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terça-feira, 16 de junho de 2026

As grandes civilizações africanas - A Escravidão Negra antes de Portugal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Antes da chegada dos europeus na África já existia a realidade da escravidão seja acima como abaixo do Deserto do Saara. A escravatura não nasceu com os países europeus, mas ganharam com eles dimensões nunca vistas, pois a escravidão ganha uma nova dimensão com comércio transatlântico. Quando os europeus avistaram África pela primeira vez no século XV, encontraram reinos bem organizados, alguns deles envolvidos num sistema de captura, servidão e comércio de pessoas.

Estrutura social e comércio de pessoas

A África estava inserida em redes de comércio de escravos antes dos europeus. O comércio transaariano e árabe,por exemplo, levou milhões de africanos para o Norte de África, Oriente Médio e Ásia. Alguns reinos africanos participavam da economia baseada na escravidão, trocando cativos por sal, tecidos, ouro e, mais tarde, por armas.

Em algumas regiões, a escravatura fazia parte da própria estrutura social e alguns reinos dependiam dela para sustentar a economia e afirmar o seu poder político. Prisioneiros de guerra, devedores, condenados por crimes de natureza civil ou povos considerados de fora podiam ser transformados em escravos, ou seja, o risco da escravização era um fenómeno que fazia parte da vida política africana.

Outro elemento que foi se consolidando com o tempo foi a constituição de algumas cidades como mercados para o comércio de escravos. Cidades como Benim ou Timbuktu tinham praças de venda onde as elites africanas comercializavam pessoas capturadas em guerras ou disputas internas. Quando os portugueses, por exemplo, começaram a negociar, não inventaram nada, entrando num sistema que já funcionava, comprando aquilo que os próprios africanos vendiam. Só mais tarde o tráfico transatlântico transformaria este comércio numa engrenagem global.

O que mudou com a chegada europeia não foi a existência da escravatura, mas a sua escala e intensidade. Armas de fogo, tecidos e bens de maior valor oferecidos pelos portugueses e, depois, por outras potências europeias aumentaram drasticamente o número de guerras internas. Alguns reinos africanos passaram a depender desse comércio para manter seu poder militar e político. Com colaboração ativa de elites locais, chefes de guerra, comerciantes e governantes é que o tráfico atlântico atingiu a dimensão que atingiu.

Diversificação de formatos

A escravatura praticada na África não era uniforme, existindo formas mais brandas em que o escravisado era integrado na servidão doméstica, mas também existiram formas extremamente violentas com trabalho forçado em larga escala, deportações internas, castigos severos e utilização de cativos como moeda diplomática.

Houve povos e líderes africanos que resistiram ativamente em relação tanto da escravatura interna como ao tráfico transatlântico. Em certas regiões do Congo, houve tentativas de restringir e mesmo de proibir o comércio de escravos com europeus. Além do mais, pessoas que haviam fugido fundaram comunidades livres em zonas de difícil acesso.

A grande responsabilidade europeia está na industrialização do tráfico de pessoas pela exploração de rivalidades entre tribos, pelo favorecimento a chefes de guerra que lucravam com a venda de prisioneiros.

Os europeus ampliaram a sistemática da escravatura e a transformaram num negócio internacional de escala brutal e muito lucrativo. Por isso, a escravidão de pessoas continua sendo uma das chagas mais profundas da história da humanidade em todos os formatos, em todos os tempos e lugares.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-03/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-escravidao.html

 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Talitha Kum no Zimbábue: religiosas na luta contra o tráfico de seres humanos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
A capacitação de Talitha Kum reúne sacerdotes, religiosas e jovens no Zimbábue  (Foto: Suor Diana Kanyere (Coordinatore Nazionale))

*Artigo da Irmã Mufaro Chakuinga


‘Num mundo onde milhares de vidas se perderam à sombra do tráfico de seres humanos, Talitha Kum resplandece como um farol de esperança no Zimbábue, com as Pequenas Filhas de Nossa Senhora, conhecidas como Irmãs LCBL, na vanguarda da luta contra esse crime hediondo. Sob a orientação da Irmã Diana Kanyere, coordenadora nacional da Rede internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico de Seres Humanos, proporcionou um refúgio seguro aos sobreviventes, defendeu a mudança de políticas e sensibilizou para o flagelo do tráfico de seres humanos.

Em nível mundial, mais de 40 milhões de pessoas vivem na cilada da escravatura moderna, e milhares delas são exploradas todos os dias. No Zimbábue, a pobreza, o desemprego e a falta de oportunidades criaram um terreno fértil para a exploração de indivíduos vulneráveis por parte dos traficantes. As mulheres e as crianças são atingidas de maneira desproporcionada e muitas são levadas ao trabalho forçado, ao tráfico sexual e a outras formas de exploração.

As Irmãs LCBL formam líderes religiosos e jovens

As Irmãs LCBL tomaram medidas corajosas na luta contra o tráfico de seres humanos. Através de Talitha Kum, prestam serviços completos aos sobreviventes, entre os quais, aconselhamento, cuidados médicos e formação. «Acreditamos que cada sobrevivente merece dignidade, respeito e a oportunidade de reconstruir a própria vida», afirmou a Irmã Kanyere : «o nosso objetivo consiste em oferecer um ambiente seguro e de apoio onde possam curar as feridas, aprender e prosperar».

Mobilizar os líderes religiosos para que participem da luta contra o tráfico de seres humanos é uma pedra angular desse projeto. Em 2023, a organização realizou um seminário de formação para 30 religiosos e religiosas, assim como para 10 jovens de várias dioceses. Essa ação estratégica visa aproveitar a influência dos líderes religiosos para sensibilizar e inspirar uma mudança no seio de suas comunidades. Prestou-se atenção também à capacitação da futura geração de líderes antitráfico, através das iniciativas centradas nos jovens. Recentemente, a organização realizou workshops de formação para jovens embaixadores e estudantes universitários, dotando-os de conhecimentos e competências para que se tornem protagonistas da mudança.

Um convite à ação conjunta

Enquanto Talitha Kum no Zimbábue continua a lutar contra o tráfico de seres humanos, também lança um convite à ação direcionado a indivíduos, organizações e governos. «Não podemos fazer sozinhos», afirmou a Ir. Kanyere, «precisamos do apoio de todos para criar um mundo onde o tráfico humano deixe de ser tolerado».

O trabalho da organização é um testemunho do poder da ação coletiva das Pequenas Filhas de Nossa Senhora e dos parceiros na luta contra o tráfico de seres humanos. Apesar dos desafios que deve enfrentar, Talitha Kum no Zimbábue permanece comprometida na missão, guiada por um profundo sentido do objetivo e determinação de criar um mundo onde já não se tolere o tráfico de seres humanos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-02/projeto-sisters-africa-zimbabue-talitha-kum-trafico-pessoas-2025.html