Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo de Maria Milvia Morciano
‘Durante séculos, a paisagem dos Montes Sibilinos
alimentou histórias de grutas misteriosas, lagos inquietos e figuras suspensas
entre a lenda e a devoção. Entre as regiões das Marcas e Úmbria, numa região
marcada por penhascos íngremes, planaltos isolados e alto risco sísmico, o mito
da Sibila dos Apeninos e a memória de Santa Rita de Cássia coexistem até a era
moderna.
Fontes medievais descrevem essas montanhas como
isoladas e de difícil acesso. Histórias de necromantes e práticas mágicas
surgiram ao redor do Lago Pilatos, enquanto a Gruta da Sibila se tornou um
destino para viajantes de toda a Europa. Entre os séculos XV e XVI, a fama
desses lugares se espalhou graças a ‘Paradis de la Reine Sibylle, de
Antoine de La Sale, e ‘Guerrin Meschino’, de Andrea da Barberino.
A caminhada na montanha
A Sibila aparece como uma rainha subterrânea que
vive nas entranhas da montanha, rodeada por damas e cavaleiros em uma espécie
de paraíso encantado. Mas por trás da beleza do reino, esconde-se um perigo :
nas narrativas medievais, esse mundo assume uma qualidade ambígua e sombria. A
caminhada até a caverna torna-se, assim, um teste moral, bem como uma aventura.
Algumas versões da lenda descrevem uma ponte suspensa sobre o abismo — a pons
subtilis mencionada por Gregório Magno — uma imagem de julgamento e da
passagem para a vida após a morte : atravessá-la significava confrontar o
pecado, a ilusão e a possibilidade de salvação. Esses contos retratam a ideia
medieval específica da caminhada, suspensa entre a experiência real e a busca
espiritual.
A montanha e o terremoto
A própria conformação dos Montes Sibillini
provavelmente contribuiu para o surgimento de lendas. Em uma região marcada por
recorrentes terremotos, o movimento da terra tornou-se parte natural do
imaginário coletivo. Deslizamentos de terra, cavidades naturais e lagos de
montanha alimentaram histórias de aberturas para mundos subterrâneos e
presenças misteriosas. Muitos nomes de lugares na área ainda conservam
vestígios dessa herança narrativa : da Gola dell'Infernaccio ao Pizzo
del Diavolo, até a Grotta della Sibilla.
A pedra de Santa Rita
Ao longo do tempo, a tradição popular e alguns
estudos frequentemente contrastaram a figura da Sibila com a de Santa Rita. Não
muito longe dali, na região de Cássia, a tradição popular, por sua vez, associa
a Pedra de Rocca Porena à figura de Santa Rita de Cássia, a santa úmbria que
viveu entre os séculos XIV e XV, cuja devoção se espalhou para muito além dos
Apeninos centrais. Também ali, a rocha entra na narrativa religiosa, mas com um
significado oposto ao mundo instável da Sibila.
Segundo a devoção local, a santa se refugiava
naquele contraforte da montanha, onde teria deixado a marca de seus joelhos. A
montanha não é mais simplesmente uma cavidade escura ou a porta de entrada para
um reino ambíguo, mas um ponto estável e vertical, voltado para cima. O
movimento da terra e a descida para a caverna são contrabalançados pela
estabilidade da rocha, quase uma resposta cristã ao antigo temor da terra se
abrir. Talvez não seja coincidência que tenha sido precisamente nas
proximidades desses lugares, em Preci, que uma das mais célebres escolas de
cirurgia da Itália, renomada por sua oftalmologia e extração de cálculos, tenha
surgido entre os séculos XVI e XVII. É como se, na mesma geografia que
alimentara histórias de ritos mágicos e forças subterrâneas, a prática da
medicina tivesse encontrado um novo espaço e autoridade.
Do mito à devoção
Com o tempo, as narrativas da Sibila gradualmente
se incorporaram ao folclore, enquanto a devoção a Santa Rita, figura de
proteção e intercessão profundamente enraizada nos Apeninos da Úmbria, cresceu.
A mesma paisagem que na Idade Média alimentou contos de cavernas, terremotos e
presenças misteriosas foi, assim, reinterpretada por meio da oração, da
peregrinação e do culto aos santos.
Nas Montanhas Sibillini, porém, o mito nunca
desapareceu por completo. Ele continua a sobreviver em contos populares, em trilhas,
em nomes de lugares e na percepção de uma montanha ao mesmo tempo bela e
frágil, onde a natureza e a memória coletiva continuam a se moldar mutuamente.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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