Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

No debate teológico e nas declarações magisteriais, em reforço à doutrina
da ilicitude da guerra, o conceito de ‘guerra justa’ vem sendo cada vez mais
questionado. No entanto, esse conceito continua ressurgindo, e, para
sustentá-lo, invoca-se a autoridade de Santo Agostinho (354-430), que no debate
popular sobre a guerra aparece frequentemente como o primeiro teórico cristão,
se não mesmo como o ‘inventor’ da ‘guerra justa’. Mas Agostinho, como se sabe,
é uma alma sempre em movimento (inquieta), atenta às provocações
mutáveis da história, e seu pensamento evolui. Os estudiosos sabem que suas
posições devem ser lidas tanto no contexto, historicizando-as, quanto
dentro de uma visão global que as relativiza. Em vez disso, muitas vezes elas
são fossilizadas ou extrapoladas, quando não são, de fato, extraídas do
agostinismo posterior. No caso que nos interessa, para quem tem a paciência e a
sorte de lê-lo diretamente, não faltam indícios que mostram como sua visão
perspicaz da história não deixou escapar a ambiguidade fundamental, ou melhor,
até mesmo a inadmissibilidade da ‘guerra justa’.
As constatações em ‘De civitate Dei’
Em sua obra-prima de teologia da história, o De civitate Dei,
merecem destaque pelo menos duas ressalvas nada insignificantes sobre a guerra
justa. Uma é de natureza histórica, a outra, filosófica. Na primeira, Agostinho
constata que, na história do mundo, em uma humanidade pecadora, a guerra justa
é uma condição que, estritamente falando, não existe, pois, na realidade
factual, até mesmo a guerra justa é efeito e causa do pecado e serve, no
máximo, para mascará-lo. O Estado romano, com mais de mil anos de existência,
havia expandido seu domínio justamente invocando o princípio da ‘guerra justa’.
De fato, tomando como pretexto atos de injustiça (reais ou supostos) que
surgiam em várias partes do mundo, Roma intervinha com a guerra, formalmente
para saná-los, mas, na realidade, para ampliar seu império e criar sua própria
ordem : ‘A injustiça daqueles contra os quais foram travadas guerras justas
favoreceu o aumento do poder daqueles que as travaram […] A injustiça
contribuiu muito para o aumento do poder e criava os injustos para que houvesse
sujeitos contra os quais se pudessem travar guerras justas e aumentar o poder»
(De civitate Dei, IV, 15).
Da guerra nasce a guerra
Daí decorre outra observação que, historicamente, demonstra a futilidade e
o perigo dessa guerra : um Estado ‘nunca conseguirá exercer domínio estável
sobre aqueles que conseguiu subjugar com suas vitórias bélicas’ (De civitate
Dei, XV, 5); a guerra nunca produz paz verdadeira, mas sim uma paz instável
e prenúncio de uma nova guerra. Como observará Simone Weil em seus Cadernos,
a justiça é sempre ‘fugitiva do campo dos vencedores’, pois uma paz alcançada
pelas armas sempre excede a medida justa e espalha inexoravelmente sementes de
vingança. A guerra justa, portanto, revela-se historicamente falsa e nem mesmo
pode aspirar a ser funcional à paz.
O virtuoso utiliza as armas do diálogo
O segundo passo é de uma época posterior e de natureza filosófica. Em um
período longo e complexo, marcado pelo aparente absurdo do qual brota a
verdade, Agostinho argumenta que ‘o sábio’ é avesso às guerras ‘justas’ porque,
por serem justas, ele se sente no dever de travá-las, mas, ao fazê-lo,
contraria seu papel de sábio. De fato, para permanecer fiel à sua natureza, ele
não deveria sentir necessidade de guerra nem mesmo diante da injustiça (De
civitate Dei, XIX, 7). Enquanto na primeira observação Agostinho, como
historiador, destaca a vontade de poder que está historicamente inerente à
guerra justa — que serve, na verdade, para promover o imperialismo do mais
forte —, na segunda, como sábio, ele percebe a contradição inerente ao conceito
de guerra justa. Diríamos que, na expressão ‘guerra justa’, a negatividade do
substantivo (guerra) sufoca a positividade do adjetivo (justa) a ponto de fazer
com que a expressão ‘guerra justa’ se desintegre e se reduza a um oxímoro
impossível. A própria justiça imporia, de fato, a proibição da guerra, e com a
escolha da solução violenta contradiz-se a virtude e priva-se de seu primado o logos,
que é próprio do sábio e do virtuoso. No caso do conflito, a tarefa da
sabedoria é buscar racionalmente as razões das partes em conflito, o que deve
ser conduzido com as armas pacíficas do diálogo e da persuasão.
Sabedoria política : alcançar a paz pela paz
Parece-me que, na perspectiva agostiniana, a guerra justa representa a
latência, disfarçada, daquele pecado que, segundo a expressão obscura e
sugestiva do Gênesis (Gênesis, 4, 7), está agachado à porta do violento
Caim. Que cada um perceba até que ponto as reflexões de Agostinho podem
penetrar profundamente na lógica do nosso próprio sentir. Elas concordam com
outra afirmação de Agostinho, luminosa e mais perentória, também de sua fase
tardia e, portanto, de caráter, diríamos, conclusivo : ‘É mais glorioso matar a
guerra com a palavra do que os homens com a espada, e conquistar e alcançar a
paz com a paz, não com a guerra’ (Epistolae, 229, 2). É um hino à
verdadeira missão da sabedoria política. De fato, ela contraria a ideia de que
a paz possa ser fruto da guerra e invoca a busca dialógica e persuasiva da
solução dos conflitos, antes e em vez de que estes degenerem em guerras; e
canaliza a própria busca da glória mundana (típica do político) para a paz.
Confiamos que, assim, possa emergir uma visão menos dura e menos rígida, mas
sim mais complexa e abrangente, e menos convencional, daquele Agostinho que —
vale lembrar — em Hipona tinha sua cátedra na Basílica da Paz.
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-10/reservas-santo-agostinho-guerra-justa.html
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