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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

As grandes civilizações africanas - A evangelização da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

Durante séculos a missão africana viveu em estreita dependência das potências colonizadoras, sobretudo, aquelas que eram consideradas católicas como Portugal, França e Bélgica. Junto a isso se cona também uma dependência quase que total do trabalho missionário das congregações religiosas, com a ausência de uma Igreja local mais estruturada.

Quando chegamos ao século XIX a missão católica já estava melhor estruturada e alguns fatos vieram alavancar o trabalho missionário, especialmente nos países localizados abaixo do Deserto do Saara, onde a concorrência com o islamismo era bem menor.

Nesse sentido merece destaque a criação dos primeiros Vicariatos Apostólicos com a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide, onde se destaca o trabalho do cardeal redentorista Van Rossun, braço direito do Papa Pio XI para o campo da evangelização.

A publicação de diversas Encíclicas missionárias por diversos papas, sobretudo, a Fidei Donun (1957) do Papa Pio XII abre os olhos da Igreja para o trabalho Missionário.

Entre fins do século XIX e primeiras décadas do século XX se dá a criação das primeiras circunscrições eclesiásticas, com a nomeação de bispos para os territórios de missão.

A evangelização na África

Sudão

Em 1846, o Papa Gregório XVI criou o Vicariato Apostólico da África Central que abrangia uma imensa região, da Guiné até o Nilo, com sede em Cartum. Foram feitas cinco expedições tentando atingir o centro de missão em 1846,1857,1862 e 1867. Aqui o destaque fica com São Daniel Comboni (+1881), fundador da Congregação dos filhos do Sagrado Coração e do Instituto Pias Madres da Negritude. 

Etiópia

A expedição missionária de Justino de Jacobis realizada em 1838 converteu os monofisitas, mais por motivos econômicos do que religiosos. Entre 1839-41 De Jacobis viveu como monge, conquistando a confiança do povo e das autoridades. Em 1849, foi sagrado bispo, mas a partir de 1855 veio a perseguição contra os católicos. De Jacobis morre em 1860.

Outros destaques desta área missionária ficam com Guilherme Massaia (+1889), frade capuchinho nomeado cardeal em 1884 e com o cardeal Lavigerie e a fundação dos padres brancos

Uganda

Com o Papa Pio IX o cardeal Lavigerie foi nomeado delegado apostólico para a África Equatorial e em 1879, os padres brancos atingiram a Uganda, em Entebe, mas foram expulsos em 1882, por motivos políticos, sendo chamados de volta em 1885.

Desta área missionária merecem destaque São Carlos Lwanga e seus companheiros mártires. Hoje 36% da população ugandense professa a fé católica.

Madagascar

A colonização e a penetração católica aconteceram de forma paralela. A primeira expedição aconteceu em 1855, com o jesuíta Finaz. Aqui, porém, as dificuldades foram muitas com perseguições e massacres.

Depois da guerra Franco-Malgache, Madagascar se tornou um protetorado francês e colônia em 1896. Apesar da luta com o governo francês pela escola, o desenvolvimento foi bem continuado.

Congo

O rei Leopoldo II criou o Estado livre do Congo, lutando contra as pretensões de ingleses, franceses, portugueses e dos escravistas árabes, mas ele submeteu o Congo a um duro regime de escravidão e exploração.

O método missionário conhecido como ″Fermes Chapelles’, uma espécie de missão agrícola com escolas profissionais para jovens foi bem aceito no princípio, mas depois sofreu bastante críticas. Entre 1904 e 1906 ocorreu uma campanha de acusação contra as missões católicas e elogios ao governo de Leopoldo II. A polêmica voltou em 1911, com o Congo sendo anexado à Bélgica. Com isso, as missões não puderam ser continuadas.

Avaliação da metodologia missionária

Aos poucos as missões se tornaram menos dependentes dos velhos regimes coloniais, com amplas vantagens, devido a isenção frente aos colonizadores que passara a ser criticados pela Igreja em vista de alguns métodos brutais utilizados.

Também de tornou de grande importância a ação da Sagrada Congregação de Propaganda Fide pelo estímulo à ação missionaria com impulso dado à criação dos Vicariatos apostólicos e independência da Santa Sé na nomeação dos bispos.

Dois problemas, porém, ainda continuam :  o pouco respeito à cultura local e a dificuldade de transformar as missões em Igrejas locais. Nesse sentido, a Encíclica Maximum Illud de Bento XV (1919) destacou cinco pontos globais em relação às missões : Condenação do Feudalismo Colonial e da não colaboração, a necessidade de colaboração entre as diversas missões, a urgência de se formar um clero autóctone, a condenação do nacionalismo dos missionários e a valorização da língua e da cultura local.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-evangelizacao.html


terça-feira, 20 de outubro de 2026

“Igreja dos Feixes” - Colóquio sobre os frutos das missões

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Dom Fortunatus Nwachukwu  (Vatican Media)

*Artigo da Vatican News


A conferência, intitulada ‘Uma Igreja para todos : sinodal no método, missionária no espírito, credível no amor’, será realizada na Universidade Pontifícia Urbaniana. No centro dos trabalhos está o conceito de missão como relação de reciprocidade, que visa superar a divisão entre Igrejas que ‘doam’ e Igrejas que ‘recebem’.

‘A ideia da ‘Igreja dos Feixes de Espiga’ inspira-se no Salmo 126, versículo 6’ - explica o Dom Fortunatus Nwachukwu, Secretário da Secção para a Primeira Evangelização e as Novas Igrejas Particulares, no Dicastério para a Evangelização -  em entrevista à agência noticiosa Fides.

