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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Santo Agostinho e a IA: o pensamento agostiniano na Magnifica humanitas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Frei Enrique Eguiarte


‘Neste comentário, frei Enrique Eguiarte, OAR, um dos maiores especialistas contemporâneos em Santo Agostinho, analisa o profundo pano de fundo agostiniano presente na Encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV. A partir das referências explícitas e implícitas ao bispo de Hipona, o autor mostra como conceitos centrais da tradição agostiniana — a dignidade humana, a verdade, a justiça, a paz e a unidade — iluminam o debate contemporâneo sobre a Inteligência Artificial (IA), o mundo digital e o futuro da humanidade.

Babel ou Jerusalém : a grande decisão do mundo digital

A nova encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, segue em todos os momentos um esquema nitidamente agostiniano. Desde as imagens que propõe no início do documento — a torre de Babel e a reconstrução da muralha de Jerusalém por parte de Neemias — ficam resumidos os principais conteúdos da encíclica.

Deste modo, aqueles que buscam nos elementos tecnológicos e cibernéticos novos modos de dominação e de exercício do poder, esquecendo a dignidade do ser humano, são comparados aos construtores da torre de Babel. A eles a encíclica dirige uma exortação e um chamado para redescobrir não apenas a dignidade de toda pessoa humana, mas também a necessidade de viver na verdade. Para isso, parte dos princípios essenciais da Doutrina Social da Igreja, não apenas para comentá-los, mas para aplicá-los ao uso e ao usufruto dos meios digitais contemporâneos.

Como fundamento do pensamento de Leão XIV — e não poderia ser de outro modo — aparece a figura luminosa de Santo Agostinho. Dele são mencionados quatro textos explícitos e um implícito.

O primeiro deles, e com uma lógica evidente ao tratar da dignidade do ser humano e de sua grandeza, é a conhecida passagem das Confissões : ‘Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti’ (conf. 1,1).

Trata-se de um texto que resume admiravelmente tudo o que o pontífice apresenta sobre a dignidade humana. De fato, como assinala o Papa, reiterando a doutrina clássica da Igreja, o ser humano possui dignidade porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Por isso, toda pessoa não apenas possui dignidade, mas também uma grandeza implícita e ontológica, que não depende de sua produtividade nem de sua valorização externa.

Essa grandeza é inerente ao seu ser, pois foi criada à imagem de Deus e traz em si um coração inquieto que a impulsiona para Ele, sendo a única criatura do universo chamada a participar eternamente da vida divina.

Em segundo lugar, o Papa cita outro texto que, de algum modo, percorre toda a encíclica como um baixo contínuo. Trata-se do pensamento apresentado por Santo Agostinho em A Cidade de Deus, convertido no fundamento de toda esta obra e, ao mesmo tempo, no centro da teologia agostiniana da história : ‘Dois amores edificaram duas cidades’.

Posteriormente, o bispo de Hipona explica quais são esses dois amores : ‘o amor de si mesmo até o desprezo de Deus e o amor de Deus até o desprezo de si mesmo’ (ciu. 14,28). Esta é a alternativa diante da qual se encontra todo ser humano e segundo a qual constrói uma das duas cidades.

Novamente, como assinala acertadamente o Papa no início da encíclica, é necessário optar entre Babel e Jerusalém. Para Santo Agostinho, a cidade deste mundo é Babilônia, cujo nome está etimologicamente relacionado com Babel, pois ambas significam — como recorda o próprio Agostinho aludindo às línguas semíticas — ‘confusão’ (en. Ps. 136,1).

Frente a isso, a cidade de Deus pode identificar-se espiritualmente com Jerusalém. Por isso Santo Agostinho destaca que Jerusalém pode ser interpretada exegeticamente como ‘visão de paz’ (en. Ps. 136,1), meta última da peregrinação do ser humano neste mundo.

Assim, a Doutrina Social da Igreja ajuda para que os elementos próprios da Inteligência Artificial e do mundo digital possam se orientar e se converter em ferramentas úteis para os peregrinos que se dirigem a Deus, e não, pelo contrário, em obstáculos que não apenas arrebatam a dignidade dos seres humanos, mas acabam se tornando impedimentos para sua autêntica realização.

Justiça, paz e dignidade humana no pensamento de Santo Agostinho

Posteriormente, cita-se um texto da Enarratio in Psalmum 84, no qual Santo Agostinho comenta o versículo do Salmo 84,11b (85,11b) : ‘A justiça e a paz se beijam’.

Santo Agostinho comenta :

‘Ninguém há que não deseje estar em paz, mas nem todos querem praticar a justiça. […] Mas tu deves praticar a justiça, já que a paz e a justiça se beijam, não estão em discórdia. E tu, por que não estás de acordo com a justiça? Por exemplo, diz-te a justiça : não roubes, e tu não lhe dás ouvidos; não cometas adultério, e te fazes de surdo; não faças a outro o que não queres que façam a ti; não fales de outros o que não queres que falem de ti. […] Queres encontrar-te com a paz? Pratica a justiça’ (en. Ps. 84,12).

Na extensa passagem recolhida pela encíclica, o bispo de Hipona assinala que não pode existir paz sem justiça, insistindo que ambos os elementos são inseparáveis. Onde há justiça, favorece-se necessariamente o surgimento da paz.

Em seu comentário ao salmo, Santo Agostinho introduz ainda outro elemento fundamental para a encíclica : o mistério da Encarnação, embora este segundo texto não tenha sido usado no documento pontifício.

