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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Irmã Josephine Mary Miller (1948-2022)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Marie-Paule Bart, OCBE

Cisterciense Bernardina de Esquermes


‘Josephine Miller nasceu em 16 de abril de 1948, em Exeter, Devon. Quando ainda era muito jovem, seus pais se mudaram para a costa leste e se estabeleceram em Southend-on-Sea, Essex. Essa cidade, na foz do rio Tâmisa, ela consideraria sua terra natal. Ao longo de sua vida, ela manteve um profundo apego a essa cidade.

A família era composta por três filhas : Josephine era a segunda, precedida por Elizabeth e seguida por Anne. Todas as três frequentaram a St. Bernard’s Convent High School em Westcliff-on-Sea. Esta escola era administrada pelas Cistercienses Bernardinas de Esquermes.

O primeiro contato de Josephine com as Bernardinas ocorreu quando ela tinha apenas quatro anos, quando se tornou aluna na Lindisfarne Preparatory School, uma pequena escola primária também dirigida pelas Bernardinas. Segundo suas próprias palavras, foi muito jovem quando começou a desejar ser religiosa. Aos 18 anos, em setembro de 1966, ela ingressou no noviciado das Bernardinas no Mosteiro Notre-Dame de La Plaine, na França. Uma experiência fundamental que ela descreveu assim :

‘Eu entrei no noviciado na França logo após o Concílio, quando mal se começava a falar de aggiornamento, muito menos de inculturação. Sendo inglesa e muito jovem, eu era incapaz de discernir o que era monástico e cisterciense, o que era estilo de vida francês, o que poderia e deveria mudar, eu estava perdida; com uma mestra de noviças muito sábia e muito santa, mas que tinha mais do que três vezes a minha idade. Nossas conversas eram bastante curtas! No entanto, o Senhor assumiu o controle; Ele me fez descobrir as antífonas do Advento, depois as antífonas do ‘O’, depois os responsórios das Vigílias de Natal, em latim, e eu estava no caminho. Meu amor pela liturgia, depois pela Bíblia, depois pela vida monástica, data dessa experiência.

Na minha opinião, o que descrevi foi uma experiência muito cisterciense, mesmo que eu absolutamente não soubesse disso na época. O Senhor tomou a iniciativa, reacendeu uma fé que começava a vacilar, proporcionou uma primeira experiência de alegria espiritual, ensinou-me a saborear a Palavra de Deus sem negligenciar a inteligência, mesmo que esta fosse apenas o ponto de partida. Foi uma experiência cisterciense : humana, espiritual e muito simples’ [1].

Essa experiência seria a base de sua vida, e ela aprofundaria esse sulco com paciência, perseverança e simplicidade.

De fato, Irmã Josephine Mary amava a vida monástica, que vivia com o coração, simplicidade e autenticidade. Ela amava a liturgia, da qual se alimentava diariamente : as leituras, as antífonas e as orações estavam firmemente ancorados em sua memória e moldavam sua vida cotidiana. Ela participava dessa liturgia comunitária como cantora (tinha uma bela voz) e como responsável. Foi por isso que desempenhou um papel determinante na renovação da liturgia das Bernardinas inglesas nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Sua fé era profunda e sua vida espiritual era alimentada por sua paixão pelos escritos de São Bernardo.

Embora mantivesse uma certa reserva na comunidade, Irmã Josephine Mary possuía uma autoridade moral natural, apreciada e respeitada por suas irmãs. Ela prestava muita atenção às pessoas e sabia ouvir. Assim, irmãs, oblatos, amigos, outros superiores monásticos, clérigos de outras confissões buscavam seus conselhos, apreciavam seu acompanhamento e valorizavam seu apoio. Ela desejava o melhor para cada um, incentivando-os em seu crescimento espiritual e humano.

Com grande habilidade para idiomas, ela ensinou inicialmente na St. Bernard’s Convent em Westcliff-on-Sea, depois em Slough, até sua eleição como Priora Geral em 1990. Grande pedagoga, excelente professora, ótima guia, ela sabia extrair o melhor das pessoas, confiando nelas, mas também sendo exigente. A partir de 1978, ela serviu a Ordem como mestra das noviças em Slough, de 1978 a 1990, Priora Geral de 1990 a 2008 e Priora em Hyning de 2008 a 2020.

Como Priora Geral, ela liderou o delicado processo de reestruturação na França, devido à diminuição das vocações : o fechamento de uma escola profissional, a retirada da comunidade de Cambrai e a transferência da escola para a tutela diocesana. Na Inglaterra, também foi necessário acompanhar o discernimento que resultou na retirada da comunidade da St. Bernard’s Convent Grammar School em Slough, transferida para a diocese, e no estabelecimento de uma comunidade em Brownshill, Gloucestershire. No Japão, com a comunidade envelhecendo, chegou o momento de transferir as escolas para outra congregação e estabelecer a comunidade em um novo local.

A situação das comunidades de Goma e Buhimba durante os eventos de 1994 em Ruanda foi ainda mais difícil, seguida pela fuga das irmãs de Buhimba em 1996, algumas das quais não puderam ser localizadas por semanas, tão longe da Casa Geral... Ela também acompanhou e apoiou a busca por um novo local na África e a fundação do Mosteiro Notre-Dame de Bafor, em Burkina Faso.

Ao final de seu mandato, ela acolheu o desejo das irmãs do Japão de que a Ordem fundasse outro mosteiro na Ásia, para que o carisma das Cistercienses Bernardinas permanecesse neste continente e que o mosteiro do Japão, ao desaparecer, desse ainda origem a um novo broto. Isso foi plenamente implementado pela Priora Geral seguinte.

