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sábado, 30 de maio de 2026

Liturgia da Solenidade da Santíssima Trindade - Ano A

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Diácono Luiz Carlos Gomes,

Diácono permanente da Arquidiocese de Maringá 

 

‘Deus enviou seu filho ao mundo, para que o mundo seja salvo por Ele’ (Jo 3,16-18)

‘A solenidade da Santíssima Trindade é uma espécie de síntese do Tempo Pascal, no sentido ‘mistério’ do termo. Ela nos coloca diante do mistério de Deus, com toda Sua grandeza, e revela o Seu infinito amor por nós. 

Celebrar a Santíssima Trindade não é celebrar três deuses, mas um único Deus em três Pessoas : Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus que se desdobra em três Pessoas para que possamos ter acesso a Ele. Um Deus que se revela no Seu mistério porque nos ama infinitamente e quer que O conheçamos, que O encontremos e O percebamos no dia a dia da nossa vida. 

O Evangelho de hoje fala diretamente desse amor de Deus Pai pelos Seus filhos, pela humanidade, pelo mundo. 

João afirma que ‘Deus amou tanto o mundo que deu o Seu Filho unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna’. É um gesto extremo de amor o que Deus fez por nós ao se fazer um de nós na Pessoa do Filho e se encarnar. Antes ninguém conhecia Deus. Não se podia ver o rosto de Deus. 

O amor é o único meio de reconhecê-lO e d’Ele se revelar para nós. Ao enviar Seu Filho, primeiro o Pai revela o Seu infinito amor e, segundo, o Seu rosto. Deus se fez um de nós para que tivéssemos acesso a Ele e o conhecêssemos na pessoa de nossos irmãos e irmãs. Esse gesto do Pai narrado no Evangelho de hoje é demonstração do Seu imenso amor. Ele nos ama e quer que tenhamos a vida plena, a vida eterna. 

Que a Santíssima Trindade nos faça verdadeira comunidade de irmãos, sempre prontos a ajudar o próximo, na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, no amor do Pai e na comunhão do Espírito Santo.’ 

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://arquidiocesedemaringa.org.br/artigos/2381/reflexao-liturgia-da-solenidade-da-santissima-trindade-ano-a-31-05-2026-29-05-2026

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Papa: arqueologia cristã, vocação e forma de amor pela Igreja e pela humanidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Benedetta Capelli


‘Escavar, tocar os achados, reencontrar a energia do tempo — mas no trabalho do arqueólogo cristão não há apenas matéria, há também humanidade : as mãos que forjaram os objetos encontrados, ‘as mentes que os conceberam, os corações que os amaram’. Essa é uma das características da arqueologia cristã destacada pelo Papa na Carta Apostólica sobre a importância da arqueologia, publicada no dia 11 de dezembro, por ocasião do centenário do Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã.

Leia a Carta Apostólica na integra

Tornar o Mistério visível 

Matéria e mistério : são duas linhas que se cruzam na arqueologia cristã porque ‘o cristianismo — destaca Leão XIV — não nasceu de uma ideia, mas de uma carne’, de um ventre, um corpo, um túmulo. A fé cristã se apoia em ‘eventos concretos, rostos, gestos, palavras pronunciadas em uma língua, em uma época, em um ambiente. É isso que a arqueologia torna evidente, palpável’. O Papa recorda ainda que ‘Deus escolheu falar em uma língua humana, caminhar sobre uma terra, habitar lugares, casas, sinagogas, ruas’. Por isso, em um tempo que recorre à Inteligência Artificial e investiga galáxias, ainda faz sentido continuar a investigar. ‘Não se pode compreender plenamente a teologia cristã — escreve o Papa — sem a inteligência dos lugares e das marcas materiais que testemunham a fé dos primeiros séculos’.

Nada é insignificante

A arqueologia e a teologia se entrelaçam no trabalho do arqueólogo, que deve ter uma sensibilidade especial ao lidar com ‘materiais da fé’. ‘Escavando entre pedras, ruínas, objetos — explica o Pontífice — aprendemos que nada do que foi tocado pela fé é insignificante’. Cada pequena evidência merece atenção, não deve ser descartada. Assim, a arqueologia se torna ‘uma escola de sustentabilidade cultural e ecologia espiritual’, de ‘educação para o respeito pela matéria, pela memória, pela história’. Nada se joga fora, tudo se conserva e se decifra, porque por trás de cada achado há ‘o fôlego de uma época, o sentido de uma fé, o silêncio de uma oração. É um olhar — sublinha o Papa — que pode ensinar muito também à pastoral e à catequese de hoje’.

A arqueologia aliada da teologia

Com o suporte de instrumentos tecnológicos cada vez mais refinados, mesmo materiais considerados irrelevantes podem revelar sentidos profundos. ‘A arqueologia é também uma escola de esperança.’ Leão XIV recorda que, segundo a Constituição Apostólica Veritatis gaudium, a arqueologia, junto com a História da Igreja e a Patrologia, deve integrar as disciplinas fundamentais da formação teológica. A arqueologia não fala apenas de coisas, mas de pessoas; ajuda a compreender ‘como a revelação se encarnou na história, como o Evangelho encontrou palavras e formas dentro das culturas’. Assim, uma teologia que acolhe a arqueologia ‘escuta o corpo da Igreja, interroga suas feridas, lê seus sinais, deixa-se tocar por sua história’. É também uma forma de caridade : ‘um modo de fazer falar os silêncios da história, devolver dignidade a quem foi esquecido, trazer à luz a santidade anônima de tantos fiéis que construíram a Igreja’.