Salmo 126

O Salmo evoca aqueles que partem em lágrimas, levando sementes para semear, e que regressam cantando, trazendo consigo os seus feixes de grãos colhidos.

Para o arcebispo, esta imagem remete para a experiência dos missionários que deixaram as suas famílias para trás — sem contar com os modernos meios de transporte e de comunicação que temos hoje — muitas vezes sem saberem se voltariam a ver os seus entes queridos. ‘Para muitos, partir era como morrer’, observa. A partida implicava um sacrifício, partilhado também por aqueles que ficavam.

Contudo, esta partida é apenas uma parte da história. ‘A grande bênção é que aquilo que semearam cresceu e deu frutos’, prossegue Dom Fortunatus Nwachukwu. ‘Chegou o momento de recolher os feixes e trazê-los para casa.’ A imagem liga, portanto, a memória do sacrifício missionário aos dons que as Igrejas, nascidas deste compromisso, podem agora partilhar com todos.

Reconhecer esta dinâmica com gratidão também desafia uma interpretação puramente funcional da crescente presença de missionários do Sul Global em dioceses da Europa e da América do Norte. Quando questionado sobre como valorizar a herança espiritual e pastoral destes missionários — em vez de ver religiosas e padres do Sul Global apenas como resposta à queda do número de vocações no Ocidente, Dom Fortunatus Nwachukwu rejeita uma abordagem tão redutora.

‘A nível global, não temos, na verdade, falta de padres. O que temos é uma redistribuição de padres’, defende. A ênfase recai no reconhecimento destes missionários como portadores dos frutos da evangelização, e não como mero ‘pessoal’ vindo de longe para preencher vagas.

Um intercâmbio deste tipo exige preparação de ambas as partes. ‘Precisamos de preparar a casa para receber os feixes’ - explica o arcebispo. Ao mesmo tempo, ‘também precisamos de preparar os ‘feixes’ para que se adaptem bem às casas’. A tarefa da formação diz, portanto, respeito tanto às comunidades que acolhem como aos missionários que chegam.

A Conferência na Urbaniana

Promovida pelo Dicastério para a Evangelização, esta iniciativa conta com a participação do Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural da Universidade DePaul, da Faculdade de Missiologia da Urbaniana, bem como de várias instituições eclesiais e parceiros missionários dos cinco continentes. Os codiretores do projeto, o Padre Stan Chu Ilo e o Padre Jaeho Chung, farão a apresentação da iniciativa, enquanto o simpósio incluirá sessões dedicadas a cada um dos diferentes continentes.

A moderação dos trabalhos estará a cargo do Padre Agostino Hyuntaek Han, chefe de departamento no Dicastério missionário, e do Padre Antoine Pooda, da Diocese de Gaoua, no Burkina Faso, professor associado na Faculdade de Missiologia da Urbaniana e especialista em gestão de conflitos e educação social.

As sessões dedicadas aos vários continentes serão moderadas por : Gaetano Sabetta, professor de Diálogo Inter-Religioso na Faculdade de Missiologia da Urbaniana e consultor do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso; Antonina Wozna, teóloga que trabalha no ensino e na investigação nas universidades de Wuppertal e Graz; e Sandra Arenas, decana da Faculdade de Ciências Religiosas e Filosofia da Universidade Católica de Temuco, no Chile, especialista em Eclesiologia, Concílio Vaticano II e Ecumenismo. Estes três académicos moderarão, respectivamente, as discussões sobre a Europa e a América do Norte; África e Ásia; e América Latina e Caraíbas.

Um percurso educativo global  

O encontro em Roma insere-se num programa estruturado que se prolongará até ao Pentecostes de 2028. As ferramentas utilizadas ao longo deste percurso incluem um curso online de catorze módulos, intitulado ‘Troca de Dons : A Igreja dos Feixes’, cinco documentários focados nos diferentes continentes, cinco volumes sobre teologia pastoral, encontros regionais e um podcast. As consultas junto das dioceses e congregações religiosas abordarão temas como a hospitalidade, a pertença, a exclusão e a formação intercultural, fundamentando o projeto na experiência pastoral.

Para o Arcebispo Nwachukwu, esta iniciativa serve de testemunho e de auxílio para a redescoberta de que a missão não é um capítulo encerrado na história da Igreja. ‘A vida da Igreja é, na verdade, uma vida de missão’ - insiste — ‘ontem, hoje e amanhã’. Reunir os feixes significa reconhecer o que foi tornado possível através do sacrifício missionário e abrir toda a Igreja aos dons que dele surgiram. 

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2026-10/igreja-dos-feixes-coloquio-sobre-os-frutos-das-missoes.html

 

domingo, 18 de outubro de 2026

O complexo mundo novo da tecnologia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Jackson Erpen

 

A reflexão sobre a comunicação social e a missão evangelizadora da Igreja ganha especial atualidade diante das profundas transformações tecnológicas que marcam o nosso tempo. Muito antes da revolução das redes sociais, da comunicação digital e da inteligência artificial, São João Paulo II já percebia que os meios de comunicação não eram apenas instrumentos para transmitir uma mensagem, mas espaços capazes de moldar a cultura, as relações humanas, a formação da consciência e os próprios comportamentos. Na Carta apostólica O rápido desenvolvimento, publicada em 2005, o Pontífice polonês retomou o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II e insistiu que a Igreja não poderia permanecer à margem dessa nova realidade : era preciso entrar no ‘areópago da comunicação’, compreender suas linguagens e integrar o Evangelho na nova cultura criada e amplificada pelas tecnologias.

