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terça-feira, 9 de junho de 2026

A Sagrada Face de Manoppello

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Reinaldo Bento


‘Paul Badde, famoso vaticanista já falecido, publicou um livro que tornou mais conhecida uma possível relíquia do Senhor : o Véu de Manoppello. Segundo a opinião de alguns, seria um dos véus de Verônica, já que certa tradição diz que a face de Cristo se reproduziu nas três dobras do véu, quando ela enxugou o rosto de Jesus no caminho do Calvário. Essa imagem do Senhor se mistura com a pesquisa de várias outras relíquias, como o Santo Sudário e outras faces em véus atribuídos a Verônica.

A tradição que envolve o ‘Santo Volto’ baseia-se no relato parcialmente lendário de Frei Donato da Bomba, em sua Relatione Historica, de 1640. Segundo essa tradição, o ícone apareceu pela primeira vez em Manoppello, em 1506, abandonado por um peregrino ‘com um rosto angelical’ nas mãos de Giacomo Antonio Leonelli. A família Leonelli guardou zelosamente a relíquia por mais de um século, até que uma das herdeiras, uma certa Marzia Leonelli, entregou o Véu a Donato Antonio De Fabriciis como resgate por seu marido, que estava preso em Chieti.

Como o ícone se encontrava em condições precárias, De Fabriciis incumbiu o Padre Clemente da Castelvecchio de supervisionar sua restauração. O Padre Clemente removeu o excesso de tecido ao redor do rosto impresso e confiou a organização do restante a Frei Remigio da Rapino, que, entre outras coisas, criou a requintada moldura de nogueira e inseriu os dois painéis de vidro protetores. Posteriormente, em 1638, De Fabriciis confiou a relíquia aos padres capuchinhos, que a colocaram em sua igreja. A escritura formal de transferência, que constitui a primeira prova documental da presença da imagem sagrada em Manoppello, é datada de 1646 e contém o já mencionado relato de Frei Donato.

A imagem é considerada ‘aqueropita’, do grego, isto é, ‘não feita por mãos humanas’, como outras relíquias famosas desse tipo, incluindo o Sudário de Turim, o Santo Rosto de Lucca e a imagem da Virgem impressa no manto de São João Diego, conhecida como Nossa Senhora de Guadalupe. A esse respeito, porém, existem estudos oficiais discordantes. Um exame realizado em 1997 pelo professor Donato Vittore, da Universidade de Bari, demonstrou que as fibras do Véu não apresentam qualquer tipo de pigmento e que a imagem é idêntica em ambos os lados do tecido, o que demonstraria que a imagem não foi pintada.

O professor Giulio Fanti, da Universidade de Pádua, demonstrou, em um exame realizado em 2001, que encontrou vestígios de algumas substâncias coloridas em alguns fragmentos do tecido, em certos detalhes anatômicos, mantendo ainda a hipótese de que a imagem, em sua totalidade, é de natureza aqueropita. Saverio Gaeta, em um livro intitulado Il Volto del Risorto, escrito em 2005 para a revista Famiglia Cristiana, justifica a descoberta de vestígios coloridos com a hipótese de um retoque realizado na Idade Média para dar maior intensidade ao olhar do rosto.

Não foram permitidas amostras para testes laboratoriais a fim de determinar o material do véu, e um artigo recente conclui que o linho deve ser considerado o material mais provável. Alega-se que o tecido é feito de bisso, uma fibra natural rara do molusco bivalve Pinna nobilis, tecida em seda marinha e usada por povos antigos, principalmente na região do Mediterrâneo.

Paul Badde, correspondente do Vaticano para o Die Welt, afirma que esse é um tipo de tecido que normalmente só seria encontrado nos túmulos de faraós egípcios. Contudo, o tecido de bisso, ou seda marinha, nunca foi exclusivo dos antigos egípcios e era considerado um tecido de alta qualidade feito, na Antiguidade, pelos fenícios, gregos e romanos; durante a Idade Média, pelos franceses e italianos; e, ainda hoje, pelos sardos.

Antonio Bini, em uma reportagem sobre o santo véu, recolheu o seguinte testemunho vindo de São Pio de Pietrelcina : ‘Foi o próprio Pe. Domenico a relatar que, anos antes, ao contar ao Padre Pio o seu encontro com a Santa Face, o santo de Pietrelcina observou : ‘É o maior milagre que temos’’ (As vidas paralelas do Padre Pio e do Padre Domenico da Santa Face, por Antonio Bini).

A face é, para todos nós, a porta de entrada na personalidade e no mundo interior de uma pessoa. Essa relíquia, assim como o Santo Sudário, toca os fiéis por apresentar uma porta. Ao mesmo tempo, por ser uma porta, não é a aparência que apresenta o Tesouro que se encontra no interior. Já quando Deus ordenou a Moisés construir o Tabernáculo no deserto, ele era pobre por fora, mas rico por dentro, onde realmente se manifestava a presença de Deus.

A humanidade de Jesus, ainda que pudesse ter suas particularidades, nunca foi o mistério mais rico que se encontra no interior de Cristo. Essas riquezas só podem ser descobertas quando alguém compreende que Jesus é uma pessoa viva e que podemos nos relacionar com Ele. A história do culto da Sagrada Face tem essa característica : sempre a Face foi uma porta.

Em 1º de setembro de 2006, S.S. o Papa Bento XVI, em visita ao Santuário de Manoppello, disse : ‘Todos procuramos o Rosto do Senhor, e é este o sentido de minha visita a Manoppello : um rosto que juntos tentamos conhecer sempre melhor, e de que encontramos esta força de amor e de paz que nos mostra também o caminho de nossa vida.’’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-sagrada-face-de-manoppello.html

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

São José esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria (século I)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave-Maria


‘Quando a condescendência divina escolhe alguém para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização… Eis quanto se realizou sobretudo no grande São José.’

O Evangelho chama José de homem justo, como eram chamados os antigos patriarcas de Israel. Ele, como aqueles, acreditava no amor de Deus para com o seu povo e a humanidade inteira e esperava pelo cumprimento da promessa da salvação, de uma salvação que viria do alto. Então se achava envolto em primeira pessoa nesta extraordinária aventura.