A missão evangelizadora

É também tarefa da arqueologia ajudar a Igreja a guardar viva a memória dos seus inícios, narrar a história da salvação também com imagens, formas e espaços. ‘Em um tempo que frequentemente perde as raízes, a arqueologia — afirma o Papa — torna-se instrumento precioso de uma evangelização que parte da verdade da história para abrir à esperança cristã e à novidade do Espírito.’ Ao olhar para o modo como o Evangelho foi acolhido no passado, a arqueologia impulsiona seu anúncio hoje, ajudando a alcançar os distantes e os jovens que buscam autenticidade. A arqueologia, destaca Leão XIV, é um ‘poderoso instrumento de diálogo; pode construir pontes entre mundos distantes, culturas diferentes, gerações; pode testemunhar que a fé cristã nunca foi uma realidade fechada, mas uma força dinâmica’.

Memória viva e reconciliada

Outra força da arqueologia é fazer perceber o vigor de uma existência que atravessa os séculos, ultrapassa a matéria e possui relevância específica na teologia da Revelação. Ela ilumina textos com testemunhos materiais, interroga fontes, completa-as e abre novas questões. Assim, uma teologia fiel à Revelação ‘deve — para o Papa — permanecer aberta à complexidade da história’, feita de desafios, conflitos, momentos de luz e escuridão. Cada aprofundamento do mistério da Igreja é um retorno às origens : não um culto ao passado, mas ‘memória viva’, ‘capacidade de fazer o passado falar ao presente’, discernindo o que o Espírito Santo suscitou na história. Isso gera ‘uma memória reconciliada’, capaz de reconhecer pluralidade e unidade na diversidade, tornando-se ‘lugar de escuta, espaço de diálogo, instrumento de discernimento’.

Não um saber elitista

O Papa recorda que o Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã foi fundado em 1925 por Pio XI, no Jubileu da Paz; agora o centenário ocorre no Jubileu da Esperança — coincidência que abre horizontes para uma humanidade ferida por guerras. A fundação ocorreu em clima incerto, mas com coragem e visão. Ser fiel ao espírito fundador significa não fechar-se em um saber elitista, mas ‘compartilhar, divulgar, envolver’. Essencial, portanto, a comunhão com outras instituições dedicadas à arqueologia, como a Pontifícia Academia Romana de Arqueologia, a Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra e a Pontifícia Academia Cultorum Martyrum. Também com o Oriente cristão a arqueologia é terreno fecundo : catacumbas comuns, igrejas compartilhadas, práticas litúrgicas análogas, martirológios convergentes — patrimônios que devem ser valorizados conjuntamente.

Ministério de esperança

‘A Igreja é chamada a educar para a memória, e a arqueologia cristã é um dos seus instrumentos mais nobres. Não para refugiar-se no passado, mas para habitar o presente com consciência, construindo o futuro com raízes.’ A arqueologia, portanto, ‘é um ministério de esperança’, porque mostra que ‘a fé resistiu às perseguições, às crises, às mudanças’, renovando-se, reinventando-se, florescendo. ‘O Evangelho sempre teve uma força geradora’, e a esperança jamais falhou. Por fim, o Papa exorta à continuidade desse trabalho precioso, rigoroso, transmitido com paixão. ‘A arqueologia cristã é um serviço, uma vocação, uma forma de amor pela Igreja e pela humanidade. Sede fiéis ao sentido profundo do vosso compromisso : tornar visível o Verbo da vida, testemunhar que Deus se fez carne, que a salvação deixou marcas, que o Mistério se fez narrativa histórica.’’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-12/papa-leao-xiv-carta-apostolica-arqueologia-crista-11-12-2025.html

domingo, 6 de julho de 2025

Seguir Jesus: uma resposta que nos recria

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Há uma pergunta que atravessa os séculos com a força de um vento que não cessa. Não é uma pergunta de prova, nem uma curiosidade de mestre : é um chamado que toca a alma. ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ (cf. Lc 9, 20).

Não se responde a essa pergunta com frases decoradas de catecismo. Ela exige mais : exige adesão, exige verdade de cada um de nós. Exige vida. Porque, na realidade, é como se Jesus dissesse : ‘Quero saber quem sou para você, no mais profundo da sua história, no lugar onde nascem as suas decisões, onde vivem suas alegrias e doem as suas cruzes.’

É revelador notar que essa pergunta nasce enquanto Jesus rezava num lugar retirado (cf. Lc 9,18). Como se o silêncio fosse a única linguagem capaz de traduzir o que é essencial. Há perguntas e respostas que só se escutam quando o coração aquieta. Há verdades que só se compreendem longe do barulho. E talvez o seguimento de Jesus comece por aí : pela escuta do coração, pela oração que desinstala, pela resposta que nasce no íntimo.

A resposta de Pedro — ‘Tu és o Cristo de Deus’ — está certa, mas ainda é insuficiente. Porque logo em seguida Jesus revela o outro lado do Cristo : o lado da rejeição, da dor, da cruz. Como se dissesse : ‘Sim, sou o Messias, mas um Messias ferido. Sou o Cristo, mas um Cristo que sangra.’

E então, vem o convite que transforma tudo em caminho : ‘Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me.’ (Lc 9,23)

Seguir Jesus não é andar atrás de um ideal bonito. É caminhar com Ele, com as marcas e exigências do amor que se faz carne, que se deixa ferir, que se doa até o fim. É mais do que um gesto religioso — é uma escolha existencial que nos pede tudo. E que precisa ser feita de novo, a cada manhã.

É por isso que o seguimento de Cristo não se esgota num momento de entusiasmo ou numa emoção de retiro. É um ato contínuo de entrega. É aceitar que amar como Ele amou custará a vida inteira. Porque o amor, quando é verdadeiro, não se preserva — se oferece. O amor em Jesus é doação, e a consequência do amor é sempre a cruz — não como fim, mas como travessia.

Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la — diz o Evangelho — mas quem a perder por causa d’Ele, a encontrará. Isso é uma revolução do espírito. Uma virada radical que nos ensina que a vida não se conquista acumulando, mas entregando. Não se vence se protegendo, mas se expondo por amor.

Seguir Jesus é viver para além de si mesmo. É deixar de se pertencer para pertencer ao Reino. É trocar os atalhos fáceis pela vereda estreita do Evangelho. É responder todos os dias à mesma pergunta : ‘E hoje, quem é Jesus para mim?’ E permitir que a resposta não esteja apenas nos lábios, mas no modo como nos gastamos, no modo como amamos, no modo como vivemos.

Se hoje Ele te perguntar de novo — e Ele perguntará — não endureça o coração. Responder com a vida pode ser difícil, mas é o único caminho que nos devolve a nós mesmos e nos leva ao coração de Deus.’ 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/seguir-jesus-uma-resposta-que-nos-recria.html

sexta-feira, 28 de março de 2025

Teilhard de Chardin, uma das figuras mais fascinantes do século XX

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Cardeal José Tolentino de Mendonça 


Publicamos o prefácio do cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, ao livro de Mercè Prats ‘Pierre Teilhard de Chardin. Uma biografia’ (Livraria Editora Vaticana, Cidade do Vaticano 2025, páginas 408), disponível nas livrarias a partir de segunda-feira, 31 de março. Resultado de um trabalho historiográfico que durou vários anos, baseado em pesquisas aprofundadas em vários arquivos, como o Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé, da Província francesa da Companhia de Jesus e da Universidade de Georgetown, em Washington, o trabalho de Mercè Prats é a biografia mais completa e documentada do famoso jesuíta, teólogo e paleontólogo. Para redigir esse poderoso ensaio biográfico, a autora se baseou em muitos materiais inéditos e reconstruiu a vida de Teilhard de Chardin também graças a suas numerosas cartas : basta dizer que somente a biografia citada no texto publicado pela LEV consiste em nada menos que 63 páginas.


‘Pierre Teilhard de Chardin é uma das figuras mais fascinantes e complexas do pensamento do século XX. Sua obra, que se encontra na intersecção entre ciência, teologia e filosofia, representa uma tentativa ousada de integrar a evolução cósmica com uma visão espiritual do universo. Em sua vida e em seus escritos, surge uma síntese original que desafia as dicotomias tradicionais entre fé e razão, natureza e espírito, tempo e eternidade. Este volume se propõe a explorar o pensamento de Teilhard em profundidade, oferecendo uma perspectiva penetrante sobre seu legado intelectual e espiritual.

Mercè Prats, professora e documentarista da Fondation Teilhard de Chardin, é conhecida pelos acadêmicos por ter conseguido reconstruir a circulação clandestina dos escritos do pensador jesuíta francês. Ela consultou arquivos até então inacessíveis, reconstruindo a transmissão em estilo cíclico de seus textos. Esses escritos, que frequentemente apresentavam perspectivas teológicas inovadoras e, às vezes, controversas, foram copiados e distribuídos de forma privada durante décadas, alimentando uma rede de leitores e apoiadores.

O que torna este volume particularmente original em comparação com outros estudos sobre Teilhard de Chardin é também a abordagem inovadora e interdisciplinar adotada pela autora. Prats não apenas examina as ideias de Teilhard em seu contexto histórico e filosófico, mas também as relê à luz dos desafios do mundo contemporâneo. Essa capacidade de dialogar com questões atuais, como a crise ecológica, a globalização e a busca de significado espiritual na era tecnológica, confere ao seu trabalho uma relevância e um frescor extraordinários.

Outra característica distintiva do texto de Prats é sua capacidade de tornar conceitos complexos do Teilhardi acessíveis a um público amplo. Por meio de um estilo claro e envolvente, a autora consegue traduzir as profundas intuições de Teilhard em uma linguagem compreensível sem sacrificar sua profundidade.

Teilhard de Chardin foi um jesuíta, um paleontólogo e um místico. Sua vida foi marcada por uma busca incessante de significado, alimentada tanto pela observação científica quanto pela contemplação espiritual. Nascido em 1881 na França, ele cresceu em um ambiente rico em estímulos culturais e espirituais. Sua formação jesuíta lhe proporcionou uma sólida base teológica, enquanto seu trabalho como cientista o colocou frente a frente com as grandes questões da evolução e da natureza do homem. A fé e a ciência moldaram seu pensamento, que se distingue por sua capacidade de integrar diferentes perspectivas em uma visão de mundo unificada.

O ponto central do pensamento de Teilhard é a ideia de que o universo está evoluindo constantemente em direção a uma maior complexidade e a uma consciência mais profunda. Essa ‘teologia da evolução’, como foi frequentemente chamada, é uma de suas percepções mais originais e provocativas. Para Teilhard, a evolução não é simplesmente um processo biológico, mas um movimento cósmico que envolve toda a criação. O universo, em sua visão, é animado por uma força interna que o conduz ao ponto ômega, um termo cunhado por Teilhard para denotar o ápice da evolução, onde a consciência humana e a divina se unem em harmonia.

O pensamento de Teilhard - como Mercè Prats ilustra muito bem - provocou muitos debates, tanto na comunidade científica quanto no âmbito teológico. Por um lado, sua visão da evolução como um processo intrinsecamente orientado para o transcendente levantou questões sobre a compatibilidade de suas ideias com a teoria darwiniana. Por outro lado, sua ousadia em reinterpretar a fé católica à luz das descobertas científicas provocou reações contrastantes dentro da Igreja. Apesar das controvérsias, ou talvez por causa delas, seu pensamento continua exercendo uma profunda influência, inspirando novas gerações de pensadores e fiéis.