Irmã Josephine Mary escreveu, ao reler esses anos :

‘Eles foram um período muito agitado... Nossa fé e esperança foram testadas, às vezes de maneira muito dura, e temos quase certeza de que isso continuará... Temos que procurar, descobrir progressivamente e juntos os caminhos que teremos que seguir. Poderíamos facilmente desistir e ficar desanimados; parece-me que o Senhor nos convida, em vez disso, a perseverar, a orar mais, a purificar nossa fé, a confiar, a construir juntos algo muito modesto, mas autêntico’ [2].

Os diferentes serviços que lhe foram solicitados, primeiro na comunidade e na Ordem, depois no exterior, além das fronteiras, permitiram-lhe compartilhar amplamente e fraternalmente os frutos de sua experiência com o mundo monástico : palestrante em conferências e sessões, facilitadora de discernimento comunitário, acompanhante em muitas visitas regulares tanto aos Cistercienses quanto aos Beneditinos, membro de várias ‘comissões de ajuda’, palestrante na sessão de formadores OSB e Cistercienses em Roma, dez anos no Conselho da AIM, incluindo cinco anos no Comitê Executivo...

Para ela, as comunidades deveriam viver abertas à diocese, à Igreja universal, atentas às transformações do mundo : mulher de fé, profundamente enraizada em Cristo, ela olhava com clareza para as mudanças de nosso tempo, sem pessimismo. Em 2003, ela disse aos superiores monásticos da Região das Ilhas :

‘Essa situação em constante mudança, que nos parece ameaçadora, é, na verdade, uma grande graça, desde que tenhamos fé suficiente para vê-la dessa maneira. Somos obrigados a redefinir nossas prioridades e a nos perguntar como, concretamente, colocaremos nossa busca por Deus em primeiro lugar em nossas vidas diárias.

Em outras palavras, é reconhecer que, através do que experimentamos como ‘diminuição’, Deus nos convida a dar um testemunho mais explícito dos valores do Reino, valores de que nosso mundo precisa ver’ [3].

Após dezoito anos como Priora Geral, ela foi nomeada Priora de Hyning, na Inglaterra. Lá, ela continuou a prestar os mesmos tipos de serviços : responsável pela Comissão encarregada de revisar as Constituições da Ordem, presidente da União dos Superiores Monásticos do Reino Unido e Irlanda (UMS), acompanhante de várias comunidades em processo de discernimento para um novo futuro, visitadora apostólica de uma comunidade belga, etc.

Em 2018, enquanto ainda era priora e continuava ativa em serviço de sua comunidade, da Ordem e da Igreja, um câncer foi diagnosticado. Desde o início, foi-lhe informado que não era curável. Ela enfrentou essa realidade com lucidez durante seus últimos quatro anos de vida. Corajosa e firmemente apoiada pelo Senhor quando estava sobrecarregada com pesadas responsabilidades, ela permaneceu a mesma durante a doença. Sua forte fé na Ressurreição e sua aceitação pacífica da vontade de Deus ao longo de sua vida a ajudaram nas últimas semanas. Sua personalidade rica e forte se suavizou e simplificou durante seu último mandato, o ponto culminante de uma vida generosamente dedicada à escola do serviço ao Senhor. Ela faleceu pacificamente em 16 de fevereiro de 2022 no Hospital St. John, em Lancaster, pronta para encontrar o Senhor a quem ela amou, desejou e serviu tão fielmente’.

 

[1] Conferência proferida em maio de 2000 em Lérins sobre o tema da ‘Formação’.

[2] Introdução ao Relatório elaborado no Capítulo em 2002.

[3] ‘Caos e Paz’, conferência proferida na reunião de superiores monásticos da Região das Ilhas Hawkstone Hall – Inglaterra, outubro de 2003.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124

 

domingo, 13 de setembro de 2026

A Santa Cruz de Caravaca: história de devoção milenar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento 


‘Em Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, ergue-se a Basílica Santuário da Vera Cruz. Aí se encontra uma devoção antiga, que infelizmente no Brasil e alguns países tem se misturado com superstições motivadas por publicações que misturam fé com bruxaria; porém, graças ao testemunho dos papas recentes, como São João Paulo II e Bento XVI, tem-se divulgado ao povo fiel uma verdadeira devoção à santa cruz . 

Na obra de Antonio de Honcala de 1546, Pentaplon christianae pietatis, relata-se que, no século XIII, um sacerdote aventurou-se em território mouro para pregar o Evangelho. Foi preso pelos muçulmanos e levado perante o governante, Zayd Abu Zayd. O governante interrogou-o sobre a Missa e o sacerdote explicou-a tão detalhadamente que o governante exigiu que fosse celebrada em sua presença. O sacerdote não possuía os itens necessários e mandou buscá-los na cidade de Concha, que estava sob controle cristão, contudo, a cruz havia sido esquecida. O sacerdote, sem saber da sua ausência, começou a Missa, mas, parou quando percebeu que ela faltava. O governante, que assistia à Missa com a sua família, perguntou-lhe o que havia de errado. O sacerdote respondeu : ‘Não há cruz’. Nesse momento, o muçulmano viu dois anjos colocando a cruz no altar e apontando para o objeto desejado disse : ‘Será que é isso?’. O sacerdote deu graças a Deus e continuou com a Missa. 

