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sábado, 22 de novembro de 2025

Sao Columbano, Abade (543-615)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘‘Precisamos passar pela estrada real para a cidade de Deus por meio da aflição da carne e da contrição do coração, com a dura fadiga do corpo e a humilhação do espírito (…); se te distancias da batalha, também te distancias da coroa.’

Columbano ficou famoso pela severidade da sua ascese, embora poucos conheçam o seu ânimo delicado de poeta. Assim ele descreve uma viagem sua de barco descendo o rio Moselle para subir ao longo do Reno : ‘É belo entre os bosques cortar com a quilha a correnteza do Reno, deslizando docemente sobre as ondas. Povo meu, ouve-se o eco de cada grito. Levanta-se o vento, virá terrível a chuva, mas a força do homem domina a tempestade’.

A palavra da santa reclusa

Columbano nasceu na Irlanda, na província de Leinster, filho único de uma família rica que não teve necessidade de enviá-lo à escola do mosteiro, podendo oferecer-lhe excelentes mestres em casa. É compreensível que o mantivessem no lar, sonhando para ele uma vida feliz e uma bela descendência.

Entretanto, ao chegar à adolescência, gostava de dirigir o olhar para além das quatro paredes da nobre casa paterna, buscando horizontes mais amplos. Um dia foi aconselhar-se com uma reclusa famosa por sua santidade. Perguntou-lhe o que deveria fazer da sua vida. A mulher, fitando o jovem de coração puro e físico forte, com o gesto decidido dos profetas, não hesitou : intimou-o a deixar tudo e dirigir-se ao mosteiro mais próximo.

Columbano, sem se comover diante das lágrimas da mãe, despediu-se dos pais e mestres, colocando-se sob a orientação firme do Abade Sinell, do mosteiro de Clain-Inis.

Em casa, havia estudado com interesse não só a Bíblia, mas também os sábios e poetas pagãos – Sêneca, Virgílio, Ovídio, Lucano, Juvenal – e os poetas cristãos dos primeiros séculos, tendo alcançado sucesso em composições poéticas. No entanto, seu coração estava totalmente tomado pela observância monástica irlandesa, que não deixava espaço ao homem velho. No estudo da Sagrada Escritura e na leitura dos padres, alimento quotidiano do monge, descobria dimensões novas e insuspeitadas.

A santa reclusa dissera-lhe para fugir do mundo e ele o fez, mas, permanecendo ainda na sua terra e pertencendo à nobreza, parentes e amigos vinham visitá-lo com frequência, o que não o ajudava a romper com o antigo ambiente. Pediu então transferência para o norte, ao mosteiro de Bangor, sob a austera direção do Abade Comgallo.

Foi uma escolha feliz : a sintonia entre ambos era perfeita. O jovem Columbano compartilhava plenamente as diretrizes do abade e praticava com fervor a severa disciplina de Bangor. Sua inteligência livre impressionava o abade, que logo o promoveu a mestre dos noviços e pensava tê-lo, um dia, como sucessor.

A paixão do missionário

Esse desígnio, porém, não se concretizou. Columbano foi tomado pela febre missionária que, naquele tempo, ardia nos monges irlandeses : o desejo de evangelizar o continente europeu, mergulhado na barbárie e no paganismo após as invasões dos povos do norte e do leste.

A Irlanda havia sido poupada desse flagelo e conservara, em seus mosteiros, tanto a pureza da fé quanto a herança da civilização cristã trazida por São Patrício. Columbano convenceu o abade a deixá-lo partir com doze monges – um novo ‘colégio apostólico’ – para reevangelizar a Europa.

Após passarem pela Cornualha, desembarcaram na Gália por volta de 588-590. Apresentaram-se ao rei Gontrano, da Borgonha, a quem Columbano expôs seu plano : levar o Evangelho aos pagãos e construir um mosteiro entre eles, pedindo apenas um pedaço de terra inculta e liberdade para viver sem interferências.

O rei concedeu o pedido e logo começaram o trabalho. Cortaram árvores, reconstruíram muralhas e tetos, abriram portas e janelas. Antes do inverno, tinham já abrigo, lenha e uma igreja para orar.

