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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Deus nos chama pelo nome

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Antes que a agitação do dia tome conta dos pensamentos e do tempo, alguém se senta à beira da cama e respira fundo. Ainda não organizou as tarefas, não assumiu os papéis que deverá desempenhar nem respondeu às expectativas que o aguardam. Por alguns instantes, tudo parece suspenso diante daquele corpo cansado que tenta despertar por inteiro e assimilar o que foi sonho e o que é realidade.

Talvez seja o cansaço acumulado. Talvez seja a alma pedindo espaço antes de ser novamente tomada pelas urgências. Nesse intervalo entre o sono e a vida que recomeça, uma pergunta bate suavemente à porta do coração : há quanto tempo não escuto o que Deus tenta dizer em mim?

Agosto, mês vocacional, oferece-nos essa oportunidade. Não apenas para pensarmos nas vocações sacerdotais e religiosas, tão belas e necessárias à Igreja, mas para perguntarmos pelo sentido de nossa existência, pelo lugar que ocupamos no mundo e pela maneira como respondemos ao amor de Deus.

Vocação não é somente escolher um estado de vida, é descobrir para quem e para que as nossas vidas se entregam.

Vivemos num tempo de muita agitação e pouca escuta. Há vozes que cobram, comparam e impõem padrões de sucesso. Há também ruídos interiores : medos, culpas, inseguranças, necessidade de reconhecimento e receio de não corresponder às expectativas. Às vezes, o maior barulho não vem de fora, vem de dentro.

Nesse emaranhado, podemos desaprender a escutar Deus. Não porque Ele tenha deixado de chamar, mas porque nossos corações estão ocupados demais para reconhecer sua voz.

A história de Samuel ilumina esse caminho. Durante a noite, o menino ouve alguém chamá-lo pelo nome : ‘Samuel, Samuel’. Pensando que fosse Eli, levanta-se e vai ao encontro do sacerdote. Isso se repete. Samuel escuta, mas ainda não reconhece. Com a ajuda de Eli, aprende a responder : ‘Fala, Senhor, teu servo escuta’ (1Sm 3,10).

Deus chama pelo nome, mas respeita o tempo de Samuel. Não o força nem o envergonha por não compreender de imediato. Chama novamente, espera e coloca ao seu lado alguém capaz de ajudá-lo a discernir.

Assim também acontece conosco. Nem sempre reconhecemos a voz de Deus na primeira vez. Podemos confundi-la com medo, obrigação, desejo pessoal ou expectativa alheia, por isso, a vocação necessita de silêncio, oração, acompanhamento, comunidade e tempo. Precisa de interioridade e de pessoas que, como Eli, ajudem-nos a reconhecer o chamado de Deus.

O Papa Leão XIV tem recordado que a vocação nasce no mais profundo do coração, como descoberta de um dom gratuito que Deus faz florescer em nós. Não é imposição nem destino fechado, é encontro, diálogo e resposta de amor. A interioridade, portanto, não é fuga do mundo, mas o lugar onde a vida reencontra sua fonte. Quem guarda o coração volta à realidade com maior inteireza.

Sobre traçar novos mapas de esperança, o Papa afirma que os jovens desejam profundidade e precisam de espaços de silêncio, discernimento e diálogo com Deus. Essa necessidade também alcança os adultos. Quantas pessoas passam anos cumprindo tarefas e sustentando responsabilidades, mas já não perguntam o que Deus deseja fazer florescer em suas vidas? Continuam caminhando, mas perderam o sentido do caminho.

Falar de vocação é, portanto, falar do modo como Deus nos chama a amar. Existe a vocação de quem educa, cuida de uma pessoa enferma, constitui família, trabalha com honestidade, serve à comunidade, consagra-se ao Reino ou permanece fiel em tarefas pequenas e quase invisíveis.

Toda vocação verdadeira nasce do amor e se concretiza no serviço. Sem serviço, o chamado transforma-se em vaidade. Sem amor, a missão torna-se peso. Sem escuta, corremos o risco de confundir nossos desejos com a vontade de Deus.

Jesus também chamou pelo nome. Chamou Pedro e André à beira do lago, Mateus na coletoria, Zaqueu sobre uma árvore e Maria Madalena no jardim da ressurreição. O chamado de Jesus nunca fecha a pessoa em si mesma, ele a coloca a caminho, na direção do cuidado, da misericórdia, da justiça e do anúncio do Reino.

Talvez a principal pergunta vocacional não seja ‘O que eu quero ser?’, mas ‘Onde Deus me chama a amar mais?’. Essa pergunta retira a vocação do campo da aparência e a devolve ao campo da entrega. A vida não é apenas carreira, produtividade ou reconhecimento, a vida é resposta, é dom recebido e devolvido em forma de serviço.

Neste mês vocacional, tenhamos coragem de silenciar, levantar o olhar e escutar a vida com reverência. Talvez a resposta não venha imediatamente. Talvez chegue aos poucos, como a luz entrando pela janela, o café perfumando a casa ou a semente germinando escondida na terra, mas Deus continua chamando e chama cada pessoa pelo nome.

Senhor, ensina-nos a escutar. No meio dos medos, dá-nos confiança. No meio das dúvidas, concede-nos discernimento. Ajuda-nos a reconhecer tua voz nos encontros que nos humanizam, nas dores do mundo que pedem cuidado e nos dons que colocaste em nós. Dá-nos coragem para responder, humildade para caminhar e generosidade para transformar a vida em serviço. Amém.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/deus-nos-chama-pelo-nome.html


domingo, 14 de junho de 2026

Desafios da vida monástica beneditina na África Ocidental

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Thérèse-Benoît Kaboré, OSB

Priorado Notre-Dame de Koubri, Burkina Faso


‘Quando me foi pedido de fazer um resumo da minha tese de Doutorado, pensei nos desafios que a vida monástica encontra na África Ocidental, porque verdadeiras provocações. A meu ver, podem levar a uma reflexão e isso será bom para a vida monástica na África, especialmente na África Ocidental de língua francesa, pois os desafios convidam a ficar vigilantes e a trabalhar para os melhorar. De fato, se a vida monástica quer ir para a frente, tem de ser capaz de se interrogar e de se deixar interrogar. Gostaríamos de sublinhar nesta pequena contribuição, alguns problemas que os responsáveis das comunidades monásticas deviam olhar.

