Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A Argélia abrange uma área muito extensa,
delimitando um ambiente diferenciado tanto pela natureza do território como
pela composição dos centros urbanos. As razões dessa variedade são múltiplas :
sobretudo climáticas e geográficas, mas também históricas, ligadas às
vicissitudes de conquistas e de libertação que marcaram o desenvolvimento de
todo o país. A Argélia e a Tunísia formavam a Numídia, reino berbere que se
torna, sob Massinissa, um importante aliado de Roma. Após a conquista pelos
Vândalos e, sobretudo, na sequência da chegada dos Árabes, a estrutura social
transforma-se profundamente. De facto, a cultura islâmica introduz mudanças que
se consolidam ao longo de muitos séculos. As cidades enriquecem-se com
mesquitas e palácios caracterizados por uma arquitetura funcional e
estilisticamente definida, complementada, além disso, por decorações de
particular cuidado e requinte. Depois de ter feito parte do Império Otomano, a
partir de 1830 é território de conquista da França; e só em 1962, após seis
anos de uma guerra feroz e sangrenta, alcança a independência.
Do ponto de vista geográfico e climático, o país é
caracterizado por três faixas paralelas que se sucedem de norte a sul : a
costeira, com um clima temperado que beneficia da influência do mar, bastante
verde, chegando mesmo a apresentar florestas na Região da Cabília, embora as
fontes de água doce sejam bastante limitadas, tal como, aliás, em toda a região
magrebina; a faixa central, a estepe, que cobre uma superfície muito vasta,
árida, povoada de arbustos, utilizada para a pastagem, com um clima de fortes
amplitudes térmicas; por fim, a faixa mais meridional, o deserto, que tende a
expandir-se e a conquistar cada vez mais superfície a norte. Para contrariar
esta pressão, que as variações climáticas estão a acelerar, foi criada uma
barreira verde com 1500 quilômetros de comprimento e 20 de profundidade.
No seio desta rica diversidade ambiental, algumas
áreas apresentam ecossistemas preciosos, mas frágeis, que devem ser
salvaguardados, como o Parque nacional do Tassili n’Ajjer, patrimônio da Unesco
desde 1982, rico em testemunhos de arte rupestre pré-histórica. Em 1982, foram
também incluídos no patrimônio da Unesco os sítios do Vale da M’zda, de Djémila,
de Tipasa e de Timgad. Os três últimos correspondem a cidades romanas,
estruturadas segundo o traçado clássico do cardo e do decumano.
Djémila apresenta uma condição particular : situada
a 900 metros de altitude, adapta o traçado urbanístico romano a um terreno
montanhoso, desenvolvendo-se dentro de uma área circundada pelos limites
orográficos que acompanham dois riachos na direção norte-sul. Nascida como um
pequeno centro, expande-se ao longo de todo o período da dominação romana,
dotando-se de importantes edifícios públicos, sagrados e de serviço para a
cidade. Os vestígios arqueológicos descrevem claramente o desenho de um plano
geral que conserva intactas, ainda hoje, algumas partes monumentais, incluindo
o Arco de Caracala.
Uma situação totalmente diferente é a de Tipasa,
cidade costeira cuja origem está ligada à função de entreposto comercial no
Mediterrâneo, utilizado pelos romanos também para fins militares na conquista
da Mauritânia. Os vestígios encontram-se dentro de uma estrutura romana bem
definida; pertencem, contudo, a um conjunto de testemunhos sobrepostos que
remetem para as civilizações que se sucederam. A terceira cidade romana Patrimônio
da Unesco é Timgad, situada no interior, nas encostas das montanhas a sul de
Constantina. O traçado urbano é o canônico, onde a ordem das vias e a
disposição dos serviços estão contidas num perímetro de desenho regular,
projetado ad hoc no momento da fundação. Mandada construir
pelo imperador Trajano em 100 d.C., Timgad servia de guarnição militar.
Desenterrada das areias do deserto, foi descoberta no século XIX, revelando um
conjunto de monumentos muito bem conservados. O Fórum, a Biblioteca, o Arco
triunfal e as termas descrevem uma cidade de dimensões notáveis, que o tempo projetou
muito além dos limites do recinto militar original.
Porém, a história urbana da Argélia não reside
apenas nas cidades romanas; um capítulo muito importante é ocupado pela medina
árabe, que condensa um modelo de vida comunitária que ainda hoje reúne todas as
funções que dão vida à cidade : a residência, o artesanato, o comércio. Uma
medina de particular interesse é a de Constantina, a terceira cidade da Argélia
depois da capital e de Orano, que se apresenta numa condição orográfica muito particular
: ergue-se sobre um planalto elevado, a 700 metros de altitude, circundado por
um fosso muito profundo, escavado por um curso de água. A sua ligação ao
território é assegurada por pontes de vão único que marcam os pontos de acesso
à cidade, delineando as suas linhas de travessia interna.
Porém, a medina mais rica em elementos artísticos é
sem dúvida a Kasba de Argel, inserida na lista do patrimônio
da UNESCO em 1992, que se abre para o mar num ponto de grande beleza
paisagística. Inclui edifícios históricos, tanto civis como religiosos, mas,
acima de tudo, completa uma faixa de terra firme onde se sucedem obras arquitetônicas
de várias épocas e de grande relevância.
Percorrendo o passeio marítimo, depara-se com o
monumento Maqam Echahid, erigido em 1982, vinte anos após o fim da
guerra de libertação, em honra dos mártires da independência. Este monumento,
que constitui um símbolo bem presente, não só pela sua dimensão e posição
isolada e visível mesmo de longe, reúne no seu interior testemunhos e
documentação fotográfica da resistência da população à dura repressão francesa.
O outro símbolo bem visível do mar, este de caráter
religioso, é a Grande Mesquita, imponente tanto na sua estrutura arquitetônica
como no perfil do seu minarete. Embora ‘moderna’ pelas linhas geométricas que a
compõem e que marcam as naves e as colunas encimadas por arcos mouriscos, é a
mesquita mais antiga da cidade, datada de 1018.
Símbolo da religião católica é a Basílica menor de
Nossa Senhora de África, construída a partir de 1855 e consagrada em 1872, na
zona norte da cidade, num alto promontório panorâmico. Também aqui a
verticalidade é o elemento de destaque que se impõe sobre a cidade. A altitude
do local (124 metros acima do nível do mar) e a altura de uma cúpula muito
importante, que ocupa grande parte do volume interior do edifício, definem um
terceiro polo da cidade.
Fora da capital, Leão XIV deslocou-se para visitar
Annaba, cidade à beira-mar, quase na fronteira com a Tunísia, onde viveu e foi
bispo Santo Agostinho até 430, ano em que a cidade foi conquistada pelos
Vândalos de Genserico. Annaba, que tem origens muito antigas, torna-se uma
cidade romana em todos os sentidos, organizada num traçado ortogonal que, ainda
hoje, conserva importantes vestígios arqueológicos : algumas casas, o fórum e
as termas com revestimento em mosaico. A partir dos vestígios arqueológicos de
Hipona, o nome da antiga cidade romana, capta-se o perfil da cidade moderna,
onde se destaca a silhueta da Basílica de Santo Agostinho : um edifício,
construído entre 1881 e 1907 em estilo mourisco, que apresenta uma fachada
simétrica delimitada nas laterais por duas torres altas. O valor simbólico do
monumento está fortemente ligado à vida do santo que, através da sua atividade
pastoral e dos seus escritos, deixou um pensamento voltado para a conciliação
entre religião e filosofia ocidental.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/por-005/ecos-de-cidades-ricas-em-historia.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário