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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma sede insaciável no coração humano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Aparecido Donizeti,

Bispo auxiliar de Porto Alegre, RS

 

‘Inquestionável que há um grito, uma inquietação no coração humano que perpassa todos os povos, tempos e lugares. A sensação de ausência de algo está sempre presente. É uma sede, um desejo que, quase sempre, não se compreende a razão. Em outras palavras, há uma sede de sentido mais profundo da própria vida, sede de plenitude, de paz, de alegria, que, a partir de um olhar marcado pela fé, é, na verdade, uma profunda sede de Deus. Já afirmava Santo Agostinho : ‘Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti’.

O ser humano precisa reconhecer e aceitar que essa sensação de incompletude é algo constitutivo do próprio ser. Tal compreensão o leva a perceber que o homem não é o senhor da verdade e nem tem resposta para muitas questões da existência humana. Eis a razão pela qual precisa ter consciência de ser criatura imperfeita, limitada e frágil e como tal deve-se reconhecer. Em outras palavras, reconhecer-se sedento de infinito, de plenitude, de algo que o completa totalmente. Esse sentido verdadeiro da vida, sem dúvida, não será encontrado em coisas materiais ou em outras criaturas humanas. Assim sendo, essa consciência de uma sede de infinito favorecerá abertura maior ao transcendente que, na nossa visão de fé, é o próprio Deus criador e redentor da humanidade.

Já dizia o salmista : ‘Ó Deus, tu és o meu Deus, desde a aurora eu te busco. Minha alma tem sede de ti; por ti deseja a minha carne, numa terra deserta, seca, sem água’ (Sl 63). Quando a pessoa não busca em Deus a resposta para essa sede presente no coração, certamente buscará em outras fontes, contudo, essas outras fontes, na verdade, são puras ilusões que vão aos poucos gerando um vazio existencial e levando a pessoa à perda do sentido da própria vida. É o que acontece com muitos que são apegados aos bens materiais, ao poder e também aos prazeres passageiros, acreditando que isso, sim, é viver. Sem contar que, vivendo assim, geram sofrimentos para si e, consequentemente, para tantos outros. Exemplo disso é a ganância que, muitas vezes, cega o ser humano e leva à destruição de tantos semelhantes e também do meio ambiente. Os mais pobres e já fragilizados da sociedade são sempre os que mais sofrem com isso.

Que cada ser humano compreenda melhor o que verdadeiramente é importante e essencial na vida e não se deixe levar pelas falsas promessas de felicidade que o mundo apresenta. Compreender o verdadeiro sentido da vida supõe aceitá-la como um dom precioso de Deus e, por isso, vivê-la com responsabilidade e zelo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/uma-sede-insaciavel-no-coracao-humano.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Tenho sede

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Geovane Saraiva,

jornalista, colunista e pároco

de Santo Afonso de Fortaleza, CE

 

É possível que a mensagem de Jesus de Nazaré não tenha penetrado, na sua plenitude, no coração da humanidade, na caminhada do povo de Deus. A verdade é que nem sempre se sabe tudo a respeito da vida do próximo, vendo-a como mistério, seja pelas coisas boas ou nas ações não construtivas ou pouco edificantes. Não é fácil, por causa da nossa contingência e do pecado, contemplar aquele Jesus do cárcere e do tribunal, ele sendo levado à morte, a qual se consumou no lugar das execuções, próximo à cidade, num pequeno monte, chamado Gólgota.

A morte desumana, com sua origem no Oriente, foi colocada em prática no Império Romano como a mais brutal e cruel de todas, sobretudo a de escravos, voltando-se e tendo sua convergência no ‘Filho do Homem’, em toda a sua concretude. Todas as pessoas que atestaram, e deram testemunho da história da salvação em Jesus de Nazaré, deram e dão importância ao cumprimento das palavras do Livro Sagrado : ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Salva-me, ó Deus, porque as águas vão me submergir’ (Sl 22; 69). Percebe-se que a salvação prometida por Deus, no Filho, vai até os pormenores da frieza e indiferença : o oferecimento de vinagre, a divisão das vestes, os espectadores zombando e balançando a cabeça.

