domingo, 4 de outubro de 2026

O Mosteiro de Tautra, Mariakloster: das antigas ruinas ao Mosteiro moderno

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Hanne-Maria Berentzen, OCSO

Mosteiro de Tautra, Noruega

 

‘Bem vindo de volta’, declararam os habitantes da cidade quando chegamos à antiga ilha monástica de Tautra em fevereiro de 1999 para fundar o primeiro mosteiro cisterciense da Noruega, desde a reforma de 1537.

‘Não sabemos o que é um mosteiro, mas se ele deve existir, deve ser aqui’, declarou o prefeito de nossa cidade, quando em 1992 ele ouviu falar de um grupo de apoio para um futuro mosteiro cisterciense na Noruega, rezando todo dia às 18 horas, para a sua realização.

Irmã Ina Andersen, OCSO, da Abadia de La Coudre em Laval (França) tinha passado um ano na Noruega, sentindo-se chamada a levar a vida cisterciense em seu país de origem. Durante um curto retiro para a solenidade de Santo Olavo, o santo nacional da Noruega, em 29 de julho de 1991, ela partilhou sua visão quando muitas pessoas se perguntaram como ela havia sido autorizada a deixar a vida de clausura para aquela ocasião. Todo mundo respondeu com o desejo de rezar toda tarde às 18 horas, por uma fundação cisterciense no futuro, se Deus quiser.

Para a solenidade de Santo Olavo no ano seguinte, o novo rei e a rainha vieram em nossa cidade, Frosta, para começar a segunda metade de sua viagem à costa, cumprimentando as pessoas (Frosta era o centro de uma de nossas mais antigas assembleias legislativas, desde, pelo menos o século VIII). O prefeito devia fazer o discurso e, abrindo o jornal naquela manhã, ele viu nas manchetes : ‘Um novo mosteiro em Tautra’. Nenhuma grande novidade, apenas a escolha do local de uma estudante de arquitetura para seu trabalho de conclusão de curso. Mas em nossa região, era um sucesso. Um novo mosteiro em Tautra? Realmente? O jornal citou a líder do grupo de apoio rezando pelo mosteiro : ‘Não sabemos o que é um mosteiro, mas simplesmente rezamos para que ele seja um dia’, ela declarou. Isto bastava para o prefeito.

Um mês depois Irmã Ina veio morar numa antiga fazenda ao lado das ruínas do antigo mosteiro cieterciense de Tautra, fundado em 1207 em Lyse, perto de Bergen (Lyse era uma antiga fundação de Fountains na Inglaterra a partir de 1146). No verão seguinte, Irmã Marjoe Backhus da Abadia de Nossa Senhora do Mississipi, Dubuque, Iowa (Estados Unidos) veio encontrá-la. Sua pequena experiência monástica terminou um ano mais tarde, quando Irmã Ina caiu doente. Mas um grão foi semeado. O grupo de apoio contava agora com uma centena de membros que continuavam a rezar. A Abadessa de Marjoe, Madre Gail Fitzpatrick havia visitado Tautra e acreditava que Deus queria algo na Noruega. Antes de sua Comunidade votar por unanimidade, em 1998, para uma fundação na Noruega, o Conselho Municipal de Frosta decidiu igualmente por unanimidade apoiar as religiosas se elas voltassem para a sua cidade.

Com sua ajuda compramos a propriedade com pequenas fazendas nessa ilha, no meio do largo fjord de Trondheim, a vinte minutos a pé das ruínas medievais, apoiadas ao mesmo tempo pelo bispo católico e pelo biso luterano de Trondheim.

Éramos sete fundadoras, cinco da Casa mãe de Dubuque. Irmã Ina de Laval e eu, igualmente norueguesas de nascimento, da Abadia Mount Saint Mary, Wrentham (Estados Unidos). Madre Gail nos pediu para esperarmos um ano antes de escolhermos um arquiteto e de começarmos o processo de construção. Isto era importante. Viver em casas norueguesas tradicionais de madeira nos fez compreender, a todas, que não queríamos construir com tijolo e concreto, mas com madeira – e com pedra, se possível. As belas pedras róseas que vimos nas paredes das ruínas eram muito caras.

