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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Eucaristia no centro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Antonio Jackson, sss

 

No centro e em toda a história da salvação 

‘A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo, seu Senhor, não como um dom, por precioso que ele seja, entre muito outros, mas como o dom por excelência, porque Ele é o dom de si mesmo, da sua Pessoa na sua santa humanidade e da sua obra de salvação.’ (João Paulo II)

São João Paulo II concluiu e coroou seu longo pontificado durante o Ano da Eucaristia, que ele instituiu na sequência da sua Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia. O Pontífice queria reavivar no coração da Igreja a admiração pelo dom por excelência, da sagrada Eucaristia, e suscitar uma renovação da adoração desse Sacramento que contém a própria Pessoa do Senhor Jesus na sua humanidade. 

Esse dom por excelência foi longamente preparado por Deus na história da salvação. A Eucaristia recapitula e coroa, com efeito, uma multidão de dons de Deus feitos à humanidade depois da criação do mundo. Ela leva à sua realização o desígnio de Deus de estabelecer uma aliança definitiva com a humanidade; apesar de ser uma história trágica de pecado e de rejeição que permanece desde as origens, Deus instaura concretamente, por esse Sacramento, a nova aliança selada no sangue de Cristo. Essa aliança sela definitivamente uma longa história da aliança entre Deus e o povo nascido de Abraão, nosso pai na fé. Como a celebração da Páscoa judaica no tempo da promessa, a sagrada Eucaristia acompanha a peregrinação do povo de Deus na história da nova aliança. Ela é um memorial vivo do dom que Jesus Cristo fez do seu corpo e do seu sangue para resgatar a humanidade do pecado e da morte e comunicar-lhe a vida eterna.

Na sua liturgia e oração milenares, o povo judeu aprendeu a celebrar a grandeza do seu Deus santo, criador e libertador. A Páscoa esteve sempre no centro da liturgia, que recorda de geração em geração o acontecimento do êxodo : ‘Esse dia vos servirá de memorial’ (Ex 12,14).

Celebrada por gerações de crentes, ela se relaciona com o acontecimento fundador da primeira aliança : a saída do Egito do povo hebreu e a passagem do mar Vermelho graças à intervenção do Senhor Deus : ‘Israel viu a mão poderosa com que o Senhor atuou contra o Egito. O povo temeu o Senhor, e acreditou nele e em Moisés seu servo’ (Ex 14,31). Esse acontecimento fundacional iria ser selado no Sinai pelo dom sagrado da lei e pelo compromisso do povo : ‘Eis o sangue da aliança que o Senhor concluiu convosco, mediante todas estas palavras’ (Ex 24,8). E o povo respondeu : ‘Tudo o que o Senhor disse, nós o poremos em prática’ (Ex 19,8).

Essa primeira ‘passagem’ duma parte da humanidade da escravidão para a liberdade anunciava e preparava a intervenção decisiva do Deus vivo e Pai em favor da humanidade, o envio da sua última Palavra, pessoal e definitiva, na encarnação do Verbo. Então, num momento particular da história humana, ‘A graça de Deus manifestou-se para a salvação de todos os homens’ (Tt 2,11). A memória reconhecida da Igreja proclama-o : ‘De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que, chegada a plenitude dos tempos, enviastes a nós como Salvador o vosso Filho Unigênito’ (Oração Eucarística IV).

A vinda do Verbo à nossa carne marca o cume do dom que Deus faz de si mesmo : ‘Muitas vezes e de muitos modos falou Deus aos nossos pais nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo’ (Hb 1,1-2). A Epístola aos Hebreus mostra que a encarnação do Filho de Deus e a oferenda sacrificial da sua vida fundam e estabelecem o culto da nova aliança no seu sangue. Esse culto, instaurado por Jesus Cristo, leva a seu cumprimento os esboços do culto da primeira aliança, oferecendo um só sacrifício, válido uma vez por todas, mas diferente dos sacrifícios de animais da antiga lei, porque é o sacrifício do Cordeiro sem mancha, ‘(…) que se oferece ao Pai no Espírito eterno (…) para que prestemos culto ao Deus vivo’ (Hb 9,14). Esse culto eterno Cristo torna-o presente em nosso tempo e em nosso espaço pela sagrada Eucaristia, cume do dom de Deus, Verbo feito carne e Espírito vivificante na origem do culto da nova aliança.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-eucaristia-no-centro-2.html

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

'A universalidade da salvação' – Terceira Pregação do Advento de 2025

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Tiziana Campisi


A luz que desmascara

‘O frade menor capuchinho propôs uma reflexão sobre a manifestação universal da salvação, sobre Cristo, a verdadeira luz, que é capaz de iluminar, esclarecer e orientar toda a complexidade da experiência humana, que não apaga as perguntas, os desejos e as buscas humanas, mas os coloca em relação, os purifica e os conduz a um significado mais pleno. Luz que o mundo não abraçou porque os homens amaram mais as trevas. O problema, explicou o padre Pasolini, é nossa disponibilidade em acolher a luz, que é necessária e bonita, mas também exigente : desmascara ficções, expõe contradições, obriga a reconhecer o que preferiríamos não ver, e por isso a evitamos.

No entanto, observou o religioso, Jesus não contrapõe quem pratica o mal a quem pratica o bem, mas quem pratica o mal a quem vive a verdade. Isso significa que, para acolher a luz da Encarnação, não é preciso já ser bom ou perfeito, mas começar a tornar a verdade uma realidade na própria vida, ou seja, parar de se esconder e aceitar ser visto por quem se é, porque Deus está mais interessado em nossa verdade do que na bondade de fachada.