O Papa Francisco recordou a figura de Teilhard em setembro de 2023, durante sua viagem à Mongólia, no vizinho deserto de Ordos, exatamente onde, cem anos antes, o jesuíta rezou sua famosa ‘Missa sobre o mundo’. Francisco pronunciou as palavras dessa oração e depois disse : ‘Esse padre, muitas vezes incompreendido, intuiu que ‘a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo’ e é ‘o centro vital do universo, o centro transbordante de amor e de vida inesgotável’, mesmo em uma época como a nossa, de tensões e de guerras’. Dessa forma, Francisco quis comemorar e enaltecer a figura desse pensador cristão a quem o então Santo Ofício impôs um Monitum em 1962, mas que também foi citado por vários Pontífices ao longo do tempo.

Um aspecto particularmente significativo do pensamento de Teilhard, que Prats explora com grande sensibilidade, é seu profundo otimismo. Em uma época em que o progresso é frequentemente associado a riscos e perigos, Teilhard nos convida a ver a evolução não apenas como uma fonte de conflito, mas também como uma oportunidade de crescer como espécie e como indivíduos. Seu otimismo não é ingênuo, mas está radicado em uma profunda confiança na capacidade do homem de colaborar com as forças criativas do universo.

Outra contribuição significativa de Teilhard é sua reflexão sobre o amor como uma força cósmica. Para Teilhard, o amor não é apenas um sentimento ou uma virtude moral, mas uma força fundamental que guia a evolução em direção a uma maior união e complexidade. Esse aspecto de seu pensamento, que Prats desenvolve com grande profundidade, oferece uma nova perspectiva sobre a natureza do amor e seu papel em nossa vida pessoal e coletiva.

O volume de Mercè Prats é uma contribuição importante não apenas para os estudiosos de Teilhard de Chardin, mas também para qualquer pessoa interessada em refletir sobre as grandes questões da existência. A capacidade da autora de tornar conceitos complexos acessíveis e de entrelaçar o pensamento de Teilhard com os desafios de nosso tempo faz deste livro uma leitura desafiadora, porém importante.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-03/cardeal-de-mendonca-prefacio-livro-teilhard-de-chardin-lev-prats.html

domingo, 29 de dezembro de 2024

Sagrada Família de Nazaré: testemunho de amor e perseverança

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Rodrigo de Castro


‘‘José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa, Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio’ (Lc 2,4-5) : aqui o evangelista cita os três personagens da Sagrada Família.

Um pouco adiante, quando os pastores, recebendo dos anjos a notícia do nascimento do Salvador, vão até o local, novamente, os três são citados : ‘Foram com grande pressa [os pastores] e acharam Maria e José, e o Menino [Jesus] deitado na manjedoura’ (Lc 2,16). Novamente Lucas, o mais minucioso dos quatro evangelistas, narra a presença da Sagrada Família, ouvindo dos pastores as coisas maravilhosas que lhes foram ditas pelos anjos a respeito daquele menino que nascera. E Lucas assim conclui a narrativa : ‘Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração’ (Lc 2,19).

Lucas citará ainda a presença de José, Maria e Jesus juntos em mais dois momentos. Um, quando o santo casal, para cumprir a lei de Moisés, leva o Menino Jesus ao templo para apresentá-lo ao Senhor, escrevendo assim : ‘Concluídos os dias de sua purificação [de Maria pós-parto] segundo a lei de Moisés, [José e Maria] levaram-no [o Menino Jesus] a Jerusalém para o apresentar ao Senhor’ (Lc 2,22).

A outra vez em que a Sagrada Família é relatada junta por Lucas será quando Jesus, aos 12 anos, viajou com os seus santos pais para Jerusalém, por ocasião da Páscoa judaica : ‘Seus pais [José e Maria] iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo Ele [Jesus] atingido 12 anos, subiram [a Sagrada Família junta] a Jerusalém, segundo o costume da festa’ (Lc 2,41-42). Depois, o santo casal não é mais citado por Lucas nem pelos outros evangelistas, a não ser Maria : nas bodas de Caná e aos pés da cruz.

A encarnação nos reaproxima do santo mistério de Deus se encarnando no seio de uma família para experimentar as nossas limitações (exceto o pecado) e, na vida adulta, entregar-se passivamente, como uma mera vítima pascal, para a remissão dos pecados de toda a humanidade : passada, presente e futura. Deus escolhe vir ao mundo por uma família!

Vocês sabem por que Deus veio ao mundo por uma família? Porque a família é fruto do único Sacramento que não foi destruído pelo pecado original de Adão e Eva, o Sacramento do Matrimônio. O maligno, com sua astúcia, conseguiu tirar os nossos primeiros pais do Paraíso, mas não conseguiu destruir a união a eles proferida por Deus, narrada no Gênesis : ‘Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher e já não são mais que uma só carne’ (2,24). E Jesus, questionado sobre esse Sacramento, confirma-o e conclui : ‘Portanto, não separe o homem o que Deus uniu’ (Mt 19,6).

Deus veio ao mundo, por meio de uma Família Sagrada, para santificar as famílias que, por sua união, participam do projeto dele para povoar a Terra com homens e mulheres que cuidam de sua obra : a natureza, os animais, a terra, o mar, o cosmos e todo o universo, que nem temos ciência de sua dimensão. Contemplar a Sagrada Família é enxergar a esperança nas famílias : parceiras de Deus na descendência humana, de geração a geração.