Depois de termos trabalhado com três arquitetos durante vários anos, Jan Olav Jensen, que concebeu o mosteiro, escolheu cobrir a fachada com ardósia, o que nos podia permitir : um mosteiro de madeira com fachada de ardósia. Sete anos amontoadas em velhas casas foram difíceis de viver, mas fizeram de nós uma comunidade única. Atravessar o pátio entre as casas para cada escritório ao longo do dia nos fez descobrir o clima e os ventos fortes da ilha.

Quando nosso arquiteto propôs onze jardins interiores no mosteiro, pensamos que era uma excelente ideia. A economia reduziu o projeto a sete, dando mais luz na casa e mantendo-nos conectadas. Trabalhando só na cozinha ou na costura, você pode, através do jardim, ver outras irmãs em seu local de trabalho.

Trabalhamos longamente para entrarmos em acordo sobre a proposta de concepção da igreja. Dissemos mais de uma vez : ‘Este projeto, não’, até que o arquiteto propusesse uma igreja cuja forma fosse próxima da das granjas de nossos vizinhos, mas com uma vidraça com travas cruzadas, dando sombras quadriculadas. E dissemos : ‘Sim’. Nosso encarregado de projeto nos preveniu que faria frio no inverno e calor no verão, mas, mesmo assim, dissemos sim. Queríamos que a igreja se destacasse claramente, que fosse um farol nesta ilha plana. Com o teto de vidro, reflete as muitas estufas de nossa cidade, como uma estufa espiritual. Principalmente durante os mais sombrios meses de inverno, o jogo da luz através das vigas nos lembra a arquitetura cisterciense medieval.

A rainha Sonja da Noruega estava interessada em nossa fundação e veio colocar a pedra fundamental em maio de 2003. ‘Sabem porque é que eu estou aqui hoje?’ perguntou uma das nossas amigas do grupo de apoio. ‘Éramos seis mulheres juntas em agosto de 1991, a pensar no que fazer como grupo de apoio. Alguém disse : ‘Elas vão certamente precisar de dinheiro’. Então, cada uma de nós pôs dez coroas norueguesas em cima da mesa e abriu uma conta bancária’. A rainha veio para a consagração da nossa igreja em 2007. Seu apoio e a boa vontade dos vizinhos e das pessoas, de perto e de longe, assim como de nossos fiéis amigos do grupo de apoio, foram importantes para nos enraizarmos na cidade e no país.

Quando nos tornamos autônomas e que seis de nós mudaram sua estabilidade para Tautra, irmã Ina descobriu que sua vocação era voltar para Laval. Uma das fundadoras voltou para a Casa mãe antes, e ao longo dos anos elas mandaram duas outras irmãs nos encontrarem. Três das que entraram em Tautra fizeram sua profissão solene e nossa atual prioresa, irmã Brigitte Pinot, da França, mudou sua estabilidade para Trauta em 2017; então, agora, somos onze irmãs professas solenes de seis países diferentes. Sete outras, de sete países entraram, mas não perseveraram. Graças ao tempo que passaram conosco, elas contribuíram enormemente para o que somos hoje, e esperamos que nos tenham aberto mais para uma sociedade multicultural. Contando nossa postulante, viemos de sete países diferentes.