Igreja, comunidade que vive a luz de Cristo

Para a Igreja, isso significa iniciar um caminho de maior verdade, o que significa não exibir uma pureza moral ou reivindicar uma coerência impecável, mas apresentar-se com sinceridade e reconhecer resistências e fragilidades. Porque o mundo não espera uma instituição sem fissuras, nem mais um discurso indicando o que deve ser feito, disse o padre Pasolini, mas precisa encontrar uma comunidade que, apesar de suas imperfeições e contradições, viva verdadeiramente à luz de Cristo e não tem medo de se mostrar como é. Os Reis Magos, por exemplo, demonstraram uma maneira singular de serem verdadeiros ao trilharem o caminho do Senhor, explicou o religioso. Eles partiram de longe, mostrando que para acolher a luz do Natal, é necessário um certo distanciamento, para enxergar melhor as coisas : com um olhar mais livre, mais profundo, mais capaz de surpreender. Em vez disso, o hábito de olhar a realidade de perto demais nos torna prisioneiros de julgamentos previsíveis e interpretações excessivamente consolidadas, e isso também acontece com aqueles que vivem permanentemente no centro da vida eclesial e comporta responsabilidades, observou o pregador da Casa Pontifícia, porque a familiaridade cotidiana com funções, estruturas, decisões e emergências pode, com o tempo, estreitar o olhar e, assim, corre-se o risco de não reconhecer os novos sinais pelos quais Deus se faz presente na vida do mundo.

Os caminhos inesperados de Deus

Se o Natal celebra a entrada da luz no mundo, a Epifania destaca que essa luz não se impõe, mas se deixa reconhecer, manifesta-se numa história ainda marcada pela escuridão e pela busca, e é uma presença que se oferece a quem está disposto a se mover. Nem todos a veem da mesma maneira e a reconhecem ao mesmo tempo, porque a luz de Cristo se deixa encontrar por quem aceita sair de si mesmo, quem se coloca a caminho, quem busca, enfatizou o frei capuchinho, acrescentando que isso também é verdade para o caminho da Igreja, já que nem tudo o que é verdadeiro se mostra imediatamente claro, nem o que é evangélico é imediatamente eficaz. E, às vezes, a verdade exige ser seguida mesmo antes de ser plenamente compreendida.

A este respeito, o Padre Pasolini citou a experiência dos Magos, que não avançaram apoiados por certezas consolidadas, mas por uma estrela frágil, porém suficiente para guiá-los em sua viagem. Os sábios que vieram do Oriente para Belém ensinam essencialmente que para encontrar o rosto de Deus feito homem, é preciso colocar-se a caminho, e isso, enfatizou o pregador da Casa Pontifícia, se aplica a todo fiel, e especialmente a quem têm a responsabilidade de proteger, guiar e discernir. Sem um desejo que permanece vivo, mesmo as mais elevadas formas de serviço correm o risco de se tornarem repetitivas, autorreferenciais, incapazes de surpreender. A estrela que guiou os Magos, para o padre Pasolini, é também o sinal das discretas lembranças com as quais Deus continua a se fazer presente na história, e assim, aqueles sábios que não conhecem as Escrituras de Israel, mas leem os céus, lembram que Deus também fala por meios inesperados, experiências periféricas, perguntas que surgem do contato com a realidade e aguardam para serem ouvidas.

Imobilidade

Mas outro aspecto importante que emerge da história dos Magos é a atitude de busca : não se importar, não se colocar em movimento, pode levar a acomodação em uma posição que parece reconfortante, baseada em certezas e hábitos consolidados, mas que com o tempo corre o risco de se tornar uma forma de imobilidade interior, que lentamente isola, muitas vezes sem que percebamos. É o que acontece com Herodes, ele parece atento : questiona, calcula, planeja, mas não parte para Belém, não aceita o risco e a surpresa do que poderia acontecer e delega a tarefa de ir aos Magos, reservando-se o direito de ser informado sobre os acontecimentos. É a atitude de quem quer saber tudo sem se expor, permanecendo protegido das consequências de um envolvimento real, afirmou o frade franciscano, alertando contra uma abundância de conhecimento que carece de envolvimento real. Sabemos muitas coisas, mas permanecemos distantes. Observamos a realidade sem nos deixarmos tocar, protegidos por uma posição que nos protege do imprevisto. Acontece, então, que na Igreja se pode conhecer bem a doutrina, preservar a tradição, celebrar a liturgia com zelo e, ainda assim, permanecer parados. Como os escribas de Jerusalém, também nós podemos saber onde o Senhor continua se fazendo presente — nas periferias, entre os pobres, nas feridas da história — sem encontrar a força ou a coragem para seguir nessa direção, advertiu o pregador da Casa Pontifícia.

A coragem de se levantar

Em síntese, para encontrar Deus, o primeiro passo é sempre se levantar : sair de nossos refúgios interiores, de nossas certezas, nossa visão consolidada das coisas, insistiu o padre Pasolini, especificando que levantar-se exige coragem. Significa abandonar o estilo de vida sedentário que nos protege, mas nos imobiliza, aceitar o cansaço do caminho, expor-se à incerteza do que ainda não está claro. Como fizeram os Reis Magos, deixando sua terra natal e cruzando distâncias sem garantias, guiados apenas por um sinal tênue e discreto, sem saber o que encontrariam, mas confiando na luz que os precedia. Isso é o que significa esperar.