A natureza humana goza de uma dignidade insuspeitada porque o Filho de Deus assumiu a carne no seio da Virgem Maria. Precisamente a isso alude Santo Agostinho pouco depois do texto citado pelo Papa, quando comenta o versículo : ‘A verdade brotou da terra’.

O bispo de Hipona interpreta estas palavras como uma referência ao nascimento de Cristo, pois Ele é a Verdade que se fez verdadeiramente carne no seio de Maria, simbolizada pela terra fecunda (cf. en. Ps. 84,13).

Unidade, comunhão e corpo de Cristo na era digital

Uma terceira citação é extraída do Sermão 272, uma brevíssima homilia que Santo Agostinho pregou em um domingo de Páscoa aos seus fiéis, especialmente aos neófitos ou infantes, como gostava de chamá-los.

Este é o texto :

‘O que vemos tem aspecto corporal; o que entendemos, fruto espiritual. Portanto, se queres entender o corpo de Cristo, ouve o Apóstolo que diz aos fiéis : Vós sois o corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12,27). Em consequência, se vós sois o corpo de Cristo e seus membros, sobre a mesa do Senhor está posto o mistério que vós mesmos sois : recebeis o mistério que sois vós. A isso que sois, respondeis ‘Amém’, e ao responder (assim) o confirmais. Ouves, pois : ‘Corpo de Cristo’, e respondes : ‘Amém’. Sê membro do corpo de Cristo, para que o teu ‘Amém’ responda à verdade’.

Neste texto, breve, mas denso, Santo Agostinho sublinha dois elementos que o Papa retoma expressamente : a unidade e o compromisso de perseverar nela, pois todos formamos o Corpo de Cristo, bem como a santidade, dado que esse Corpo é santo.

Por isso adquire grande relevância a resposta dos fiéis : o ‘Amém’. Esta afirmação não apenas expressa a fé na presença real do Corpo de Cristo nas espécies eucarísticas, mas também o duplo compromisso de trabalhar pela construção da paz e de viver santamente como membros dignos desse mesmo Corpo.

A última citação de Santo Agostinho é implícita, pois o Papa retoma palavras pronunciadas em seu discurso à Cúria Romana por ocasião da saudação de Natal em 22 de dezembro de 2025, onde reiterou a frase agostiniana escolhida como lema pontifical : In illo uno unum, ou seja, ‘naquele que é um, sejamos todos um’ (en. Ps. 127,3).

Também aqui aparece o convite à unidade, ao trabalho comum e à construção compartilhada da cidade de Deus, a Jerusalém celestial. Unidos, como Neemias na reconstrução de Jerusalém, e não dispersos no egoísmo próprio de Babel.

A contribuição agostiniana de Magnifica humanitas

Assim, embora as citações textuais de Santo Agostinho não sejam numerosas, o pensamento agostiniano percorre toda a encíclica e sustenta suas linhas mestras : a caridade como princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja; o amor e a paixão pela verdade; a dignidade do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus — ideia presente nos diversos comentários agostinianos ao livro do Gênesis —; a busca da justiça; a oposição a toda forma de exploração humana; a rejeição da guerra; o amor à paz; o valor da formação e da educação; a fraternidade universal; e, finalmente, o destino eterno de todo ser humano.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-06/santo-agostinho-inteligencia-artificial-magnifica-humanitas-leao.html

 

domingo, 31 de maio de 2026

Ecos de cidades ricas em história

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mario Panizza

 

‘A Argélia abrange uma área muito extensa, delimitando um ambiente diferenciado tanto pela natureza do território como pela composição dos centros urbanos. As razões dessa variedade são múltiplas : sobretudo climáticas e geográficas, mas também históricas, ligadas às vicissitudes de conquistas e de libertação que marcaram o desenvolvimento de todo o país. A Argélia e a Tunísia formavam a Numídia, reino berbere que se torna, sob Massinissa, um importante aliado de Roma. Após a conquista pelos Vândalos e, sobretudo, na sequência da chegada dos Árabes, a estrutura social transforma-se profundamente. De facto, a cultura islâmica introduz mudanças que se consolidam ao longo de muitos séculos. As cidades enriquecem-se com mesquitas e palácios caracterizados por uma arquitetura funcional e estilisticamente definida, complementada, além disso, por decorações de particular cuidado e requinte. Depois de ter feito parte do Império Otomano, a partir de 1830 é território de conquista da França; e só em 1962, após seis anos de uma guerra feroz e sangrenta, alcança a independência.

Do ponto de vista geográfico e climático, o país é caracterizado por três faixas paralelas que se sucedem de norte a sul : a costeira, com um clima temperado que beneficia da influência do mar, bastante verde, chegando mesmo a apresentar florestas na Região da Cabília, embora as fontes de água doce sejam bastante limitadas, tal como, aliás, em toda a região magrebina; a faixa central, a estepe, que cobre uma superfície muito vasta, árida, povoada de arbustos, utilizada para a pastagem, com um clima de fortes amplitudes térmicas; por fim, a faixa mais meridional, o deserto, que tende a expandir-se e a conquistar cada vez mais superfície a norte. Para contrariar esta pressão, que as variações climáticas estão a acelerar, foi criada uma barreira verde com 1500 quilômetros de comprimento e 20 de profundidade.