Ainda no âmbito das comunicações, Pe. Gerson Schmidt nos propõe hoje a reflexão ‘O complexo mundo novo da tecnologia’ :

‘A Carta apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘o rápido desenvolvimento’, dirigida aos responsáveis pelas comunicações sociais, premia a introdução desse nosso aprofundamento de hoje. Diz assim, no número 01, a introdução desse documento pontifício : ‘O rápido desenvolvimento das tecnologias no campo da mídia é certamente um dos sinais do progresso da sociedade de hoje. Olhando para estas novidades em constante evolução, torna-se ainda mais atual o que se lê no Decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II Inter Mirifica, promulgado pelo meu venerado predecessor, o servo de Deus Paulo VI, a 4 de Dezembro de 1963 : ‘Entre os maravilhosos inventos da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a Santa Igreja acolhe e fomenta aqueles que dizem respeito, principalmente, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens’(Inter Mirifica, n.1).

Segue, Papa João Paulo II, no número 2, dizendo assim : ‘A mais de quarenta anos após a publicação daquele documento – Inter Mirifica - é muito oportuno voltar a refletir sobre os ‘desafios’ que as comunicações sociais constituem para a Igreja, a qual, como realçou o Papa Paulo VI, ‘se sentiria culpável diante do seu Senhor se não usasse estes poderosos meios’(Exortação Apostólica Evangelii Nunciandi, número 35). Ou seja, Se a Igreja não utilizar os Modernos Meios de Comunicação – o rádio, a TV, o telefone, a internet, hoje a Inteligência Artificial, etc. será culpada diante de Deus no seu trabalho de levar o Evangelho a todos os povos. Continua essa Carta Apostólica do Santo Polonês : ‘Com efeito, a Igreja não está chamada unicamente a usar os mass media para difundir o Evangelho mas, hoje como nunca, está chamada também a integrar a mensagem salvífica na ‘nova cultura’ que os poderosos instrumentos da comunicação criam e amplificam. Ela sente que o uso das técnicas e das tecnologias da comunicação contemporânea é parte integrante da sua missão no Terceiro Milênio. Movida por esta consciência, a comunidade cristã deu passos significativos no uso dos instrumentos da comunicação na informação religiosa, na evangelização e na catequese, na formação dos operadores pastorais do setor e na educação para uma responsabilidade madura dos usufruidores e destinatários dos vários instrumentos da comunicação’.

João Paulo II recorda essa mudança de época, de um mundo conectado numa grande aldeia global. Lembramos que a ‘aldeia global’ é o conceito cunhado pelo sociólogo canadense Herbert Marshall McLuhan para explicar a ideia de que o avanço tecnológico tende a encurtar distâncias, recriando no planeta a situação social que ocorre em uma aldeia. Pelos meios eletrônicos, as pessoas estariam se reconectando em um mundo globalizado. Segundo McLuhan, as mídias de massa, fruto da evolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação, interligaram o mundo, estreitando suas relações econômicas, políticas e sociais. Diante desse fato e realidade moderna ou pós-moderna, essa Carta Apostólica do Sumo Pontífice São João Paulo II, ‘O RÁPIDO DESENVOLVIMENTO’, diz assim no número 03 : ‘São numerosos os desafios para a nova evangelização num mundo rico de potencialidades comunicativas como o nosso. Tendo isto em consideração, na Carta encíclica Redemptoris missio quis realçar que o primeiro areópago do tempo moderno é o mundo da comunicação, capaz de unificar a humanidade tornando-a como se costuma dizer ‘uma aldeia global’. Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas. A nossa época é uma época de comunicação global, onde muitos momentos da existência humana se desenrolam através de processos mediáticos, ou pelo menos, se devem confrontar com eles. Limito-me a recordar a formação da personalidade e da consciência, a interpretação e a estruturação dos vínculos afetivos, o desenvolvimento das fases educativas e formativas, a elaboração e a difusão de fenômenos culturais, o desenvolvimento da vida social, política e econômica’. O documento referendado é assinado e publicado por Joannes Paulus II, em 24 de janeiro de 20205, memória de São Francisco de Sales, patrono dos jornalistas. É o dia também que todos os anos os Papas divulgam a Mensagem para o dia Mundial da Comunicações Sociais. Atento aqui que há mais de 20 anos, o santo de nosso tempo, alertava para visão nova da realidade onde o indivíduo nasce já mergulhado na tecnologia. Repetimos o que já apontamos. Atentos ao que o Papa falava já em 2005, 39 dias antes de sua morte, em 02 de abril daquele ano, na festa do Domingo da Misericórdia por ele instituído : Os meios de comunicação social alcançaram tal importância que se tornaram para muitos o principal instrumento de guia e de inspiração para os comportamentos individuais, familiares e sociais. Trata-se de um problema complexo, visto que esta cultura nasce, ainda antes do que dos conteúdos, do próprio fato que existem novos modos de comunicar com técnicas e linguagens inéditas’.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2026-10/complexo-mundo-novo-da-tecnologia-pe-gerson-schmidt.html


sábado, 22 de novembro de 2025

Sao Columbano, Abade (543-615)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘‘Precisamos passar pela estrada real para a cidade de Deus por meio da aflição da carne e da contrição do coração, com a dura fadiga do corpo e a humilhação do espírito (…); se te distancias da batalha, também te distancias da coroa.’

Columbano ficou famoso pela severidade da sua ascese, embora poucos conheçam o seu ânimo delicado de poeta. Assim ele descreve uma viagem sua de barco descendo o rio Moselle para subir ao longo do Reno : ‘É belo entre os bosques cortar com a quilha a correnteza do Reno, deslizando docemente sobre as ondas. Povo meu, ouve-se o eco de cada grito. Levanta-se o vento, virá terrível a chuva, mas a força do homem domina a tempestade’.