O inverno foi rigoroso e as provisões, escassas. Na primavera, prepararam o solo e semearam. Um bispo local enviou víveres, comovido pela pobreza deles. Columbano agradeceu, mas advertiu o bispo para não interferir na vida interna do mosteiro.

O éden na floresta

Com o tempo, o povo acorria de longe para contemplar o milagre : a floresta transformada num jardim, um novo Éden. Diziam que os monges, silenciosos no trabalho e melodiosos na oração, tinham o dom de transformar tudo o que tocavam.

Certo dia, faltava-lhes água potável. Um monge lamentou-se ao abade, que indicou um local junto a uma grande árvore : ‘Cavem aqui, teremos água em abundância’. Brotou, de fato, uma fonte inesgotável, o que o povo considerou um milagre.

A vida na floresta harmonizava-se com a natureza : monges, animais e plantas conviviam em paz. Passarinhos não fugiam deles; cabritos e corças comiam em suas mãos.

O historiador Jonas de Bobbio, que escreveu a vida de Columbano, relata que ele se retirou certa vez para orar numa gruta, antiga morada de um urso. Ao regressar, o urso o encontrou, mas não o atacou. Depois de comer sua presa, retirou-se, deixando a pele, da qual o santo aproveitou para fazer sandálias para os monges.

A comunidade crescia, recebendo jovens e até bandidos arrependidos. Columbano discernia cada vocação, acolhendo os sinceros e afastando os dissimulados. Fundou outros dois mosteiros – Luxeuil e Fontaine – e escreveu as Regras dos Monges e Regras Domésticas, que estabeleciam a disciplina e as penitências.

A maldade de Bruneilde

A corte do rei Teodorico era marcada pela corrupção. Quem governava de fato era a rainha-mãe Bruneilde, que impedia o casamento do filho e o cercava de vícios. Columbano, firme na fé, recusou-se a abençoar os filhos ilegítimos do rei, dizendo ‘Estes não levarão jamais o cetro.’

Bruneilde, furiosa, perseguiu o abade, decretando seu exílio. Columbano e os monges irlandeses foram presos e enviados a Besançon. Mais tarde, libertado, regressou brevemente a Luxeuil, mas a perseguição continuou. Expulso novamente, escreveu aos monges : ‘Se afastares os adversários, não existe mais luta; e sem luta, não existe coroa. Com a luta vêm a coragem, a vigilância, o fervor, a paciência, a fidelidade, a sabedoria, a firmeza, mas, se suprimes a liberdade, suprimes também a dignidade’.

A viagem para Bobbio

Columbano partiu então para novas terras. Após evangelizar na região do lago de Constança e enfrentar resistências, atravessou os Alpes e chegou à corte do rei dos longobardos, Agilulfo. Por intermédio da rainha Teodolinda, recebeu terras às margens do rio Bobbio, onde fundou o seu último mosteiro.

Ali, já idoso e enfermo, trabalhou até a morte, em 23 de novembro de 615. Seus mosteiros formaram uma rede que unia povos diversos na fé cristã e reavivava a cultura à luz do Evangelho.

A espiritualidade columbana

A espiritualidade de Columbano era simples e firme : o Evangelho vivido com radicalidade. Em suas Instruções aos monges, ele escreveu : ‘Se o homem usar retamente as faculdades que Deus concedeu à sua alma, será semelhante a Deus (…). O primeiro mandamento é amar o Senhor com todo o coração, porque Ele nos amou primeiro. O verdadeiro amor, porém, não se demonstra com simples palavras, mas com fatos e na verdade’.

Columbano ensinava que o amor renova a imagem de Deus em nós : ‘Precisamos restituí-la na caridade, porque Ele é caridade (…). Precisamos restituí-la na bondade e na verdade, porque Ele é bom e verdadeiro (…). Intervenha o próprio Cristo e trace no nosso espírito os traços específicos de Deus, infundindo-nos a sua paz’.

Em um mundo marcado por rivalidades e vinganças, Columbano pregava que os discípulos de Cristo deveriam ser ‘espirituais e unânimes’, vivendo em concórdia fraterna e unidade eclesial, reflexo da própria unidade de Deus.

Para ele, chegar à unanimidade exigia seguir Cristo crucificado – um seguimento que não gera tristeza, mas alegria : ‘Não existe sofrimento no amor, naquele amor de Deus que renova em nós a sua imagem’.