Convém considerar a expressão do Nosso Senhor Jesus Cristo, ‘Tenho sede’, no sentido da mais elevada abrangência, que nos ajuda a pensar no Gólgota humano, como aquele lugar do crânio ou caveira, de muita angústia, tristeza, desolação e desespero, lugar esse visível e perceptível, dia após dia, da existência de muita gente, mesmo em companheiros de caminhada. É Jesus de Nazaré, o mesmo da fé por nós professada, que quer penetrar no mais profundo do nosso ser, na mesma atmosfera ou contexto, o qual foi submetido de modo extranatural ou admiravelmente insondável, com a cortina rasgada de cima a baixo, ao responder ao desejo e aspiração do nosso Cristo e Senhor, radicalmente humano, no ‘Tenho sede’.

Que possamos perceber a dor, o desolamento e a angústia do irmão, nos nossos dias, com menos sede e mais fome, encontrando os seguidores de Jesus de Nazaré, seu ápice nos seus passos, Mestre e Senhor da história e da vida, indo muito além do véu rasgado do templo. Rasgar o véu e matar a sede, sim, de cima a baixo, o véu malévolo, imprestável, improfícuo da fome e sede de justiça, no esforço persistente de não nos desviarmos da promessa da feliz e afável esperança, longe da angústia, da desolação e do desespero.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/noticias/?id=1598303

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A minha alma tem sede de Deus


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Tânia da Silva Mayer,
mestra e bacharela em Teologia


‘O ser humano contemporâneo parece caminhar sem rumo e por estradas que conduzem a lugar nenhum. E essa nossa caminhada errante é sintoma da enfermidade de sentido que vivemos. Na tentativa de preencher o vazio que a perda do sentido provoca, tornamo-nos itinerantes em busca do que possa fomentar em nós sensações de completude. Nessa esteira de ver satisfeito nosso desejo, tornamo-nos consumidores materiais e espirituais à espera que o cartão de crédito ou um frasco de água benta nos faça saturar definitivamente a incompletude que somos. Isso é um grande engano. Sentir falta, não nos sentirmos preenchidos define também nossa existência, permitindo também que desejemos e nos mobilizemos para estancar a sede que sentimos.
E por falar em sede, o salmo 42-43 serve bem para ilustrar a sede e o desejo humano de Deus, bem como a abertura para acolher o Deus que se revela em Jesus Cristo e se dá a conhecer ao mundo. Tal salmo é fiel representação da existência humana (pessoal e/ou comunitária), que no âmago de sua alma sente desejo de Deus. O salmista é reflexo do desejo antropológico por Deus, aqui representado pela alma do orante que está angustiado. Sua situação é a de alguém que está longe do seu espaço familiar, distante de sua terra, exilado. Provavelmente está fora de Jerusalém, do Templo, na região montanhosa do sul do Hermon. O salmista vive nostalgicamente, uma vez que já não contempla mais a ‘face de Deus’ em seu Santuário. E é em meio à opressão que ele o busca para não perdê-lo.
O salmo 42 compõe seu cenário no contexto da natureza: uma corça sedenta está em busca de um poço para matar sua sede (v. 2). A figura da corça, (também podemos chamar de cervo) é muito apreciada dentro da literatura bíblica. Muitas vezes é relacionada com o mundo da divindade, tomada como a mediadora do céu e da terra; quando associada ao ser humano, diz respeito à imortalidade, ao sucesso. A crítica textual ressaltará que o v. 2 ao descrever tal animal o apresenta na qualidade de um animal macho, sobrepondo-se a sua figura feminina. No entanto, esta está mais próxima das questões vitais, tal como o parto e do nascimento. De modo geral, a figura do animal é representação da força humana em sentido físico e espiritual. No salmo em questão, o desejo vital pela água que a corça sente é metáfora da ansiedade que o salmista tem por Deus. De fato, tal como a água é fundamental para o florescimento da vida na terra dura e seca, assim Deus é fundamental para o ser humano, pois é o único capaz de estancar nossa sede de sentido e de fé.
Ainda no v. 2, há outro termo bastante importante, a alma (nefesh). Na tradição bíblica, a alma é expressão da energia vital do ser. Ela está vinculada a uma parte do corpo responsável por engolir e respirar, a garganta. Podemos, uma vez mais, perceber a profundidade da imagem utilizada pelo salmista ao aproximar a imagem do ser humano de desejos à composição físico-corpórea dos animais.
Em muitos casos, o termo ‘alma’ pode designar o estômago, outras vezes, a respiração e o sopro. No salmo 42, a alma é expressão da fome, do desejo pelo alimento que garante sua sobrevivência. Ampliando a hermenêutica, a alma não está somente referida à sobrevivência físico-biológica, mas à sobrevivência emocional e espiritual da pessoa, ela é o espaço da saudade e do desejo humano. Não se refere a ‘algo imaterial’, como estamos acostumados a cogitar em nossas catequeses, mas designa aquilo que é ‘centro da vida da pessoa, em seu sentir, respirar, reagir e no seu decidir’. Refere-se, em todo caso, ao ser humano como um ser de desejo, capaz de desejo. Assim como a corça estica a garganta para buscar água, o orante do salmo abre a sua alma para beber daquela fonte que é princípio de vida : Deus; sem o qual sua vida já não apresenta nenhuma força, sem o qual nossas vidas continuarão errantes e sem sentido.’