Os evangelhos de Mateus e de Lucas nos falam de José na medida em que os acontecimentos de sua vida estão relacionados com o nascimento e a infância de Cristo; eles não tiveram nenhuma intenção de escrever uma biografia de José. Mateus (1,1-16), querendo explicar a descendência davídica do Messias, escreve a genealogia de Jesus e conclui com estas palavras : ‘Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado de Cristo’ (16). Desse modo, o evangelista lhe assegurava a descendência de Davi, pois, para os hebreus, o que tinha valor era a paternidade legal.

Quanto a não haver nenhuma dúvida a respeito da concepção virginal de Cristo por obra do Espírito Santo, Mateus continua : ‘Eis como aconteceu o nascimento de Jesus Cristo : sua mãe Maria, sendo prometida a José, como esposa, antes de coabitarem, encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo’ (1-18). Quando José soube que Maria esperava um filho, concebido sem a sua participação, não sabia o que pensar. Maria, por sua, vez não podia explicar, pois era muito grande o mistério. Como para ela, também para seu esposo era necessária uma luz divina.

José, sendo um homem justo, não quis repudiar sua esposa e, antes de comunicar o acontecimento aos parentes de Maria, invocou a ajuda de Deus. Sua oração foi ouvida e ele escutou : ‘José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque aquele que foi gerado nela é obra do Espírito Santo. Eis que ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus’ (Mt 1,20-21). Nesse momento, em que o véu do mistério estava um pouco descoberto, os dois cônjuges puderam passar a viver juntos e toda a sua existência foi dirigida para uma terceira pessoa : o filho que, vindo do alto, tinha vindo morar entre nós.

O evangelista Lucas, depois de ter descrito a anunciação a Maria e sua visita a Isabel, narra-nos outros episódios da infância do Messias. Antes de tudo, o seu nascimento. Jesus nasceu em Belém, pois José, da casa de Davi, deveria se transferir com sua esposa para essa cidade para fazer o recenseamento ordenado pelos romanos. O menino nasceu em um ambiente pobre, recebeu homenagem de pastores simples e mais tarde de nobres reis magos. No oitavo dia foi circuncidado e José impôs-lhe o nome de Jesus, como Deus lhe havia ordenado. Foi levado também a Jerusalém, como ordenava a lei de Moisés, para ser apresentado ao templo. Nessa ocasião, tiveram a oportunidade de ver o regozijo do velho Simeão e da profetiza Ana, mas ouviram também a profecia que Simeão fez a respeito do menino : será sinal de contradição. 

O evangelista conta que José cuidou do menino e de sua mãe e percebeu que não havia lugar para eles em Israel, por inspiração divina tomaram o caminho do exílio para o Egito. Retornaram para a pátria somente depois da morte do feroz Herodes, autor da matança dos inocentes. Não permaneceram na Judeia, onde reinava o filho de Herodes, que não era diferente do pai. Preferiram ir para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde como bom carpinteiro poderia ganhar o suficiente para manter a família.

O único episódio desse período, descrito no Novo Testamento, é o desaparecimento de Jesus em Jerusalém. Ele foi com seus pais para a festa da Páscoa. Depois de três dias de angústia de seus pais, ele foi encontrado entre os doutores da lei. Jesus disse aos seus pais : ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49) Em seguida, o evangelista acrescenta : ‘Retornou a Nazaré e lhes era submisso’ (Lc 2,51).

Nesse ponto o evangelista silencia. Nós não temos palavras humanas adequadas para descrever o que se passou com aquela família, onde a vida trinitária vivia a cada dia a experiência humana. Isso por trinta anos, durante os quais Jesus crescia em idade, sabedoria e graça. ‘Trinta anos dos quais quase nada se conhece. É um mistério. O mistério do amor. O mistério do amor divino e humano entre coração de carne, vestido de virgindade. Ninguém o compreendeu. Alguma coisa nós só saberemos no Paraíso, na proporção de quanto na Terra os tivermos amado e seguido.’

‘Na família de Nazaré, Maria certamente educava, mas educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho, obedecendo-lhe. Por outra parte, Jesus Menino – Ele era o guia da família de Nazaré, porque era Deus – estava também submisso a Maria e a José, como diz a Escritura. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos outros, pois era tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e porque Maria sem dúvida lhe terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à mãe de Deus. De tudo isto se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro ponto de vista, obedeciam.’

Durante a vida pública de Jesus não se diz nada de José, somente no início, quando as pessoas, diante da sabedoria e da autoridade com que o jovem rabino ensinava e do seu poder de realizar milagres, perguntavam-se estupefatas : ‘Não é ele o filho de José?’ (Lc 4,22). Mas José já havia cumprido sua missão e não parece que ainda estivesse vivo naquela terra.

Na linguagem que se tornou tradição, José é chamado o suposto pai de Jesus. Se de uma parte esse título salvaguarda a concepção virginal de Cristo, de outra não exprime plenamente a relação de paternidade existente entre José e o Salvador. Um autor medieval já tinha observado que ‘José foi o verdadeiro pai em ordem ao Matrimônio’, embora ‘suposto pai em ordem à geração corporal’. São Tomás de Aquino acrescentou : ‘José é ao mesmo tempo tanto pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas do vínculo matrimonial’.

Por causa dessa relação especial com Jesus e Maria, José sempre foi muito venerado na Igreja. Pio IX, resumindo a herança dessa longa tradição, proclamou-o patrono da Igreja Universal e Leão XIII o indicava como modelo de todas as famílias cristãs. Bento XV escreveu : ‘A casa divina, que José governou (…) continha os princípios da igreja nascente (…). Como consequência disso, o santo patriarca deve sentir como confiada a si, por essa especial razão, toda a multidão dos cristãos’. Pio XII o propôs como exemplo para todos os trabalhadores e fixou o dia 1º de maio como Festa de São José Trabalhador, que ‘enobreceu o trabalho humano, sustentado e animado pela convivência de Jesus e Maria’ e ‘exercendo sua arte com empenho e virtude admiráveis, tornou-se o mestre de trabalho do Cristo Senhor que não desdenhou ser chamado filho do carpinteiro’.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-jose-esposo-da-bem-aventurada-virgem-maria-seculo-i.html

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Papa Leão: Os pobres ao centro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano


‘Pouco depois de ter sido eleito como sucessor do Papa Francisco, Leão XIV publicou o primeiro texto oficial do seu pontificado, com o título Eu te amei (Dilexi te). Fica assim claro que o programa do novo papa é continuar com toda a Igreja o caminho que estávamos a fazer com o Papa Francisco : olhar para o amor divino e humano do Coração de Jesus para encontrar aí a força e a alegria que nos leva a amar os outros. E não se trata de um «amor genérico», ou um simples sentimento que nos dá a ilusão de estarmos com Deus. Já Francisco dizia que o amor do Coração de Cristo sempre nos leva ao encontro daqueles que eram os amigos preferidos de Jesus, os pobres, os últimos.

Leão XIV, um bispo habituado a ver a sua vida como um serviço à Igreja, já nos muitos anos de vida missionária no Peru, em contacto direto com a gente simples e pobre da sua diocese, e também nos poucos anos em que ele tinha começado a colaborar com o Papa Francisco, em Roma, não admira que ele continue a ver também a sua missão como papa como um novo serviço à mesma Igreja.

Podemos bem dizer que em Roma, chega um novo papa, mas é o mesmo serviço que continua. E assim Leão escreve, logo ao início desta exortação apostólica, que deseja simplesmente continuar o trabalho e a reflexão que Francisco já tinha começado. E diz mesmo que uma boa parte deste documento já tinha sido preparado pelo seu antecessor. É o mesmo serviço que continua, com um servidor novo.

A intenção do Papa Leão, com este novo documento, é, como ele mesmo diz, contribuir para que «todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres» (Amei-te, 3).

Os seus vinte anos de serviço missionário entre a gente simples do Peru, na América do Sul, levaram-no a compreender que o amor cristão não pode ser vivido com autenticidade só no pequeno círculo onde nos sentimos confortáveis. Se é verdadeiro em nós o amor do Coração de Cristo, ele move-nos sempre ao encontro dos mais necessitados. E se já pertencemos a essa parte da Humanidade que precisa de lutar todos os dias para sobreviver, diremos como diziam os meus paroquianos no Quênia : somos cristãos, precisamos de ajudar os que são ainda mais pobres do que nós.

O amor que vem do Coração de Jesus nunca nos deixa quietos no nosso conforto, move-nos sempre ao encontro de quem mais precisa. E isto não como uma obrigação que nos é imposta, mas como uma necessidade que nasce do próprio amor que vivemos. Viveríamos frustrados se o amor de Deus em nós não transbordasse também para muitos outros.

Francisco ajudou-nos a ver como o Coração de Jesus é a fonte de onde jorra o amor que enche de sentido e de alegria o nosso viver. O Papa Leão vem agora guiar-nos no caminho que do Coração de Cristo nos conduz ao encontro dos mais pobres da nossa sociedade e do nosso mundo, para que sintam na nossa presença a voz de Deus que lhes diz : «Amei-te.»’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1529/papa-leao-os-pobres-ao-centro/

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Clemente de Alexandria: Jesus, o Médico Divino

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Kim Nataraja


‘Talvez toda identidade nasça do conflito. Heráclito, o filósofo pré-socrático, pensava que tudo vinha do conflito. Em sua infância, a identidade cristã, também teve que se envolver e se separar de fortes forças religiosas e filosóficas no judaísmo, no pensamento grego e no gnosticismo. Alexandria, uma cidade fundada na visão universalista, tornou-se o primeiro cadinho desse processo. Mesmo na época de Cristo, quando Filo, o pensador judeu, estava reconciliando as mentes grega e judaica, e a Bíblia hebraica estava sendo traduzida para o grego, Alexandria era um lugar onde o diálogo, não a coerção, era a marca registrada da busca pela verdade. Clemente de Alexandria, nascido talvez em Atenas em 150 d.C., gravitou em direção a esta extraordinária cidade de ideias e lá encontrou seu mentor cristão. Panteno, que visitou e estudou a filosofia da Índia, foi o primeiro chefe da primeira Escola Catequética no cristianismo, posição à qual Clemente sucedeu. Quando essa temporada aberta de fermentação intelectual foi encerrada pelas perseguições do início do terceiro século, Clemente, um homem casado, foi forçado a arrumar seus livros e fugir, morrendo em algum lugar no exílio por volta do ano 215.

Como o primeiro teólogo místico, ele nos deixou um modelo duradouro de uma mente cristã, tão profundamente colorida com a catolicidade da mente de Cristo, que proclamou : ‘nada que não seja contra a natureza pode ser contra Cristo’. Um humanista cristão que viu a Palavra de Deus, preparar-se duplamente para a Encarnação por meio da filosofia grega, bem como da Bíblia hebraica, Clemente apresentou o cristianismo de uma forma que o mundo educado poderia respeitar. Imagine hoje o quanto melhor alguém se sente com suas crenças centrais sendo representadas por um Ratzinger ou um Williams, em vez de um fundamentalista de questão única. A mente católica de Clemente contrasta com a de seu contemporâneo africano Tertuliano, cuja fé tinha um tom muito diferente – ‘o que Atenas tem a ver com Jerusalém?’, ele perguntou com desdém. Mesmo como um ‘platônico cristão’, no entanto, Clemente manteve as doutrinas fundamentais da Encarnação, a natureza humana-divina de Jesus e de Cristo como salvador universal (‘todos têm necessidade de Cristo’) não como um teste dogmático da ortodoxia convencional, mas como uma revelação inspiradora. Para Clemente, a Encarnação é uma obra tanto de ‘inscrição quanto de revelação’, e esse avanço contínuo na fé, sustenta o frescor e amplitude de sua teologia, assim como deve ter fundamentado e orientado sua oração. Nele, vemos que teologia e experiência não devem ser separadas.

Clemente é o primeiro teólogo a falar da salvação como ‘theosis’ (divinização). Não é um processo legal. O pecado para ele, não é uma infração de regras que merece punição, mas o resultado irracional da ignorância. Ele usa uma metáfora que Juliana de Norwich também empregaria para ilustrar sua teologia da salvação – o Adão que caiu em uma vala, porque não conseguiu pular e não conseguiu sair. O segundo Adão veio para ajudá-lo, não para punir. É na profundidade sem imagem da oração de alguém, que essa teologia da misericórdia salvífica nasce e cresce. A salvação para Clemente não é um adiamento, mas liberdade, saúde, conhecimento, vida. O ‘remédio do médico divino’, a Palavra que eternamente ‘segurou o leme do universo’ e que, encarnado, é conhecido como o ‘médico que cura todas as enfermidades humanas e o santo encantador da alma doente’.

Saber disso é fé. Clemente, portanto, vê os cristãos como ‘verdadeiros gnósticos’. Embora ele defenda a crença cristã de uma oferta de aquisição pelo gnosticismo, ele não nega como e onde a abordagem gnóstica é verdadeira. A visão de Clemente sobre o crescimento pessoal do discípulo desse conhecimento espiritual, é expressa em suas três grandes obras. O Protrepticus (Exortação), introduz a mente pagã a Cristo como Logos com ênfase na crença. ‘Todos podem escolher acreditar ou não acreditar.’ No Paedogogus (Tutor), ele se concentra no trabalho educacional de Cristo e na purificação do discípulo. Aqui vemos a primeira ilustração do que poderia ser chamado de uma ‘espiritualidade’ cristã integral – a fé como um modo de vida holístico com um significado socioeconômico, tocando em como as pessoas se vestiam, comiam, usavam joias e perfumes, iam aos banhos, andavam, falavam e faziam amor na câmara matrimonial. Em Stromateis (Carpetbags), um estilo mais esotérico se dirige a alunos mais avançados, nos quais o conhecimento experiencial direto da verdade já começou a aparecer. Esses três estágios da jornada espiritual se tornarão normativos para toda a tradição. Cristo, o Mestre, ‘treina o gnóstico por mistérios, o crente por boas obras, o duro de coração por disciplina corretiva’. O neófito obedece por medo, motivado pelo desejo de recompensas, o crente forma bons hábitos, o gnóstico obedece por amor e não tem desejos, porque tem tudo o que precisa por meio do Espírito Santo e é tão semelhante a Deus quanto é humanamente possível.

Irineu, Atanásio e mais tarde Agostinho compartilharam com Clemente a crença patrística fundamental de que a importância da Encarnação de Deus, é a divinização do ser humano. Essa afirmação corajosa — que se tornou perigosa mais tarde na tradição — atraiu os gnósticos da época, assim como atrai os mais vagos ‘New Agers’ de hoje. O significado cristão da ideia, no entanto, é preciso e racional. Ela vincula a experiência pessoal ao mistério sempre inefável da natureza de Deus. A teose é obra do amor, não apenas do pensamento. Veremos continuamente em nossa pesquisa da tradição que a contemplação é obra do amor. ‘Quanto mais alguém ama a Deus, mais profundamente ele entra em Deus’, diz Clemente, e o que torna isso possível é o que Aquino chamaria de ‘conaturalidade’. É uma ideia de Platão que Clemente desenvolveu na fé cristã, por meio do versículo em Gênesis que diz que o ser humano é feito ‘à imagem e semelhança de Deus’. Só podemos conhecer aquilo com que somos semelhantes. É o nous (mente), a parte mais interna da alma, de acordo com Platão, que torna possível conhecer Deus. Mas traduzir isso como ‘intelecto’ hoje é enganoso. É muito mais próximo daquela função da mente chamada ‘buddhi’ em sânscrito ou o ‘coração’ nas Escrituras. Para Clemente, nous é o significado do humano como ‘imagem de Deus’ e é o órgão da oração.

Ser o ícone (imagem) de Deus é, para o pensador místico, não um estado congelado, mas um processo dinâmico. Somos um tornar-se semelhante, um ser em processo de assimilação a Deus. Há uma tendência à abstração em tudo isso – o corpo não recebe muita atenção e a contemplação pode parecer um tanto espectral. Mas a âncora cristã de Clemente na Encarnação controla isso. O ‘verdadeiro gnóstico’ é um cristão eclesial totalmente envolvido. Boas obras fluem da oração e, como um cristão contemplativo, ele é ‘maior no reino que fará e ensinará. (porque) todos para ele são amigos’.

A combinação de transcendência, expressa em theosis, e imanência, expressa em amor, é infinito. Em Clemente, perfeição significa que nunca nos tornamos perfeitos, e que ‘todo fim é um novo começo’. A natureza sem imagem da contemplação – o que Orígenes, sucessor de Clemente, chamaria de ‘oração pura’, é o trabalho experiencial desta teologia na qual estamos continuamente nos movendo ‘através da santidade para a imensidão’. A de Clemente é a primeira grande articulação da dimensão apofática de conhecer Deus para a qual todos são convocados. ‘Podemos atingir de alguma forma a concepção do Todo-Poderoso, não sabendo o que Ele é, mas o que Ele não é.’ O cristão maduro, aprendemos com Clemente no início de nossa tradição, é teologicamente bilíngue. Ele pode dizer : onde Deus não está? Em lugar nenhum. Então, Deus está em todo lugar. Isso cobre todas as bases e evita a arrogância que nos levou nesta era à loucura do cientificismo, acreditando apenas no que podemos ver e medir.

Imensa como tem sido a impressão da inteligência mística de Clemente no pensamento e espiritualidade cristã, é a profundidade e amplitude de seu encontro com Cristo que o torna essa rara combinação, uma autoridade amável. Para ele, Jesus ‘tem uma voz de muitos tons e métodos variados na salvação dos homens. Seu objetivo é criar a verdadeira saúde na alma’. Jesus como salvador descobriu para todos, as ‘drogas racionais que tendem à rapidez da percepção e salvação’. Por trás da arquitetura de uma grande mente, sentimos a intimidade de alguém que é apanhado na maravilhosa beleza do amor.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/clemente-de-alexandria-jesus-o-medico-divino/


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

'A universalidade da salvação' – Terceira Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Tiziana Campisi


A luz que desmascara

‘O frade menor capuchinho propôs uma reflexão sobre a manifestação universal da salvação, sobre Cristo, a verdadeira luz, que é capaz de iluminar, esclarecer e orientar toda a complexidade da experiência humana, que não apaga as perguntas, os desejos e as buscas humanas, mas os coloca em relação, os purifica e os conduz a um significado mais pleno. Luz que o mundo não abraçou porque os homens amaram mais as trevas. O problema, explicou o padre Pasolini, é nossa disponibilidade em acolher a luz, que é necessária e bonita, mas também exigente : desmascara ficções, expõe contradições, obriga a reconhecer o que preferiríamos não ver, e por isso a evitamos.

No entanto, observou o religioso, Jesus não contrapõe quem pratica o mal a quem pratica o bem, mas quem pratica o mal a quem vive a verdade. Isso significa que, para acolher a luz da Encarnação, não é preciso já ser bom ou perfeito, mas começar a tornar a verdade uma realidade na própria vida, ou seja, parar de se esconder e aceitar ser visto por quem se é, porque Deus está mais interessado em nossa verdade do que na bondade de fachada.

Igreja, comunidade que vive a luz de Cristo

Para a Igreja, isso significa iniciar um caminho de maior verdade, o que significa não exibir uma pureza moral ou reivindicar uma coerência impecável, mas apresentar-se com sinceridade e reconhecer resistências e fragilidades. Porque o mundo não espera uma instituição sem fissuras, nem mais um discurso indicando o que deve ser feito, disse o padre Pasolini, mas precisa encontrar uma comunidade que, apesar de suas imperfeições e contradições, viva verdadeiramente à luz de Cristo e não tem medo de se mostrar como é. Os Reis Magos, por exemplo, demonstraram uma maneira singular de serem verdadeiros ao trilharem o caminho do Senhor, explicou o religioso. Eles partiram de longe, mostrando que para acolher a luz do Natal, é necessário um certo distanciamento, para enxergar melhor as coisas : com um olhar mais livre, mais profundo, mais capaz de surpreender. Em vez disso, o hábito de olhar a realidade de perto demais nos torna prisioneiros de julgamentos previsíveis e interpretações excessivamente consolidadas, e isso também acontece com aqueles que vivem permanentemente no centro da vida eclesial e comporta responsabilidades, observou o pregador da Casa Pontifícia, porque a familiaridade cotidiana com funções, estruturas, decisões e emergências pode, com o tempo, estreitar o olhar e, assim, corre-se o risco de não reconhecer os novos sinais pelos quais Deus se faz presente na vida do mundo.

Os caminhos inesperados de Deus

Se o Natal celebra a entrada da luz no mundo, a Epifania destaca que essa luz não se impõe, mas se deixa reconhecer, manifesta-se numa história ainda marcada pela escuridão e pela busca, e é uma presença que se oferece a quem está disposto a se mover. Nem todos a veem da mesma maneira e a reconhecem ao mesmo tempo, porque a luz de Cristo se deixa encontrar por quem aceita sair de si mesmo, quem se coloca a caminho, quem busca, enfatizou o frei capuchinho, acrescentando que isso também é verdade para o caminho da Igreja, já que nem tudo o que é verdadeiro se mostra imediatamente claro, nem o que é evangélico é imediatamente eficaz. E, às vezes, a verdade exige ser seguida mesmo antes de ser plenamente compreendida.

A este respeito, o Padre Pasolini citou a experiência dos Magos, que não avançaram apoiados por certezas consolidadas, mas por uma estrela frágil, porém suficiente para guiá-los em sua viagem. Os sábios que vieram do Oriente para Belém ensinam essencialmente que para encontrar o rosto de Deus feito homem, é preciso colocar-se a caminho, e isso, enfatizou o pregador da Casa Pontifícia, se aplica a todo fiel, e especialmente a quem têm a responsabilidade de proteger, guiar e discernir. Sem um desejo que permanece vivo, mesmo as mais elevadas formas de serviço correm o risco de se tornarem repetitivas, autorreferenciais, incapazes de surpreender. A estrela que guiou os Magos, para o padre Pasolini, é também o sinal das discretas lembranças com as quais Deus continua a se fazer presente na história, e assim, aqueles sábios que não conhecem as Escrituras de Israel, mas leem os céus, lembram que Deus também fala por meios inesperados, experiências periféricas, perguntas que surgem do contato com a realidade e aguardam para serem ouvidas.

Imobilidade

Mas outro aspecto importante que emerge da história dos Magos é a atitude de busca : não se importar, não se colocar em movimento, pode levar a acomodação em uma posição que parece reconfortante, baseada em certezas e hábitos consolidados, mas que com o tempo corre o risco de se tornar uma forma de imobilidade interior, que lentamente isola, muitas vezes sem que percebamos. É o que acontece com Herodes, ele parece atento : questiona, calcula, planeja, mas não parte para Belém, não aceita o risco e a surpresa do que poderia acontecer e delega a tarefa de ir aos Magos, reservando-se o direito de ser informado sobre os acontecimentos. É a atitude de quem quer saber tudo sem se expor, permanecendo protegido das consequências de um envolvimento real, afirmou o frade franciscano, alertando contra uma abundância de conhecimento que carece de envolvimento real. Sabemos muitas coisas, mas permanecemos distantes. Observamos a realidade sem nos deixarmos tocar, protegidos por uma posição que nos protege do imprevisto. Acontece, então, que na Igreja se pode conhecer bem a doutrina, preservar a tradição, celebrar a liturgia com zelo e, ainda assim, permanecer parados. Como os escribas de Jerusalém, também nós podemos saber onde o Senhor continua se fazendo presente — nas periferias, entre os pobres, nas feridas da história — sem encontrar a força ou a coragem para seguir nessa direção, advertiu o pregador da Casa Pontifícia.

A coragem de se levantar

Em síntese, para encontrar Deus, o primeiro passo é sempre se levantar : sair de nossos refúgios interiores, de nossas certezas, nossa visão consolidada das coisas, insistiu o padre Pasolini, especificando que levantar-se exige coragem. Significa abandonar o estilo de vida sedentário que nos protege, mas nos imobiliza, aceitar o cansaço do caminho, expor-se à incerteza do que ainda não está claro. Como fizeram os Reis Magos, deixando sua terra natal e cruzando distâncias sem garantias, guiados apenas por um sinal tênue e discreto, sem saber o que encontrariam, mas confiando na luz que os precedia. Isso é o que significa esperar.

O padre Pasolini também destacou o abaixamento humilde dos Reis Magos. Ao chegarem a Belém, adoraram o Menino, se colocaram a caminho, buscaram e se abriram ao mistério : Levantar-se e depois ajoelhar-se : este é o movimento da fé. Levantar-se para sair de si, não para colocar-se no centro. E depois se abaixar, porque se percebe que o que encontramos está além do nosso controle. Para o pregador da Casa Pontifícia, isso vale na relação com Deus, nas relações cotidianas — quando o outro nos surpreende, nos decepciona ou nos transforma — e é preciso parar de impor nosso próprio ponto de vista e aprender a verdadeiramente escutar. E, ampliando a perspectiva, vale também para a Igreja, que é chamada a se mover, a sair, a encontrar pessoas e situações que lhe são distantes, e também a saber parar, abaixar o olhar, a reconhecer que nem tudo lhe pertence nem pode ser controlado. Então, o dom da salvação pode se tornar universal se a Igreja aceitar em deixar de lado suas próprias certezas e olhar com respeito para a vida dos outros, reconhecendo que mesmo ali, muitas vezes de maneiras inesperadas, algo da luz de Cristo pode emergir.

A verdadeira luz do Natal

Um último aspecto sobre o qual o pregador da Casa Pontifícia convidou a refletir foi que se Deus escolheu habitar nossa carne, então cada vida humana carrega em si uma luz, uma vocação, um valor que não pode ser apagado. Isso nos leva a concluir que não viemos ao mundo apenas para sobreviver ou atravessar o tempo da melhor maneira possível, mas para ter acesso a uma vida maior : a de filhos de Deus. Assim, a tarefa da Igreja é oferecer a luz de Cristo ao mundo. Não como algo a impor ou defender, mas como uma presença a oferecer, deixando que todos se aproximem. Portanto, sob essa perspectiva, a missão não consiste em forçar o encontro, mas em torná-lo possível, concluiu o padre Pasolini. Uma Igreja que oferece a presença de Cristo a todos não se apropria de sua luz, mas a reflete. Não se coloca no centro para dominar, mas para atrair, tornando-se, portanto, um espaço de encontro, onde cada pessoa pode reconhecer Cristo e, diante dele, redescobrir o sentido de sua vida. A perspectiva sobre os hábitos missionários deve, portanto, mudar : muitas vezes se pensa que evangelizar significa levar algo que falta, preencher um vazio, corrigir um erro, mas a Epifania aponta para outro caminho, que é o de ajudar o outro a reconhecer a luz que já habita nele, a dignidade que já possui, os dons que já possui. Portanto, a catolicidade da Igreja consiste em guardar Cristo para oferecê-lo a todos, com a confiança de que a beleza, a bondade e a verdade já estão presentes em cada pessoa, chamada à plenitude e a encontrar nele o seu pleno significado. Em conclusão, para o pregador da Casa Pontifícia, a verdadeira luz do Natal 'ilumina cada homem' precisamente porque é capaz de revelar a cada um a própria verdade, a própria vocação, a própria semelhança com Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/pasolini-pregacao-advento-luz-deus-magos-igreja.html 

domingo, 30 de novembro de 2025

Quem foi Pôncio Pilatos?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Existem alguns personagens que meio ‘sem querer, querendo’ acabaram entrando para a história, ficando seus nomes registrados para a posteridade. Esse é o caso de Pôncio Pilatos, que participou do julgamento de Jesus, tendo o gesto de ‘lavar as mãos’ eternizado, figurando hoje como atitude de quem não deseja se comprometer. Tanto assim, que seu nome entra, inclusive, na oração do Credo, o Símbolo Apostólico do cristianismo.

O que se sabe sobre Pôncio Pilatos

Pilatos tornou-se um dos governadores romanos mais conhecidos da história, principalmente por seu papel na condenação de Jesus Cristo à morte na cruz.

Ele governou a Judeia entre os anos 26 e 36 d.C., residindo na cidade de Cesareia, localizada na costa do Mediterrâneo. Por ser o representante de Roma na região, tinha autoridade sobre questões administrativas, financeiras, militares e judiciais, sendo ainda o responsável por manter a ordem e a paz entre a população local, majoritariamente judaica, com forte identidade religiosa e nacional.

Sabe-se que foi muito conturbada sua administração, pela falta de habilidade em lidar com as questões judaicas. Entre outras coisas, ele foi acusado de usar os recursos do Templo de Jerusalém para construir um aqueduto que levaria água para Cesareia. Os judeus se revoltaram e o acusaram de roubar o dinheiro sagrado. Ele ordenou que seus soldados se infiltrassem entre a multidão para reprimir a manifestação com violência, acarretando a morte de muitos judeus. Mas, o caso mais famoso e controverso de Pilatos foi o julgamento de Jesus Cristo que, preso pelos líderes religiosos dos judeus através do Sinédrio, foi acusado de blasfêmia e de incitar o povo contra Roma. Jesus foi então levado a Pilatos, que tinha autoridade para condená-lo ou determinar a sua liberdade.

O julgamento de Jesus

Os quatro evangelhos narram com detalhes o julgamento de Jesus, cada um acrescentando novos detalhes, mas todos são unânimes ao afirmar que Pilatos não encontrou nenhum motivo para condenar Jesus, e que tentou libertá-lo, oferecendo ao povo a escolha entre soltar Jesus ou Barrabás, um criminoso.

E, convocando Pilatos os principais dos sacerdotes, e os magistrados, e o povo, disse-lhes : Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem.  Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte. 16 Castigá-lo-ei, pois e soltá-lo-ei. E era-lhe necessário soltar-lhes um detento por ocasião da festa. Mas toda a multidão clamou à uma, dizendo : Fora daqui com este e solta-nos Barrabás. Barrabás fora lançado na prisão por causa de uma sedição feita na cidade e de um homicídio. Falou, pois, outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus. Mas eles clamavam em contrário, dizendo : Crucifica-o! Crucifica-o! Então, ele, pela terceira vez, lhes disse : Mas que mal fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei, pois e soltá-lo-ei. Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos e os dos principais dos sacerdotes redobravam.  Então, Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam. E soltou-lhes o que fora lançado na prisão por uma sedição e homicídio, que era o que pediam; mas entregou Jesus à vontade deles. Lucas 23, 13 a 25.

O destino de Pôncio Pilatos

Não há uma comprovação histórica exata sobre o destino de Pilatos após o julgamento de Jesus. O historiador judeu Flávio Josefo afirma que Pilatos foi destituído do cargo por causa de outro conflito com os samaritanos, povo que vivia na região da Samaria.

Fontes antigas dão diferentes versões sobre o fim de Pilatos, mas uma tradição cristã, afirma que Pilatos foi exilado nas Gálias, onde encontrou a morte. Segundo a Igreja Etíope, Pilatos se converteu ao cristianismo e, sendo martirizado, passou a ser venerado como santo.

Pilatos, porém, passou para a história como símbolo de covardia, de injustiça, de ambiguidade, de pragmatismo, de ironia, de falta de piedade ou de arrependimento. Numa linguagem moderna pode-se dizer que Pilatos ‘ficou em cima do muro’ com medo de se comprometer. Por outro lado, ele é um personagem que revela a complexidade das relações os conflitos entre o poder político e religioso, entre a cultura romana e a cultura judaica, entre a história e a tradição.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-07/curiosidades-biblia-quem-poncio-pilatos.html

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Coração que confia sempre

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano


‘A confiança em Deus é uma característica típica de quem vive centrado no amor do Coração de Cristo. É como viver sempre ligados a uma força que é muito maior do que toda a energia que nós mesmos possamos produzir para motivar o que fazemos e o estilo de vida que escolhemos para o nosso dia-a-dia.

Na carta encíclica sobre a qual temos refletido nestes últimos meses, o Papa Francisco apresenta-nos o testemunho de Cláudio de la Colombière, um dos santos que experimentou a devoção ao Coração de Jesus e colaborou muito para que ela se difundisse na Igreja. A sua partilha inspirou muita gente a descobrir a sua fé de maneira nova (ver DN n.º 126). São Cláudio confessa, a certo ponto : «Meu Deus, estou tão convencido que velais sobre aqueles que em Vós confiam, e que nada pode faltar a quem de Vós tudo espera, que resolvi viver o futuro sem preocupação alguma, e descarregar sobre Vós todas as minhas preocupações [...]. O que nunca perderei é a esperança; conservá-la-ei até ao último instante da minha vida.»

Este cristão, que olhava para Cristo através da imagem do seu Sagrado Coração, vivia na certeza de que Deus cuidava sempre dele, o acompanhava e estava presente não só nos seus momentos de oração, mas também ao longo de todo o dia, nos trabalhos que precisava de realizar. Por isso, ele vivia cada momento sentindo-se sempre acompanhado pela presença amorosa de Deus, e não se preocupava com o seu futuro pois, fosse ele o que fosse, São Cláudio tinha a certeza de que o amor de Deus lá estaria para o sustentar e lhe dar toda a energia de que precisasse.

Ele colocava o seu presente e o futuro inteiramente nas mãos de Deus, sabendo que aquele Amor que ele contemplava no Coração de Cristo não deixaria desperdiçar nenhum dos seus esforços para fazer o bem. E quando alguns dos trabalhos que ele fazia pareciam não dar fruto, ele não se angustiava e nunca perdia a esperança, pois sabia que tudo ficava naquele depósito seguro que é o Coração de Cristo e, a partir dali, daria fruto a seu tempo, o tempo de Deus.

Vemos aqui uma atitude muito parecida com a maneira como o próprio Jesus enfrentava os aparentes fracassos da sua missão e até mesmo o mistério tremendo da sua morte. Jesus tinha a certeza de que tudo ficava nas mãos seguras do Pai do Céu e que, a seu tempo, o bem que ele agora fazia ia produzir frutos abundantes. E foi assim que do aparente fracasso da sua paixão e morte nasceu «ao terceiro dia» a sua vida nova na ressurreição, e daí nos veio o Espírito Santo com os seus dons, e daí, da oferta incondicional da Sua vida, acabou por nascer a Igreja e tudo o que hoje vivemos nela.

Centrar o nosso olhar no Coração de Cristo comunica-nos a mesma energia que animava Jesus e ajuda-nos a confiar sempre n’Ele, na certeza de que todo o bem que vamos fazendo fica, de algum modo, depositado no seu Coração, como uma semente que o amor de Deus fará germinar e crescer e dar fruto, a seu tempo.

Podemos viver confiando no Coração de Cristo e, como São Claúdio, conservar a esperança até ao fim.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1480/coracao-que-confia-sempre/

sábado, 13 de setembro de 2025

Exaltação da Santa Cruz

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Vatican News


‘Em 13 de setembro de 335, foram consagradas, em Jerusalém, duas igrejas: a da Ressurreição e a do Martyrium. No dia seguinte, com uma cerimônia solene, houve a ostensão da Cruz, que a Imperatriz Helena havia encontrado, em 14 de setembro de 320. Em 614, Cosroes II, rei dos Persas, travou uma guerra contra os Romanos e, depois de derrotar Jerusalém, levou consigo, entre os diversos tesouros, também a Cruz de Jesus. Heráclio, imperador romano de Bizâncio, propôs um pacto de paz com Cosroes, que não aceitou. Diante da sua negação, entrou em guerra com ele e venceu, perto de Nínive, e pediu a restituição da Cruz, que a levou de volta a Jerusalém. Neste dia da Exaltação da Santa Cruz, não se glorifica a crueldade da Cruz, mas o Amor que Deus manifestou aos homens ao aceitar de morrer na Cruz : ‘Mesmo sendo Deus, Cristo humilhou-se, fazendo-se servo. Eis a exaltação da Cruz de Jesus!’ (Papa Francesco).

«Naquela ocasião, Jesus disse a Nicodemo s: ‘Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu : o Filho do Homem. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem será levantado, a fim de que todo o que nele crer tenha a vida eterna’. De fato, Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3,13-17).

Chega de fecharmos em nós mesmos

‘Na origem do ser cristão, - escreveu Bento XVI - não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento’. O Evangelho, que a liturgia nos propõe na festa da Exaltação da Santa Cruz, diz que Deus pretende construir uma relação de amor com cada um de nós; Ele se oferece na pessoa do seu Filho Jesus, pregado na Cruz.

O fato de levantarmos o olhar para Deus, nos propõe uma verdade importante: somos convidados a voltar a nos relacionarmos de novo com Ele. Chega de ficarmos fechados em nós mesmos, alimentando inúteis sentimentos de culpa e esquecendo que ‘se o nosso coração nos acusa, Deus é maior que o nosso coração’ (1 Jo 3,20). Elevemos nosso olhar para as estrelas (Cf. Abraão e a promessa de uma grande descendência), colocando todas as nossas preocupações em Deus.

Espanto e gratidão

O fato de elevar nosso olhar não nos deve causar medo, mas gratidão, porque tal elevação é a medida do amor com a qual Deus ama os seus filhos, no Filho. Com efeito, a misericórdia de Deus - como no caso de Nicodemos - ilumina as noites da nossa vida e nos permite continuar o nosso caminho.

Nenhuma indiferença diante da Cruz

Não podemos permanecer indiferentes diante da Cruz de Jesus : nem com ele e nem contra Ele. Trata-se de uma escolha, que deve ser feita antes de qualquer ação, porque a vida do cristão nada mais é que o testemunho de quanto ‘Deus nos amou, a ponto de dar seu Filho Jesus’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/feriados-liturgicos/exaltacao-da-santa-cruz.html

sábado, 6 de setembro de 2025

A Galileia na época de Jesus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Por Galileia se denomina a região do norte de Israel, também conhecida como ‘Galil’ em hebraico. A área é rica em história e cultura, com importância religiosa para judeus, cristãos e muçulmanos. Atualmente, a maior parte da região faz parte do Distrito Norte de Israel, se estendendo do Mar Mediterrâneo até o Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades. 

A região desempenhou papel central no ministério de Jesus, sendo o local onde ele passou grande parte de sua vida, onde pregou sua mensagem salvífica, escolheu os discípulos e realizou muitos de seus milagres. Por isso mesmo, a Galileia é mencionada em diversas passagens bíblicas como no evangelho de Lucas (Lc 4,14-21). 

Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam. Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. conforme seu costume, no sábado entrou na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem onde está escrito : ’O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos 19e para proclamar um ano de graça do Senhor.’ Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes : ‘Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.’

Principais características da Galileia

Do ponto de vista geográfico, a Galileia se caracterizava por suas férteis colinas, pelos vales agrícolas e proximidade com o Mar da Galileia que também era chamado de Lago de Genesaré ou Lago Tiberíades.

A região era bem ativa do ponto de vista econômico com colônias de pescadores, com vilas de agricultores e artesãos desempenhando papel importante na vida cotidiana e na sustentação da sociedade. O Mar da Galileia era fonte de sustento para os moradores locais, especialmente pescadores como Simão Pedro e André, que se tornariam discípulos de Jesus.

Culturalmente era uma região diversificada, sofrendo influência das culturas judaica, grega e romana. Após a conquista realizada por Alexandre, o Grande, da Macedônia, a região passou por um acelerado processo de helenização, porém, a maioria da população galileia mantinha suas tradições religiosas e culturais.

Por causa dessa miscigenação a região também era conhecida como ‘Galileia dos Gentios’ por ter uma população mista, incluindo judeus e não judeus. 

No contexto religioso, os galileus eram geralmente vistos como judeus, porém, mais simples e menos rigorosos em comparação com seus compatriotas da Judeia, especialmente aqueles de Jerusalém, onde o Templo estava localizado. Isso contribuiu no preconceito carregado por Jesus e seus apóstolos, uma vez que muitos líderes religiosos judeus da época olhavam com desprezo para os galileus. A expressão que aparece no evangelho ’Pode vir algo bom de Nazaré?’ (João 1,46) reflete essa discriminação.

No dia seguinte, Jesus decidiu partir para a Galileia. Encontrou Filipe e disse : ‘Siga-me.’ Filipe era de Betsaida, cidade de André e Pedro. Filipe se encontrou com Natanael e disse : ‘Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei e também os profetas : é Jesus de Nazaré, o filho de José.’ Natanael disse : ‘De Nazaré pode sair coisa boa?’ Filipe respondeu : ‘Venha, e você verá.’

Nazaré, o pequeno povoado onde Jesus cresceu após sua família retornar do exílio no Egito, apesar de ser formada por gente trabalhadora, era uma localidade obscura e sem grande importância política ou religiosa.

Politicamente a Galileia estava sob a administração de Herodes Antipas, que governava como tetrarca sob a autoridade do Império Romano. Ele era conhecido por sua lealdade aos romanos e por suas obras de construção, incluindo a fundação da cidade de Tiberíades, que dele recebeu esse nome em homenagem ao imperador Tibério.

A Galileia e o ministério de Jesus

Durante seu ministério, Jesus concentrou grande parte de sua atividade na Galileia, especialmente nas cidades e vilarejos ao redor do Mar da Galileia, como Cafarnaum, Betsaida e Magdala. Cafarnaum, cidade de Pedro, tornou-se um centro importante de suas atividades, sendo descrita nos Evangelhos como sua ‘própria cidade’ (Mt 9,1). Ali, ele pregou nas sinagogas, curou doentes e convidou seus primeiros discípulos. O Sermão da Montanha, um dos discursos mais kerigmáticos de Jesus, provavelmente ocorreu em algum lugar nas colinas galileias próximas ao mar.

No tempo de Jesus a Galileia era também marcada por movimentos messiânicos e por revoltas ocasionais contra o domínio romano. Essa atmosfera alimentava a expectativa messiânica que pode ter influenciado a recepção de Jesus na região, com muitos galileus vendo nele a esperança de libertação mais política que espiritual. No entanto, a mensagem de Jesus sobre um Reino de Deus não violento e espiritual contrastava com as aspirações de muitos que esperavam ver surgir um líder político para libertar Israel.

A Galileia não se transformou apenas no cenário geográfico do ministério de Jesus, mas também num contexto social, cultural e político que moldou sua interação com a população, criando o pano de fundo de suas mensagens. A região, com sua diversidade e dinamismo, proporcionou o ambiente no qual Jesus proclamou sua mensagem de amor, compaixão e transformação, deixando um impacto duradouro na história e na fé cristã.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-08/curiosidades-biblia-galileia-epoca-jesus.html