Quando éramos 12 na comunidade, e que quatro pediram para refletirem sobre sua vocação, irmã Gilchrist Lavigne que era prioresa na época, concluiu que nosso mosteiro concebido para 16-18 irmãs, não era suficientemente grande. Quando construímos o mosteiro, recebemos, ao mesmo tempo, uma ajuda entusiasta de nossa Ordem, da coleta de fundos de nossas irmãs da Casa mãe e, principalmente de vários doadores católicos alemães, Bonifatiuswerk, sendo o mais importante deles, e pudemos concluir a construção sem fazer nenhum empréstimo. Quando surgiu a ideia de um acréscimo para uma enfermaria e algumas celas suplementares, nossos conselheiros financeiros disseram que seria muito difícil obter fundos para isso. Rezamos como antes e tivemos confiança em Deus que nos ajudaria, se isso fosse o que deveríamos fazer. Em janeiro de 2021 começamos o novo edifício escavado no solo da colina em direção ao fiorde, com um teto de erva protegendo nossa grama e a bela vista do fiorde e das colinas. Ele foi totalmente financiado. O arquiteto Runa Bjerk realizou cuidadosamente esta ala adaptada e a parte mais antiga do mosteiro, mas claramente nova e diferente com uma fachada em madeira de Kebony. Enquanto Jan Olav havia escolhido corredores longos e estreitos ligando diferentes cômodos, Runa Bjerke criou corredores largos e curtos, com um teto muito alto e poços de luz. Isto dava uma ideia de espaço na pequena extensão de quatro quartos de enfermaria (de acordo com as normas de casa de retiro), dispensário, capela, quatro celas comuns, um salão como jamais tivemos, com uma pequena cozinha, uma lavanderia, uma sala de exercício e o que nunca temos o suficiente – despensa!

É interessante ver como essa nova ala mudou a vida da comunidade. Não temos muito trabalho em comum numa pequena comunidade; no entanto, esse gênero de atividade é um bom meio de nos conhecermos melhor. Desde o começo compreendemos que devíamos estender a mão aos nossos visitantes, convidá-los para o café após a missa dominical, e que nós mesmas, enquanto comunidade teríamos um café comum com eles na igreja nas solenidades e no dia da festa das irmãs.

Nosso refeitório é comprido e estreito, porque todas nós queremos nos assentar de frente para o fiorde, amando essa visão extraordinária e versátil. Quando tínhamos nossas pausas para o café de pé, era difícil nos reunirmos em uma conversa única. Herdamos um sofá de seis lugares e uma mesa para o novo salão. Agora é onde nos reunimos para tomar café depois da missa, todas incluídas no círculo e todas participando da conversa.

Desde o primeiro ano de nossa fundação, nossa produção de sabão, ampliada posteriormente com produtos para a pele, cobriu grande parte de nossas despesas. As vendas pela internet nos ajudaram a atravessar o período da COVID sem perdas perigosas, embora a hospedaria tenha sido fechada por períodos. Ao longo dos dezoito últimos anos tivemos voluntárias do mundo inteiro vivendo em nossa hospedaria durante alguns meses, trazendo-nos preciosa ajuda em nosso trabalho. Uma de nossas irmãs as acompanha durante a sua estada e elas são profundamente agradecidas pelo tempo passado no meio monástico. O voluntariado também nos deu vocações.

Nosso capelão, o Pe. Anthony de Roscrea (Irlanda), fez uma bela horta, fornecendo-nos legumes frescos o ano todo. Prezamos também o pomar e os muitos arbustos de bagas da propriedade.

A beleza do nosso mosteiro e a interação com a beleza que nos cerca é uma fonte cotidiana de alegria e de encorajamento e somos felizes em compartilhar isso com nossos benévolos convidados e visitantes. Poucas igrejas na Noruega, dominada por luteranos, são abertas, exceto para os Ofícios, e muitos são agradecidos por encontrarem uma igreja aberta de 4 horas da manhã às 8 horas da noite, ao ponto de nosso Conselho municipal ter escolhido o mosteiro, em 2011, como a coisa mais importante que aconteceu em nossa municipalidade, desde a Segunda Guerra Mundial. E sua razão invocada era, principalmente que a igreja está sempre aberta aos visitantes para virem rezar. Somos agradecidas por vermos quantas pessoas vêm compartilhar nossa liturgia e usam a igreja para a oração silenciosa durante todo o dia. 

Vista de conjunto do Mosteiro de Tautra

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/124


 

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