Segundo a lenda, esse evento levou o governante muçulmano e sua família a se converterem ao cristianismo. De acordo com a maioria das versões da história, o clérigo chamava-se Ginés Pérez Chirino ou Quirino, era originário de Mahora, na província de Albacete, e viera de Cuenca, onde fora discípulo do bispo São Julião, que o designara para servir na catedral. Segundo outra versão, seu nome era Fernán Pérez e por isso um dos filhos do governante foi batizado com o nome de Fernán Pérez. 

Leonardo Mayor Izquierdo situa a data do milagre em 3 de maio de 1231. Dom F. Renón, usando dados da monografia de Juan Robles Corbalán de 1615 sobre a verdadeira cruz de Caravaca, situa o milagre em 1227. Zayd Abu Zayd comunicou sua intenção de se converter ao cristianismo ao Papa Gregório IX em 1228. Essa conversão ocorreu após essa data. 

Existe outra lenda sobre a sua origem. Quando Santa Helena encontrou a verdadeira cruz no século IV, deu um pedaço ao patriarca de Jerusalém. No século XIII, o imperador Frederico II Hohenstaufen foi proclamar-se rei de Jerusalém, ocasião em que colocou a relíquia no peito. Contudo, devido à sua falta de piedade, dois anjos apareceram e levaram-na, tendo esta reaparecido mais tarde em Caravaca. 

Outra história, mais prosaica, conta que quando Caravaca foi conquistada por Jaime I, o Conquistador, e entregue a Fernando III, o Santo, em 1244, pelo tratado de Almizra, este entregou a cidade aos templários, que trouxeram a verdadeira cruz, de acordo com a regra da ordem de tê-la em todas as suas comendas. Ela teria sido colocada num relicário em forma de cruz patriarcal, pois era uma cruz simbólica dos templários. 

A cruz serviu como estandarte e talismã contra os subsequentes ataques andaluzes, especialmente os perpetrados por Muhammad ibn Nasr, emir de Arjona e Granada. Com isso, Caravaca consolidou sua posição como um bastião na fronteira hispano-islâmica.

Conta a lenda que, no século XIII, os templários foram sitiados no castelo pelos muçulmanos e a água das cisternas da fortaleza ficou estagnada. Um grupo de templários conseguiu escapar e foi até as fontes em busca de água, mas estas haviam sido envenenadas pelos sitiantes. Encontraram apenas vinho, então, encheram vários odres com ele e o carregaram em seus cavalos. Ao retornarem à fortaleza, após cruzarem com sucesso as linhas inimigas mais uma vez, abençoaram o vinho com a vera cruz e o deram aos doentes, que foram curados. Também derramaram um pouco do vinho nas cisternas, que foram purificadas. Dessa forma, conseguiram resistir ao cerco e as forças muçulmanas finalmente se retiraram. Essa tradição, conhecida como os Cavalos do Vinho, é comemorada todo dia 2 de maio, quando os clubes equestres de Caravaca enfeitam um cavalo e escolhem quatro representantes para correrem pela encosta que leva ao Santuário da Vera Cruz. 

O mestre da Ordem de Santiago, Lorenzo Suárez de Figueroa, fez uma peregrinação a Caravaca em 1390 e doou uma caixa de prata dourada para guardar a relíquia. 

A partir do século XIV foram emitidas bulas de indulgência para aqueles que visitavam a capela onde se encontrava a cruz. As duas primeiras que sobreviveram foram promulgadas por Clemente VII de Avignon em 1379 e em 30 de janeiro de 1392. O primeiro Papa de Roma a conceder indulgências para esse fim foi Pio V em 1572. Posteriormente, essas indulgências foram prorrogadas por Gregório XV em 1622 e confirmadas por Urbano VIII (1623-1644), Clemente X (1670-1676) e Inocêncio XII(1691-1700). 

Em 1536, o comandante Pedro Fajardo y Chacón, primeiro marquês de Vélez, doou uma custódia de ouro e um porta-cruz de prata, avaliados em mil ducados. 

Em 1711, o duque de Montalto doou um relicário, que foi substituído por outro em 1777, doado pelo duque de Alba. 

A cruz foi objeto de um roubo sacrílego na noite de 14 de fevereiro de 1934. Os ladrões roubaram a relíquia sagrada e o relicário que a continha, uma doação da casa de Alba em 1777, deixando para trás o cofre que continha ambos e que foi doado em 1390 por Lorenzo Suárez de Figueroa, mestre da Ordem de Santiago. 

Em 30 de abril de 1942, dois fragmentos chegaram a Caravaca juntamente com um documento impresso em latim, emitido em 15 de abril de 1942, pelo frade dominicano Gabriel Moriondo, bispo de Caserta, que estava associado às relíquias do Vaticano desde pelo menos 1930. O documento certificava que os fragmentos provinham da cruz de Jesus Cristo e autorizava a sua exibição em qualquer igreja, capela pública ou oratório. Ambos os fragmentos foram colocados num relicário que era uma réplica do que tinha sido roubado. A relíquia chegou a tempo para as festividades de maio em honra da verdadeira cruz. 

São João Paulo II concedeu um ano jubilar à cidade em 2 de janeiro de 1981, a pedido do bispo de Cartagena. Em 1998, a pedido do bispo de Cartagena e da real e ilustre Confraria da Santa e Verdadeira Cruz de Caravaca, São João Paulo II concedeu perpetuamente um ano jubilar a cada sete anos ao santuário, a partir de 2003, concedendo uma indulgência plenária, nas condições habituais, em 3 de maio e 14 de setembro, ou por meio de uma peregrinação em grupo. Caravaca tornou-se uma das cinco cidades do mundo com esse privilégio, consideradas ‘cidades santas’. As outras são Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana. 