O padre Pasolini também destacou o abaixamento humilde dos Reis Magos. Ao chegarem a Belém, adoraram o Menino, se colocaram a caminho, buscaram e se abriram ao mistério : Levantar-se e depois ajoelhar-se : este é o movimento da fé. Levantar-se para sair de si, não para colocar-se no centro. E depois se abaixar, porque se percebe que o que encontramos está além do nosso controle. Para o pregador da Casa Pontifícia, isso vale na relação com Deus, nas relações cotidianas — quando o outro nos surpreende, nos decepciona ou nos transforma — e é preciso parar de impor nosso próprio ponto de vista e aprender a verdadeiramente escutar. E, ampliando a perspectiva, vale também para a Igreja, que é chamada a se mover, a sair, a encontrar pessoas e situações que lhe são distantes, e também a saber parar, abaixar o olhar, a reconhecer que nem tudo lhe pertence nem pode ser controlado. Então, o dom da salvação pode se tornar universal se a Igreja aceitar em deixar de lado suas próprias certezas e olhar com respeito para a vida dos outros, reconhecendo que mesmo ali, muitas vezes de maneiras inesperadas, algo da luz de Cristo pode emergir.

A verdadeira luz do Natal

Um último aspecto sobre o qual o pregador da Casa Pontifícia convidou a refletir foi que se Deus escolheu habitar nossa carne, então cada vida humana carrega em si uma luz, uma vocação, um valor que não pode ser apagado. Isso nos leva a concluir que não viemos ao mundo apenas para sobreviver ou atravessar o tempo da melhor maneira possível, mas para ter acesso a uma vida maior : a de filhos de Deus. Assim, a tarefa da Igreja é oferecer a luz de Cristo ao mundo. Não como algo a impor ou defender, mas como uma presença a oferecer, deixando que todos se aproximem. Portanto, sob essa perspectiva, a missão não consiste em forçar o encontro, mas em torná-lo possível, concluiu o padre Pasolini. Uma Igreja que oferece a presença de Cristo a todos não se apropria de sua luz, mas a reflete. Não se coloca no centro para dominar, mas para atrair, tornando-se, portanto, um espaço de encontro, onde cada pessoa pode reconhecer Cristo e, diante dele, redescobrir o sentido de sua vida. A perspectiva sobre os hábitos missionários deve, portanto, mudar : muitas vezes se pensa que evangelizar significa levar algo que falta, preencher um vazio, corrigir um erro, mas a Epifania aponta para outro caminho, que é o de ajudar o outro a reconhecer a luz que já habita nele, a dignidade que já possui, os dons que já possui. Portanto, a catolicidade da Igreja consiste em guardar Cristo para oferecê-lo a todos, com a confiança de que a beleza, a bondade e a verdade já estão presentes em cada pessoa, chamada à plenitude e a encontrar nele o seu pleno significado. Em conclusão, para o pregador da Casa Pontifícia, a verdadeira luz do Natal 'ilumina cada homem' precisamente porque é capaz de revelar a cada um a própria verdade, a própria vocação, a própria semelhança com Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2025-12/pasolini-pregacao-advento-luz-deus-magos-igreja.html 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Eucaristia, fonte de vida e salvação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Flavio Jose Lima da Silva


‘A Eucaristia é fonte de vida, é alimento espiritual que nos dá força e vitalidade, alimento que nos santifica. Nela, Cristo se torna esse alimento essencial para a nossa existência; é a ceia sacramental na qual Ele atualiza sua presença e sua entrega à comunidade cristã.

A Igreja nos ensina que a Eucaristia nasceu da vontade e do mandato do próprio Cristo. Nela, celebramos o encontro entre Deus e o ser humano em Cristo, na nova aliança selada na cruz. Portanto, o cristão deve fazer de tudo para estar sempre em comunhão com esse alimento que sustenta e conduz gradativamente à salvação.

O Catecismo da Igreja apresenta, antes de tudo, a Eucaristia como ‘sacrifício de louvor’ ao Pai, pela obra da criação e da redenção, e também como memorial sacrifical de Cristo e de seu corpo, a Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1356-1372). Na celebração da Missa não se realiza um novo sacrifício, nem se repete o de Cristo, mas atualiza-se sacramentalmente sempre o mesmo e definitivo sacrifício da cruz.

A chave para a compreensão do sacrifício eucarístico é o memorial. A Missa é o memorial sacramental do sacrifício único e irrepetível da cruz. Esse sacrifício cristão se cumpriu de uma vez por todas na entrega pessoal de Cristo, que superou e aboliu os sacrifícios de coisas e animais apresentados no Antigo Testamento.

Sendo assim, compreende-se que a Eucaristia é sacrifício, pois constitui a presença de Cristo crucificado, glorioso e intercessor, que apresenta diante do Pai, por nós, o seu sacrifício único para a nossa salvação. Esse oferecimento eucarístico do sacrifício de Cristo é, ao mesmo tempo, ato de fé, obediência e conformidade vital, que gera salvação.

Por fim, ao tomarmos consciência de que a Eucaristia é fonte de vida e salvação, alimento que nos sustenta em nossa caminhada de fé, devemos, como cristãos católicos, buscar constantemente esse alimento salvífico. Sem ele, nossa vida espiritual torna-se deficiente, sem sentido e sem rumo, pois Jesus Cristo se entregou gratuitamente como sacrifício, como alimento que sacia toda a nossa fome. A Eucaristia nos completa, purifica e santifica todo o nosso ser.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/eucaristia-fonte-de-vida-e-salvacao.html

sábado, 28 de setembro de 2024

Evangelizando superamos a solidão

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Thales Maciel Pereira


A evangelização na Igreja decorre da missão messiânica de Jesus, pois Ele foi constituído pelo Pai como o evangelizador por excelência. De fato, toda a vida de Cristo pode ser interpretada a partir da noção de evangelização. Ele, desde sua concepção até sua glorificação no mistério pascal, viveu para evangelizar os pobres, isto é, para comunicar uma boa notícia de salvação. Qual boa notícia é essa?

