrevivente do tráfico : essa mulher descobriu que sua vida não era inútil e que ela podia fazer a diferença.

Ela havia escapado da Nigéria, chegou à Itália após mil incidentes e entrou no círculo da prostituição contra sua vontade. Então ela conseguiu escapar e se viu em um centro de acolhida administrado por freiras. Aqui ela fez todo o seu caminho de recuperação, de resgate à vida. Agora com 23 anos, ela retomou seus estudos e está reconstruindo sua vida. É isso que nos leva a continuar.

– E o que nós católicos podemos fazer?

Antes de tudo, é necessário não fechar os olhos. Tentar entender qual é a dinâmica, e não adquirir bens e produtos que provenham do trabalho escravo. Por exemplo, a Igreja nos Estados Unidos lançou uma campanha em favor de pescados que não empreguem mão de obra escrava na pesca.

E então, trabalhe para mudar a mente das pessoas, e essa é a responsabilidade especial dos educadores.

Outra ajuda é apoiar projetos. Um que é especialmente querido por nós é o Super Nuns, uma coleta de fundos à qual artistas de rua, designers e cartunistas se juntaram, para contar o que Talitha Kum está tentando fazer. Com as doações recebidas, eles nos ajudam a apoiar nossas redes.’



Fonte :
* Artigo na íntegra

domingo, 11 de agosto de 2019

Escravidão persiste na África Ocidental 400 anos após início de comércio transatlântico


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Angela Ukomadu e Nneka Chile


‘Blessing tinha só seis anos de idade quando sua mãe fez arranjos para ela se tornar uma empregada doméstica desassalariada de uma família da cidade nigeriana de Abuja com a promessa de que eles a colocariam na escola.

Em sua cidade natal do sudoeste da Nigéria, sua mãe tinha dificuldade para ganhar o suficiente para alimentar os três filhos. Mas quando Blessing chegou a Abuja, em vez de ir para a escola, a família a fazia trabalhar o dia todo, a espancava com um fio elétrico se ela esquecia uma de suas tarefas e a alimentava com sobras estragadas.

Mais tarde, quando sua mãe se mudou para a mesma cidade para ficar mais perto da filha, Blessing não tinha permissão de ficar a sós com ela durante as visitas.

Eles me diziam que minha mãe estava vindo, que eu não devia lhe dizer o que estava acontecendo comigo, que nem devia dizer nada’, diz ela sobre a família.

Se ela me perguntasse como estou, devia dizer que estava ótima, diziam’.

No momento em que o mundo lembra os 400 anos transcorridos desde que os primeiros escravos africanos registrados chegaram à América do Norte, a escravidão persiste como um flagelo dos tempos modernos. Estima-se que mais de 40 milhões de pessoas estejam submetidas a trabalhos forçados, casamentos forçados e outras formas de exploração sexual, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Blessing, hoje com 11 anos, é uma destas vítimas. Ela foi resgatada em 2016 pela Fundação de Erradicação do Tráfico de Mulheres e do Trabalho Infantil (Wotclef, na sigla em inglês), um grupo de combate ao tráfico humano, depois de dois anos de isolamento e abusos. Ela ainda está sob os cuidados da Wotclef, que consentiu que ela fosse entrevistada para esta reportagem.

Blessing é um pseudônimo exigido para proteger seu anonimato.

A África tem a maior prevalência de casos de escravidão, com mais de sete vítimas para cada mil pessoas, segundo um relatório de 2017 do grupo de direitos humanos Walk Free Foundation e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O relatório define escravidão como ‘situações de exploração que uma pessoa não consegue recusar ou deixar por causa de ameaças, violência, coerção, artimanhas e/ou abuso de poder’.

O tráfico sexual, que ludibria muitas pessoas levadas a crer que trabalharão em outra coisa, é uma das formas mais disseminadas e abusivas de escravidão moderna.


Fonte :