As vocações

Cada vez mais se fala da África como um celeiro de vocações na Igreja. Contudo, esta realidade não se verifica em todos os países da África, nem para vocações particulares, como a vida monástica, que aliás é muito pouco conhecida. De fato, o específico desta vida austera não atrai e a maioria daqueles que batem à porta do mosteiro, não perseveram. A realidade é que mais de cinquenta anos depois de serem fundados, a grande maioria tem apenas o número suficiente de membros para pensar numa fundação. Eis o que constata o padre André Ouédraogo, abade emérito de Koubri :

Olhando o nosso mosteiro, São Bento de Koubri, que fez 50 anos de fundação em 11 de Julho 2013, entre 1963 e 2013 acolhemos o número considerável de candidatos, que queriam a vida monástica (…) Se todos tivessem ficado, teríamos feito várias fundações monásticas, tanto no país, como em outros países. Infelizmente, hoje dos candidatos recebidos quantos ficaram? Os outros mosteiros da nossa sub-região africana podem dizer o mesmo. Diante deste mistério, muitos candidatos entraram, mas poucos ficaram.

É verdade que a vida monástica, como caminho do Evangelho, comporta renúnicas e exigências que é preciso assumir e escolher. No entanto esta realidade do grande número de partidas, deve interpelar os mosteiros sobre o modo como vivem a vida monástica, e como a apresentam no exterior. Se se trata de promover uma vida monástica mitigada, é necessário fazer uma reflexão séria para encontrar soluções adequadas para a questão. Disso depende o futuro da vida monástica na África Ocidental. Depois de 50 anos de fundação, vários mosteiros estão ainda patinhando.

A questão da formação na vida monástica

Embora hoje o nível de formação dos candidatos tenha evoluído, ainda há algo a fazer, pois um certo número vem com carências, que exigem um complemento de instrução escolar. Se o monge é um contemplativo por vocação, não está dispensado de alimentar sua inteligência com conhecimentos, nem de aprender a pensar. O verdadeiro problema é enraizar-se na vida monástica. Como dizia o padre Denis Martin, um dos grandes promotores da vida monástica beneditina na África : ‘ os professos perpétuos, que não tiveram o menor nível de instrução, boiam como se não tivessem nada sobre que apoiar a vida monástica’. Isto é válido ainda hoje. É necessário reconhecer que o equilíbrio da vida de um mosteiro é ilusório, sem uma séria promoção de formação, não só religiosa, mas também humana dos monges, sobretudo diante de um mundo em perpétua mudança. Não se trata só de formação inicial, mas igualmente de formação permanente.

Os desafios ligados aos votos religiosos

O monge africano assume conscientemente e livremente ter de testemunhar Jesus Cristo com toda a sua vida. Sua consagração monástica é uma imolação pessoal. Por amor a Cristo, aceita sacrificar os valores culturais, que correspondem aos três conselhos : castidade – pobreza – obediência.

O desafio do voto de castidade

O voto de castidade é a expressão da pobreza mais fundamental para o religioso africano; este voto toca-o nas suas representações simbólicas essenciais. Um cisterciense congolês exclamava, falando desta escolha evangélica do celibato consagrado : ‘É uma vitória do cristianismo em nosso meio; e não é um milagre pequeno!’ Uma tal situação, contudo, não é sinônimo de incapacidade, por parte dos religiosos africanos, de viverem plenamente a castidade. Não significa aceitação de uma vida sexual desordenada. Para os religiosos africanos, como para os outros no resto do mundo, há a exigência de assumir, na verdade, aquilo a que se engajaram livremente. Não há meias medidas para os religiosos africanos. A prática da castidade por causa do reino de Deus, deve ser um testemunho concreto igualmente contra ‘uma cultura hedonista que liberta a sexualidade de toda a norma moral objetiva, reduzindo-a muitas vezes a um jogo, ou a um bem de consumo, e cedendo a uma espécie de idolatria do instinto’ (Vita Consecrata 88). Se o voto de castidade não dá a possibilidade de viver como seres incorpóreos, então o voto de castidade é um desafio, uma interpelação para aquele que o faz.

O desafio do voto de pobreza

Num continente em que uma grande parte da população é sub alimentada, tem falta de moradia decente e não tem acesso aos serviços de saúde, ou outros bens gratuitos noutros lugares do mundo, o religioso não pode não levar a sério o seu voto de pobreza. Então como é que os religiosos e mais ainda os monges devem viver a pobreza? As pessoas que vivem na proximidade dos mosteiros devem poder compreender que os monges vivem seu voto de pobreza com a renúncia radical ao direito de propriedade individual, e ao uso pessoal dos lucros de seu trabalho, e também partilhando praticamente seus bens com os outros. Em todo o caso esta interpelação de uma de nossas anciãs na vida monástica na África, nos interroga a todos : ‘Que nossos irmãos não possam dizer de nós, vendo-nos lidar com as coisas : como eles são agarrados ao dinheiro!’ Ou ainda, que não façam nunca a reflexão de uma religiosa sobre uma co-irmã : ‘Ela pensa em ganhar dinheiro, antes de pensar na salvação das almas’.

O desafio do voto de obediência

Eis o que constatou o professor Michael Hochschild depois de uma pesquisa a vários mosteiros europeus : ‘Um observador de fora gostaria de encontrar humildade e obediência na vida monástica, mas na realidade, a maior parte das vezes o que se vê é autonomia individual e auto realização’. Esta constatação pode aplicar-se também à realidade dos mosteiros na África, e mais especialmente na África Ocidental. O individualismo instala-se, abafa a dimensão do testemunho profético, ligado ao voto de obediência, como aos outros dois votos. No entanto deve-se chegar a conciliar o dinamismo, o sentido da responsabilidade, o espírito de iniciativa com o espírito da obediência. Tem que se chegar a uma obediência cristã madura, despossuída de vontade própria, não temerosa, nem servil ou hipócrita, ou com reservas para o futuro, como por exemplo : ‘quando for professo perpétuo, poderei fazer o que quero’. Neste ponto de vista é importantíssimo que a formação monástica ajuda o candidato a chegar a uma obediência adulta, pensada e querida.

O desafio da vida fraterna

A vida fraterna é o terreno de combate dia a dia. Os desafios são múltiplos e os obstáculos não faltam. Uma das ameaças à vida fraterna e comunitária é o individualismo. Quando só se pensa em si e no seu trabalho, a vida comunitária depressa se torna secundária, e até obstáculo para o uso do tempo. De fato há monges que pensam que trabalham muito e duro, que prestam serviço aos outros. No entanto o que se vê na realidade? Não se interessam pelos outros, nem pela vida dos outros. Agindo assim a comunidade perde o élan vital, ‘a comunidade se desfaz e há cada vez menos interesse pela comunidade’. Tem que se entender que a vida monástica cenobítica não pode ser entendida e vivida, sem se ter em conta as relações inter pessoais na comunidade. Podem ainda surgir outras dificuldades : dificuldades de comunicação às vezes ligadas à diferença de gerações, rivalidades, sede de dominar, falta de escuta e de acolhimento mútuo. Neste campo das relações interpessoais, a observação do dominicano Sidbe Semporé deve interpelar-nos : ‘As pessoas tomam-nos como exemplo, e quando se fala de santidade olham para nós espontaneamente. Mas será que somos cristãos de verdade?’.