Assim, a nossa missão primeira aqui no santuário é a de incentivar as famílias a buscar a santidade, afastando-se gradualmente dos pecados e aproximando-se cada vez mais das coisas santas e sagradas : os sacramentos, as celebrações, o dízimo, a Palavra de Deus, os santos e tudo mais que nossa Igreja oferece. Assim, despertaremos em nós o amor que Deus espera de seus filhos e filhas. Amor ágape que São Paulo assim define : ‘O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta’ (1Cor 13,4-7). Nesse texto, Paulo nos aponta quinze atitudes que precisam existir no seio de sua família. Meditando-o, a sua família pode fazer um bom exame de consciência, preparando-se para o Natal.

Na Sagrada Família, encontramos razões para que a família se reconcilie, se está dividida; para que a família se restaure, se está ferida por mágoas e ressentimentos passados; para que se perdoe, se foi ferida pelos pecados da traição, das mentiras, dos remorsos e outros sentimentos ruins; para que sejam misericordiosas, para as situações que não têm mais soluções possíveis; enfim, para que as famílias se santifiquem se estão em pecado.

Ter um olhar para a família sob a ótica da Sagrada Família é isso, amados e amadas, e um dos frutos de uma família buscando a santidade é a caridade para com o próximo, vivendo o segundo mandamento : ‘Amar o próximo como a si mesmo’. Gesto libertador, como nos ensina São Pedro, nosso primeiro Papa, que conviveu com Jesus : ‘Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados (Pr 10,12)’ (1Pd 4,8). 

Caridade material, que faz com que aprendamos a dividir nossos bens materiais e espirituais com os que precisam, viver também essa dimensão do amor na família.

Na confiança de que sua família se empenhará a viver diferente com o exemplo da Sagrada Família, mais espiritual e menos material, exorto você a encontrar seu real espírito. Espírito de dar graças a Deus por Ele ter vindo ao mundo, por meio de uma família, para consolidar a santificação de nossas famílias aqui na terra com perseverança, colocando em prática a esperança e mergulhando no amor.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sagrada-familia-de-nazare-testemunho-de-amor-e-perseveranca.html

domingo, 22 de dezembro de 2024

Sinfonia transformativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Miguel Oliveira Panão,

professor

 

‘Esta manhã ponderava se Deus seria um Maestro de uma grande orquestra chamada Universo onde todos podem improvisar e gerar uma Sinfonia em vez de cacofonia. Seria a Sinfonia que emerge da liberdade de todos poderem improvisar e fruto da complexidade relacional existente e da qual fazemos parte. Na prática, devido à rede de relações que permeia o mundo, todos caminhamos juntos e tocamos notas feitas de escolhas. Na Natureza, as escolhas são biológicas, mas no ser humano deveriam ser conscientes. Em Deus, as escolhas são um Mistério como realidades escondidas que nos atraem a uma vida cada vez mais profunda. Que sinfonia quer Deus orquestrar de cada vez que celebramos o nascimento de Jesus?

As ruas enchem-se de luzes desde Novembro. O primeiro pensamento foi de alguma perplexidade porque a celebração do Natal ainda distava de mais de um mês. Seria o anseio pela festa do Emanuel, Jesus, Deus-conosco? Ou seria a habitual febre do consumo subjacente à versão mais laica desta época? Gostaria que a resposta fosse sim à primeira pergunta e não à segunda, mas no fundo sabemos ser o contrário. Por isso, o desafio diante de nós em cada ano que passa é o equilíbrio saudável entre os anseios do mundo e as razões profundas que afetam a nossa existência.

Deus, que se faz um de nós e morre, afeta a minha existência porque descobrir as razões de tal escolha parecem ser um manancial natalício de reflexão infindável. Se Jesus não tivesse nascido, o mundo não seria o mesmo. O coração humano sem o Coração de Jesus talvez fosse mais selvagem. E a mudança que a sua breve existência humana realizou na evolução da nossa espécie parece-me ser a revolução do amor que quebra todas as barreiras, mais cedo ou mais tarde. Dada a aceleração que tenho assistido neste ano de 2024 que está prestes a terminar, refletir sobre a síntese do nosso coração ao Coração de Jesus é um bálsamo de lentidão que nos ajuda a parar para estarmos mais conscientes do rumo que estamos a seguir na história humana.

O Papa Francisco tem uma expressão na carta encíclica Amou-nos (Dilexit Nos) que considero muito forte: «Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas» (DN, 21).

A complexidade que existe no mundo natural nasce do facto de tudo estar relacionado com tudo, um aspecto central já presente na carta encíclica Laudato Si’, mas qual o fruto desses relacionamentos além da complexidade dos sistemas? Penso que seja a unidade em torno de um Coração que significa todo o pulsar proveniente da relacionalidade existente neste universo.

Os ritmos a que batem os nossos corações são diferentes. Por vezes, as ondas anulam-se quando os pulsares são opostos. Por vezes ampliam-se de tal forma que entram em ressonância e podem levar à ruptura.

Quando penso no nascimento de Jesus, Deus-Trindade oferece um só Coração ao mundo que inclui todos os pulsares, por mais diferentes que sejam. Coração que se revela sinfonia transformativa de unidade na diversidade.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1290/sinfonia-transformativa/

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Os pequenos detalhes do amor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Valadas,

Presidente da Cáritas Portuguesa

 

‘Estes tempos são naturalmente inspirados pelo desafio do Dia Mundial dos Pobres. Dar significado a este dia e tentar que possa ainda ser alerta, estímulo de reflexão e inspiração de ação foi o que me trouxe hoje a estas linhas. Nestes dias cruzam-se desafios múltiplos e angústias desesperançadas, que me fazem sempre pensar como poderemos «recompor» este mundo, que muda tanto quanto gira, e cada vez mais rápido.  São tantos os desafios, que o tempo de reflexão se prejudica e se desmerece a necessidade do cuidar, do proteger e do rezar.