A palavra da santa reclusa

Columbano nasceu na Irlanda, na província de Leinster, filho único de uma família rica que não teve necessidade de enviá-lo à escola do mosteiro, podendo oferecer-lhe excelentes mestres em casa. É compreensível que o mantivessem no lar, sonhando para ele uma vida feliz e uma bela descendência.

Entretanto, ao chegar à adolescência, gostava de dirigir o olhar para além das quatro paredes da nobre casa paterna, buscando horizontes mais amplos. Um dia foi aconselhar-se com uma reclusa famosa por sua santidade. Perguntou-lhe o que deveria fazer da sua vida. A mulher, fitando o jovem de coração puro e físico forte, com o gesto decidido dos profetas, não hesitou : intimou-o a deixar tudo e dirigir-se ao mosteiro mais próximo.

Columbano, sem se comover diante das lágrimas da mãe, despediu-se dos pais e mestres, colocando-se sob a orientação firme do Abade Sinell, do mosteiro de Clain-Inis.

Em casa, havia estudado com interesse não só a Bíblia, mas também os sábios e poetas pagãos – Sêneca, Virgílio, Ovídio, Lucano, Juvenal – e os poetas cristãos dos primeiros séculos, tendo alcançado sucesso em composições poéticas. No entanto, seu coração estava totalmente tomado pela observância monástica irlandesa, que não deixava espaço ao homem velho. No estudo da Sagrada Escritura e na leitura dos padres, alimento quotidiano do monge, descobria dimensões novas e insuspeitadas.

A santa reclusa dissera-lhe para fugir do mundo e ele o fez, mas, permanecendo ainda na sua terra e pertencendo à nobreza, parentes e amigos vinham visitá-lo com frequência, o que não o ajudava a romper com o antigo ambiente. Pediu então transferência para o norte, ao mosteiro de Bangor, sob a austera direção do Abade Comgallo.

Foi uma escolha feliz : a sintonia entre ambos era perfeita. O jovem Columbano compartilhava plenamente as diretrizes do abade e praticava com fervor a severa disciplina de Bangor. Sua inteligência livre impressionava o abade, que logo o promoveu a mestre dos noviços e pensava tê-lo, um dia, como sucessor.

A paixão do missionário

Esse desígnio, porém, não se concretizou. Columbano foi tomado pela febre missionária que, naquele tempo, ardia nos monges irlandeses : o desejo de evangelizar o continente europeu, mergulhado na barbárie e no paganismo após as invasões dos povos do norte e do leste.

A Irlanda havia sido poupada desse flagelo e conservara, em seus mosteiros, tanto a pureza da fé quanto a herança da civilização cristã trazida por São Patrício. Columbano convenceu o abade a deixá-lo partir com doze monges – um novo ‘colégio apostólico’ – para reevangelizar a Europa.

Após passarem pela Cornualha, desembarcaram na Gália por volta de 588-590. Apresentaram-se ao rei Gontrano, da Borgonha, a quem Columbano expôs seu plano : levar o Evangelho aos pagãos e construir um mosteiro entre eles, pedindo apenas um pedaço de terra inculta e liberdade para viver sem interferências.

O rei concedeu o pedido e logo começaram o trabalho. Cortaram árvores, reconstruíram muralhas e tetos, abriram portas e janelas. Antes do inverno, tinham já abrigo, lenha e uma igreja para orar.

O inverno foi rigoroso e as provisões, escassas. Na primavera, prepararam o solo e semearam. Um bispo local enviou víveres, comovido pela pobreza deles. Columbano agradeceu, mas advertiu o bispo para não interferir na vida interna do mosteiro.

O éden na floresta

Com o tempo, o povo acorria de longe para contemplar o milagre : a floresta transformada num jardim, um novo Éden. Diziam que os monges, silenciosos no trabalho e melodiosos na oração, tinham o dom de transformar tudo o que tocavam.

Certo dia, faltava-lhes água potável. Um monge lamentou-se ao abade, que indicou um local junto a uma grande árvore : ‘Cavem aqui, teremos água em abundância’. Brotou, de fato, uma fonte inesgotável, o que o povo considerou um milagre.

A vida na floresta harmonizava-se com a natureza : monges, animais e plantas conviviam em paz. Passarinhos não fugiam deles; cabritos e corças comiam em suas mãos.

O historiador Jonas de Bobbio, que escreveu a vida de Columbano, relata que ele se retirou certa vez para orar numa gruta, antiga morada de um urso. Ao regressar, o urso o encontrou, mas não o atacou. Depois de comer sua presa, retirou-se, deixando a pele, da qual o santo aproveitou para fazer sandálias para os monges.

A comunidade crescia, recebendo jovens e até bandidos arrependidos. Columbano discernia cada vocação, acolhendo os sinceros e afastando os dissimulados. Fundou outros dois mosteiros – Luxeuil e Fontaine – e escreveu as Regras dos Monges e Regras Domésticas, que estabeleciam a disciplina e as penitências.

A maldade de Bruneilde

A corte do rei Teodorico era marcada pela corrupção. Quem governava de fato era a rainha-mãe Bruneilde, que impedia o casamento do filho e o cercava de vícios. Columbano, firme na fé, recusou-se a abençoar os filhos ilegítimos do rei, dizendo ‘Estes não levarão jamais o cetro.’

Bruneilde, furiosa, perseguiu o abade, decretando seu exílio. Columbano e os monges irlandeses foram presos e enviados a Besançon. Mais tarde, libertado, regressou brevemente a Luxeuil, mas a perseguição continuou. Expulso novamente, escreveu aos monges : ‘Se afastares os adversários, não existe mais luta; e sem luta, não existe coroa. Com a luta vêm a coragem, a vigilância, o fervor, a paciência, a fidelidade, a sabedoria, a firmeza, mas, se suprimes a liberdade, suprimes também a dignidade’.

A viagem para Bobbio

Columbano partiu então para novas terras. Após evangelizar na região do lago de Constança e enfrentar resistências, atravessou os Alpes e chegou à corte do rei dos longobardos, Agilulfo. Por intermédio da rainha Teodolinda, recebeu terras às margens do rio Bobbio, onde fundou o seu último mosteiro.

Ali, já idoso e enfermo, trabalhou até a morte, em 23 de novembro de 615. Seus mosteiros formaram uma rede que unia povos diversos na fé cristã e reavivava a cultura à luz do Evangelho.

A espiritualidade columbana

A espiritualidade de Columbano era simples e firme : o Evangelho vivido com radicalidade. Em suas Instruções aos monges, ele escreveu : ‘Se o homem usar retamente as faculdades que Deus concedeu à sua alma, será semelhante a Deus (…). O primeiro mandamento é amar o Senhor com todo o coração, porque Ele nos amou primeiro. O verdadeiro amor, porém, não se demonstra com simples palavras, mas com fatos e na verdade’.

Columbano ensinava que o amor renova a imagem de Deus em nós : ‘Precisamos restituí-la na caridade, porque Ele é caridade (…). Precisamos restituí-la na bondade e na verdade, porque Ele é bom e verdadeiro (…). Intervenha o próprio Cristo e trace no nosso espírito os traços específicos de Deus, infundindo-nos a sua paz’.

Em um mundo marcado por rivalidades e vinganças, Columbano pregava que os discípulos de Cristo deveriam ser ‘espirituais e unânimes’, vivendo em concórdia fraterna e unidade eclesial, reflexo da própria unidade de Deus.

Para ele, chegar à unanimidade exigia seguir Cristo crucificado – um seguimento que não gera tristeza, mas alegria : ‘Não existe sofrimento no amor, naquele amor de Deus que renova em nós a sua imagem’.

 Assim viveu e ensinou São Columbano, abade e missionário, cuja vida uniu fé, cultura e civilização sob o sinal da cruz e da liberdade cristã.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-columbano-abade-543-615-23-de-novembro.html

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A missão e a revolução da ternura

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Brás Lorenzetti


‘Um dos aspectos importantes da vida de um cristão é a sua disposição para partilhar a fé em que acredita. Em outros tempos, falava-se em missão; atualmente, preferimos o termo ‘evangelização’. Esse ‘embeber-se’ do espírito missionário tem como finalidade que nos sintamos comprometidos e identificados com a própria missão da Igreja, que é anunciar o Evangelho ao maior número possível de pessoas. Se acreditamos que viver em profundidade a fé dá sentido à vida e nos faz felizes, queremos que outros também tenham a mesma oportunidade e sintam essa alegria e felicidade em suas vidas.

Existem muitas formas de ser evangelizador, de acordo com o dom de cada um. Uma dessas formas é a oração, que não pode faltar nunca na ação missionária. O fruto que colhemos é a paz : em nossos corações, nas famílias e na sociedade.

A humanidade vive hoje uma situação preocupante : nunca houve no mundo tantos conflitos armados ao mesmo tempo, desde a Segunda Guerra Mundial. Atualmente assistimos a um triste recorde de guerras e conflitos entre países e grupos; os continentes todos possuem essa ‘mancha’ da violência em seus territórios. 

Em nosso país, não temos conflitos armados de grandes proporções, porém, os grupos armados e facções promovem uma verdadeira guerra urbana, vivendo do assalto e do roubo que, junto com a droga, levam ao medo e à morte. A sociedade, sobretudo nos grandes centros urbanos, convive com o medo que, no fundo, tem como raízes a desigualdade e o incentivo ao acúmulo descontrolado de bens. 

A proposta da Igreja é que essa guerra só pode ser vencida com a revolução da ternura. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho) propõe ‘(…) um estilo mariano na atividade evangelizadora da Igreja. Porque sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto’ (288). De fato, a presença de Maria, estrela da nova evangelização, estimula-nos a confiar no seu poder intercessor como forma de combater o ódio, a intolerância e a violência na sociedade. De nossa parte, o convite é que colaboremos com a promoção da justiça social, fator que leva à pacificação da sociedade.

Os cristãos católicos, juntamente com o empenho pela igualdade e pela justiça, estão redescobrindo a força da oração, especialmente mediada e motivada pela intercessão de Maria, especialmente por meio do santo Rosário. Que esse movimento mariano progrida cada vez mais como um verdadeiro modo de evangelizar e de fazer frente à violência e às guerras existentes no mundo. Confiemos, pois, no poder intercessor da nossa mãe Maria e tenhamos como missão acreditar e colaborar pela paz no mundo.

Ó Maria, mãe da ternura e estrela da evangelização, rogai por nós!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-missao-e-a-revolucao-da-ternura.html

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Ser monge num monaquismo jovem

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Alex Echeandia, OSB

Prior da Comunidade de Lurin, Peru

 

‘A palavra ‘experiência’ é habitualmente usada para uma pessoa mais velha, um homem, ou uma mulher, que viveu no quadro de uma grande tradição de hábitos, costumes e de um estilo de vida. Neste sentido a tradição do monaquismo peruano é bastante nova, pois é recente, data da fundação do primeiro mosteiro beneditino que foi fundado nos anos 1960.

A Igreja do Peru não conhecia a palavra ‘monaquismo’ quando as ordens mendicantes chegaram. De fato, a Coroa espanhola não autorizava os monges a entrar nas Novas Índias, porque eram consideradas terra de missão. A história conta que quando Cristóvão Colombo fez a segunda viagem à América já havia frades franciscanos. O objetivo principal era evangelizar o Novo Mundo. A evangelização precisava de catequese e do desaparecimento de toda a forma de idolatria.