Fonte :

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

“Quem tem sede venha a mim e beba” (Jo 7,37).

p/ Maria Vanda A. da Silva
(Ir. Maria Silvia, Obl. OSB/SP)


Das Instruções de São Columbano, Abade (Sec.VII)
 
Irmãos caríssimos, prestai ouvidos ao que vamos dizer como a algo de necessário. Contentai sede de vossas almas nas águas da fonte divina, sobre a qual desejamos falar, mas não extinguais; bebei, mas não vos sacieis. Chama-nos a si a fonte viva, a fonte da vida e diz: quem tem sede venha a mim e beba (Jo, 7,37).
 
Entendei o que bebeis. Diga-vos Jeremias, diga-vos a própria fonte : Abandonaram-me a mim, fonte de água viva, diz o Senhor (Jr 2, 13). O próprio Senhor, nosso Deus, Jesus Cristo, é fonte da vida; por isso nos convida a irmos a ele, fonte, para bebermos. Bebe-o quem ama; bebe quem se sacia com a palavra de Deus; quem muito ama muito deseja; bebe quem arde de amor pela sabedoria.
 
Vede donde emana esta fonte : do mesmo lugar donde desceu o pão. Pão e fonte são o mesmo, o filho único, nosso Deus, o Cristo Senhor, de quem devemos ter sempre fome. Cremo-lo, amando; devoramo-lo desejando e, no entanto, famintos, desejamo-lo ainda. Da mesma forma, qual água de uma fonte; bebamo-lo sempre pela plenitude do desejo e deleitemo-nos com a suavidade de sua particular doçura.
 
Pois é doce e suave o Senhor; por mais que o comamos e bebamos, estamos sempre sedentos e famintos, porque nosso alimento e bebida nunca se pode tomar e beber totalmente; tomando, não se consome, bebido não se acaba, pois nosso pão é eterno, nossa fonte é perene, nossa fonte é doce. Eis a razão por que diz o Profeta: Vós que tendes sede, ide à fonte (Is 55,1). A fonte dos sedentos, não dos saciados. Por isto chama a si sedentos, que em outro lugar declara felizes, aquele que nunca bebem bastante, mas quanto mais sorvem, tanto mais têm sede.
 
Irmãos, é justo que a a fonte da sabedoria, o Verbo de Deus nas alturas (Ecclo 1,5 Vulg.), sempre seja desejada, buscada, amada por nós; estão escondidos, segundo as palavras do Apóstolo, todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e chama quem tem sede a deles tomar.
 
Se tens sede, bebe da fonte da vida; se tens fome, come o pão da vida. Felizes os que têm fome deste pão e sede desta fonte. Sempre comendo e sempre bebendo, ainda desejam comer e beber, Porque é imensamente doce aquilo que sempre se saboreia e sempre se deseja mais. O rei profeta já dizia: Saboreai e vede quão doce, quão suave é o Senhor (Sl 33,9).
 

Fonte :
(Inst. 13, De Christo Fonte Vitae, 1-2: Opera, Dublin 1957, 116-118) – In Liturgia das Horas, Vol. IV, pg. 143/144.