 Assim viveu e ensinou São Columbano, abade e missionário, cuja vida uniu fé, cultura e civilização sob o sinal da cruz e da liberdade cristã.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-columbano-abade-543-615-23-de-novembro.html

domingo, 24 de novembro de 2013

São Columbano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Bento XVI, Papa Emérito


            Hoje gostaria de falar do santo abade Columbano, o irlandês mais conhecido do início da Idade Média : com razão ele pode ser chamado um santo ‘europeu’, porque como monge, missionário e escritor trabalhou em vários países da Europa ocidental. Juntamente com os irlandeses do seu tempo, ele estava consciente da unidade cultural da Europa. Numa carta, escrita por volta do ano 600 e dirigida ao Papa Gregório Magno, encontra-se pela primeira vez a expressão ‘totius Europae – de toda a Europa’, referindo-se à presença da Igreja no continente (cf. Epistula I,1).
 
            Columbano nasceu por volta do ano 543 na província de Leinster, no sudeste da Irlanda. Educado na própria casa por ótimos mestres que o iniciaram no estudo das artes liberais, confiou-se depois à guia do abade Sinell da comunidade de Cluain-Inis, na Irlanda setentrional, onde pode aprofundar o estudo das Sagradas Escrituras. Com cerca de trinta anos entrou no Mosteiro de Bangor, no nordeste da ilha, onde era abade Comgall, um monge muito conhecido pela sua virtude e pelo seu rigor ascético. Em total sintonia com o seu abade, Columbano praticou com zelo a severa disciplina do mosteiro, conduzindo uma vida de oração, de ascese e de estudo. Ali foi também ordenado sacerdote. A vida em Bangor e o exemplo do abade influenciaram a concepção do monaquismo que Columbano maturou com o tempo e difundiu depois ao longo da sua vida.
 
            Aos cinquenta anos, seguindo o ideal ascético tipicamente irlandês da peregrinatio pro Christo, isto é, do fazer-se peregrino por Cristo, Columbano deixou a ilha para empreender com doze companheiros uma obra missionária no continente europeu. De fato, devemos ter presente que a migração de povos do norte e do leste fizeram voltar ao paganismo regiões inteiras já cristianizadas. Por volta do ano 590, este pequeno grupo de missionários chegou à costa da Bretanha. Acolhidos com benevolência pelo rei dos Francos da Austrásia (atual França), pediram apenas um pouco de terra inculta. Obtiveram a antiga fortaleza romana de Annegray, totalmente em ruínas e abandonada, já coberta pela floresta. Habituados a uma vida de extrema renúncia, os monges conseguiram em poucos meses construir sobre as ruínas o primeiro eremitério. Assim, a sua reevangelização começou a desenvolver-se antes de tudo mediante o testemunho da vida. Com a nova cultivação da terra começou também uma nova cultivação das almas. A fama daqueles religiosos estrangeiros que, vivendo de oração e em grande austeridade, construíam casas e arroteavam a terra, difundiu-se rapidamente, atraindo peregrinos e penitentes. Sobretudo muitos jovens pediam para ser acolhidos na comunidade monástica para viver, como eles, esta vida exemplar que renovava a cultura da terra e das almas. Depressa se tornou necessária a fundação de um segundo mosteiro. Foi edificado a poucos quilômetros de distancia, sobre as ruínas de uma antiga cidade termal, Luxeuil. O mosteiro tornar-se-ia depois o centro da irradiação monástica e missionária de tradição irlandesa no continente europeu. Um terceiro mosteiro foi erigido em Fontaine, a uma hora de caminho mais ao norte.
 
            Em Luxeuil, Columbano viveu quase vinte anos. Ali, o santo escreveu para os seus seguidores a Regula monachorum, durante um certo período mais difundida na Europa do que a de São Bento, designando a imagem ideal do monge. É a única antiga regra monástica irlandesa que hoje possuímos. Como integração, ele elaborou a Regula coenobialis, uma espécie de código penal para as faltas dos monges, com punições bastante surpreendentes para a sensibilidade moderna, explicáveis apenas com a mentalidade do tempo e do ambiente. Com outra obra famosa intitulada De poenitentiarum misura taxanda, escrita também em Luxeuil, Columbano introduziu no continente a confissão e a penitencia privadas e reiteradas; foi chamada penitencia ‘tarifada’ devido à proporção estabelecida entre gravidade do pecado e tipo de penitencia imposta pelo confessor. Estas novidades despertaram a suspeita dos bispos da região, uma suspeita que se transformou em hostilidade quando Columbano teve a coragem de os reprovar abertamente pelos costumes de alguns deles. A ocasião em que se manifestou o contraste foi a contenda sobre a data da Páscoa : de fato, a Irlanda seguia a tradição oriental, em contraste com a tradição romana. O monge irlandês foi convocado em 603 a Châlon-sur-Saôn para prestar contas diante de um sínodo dos seus costumes relativos à penitencia e à Páscoa. Em vez de se apresentar ao sínodo, ele enviou uma carta com a qual minimizava a questão convidando os Padres sinodais a discutir não só sobre o problema da data da Páscoa, segundo ele um pequeno problema, ‘mas também de todas as necessárias normas canônicas desatendidas por muitos, o que é mais grave’ (cf. Epistula II, 1). Contemporaneamente escreveu ao Papa Bonifácio IV, como alguns anos antes já se tinha dirigido ao Papa Gregório Magno (cf. Espitula I) para defender a tradição irlandesa (cf. Espitula III).           

            Sendo muito intransigente em todas as questões morais, Columbano entrou depois em conflito também com a casa real, porque tinha reprovado asperamente o rei Teodorico pelas suas relações adulterinas. Isso originou uma rede de intrigas e manobras a nível pessoal, religioso e político que, no ano 610, se transformou num decreto de expulsão de Luxeuil para Columbano e para todos os monges de origem irlandesa, que foram condenados ao exílio definitivo. Foram escoltados até o mar e embarcados para a Irlanda com o patrocínio da corte. Mas o navio encalhou a pouca distância da praia e o capitão, vendo nisto um sinal do céu, renunciou a prosseguir e, com receio de ser amaldiçoado por Deus, reconduziu os monges para a terra firme. Eles em vez de voltarem para Luxeuil, decidiram começar uma nova obra de evangelização. Embarcaram no Reno e subiram o rio. Depois de uma primeira etapa em Tuggen, junto do lago de Zurique, foram para a região de Bregenz, perto do lado de Constancia, para evangelizar os Alamanos.
 
            Mas pouco depois, Columbano, devido a vicissitudes políticas pouco favoráveis à sua obra, decidiu atravessar os Alpes com a maior parte dos seus discípulos. Permaneceu só um monge de nome Galo, da sua ermida ter-se-ia depois desenvolvido a famosa Abadia de Sankt Gallen, na Suíça. Tendo chegado a Itália, Columbano encontrou um acolhimento favorável junto da corte real longobarda, mas teve que enfrentar imediatamente grandes dificuldades : a vida da Igreja estava dilacerada pela heresia ariana que ainda prevalecia entre os longobardos e por um cisma que tinha separado a maior parte das Igrejas da Itália setentrional da comunhão com o bispo de Roma. Columbano inseriu-se com autoridade neste contexto, escrevendo um libelo contra o arianismo e uma carta a Bonifácio IV para o convencer a dar alguns passos decididos em vista de um restabelecimento da unidade (cf. Epistula V). Quando o rei dos longobardos, em 612 ou 613, lhe confiou um terreno em Bobbio, no vale da Trebbia, Columbano fundou um novo mosteiro que depois se tornaria um centro de cultura comparável com o famoso de Montecassino. Nele viu o fim dos seus dias : faleceu a 23 de novembro de 615 e nesta data é comemorado no rito romano até hoje.
 
