Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Nos últimos tempos a historiografia tem estudado
mais de perto a história do continente africano. Com isso, sua história e a
organização dos povos existentes no continente na fase anterior à chegada do
europeu ganham novas formatações e o continente aos poucos vai resgatando a sua
importância. A própria cartografia já começa a criar modelos de mapas e cartas
geográficas que, diferentemente do que se fez durante mais de 15 séculos, a
África vai ganhando uma centralidade maior.
A África do norte, localizada acima do Deserto do
Saara, manteve relações mais estreitas com a Europa no tempo do Império Romano
que incluiu diversas regiões em seu imenso domínio. No Norte da África os
romanos se depararam com Cartago, uma potência comercial e marítima que se opôs
ferozmente a Roma. Apenas depois da derrota de Cartago nas chamadas Guerras
Púnicas e com sua submissão é que Roma teve abertas as portas do Mar
Mediterrâneo, com a possibilidade de se expandir pelo norte da África, Oriente
Médio e partes do extremo Oriente, chegando até a Índia.
Outro caso específico é o do Egito que ao longo do
Rio Nilo que nasce no coração da África constituiu uma das maiores civilizações
de todos os tempos. Porém, na maioria das vezes o estudo da Civilização Egípcia
não considera como se ela fosse parte do continente.
Ao longo de vários milênios o Deserto do Saara foi
quase que intransponível, como que separando a África em duas partes, acima e
abaixo do deserto.
A verdadeira descoberta do Continente Africano
Durante séculos a historiografia repetia a
narrativa de que ‘a África foi descoberta pelos navegadores portugueses’,
especialmente a chamada Áfica Negra ou Sub-Saariana. Esta ideia, além de
historicamente limitada, ignorava o papel central do continente africano na
formação da humanidade e das primeiras civilizações conhecidas.
A ideia ou conceito de ‘Descobrimento’ conforme
acontece em relação ao Brasil ou às Américas é limitado. Assim como hoje não se
aceita mais a noção de que o Brasil ou a América tenham sidos descobertos, a
África também não foi descoberta, mas foi se revelando ao mundo.
A arqueologia moderna é categórica : a espécie
humana surgiu na África. Os fósseis mais antigos do Homo Sapiens foram
descobertos em localidades da Etiópia, datados de 195 mil anos no passado ou em
localidades do Marrocos, datados de 300 mil anos no passado. Esses testemunhos
confirmam que o continente africano foi o primeiro lar da humanidade e de lá,
em levas sucessivas, os humanoides foram se espalhando por outras regiões.
Como vimos nos textos passados, séculos antes de
qualquer navegador europeu cruzar o Oceano Atlântico ou o Oceano Índico, já
existiam na África reinos, impérios e centros urbanos altamente organizados e
ali existiram grandes civilizações que as vezes não são consideradas como parte
da África. Trazemos aqui alguns exemplos da grandeza que existiu na África
antes da chegada dos europeus.
Norte da África : Civilização
de Cartago e Egito Antigo. Cartago era expert em navegação e comércio marítimo.
𝐊𝐞𝐦𝐞𝐭 (𝐄𝐠𝐢𝐭𝐨 𝐀𝐧𝐭𝐢𝐠𝐨) : Foi
pioneiro em escrita, astronomia, matemática e medicina. A mumificação alcançou
um alto grau de especialização no Egito.
𝐍𝐮́𝐛𝐢𝐚 𝐞 𝐊𝐮𝐬𝐡 : Por serem
rivais, por vezes foram dominados pelo Egito, mas legaram diversos exemplos de
arquiteturas monumentais próprias.
G𝐚𝐧𝐚, 𝐌𝐚𝐥𝐢 𝐞 𝐒𝐨𝐧𝐠𝐡𝐚𝐢 : Esses
impérios controlavam o comércio trans-saariano e desenvolveram centros de saber
como Timbuktu.
𝐆𝐫𝐚𝐧𝐝𝐞 𝐙𝐢𝐦𝐛𝐚𝐛𝐮𝐞 : Se
constituiu como cidade-estado monumental, símbolo da engenharia africana
medieval.
Todos esses exemplos citados foram construídos,
preservados e projetados pelo próprio povo africano. Antes da expansão europeia
provocada pelo Capitalismo Comercial, africanos já realizavam viagens
marítimas, comerciais e científicas. Os núbios e os egípcios navegavam pelo Rio
Nilo e também alcançaram o Levante, o Mediterrâneo, o Mar Egeu e
possivelmente a Arábia e o Oceano Índico. O Reino de Axum existente onde hoje
está a Etiópia e Eritreia já mantinha comércio internacional com Roma, Pérsia,
Arábia e Índia no século I da Era Cristã. O Império de Mali empreendeu
expedições atlânticas antes mesmo das viagens de Cristóvão Colombo ou Vasco da
Gama, incluindo a famosa expedição do imperador Abu Bakr II no século XIV.
Quando os navegadores portugueses chegaram às
costas africanas no século XV, encontraram cidades, portos, sistemas fiscais,
exércitos organizados, complexas estruturas políticas e religiosas. Ou seja,
encontraram povos já descobertos por si mesmos há milénios. Portanto, a ideia
de ‘Descoberta’ ganhou força como forma de legitimação da expansão comercial da
Europa.
Num caso ou no outro o que se chamou de ‘descoberta’
foi, na verdade, o primeiro contato europeu, e não a revelação de um continente
desconhecido.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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