Mas, a evangelização foi realizada por monges, bem antes que as ordens mendicantes existissem na Igreja. Na Igreja dos primeiros séculos houve monges missionários muito célebres, como São Columbano, Santo Agostinho de Cantuária, São Bonifácio de Fulda e muitos outros, que levaram o Evangelho para a Europa e para o Leste.

O fato das Ordens mendicantes estarem muito vivas no final do século 15, foi crucial para a decisão dos espanhóis em enviar sobretudo franciscanos e dominicanos para evangelizar a América. Aliás a vida monástica na Espanha estava em fase de reforma. Por isso a Coroa não pediu aos monges para se juntarem ao novo movimento de evangelização. Só as monjas dessas Ordens foram convidadas a ajudar na intenção dessas missões, com sua oração e seu modo de vida. Na história do Peru, contudo, diz-se que houve um pequeno grupo de monges que veio da Espanha. De fato, os Jeronimitas e os monges de Monserrate estabeleceram-se no país, mas como uma simples presença, sem nenhum desenvolvimento.

Houve também, e é admirável, um mosteiro cisterciense fundado no século 16 em Lima, por uma mãe e sua filha, Lucrécia de Sanzoles e Mencia de Vargas : o mosteiro da Santíssima Trindade. Com aprovação do Papa, a fundação foi erigida por São Turíbio de Mongrovejo, então arcebispo de Lima. O mosteiro existiu desde o século 16 até aos anos 1960, quando foi supresso. As monjas cistercienses de Huelgas (Espanha) vieram em 1992 para refundar o mosteiro na periferia de Lima, em Lurín, onde retomaram a história desse mosteiro. Elas voltaram para Espanha em 2017, por falta de vocações, e pediram-nos para assumir o lugar onde estão enterradas as fundadoras e monjas cistercienses, que morreram. É lá que nós vivemos, continuando a história e a tradição, e sobretudo a oração de uma comunidade monástica na Igreja do Peru. Os fatos históricos manifestam, seguramente, que Deus trabalha segundo perspectivas inesperadas.

Menciono estes fatos históricos porque depois de quatro projetos abortados, vindos de regiões e de congregações beneditinas diferentes, nós sobrevivemos pela graça de Deus. Somos a primeira comunidade beneditina no Peru, vivendo a vida monástica com, unicamente monges peruanos. O monaquismo masculino é quase desconhecido no Peru. Mas o Senhor inspirou homens a viverem um estilo de vida, que existe desde os primeiros séculos da Igreja no seio de uma rica tradição.

Pessoalmente não conhecia muita coisa da vida monástica, por não existirem muitas informações sobre o assunto na Igreja do Peru. As primeiras Ordens estabelecidas no país eram mais conhecidas. No entanto, o Senhor chama homens e mulheres para o procurarem na perspectiva dinâmica de uma vida de oração e de trabalho, com o Ofício Divino, a lectio e o estudo, o acolhimento e o acompanhamento espiritual, no interior do claustro e para a Igreja e o mundo inteiros.

Entrei no mosteiro quando tinha 20 anos. Encontrei uma pequena comunidade fundada em 1981 (2 anos antes de eu nascer) pela abadia de Belmont na Inglaterra. Fui convidado a visitá-lo, sem saber a imensa alegria que ia produzir em mim aquela hora de oração em que iria participar : as Completas. Fui cativado e tocado no mais profundo do meu ser. Algo de estranho e de novo aconteceu. Experimentei o conhecimento do que era a vida monástica. Rezar os salmos foi, concretamente, para mim um encontro com Deus, na minha própria vida de fé.

Não conhecia nada da cultura monástica. Progressivamente aprendi mais sobre sua história, o sentido, a riqueza e o objetivo desse tipo de vida. Foi um encontro com Deus por meio de um caminho bem misterioso. O Senhor me fez fazer a experiência do seu chamado e da minha resposta no contexto da vida monástica.

Como já disse, não havia verdadeiramente história monástica nos países de língua espanhola na América do Sul. Diferentemente do Brasil, de língua portuguesa, os outros países da América do Sul só receberam as primeiras fundações monásticas no final do século 19. É interessante notar que se o monaquismo é o ponto de partida da vida religiosa na Igreja, na vida religiosa do continente latino-americano, é uma realidade totalmente nova.

Minha comunidade e eu mesmo no Peru fizemos a experiência da presença de Deus à medida que nos desenvolvemos na terra deserta deste país. A comunidade tem, agora, sete monges de votos solenes, há dois noviços e um certo número que se prepara para entrar.

O Senhor me chamou para viver a vida monástica num tempo e num espaço determinado. Convidou-me, assim como a meus irmãos, a seguir o Cristo segundo a Regra de São Bento. É assim que a vida monástica se estabeleceu no nosso país, para que em tudo seja Deus glorificado.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/117


domingo, 16 de março de 2025

São Patrício

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

17 de março – O apóstolo da ilha verde (385-461)

*Artigo da redação da revista Ave Maria


 ‘Patrício não nasceu na Irlanda; pelo contrário, o primeiro encontro com aquela belíssima terra foi para ele muito desagradável. Tinha apenas 16 anos quando os piratas o levaram da Grã-Bretanha, sua terra, e o venderam como escravo nas costas nórdicas da Ilha Verde a um desconhecido, talvez um chefe de tribo.

Um sonho desfeito

Foi o período mais duro de sua vida. O seu pensamento retornava continuamente à casa paterna, à mãe, uma cristã autêntica, e ao pai, diácono da comunidade de Bannhaven Taberniae, onde Patrício nasceu em 385 e onde tinha recebido uma educação muito esmerada.