A questão da autonomia econômica nos Mosteiros da África Ocidental

Os mosteiros da Àfrica Ocidental continuam a dizer que para as necessidades da vida cotidiana, cada um (mosteiro) pode ser autônomo com seu trabalho, mas o problema vem quando há despesas excecionais, como por exemplo uma construção, ou a compra de materiais. Há aqui um problema de organização e de formação a resolver. O monaquismo na África não pode pretender ser autônomo, negligenciando a questão econômica. O projeto econômico para o futuro dos mosteiros na África deve ser objeto de um estudo mais aprofundado. Muitas vezes se dá como modelo mosteiros europeus florescentes a nível econômico. Seria interessante apresentar igualmente mosteiros com um nível econômico reduzido, às vezes com dívidas, e que vivem com isso, e não estão sempre a pedir. Em todo o caso, hoje, não se pode contar com benfeitores, que seja a AIM ou outros organismos, ou pessoas para substituir máquinas, ou fazer uma construção. É importante que as comunidades saibam prever um orçamento, amortizações para poder substituir o que for preciso.

Falando de ajuda, os mosteiros da África receberam muitíssimo da AIM-Internacional. Hoje seria interessante pensar numa AIM-Africana, como queria o Padre Boniface Tiguila, fundador do Mosteiro da Encarnação de Agbang, no Togo, quando da sua intervenção na celebração do jubileu de Ouro da AIM em 2011. A Intenção não é substituir a AIM-Internacional. A nível do dar e receber os mosteiros africanos podem fazer algo. Internamente, na África, esta estrutura poderia dar sua contribuição, mesmo pequena, aos mosteiros que precisam (pensamos no dom da viúva). Os mosteiros da África não podem esperar ser florescentes para pôr em pé tal estrutura. Pensemos seriamente nisso. E esperamos que AIM-África existirá em breve!

Um modelo de mosteiro para a África

A África vive uma situação de pobreza que ninguém pode esconder. Em tais circunstâncias, um nível de vida austero pode parecer burguês. A riqueza, mesmo relativa, longe de ser entendida, vai ser exagerada pelas pessoas de fora. É necessário estar atento às condições de desenvolvimento de cada região e fazer tudo para que o testemunho coletivo de pobreza interpela a população (cf Perfectae Caritatis 13; Can 640). Se a vida monástica quer ser profética, tem de levar esta realidade a sério.

Neste sentido não seria bom repensar as fundações e o funcionamento dos mosteiros na África Ocidental? Não se poderá pensar a possibilidade de viver plenamente a vida monástica em pequenas comunidades? Será que toda a nova fundação tem de ser necessariamente chamada a tornar-se uma grande comunidade, para que se tenha a possibilidade de uma vida monástica autêntica? Ao lado dos grandes mosteiros de tipo clássico, não haveria lugar para opções mais leves, comunidades mais pequenas com uma perspectiva de investimento e de crescimento limitado? Estas perguntas já foram muito bem colocadas no primeiro encontro dos superiores monásticos da África, que se reuniu em Bouaké em 1964.

Uma tal perspectiva exige uma reflexão séria, e também experiências audaciosas. Pequenas comunidades monásticas próximas das aldeias, com o mesmo nível de vida e casas idênticas, tanto quanto possível, poderia deixar transparecer o verdadeiro rosto do monaquismo e fim que procura. Com uma moradia menos impressionante e um gênero de vida mais simples, estas pequenas comunidades poderiam dar o testemunho efetivo de uma verdadeira pobreza, que seria aos olhos de todos que os vissem viver, o sinal mais sensível da caducidade das coisas da terra. Como comunidades de oração e de trabalho poderiam ter uma grande irradiação ao meio das populações à volta.

As relações do monge africano com sua família

Diante da família biológica, as pessoas consagradas africanas vivem alegrias e dores na procura de uma harmonia que esteja de acordo com sua consagração. Embora tenham deixado tudo para seguir o Cristo, é verdade que os problemas da família lhes atingem, e lhes tocam. Assim, certos religiosos africanos, que vêm de famílias pobres, sofrem por viver numa situação melhor que a da família, que fica num estado primitivo, incapaz de chegar aos bens materiais. Por causa deste sofrimento, alguns deixam a vida religiosa, outros enganam, roubam para ajudar as famílias e outros não chegam nunca a se sentirem realizados. Os monges não são poupados a esta situação. Constata-se muitas vezes que depois de uma visita à família, certos irmãos ficam perturbados, não se sentem bem, por causa dos problemas e das dificuldades da família. É uma questão muito delicada, que merece uma atenção especial e uma resposta concreta. É verdade que a Regra não prevê nada neste sentido, mas não se pode ignorar tal situação, que na África, é um verdadeiro problema.

As exigências monásticas face à invasão do mundo atual

O mundo vive hoje uma mutação muito característica gerada pela globalização, que no seu conjunto dá uma visão do mundo em bloco. A globalização não toca só a economia, mas alarga-se para a cultura e cria uma espécie de cultura global, que não deixa ninguém indiferente. O novo contexto socio cultural gerado desta maneira exerceu uma influência imediata sobre a vida consagrada, e mais particularmente sobre a vida monástica. Certos comportamentos e usos que o monge sempre considerou essenciais são assim postos duramente à prova. Ao mesmo tempo que as oportunidades do mundo moderno prestam enormes serviços, são uma ameaça permanente para a clausura, e também para o silêncio tanto interior, como exterior. Poderíamos nos perguntar o que acontece com o silêncio monástico num mundo em que a comunicação super-rápida invade tudo? Como não se tornar dependente do computador, do WhatsApp, do Facebook… internet? Sem querer se fechar às riquezas e vantagens da globalização, é bom olhar com lucidez os problemas, que tudo isso causa. (cf Vita Consecrata 99)

O monge não pode negar, de modo nenhum, os valores essenciais e os usos e costumes importantes de seu gênero de vida. É preciso que esteja bem enraizado na sua vida monástica. É assim convidado a prestar contas de sua identidade, sendo realmente aquilo que é. Só assim a vida monástica será um testemunho das exigências do Reino de Deus e de sua presença no meio dos homens, e será capaz de interrogar o mundo atual.

Os diversos desafios mencionados ajudam a compreender a urgência de uma resposta eficaz, por parte dos monges e monjas da sub-região da África Ocidental, resposta que deve partir da maturidade dos monges e de seu enraizamento na vida monástica.

A África precisa de homens e de mulheres que sejam capazes de dar testemunho das Bem aventuranças e do primado do Absoluto até ao dom total. Esta espera só será cumulada na medida em que os monges se tornem sempre mais conscientes da riqueza da vocação, que o Senhor lhes deu, e portanto da missão que lhes é confiada na Igreja e no mundo. É preciso que reafirmem sem cessar seu carisma particular, esforcem-se por ter dele uma visão clara e a vivam cotidianamente. Então poderão dar a resposta que o nosso tempo espera, e poderão ser o que são.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Uma grande abadessa do século XX: Madre Pia Gullini

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Maria Augusta Tescari, OCSO

Mosteiro de Vitorchiano, Itália


‘Nas realidades da história e da vida de nossas comunidades, existem caminhos que escapam a uma análise superficial : é preciso cavar fundo para reconhecer as vias secretas que a Providência usa para abrir um caminho entre as contradições humanas.

