Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Não sei se se
pode falar de um regresso ao sagrado. Se assim fosse, para nós cristãos seria
uma derrota. Com efeito, apesar de ser antropologicamente uma categoria
fundamental, o ‘sagrado’ está por sua natureza marcado pela separação. A tal
ponto que é necessário exorcizar tudo o que lhe é próximo ou adverso.
Pelo contrário, a categoria teológica fundamental
para nós cristãos é o ‘santo’, traço conotativo de Deus, cujo mistério somos
chamados a partilhar. Em síntese, o sagrado como separação/distância; o santo
como participação/proximidade. O sagrado como algo que inspira temor e tremor,
o santo como encontro gratificante e divinizante.
Claramente, a secularização prevista para meados ou
para o final do milénio não se concretizou, pelo menos não da maneira radical
que tinha sido profetizada. Sob outras modalidades, a necessidade de
espiritualidade abriu caminho mesmo sem se dirigir a uma realidade pessoal
transcendente e, portanto, resolvendo-se numa prática ou num método de saúde
mental.
Meditar como esvaziamento da mente, como técnica de
relaxamento. Não como encontro com o totalmente Outro, como busca daquilo a que
Agostinho chamava Beleza tão amada, fora da qual o ser humano não encontra
descanso nem quietude.
Para mim, é difícil decifrar estas realidades, em
grande parte autorreferenciais. A este respeito, lamento aquilo que várias
vezes indiquei como uma interrupção na corrente de transmissão da fé.
Portanto, se a necessidade de sacralidade revela
uma interrogação, uma instância apesar de tudo excedente e permanente, a desilusão
é em relação a uma geração, a minha, que não foi capaz de transmitir a fé. E
refiro-me precisamente àquela pietas diária, de que as
mulheres eram guardiãs. Uma atitude instintiva e ingénua, mas que não obstante
tudo transmitia, juntamente com as regras da vida, também os rudimentos da fé;
educava para uma oração vocal, por mais repetitiva que fosse, que no entanto
denotava uma pausa, uma interrupção no cansaço quotidiano, também ele monótono,
ligado à sobrevivência, ao cuidado e à nutrição do dia a dia, à obrigação de
acompanhar a vida desde o nascimento até à morte, tarefa fundamental das
mulheres.
Não sei o que restou disto. Dir-se-ia muito pouco.
Os espaços de nicho incluem tanto os da meditação como método de relaxamento,
como os da inquietude de pensar e manifestar a própria fé. E talvez seja a
partir destes últimos que, com o passar do tempo, algo possa mudar.
Numa transição de época como a que vivemos, a
exigência de sentido torna-se mais acentuada. Certamente, pode-se adormecê-la
com a euforia, a droga, a perda de respeito, o desperdício de si mesmo. Mas não
se pode apagá-la completamente, e não é por acaso que a vemos explodir, quer
como caso literário, quer como fenómeno de pensamento.
As mulheres estão presentes nestes cenários, também
elas cansadas de procurar a sua razão de existir neste mundo. Agora livres das
obrigações culturais pretensiosamente atribuídas ao seu sexo, elas podem moldar
a sua vida a seu bel-prazer. Podem casar-se ou optar por não o fazer; ter
filhos ou recusar-se a tê-los; podem comprometer-se no social ou perder-se na
futilidade autorreferencial das redes sociais, vitrines de vazio e tagarelice,
espaços de pura e ostensiva autoafirmação. Mas também podem assumir a
responsabilidade pelos outros, pelo mundo, pelos animais e pelas pessoas; podem
abraçar as causas mais díspares, com toda a liberdade, e não porque isto está
inscrito no seu ventre fecundo.
É claro que, embora representem uma minoria, as
mulheres falam de Deus e o Deus de que falam é muito diferente do Deus dos seus
pais (e das suas mães). Aquelas que o procuram, revivendo a mesma paixão de
tantas mulheres do passado, hoje têm a possibilidade de aceder a instrumentos
que outrora lhes eram negados. Podem ‘tomar a palavra’, orientando deste modo
as próprias palavras de maneira diferente, conferindo-lhes novos significados.