Em 2002, o então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, peregrinou à cidade para encerrar um congresso internacional de cristologia na região de Múrcia. Ele celebrou a Eucaristia e venerou publicamente a relíquia no Santuário da Vera Cruz de Caravaca.

O Papa Francisco recebeu delegações e enviou bênçãos apostólicas para os anos jubilares mais recentes, porém, nunca realizou uma viagem oficial até o município espanhol.

A adoração da santa cruz se encontra no centro de nossa fé. Vários santos se inspiraram na santa relíquia para promover missões, como São Junípero Serra, devoto da vera cruz de Caravaca, ou as missões jesuíticas no nosso país que conservam em muitos lugares a imagem dessa cruz. Já São Boaventura, em uma meditação, disse que assim como o lenho alimenta a chama, o santo lenho da cruz alimenta nosso amor. Esse é o real segredo da santa cruz de Caravaca.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-santa-cruz-de-caravaca-historia-de-devocao-milenar.html

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Santa Rita e o monte da Sibilla

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
A pedra com as marcas dos joelhos de Santa Rita em Roccaporena

*Artigo de Maria Milvia Morciano


‘Durante séculos, a paisagem dos Montes Sibilinos alimentou histórias de grutas misteriosas, lagos inquietos e figuras suspensas entre a lenda e a devoção. Entre as regiões das Marcas e Úmbria, numa região marcada por penhascos íngremes, planaltos isolados e alto risco sísmico, o mito da Sibila dos Apeninos e a memória de Santa Rita de Cássia coexistem até a era moderna.

Fontes medievais descrevem essas montanhas como isoladas e de difícil acesso. Histórias de necromantes e práticas mágicas surgiram ao redor do Lago Pilatos, enquanto a Gruta da Sibila se tornou um destino para viajantes de toda a Europa. Entre os séculos XV e XVI, a fama desses lugares se espalhou graças a ‘Paradis de la Reine Sibylle, de Antoine de La Sale, e ‘Guerrin Meschino’, de Andrea da Barberino.

A caminhada na montanha 

A Sibila aparece como uma rainha subterrânea que vive nas entranhas da montanha, rodeada por damas e cavaleiros em uma espécie de paraíso encantado. Mas por trás da beleza do reino, esconde-se um perigo : nas narrativas medievais, esse mundo assume uma qualidade ambígua e sombria. A caminhada até a caverna torna-se, assim, um teste moral, bem como uma aventura. Algumas versões da lenda descrevem uma ponte suspensa sobre o abismo — a pons subtilis mencionada por Gregório Magno — uma imagem de julgamento e da passagem para a vida após a morte : atravessá-la significava confrontar o pecado, a ilusão e a possibilidade de salvação. Esses contos retratam a ideia medieval específica da caminhada, suspensa entre a experiência real e a busca espiritual.

A montanha e o terremoto 

A própria conformação dos Montes Sibillini provavelmente contribuiu para o surgimento de lendas. Em uma região marcada por recorrentes terremotos, o movimento da terra tornou-se parte natural do imaginário coletivo. Deslizamentos de terra, cavidades naturais e lagos de montanha alimentaram histórias de aberturas para mundos subterrâneos e presenças misteriosas. Muitos nomes de lugares na área ainda conservam vestígios dessa herança narrativa : da Gola dell'Infernaccio ao Pizzo del Diavolo, até a Grotta della Sibilla.

A pedra de Santa Rita 

Ao longo do tempo, a tradição popular e alguns estudos frequentemente contrastaram a figura da Sibila com a de Santa Rita. Não muito longe dali, na região de Cássia, a tradição popular, por sua vez, associa a Pedra de Rocca Porena à figura de Santa Rita de Cássia, a santa úmbria que viveu entre os séculos XIV e XV, cuja devoção se espalhou para muito além dos Apeninos centrais. Também ali, a rocha entra na narrativa religiosa, mas com um significado oposto ao mundo instável da Sibila.

Segundo a devoção local, a santa se refugiava naquele contraforte da montanha, onde teria deixado a marca de seus joelhos. A montanha não é mais simplesmente uma cavidade escura ou a porta de entrada para um reino ambíguo, mas um ponto estável e vertical, voltado para cima. O movimento da terra e a descida para a caverna são contrabalançados pela estabilidade da rocha, quase uma resposta cristã ao antigo temor da terra se abrir. Talvez não seja coincidência que tenha sido precisamente nas proximidades desses lugares, em Preci, que uma das mais célebres escolas de cirurgia da Itália, renomada por sua oftalmologia e extração de cálculos, tenha surgido entre os séculos XVI e XVII. É como se, na mesma geografia que alimentara histórias de ritos mágicos e forças subterrâneas, a prática da medicina tivesse encontrado um novo espaço e autoridade.

Do mito à devoção 

Com o tempo, as narrativas da Sibila gradualmente se incorporaram ao folclore, enquanto a devoção a Santa Rita, figura de proteção e intercessão profundamente enraizada nos Apeninos da Úmbria, cresceu. A mesma paisagem que na Idade Média alimentou contos de cavernas, terremotos e presenças misteriosas foi, assim, reinterpretada por meio da oração, da peregrinação e do culto aos santos.