Suponhamos uma pessoa que sucumbisse a um terreno movediço. Imaginemos sua angústia ao tentar voltar integralmente à superfície. Tal pessoa, abandonada à própria sorte, certamente malograria em seu intento de autossalvação. Dali não sairia sem uma mão amiga que se lhe oferecesse como auxílio necessário. Assim é a evangelização, assim é a vida de Cristo.

Quando estamos sós, não conseguimos conferir sentido às nossas próprias vidas. Nós, seres de relação, necessitamos da interação e dos relacionamentos com os outros seres humanos para mantermo-nos nesta vida. No horizonte espiritual, também ocorre a mesma coisa : precisamos de uma presença amiga para que sejamos mantidos no horizonte da vida.

Isso parece tão verossímil a ponto de Joseph Ratzinger, o saudoso Papa Bento XVI, indicar que o medo mais radical do ser humano é o da solidão. Segundo ele, ‘A criança perderá o seu medo no momento em que uma mão se oferecer para guiá-la e uma voz falar com ela; no momento, portanto, em que a criança viver a experiência da presença de um ser humano amoroso. Mesmo aquele que estiver em companhia de um morto deixará de sentir um assomo de medo quando houver alguém junto dele, de modo que sinta sua presença. Na superação do medo se revela a sua natureza mais intrínseca, ou seja, o medo da solidão, que é o medo de um ser que só pode viver junto dos outros. O medo essencial do ser humano não pode ser superado pelos argumentos da razão e sim pela presença de alguém que ama’ (Introdução ao cristianismo, 221).

Assim, evangelizar significa comunicar uma notícia muito boa : você não está sozinho. A solidão radical do ser humano é superada mediante a abertura do coração a Deus e às pessoas que estão ao nosso redor para que nos completemos e nos compreendamos como seres de relação.

A salvação, portanto, não é uma realidade própria de indivíduos isolados e autocentrados, mas, fruto de uma relação íntima de comunhão entre a vida humana e a vida divina.

Evangelizar é superar a solidão. Ser evangelizador é participar da missão de Jesus, é proclamar – com a boca e com a vida – que sozinhos nada podemos, mas que, juntos, avançamos no aprofundamento da vida e no melhoramento do mundo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/evangelizando-superamos-a-solidao.html


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Remédio para o erro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A manifestação da glória de Deus se realiza na caminhada da humanidade | Pixabay

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

Nossa gratidão aos irmãos e irmãs, que no mesmo ideal querem caminhar conosco no compromisso da interlocução ou transmissão do Evangelho, repletos do amor de Deus, em favor das pessoas e do mundo. Na mensagem sobre a fidelidade de Deus, ao conduzir o povo de Israel na manifestação ou fenômeno único no mundo, percebe-se a esperança, através da novidade divina : a realização da humanidade, a salvação esperada. O povo passa a viver na dinâmica da fé, com a consciência de que a salvação significa, na sua concretude, a libertação, a experiência vivenciada em Israel, na sua relação com o Deus vivo, construindo sua própria história.

A história do povo de Deus, trazida para os nossos dias, considerando que, quando se erra por ignorância, distração, ou algo parecido, não se trata de pecado, de maneira alguma! Agora, quando o pecado bate à nossa porta, no ‘querer’, com clareza de consciência, convencidos de que estamos errados, no uso da própria vontade humana, colocando a nossa liberdade acima da vontade de Deus, em detrimento da irmã e do irmão, aí, sim, se constatam lapsos, equívocos ou erros : o pecado.

Se, por um lado, ‘equivocar ou errar é humano’, por outro lado, ultrapassar a realidade inclemente e não indulgente, com suas vastas consequências, precisa de um único e sólido remédio, como na afirmação de João Batista : ‘Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo’ (Jo 1, 29).

A família humana, ao habitar a face da terra, sendo essa mesma terra cultivada e não cultivada em florestas, cerrados, caatingas e matas atlânticas, sem esquecer dos mares, se resume a uma só linguagem : sua indulgente sensibilidade. Sabe-se que nessa linguagem tem-se um conjunto de ações, chegando-se ao mal e ao bem, alternando entre angústia e segurança, sofrimento e alegria.

Na precariedade da vida, no entanto, as pessoas procuram soluções, não só com a inteligência, mas mergulhados, com todo o seu ser, na consciência dessa condição humana, como obra-prima da criação; e é aí que entra a nossa fé, no contexto dessa mesma criação, em resposta à existência da criatura humana, aqui nas palavras de Santo Agostinho : ‘Fizeste-nos para ti, Senhor, e irrequieto está nosso coração, até encontrar sossego em ti’.

É Deus nos falando ao nosso coração, do nosso desejo, em buscar o Infinito. É a manifestação da glória de Deus que se realiza na caminhada da humanidade, através dos séculos, participando e não se separando da história da existência humana e do mundo, na esperança do final feliz : que, em Deus, tudo seja reconciliado. Amém!

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598979

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Coragem!