No seio desta rica diversidade ambiental, algumas áreas apresentam ecossistemas preciosos, mas frágeis, que devem ser salvaguardados, como o Parque nacional do Tassili n’Ajjer, patrimônio da Unesco desde 1982, rico em testemunhos de arte rupestre pré-histórica. Em 1982, foram também incluídos no patrimônio da Unesco os sítios do Vale da M’zda, de Djémila, de Tipasa e de Timgad. Os três últimos correspondem a cidades romanas, estruturadas segundo o traçado clássico do cardo e do decumano.

Djémila apresenta uma condição particular : situada a 900 metros de altitude, adapta o traçado urbanístico romano a um terreno montanhoso, desenvolvendo-se dentro de uma área circundada pelos limites orográficos que acompanham dois riachos na direção norte-sul. Nascida como um pequeno centro, expande-se ao longo de todo o período da dominação romana, dotando-se de importantes edifícios públicos, sagrados e de serviço para a cidade. Os vestígios arqueológicos descrevem claramente o desenho de um plano geral que conserva intactas, ainda hoje, algumas partes monumentais, incluindo o Arco de Caracala.

Uma situação totalmente diferente é a de Tipasa, cidade costeira cuja origem está ligada à função de entreposto comercial no Mediterrâneo, utilizado pelos romanos também para fins militares na conquista da Mauritânia. Os vestígios encontram-se dentro de uma estrutura romana bem definida; pertencem, contudo, a um conjunto de testemunhos sobrepostos que remetem para as civilizações que se sucederam. A terceira cidade romana Patrimônio da Unesco é Timgad, situada no interior, nas encostas das montanhas a sul de Constantina. O traçado urbano é o canônico, onde a ordem das vias e a disposição dos serviços estão contidas num perímetro de desenho regular, projetado ad hoc no momento da fundação. Mandada construir pelo imperador Trajano em 100 d.C., Timgad servia de guarnição militar. Desenterrada das areias do deserto, foi descoberta no século XIX, revelando um conjunto de monumentos muito bem conservados. O Fórum, a Biblioteca, o Arco triunfal e as termas descrevem uma cidade de dimensões notáveis, que o tempo projetou muito além dos limites do recinto militar original.

Porém, a história urbana da Argélia não reside apenas nas cidades romanas; um capítulo muito importante é ocupado pela medina árabe, que condensa um modelo de vida comunitária que ainda hoje reúne todas as funções que dão vida à cidade : a residência, o artesanato, o comércio. Uma medina de particular interesse é a de Constantina, a terceira cidade da Argélia depois da capital e de Orano, que se apresenta numa condição orográfica muito particular : ergue-se sobre um planalto elevado, a 700 metros de altitude, circundado por um fosso muito profundo, escavado por um curso de água. A sua ligação ao território é assegurada por pontes de vão único que marcam os pontos de acesso à cidade, delineando as suas linhas de travessia interna.

Porém, a medina mais rica em elementos artísticos é sem dúvida a Kasba de Argel, inserida na lista do patrimônio da UNESCO em 1992, que se abre para o mar num ponto de grande beleza paisagística. Inclui edifícios históricos, tanto civis como religiosos, mas, acima de tudo, completa uma faixa de terra firme onde se sucedem obras arquitetônicas de várias épocas e de grande relevância.

Percorrendo o passeio marítimo, depara-se com o monumento Maqam Echahid, erigido em 1982, vinte anos após o fim da guerra de libertação, em honra dos mártires da independência. Este monumento, que constitui um símbolo bem presente, não só pela sua dimensão e posição isolada e visível mesmo de longe, reúne no seu interior testemunhos e documentação fotográfica da resistência da população à dura repressão francesa.

O outro símbolo bem visível do mar, este de caráter religioso, é a Grande Mesquita, imponente tanto na sua estrutura arquitetônica como no perfil do seu minarete. Embora ‘moderna’ pelas linhas geométricas que a compõem e que marcam as naves e as colunas encimadas por arcos mouriscos, é a mesquita mais antiga da cidade, datada de 1018.

Símbolo da religião católica é a Basílica menor de Nossa Senhora de África, construída a partir de 1855 e consagrada em 1872, na zona norte da cidade, num alto promontório panorâmico. Também aqui a verticalidade é o elemento de destaque que se impõe sobre a cidade. A altitude do local (124 metros acima do nível do mar) e a altura de uma cúpula muito importante, que ocupa grande parte do volume interior do edifício, definem um terceiro polo da cidade.

Fora da capital, Leão XIV deslocou-se para visitar Annaba, cidade à beira-mar, quase na fronteira com a Tunísia, onde viveu e foi bispo Santo Agostinho até 430, ano em que a cidade foi conquistada pelos Vândalos de Genserico. Annaba, que tem origens muito antigas, torna-se uma cidade romana em todos os sentidos, organizada num traçado ortogonal que, ainda hoje, conserva importantes vestígios arqueológicos : algumas casas, o fórum e as termas com revestimento em mosaico. A partir dos vestígios arqueológicos de Hipona, o nome da antiga cidade romana, capta-se o perfil da cidade moderna, onde se destaca a silhueta da Basílica de Santo Agostinho : um edifício, construído entre 1881 e 1907 em estilo mourisco, que apresenta uma fachada simétrica delimitada nas laterais por duas torres altas. O valor simbólico do monumento está fortemente ligado à vida do santo que, através da sua atividade pastoral e dos seus escritos, deixou um pensamento voltado para a conciliação entre religião e filosofia ocidental.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/ecos-de-cidades-ricas-em-historia.html