            A mensagem de São Columbano concentra-se numa firme chamada à conversão e ao desapego dos bens terrenos em vista da herança eterna. Com a sua vida ascética e com o seu comportamento sem cedências face à corrupção dos poderosos, ele evocava a figura severa de São João Batista. A sua austeridade, contudo, nunca é fim em si mesma, mas unicamente o meio para se abrir livremente ao amor de Deus e corresponder com todo o ser aos dons por Ele recebidos, reconstruindo assim em si a imagem de Deus e ao mesmo tempo arroteando a terra e renovando a sociedade humana. Cito das suas Instructiones : ‘Se o homem usar retamente as faculdade que Deus concedeu à sua alma, então será semelhante a Deus. Recordemo-nos que Lhe devemos restituir todos aqueles dons que Ele depositou em nós quando estávamos na condição originária. Ensinou-nos o Seu modo com os Seus mandamentos. O primeiro deles é o de amar o Senhor com todo o coração, porque Ele nos amou primeiro, desde o início dos tempos, ainda antes que nós viéssemos à luz desse mundo.’ (Cf. Inst. XI) O santo irlandês encarnou realmente estas palavras na própria vida. Homem de grande cultura, escreveu também poesias em latim e um livro de gramática revelou-se rico de dons da graça. Foi incansável construtor de mosteiros, assim como intransigente pregador penitencial, empregando todas as suas energias para alimentar as raízes cristãs da Europa que estava a nascer. Com a sua energia espiritual, com a sua fé, com o seu amor a Deus e ao próximo tornou-se realmente um dos Padres da Europa : ele mostra-nos também hoje onde estão as raízes das quais pode renascer esta nossa Europa.

(11 de junho de 2008)
 
Fonte :
* Bento XVI, Santos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

“Quem tem sede venha a mim e beba” (Jo 7,37).

p/ Maria Vanda A. da Silva
(Ir. Maria Silvia, Obl. OSB/SP)


Das Instruções de São Columbano, Abade (Sec.VII)
 
Irmãos caríssimos, prestai ouvidos ao que vamos dizer como a algo de necessário. Contentai sede de vossas almas nas águas da fonte divina, sobre a qual desejamos falar, mas não extinguais; bebei, mas não vos sacieis. Chama-nos a si a fonte viva, a fonte da vida e diz: quem tem sede venha a mim e beba (Jo, 7,37).
 
Entendei o que bebeis. Diga-vos Jeremias, diga-vos a própria fonte : Abandonaram-me a mim, fonte de água viva, diz o Senhor (Jr 2, 13). O próprio Senhor, nosso Deus, Jesus Cristo, é fonte da vida; por isso nos convida a irmos a ele, fonte, para bebermos. Bebe-o quem ama; bebe quem se sacia com a palavra de Deus; quem muito ama muito deseja; bebe quem arde de amor pela sabedoria.
 
Vede donde emana esta fonte : do mesmo lugar donde desceu o pão. Pão e fonte são o mesmo, o filho único, nosso Deus, o Cristo Senhor, de quem devemos ter sempre fome. Cremo-lo, amando; devoramo-lo desejando e, no entanto, famintos, desejamo-lo ainda. Da mesma forma, qual água de uma fonte; bebamo-lo sempre pela plenitude do desejo e deleitemo-nos com a suavidade de sua particular doçura.
 
Pois é doce e suave o Senhor; por mais que o comamos e bebamos, estamos sempre sedentos e famintos, porque nosso alimento e bebida nunca se pode tomar e beber totalmente; tomando, não se consome, bebido não se acaba, pois nosso pão é eterno, nossa fonte é perene, nossa fonte é doce. Eis a razão por que diz o Profeta: Vós que tendes sede, ide à fonte (Is 55,1). A fonte dos sedentos, não dos saciados. Por isto chama a si sedentos, que em outro lugar declara felizes, aquele que nunca bebem bastante, mas quanto mais sorvem, tanto mais têm sede.
 
Irmãos, é justo que a a fonte da sabedoria, o Verbo de Deus nas alturas (Ecclo 1,5 Vulg.), sempre seja desejada, buscada, amada por nós; estão escondidos, segundo as palavras do Apóstolo, todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e chama quem tem sede a deles tomar.
 
Se tens sede, bebe da fonte da vida; se tens fome, come o pão da vida. Felizes os que têm fome deste pão e sede desta fonte. Sempre comendo e sempre bebendo, ainda desejam comer e beber, Porque é imensamente doce aquilo que sempre se saboreia e sempre se deseja mais. O rei profeta já dizia: Saboreai e vede quão doce, quão suave é o Senhor (Sl 33,9).
 

Fonte :
(Inst. 13, De Christo Fonte Vitae, 1-2: Opera, Dublin 1957, 116-118) – In Liturgia das Horas, Vol. IV, pg. 143/144.