O VIII Dia Mundial dos Pobres celebra-se a 17 deste mês de Novembro, jornada que merece uma mensagem do Santo Padre. No texto, o papa lembra que o Dia Mundial dos Pobres se tornou «um compromisso na agenda de cada comunidade eclesial. [...] Desafia cada fiel a escutar a oração dos pobres, tomando consciência da sua presença e das suas necessidades. É uma ocasião propícia para realizar iniciativas que ajudem concretamente os pobres, e também para reconhecer e apoiar os numerosos voluntários que se dedicam com paixão aos mais necessitados». Todavia, o papa reforça a convicção «de que os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus, que está atento e próximo de todos e cada um deles».

Sob o lema A oração do pobre eleva-se até Deus, somos convocados a preparar o nosso olhar e o nosso coração com vista ao Jubileu Ordinário de 2025, também com a certeza de que a oração do pobre chega à presença de Deus como meio e veículo de comunhão e que devemos refletir para que a oração se construa como «aproximador» e meio de comunhão. Um grande desafio.

O pobre é muito mais do que um produto de baixo rendimento.
A pobreza é muito mais do que a falta de condições de subsistência ou de recursos. Manifesta-se pela fome, pela malnutrição, mas também pelo acesso limitado a meios, serviços prioritários, saúde, educação, e até à falta de participação. A tudo isto acrescem os muitos fatores de exclusão social.

Neste ambiente, os mais frágeis são os que mais precisam de atenção, de olhares atentos às dificuldades e ao papel que todos podem ter na sua proximidade e na construção de soluções de vida que considerem cada um em toda a sua plenitude com vista a um mundo de esperança. A esperança constrói-se com todos os dons e todos os bens, a experiência e a energia de cada um.

Ficam-me as palavras do Papa Francisco : «No caminho para o Ano Santo, exorto todos a fazerem-se peregrinos da esperança, dando sinais concretos de um futuro melhor. Não nos esqueçamos de guardar ‘os pequenos detalhes do amor’ (exortação apostólica Gaudete et Exsultate, 145) : parar, aproximar-se, dar um pouco de atenção, um sorriso, uma carícia, uma palavra de conforto.»

Uma última palavra de esperança. Cada um de nós transporta tesouros únicos e dons especiais. Muitas vezes desmerecemos isso e uma palavra que nos aconselhe ou inspire pode fazer toda a diferença, para nós e os que nos rodeiem. É preciso acreditar nos «pequenos detalhes do amor».’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1270/os-pequenos-detalhes-do-amor/

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Amar a Deus e amar ao Próximo

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do editorial da revista Ave Maria 


‘Temos, na Sagrada Escritura, um conjunto de leis morais e religiosas (cf. Ex 22,20-26). Seu contexto é o do monte Sinai, durante a promulgação do código da aliança, embora estudos indiquem que, na realidade, são fruto de uma longa experiência do povo eleito. Na lista de mandamentos há insistência no amor e na misericórdia para com o próximo. A Palavra reflete uma grande sintonia com a vontade de Deus, uma preocupação no sentido humanitário para com o estrangeiro, a viúva, o órfão e o pobre.

Paulo nos saúda com fé, caridade e esperança ao elogiar os tessalonicenses (cf. 1Ts 1,5c-10), porque, amando, imitam-no e também ao próprio Cristo; por isso, tornaram-se modelos de vivência da fé para outras pessoas e comunidades. Ele relembra a acolhida do Evangelho em meio a muitas dificuldades, mas sempre como motivo de profunda alegria. O cristão tem o compromisso de amar com entrega, desprendimento e generosidade. 

Enquanto isso, vemos fariseus e saduceus não desistirem de armar ciladas a Jesus e de surpreendê-lo em alguma afirmação (cf. Mt 22,34-40). Os fariseus procuram salientar que Jesus não sabe interpretar a lei de Moisés e que, como consequência, não merece crédito. De fato, a questão proposta é complicada e motivo de debate constante entre os estudiosos da época.

O estudo da lei de Moisés havia levado a uma infinidade de preceitos, todos igualmente importantes e que deveriam ser colocados em prática, porém, diante da inviabilidade concreta de lembrar todos, surge a questão : qual é o maior mandamento da lei? As respostas dos estudiosos da época eram tão complicadas que os interlocutores de Jesus pensavam que Ele não soubesse responder a elas, no entanto, são eles que ficaram sem resposta diante das palavras de Jesus, que superavam o limitado horizonte da pergunta e se projetavam no contexto das opções mais profundas. O mais importante não é saber qual o maior mandamento, mas procurar a origem de todos eles. Jesus propõe : amar a Deus e amar ao próximo. Todos os ensinamentos das Escrituras podem ser reduzidos a esses dois mandamentos.

Os primeiros cristãos usavam a expressão ‘a lei e os profetas’ para indicar os livros inspirados do Antigo Testamento. Jesus relembra aos membros da sua comunidade que a ética cristã não deve estar fundamentada em uma complicada lista de preceitos, mas, no amor a Deus e aos irmãos, sem separar os dois amores, pois ambos se implicam e se reclamam.

