Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
teóloga
‘Como rezava Maria? Certamente não recitava o
rosário, nem a via-sacra. Não ia à missa todos os dias e não fazia a adoração
eucarística. Não conhecia novenas ou devoções como as nossas.
No entanto, a ausência destas formas que nos são
familiares não impediu Maria de cultivar a sua vida interior, numa troca
contínua com o Deus vivo. De facto, a oração de Maria não é, antes de mais, um
conjunto de práticas, mas uma forma de estar com Deus. É uma atitude interior
que permeia a vida diária. Não está separada dos dias, habita-os. É uma atitude
que envolve a escuta, o olhar, o caminho, o coração e as mãos.
A oração de Maria começa pela escuta, mas não por
uma escuta passiva. Trata-se de uma escuta que se torna diálogo, de um silêncio
que é o berço das palavras mais verdadeiras. Mesmo daquelas, por vezes,
incómodas. Na Anunciação, depois de ter escutado com atenção, não fica em
silêncio : pergunta. «Como será isso?». E o seu desejo de compreender é o
espaço que se abre para que Deus se possa revelar. Maria entra em relação :
acolhe a Palavra e, ao mesmo tempo, questiona-a. Nesta troca, a sua fé toma
forma.
O seu «faça-se em mim segundo a tua palavra» nasce
assim, de um diálogo verdadeiro. Maria não se limita a receber uma mensagem :
deixa-se envolver. A oração, para ela, é este encontro em que Deus se revela e
o ser humano se expõe.
Deste diálogo nasce um novo olhar. O Evangelho diz
que Maria «conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração». O seu
não é um olhar distraído. É atento e paciente. Não descarta o que não
compreende, não força os acontecimentos. Conserva e espera. Assim, a realidade
torna-se para ela um lugar a interpretar.
Esta forma de olhar marca também o crescimento de
Jesus. Nas suas parábolas, encontramos um olhar capaz de ler a vida : uma
semente, um campo, um rosto encontrado na rua. Ver as pessoas na sua
singularidade e na sua necessidade já é oração. É reconhecer que cada encontro
pode tornar-se revelação.
A oração de Maria é também um caminho. Os
Evangelhos mostram-na em movimento : em direção à montanha para encontrar
Isabel, em direção a Belém, em direção ao Egito, até Jerusalém. Os seus pés
contam uma fé concreta. Não permanece parada quando a vida muda de rumo.
Levanta-se e parte.
A profecia de Simeão, que fala de uma espada que
lhe atravessará o coração, é como um raio de luz que nos introduz na sua
interioridade. De fato, na Escritura, a espada indica a Palavra de Deus que
penetra e ilumina até à medula dos ossos.
Maria conhecia certamente a Escritura de cor : os
salmos, os profetas, os provérbios e as histórias do seu povo. Tal como o Filho
faria mais tarde com os discípulos de Emaús, a Mãe comparava cada acontecimento
presente com essa Palavra. A espada, portanto, é o discernimento : a
necessidade de aprender a reconhecer, passo a passo e não sem esforço, o que
Deus está a realizar na sua vida e na vida daqueles que lhe são confiados.
O seu caminho, portanto, é um confronto contínuo
com o mistério do Filho. Compreender e não compreender, reter e deixar ir.
Neste movimento interior, Maria aprende a conhecer-se a si mesma e a missão de
Jesus. A sua oração do coração é busca fiel e disponibilidade para se deixar
transformar. Por fim, Maria reza com as mãos. As mãos que, em Belém, envolveram
um recém-nascido em panos : um gesto simples, mas necessário. Deus confiou-se a
essas mãos, na vida e na morte, e essas mãos protegem e sustentam. Na vida
oculta de Nazaré, são mãos que amassam o pão, remendam, tiram água, acariciam,
consolam. O cuidado da horta, de alguns cabritos. Também isto é oração, tal
como uma ferida ligada, uma lágrima enxugada sem pedir explicações.
Nestes gestos diários a vida cresce. O cuidado
torna-se linguagem. A matéria - o pão, a água, a lã - torna-se sinal de uma
presença. A oração de Maria não se separa da concretude da existência. Está no
que ela faz todos os dias.
E depois, ainda, no trecho de caminho mais longo,
de Caná ao Calvário : escuta, diálogo, caminho, cuidado. Os gestos de toda a
vida, agora entrelaçados com as vidas de outras e outros, discípulos e
discípulas como ela. Amigas e amigos do Filho e da Mãe, com quem partilhar a alegria
e o espanto, a dor e o medo.
Podemos imaginá-la, por fim, reunida no calor
primaveril do cenáculo, à espera do Pentecostes, a contar as memórias d’Ele
quando era criança e adolescente, àquelas mulheres e àqueles homens em quem a
esperança recomeçava a germinar. E depois sair para anunciar até aos confins da
terra : «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes». Tudo isto
é a sua oração.
Diálogo que abre a visão de um futuro de justiça e
de paz, olhar que guarda os seus rebentos, passo que confia no caminho, coração
que discerne, mãos que cuidam. Não um conjunto de práticas, mas uma vida
inteira vivida diante de Deus.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/como-rezava-maria.html
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