 

sábado, 4 de abril de 2026

A Páscoa do Senhor em São João por Santo Agostinho

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA


‘A Igreja celebra a Páscoa do Senhor como o ponto central da vida de Jesus em vista da salvação humana. É o mistério do amor, da doação do Senhor por nós e pela humanidade. Para voltar ao Pai era necessário que o Filho do Homem, Filho de Deus passasse pela paixão, morte e ressurreição. Jesus tinha consciência desta passagem fundamental sem a qual não teria a redenção humana. Nos próximos dias celebraremos os mistérios que proporcionaram vida em abundância, pois teremos presentes o amor de Deus a nós e a toda a humanidade; ‘Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único’ (Jo 3,16). A seguir nós teremos a visão de Páscoa em Santo Agostinho, a partir do evangelista São João, o discípulo amado do Senhor.

A Páscoa tem significado de passagem

Santo Agostinho teve presente o capitulo 13 de São João onde se diz que ‘Jesus antes da festa da Páscoa, sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim’ (cfr. Jo 13, 1). Para ele entra aqui os significados de Páscoa, que se de um lado vem do grego páschein, padecer [1], de outro lado a Páscoa tem o significado na sua verdadeira língua, a hebraica, a qual diz respeito à passagem, uma vez que o povo de Deus celebrou a Páscoa no momento em que as pessoas fugiam do Egito ao passar pelo Mar Vermelho (cf. Ex 14,29). O tempo completou-se onde Jesus seria conduzido como ovelha ao matadouro, para o único sacrifício e perfeito (cf. Is 53,7). Qual seria a passagem que Jesus iria realizar? A passagem dele foi deste mundo ao Pai [2], de modo que Ele passou pelo sofrimento, pela cruz para chegar à glória da ressurreição. A Páscoa possui o significado da passagem do Senhor deste mundo para a vida divina.

Ele teve um amor grande, até o fim

O amor do Senhor não teve limites para com os seus e para o gênero humano, indo até o fim. O Bispo de Hipona afirmou que o fim do qual o evangelista afirmou, trata-se daquele que leva à plenitude, não de um fim que aniquila, perece, mas do fim de um amor sem limites [3]. É um amor segundo as palavras evangélicas que podem ser tomadas também num sentido humano, segundo o qual se diz que Jesus amou os seus até o fim pois os amou até a morte [4]. É evidente que o amor de Jesus não se esgota pela morte; Ele sempre nos amou e nos ama até o fim para significar um amor que não mediu palavras e ações [5].

O Pai pusera tudo nas mãos  de Jesus

O Evangelista São João afirmou que o Pai pusera tudo nas mãos de seu Filho, Jesus, que o diabo pusera no coração de Judas o propósito de entregá-lo, que Ele viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela e começou a lavar os pés de seus discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido (cf. Jo 13,2-5) [6]. Jesus não fez este gesto maravilhoso no fim, mas durante a ceia, pois Ele tornou a sentar-se à mesa, significando a necessidade do serviço como doação de si mesmo, para o próximo e para Deus.

O projeto de entregar Jesus

São João afirmou que Judas queria entregar Jesus às autoridades tendo presente o diabo que pusera isso no coração dele para entregar Jesus [7]. Segundo Santo Agostinho esta ação de pôr era uma sugestão espiritual, não do ouvido, era pelo pensamento, não era do corpo, mas era do espírito. Santo Agostinho levantou a pergunta como é possível que as diabólicas sugestões se introduzam e se misturem com os pensamentos humanos? A resposta vem quando o consentimento que presta a mente humana a cada uma das sugestões por mérito humano o fará se tiver sido abandonada pelo auxílio divino, ou por obra da graça. Já tinha sido posto no coração de Judas, por ação diabólica, que o discípulo entregasse o Mestre que ele não aprendera tratar-se de Deus. Na verdade Judas foi ao banquete como espião do Pastor, segundo o bispo de Hipona, como quem espreita o Salvador, e vende o Redentor. Viera nesta condição, e pensava que fosse ignorado, pois não pode enganar Aquele a quem pretendia enganar. No entanto Jesus percebeu o pensamento e a ação de Judas que iam se realizar contra o Senhor [8].

O gesto humilde do Senhor

Como foi dito, Jesus levantou-se da mesa, depôs o manto, tomou uma toalha, cingiu-se com ela. Colocou em seguida água numa bacia e começou a lavar-lhes os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com quem estava cingido (cf. Jo 13, 5). O evangelista quis enaltecer seja a humildade de Jesus servidor das pessoas e da humanidade, como também enaltecer a sua excelsitude [9]. Tendo presente que o Pai pôs tudo em suas mãos, Ele não lavou as mãos dos discípulos, mas sim os seus pés. Ele exerceu o serviço de quem era escravo [10], demonstrando o amor pelo serviço essencial que aconteça na vida da comunidade.

A atitude de Jesus foi aquela de uma grande humildade, no sentido de que Deus era, é o Encarnado, assumindo todas as coisas referentes à humanidade na maior simplicidade da vida. Ele lavou também os pés de Judas, aquele que deveria trair a Jesus, demonstrando um grande grau de humildade, cujas mãos Ele antevia já comprometidas com o crime [11].

Jesus estava próximo de sua paixão, morte e ressurreição. Com o gesto do lava-pés ensinou aos seus discípulos e a todos nós, a importância do serviço, da vivência da humildade, fazendo perecer para sempre a vaidade, o orgulho das pessoas, de suas autoridades, para enaltecer a caridade e o amor entre as pessoas, com Deus [12]. A Páscoa é passagem do mistério da encarnação, paixão, morte, ao mistério da glória da ressurreição e a sua entrada à direita do Pai.’

 [1] Cfr. Homilia 55,1. O amor até o fim.  In: Santo Agostinho. Comentários a São João II. Evangelho – Homilias 50-124. São Paulo: Paulus, 2022, pg. 73.

[2] Cfr. Idem, pg. 74.

[3] Cfr. Ibidem, n. 2, pg. 75.

[4] Cfr. Ibidem.

[5] Cfr. Ibidem, pgs. 75-76.

[6] Cfr. Ibidem, n. 03, pg. 76.

[7] Cfr. Ibidem, n. 04, pg. 76.

[8] Cfr Ibidem, pg. 77.

[9] Cfr. Ibidem, n. 6. Pg. 78.

[10] Cfr. Ibidem.

[11] Cfr. Ibidem.

[12] Cfr. Ibidem, n. 7, pg. 79.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/pascoa-senhor-sao-joao-santo-agostinho.html

 

sábado, 7 de março de 2026

A redescoberta de Santo Agostinho na Argélia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Delphine Allaire

 

‘O primeiro Papa agostiniano da história da Igreja seguirá os passos do Bispo de Hipona em abril próximo, ao visitar a Argélia, país nunca foi visitada por um Sucessor de Pedro. Leão XIV cumprirá agenda em duas cidades, Argel e Annaba, antiga Hipona, cidade da Diocese de Constantino-Hipoona, cujo novo bispo, dom Michel Guillaud, foi por ele nomeado em julho passado. Essa nomeação precedeu em poucos dias a visita histórica ao Vaticano do presidente argelino Abdelmajid Tebboune, em 24 de julho.

Santo Agostinho, pensador e teólogo do Ocidente cristão, nasceu na costa sul do Mediterrâneo e nunca renunciou à sua ‘identidade romano-africana’. Desde suas primeiras declarações após a eleição, Leão XIV abraçou essa herança, que despertou considerável interesse na Argélia, terra natal de Agostinho.

A Rádio Vaticano entrevistou o diplomata e filólogo suíço Pierre-Yves Fux, ex-embaixador da Confederação Suíça junto à Santa Sé e na Argélia, sobre a importância da figura deste médico e pai da Igreja neste país muçulmano.

Quais elementos biográficos e históricos fazem de Santo Agostinho um ‘filho do Mediterrâneo’?

A vida de Santo Agostinho se desenrola em três etapas. Primeiro, o Norte da África; ele nasceu no que hoje é a Argélia e passou um tempo em Cartago. Depois, um momento decisivo ocorreu em solo italiano, em Roma e Milão : sua conversão e batismo. Em 388, após seis anos passados ​​ao norte do Mediterrâneo, ele retornou à África e eventualmente se tornou Bispo de Hipona, atual Annaba, até 430. Essa alternância entre o Norte da África e a península italiana foi crucial.

Como, em nível teológico e intelectual, Santo Agostinho personificou uma síntese entre o Oriente e o Ocidente, uma ponte entre os dois mundos?

Agostinho havia aprendido grego, mas não gostava muito do idioma, que considerava difícil. Em sua correspondência com São Jerônimo, autor da Vulgata e fluente em hebraico, Santo Agostinho às vezes discute o significado de certas palavras. Por meio de seu contato com rabinos, Agostinho conectou-se ao mundo bíblico, incluindo o mundo hebraico e, em grande medida, aos mundos greco-romano, grego e latino. Ele foi um dos maiores eruditos e homens de saber de sua época. Nesse sentido, ele estava ligado às civilizações do Mediterrâneo, incluindo povos indígenas não romanos, como os berberes na atual Argélia e no Norte da África. Ele deixou sua marca em todo o mundo por meio de seu legado, sua recepção e seus leitores. Ele é um dos poucos Doutores da Igreja, um Padre da Igreja Latina, venerado e estudado pelos ortodoxos, além de um importante autor da Reforma Protestante. A influência duradoura de sua obra une todos os ramos do cristianismo.

Ele personifica uma universalidade tipicamente mediterrânea?

Ele personifica, pelo menos, uma romanitas, que é em si mesma uma universalidade. Pode-se dizer que foi chamado, como professor universitário, para lecionar em Roma e Milão. Não se limitou ao seu próprio mundo com os sucessos acadêmicos que alcançou em Cartago, sua pequena terra natal. Essa universalidade também se evidencia em sua grande obra, A Cidade de Deus, que escreveu após o saque de Roma em 410. Seus contemporâneos acreditavam que Roma seria eterna; ele transcende essa crença ao mostrar que Roma é uma vasta civilização, sem se apegar à Roma de seu tempo, mas pensando na humanidade para além dos limites da cidade terrena.

O que, em sua opinião, significa a ‘africanidade tingida de romanitas’ de Santo Agostinho?

Ele é africano por história familiar; sua mãe, Santa Mônica, Mona, Mônica, é um nome berbere. Por meio de sua família, ele esteve imerso na língua e cultura africanas desde antes da chegada dos romanos. Além disso, quando escreveu aos seus contemporâneos, disse : ‘Eu sou africano, Afer sum’. Ele tinha orgulho de pertencer a esta terra. Quando estava em Milão, onde o azeite era caro para ler à noite e para iluminação — ao contrário da sua experiência em África — sentia nostalgia da sua terra natal. Vários fatores demonstram a sua ligação à África romana, o que hoje chamamos de Norte de África.