Vale lembrar que o amor, segundo a Bíblia, não é um sentimento, mas uma decisão que se transforma em ação solidária a favor de quem mais necessita. Como podemos manifestar o amor concreto e solidário em nossos tempos de tantos necessitados?’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/amar-a-deus-e-amar-ao-proximo.html

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

A fé conduz ao amor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf


‘Agora permanecem estas três : a fé, a esperança e o amor. Mas a maior delas é o amor (1 Cor 13,13)’


‘A Fé é um dom do amor de Deus para a nossa plena vida. A fé nos leva a crer nas verdades que não se veem e que são as maiores e mais importantes : crer no único e verdadeiro Deus, que é Uno e Trino, na existência de anjos, na existência de espíritos maus, na existência da alma, do céu, do inferno… Acreditar, enfim, em tudo o que a Igreja crê e ensina, fruto da ação do Espírito Santo, que a conduz pela história.

É preciso que nossa fé seja bem compreendida e vivida neste mundo, onde muitas pessoas não creem mais e, muitas vezes, até desrespeitam aqueles que creem. A fé é um ato de adesão, de decisão, de abertura da alma ao mistério de Deus que se revela. A fé faz ver, não com os olhos, mas com o espírito; dá luz e sabedoria para acolher o mistério revelado além das aparências.

E a fé gera também esperança. Podemos esperar sempre se temos fé. Esperar que tudo o que cremos se realize e nos conduza à vida plena. A própria vida não tem fim, apenas supera o limite do tempo e do espaço. A fé nos revela que a vida atinge sua plenitude e seu autêntico sentido na eternidade. A esperança nos conduz à confiança dessa vida plena que existe depois desta, isto é, o paraíso para os que viveram no amor, amando a Deus e ao próximo; o inferno, para os que não viveram o amor e, por isso, pecaram; e o purgatório, para aqueles que, mesmo amando, precisam purificar-se para serem plenos e, assim, gozarem do paraíso. E há ainda a caridade, que nos torna capazes de amar a Deus e ao próximo. A caridade é a plenitude de tudo. É viver na terra como no céu. É a vida de Deus em nós e entre nós.

São Paulo, na primeira carta aos Coríntios, capítulo 13, revela, conduzido pelo Espírito Santo, como entender e viver o amor como a plenitude da fé, da esperança, da vida. Ensina o que é amar como Jesus ama e como tudo um dia vai desaparecer, restando apenas o Amor. Quem vive no amor, por amor, sendo amor, salva sua vida. No amor está a fonte e o ápice da vida, como Jesus viveu e ensinou, e espera que seus discípulos vivam. São Paulo conclui sua mensagem de maneira clara e categórica : ‘Agora permanecem estas três : a fé, a esperança e o amor. Mas a maior delas é o amor’ (1 Cor 13,13).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/maria-mae-do-verbo.html

sexta-feira, 28 de junho de 2024

O treinamento da arte de amar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Alem, cmf


‘Sempre compreendamos que praticar aquilo em que nós acreditamos e desejamos viver faz-nos um com os outros até que eles também descubram o grande ideal que nos motiva e pode transformar o mundo. Esse é nosso programa de vida, nosso caminho a seguir com Jesus. 

Será possível viver assim? Sejamos sinceros: às vezes, sim, às vezes, não. Nem sempre é fácil fazer-se um com o próximo : sofrer com quem sofre nos custa esforço, ensinar quando perdemos a paciência, ajudar a mãe em casa enquanto nossos colegas brincam, ir fazer o que o pai nos pede para ajudá-lo quando se tem vontade é de se divertir… 

Fazer-se um com os outros exige paciência, coragem, perseverança, decisão, enfim, todas as virtudes que só o amor sincero pode nos dar. Entretanto, não há outro caminho. É preciso amar sempre. 

Como fazer para amar sempre, sobretudo se ainda estamos iniciando essa experiência de vida e temos tão pouca experiência? É bom lembrar que tudo na vida exige esforço, até as coisas mais agradáveis. Veja como é preciso ter dedicação e esforço para praticar um esporte : sem treinamento não é possível conseguir nadar bem, por exemplo. 

Também nós, se queremos levar avante a nossa luta por um mundo melhor, a nossa revolução de amor, devemos treinar todos os dias sem interrupção. Como fazer esse treinamento? É algo muito simples. Você quer aprender mesmo a amar a Deus, amar as pessoas por amor a Ele? Não espere um instante sequer, não pense muito, não fique somente no desejo de amar. Ame logo, no momento presente. Amar agora, neste instante, fazendo a vontade de Deus e não a nossa própria. E a vontade de Deus é sempre amar. 

A vida é feita de cada momento presente. O passado já se foi e nós o colocamos no coração de Deus. O futuro ainda não existe, só vai existir quando se tornar presente, sendo assim, é o presente que conta, o momento que passa e que para você, para mim, para todos nós deve ser colhido de imediato e vivido bem até o fim, fazendo nele o que Deus quer de melhor para nós : caminhar, dormir, estudar, brincar, ajudar alguém, orar, ir à Missa… Enfim, tudo o que no momento presente de melhor podemos fazer por Deus e pelas pessoas, mesmo que isso nem sempre seja o que mais queremos. 

Temos que aprender a escutar a voz de Deus no íntimo da nossa consciência. A consciência é como um órgão, não físico, que lhe dirá o que Deus quer de você a cada momento. Por exemplo : se você se desentendeu com alguém, sentirá no seu íntimo – por meio de sua consciência – que deve amar a todos, até os que o incomodam ou prejudicam. 

Viva bem o que Deus quer no momento presente da vida e assim, como um ponto após o outro formam a reta, do mesmo modo momento após momento vai-se formando a sua vida, a vida de cada pessoa. 