Nas Montanhas Sibillini, porém, o mito nunca desapareceu por completo. Ele continua a sobreviver em contos populares, em trilhas, em nomes de lugares e na percepção de uma montanha ao mesmo tempo bela e frágil, onde a natureza e a memória coletiva continuam a se moldar mutuamente.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-05/santa-rita-cassia-monte-sibilla-historia-idade-media.html

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Historia de Santa Rita de Cassia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘Rita nasceu por volta do ano de 1381 em Roccaporena, uma aldeia situada na Prefeitura de Cássia na província de Perugia, filha de Antonio Lotti e Camata Ferri. Os seus pais eram pessoas de fé e a situação econômica não era das melhores, mas decorosa e tranquila.

A história de Santa Rita foi repleta de eventos extraordinários e um destes se mostrou na sua infância. São situações que a tradição dos cristãos quis expressar a missão e vocação dela. A criança, talvez deixada por alguns minutos sozinha em uma cesta na roça enquanto os seus pais trabalhavam na terra, foi circundada dá um enxame de abelhas. Estes insetos recobriram a menina mas estranhamente não a picaram. Um caipira, que no mesmo momento havia ferido a mão com a enxada e estava correndo para ir curar-se, passou na frente da cesta onde estava deitada Rita. Viu as abelhas que rodeavam a criança, começou a mandá-las embora e com grande estupor, à medida que movia o braço, a ferida se cicatrizava completamente.

Rita teria desejado ser monja, todavia ainda jovem (aos 13 anos) os pais, já idosos, a prometeram em casamento a Paulo Ferdinando Mancini, um homem conhecido pelo seu caráter iroso e brutal. Santa Rita, habituada ao dever não opôs resistência e se casou com o jovem oficial que comandava a guarnição de Collegiacone, presumivelmente entre os 17-18 anos, isto é, em torno aos anos 1387-1388.

Do casamento entre Rita e Paulo nasceram dois filhos gêmeos; Giangiacomo Antonio e Paulo Maria que tiveram todo o amor, a ternura e os cuidados da mãe. Rita conseguiu com o seu doce amor e tanta paciência a transformar o caráter do marido, o fazendo ser mais dócil.

Tiveram dois filhos, e ela buscou educá-los na fé e no amor. Porém, eles foram influenciados pelo pai, que antes de se casar se apresentava com uma boa índole, mas depois se mostrou fanfarrão, traidor, entregue aos vícios. E seus filhos o acompanharam.

Rita então, chorava, orava, intercedia e sempre dava bom exemplo a eles. E passou por um grande sofrimento ao ver o marido assassinado e ao descobrir depois que os dois filhos pensavam em vingar a morte do pai. Com um amor heroico por suas almas, ela suplicou a Deus que os levasse antes que cometessem esse grave pecado. Pouco tempo mais tarde, os dois rapazes morreram depois de preparar-se para o encontro com Deus.

Sem o marido e filhos, Santa Rita entregou-se à oração, penitência e obras de caridade e tentou ser admitida no Convento Agostiniano em Cássia, fato que foi recusado no início. No entanto, ela não desistiu e manteve-se em oração, pedindo a intercessão de seus três santos patronos – São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolas de Tolentino – e milagrosamente foi aceita no convento. Isso aconteceu por volta de 1441.

Seu refúgio era Jesus Cristo. A santa de hoje viveu os impossíveis de sua vida se refugiando no Senhor. Rita quis ser religiosa. Já era uma esposa santa, tornou-se uma viúva santa e depois uma religiosa exemplar. Ela recebeu um estigma na testa, que a fez sofrer muito devido à humilhação que sentia, pois cheirava mal e incomodava os outros. Por isso teve que viver resguardada.

Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis e do perdão, deixou-nos um legado de fé e perseverança, transmitido por sua vida de amor ao próximo e ao Senhor. Dedicada a Cristo e Seus ensinamentos, foi Seu instrumento para a realização de muitos milagres. Por sua devoção e espiritualidade, recebeu o estigma que a acompanhou durante toda a vida e lhe permitiu compartilhar com Jesus as dores de Sua Paixão.

Santa Rita, modelo de humildade e bondade, viveu o Evangelho a tal extremo que foi capaz de perdoar os assassinos de seu marido e de orar por eles. Conheçamos, nestes tempos de individualismo e guerras, a história daquela que praticou e defendeu o maior ensinamento do Senhor : ‘Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.’

Para Rita os últimos 15 anos de sua vida foram de sofrimento sem trégua. A sua perseverança na oração a levava a passar até 15 dias correntes na sua cela ‘sem falar com ninguém se não com Deus’, além do mais usava também o cilicio q ue lhe dava tanto sofrimento, submetia o seu corpo a muitas mortificações : dormia no chão até que se adoentou e assim ficou até os últimos anos da sua vida.

Cinco meses antes da morte de Rita, um dia de inverno com a temperatura rígida e um manto de neve cobria tudo, uma parente lhe foi visitar e antes de ir embora perguntou à Santa se Ela desejava alguma coisa, Rita respondeu que teria desejado uma rosa da sua horta. Quando voltou a Roccaporena a parente foi à horta e grande foi a sua surpresa quando viu uma belíssima rosa, a colheu e a levou a Rita.

Assim Santa Rita foi denominada a Santa da ‘Rosa’ e dos impossíveis. Santa Rita antes de fechar os olhos para sempre, teve a visão de Jesus e da Virgem Maria que a convidavam no Paraíso. Uma monja viu a sua alma subir ao céu acompanhada de Anjos e contemporaneamente os sinos da igreja começaram a tocar sozinhos, enquanto um perfume suavíssimo se espalhou por todo o Mosteiro e do seu quarto viram uma luz luminosa como se fosse entrado o Sol. Era o dia 22 de Maio de 1447. Santa Rita de Cássia foi beatificada 180 anos depois da sua subida aos céus e proclamada Santa após 453 anos da sua morte.