Talvez naquele período tivesse pensado em dirigir uma comunidade cristã como o pai ou de se tornar monge para difundir o Evangelho, mas então o tempo dos sonhos tinha tragicamente acabado! Sim, encontrava-se em terra estrangeira, no meio de um povo que até o momento não era cristão, do qual não entendia uma palavra e passava o dia todo cuidando dos animais, coisa que jamais tinha feito em toda a sua vida.

Por duas vezes tentou fugir, mas, inutilmente. Terá duvidado de que talvez Deus o quisesse naquelas terras e no meio daquele povo? À medida que se adaptava aos costumes de seus patrões e aprendia sua língua, descobria com surpresa que não eram assim tão rudes como lhe parecera no início. Também a organização tribal revelava qualquer coisa de nobre e os relacionamentos entre as famílias e entre as tribos eram fundamentados no respeito recíproco.

Certamente que lhes faltava a fé cristã, adoravam ainda os ídolos, mas o que ele poderia ter feito sozinho e sem nenhuma experiência nesse campo? E ele não era sempre um pobre escravo? Que sentido tinha a sua permanência nesse país estrangeiro? Precisava fugir a todo custo.

Organizou pela terceira vez um plano de fuga e dessa vez conseguiu perfeitamente. Havia seis anos que estava longe de casa. 

À escola de São Germano

Não sabemos se o navio o repatriou ou se o deixou nas costas francesas. Sabe-se com certeza que em determinado momento Patrício apareceu em Auxerre, junto ao bispo São Germano (†448), homem de profundo conhecimento de ciência e de grande santidade que, por sua vez, estivera na Inglaterra para restabelecer a paz naquela Igreja perturbada pela heresia pelagiana.

São Germano acolheu com muita satisfação o jovem britânico e ouviu com interesse a descrição das suas peripécias. Ali descobriu o dedo da providência. Quem melhor do que ele, que conhecia por experiência pessoal a língua e os costumes dos celtas e dos escoceses – como eram chamados os irlandeses –, poderia levá-los à fé cristã? É verdade que o Papa Celestino já tinha mandado um bispo para a Irlanda, mas este não tinha conseguido entrar no coração daquela gente.

A ideia não desgostou a Patrício, que, depois de ter completado em Auxerre a sua formação cristã e cultural sob a direção do santo bispo, esteve por um tempo em Lérins, centro monástico de fama europeia, defronte à Provença, onde mergulhou com todas as suas forças na vida monástica, convencido de que só com esse carisma poderia plantar a Igreja de maneira duradoura entre os povos da Irlanda.

Tendo vivido com eles por seis anos, tinha notado que havia uma grande diferença entre a psicologia dos habitantes das ilhas juntos em uma mesma cultura mais familiar e mais estática e a dos habitantes do continente, continuamente imersos em acontecimentos históricos e mais movimentados e com mais fôlego, por isso quis visitar os numerosos pequenos mosteiros das ilhas do mar Tirreno, em frente à atual Toscana, e ver com os próprios olhos o método adotado pelos monges para cristianizar os habitantes das ilhas.

O evangelizador da ilha

Naquele período, teria visitado Roma e falado com o Papa? É possível, mas, não o sabemos com certeza; ao contrário, sabemos com segurança que no ano de 432, com a morte de Palladio, o primeiro bispo da Irlanda, Patrício foi nomeado seu sucessor e partiu o mais rápido possível com um grupo de monges rumo à sua missão. Estabelecendo-se em Armagh, começou a preparar seus planos. A Irlanda, de modo diverso da Inglaterra, não tinha conhecido o domínio romano e, portanto, não havia naquela ilha nenhuma estrutura social sobre a qual basear-se para iniciar a evangelização. Seus habitantes eram subdivididos em clãs, bem unidos internamente e bem diferentes entre si. Tinham cultura e organização tribal próprias, às quais eram muito apegados.

Patrício aproximou pessoalmente os chefes dos clãs, favorecido pelo fato de que conhecia bem sua língua e costumes. Mostrou-lhes a sua primeira abadia e propôs-lhes construir outras para servir sua gente. Fez-se ajudar por eles na construção e os fez corresponsáveis também pela manutenção. Não lhe foi difícil enchê-las de jovens irlandeses, educando-os com a ajuda de seus monges.

Os chefes, respeitados nos seus cargos, foram os primeiros a abraçar a fé, arrastando consigo os próprios clãs. As abadias se multiplicavam e ao redor surgiam as habitações dos chefes e do povo, embriões das futuras cidades. Os monges, sob a sábia direção de Patrício, conseguiram englobar na fé cristã tudo o que a religiosidade anterior continha de positivo, deixando de lado o que por sua vez era inconciliável. Essa capacidade genial de Patrício de se identificar com a alma irlandesa e de compreendê-la até o fundo explica por que a pregação da nova fé não teve nenhum mártir naquela terra, mesmo que seus habitantes fossem um povo de guerreiros e frequentemente em luta entre si. Assim, a cultura monástica conseguiu encarnar-se na vida daquele povo generoso e altivo sem provocar traumas com o seu passado.

Patrício escolhia entre os jovens do lugar seus monges e padres. Entre eles não havia muita diferença, pois os monges sacerdotes exerciam com empenho o ministério pastoral e os padres diocesanos viviam com prazer com os monges ao redor do seu bispo que, por sua vez, ou era o abade ou o monge escolhido pelo mesmo abade e, portanto, entregue à sua responsabilidade. Sobre todos estava a figura paterna e carismática de Patrício. Ele percorria a ilha em todas as direções para visitar os mosteiros e as dioceses sob sua responsabilidade e para que fossem sempre o centro da vida evangélica à altura de seu carisma e missão.