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE


Coragem, pois o convite que Deus nos faz neste tempo que precede o Natal é o de ‘participar da divindade daquele que uniu a Deus nossa humanidade, manifestando-se como luz a iluminar todos os povos no caminho da salvação’, na inefável troca de dons entre o Céu e a Terra. Veja-se, pois, envolvido com a vida, num exuberante e alegre contentamento, na clareza de consciência de si mesmo, não sobrando espaço algum para duvidar do único clamor, o da vida, o de se convencer de mais vida e vida intensamente bem vivida! Como é maravilhoso, quando as pessoas querem mais encanto com a vida, mais amor, mais dignidade e mais sabedoria, numa determinação de rejeitar a vida inútil, insípida e sem sentido!

Tenha mais gosto e entusiasmo, vendo a vida com sentido, a partir de um Deus indulgente e clemente, que seja o mais aguçado possível, mas a partir da realidade do Brasil e do mundo, mesmo diante das provações, dores, sofrimentos e angústias desafiadoras, antevendo, no mundo compreendido por contrastes e diversidades, uma nova civilização, no mais alargado e expandido sonho, na busca de uma vida fecunda e cheia de graça. A vida, além de carecer de ânimo e coragem, quer que respondamos aos apelos de Deus, não se apegando aos bens ilusórios e passageiros do mundo, nem parado de braços cruzados e acomodados.

De maneira segura e inequívoca, somos convidados a olhar, pela ótica de Deus, uma consistente esperança e um espírito de perseverança, inspirados pelo sonho de um mundo novo, no compromisso de promover uma realidade melhor e mais durável, sem fome, mais digna e menos egoísta, livrando-nos do pecado da indiferença para com a vida, dom e graça. Cabe a nós contemplarmos, associados ao mistério dos anjos, que povoaram os céus naquela noite feliz e memorável, na linguagem por demais conhecida : ‘Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade’. Ele aponta para nós o caminho da salvação; que seja de todos o esforço pela proposta solidária e fraterna, fundamentada na prática da justiça, firmada na paz duradoura.

A chegada de Jesus de Nazaré ao mundo nos afasta do desânimo e estabelece e robustece passos do nosso caminhar, por chão sólido e seguro. Manifesta-se, assim, a clara consciência de que o Messias esperado leva a história à sua consumação. Em Jesus o tempo histórico chegou ao ápice, razão da nossa mais elevada contemplação, acolhendo-o, mas na certeza de que nele se encontra o destino definitivo da humanidade; nele está a consolidação da eternidade dos povos, na participação da promessa salvífica : ‘Do novo céu e da nova terra, nos quais habitará a justiça’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1597197

sábado, 24 de dezembro de 2022

Natal: a salvação se faz presente

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


Neste próximo final de semana, grande parte do Ocidente celebra o Natal. Possivelmente, este será mais um texto refletindo sobre a data, dentre tantos outros que também farão o mesmo. Afinal, as datas comemorativas, e principalmente o Natal, nos fazem pensar sobre o cotidiano e refletir sobre elas.

Falar do Natal, por sua vez, implica a lembrança da narrativa do nascimento de Jesus, ainda que qualquer pessoa que estude a Bíblia e a história de uma maneira mais aprofundada saiba que Jesus não nasceu no mês de dezembro. Mas, mais importante do que a data exata (algo que nunca sabermos), é a mensagem trazida pelos evangelistas que colocaram tal narrativa em seus escritos.

Em Mateus, vemos uma narrativa que foca em Jesus como sendo o cumprimento das promessas de Deus a Israel. Alguns elementos podem nos dar esses indícios, tais como o fato de ter iniciado seu texto com uma genealogia de Jesus, mostrando-o como aquele que descendia da linhagem de Davi e, portanto, o Messias esperado pelo povo; ou a presença dos magos que vieram do Oriente e entregaram seus presentes ao bebê nascido, simbolizando a promessa de que todos os povos se prostariam diante de Javé; ou ainda, ao fazer o contraponto entre Jesus, o novo Moisés, e o antigo, ao relatar que assim como o primeiro Moisés havia sido ameaçado de morte pelo rei quando era uma criança, tendo sido criado no Egito, lugar do qual sairá depois, libertando o povo de Israel, também Jesus precisa ir para o Egito fugindo de Herodes, para depois retornar para sua terra, trazendo a salvação ao povo. O paralelo entre Moisés e Jesus se mostra uma importante chave de leitura para compreensão do Evangelho de Mateus, algo que, aparentemente, o autor deixa claro desde a narrativa do nascimento.

Em Lucas, por sua vez, vemos uma narrativa diferente. Não se fala de sua genealogia, nem cita os magos que vieram do Oriente para entrega de presentes. Nada disso parece ser importante para o propósito lucano. Seu foco está tanto em falar do nascimento de João Batista, colocando este como precursor do Messias, como o Elias que haveria de ‘preparar ao Senhor um povo bem disposto’, conforme Lucas 1,17, como apresentar Jesus como aquele que é concebido pelo Espírito e, consequentemente, como mostrado em Atos, aquele que dispensa o Espírito para a formação da comunidade dos que creem. A revelação do nascimento, por sua vez, não se deu nos palácios. Lucas nem relata que Herodes ficou sabendo disso, mas tal anúncio é feito aos pastores que estavam no campo, que seguem a caminho de Belém, encontram o menino e voltam glorificando a Deus.

Lucas também faz questão de falar da circuncisão de Jesus, bem como do cumprimento da lei por parte dos pais, e ainda das personagens de Simeão e Ana, que dão testemunho a respeito da salvação que chega por meio desse menino que nasce.