Podemos viver cada instante da vida fazendo a nossa vontade ou a vontade de Deus. Se somos seguidores de Jesus, devemos aprender sempre com Ele a fazer em cada instante e sempre a vontade de Deus, que nos torna sempre novos e impede que se instale em nós o egoísmo. Dessa forma, vamos construindo o ‘homem novo’, como diz o apóstolo São Paulo, quando amamos e vamos derrotando o ‘homem velho’, símbolo do egoísmo que destrói todo amor. 

Treine sempre, a todo o momento. Se às vezes não conseguir e fracassar, peça perdão a Deus e recomece. Também os grandes atletas nem sempre acertam e reconhecem suas quedas e erros, mas perseveram, prosseguem no jogo apesar dos percalços e assim vão chegando à vitória. A taça que esperamos é bem mais preciosa. Não é uma coisa, apenas é o ‘Paraíso’ no qual queremos chegar. 

Não existe idade para morrer. Todo dia é dia. A vida passa depressa e temos uma vida só. Como usar bem o tempo que passa? Como viver bem a vida que nos foi dada por Deus? O segredo é um só : amar a Deus e por Ele amar os outros. 

Se o seu coração, diante de todas as circunstâncias, tristes ou alegres, diante de todos os deveres, diante de todas as pessoas, tivesse podido expressar o seu desejo mais profundo e ardente, diria : ‘Amar é o que importa!’.

Sim, o que importa é amar a Deus. O resto todo é vaidade, é passageiro. Diga sempre a si mesmo : ‘Amar-te, meu Deus, é o que importa’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-treinamento-da-arte-de-amar.html

terça-feira, 25 de junho de 2024

Como amar a Deus sobre todas as coisas?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Luiz Antônio de Araújo Guimarães 


‘Essa é uma pergunta que os jovens frequentemente fazem, pois amar a Deus sobre todas as coisas parece ser algo abstrato, mas não é, de fato. Muitas coisas querem ocupar o primeiro lugar : circunstâncias, pessoas, bens materiais, e Deus, onde fica? Para saber como amar a Deus sobre todas as coisas é necessário, antes de tudo, conhecer os mandamentos e confrontá-los com a própria vida.

A Sagrada Escritura assim descreve sobre o primeiro mandamento : ‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente’ (Mt 22, 37). A arte de amar é própria de Deus, e Ele é a origem do amor, ou seja, o amor por excelência. Por isso, quem O ama com todo o coração, alma e mente saberá o que é verdadeiramente o amor. Ninguém sobrevive sem amor, mas também ninguém conhecerá o amor se não amar a Deus sobre tudo e sobre todos. Amá-Lo, por sua vez, é o princípio do saber, conforme está escrito no livro dos Provérbios. O homem sábio buscará amar a Deus, e nada ocupará o primeiro lugar em sua vida a não ser Ele.

No entanto, há alguns atos de recusa ao amor a Deus. O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2094, diz : ‘Pode-se pecar contra o amor de Deus de diversas maneiras : a indiferença descuida ou recusa a consideração da caridade divina; desconhece-lhe o cuidado preveniente e nega-lhe a força. A ingratidão não reconhece, por desleixo ou recusa formal, a caridade divina, não retribuindo amor com amor. A tibieza, que é hesitação ou negligência em corresponder ao amor divino, pode implicar a recusa de se entregar ao movimento da caridade. A acédia ou preguiça espiritual chega a recusar a alegria que vem de Deus e a aborrecer o bem divino. O ódio a Deus nasce do orgulho : opõe-se ao amor de Deus, cuja bondade nega, e ousa amaldiçoá-lo como Aquele que proíbe o pecado e lhe inflige o castigo’.

Veja bem! A indiferença, a ingratidão, a tibieza, a acédia (preguiça espiritual) e o ódio são atitudes que impedem o ser humano de amar a Deus sobre todas as coisas. Lamentavelmente, os que se distanciam de Deus, além de recusarem o Seu amor – porque foi Ele quem amou e ama primeiro – não saberão amar de verdade. Neste mundo que muitas vezes apresenta essas correntes e nega a verdadeira face do amor, pode-se provocar os jovens com a pergunta : você conhece o amor? Sabe o que ele significa? Sobrevive sem o amor? Certamente, o jovem levará a pergunta para o contexto de realidades efêmeras, dos amores e não do Amor. Mas aí está um bom momento para explicar sobre o amor a Deus como plenitude da alma.

Confrontar, em reflexão, o primeiro mandamento com as atitudes do dia a dia será um meio eficaz para saber se o amor a Deus está em primeiro lugar. Por exemplo, há tantos jovens que dizem não precisar de Deus, de religião, de espiritualidade. Será que eles são felizes? Claro que não! Em contrapartida, tantos outros têm buscado mais a Igreja, se deixando tocar pelo amor de Deus e buscando viver segundo Seus mandamentos. Será que estes são felizes? Claro que sim! E convém dizer que esta felicidade não está na ausência de dor, de sofrimentos, de provações, mas sim na firme certeza de que o Amado nunca deixará de lado aquele e aquela que O ama. Já garante São Paulo Apóstolo : ‘Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os Seus desígnios’ (Rm 8,28).

Daí, portanto, amar a Deus não é algo abstrato; é, por certo, muito concreto. Olhe bem para as suas atitudes do dia a dia e veja se elas estão te levando a amar a Deus sobre todas as coisas ou não. Se elas privilegiarem o amor a Deus, verás quão bom é amá-Lo sobre tudo e sobre todos e nunca mais deixarás de assim fazer. Lembre-se dos sinais do artigo anterior : pare, olhe e siga! Avante!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/como-amar-a-deus-sobre-todas-as-coisas.html