Às vezes nos surpreendemos com a fecundidade da comunidade de Vitorchiano, que deu origem a numerosas fundações. Esta milagrosa vitalidade pode ser explicada pela lei evangélica do grão de trigo que morre e que, ao morrer, dá muito fruto. Todos sabem do sacrifício da Irmã Maria-Gabriella, mas, na complexa história da comunidade que foi durante muito tempo a Cinderela da Ordem por suas origens e sua pobreza material e intelectual, havia outro grão menos conhecido, de qualidade um tanto extraordinária : madre Pia Gullini, abadessa de Grottaferrata de 1931 a 1940 e de 1946 a 1951. Nela, a humildade, a maternidade e o sentido da Igreja atingiram, a nosso ver, um grau excepcional.

Sabemos que Madre Pia sempre teve o desejo de fazer uma fundação; ela comparava esse desejo a uma árvore que ela cultivava e que outros (os superiores e as circunstâncias) continuamente cortavam, mas que ainda estava viva. Em 1948, ela escrevia a um abade da Ordem :

‘Quando o Senhor quiser, dirá a esta árvore : ‘Faze crescer as tuas flores’, será a sua primavera e ninguém poderá impedir o seu florescimento.’

E ao mesmo correspondente, quatro anos depois :

‘O Eterno procede lentamente, mas sempre consegue. Estou segura d’Ele e deixo a Ele sua liberdade infinita. Se eu já estiver com Ele quando Ele realizar esse desejo, ajudarei em dobro.’

Profetisa, Madre Pia o fora em diversas ocasiões : em relação ao então nascente ecumenismo e à utilidade de difundir a simples mensagem de amor e doação da irmã Maria-Gabriella, mas também sobre sua própria morte e a impossibilidade de unir-se à sua comunidade em Vitorchiano, sua comunidade que para lá foi transferida de Grottaferrata em 1957. E bem sabemos que os profetas nunca tiveram uma vida fácil…

Sua vida

Ela nasceu em 16 de agosto de 1892 em Verona, onde sua família residiu por vários anos por causa do trabalho de seu pai. Maria Elena Gullini pertencia a uma família da alta burguesia bolonhesa. Seu pai, Arrigo, era engenheiro ferroviário : trabalhou na Itália e em Montenegro.  Ele se estabeleceu com sua família em Roma, provavelmente por causa dos estudos universitários de seus três filhos. Foi subdiretor dos Caminhos de Ferro do Estado além de presidente e administrador da importante Sociedade dos Estaleiros de Gênova, a Ansaldo.

Sua mãe, Celsa Rossi, distinguia-se por sua excepcional beleza, por uma extraordinária bondade e inteligência; na juventude pensara na vocação religiosa, mas não fora capaz de realizá-la; muito piedosa, viveu com intensidade a sua fé e procurou transmiti-la aos filhos. Reservada, não gostando de tudo o que era vaidade, deixou de bom grado que a filha mais velha, bela e empreendedora, a substituísse nas obrigações mundanas : Maria, portanto, acompanhava o pai às diversas recepções e refeições da alta sociedade.

Uma amiga relata que, no escritório do engenheiro Gullini, havia um grande retrato a óleo de Maria em um vestido de noite preto e branco, muito decotado e deixando os braços nus – para grande desgosto de sua mãe –, um retrato que revelava o lugar que a filha mais velha ocupava na vida social do pai. Madre Pia dizia que foi durante um baile, experimentando sua insatisfação diante das coisas fúteis e passageiras, que tomou a decisão de seguir a vocação religiosa.

Dos 8 aos 18 anos, estudou em Veneza, com as Damas do Sagrado Coração, recebendo ali a educação que então se dava às moças de boa família. O ensino era dado em francês. Com seu temperamento artístico, Maria se destacava em música e em pintura. Aos dez anos, recebeu a primeira comunhão das mãos do patriarca José Sarto, futuro São Pio X. Aos 12 anos, viu-se em perigo de morte devido a uma peritonite tuberculosa que a deixou, ao longo da vida, uma infeliz disposição à fadiga. Ela era muito viva, orgulhosa e rebelde, até violenta, ávida de liberdade, com evidentes qualidades de ‘líder’; amava a natureza, compadecia profundamente com o sofrimento dos outros e com as necessidades dos pobres, íntegra e leal, sem o menor traço de respeito humano. Ela passava as férias de verão na vila da propriedade da família perto de Bolonha ou em Montenegro. Por conta do trabalho do pai, foi madrinha na inauguração de trechos da ferrovia e as fotos de família a mostram com buquês de flores na mão enquanto corta uma fita. Parentes distantes ou camponeses ainda se lembram da chegada da ‘Demoiselle’ na casa de campo dos avós e como ela estava atenta em cuidar de suas necessidades materiais e espirituais.

Ela estudava, com o pai, inglês e alemão pelo método Berlitz – uma novidade na época! – e com uma ‘professora’ que vinha em casa para as aulas práticas. Esportiva, adorava patinação e equitação, frequentando cavalgadas em Roma. Após a declaração de guerra, fez o curso de enfermagem em ‘La Samaritana’, com o desejo de ir para a frente de batalha para tratar de soldados feridos. Seu pai se opôs ao projeto. Maria ia à missa quase todas as manhãs com a mãe e ensinava catecismo às crianças da elegante paróquia de São Camilo e da periférica de Santa Helena, em Prenestino, que ela amava. A frequência com que visitava as Irmãzinhas da Assunção de Via Nino Bixio a levava a acompanhá-las frequentemente, praticando com elas a ajuda aos pobres.

Aos pedidos de casamento que lhe eram feitos, opunha-se com recusas que afligiam a família : ‘Não, não é bonito! Falta requinte! Ele é muito alto! Ele é muito pequeno!…’ Levada a refletir na presença de um par ‘ideal’, consentiu em ficar noiva, mas não oficialmente, de um muito simpático jovem engenheiro de Veneza, mas quando este último, um oficial da frente de batalha, quis que seu vínculo fosse esclarecido, Maria, que havia tomado consciência de sua vocação religiosa, lhe respondeu que não se casaria com ele.