Qual é o legado póstumo do Bispo de Hipona na Argélia ao longo dos séculos?

Agostinho morreu na cidade de Hipona, sitiada pelos Vândalos. A transferência da sua biblioteca foi organizada para Roma e as suas relíquias chegaram a Itália, onde está sepultado em Pavia. O seu legado sofreu um longo período de obscuridade no Norte de África, onde só foi redescoberto relativamente há pouco tempo, mas com considerável entusiasmo, mesmo entre não-cristãos, uma vez que a sua mãe, Mônica, o ligava diretamente àquela terra. Em 2001, no final do decênio obscuro na África, uma importante conferência internacional redescobriu a universalidade e a africanidade de Santo Agostinho. Hoje, os alunos argelinos encontram Santo Agostinho em seus livros didáticos. A redescoberta de sua figura continua aos poucos.

Como a Argélia contemporânea se relaciona com o legado deste Doutor da Igreja?

Santo Agostinho foi um monoteísta que argumentou contra os últimos pagãos de sua época. Nesse aspecto, um teólogo muçulmano certamente pode achar esse pensador interessante e relevante. Ele é às vezes referido aqui como um filósofo argelino. A dimensão mística de Santo Agostinho ressoa com alguns argelinos. Além disso, há simplesmente o orgulho nacional de ser a terra natal de um grande autor. Há também os aspectos mais regionais. A Argélia teve sítios agostinianos adicionados à lista provisória da UNESCO. Os aspectos culturais e patrimoniais não limitam Agostinho a uma figura do passado. Há outros, como Apuleio de Madora, um dos primeiros romancistas, que também vieram desta terra. Agostinho, no entanto, carrega uma mensagem, notadamente de paz em sua Cidade de Deus, e de certas normas éticas que ainda ressoam, inclusive em debates políticos internacionais. Quando cito um dito de Santo Agostinho aos argelinos ou menciono um lugar onde ele viveu, isso desperta imediatamente simpatia e interesse. Ele não representa uma era passada ou uma arqueologia morta.

Que vestígios de Agostinho ainda são perceptíveis na Argélia?

Por enquanto, existem principalmente alguns santuários. A Basílica de Hipona domina o sítio arqueológico de Hipona, que inclusive guarda uma relíquia do antebraço direito de Santo Agostinho. É um local onde se realizam os dias agostinianos, com conferências, mas também um lugar de culto com atividades de caridade e a comunidade da Ordem de Santo Agostinho que serve este santuário. Do outro lado da fronteira, na Tunísia, foi criada uma Via Agostinha, com percursos que podem ser percorridos a pé de um local a outro, onde Agostinho viveu e pregou. Na Argélia, ainda não chegamos a esse ponto, mas temos locais que preservam a sua memória. Madaura, onde completou os seus estudos secundários, e depois outros lugares mais distantes, tão comoventes quanto desconhecidos, como Tobna, perto do Saara. Foi aqui que Agostinho empreendeu a sua viagem mais longa para admoestar um oficial romano que se desviava, tanto moral como politicamente. Tudo o que resta é uma grande praça com fragmentos de cerâmica marcando a localização do acampamento romano. Há potencial, mas o país é vasto. Não creio que conseguiremos criar um Caminho de São Martinho com a mesma facilidade que na Europa, mas o potencial existe e, obviamente, poderia ser estendido à Itália, com Roma, Óstia, Milão e Pavia.

Qual a extensão da presença da Ordem Agostiniana na Argélia?

A Ordem Agostiniana está presente na Argélia de diversas maneiras. São os guardiões dos santuários de Hipona e Annaba, mas também incluem freiras e missionários agostinianos no coração de Argel, no bairro de Bab-el-Oued. Eles ainda estão lá, e um deles escapou por pouco do ataque que levou ao martírio de outros dois, que agora são beatificados juntamente com os monges de Tibhirine e o bispo Pierre Claverie de Oran. Essa Ordem Agostiniana, portanto, tem até mesmo uma história recente de santidade. E depois há o passado antigo, que é a memória de Santo Agostinho. Dar a conhecer esta figura aos argelinos curiosos, fazer com que as pedras falem, é também uma das missões desta presença religiosa. Em 2013, quando a Basílica de Hipona foi renovada, um certo Robert Prevost veio à Argélia para a ocasião e guardou algumas memórias. Os argelinos que o conheceram valorizam essas memórias.

Que tipo de reação a eleição de um Papa agostiniano provocou na Argélia?

Houve interesse e alegria imediatos devido às palavras proferidas durante a primeira Bênção Urbi et Orbi. Para o Papa Leão XIV dizer : ‘Sou filho de Santo Agostinho’, isso tem um grande significado para muitos argelinos : ‘Sou espiritualmente um filho desta terra’. A profunda ligação que os argelinos — cristãos, muçulmanos, de outras religiões ou sem religião — podem ter com Santo Agostinho fez com que esta declaração ressoasse imediatamente com os presentes. Depois, volto à memória a viagem do então bispo Robert Prevost em 2013. Mas foi sobretudo a figura do próprio Agostinho que tocou o coração das pessoas. Quais ensinamentos da doutrina agostiniana do século V permanecem relevantes para o nosso Mediterrâneo atual, dilacerado por conflitos e divisões?