O Deus de que as mulheres falam não se insere na
esfera do sagrado, no sentido de que não é a sua supremacia que elas procuram.
Certamente haverá também aquelas que recorrem à sacralidade sob o sinal
destrutivo do poder, mas não são a maioria. Talvez sejam mais visíveis e, por
isso, mais imitadas. Mas o Deus das mulheres é todo-poderoso no sentido
original do termo pantokrator. Em vez de potência e poder absoluto,
ele sugere apoio e abraço. É o Deus que tudo contém, tudo sustenta, tudo
acompanha, e cujo nome reconfortante e pacificador é misericórdia.
Devo aos meus estudos a possibilidade de falar de
Deus de outro modo. E espero sinceramente que o meu esforço e o de tantas
outras mulheres que perseguem as mesmas idealidades acabem por ressoar na sua
autenticidade. Eis o sentido da vida, da nossa vida de mulheres (assim como de
homens) : reside inteiramente na possibilidade de nos colocarmos frente a
frente, uns com os outros, num diálogo frutífero vis-à-vis que,
em última análise, revela o cerne da questão : todos nós, homens e mulheres,
fomos criados à imagem de Deus e, por isso mesmo, somos chamados à relação e ao
cuidado recíproco.
Se me for lícito, falar de Deus da parte das
mulheres significa decliná-lo diversamente, ou seja, levar a sério o paradigma
do seu ‘fazer-se carne’ e transformar, precisamente a ‘carne’, no lugar
emblemático — teológico — da experiência de proximidade.
Durante séculos, falávamos de Deus como ‘o ser’ por
excelência, reproduzindo, até sem o querer, o modelo aristotélico do motor
imóvel. Pelo contrário, o Deus cristão é um Deus ‘em devir’, que renuncia à
natureza divina para fazer sua a condição indigente do ser humano. É um Deus
que se faz carne. E isto implica a assunção da debilidade humana, do limite, da
fragilidade. A assunção da impotência, da dor, da morte à maneira de qualquer
outro ser humano.
O nosso monofisismo projetou no homem Jesus os
traços do divino. Nunca levou a sério o seu crescimento, as suas escolhas, as
suas angústias, a sua dor, o seu suor de sangue perante a morte. Inclusive
quando nos apaixonávamos sentimentalmente pela sua humanidade, às vezes com
mecanismos imitativos sadomasoquistas, isto é, castigando a nossa carne para
imitar o seu sofrimento, nunca nos passou pela mente interpretar o mistério da
sua vida num horizonte de fragilidade e dúvida, num horizonte de debilidade. No
entanto, as faixas que o envolveram quando nasceu, cobrindo a sua nudez, assim
como as vestes das quais foi despojado para ser colocado no patíbulo, não eram
uma ficção, como se afinal a sua identidade divina prevalecesse sobre tudo.
Pelo contrário, o homem Jesus sofreu como qualquer outro homem; trabalhou como
qualquer outro homem; teve os estímulos e as sugestões que acompanham a vida de
todos nós, e dos quais são emblema as chamadas ‘tentações’.
Pois bem, gostaria que as mulheres falassem de
Deus, articulando o seu nome inefável em sinal de solicitude e de cuidado;
acima de tudo, gostaria que reconhecessem no Filho o paradigma daquela relação
que descreve Deus diante de Deus, na dança trinitária de Pai, Filho e Espírito.
Uma dança que agora reconhece a carne como conotado próprio de Deus e, por
isso, interioriza a finitude e o limite.
Sim, desejaria uma nova era do Espírito, cujo sopro
gentil, revelando-nos na nossa fragilidade, nos tornasse capazes de a superar,
abandonando desígnios demoníacos de poder para traçar horizontes autênticos de
sororidade e fraternidade.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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