Seu confessor e diretor espiritual foi um conhecido padre do Santíssimo Sacramento, o padre Di Lorenzo; foi ele quem mais ferozmente se opôs à sua entrada na Trapa (segundo ele, com o seu temperamento exuberante e inclinado à autonomia, não seria possível que Maria escolhesse o silêncio e a obediência dos trapistas), mas depois tornou-se um hóspede assíduo de Grottaferrata. Além disso, Maria Gullini, num primeiro momento, não tinha a menor intenção de entrar na Trapa. O serviço e a assistência aos pobres a atraíram para uma congregação ativa e, apesar da oposição de sua família, ela pediu para ser admitida nas Irmãzinhas da Assunção. Alta, bonita, cheia de vida e inteligente, ela tinha qualidades excepcionais demais para ser aceita ‘sic et simpliciter’. Madre Teresa, a superiora, mandou-a pedir conselho a Dom Norbert Sauvage, procurador dos trapistas, e este a obrigou a fazer um retiro de oito dias na Trapa de Grottaferrata, em clausura.

Era 14 de novembro de 1916 e Maria escrevia :

‘Faço este retiro orando pelos pecadores : quanto ao resultado, Senhor, inspira o pai e farei exatamente o que ele me disser.’

E Dom Norbert que, no início de seu retiro lhe havia anunciado : ‘Falaremos de Jesus Cristo’, disse-lhe :

‘Senhorita, parece-me que sois chamada para uma vida de amor; Jesus parece querer de vós o sacrifício completo. Vossa natureza quer a vida ativa, vossa alma exige e reclama a vida contemplativa’ e lhe propõe imediatamente a Trapa. Mas não aqui.

‘Em Laval, um dos primeiros mosteiros da Ordem, vivem oitenta monjas, entre as quais muitas jovens. Um demônio como vós, em tal massa de freiras, não se destacará muito.’

É muito provável que Dom Norbert tenha pensado em assegurar a senhorita Gullini uma boa formação monástica para fazê-la, em seguida, retornar a Grottaferrata para dirigir a comunidade, mas os documentos não nos permitem afirmar que houve um acordo com a abadessa de Grotta sobre este assunto.

Mas é certo que a partir desse momento começa um período de combate para Maria : com seus pais, com seu confessor e com outros padres que acusavam Dom Norbert de tê-la influenciado, mas sobretudo consigo mesma, que não queria se render à graça. O resultado desse combate foi a vitória de seu ‘doce Senhor’ e a entrada de Maria em Laval em 28 de junho de 1917. A forma desinibida de agir da jovem desconcertou as monjas de Laval, como já havia espantado as monjas de Grottaferrata, mas a vocação era evidente, assim como a boa vontade da candidata, e por essa razão, houve paciência de ambos os lados. Em 29 de setembro de 1917, Irmã Pia – este nome lhe foi dado em memória do Papa que lhe deu a primeira comunhão em Veneza – tomou o hábito cisterciense; em 16 de julho de 1919 emitiu os primeiros votos e, três anos depois, na mesma data, emitiu a profissão perpétua.

Em 1923, foi nomeada mestra das irmãs conversas, que somavam cerca de quarenta. Eis Madre Pia, em Laval, tal como a evocam as irmãs conversas :

‘Madre Pia tornou-se Madre mestra quase imediatamente após sua profissão. Minha Reverenda Madre Lutgarde confiava nela; ela dizia que, exceto alguns defeitos externos, minha madre Pia era perfeita. Ela era quem eu mais amava; foi ela quem mais me fez bem : fiquei encantada ao ouvi-la falar de Jesus e ao ver seu espírito de fé...’

Ela era uma alma ardente do amor de Deus; ela amava a Regra. Ela ia lavar as irmãs mais velhas, arrumar suas camas antes das quatro horas. Nunca tinha trabalhado no jardim, mas veio cavar com as irmãs e depois agradeceu... Tinha qualidades para tudo... Sua Madre mestra lembrava de sua extrema simplicidade e descreveu-a como uma alma magnânima, ardente, capaz de todos os sacrifícios.

A partir de 1923, Madre Agnès Scandelli, abadessa de Grottaferrata, solicitou a Laval ajuda de pessoal para a muito pobre comunidade italiana; mas Madre Lutgarde só pôde conceder-lhe – relutantemente – três anos depois! E essa ajuda foi naturalmente a italiana Madre Pia : ‘Estamos fazendo um grande sacrifício e Madre Pia também; mas não queremos recusar nada ao bom Deus’. O motivo da repatriação da jovem monja era outro : Madre Pia sofria de um início de tuberculose e esperava-se que uma mudança de ares lhe fizesse algum bem, o que de fato aconteceu, embora lentamente. Madre Pia chegou a Grottaferrata em 9 de novembro de 1926. A dura partida de ‘seu’ mosteiro de Laval foi muito dolorosa, e a integração em sua nova comunidade foi tudo menos fácil. A recém-chegada, de cultura e formação diferentes, doentia, com dons humanos excepcionais, provocava reações de rejeição. Sua decisão no ano seguinte de se estabilizar em Grotta foi heroica, dadas as circunstâncias.

As ‘Crônicas’ falam de uma pressão por parte de seus pais para retê-la na Itália, mas de acordo com algumas cartas ou outros documentos é possível deduzir uma discreta insistência por parte dos superiores maiores, preocupados com o futuro de Grotta, privada de irmãs capazes de suceder à abadessa, idosa e doente. Tendo deixado seu mosteiro nas disposições interiores de um inteiro sacrifício – ‘um sacrifício nunca é recusado... eu irei para onde Deus me chama’ –, Madre Pia superou seu desejo de voltar para Laval e as insistências de Laval para recuperá-la : ela continuou, no entanto, a correspondência com sua querida Madre Lutgarde até 1942, e, com a comunidade, até três anos antes de sua morte.

A situação muito difícil da comunidade de Grotta, muito ligada à sua abadessa, pesa muito a já frágil saúde de Madre Pia que, em 1928, viu agravar-se os seus ataques hepáticos a ponto de a obrigarem a sofrer uma intervenção cirúrgica – naquela época bastante delicada – o que a colocou em risco de morte por alguns dias.

Naquele momento, uma irmã conversa entre as mais velhas ofereceu sua vida pela recuperação de sua jovem coirmã. Ela se recuperou depois de uma estadia com sua família, foi subprioreza, enfermeira, depois prioresa, mostrando total obediência à Madre Agnès, embora sofresse de muitas coisas que, na comunidade, deveriam ser mudadas e que não foram.

Em 1931, Madre Agnès Scandelli, após trinta e três anos como superiora, renunciou. Madre Pia foi então nomeada abadessa por decisão pontifícia, seguindo um decreto do Cardeal Lega, bispo de Frascati, que traz a data de 30 de dezembro de 1931. Era impossível, de fato, proceder a uma eleição regular, dada a afeição que as freiras tinham por sua antiga superiora. Não é difícil imaginar a coragem e a fé necessárias numa situação tão particular : mas Madre Pia soube conquistar a estima e o amor da comunidade que a confirma, quase unanimemente, nas eleições de 1935 e 1938. Ela quis fazer de Grotta uma Trappe como eu mesmo vi, aludindo à sua tão amada Laval.