O ensinamento principal diz respeito à paz. Um livro inteiro de A Cidade de Deus é dedicado ao conceito de paz. O que permanece tão relevante hoje, em todos os níveis, é que essa paz existe em diferentes níveis : paz do corpo, paz da alma, da família, da humanidade com Deus e da humanidade entre si. Ele definiu a paz como a tranquilidade da ordem, como uma harmonia ordenada. É uma paz exigente, que deve ser construída e mantida em todos os níveis. Nunca conseguimos alcançá-la completamente aqui na Terra, e, no entanto, assim que a desejamos, já possuímos algo dela. Essa coerência da paz em diferentes níveis, que leva a humanidade não apenas a desejar a paz, mas também a desejar a justiça, encontra-se em A Cidade de Deus. Paz e justiça caminham juntas; elas nos encorajam a desejar a misericórdia e a sermos amigos dos inimigos da paz, como disse Santo Agostinho. Esta não é uma doutrina de bibliotecário; o próprio Agostinho a experimentou dolorosamente.

A Igreja de sua época estava dividida por um violento cisma com os donatistas. Em 411, uma conferência de paz foi realizada entre os bispos das duas Igrejas separadas, e Agostinho pregou extensivamente pela paz nesse contexto. É uma doutrina muito elevada que também é uma doutrina de prática, vivida e comprovada. É uma mensagem muito poderosa para as sociedades e para os estados.

Que sementes de amizade ou diálogo entre religiões foram tão habilmente semeadas por Agostinho em seu tempo?

Em seu tempo, o pluralismo religioso reinava no Norte da África. Ele próprio havia experimentado o maniqueísmo; os últimos pagãos ainda existiam e, em alguns lugares, ainda mantinham uma posição bastante forte. Agostinho foi um missionário da paz, ou um missionário da verdade, em suas relações com eles. Não podemos dizer que os métodos e práticas do ecumenismo ou do diálogo inter-religioso como os conhecemos hoje sejam encontrados exatamente como eram na época de Agostinho; era uma sociedade diferente e um contexto diferente. Mas uma coisa é fascinante : em sua correspondência com um erudito pagão, Máximo de Madore, Máximo fala das divindades antigas, que são muito mais interessantes do que esses mártires com seus estranhos nomes norte-africanos. E Agostinho responde : ‘Não, eu sou africano. Não se trata de uma escala de discriminação cultural.’ E, acima de tudo, ele diz ao seu interlocutor : ‘Sinto que você está falando disso levianamente. Quando desejar discutir essas questões muito sérias com a devida seriedade, estarei pronto para argumentar, para debater com você.’ Essa resposta é importante e atemporal. Essas questões inter-religiosas não podem ser abordadas de maneira mundana, nem por meio da violência. Devem ser abordadas com humildade, com seriedade, talvez até com temor. Foi isso que os monges de Tibhirine fizeram, e acredito que seja um ensinamento agostiniano. O diálogo entre religiões não é uma questão de diferenças políticas ou culturais. Deve ser abordado e vivenciado com amizade, seriedade e certa atenção.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-02/santo-agostinho-argelia-africa-mediterraneo-papa-leao-xiv.html


quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Santo Agostinho: biografia e filosofia patrística

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Psicanálise e Cultura


Santo Agostinho, também chamado de Aurelius Agostines ou Agostinho de Hipona, foi um dos maiores filósofos da era patrística, considerado doutor da Igreja Católica. Nesse sentido, criou bases teóricas com doutrinas sobre o cristianismo, que, embora já existisse, não possuía uma doutrina para fundamentá-las.

Portanto, Santo Agostinho foi o precursor na criação do embasamento doutrinário para o cristianismo. Com um pensamento amplo, seus escritos tem relação com fé e razão, bem e mal e livre-arbítrio.

Biografia de Santo Agostinho

Nascido em 354 d.C., nasceu na cidade de Tagaste, então sob o domínio do Império Romano, hoje faz parte do território da Argélia, chamada Souk Ahras. Seu pai era pagão, o que era comum naquela época, tendo em vista ser o cristianismo recente e, ainda, diante dos conflitos com o império acerca da imagem de Jesus Cristo. Ao passo que sua mãe era uma cristã devota, mais tarde canonizada como Santa Mônica.

Aos 18 anos Agostinho se envolve amorosamente com uma mulher e teve um filho, Adeodato. O relacionamento perdurou por 13 anos, porém, era considerado pecaminoso pela Igreja. Além disso, após sua separação, Agostinho se envolve em casos com outras mulheres.

Com cerca de 30 anos passou a se interessar pelas pregações do Bispo Ambrósio, clérigo importante, que pregava questões eloquentes. Fato este que lhe ajudou em um período conturbado em sua vida, pois Agostinho se sentia desemparado espiritualmente por todas as doutrinas que procurou, como hedonismo, ceticismo e maniqueísmo.

Ainda, a história conta que Santo Agostinho, em um dia de extrema angústia, foi visitado por um ser iluminado que, possivelmente, era um anjo. Que, então, lhe entregou um livro, ordenando que o lesse : ’Toma e lê!’. Agostinho obedeceu, lendo a então Bíblia Sagrada e se restaurou, cedendo ao cristianismo como sua religião. Logo após, ele com seu filho Adeodato foram batizados pelo Bispo Ambrósio.