Mesmo que os relatos sejam diferentes, uma vez que, claramente, foram escritos para comunidades diferentes, com questões e problemas diferentes, a tônica da salvação por meio desse menino que nasceu é comum. Seja apresentando Jesus como o novo Moisés, seja falando de Jesus como aquele concebido pelo Espírito de Deus, ambos querem mostrar que Deus não se esqueceu de sua promessa feita ao seu povo, mas em seu tempo, promoveu a salvação, que foi reconhecida somente por aquelas pessoas que estavam atentas aos sinais dos tempos, tais como os magos, os pastores, Simeão e a profetisa Ana. Em outras palavras, a salvação é anunciada aos estrangeiros, aos humildes, às mulheres, e reconhecida por meio do Espírito de Deus.

Mesmo com as diferenças narrativas, a mensagem permanece do Natal permanece : Deus não se esqueceu da sua criação, e por meio do seu Espírito nos faz perceber que sua salvação se faz presente por meio de Jesus.

Feliz Natal.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1596702

quinta-feira, 16 de junho de 2022

A frenética busca de uma certeza da salvação

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


‘Ainda é muito comum em nossos dias as pessoas que se dizem cristãs estarem em busca de certezas a respeito da fé. Desejam, a todo custo, terem chancelado o caminho que estão percorrendo para, assim, garantir que a salvação os aguarda ao final da jornada.

Essa busca de segurança, todavia, não deve ser motivo de condenação. Afinal, quem de nós não deseja essa confirmação de que aquilo que fazemos é bem-visto aos olhos de alguém? Ainda mais quando o assunto é tão sério, como a questão da salvação.

Contudo, ao observarmos o texto bíblico, tal garantia só se mostra nos textos do Antigo Testamento, principalmente no período em que Deus era visto como Aquele que fazia uma aliança com seu povo, do tipo contratual. Em outras palavras, se ao povo era solicitado que se cumprissem os mandamentos de Javé, da parte de Javé provinha a segurança, as vitórias nos tempos de guerra e a prosperidade em todos os empreendimentos do povo.

Um exemplo muito claro dessa dinâmica se encontra no texto de Deuteronômio 28, que se inicia com uma condicional : ‘se escutares verdadeiramente a voz do Senhor teu Deus, cuidando de pôr em prática todos estes mandamentos que hoje eu te dou, então...’ Esse versículo deixa claro o tipo de relação estabelecida nesse contrato. Agora, uma vez que o povo obedecesse podia, de alguma maneira, requerer tal proteção divina e vitórias, afinal, estariam cumprindo sua parte. Em outras palavras, tanto Deus quanto o povo se tornavam responsáveis por cumprir aquilo que havia sido firmado.

Esse tipo de teologia retribucionista é marcante em todo texto bíblico. Até mesmo no Novo Testamento é possível perceber traços dessa teologia, sendo um exemplo disso o texto do Apocalipse joanino.

Que tal teologia tenha sido questionada já antes de Jesus, os livros de Jó e Eclesiastes deixam isso muito claro. Contudo, como é possível perceber, tal teologia ainda se faz presente hoje, sendo tanto consequência, como geradora dessa busca de certeza sobre a qual iniciamos nosso texto.

No entanto, a compreensão do conceito de fé nos leva em outra direção. Afinal, a fé é o contrário da certeza, uma vez que se se tem certeza de alguma coisa, a fé se torna sem sentido. Não precisamos de fé para dizer que se jogarmos um lápis para o alto ele cairá. A força da gravidade garante isso e, portanto, falar em uma ‘fé na gravidade’ se torna algo sem sentido.

Ter fé em Deus, em perspectiva cristã, implica abrir mão dessa busca de certeza de que se está no ‘caminho da salvação’, até mesmo porque, na perspectiva dos Evangelhos, a salvação é dada gratuitamente, independentemente das obras, sendo aceita, diga-se de passagem, por meio da fé. Ninguém em nossos dias viu a salvação para garantir que ela seja verdadeira, e possivelmente, não conhecemos alguém que tenha visto Jesus ressuscitado para garantir com certeza de que Ele está vivo.

Todas essas realidades são aceitas pela fé, de maneira que buscar a certeza dessas coisas se mostra contrário àquilo que, como cristãos, compreendemos sobre o que é a fé.

A busca de certezas a respeito da salvação se revela como fruto de um relacionamento infantil com Deus, tal como uma criança pequena que chora quando a mãe ou o pai saem de sua vista, por achar que eles não estão mais ali. Insistir nisso é pernicioso para o amadurecimento cristão.

Longe das certezas, a fé cristã nos convida a nos lançarmos em confiança de que Aquele que fez a promessa é fiel para a cumprir. Um ‘salto’, como diria Kierkegaard. E nada mais que isso.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticia/1581401/2022/06/a-frenetica-busca-de-uma-certeza-da-salvacao/

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Que salvação é essa?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

  O amor de Deus é maior do que toda e qualquer legislação; que a salvação é de graça e, somente pela graça por meio da fé que é possível aceitá-la; que não há nada que possa ser feito para que Deus nos ame mais ou menos

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante  


‘No meio evangélico é ainda muito comum e forte a ideia de que somente uma salvação individual é importante. Dessa maneira, cada pessoa deve buscar fazer o melhor possível e seguir aquilo que Deus deseja para de alguma forma poder ter alguma segurança a respeito da sua vida pós-morte.

 A preocupação para com a salvação é tão forte em alguns meios, que chega ao ponto de se considerar tudo que não se coaduna com uma norma específica como pecado que afasta o cristão do caminho de Cristo e o conduz à perdição. Claramente, os movimentos fundamentalistas se alimentam desse tipo de postura. Afinal, onde a obediência a uma norma é a régua de medir o compromisso de determinada pessoa com Deus, torna-se muito fácil para as lideranças controlar os afazeres de seus membros em todas as áreas da vida.