Embora as próprias paredes do convento estivessem impregnadas de oração e espírito de sacrifício, Grottaferrata parecia mais uma comunidade franciscana do que uma comunidade cisterciense. Empreender uma transformação era difícil por causa da pobreza – muitas vezes a conta mensal do padeiro era paga pela família Gullini –, também por causa da pequena dimensão e produtividade da propriedade (dois hectares e meio), e ainda por causa da casa inadequada, o pequeno número de coristas, a presença de algumas irmãs que lhe eram hostis e, posteriormente, as repercussões da Segunda Guerra Mundial.

Em 1939, irmã Maria-Gabriella faleceu e começou então para Grotta e sua abadessa um período muito fecundo, mas também muito tempestuoso. Em dezembro de 1940, portanto antes do final de seu terceiro triênio, Madre Pia foi obrigada a apresentar sua renúncia. As dificuldades – o caso não era novo, tratando-se de uma mulher inteligente e de forte vontade – vieram sobretudo dos superiores masculinos. Nas decisões que levaram à sua renúncia, certamente pesaram, além dos pontos de vista divergentes sobre a condução da comunidade, a correspondência sobre o ecumenismo e a publicação da biografia da irmã Maria-Gabriella, uma abertura que não era compreendida nem aprovada por todos!

A excelente Madre Tecla Fontana, que sucedeu a Madre Pia no governo da comunidade, confiou-lhe o noviciado, e Madre Pia, como boa educadora que era, consagra-se com alegria à formação das jovens, enquanto continuava sua enorme correspondência e suas relações ecumênicas.

Seis anos mais tarde, em 1946, ela foi reeleita abadessa e confirmada, por um voto quase unânime, já no primeiro escrutínio de 1949. Durante esses anos, ela também manteve a direção do noviciado. As oposições irreconciliáveis, embora muito poucas em número, persistiam : Madre Pia esperava o apoio do novo Abade geral e do superior de Frattocchie, recentemente nomeado, para iniciar uma fundação à qual vinha pensando há anos; mas, em 1951, antes do final de seu triênio, eclodiu uma crise que vinha se gestando há muito tempo. Em 19 de abril, o superior (que ainda não havia sido eleito abade) e o Padre imediato, o abade de Mont-des-Cats, reuniram a comunidade após o ofício de Noa e anunciaram que Madre Pia havia apresentado sua renúncia ‘por motivos particulares’ e que já havia deixado a comunidade.

Madre Tecla retomou as rédeas da comunidade como superiora ad nutum. Foi um estrondo de trovão em céu sereno : a quase totalidade da comunidade nunca compreendeu os verdadeiros motivos dessa partida.

Madre Pia esperou em Roma, na casa das irmãs Ursulinas, até que seu passaporte lhe fosse concedido. Naqueles dias que deveriam ter sido muito tristes, eu a vi calma e serena : ela parecia uma hóspede real e não uma irmã em viagem de exílio! Partiu para a Abadia de La Fille-Dieu, onde deveria permanecer por oito anos, até ser chamada de volta à Itália. Em 1953, não lhe foi permitido retornar à sua pátria, nem para a eleição abacial, nem para as eleições políticas, embora duas outras irmãs italianas presentes no mosteiro suíço tenham podido voltar para lá.

Deixemos agora as irmãs de La Fille-Dieu descrevê-la durante sua estadia :

‘Madre Pia era a própria bondade : sua amabilidade, seu rosto sorridente nos faziam bem. Gostávamos  de encontrá-la, porque seus grandes gestos pareciam nos envolver em seu coração. Ela tinha uma imensa piedade por aquelas que sofriam : ela queria consolá-las, ajudá-las... Seu espírito de fé a levava em direção a Jesus Hóstia : ela ficaria horas perto do Tabernáculo. Ela era uma grande silenciosa, permanecendo unida a Deus e vivendo em Sua presença. Seu talento como artista nos prestou grandes serviços... – Ela passou oito anos em La Fille-Dieu, dando o exemplo de uma religiosa perfeita; era uma alma generosa, de um grande espírito de fé, de uma caridade perfeita e cheia de uma delicadeza verdadeiramente materna, um coração de ouro que pensava apenas em agradar. Era uma alma silenciosa : para ela, o silêncio era uma audiência de amor com Nosso Senhor. Toda a minha vida, eu O agradecerei por ter vivido em contato com ela. Ela se apagava, procurava passar despercebida. De todas as virtudes ela deu o exemplo, e até mesmo o heroísmo. Uma grande monja : nosso Te Deum ambulante...’

Enquanto isso, na Itália, a abadessa, eleita em 1953 e responsável pela transferência da comunidade de Grottaferrata para Vitorchiano, renunciou em 1958 por motivos de saúde. Foi nomeada uma superiora ad nutum. Em 1959, estava sendo preparada uma eleição abacial e Madre Pia foi oficialmente convocada de volta a Vitorchiano pelo Padre imediato; não sabemos se seu chamado tinha como objetivo sua possível eleição como abadessa ou o exercício de uma responsabilidade subalterna; a comunidade, em sua grande maioria, a solicitava e os superiores que a destituíram agora apoiavam seu retorno. Mas quem perceberia que Madre Pia estava à beira da morte na época? Que, dado seu estado de saúde, a viagem da Suíça, por si só, seria muito cansativa? De qualquer forma, não era sua responsabilidade decidir, mas apenas obedecer : ela partiu, muito cansada, mas serena.

No dia 22 de fevereiro de 1959, ela deixou o mosteiro que a havia acolhido e onde havia desejado morrer. No dia 25, sob a intervenção de seu irmão médico, impressionado com sua aparência debilitada, ela foi hospitalizada na policlínica de Roma, onde recebeu muitas transfusões. Um mieloma em um estado muito avançado foi diagnosticado, além de danos irreparáveis nos rins, coração e outros órgãos. Madre Pia aceitou os cuidados e atenções que lhe foram dados com um reconhecimento desapegado, com tranquilidade e com o sorriso.

Em 15 de abril, ela saiu do hospital e foi recebida pelas irmãs Betlemitas para lá continuar, sob controle, uma terapia doravante inútil, enquanto aguardava para retornar a Vitorchiano. Ela tinha plena consciência de que não poderia assumir cargos de liderança; ela sentia que estava se aproximando de sua morte. Ela via claramente – e disse isso com calma e desapego real – que nunca mais se uniria à sua comunidade em vida : ‘Iremos ao Senhor antes de irmos para lá’, disse ela.

Sabendo que ela estava hospitalizada, eu fui visitá-la; ela estava sentada em uma poltrona. Essa visita me impressionou muito. Nenhuma palavra sobre o passado, nenhuma palavra sobre o futuro. Nenhum sinal de alegria – mesmo discreto – que uma pessoa em sua situação teria o direito de sentir; porque, acontecesse o que acontecesse, essa viagem à Itália era uma reabilitação.