Em pouco tempo, Agostinho teve duas dolorosas perdas, com o falecimento de seu filho Adeodato e sua mãe Mônica. A partir disso, sua dedicação foi exclusiva à Igreja Católica, fundando uma nova ordem religiosa. E, logo após a morte do Bispo de Hipona, foi consagrado bispo da cidade, cargo que ficou até sua morte, em 430 d.C.

Formação de Santo Agostinho

Agostinho, em sua infância, foi educado em latim, e, aos 11 anos, levado a uma escola há 30 km de distância, onde aprendeu literatura e a cultura da civilização romana. Dentre os estudos, conheceu a filosofia através das obras de Marco Tulo Cícero (106 a.C – 43 a.C), destacando, após, que este foi o seu despertar para estudos filosóficos.

Logo, aos 17 anos, para estudar retórica, se mudou para Cartago, hoje Tunísia. Embora criado pela mãe segundo os princípios do cristianismo, aqui passou a ter posições contraditórias à sua fé. Quando então, adotou o maniqueísmo como doutrina, diz a história que, a partir de então, passou a viver prazeres mundanos.

Em razão de sua formação intelectual, voltou para sua cidade Tagaste e passou a dar aula como professor de gramática, aos 19 anos e, em seguida, também em Cartago. Após 10 anos, fundou uma escola em Roma, que não acabou dando certo. Neste tempo, já havia se distanciado do maniqueísmo, adotando as ideais do ceticismo.

Contudo, com seus estudos sobre lógica, retórica e filosofia, tornou-se um reconhecido professor de retórica do Império Romano. Nesse ínterim, em seus estudos, Agostinho buscava formas de encontrar um conforto espiritual. Aos 30 anos já tinha uma carreira intelectual notória, sobretudo quando passou a trabalhar como professor de retórica em Mediolano, hoje Milão.

Conversão de Santo Agostinho

Até então, ainda não teria aderido à fé cristão, ainda que sua mãe Mônica o pressionava para que se convertesse ao cristianismo. Isso somente ocorreu em 368 d.C., conforme citamos anteriormente, pela aparição de um ser iluminado.

A história conta que nesta ocasião, ao abrir a Bíblia, caiu no trecho da carta de São Paulo aos Romanos, onde o apóstolo falava sobre como as poderosas escrituras conseguiam transformar o comportamento humano. Sendo ela :

Logo após, na Páscoa de 387 foi batizado pelo bispo de Mediolano, Aurélio Ambrósio (340-397). Quando, no ano seguinte, voltou para a África na companhia do filho e da mãe. Porém, estes morreram logo após. Diante da decepção, Santo Agostinho doou todo seu dinheiro aos pobres, ficando somente com sua casa, a qual se tornou um mosteiro.

Quando ordenado sacerdote em Hipona, em 391, utilizou do seu vasto conhecimento em favor do cristianismo. Assim, se tornou um teórico das bases cristãs.

O que é Filosofia patrística?

Na filosofia patrística surgiu um período de mudança de pensamentos, que ocorre entre a Antiguidade e a Idade Média. Recebeu este nome por abrigar os primeiros padres, classificados como ‘pais’ da Igreja Católica, e, de início, serviu como uma forma da apologia ao cristianismo, pois não era ainda difundido na Europa, ainda no século III d.C.

Então, Santo Agostinho se insere nesta filosofia patrística, que lutava para estabelecer bases doutrinárias para o pensamento cristão. De tal fora que convencesse os fiéis, e, inclusive, servir como base para compreensão do cristianismo. Nesse ínterim, Santo Agostinho tornou-se um dos mais importantes ‘pais’ da Igreja.

Filosofia de Santo Agostinho

A filosofia de Santo Agostinho envolve diversas áreas do conhecimento, trazendo inúmeras temáticas para difundir e debater as bases teológicas do cristianismo. Dentre seus principais ensinamentos estão :

  • o tempo, dizendo que, embora saiba o que é, não consegue responder sobre ele. Isso traz o conceito do conhecimento intuitivo;
  • bem e mal, onde Deus seria o bem e a distância Dele o mal;
  • responsável pela primeira síntese do cristianismo, defendendo uma filosofia catequética
  • defendeu que o ser humano é a junção de duas substâncias, o corpo e a alma.
  • por Igreja se deve entender sob duas realidades : 1) Instituição hierarquizada e sacramentos; 2) as almas de seus praticantes;
  • capacidade humana de amar.

Obras de Santo Agostinho

Em suma, Santo Agostinho foi um dos maiores autores em termos de obras, que somam mais de 100 títulos. São obras apologéticas, doutrina cristã, maniqueísmo, heresias dos arianos, dentre outras. Abaixo, uma lista com suas obras de maior destaque.

  • Confissões;
  • Cidade de Deus;
  • Sobre o Livre-Arbítrio;
  • Sermão do Senhor na Montanha;
  • Potencialidade Humana;
  • Sobre a Música;
  • Vida Feliz;
  • Mentira;
  • Contra os Acadêmicos;
  • de Magistro;
  • A Graça;
  • A Doutrina Cristã;
  • A Trindade;
  • Tratado sobre o Batismo;
  • Comentários ao Gênesis;
  • Retratações;
  • Comentários aos Salmos;
  • Dos Bens do Matrimônio;
  • A Santa Virgindade;
  • Dos Bens da Viuvez;
  • A Verdadeira Religião;
  • O Cuidado Devido aos Mortos;
  • A Fé e o Símbolo;
  • Primeira Catequese aos não Cristãs, dentre outras.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.psicanaliseclinica.com/santo-agostinho/