Nos últimos dias de sua vida, contemplando a obra que Deus tinha realizado na ilha, exclamava comovido : ‘De onde me veio essa sabedoria que antes eu não tinha? Eu não sabia nem mesmo contar os dias, nem era capaz de amar a Deus. Como então me foi dado um dom assim tão grande e salutar como este de conhecer a Deus e de amá-lo? Quem me deu forças para abandonar a pátria e os meus pais e rejeitar as honras que me foram oferecidas e vir a pregar o Evangelho para o povo da Irlanda, suportando os ultrajes dos incrédulos e a infâmia do exílio, sem contar as numerosas perseguições e até mesmo as correntes da prisão e o cárcere? Assim, eu sacrifiquei minha liberdade pela salvação dos outros. Se não sou digno estou pronto também para oferecer, sem hesitar e com muito prazer, minha vida pelo seu nome. Se o Senhor me der a graça, desejo consagrar as minhas forças a essa causa’.

Patrício terminou sua vida em paz em Ulster em 461, em Down, cidade que se chamaria Downpatrick (cidade de Patrício). Sua missão já se podia dizer cumprida, pois ninguém até hoje conseguiu arrancar o cristianismo do coração dos habitantes da Ilha Verde.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/author/da-redacao

sábado, 30 de novembro de 2024

Santo André, Apóstolo (século I)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da redação da revista Ave Maria


‘Maravilha e encanta a espontaneidade de André, irmão de Simão, nascido em Betsaida. Junto com o pai, Jonas, e com o irmão dedicava-se à pesca no lago de Tiberíades, na Galileia, e morava em Cafarnaum. No seu nome percebe-se que a influência da cultura grega tinha chegado também àquela região.

O episódio mais simpático de sua vida nos é narrado no Evangelho de João (cf. Jo 1,35-42). André tinha ido para as margens do Jordão junto com João, o futuro evangelista, para escutar João Batista. Este, indicando-lhes Jesus, disse : ‘Eis o Cordeiro de Deus! ‘E os dois discípulos, ouvindo-o falar assim, seguiram Jesus. Jesus então se voltou e, vendo que o seguiam, disse : ‘Que procurais?’. Responderam-lhe : ‘Rabi (que significa ‘mestre’), onde moras?’. Disse-lhes : ‘Vinde e vede’. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram aquele dia junto dele; eram cerca de quatro horas da tarde’ (Jo 1,36-39).

O encontro deve ter sido particularmente marcante, visto que os dois recordavam até mesmo a hora daquele dia inesquecível : ‘Eram cerca das quatro horas da tarde’ (diz o texto bíblico ‘Era cerca da hora décima’ (Jo 1,39) e a nota confirma a equivalência, pelas quatro horas da tarde].

‘Um dos dois que tinham ouvido as palavras de João e o haviam seguido era André, irmão de Simão Pedro’ está escrito em João1,40. São João Crisóstomo faz este comentário : ‘André, tendo ficado perto de Jesus e tendo aprendido muitas coisas, não manteve escondido em si esse tesouro, mas apressou-se a correr para junto de seu irmão para torná-lo participante disso’. Já o destino dos dois estava marcado para sempre, porque o Mestre havia colocado seus olhos neles.

Esse, de fato, segundo a narrativa do evangelista Marcos, ‘passando junto do mar da Galileia, viu Simão e André, irmão de Simão, enquanto lançavam as redes ao mar; eram de fato pescadores. Jesus disse-lhes : ‘Segui-me, eu vos farei pescadores de homens’. E logo, deixadas as redes, seguiram-no’ (Mc 1,16). André foi com João entre os mais íntimos de Jesus. A ele se dirigiu Filipe para que dissesse a Jesus que os gregos o queriam ver (cf. Jo 12,20-23). Quando Jesus pediu que dessem de comer à multidão que o havia escutado, André apresentou ao Mestre um menino com cinco pães e dois peixes (cf. Jo 6,8-9).

No monte das Oliveiras perguntou a Jesus, junto com Pedro, Tiago e João, quando aconteceria a destruição do maravilhoso templo que brilhava diante dos seus olhos (cf. Mc 13,3). Depois da paixão, André estava com os outros apóstolos no Cenáculo aguardando a vinda do Espírito Santo (cf. At 1,13) e depois de Pentecostes, segundo a tradição, teria encorajado o apóstolo São João a narrar os fatos e as palavras de Jesus no seu Evangelho. Segundo Orígenes, André teria pregado o Evangelho na Cítia, no Ponto Euxino, na Capadócia, na Galácia e na Bitínia. Depois, segundo São Jerônimo, teria passado a evangelizar a Acaia, firmando-se em Patrasso, onde teria sofrido o martírio aproximadamente nos anos 60, pregado em uma cruz, cujos braços eram dispostos diagonalmente. Daí o nome de cruz de Santo André. 

Mais tarde, no século IV, suas relíquias foram transportadas para Constantinopla, que o escolheu como seu padroeiro. A nova Roma possuía o ‘troféu’ do irmão de Pedro e deu a André o título de Protocleto, isto é, de primeiro chamado, mesmo que o mesmo título diga respeito igualmente a São João evangelista.

Em 1208, os alfenenses levaram para a sua cidade as relíquias do apóstolo e, em 1462, deram sua cabeça à Igreja de Roma. Em sinal de reconciliação, o Papa Paulo VI, em 1964, restituiu essa relíquia para a igreja irmã de Constantinopla.

Atualmente, a relíquia da cabeça de Santo André é conservada em Patrasso.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/santo-andre-apostolo-seculo-i.html