A primeira Igreja dedicada a Santa Rita erigida no Rio de Janeiro foi em 1710. A sua Igreja, erigida no centro da cidade, é um importante centro de evangelização. Depois muitas outras paróquias e capelas foram dedicadas a ‘santa dos impossíveis’. Todos os santos nos demonstram que a razão primeira e última de suas vidas foi Jesus Cristo. E é só por Ele que podemos compreender suas vidas e virtudes. Por isso eles nos apontam para o centro de nossa vida e pedra angular da construção da humanidade : o Senhor Jesus Cristo. Acorramos a Santa Rita e nela busquemos os exemplos para vivermos a esperança como virtude cristã que só o Cristo Ressuscitado pode nos proporcionar no cotidiano de nossas vidas. Santa Rita! Rogai por nós!’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.cnbb.org.br/historia-de-santa-rita-de-cassia/#:~:text=Rita%20de%20C%C3%A1ssia%2C%20a%20santa,a%20realiza%C3%A7%C3%A3o%20de%20muitos%20milagres.


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Conheça a devoção a Nossa Senhora do Rocio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Antonieta Santana P. Sales

 

‘Que o meu ensino caia como chuva e as minhas palavras desçam como orvalho.’ (Dt 32,2)

 

‘O nome Rocio, de origem latina e derivado do espanhol antigo ‘rocio’, significa ‘orvalho’, símbolo de pureza e bênção. É um nome comum em países latinos devido à devoção a Nossa Senhora do Rocio, especialmente na Espanha e em Portugal.

Graças a essa herança de fé, também em terras brasileiras fomos agraciados por essa bênção, marcada pela visita do Céu : Nossa Senhora do Rosário do Rocio, popularmente conhecida como Nossa Senhora do Rocio.

No século XVII, à beira da baía de Paranaguá (PR), viviam humildes pescadores que tiravam o seu sustento do mar. Um deles, chamado Pai Berê, lançava sua rede, mas não conseguia recolhê-la com um só peixe que fosse para alimentar a fome de seus filhos. Desesperado, suplicou aos Céus que não o desamparassem e jogou a rede pela última vez. Ao puxá-la, sentiu um peso que o fez acreditar ter apanhado pelo menos um peixe.

Para seu espanto, verificou que o que recolhera das águas era uma pequena imagem de Nossa Senhora, medindo entre vinte e trinta centímetros de altura, coberta de gotículas de água que brilhavam como pérolas. Levou-a para sua humilde casa onde, a partir daquele dia, os demais pescadores passaram a reunir-se para rezar e agradecer, pois começaram a recolher abundantes frutos do mar.

A devoção ganhou força quando uma peste atingiu Paranaguá em 1686, um surto de cólera apelidado de ‘Peste Grande’ pela população local. Os moradores recorreram à fé, em particular a Nossa Senhora do Rocio, e o povo rezou para que ela intercedesse pelo fim da epidemia, o que ocorreu de forma milagrosa.

A primeira igreja dedicada a Nossa Senhora do Rocio foi edificada em 1813 e o santuário, em 1920. Graças aos muitos milagres e bênçãos alcançadas por sua intercessão, a devoção se espalhou entre o povo do Paraná e de diversas regiões, atraindo multidões que faziam romarias ao Santuário da Virgem do Rocio.

Em 1977, o Papa Paulo VI declarou para a eternidade Nossa Senhora do Rocio como Padroeira e Rainha Perpétua do Estado do Paraná, indicando a Igreja do Rocio, em Paranaguá, como seu santuário estadual.

As bênçãos do Céu caíram como o orvalho da manhã sobre o povo paranaense, que conta com a intercessão da Virgem Maria, medianeira de todas as graças.

Neste ano de 2025, a festividade – considerada uma das maiores expressões de fé do Sul do país – acontece entre os dias 6 e 16 de novembro, com o tema ‘Com a Mãe do Rocio aos pés da cruz’, inspirado nos mistérios dolorosos do Rosário. Debaixo da proteção maternal da mãe de Jesus e nossa, pedimos a sua bênção para toda a Nação Brasileira.

Nossa Senhora do Rocio, rogai por nós.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/conheca-a-devocao-a-nossa-senhora-do-rocio.html

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Por que celebrar o Santíssimo Nome de Maria?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rivelino Nogueira

 

‘A liturgia celebra, no dia 12 de setembro, o Santíssimo Nome da Virgem Maria (Miryam, em hebraico). O objetivo dessa festa é permitir que os fiéis apresentem a Deus, de modo especial pela intercessão de sua Santíssima Mãe, às necessidades da Igreja e as próprias necessidades, além de agradecer ao Senhor as graças recebidas por intermédio da Virgem Maria.

O nome de uma pessoa é muito importante na Bíblia, pois representa a própria pessoa. Certamente, São Joaquim e Santa Ana foram inspirados pelo céu ao escolherem esse nome para aquela que seria, um dia, a Mãe do Redentor e nossa Mãe.

O nome de Maria, que significa Senhora da luz, indica — conforme disse a própria Virgem à Santa Matilde —: ‘Deus me encheu de sabedoria e luz, como astros brilhantes, para iluminar os céus e a terra.’

A celebração do Santíssimo Nome de Maria é uma tradição católica que reflete a devoção e o respeito à Mãe de Jesus Cristo. Eis alguns motivos pelos quais essa celebração é importante :

Reconhecimento da missão única : Maria desempenhou um papel fundamental na história da salvação, ao dar à luz Jesus Cristo, o Salvador do mundo. Sua obediência e fidelidade a Deus são exemplos inspiradores para os fiéis.