Seu retorno a Vitorchiano estava programado para 5 de maio, dia da Ascensão. Ela morreu de um colapso cardíaco em 29 de abril, dia em que a Ordem celebrava, de acordo com o calendário litúrgico da época, o aniversário da morte de São Roberto, seu fundador favorito entre os fundadores de Cister. Provavelmente ela se identificava com sua busca, seu desejo de fundação e sua renúncia.

Madre Pia tinha 67 anos e 40 anos de profissão. Foi a primeira irmã a ser enterrada no novo cemitério de Vitorchiano, de acordo com a previsão que ela havia feito a uma monja italiana de La Fille-Dieu.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O silêncio como vocação: o testemunho de monges e carmelitas em um mundo marcado pelo ruído

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
O silêncio e a oração fazem parte da rotina diária da vida monástica.  (ANSA)

*Artigo de Matheus Macedo


‘O Papa Leão XIV recorda, nesta Quaresma, a importância de cultivar a escuta e moderar as palavras, destacando que ‘a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro’. O convite do Pontífice toca uma dimensão cada vez mais desafiadora na vida contemporânea : o silêncio.

Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, notificações constantes e hiperconectividade, permanecer em silêncio tornou-se incomum. No entanto, para comunidades religiosas como os carmelitas e os cistercienses, o silêncio não é apenas uma prática ocasional, mas um verdadeiro estilo de vida : um caminho cotidiano de encontro com Deus e de amadurecimento interior.

O silêncio como caminho de união com Deus no Carmelo

Na espiritualidade carmelitana, o silêncio é parte essencial da vocação. Mais do que ausência de sons, ele é compreendido como uma atitude interior que permite viver continuamente na presença de Deus.

‘O silêncio e a oração na vida dos carmelitas não são apenas a ausência de barulho, mas um estilo de vida e um caminho interior de união com Deus’, explica Frei Emerson, da Ordem dos Carmelitas Descalços. Inspirados por santos como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, os carmelitas buscam cultivar uma vida interior profunda, onde a escuta se torna fundamental.

Essa vivência nasce da oração e da contemplação, que formam o núcleo da espiritualidade do Carmelo. Frei Higor Fernandes de Oliveira, O.Carm, explica que a própria identidade carmelitana está ligada a esse movimento interior : ‘Somos chamados a subir ao monte da oração, contemplar Jesus e depois descer para testemunhar no mundo aquilo que vimos e ouvimos na intimidade com Ele’.

Segundo o religioso, o silêncio carmelitano é antes de tudo interior. ‘Trata-se de fazer silenciar o barulho dentro de nós, para que a realidade possa aparecer como ela é, e para que possamos escutar a voz de Deus’, afirma.

Essa experiência, no entanto, contrasta com o ritmo da sociedade atual. Frei Emerson observa que o excesso de ruído e a necessidade constante de conexão dificultam esse encontro interior. ‘Se não estou conectado, parece que não existo. Por medo, muitas vezes fugimos da nossa própria interioridade’, diz. Como consequência, surgem ansiedade, vazio e dificuldade de experimentar a presença de Deus.

O silêncio vivido no coração da vida monástica cisterciense

Entre os monges cistercienses, o silêncio também ocupa um lugar central, estruturando a própria rotina do mosteiro.

Na Abadia da Santa Cruz, em Itaporanga (SP), os monges organizam o dia em torno de momentos de oração comunitária, oração pessoal, trabalho e estudo, sempre permeados pelo silêncio. Essa prática encontra suas raízes na Regra de São Bento, que orienta a vida monástica há séculos.

‘O silêncio é uma dimensão essencial da nossa vida, pois nos ajuda a dar sentido à oração e àquilo que vivemos. Ele é uma oferta de amor a Deus e aos irmãos’, explica Ir Elredo, monge cisterciense.

Nesse contexto, o silêncio não é isolamento, mas uma forma de comunhão. Ao silenciar, o monge se torna mais disponível à escuta de Deus e mais atento à realidade.

‘O silêncio permite que acessemos aquilo que é essencial, a voz de Deus que nos chama no hoje da nossa vida’, afirma.

Um testemunho contracultural em meio ao ruído do mundo

A escolha pelo silêncio nas tradições monásticas revela um contraste com a realidade contemporânea, marcada pelo excesso de palavras e pela dificuldade de escutar.

Frei Higor, O. Carm, observa que o barulho exterior reflete um coração inquieto. ‘Muitas pessoas deixam-se hipnotizar pelo ruído do mundo e pela busca de uma felicidade superficial. Isso impede o encontro consigo mesmas, com o outro e com Deus’, afirma.

Ir Elredo também aponta para uma crise mais profunda. ‘Vivemos em uma sociedade em que as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas. O silêncio e a escuta se tornam desafiadores porque nos obrigam a enfrentar quem realmente somos.’

Essa reflexão ecoa o ensinamento do Papa Bento XVI, que destacou a importância do silêncio como parte essencial da comunicação : ‘O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos melhor e compreendemos com maior clareza.’

A Quaresma como um convite a redescobrir o silêncio

Neste contexto, a Quaresma surge como um tempo privilegiado para redescobrir o valor do silêncio e da escuta.

Frei Emerson, OCD, descreve esse período como uma oportunidade concreta de recolhimento : ‘A Quaresma pode ser vivida como um grande retiro, um tempo de conversão e de escuta de Deus no silêncio.’

Também para os monges cistercienses, esse tempo tem um significado especial. ‘A Quaresma nos convida a reencontrar o Deus que nos chama à comunhão. O silêncio nos ajuda a corresponder a esse chamado com um coração aberto’, explica Ir Elredo.

Mais do que uma prática reservada aos mosteiros, o silêncio pode ser cultivado na vida cotidiana. ‘Mesmo em meio ao trânsito ou às atividades diárias, é possível viver o silêncio interior quando o coração está em paz’, afirma o monge.

Frei Emerson, OCD, sugere passos concretos: reservar momentos de silêncio, reduzir o uso de redes sociais, cultivar a oração e aprender a escutar antes de falar.

O silêncio que abre espaço para Deus e para o outro

O testemunho das comunidades carmelitas e cistercienses revela que o silêncio não é vazio, mas um espaço de encontro. É nele que o ser humano reencontra a si mesmo, redescobre o outro e se abre à presença de Deus.

Bento XVI sintetiza essa realidade : ‘Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação e nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora.’