 Da mesma forma, essa preocupação excessiva com a salvação individual comumente faz com que muitos evangélicos não se envolvam com as questões de cunho social, político e econômico, preferindo se alienarem desses compromissos. Uma vez que tais envolvimentos são coisas ‘do mundo’ ao qual não se veem pertencentes aqueles e aquelas que aguardam uma ‘pátria celestial’, ocupar-se dessas questões muitas vezes é visto como tempo não dedicado a Deus.

 Por outro lado, há aqueles e aquelas que entram nas questões políticas (como vemos tantos atualmente nas diversas câmaras espalhadas pelo país), não com o intuito de tornar a sociedade um lugar melhor, mas para tentar, por meio de suas visões de mundo, transformar os locais nos quais estão em uma extensão da igreja a qual pertencem. Nesse sentido, tomam atitudes de cunho proselitista, tentando por meio das leis e da máquina pública empurrar goela abaixo determinado discurso que afirmam ser a palavra de Deus. Curiosamente, essa ‘palavra de Deus’ da qual tanto se fala em nada muda as estruturas que geram as pobrezas, misérias e desigualdades existentes na sociedade, estando mais preocupada em legislar sobre relações sexuais do que fazer com que as pessoas tenham vidas mais dignas.

 A não compreensão da salvação conforme narrada nos Evangelhos faz com que diversas pessoas se apeguem mais às formas do que ao conteúdo dessa salvação anunciada. Quando se foca numa salvação meramente individual, na qual um ‘eu’ solitário precisa prestar contas diante de um Deus contabilista, que tem uma planilha de débito e crédito para julgar a vida de cada um no juízo final, perde-se o conteúdo da mensagem anunciada por Jesus. Mensagem esta que visa justamente libertar o ser humano de todas as amarras da lei, revelando que o amor de Deus é maior do que toda e qualquer legislação; que a salvação é de graça e, somente pela graça por meio da fé que é possível aceitá-la; que não há nada que possa ser feito para que Deus nos ame mais ou menos; que a salvação é direcionada a todos e todas.

 A salvação não deve ser desejada somente em seu caráter individual, mas deve ser pensada também em seu caráter social, de maneira que a minha ação na sociedade é o que dá testemunho da salvação que me alcançou. Em outras palavras, as boas ações não são feitas para que eu seja salvo, mas, antes, porque eu sou salvo que as boas ações, também frutos dessa salvação, transbordam e alcançam às outras pessoas.

 Essa consciência de uma salvação não merecida faz cair todo proselitismo, toda intolerância, todo medo e toda indiferença para com os sofrimentos deste mundo, porque bem compreendida deixa claro que o mundo a ser transformado por Deus, a ‘nova Jerusalém que desce do céu’ não tem a ver com um ‘subir’ para se estar com Deus, mas reconhecê-lo presente e atuando no mundo.

 O tão orado ‘venha a nós o teu Reino’ deveria deixar claro que a salvação desejada por Deus não é somente a minha salvação, mas a salvação de todo o cosmos, ou seja, uma salvação social, política, econômica e estrutural da sociedade para que ela experimente o governo amoroso de Deus sobre a terra, onde, de acordo com nossa esperança, não haverá as estruturas de morte que continuamente matam e segregam principalmente os mais pobres deste mundo.’

  

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1452814/2020/06/que-salvacao-e-essa/


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Troca de dons


 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
Que nossos passos sejam guiados, tendo, diante dos olhos e do coração, a visão do profeta Isaías
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,
jornalista, colunista e pároco
de Santo Afonso de Fortaleza, CE


‘No Advento ficamos diante do imenso dom da salvação, no convite ao povo de Deus, no sentido de agradecermos a Ele, que é boníssimo e altíssimo. Claro que o centro do Advento é a espera do Senhor. Ele vem, considerados os aspectos do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias, tão esperado. Assim falam as profecias, apresentadas na Liturgia da Igreja neste tempo precioso e santo do Advento, desejando despertar no coração dos fiéis uma profunda necessidade da presença de Deus, na direção do dom maior a nos envolver : a salvação.

Revestidos da força do alto, voltemo-nos para Deus, que nos fala através de sua palavra salvífica, a qual quer revelar os caminhos divinos, exortando-nos a uma permanente vigilância. Que na nossa preparação para o Natal do Senhor, ocasião para bem interiorizarmos a encarnação da salvação no mundo, em que estamos inseridos, deixemo-nos guiar pela luz do Salvador, que, segundo Santo Afonso Maria de Ligório, desceu das estrelas.

Caminhamos, na penumbra da fé, ao encontro da procedente ‘troca de dons entre o céu e a terra’, dentro de um ambiente nem sempre favorável, mas compreendido, no aviso divino, para os bons entendedores, como no recado de dom Helder Câmara : ‘Quando houver contraste entre a tua alegria e um céu cinzento, ou entre a tua tristeza e um céu em festa, bendiz o desencontro, que é um aviso divino de que o mundo não começa e nem acaba em ti’.

Que nossos passos sejam guiados, tendo, diante dos olhos e do coração, a visão do profeta Isaías : ‘Acontecerá, nos últimos tempos, que o monte da casa do Senhor estará estabelecido no ponto mais elevado das montanhas e reinará nas colinas’ (Is 2, 2).

Que a vinda do Salvador encontre espaço e acolhida favoráveis no coração de cada irmã e de cada irmão, na certeza de que a história da humanidade caminha rumo à feliz eternidade, na esperança do definitivo, de vermos novas todas as coisas. Assim seja!


Fonte :

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A liturgia dentro da história da salvação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Celebração da Santa Missa em Kaunas, na Lituânia 
Celebração da Santa Missa em Kaunas, na Lituânia

*Artigo dJackson Erpen,
jornalista


No nosso Espaço Memória Histórica – 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos falar no programa de hoje sobre o tema ‘A liturgia dentro da História da salvação’.

A palavra liturgia tem sua origem no grego leitourgos, para denominar alguém que fazia serviço público ou liderava uma cerimônia sagrada. Mesmo já sendo usada na antiguidade, somente depois dos séculos VIII e IX passou a ser usada no contexto da Eucaristia na Igreja grega.

Por meio da liturgia, ‘exerce-se a obra da nossa redenção’ (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, 2). Assim como foi enviado pelo Pai, Cristo enviou os apóstolos para anunciarem a redenção e ‘realizarem a obra de salvação que proclamavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, em torno dos quais toda a vida litúrgica gira’ (ibidem, 6).

A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na eucaristia precisamente porque o próprio Cristo se entregou antes a ela no sacrifício da cruz’ (Sacramentum Caritatis, 14). ‘A Igreja vive desta presença e tem a difusão desta presença no mundo inteiro como a sua razão de ser e de existir’ (Bento XVI, Discurso de 15 de abril de 2010 aos Bispos do Brasil, Regional Norte-2).

Esta é a maravilha da liturgia, que, como o catecismo recorda, é culto divino, anúncio do evangelho e caridade em ato (cf. CIC, 1070). É Deus mesmo quem age, e nós nos sentimos atraídos por esta sua ação, a fim de sermos, deste modo, transformados nele.

Inicialmente a liturgia era da responsabilidade dos apóstolos e bispos, mas é sabido que algumas Igrejas criaram a sua própria liturgia, como a Igreja da Alexandria no Egito e de Antioquia na Síria. Existem várias manifestações de liturgia, como a liturgia ambrosiana, liturgia de S. João Crisóstomo, liturgias orientais.

Até a metade do século XVI não havia uma regra geral e obrigatória para a liturgia. O Concílio Vaticano II representou uma renovação da liturgia, dando maior ênfase à Sagrada Escritura na liturgia da palavra, e permitindo o uso de línguas em vez do latim, de forma que o fiel pudessem melhor compreender e participar de forma mais ativa da celebração.

Na edição de hoje deste nosso espaço, padre Gerson Schmidt, que tem nos acompanhado neste percurso de exposição dos documentos conciliares, nos fala sobre a liturgia dentro da história da salvação :

A Constituição Sacrosantum Concilium não foi proclamada no Concílio sem ter em conta a caminhada percorrida pelos teólogos, liturgistas e papas, antes do Concilio Vaticano II, num verdadeiro movimento sério de Reforma da Liturgia. Os teólogos Odo Casel e Romano Guardini tiveram sua importância fundamental aqui nos conceitos do Mistério Pascal e do Corpo Místico. Também contribuiram Salvatore Marsili, Dom Lambert Beauduin, Maurice Festugière, Cipriano Vagaggini. O caminho percorrido pelos papas Pio X, Pio XI e Pio XII também deram mais um passo à frente. 

O teólogo pioneiro na reflexão da teologia litúrgica sem dúvida é Odo Casel. Casel explorando a doutrina dos mistérios, construiu a base sólida da teologia litúrgica, a partir da tradição e do argumento teológico. Para ele, ‘o mistério de Cristo é um conjunto orgânico e vivo que não pode ser fracionado; é o grande mistério da redenção, portanto, onde está presente o mistério central, como é o mistério da cruz, todos os demais mistérios da vida de Cristo estão presentes¹’.

Isso o leva a afirmar a presença sacramental do ato da morte e ressurreição de Cristo no ato litúrgico atual. Por isso, Casel ocupa uma posição hegemônica na teologia moderna. Salvatore Marsili, outro expoente, seguiu os passos de Odo Casel e continuou o seu pensamento, embora com as devidas diferenças. Ao redefinir teologia como teologia do mistério de Cristo e da história da salvação, naturalmente incluiu a liturgia como um eixo da teologia, pois a ‘liturgia é aquela realidade na qual a revelação divina se torna acontecimento de salvação em ato e se coloca como momento síntese de toda a história da salvação²’.

A Constituição Sacrosantum Concilium insere a liturgia no seu lugar legítimo que é dentro da história da salvação. ‘Dentro da história da salvação existe uma economia eclesial e litúrgica. Aqui, torna-se evidente que a liturgia é o elo que liga o tempo de Cristo e o tempo da Igreja. A ação litúrgica aparece claramente como um momento da revelação³’ .

A história da salvação é atualizada nos ritos e sinais sagrados. Se a história da salvação não fosse ritualmente celebrada se transformaria em mero fato do passado, seria apenas um ‘rito mitológico, alienante e incapaz de despertar em nós a esperança escatológica’.’

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[1] J.J. Flores, Introdução à teologia litúrgica, Paulinas, 2006, p.197-198.

[2] Idem, p.247.

[3] Apontamento de Dom Geovane Luiz da Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte, enquanto ainda padre da Arquidiocese de Mariana. Subsídio entregue na Assembleia Regional do Clero, Região Episcopal da Conceição – Arquidiocese de Belo Horizonte, p. 07.


Fonte :