domingo, 31 de maio de 2026

Ecos de cidades ricas em história

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Mario Panizza

 

‘A Argélia abrange uma área muito extensa, delimitando um ambiente diferenciado tanto pela natureza do território como pela composição dos centros urbanos. As razões dessa variedade são múltiplas : sobretudo climáticas e geográficas, mas também históricas, ligadas às vicissitudes de conquistas e de libertação que marcaram o desenvolvimento de todo o país. A Argélia e a Tunísia formavam a Numídia, reino berbere que se torna, sob Massinissa, um importante aliado de Roma. Após a conquista pelos Vândalos e, sobretudo, na sequência da chegada dos Árabes, a estrutura social transforma-se profundamente. De facto, a cultura islâmica introduz mudanças que se consolidam ao longo de muitos séculos. As cidades enriquecem-se com mesquitas e palácios caracterizados por uma arquitetura funcional e estilisticamente definida, complementada, além disso, por decorações de particular cuidado e requinte. Depois de ter feito parte do Império Otomano, a partir de 1830 é território de conquista da França; e só em 1962, após seis anos de uma guerra feroz e sangrenta, alcança a independência.

Do ponto de vista geográfico e climático, o país é caracterizado por três faixas paralelas que se sucedem de norte a sul : a costeira, com um clima temperado que beneficia da influência do mar, bastante verde, chegando mesmo a apresentar florestas na Região da Cabília, embora as fontes de água doce sejam bastante limitadas, tal como, aliás, em toda a região magrebina; a faixa central, a estepe, que cobre uma superfície muito vasta, árida, povoada de arbustos, utilizada para a pastagem, com um clima de fortes amplitudes térmicas; por fim, a faixa mais meridional, o deserto, que tende a expandir-se e a conquistar cada vez mais superfície a norte. Para contrariar esta pressão, que as variações climáticas estão a acelerar, foi criada uma barreira verde com 1500 quilômetros de comprimento e 20 de profundidade.

No seio desta rica diversidade ambiental, algumas áreas apresentam ecossistemas preciosos, mas frágeis, que devem ser salvaguardados, como o Parque nacional do Tassili n’Ajjer, patrimônio da Unesco desde 1982, rico em testemunhos de arte rupestre pré-histórica. Em 1982, foram também incluídos no patrimônio da Unesco os sítios do Vale da M’zda, de Djémila, de Tipasa e de Timgad. Os três últimos correspondem a cidades romanas, estruturadas segundo o traçado clássico do cardo e do decumano.

Djémila apresenta uma condição particular : situada a 900 metros de altitude, adapta o traçado urbanístico romano a um terreno montanhoso, desenvolvendo-se dentro de uma área circundada pelos limites orográficos que acompanham dois riachos na direção norte-sul. Nascida como um pequeno centro, expande-se ao longo de todo o período da dominação romana, dotando-se de importantes edifícios públicos, sagrados e de serviço para a cidade. Os vestígios arqueológicos descrevem claramente o desenho de um plano geral que conserva intactas, ainda hoje, algumas partes monumentais, incluindo o Arco de Caracala.

Uma situação totalmente diferente é a de Tipasa, cidade costeira cuja origem está ligada à função de entreposto comercial no Mediterrâneo, utilizado pelos romanos também para fins militares na conquista da Mauritânia. Os vestígios encontram-se dentro de uma estrutura romana bem definida; pertencem, contudo, a um conjunto de testemunhos sobrepostos que remetem para as civilizações que se sucederam. A terceira cidade romana Patrimônio da Unesco é Timgad, situada no interior, nas encostas das montanhas a sul de Constantina. O traçado urbano é o canônico, onde a ordem das vias e a disposição dos serviços estão contidas num perímetro de desenho regular, projetado ad hoc no momento da fundação. Mandada construir pelo imperador Trajano em 100 d.C., Timgad servia de guarnição militar. Desenterrada das areias do deserto, foi descoberta no século XIX, revelando um conjunto de monumentos muito bem conservados. O Fórum, a Biblioteca, o Arco triunfal e as termas descrevem uma cidade de dimensões notáveis, que o tempo projetou muito além dos limites do recinto militar original.

Porém, a história urbana da Argélia não reside apenas nas cidades romanas; um capítulo muito importante é ocupado pela medina árabe, que condensa um modelo de vida comunitária que ainda hoje reúne todas as funções que dão vida à cidade : a residência, o artesanato, o comércio. Uma medina de particular interesse é a de Constantina, a terceira cidade da Argélia depois da capital e de Orano, que se apresenta numa condição orográfica muito particular : ergue-se sobre um planalto elevado, a 700 metros de altitude, circundado por um fosso muito profundo, escavado por um curso de água. A sua ligação ao território é assegurada por pontes de vão único que marcam os pontos de acesso à cidade, delineando as suas linhas de travessia interna.

Porém, a medina mais rica em elementos artísticos é sem dúvida a Kasba de Argel, inserida na lista do patrimônio da UNESCO em 1992, que se abre para o mar num ponto de grande beleza paisagística. Inclui edifícios históricos, tanto civis como religiosos, mas, acima de tudo, completa uma faixa de terra firme onde se sucedem obras arquitetônicas de várias épocas e de grande relevância.

Percorrendo o passeio marítimo, depara-se com o monumento Maqam Echahid, erigido em 1982, vinte anos após o fim da guerra de libertação, em honra dos mártires da independência. Este monumento, que constitui um símbolo bem presente, não só pela sua dimensão e posição isolada e visível mesmo de longe, reúne no seu interior testemunhos e documentação fotográfica da resistência da população à dura repressão francesa.

O outro símbolo bem visível do mar, este de caráter religioso, é a Grande Mesquita, imponente tanto na sua estrutura arquitetônica como no perfil do seu minarete. Embora ‘moderna’ pelas linhas geométricas que a compõem e que marcam as naves e as colunas encimadas por arcos mouriscos, é a mesquita mais antiga da cidade, datada de 1018.

Símbolo da religião católica é a Basílica menor de Nossa Senhora de África, construída a partir de 1855 e consagrada em 1872, na zona norte da cidade, num alto promontório panorâmico. Também aqui a verticalidade é o elemento de destaque que se impõe sobre a cidade. A altitude do local (124 metros acima do nível do mar) e a altura de uma cúpula muito importante, que ocupa grande parte do volume interior do edifício, definem um terceiro polo da cidade.

Fora da capital, Leão XIV deslocou-se para visitar Annaba, cidade à beira-mar, quase na fronteira com a Tunísia, onde viveu e foi bispo Santo Agostinho até 430, ano em que a cidade foi conquistada pelos Vândalos de Genserico. Annaba, que tem origens muito antigas, torna-se uma cidade romana em todos os sentidos, organizada num traçado ortogonal que, ainda hoje, conserva importantes vestígios arqueológicos : algumas casas, o fórum e as termas com revestimento em mosaico. A partir dos vestígios arqueológicos de Hipona, o nome da antiga cidade romana, capta-se o perfil da cidade moderna, onde se destaca a silhueta da Basílica de Santo Agostinho : um edifício, construído entre 1881 e 1907 em estilo mourisco, que apresenta uma fachada simétrica delimitada nas laterais por duas torres altas. O valor simbólico do monumento está fortemente ligado à vida do santo que, através da sua atividade pastoral e dos seus escritos, deixou um pensamento voltado para a conciliação entre religião e filosofia ocidental.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/ecos-de-cidades-ricas-em-historia.html

 

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