Poder e intercessão : O nome de Maria é considerado poderoso e eficaz na intercessão em favor dos fiéis. Muitos acreditam que ela pode interceder junto a Deus, pedindo proteção, orientação e bênçãos.

Beleza e inspiração : A figura de Maria é modelo de virtudes como humildade, obediência e fé. Sua vida inspira os que buscam seguir os ensinamentos de Cristo.

Devoção e piedade : A celebração é expressão da devoção dos fiéis e oportunidade para refletir sobre a vida e missão de Maria, pedindo sua intercessão e proteção.

Essa festa teve início na Espanha, em 1513, e logo se espalhou por todo o país. Em 1683, o Papa Inocêncio XI a estendeu a toda a Igreja do Ocidente como ato de ação de graças pelo levantamento do cerco de Viena e a derrota dos turcos, alcançada por João Sobieski, rei da Polônia.

Naquele período, a data foi fixada para o domingo dentro da oitava da Natividade de Nossa Senhora.

Em suma, a celebração do Santíssimo Nome de Maria é uma forma de honrar e reconhecer a importância da Virgem na história da salvação, e de pedir sua intercessão e proteção ao longo da caminhada de fé.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/por-que-celebrar-o-santissimo-nome-de-maria.html

terça-feira, 15 de julho de 2025

Nossa Senhora do Carmo: uma devoção mariana relacionada ao Antigo Testamento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Frei Gregorio-Henrique Pinho Chiozzotto, OP

 

‘Quando se propõe a um frade dominicano falar a respeito de devoções de outras ordens mendicantes, coloca-se um enorme desafio diante dele. É isso que você, caro leitor, está testemunhando neste texto. Mas, como bom dominicano que tento ser, buscarei dar o meu melhor para falar sobre Maria Santíssima sob o título de Nossa Senhora do Carmo. Este título não está vinculado a nenhuma aparição, como aconteceu em Fátima (Portugal), Guadalupe (México) e Lourdes (França), mas surgiu a partir da devoção de um grupo específico.

No início do século XI¹, no tempo das Cruzadas, muitos soldados cristãos optaram por retirar-se ao Monte Carmelo — no norte da região da Palestina, atual Israel — para viver uma vida de oração, penitência e austeridade como eremitas. Tal lugar foi escolhido por eles por estar intimamente ligado à vida de Elias, figura maior dentre os profetas do Antigo Testamento, que inclusive os representa no episódio da Transfiguração de Jesus. No Carmelo, o profeta vence os profetas do — falso — deus fenício Baal, conforme é relatado no Primeiro Livro dos Reis.

A partir do século XIII, com a queda do reino cristão de Jerusalém e as diversas derrotas das Cruzadas, os muçulmanos passaram a perseguir os cristãos em toda a Palestina, especialmente os vinculados aos lugares santos, como o Monte Carmelo. Por isso, os eremitas dali precisaram tomar uma decisão entre dois bens : o martírio ou a continuidade de seu estilo de vida. Os que, a exemplo dos primeiros cristãos, optaram por testemunhar sua fé em Cristo com a vida, regaram com seu sangue a fé e os propósitos dos que escolheram conservar o carisma carmelita em outras terras. Estes migraram para a Europa, onde o Papa Inocêncio IV adaptou a Regra de Santo Alberto de Jerusalém — um dos primeiros eremitas carmelitas — às necessidades da Igreja, sem perder a essência da vida carmelita, aprovando-os como Ordem Mendicante em 1247, sob o título de Nossa Senhora do Carmo. Este título já era utilizado desde o crescimento da vida eremítica no Monte Carmelo, ainda que não fosse oficialmente reconhecido.

Ao longo dos séculos, a Ordem dos Carmelitas cresceu bastante, passando por reformas no século XVI pelas mãos de Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, ambos Doutores da Igreja. Junto com ela, também cresceu a devoção a Nossa Senhora do Carmo, principalmente por meio do escapulário. E o que seria, de fato, a escapulário? Etimologicamente, a palavra significa ‘aquilo que se usa sobre a escápula (ombros)’. Na vida religiosa consagrada, algumas ordens e congregações têm o escapulário como parte integrante de seu hábito. Para nós, dominicanos, ele é sinal tanto de trabalho — por ser como um avental que cobre toda a frente e as costas da pessoa — quanto de proteção de Maria Santíssima, como uma couraça ou armadura. Por isso, é abençoado por nossos superiores no dia de nossa primeira profissão, tornando-se, portanto, um sacramental.

Para os carmelitas², também há o significado de proteção de Maria Santíssima, sendo estabelecido em 1251, após o superior geral da Ordem, São Simão Stock, rezar no dia 16 de julho a Nossa Senhora do Carmo, pedindo que a Ordem, então em profunda crise, não chegasse ao fim. Neste momento, a própria Mãe de Deus lhe apareceu, entregou-lhe o escapulário e prometeu sua proteção materna a todos que o utilizassem com devoção. Essa data, então, tornou-se a festa litúrgica de Nossa Senhora do Carmo.

Inicialmente, o uso do escapulário estava limitado aos membros da Ordem Carmelita (os frades, na Primeira Ordem; as monjas, na Segunda Ordem; e os leigos e sacerdotes seculares, na Terceira Ordem), como parte integrante de seus respectivos hábitos. No entanto, seu uso foi sendo ampliado a todos os membros da Igreja Católica e adaptado em seu formato, especialmente quanto ao tamanho.