Neste tempo de Quaresma, o convite da Igreja é também um convite à escuta. Em meio ao ruído do mundo, o silêncio permanece como um caminho possível — e necessário — para redescobrir aquilo que é essencial.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-02/silencio-com-vocacao-e-o-tempo-da-quaresma.html

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Papa: arqueologia cristã, vocação e forma de amor pela Igreja e pela humanidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Benedetta Capelli


‘Escavar, tocar os achados, reencontrar a energia do tempo — mas no trabalho do arqueólogo cristão não há apenas matéria, há também humanidade : as mãos que forjaram os objetos encontrados, ‘as mentes que os conceberam, os corações que os amaram’. Essa é uma das características da arqueologia cristã destacada pelo Papa na Carta Apostólica sobre a importância da arqueologia, publicada no dia 11 de dezembro, por ocasião do centenário do Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã.

Leia a Carta Apostólica na integra

Tornar o Mistério visível 

Matéria e mistério : são duas linhas que se cruzam na arqueologia cristã porque ‘o cristianismo — destaca Leão XIV — não nasceu de uma ideia, mas de uma carne’, de um ventre, um corpo, um túmulo. A fé cristã se apoia em ‘eventos concretos, rostos, gestos, palavras pronunciadas em uma língua, em uma época, em um ambiente. É isso que a arqueologia torna evidente, palpável’. O Papa recorda ainda que ‘Deus escolheu falar em uma língua humana, caminhar sobre uma terra, habitar lugares, casas, sinagogas, ruas’. Por isso, em um tempo que recorre à Inteligência Artificial e investiga galáxias, ainda faz sentido continuar a investigar. ‘Não se pode compreender plenamente a teologia cristã — escreve o Papa — sem a inteligência dos lugares e das marcas materiais que testemunham a fé dos primeiros séculos’.

Nada é insignificante

A arqueologia e a teologia se entrelaçam no trabalho do arqueólogo, que deve ter uma sensibilidade especial ao lidar com ‘materiais da fé’. ‘Escavando entre pedras, ruínas, objetos — explica o Pontífice — aprendemos que nada do que foi tocado pela fé é insignificante’. Cada pequena evidência merece atenção, não deve ser descartada. Assim, a arqueologia se torna ‘uma escola de sustentabilidade cultural e ecologia espiritual’, de ‘educação para o respeito pela matéria, pela memória, pela história’. Nada se joga fora, tudo se conserva e se decifra, porque por trás de cada achado há ‘o fôlego de uma época, o sentido de uma fé, o silêncio de uma oração. É um olhar — sublinha o Papa — que pode ensinar muito também à pastoral e à catequese de hoje’.

A arqueologia aliada da teologia

Com o suporte de instrumentos tecnológicos cada vez mais refinados, mesmo materiais considerados irrelevantes podem revelar sentidos profundos. ‘A arqueologia é também uma escola de esperança.’ Leão XIV recorda que, segundo a Constituição Apostólica Veritatis gaudium, a arqueologia, junto com a História da Igreja e a Patrologia, deve integrar as disciplinas fundamentais da formação teológica. A arqueologia não fala apenas de coisas, mas de pessoas; ajuda a compreender ‘como a revelação se encarnou na história, como o Evangelho encontrou palavras e formas dentro das culturas’. Assim, uma teologia que acolhe a arqueologia ‘escuta o corpo da Igreja, interroga suas feridas, lê seus sinais, deixa-se tocar por sua história’. É também uma forma de caridade : ‘um modo de fazer falar os silêncios da história, devolver dignidade a quem foi esquecido, trazer à luz a santidade anônima de tantos fiéis que construíram a Igreja’.

A missão evangelizadora

É também tarefa da arqueologia ajudar a Igreja a guardar viva a memória dos seus inícios, narrar a história da salvação também com imagens, formas e espaços. ‘Em um tempo que frequentemente perde as raízes, a arqueologia — afirma o Papa — torna-se instrumento precioso de uma evangelização que parte da verdade da história para abrir à esperança cristã e à novidade do Espírito.’ Ao olhar para o modo como o Evangelho foi acolhido no passado, a arqueologia impulsiona seu anúncio hoje, ajudando a alcançar os distantes e os jovens que buscam autenticidade. A arqueologia, destaca Leão XIV, é um ‘poderoso instrumento de diálogo; pode construir pontes entre mundos distantes, culturas diferentes, gerações; pode testemunhar que a fé cristã nunca foi uma realidade fechada, mas uma força dinâmica’.

Memória viva e reconciliada

Outra força da arqueologia é fazer perceber o vigor de uma existência que atravessa os séculos, ultrapassa a matéria e possui relevância específica na teologia da Revelação. Ela ilumina textos com testemunhos materiais, interroga fontes, completa-as e abre novas questões. Assim, uma teologia fiel à Revelação ‘deve — para o Papa — permanecer aberta à complexidade da história’, feita de desafios, conflitos, momentos de luz e escuridão. Cada aprofundamento do mistério da Igreja é um retorno às origens : não um culto ao passado, mas ‘memória viva’, ‘capacidade de fazer o passado falar ao presente’, discernindo o que o Espírito Santo suscitou na história. Isso gera ‘uma memória reconciliada’, capaz de reconhecer pluralidade e unidade na diversidade, tornando-se ‘lugar de escuta, espaço de diálogo, instrumento de discernimento’.

Não um saber elitista

O Papa recorda que o Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã foi fundado em 1925 por Pio XI, no Jubileu da Paz; agora o centenário ocorre no Jubileu da Esperança — coincidência que abre horizontes para uma humanidade ferida por guerras. A fundação ocorreu em clima incerto, mas com coragem e visão. Ser fiel ao espírito fundador significa não fechar-se em um saber elitista, mas ‘compartilhar, divulgar, envolver’. Essencial, portanto, a comunhão com outras instituições dedicadas à arqueologia, como a Pontifícia Academia Romana de Arqueologia, a Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra e a Pontifícia Academia Cultorum Martyrum. Também com o Oriente cristão a arqueologia é terreno fecundo : catacumbas comuns, igrejas compartilhadas, práticas litúrgicas análogas, martirológios convergentes — patrimônios que devem ser valorizados conjuntamente.

Ministério de esperança

‘A Igreja é chamada a educar para a memória, e a arqueologia cristã é um dos seus instrumentos mais nobres. Não para refugiar-se no passado, mas para habitar o presente com consciência, construindo o futuro com raízes.’ A arqueologia, portanto, ‘é um ministério de esperança’, porque mostra que ‘a fé resistiu às perseguições, às crises, às mudanças’, renovando-se, reinventando-se, florescendo. ‘O Evangelho sempre teve uma força geradora’, e a esperança jamais falhou. Por fim, o Papa exorta à continuidade desse trabalho precioso, rigoroso, transmitido com paixão. ‘A arqueologia cristã é um serviço, uma vocação, uma forma de amor pela Igreja e pela humanidade. Sede fiéis ao sentido profundo do vosso compromisso : tornar visível o Verbo da vida, testemunhar que Deus se fez carne, que a salvação deixou marcas, que o Mistério se fez narrativa histórica.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-12/papa-leao-xiv-carta-apostolica-arqueologia-crista-11-12-2025.html