Hoje, qualquer sacerdote pode impor o escapulário a qualquer fiel, e essa imposição deve ser feita apenas uma vez ao longo da vida, mesmo que se precise substituir o objeto. Ela deve ser feita com o escapulário de pano, mesmo que depois se passe a utilizar um de metal. Se o seu escapulário se quebrar ou romper, basta adquirir um novo, solicitar a um padre que o abençoe e voltar a usá-lo normalmente, sem necessidade de nova imposição. Para aqueles que não fazem uso do hábito carmelita, o escapulário é como uma corrente de pescoço contendo, em uma ponta, a imagem de Nossa Senhora do Carmo e, na outra, a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essa devoção está ligada, também, a alguns benefícios espirituais para quem o utiliza com fé e devoção — e não como amuleto ou por cega superstição³. O primeiro deles é a proteção de Maria Santíssima, tanto nesta vida quanto no julgamento final, conforme prometido por ela a São Simão Stock. Além disso, ela prometeu abreviar o tempo no purgatório aos que o usassem, no que se chama de Privilégio Sabatino — ou seja, no sábado seguinte à morte daquele que usava o escapulário, ele seria libertado do purgatório. É evidente que essa linguagem é simbólica, pois na eternidade (céu, purgatório e inferno) não há contagem de tempo. O ‘tempo’ no purgatório refere-se ao período necessário para a purificação das penas temporais dos pecados ou até que se recebam indulgências suficientes.

Há também indulgências parciais para os que usam diariamente o escapulário, e indulgências plenárias para os que o impõem nas festas de Nossa Senhora do Carmo (16/07), São Simão Stock (16/05), Santo Elias (20/07), Santa Teresinha (01/10), Santa Teresa d’Ávila (15/10), de todos os santos carmelitas (14/11) e São João da Cruz (14/12).

Se você ainda não recebeu a imposição do santo escapulário, procure recebê-la. Nossa Senhora do Carmo, Flor do Carmelo, rogai por nós!’

 

Referências :

[1] ‘Origem do Carmelo’, site do Carmelo Cristo Redentor (São José – SC). Disponível em: <https://carmelocristoredentor.org.br/nossa-historia/origem-do-carmelo/>.

[2] Fr. Edimar Fernando Moreira, O. Carm, ‘Escapulário de Nossa Senhora do Carmo: Uma reflexão pastoral e espiritual’. Disponível em: <https://carmelitas.org.br/escapulario-de-nossa-senhora/>.

[3] Uma monja carmelita, ‘O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo’. Disponível em: <https://padrepauloricardo.org/blog/o-escapulario-de-nossa-senhora-do-carmo?gad_source=1&gclid=Cj0KCQjwir2xBhC_ARIsAMTXk87pFNpgsV5BfuqHFBEyB6sDANBojyF5aIIuAqd-13yi8U0pOZrGwskaAugMEALw_wcB>. 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/nossa-senhora-do-carmo-uma-devocao-mariana-relacionada-ao-antigo-testamento.html

sábado, 12 de outubro de 2024

Mãe de Nazaré, protetora do povo paraense

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Flávio José Lima da Silva 


‘O Círio de Nazaré é uma devoção católica do povo paraense. Celebrado desde 1793, os fieis católicos têm um carinho muito especial por Nossa Senhora de Nazaré. Essa devoção teve início com o caboclo Plácido, que encontrou a imagem perto de um riacho. No local onde foi encontrada hoje fica a Basílica do Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.

Essa manifestação de fé e devoção a Nossa Senhora de Nazaré naturalmente foi aumentando e se consolidando na vida do povo paraense e hoje é uma das maiores festas religiosas do mundo; para a nação brasileira é uma das maiores manifestações de fé católicas. 

A celebração solene do Círio de Nazaré acontece sempre no segundo domingo do mês de outubro, mas esse grande momento celebrativo é precedido de grandes atividades em toda a Arquidiocese de Belém (PA). Nesse período de preparação acontece a peregrinação da imagem em todas as paróquias. As paróquias, por sua vez, realizam a novena do Círio nas famílias. São milhares de famílias que abrem suas casas e buscam se preparar para esse grande momento de devoção.

O Círio de Nazaré para os paraenses é uma grande renovação de fé. O mês de outubro, mês em que ocorre, é aguardado com muita expectativa. O Círio provoca uma experiência singular na vida daqueles dele que participam, pois milhões de pessoas oriundas de diversas partes do Brasil e também do exterior armam ‘suas tendas’, ou seja, vão a Belém participar desse período de espiritualidade, renovar a fé, agradecer e também pedir a interseção de Nossa Senhora de Nazaré.

Em sintonia com a Igreja, que no próximo ano celebra o jubileu de 2025 com o com tema ‘Peregrinos da esperança’, neste ano o tema do Círio de Nazaré será ‘Perseverar na oração, com Maria e Jesus’. A oração é a essência da igreja, pois a ela se prepara para celebrar o ano da oração em 2025.

Por fim, outubro é um mês mais do que especial para a nossa Igreja, pois é o mês dedicado à missão, portanto, como peregrinos da esperança precisamos perseverar na oração. 

Com Maria e Jesus e renovando a fé, pedimos a Nossa Senhora de Nazaré, mãe do povo paraense e nossa mãe, que interceda por todos nós para que, vivendo a nossa vida cristã e fortalecidos pela devoção a ela, tornemo-nos pessoas cada vez mais comprometidas com a missão na Igreja e na sociedade, lutando por mais justiça e fraternidade para todo o povo de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/mae-de-nazare-protetora-do-povo-paraense.html