Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Iniciemos
esse percurso com uma questão : Como compreender a imagem do Coração de Maria
como lugar da escuta da Palavra de Deus? Para responder a esse tema proponho um
itinerário que leve em consideração o olhar para Maria como a mulher escolhida
por Deus Pai e que em sua vida procurou escutar a voz de Deus em seu coração de
serva. Ela que buscou viver e testemunhar elementos fundamentais, frutos da
escuta da Palavra que a agraciou, tais como : o discipulado, a obediência e o
amor que brota da Palavra.
Assim, no
olhar atento e terno voltado à Mãe de Jesus e nossa sob o título do seu
Imaculado Coração, tem-se a oportunidade de aprender dela o significado do
discipulado, da fé madura e comprometida com o sim ofertado a Deus por meio do
anjo Gabriel : ‘faça-se em mim, segundo a tua palavra’ (Lc 1,38). Maria
Santíssima desde o início compreendeu esse modo de ser agraciado e por esse
motivo se entregou por inteiro aos cuidados do Senhor. Ela soube escutar sua
Palavra e se deixou guiar na vida e missão de discípula, serva obediente e mãe
amorosa da Palavra e por isso, de certa forma, nos ensina a fazer o mesmo, pois
também somos discípulos de Jesus Cristo.
Como
discípulos missionários, todos, pelo batismo, são corresponsáveis pela
construção do Reino dos céus. Um Reino de ‘justiça, paz e alegria no Espírito
Santo’ (Rm 14,17). Como discípulos de Jesus, Verbo encarnado (Jo 1,14), nascido
no seio da Virgem de Nazaré, os crentes assumem um modo de ser em sociedade que
tem relação direta com a fé que professam. Uma relação ético-moral nascida das
páginas do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja que se desdobra no cotidiano da
vida social pelo testemunho.
O coração da
discipula que escuta
Sendo assim,
a construção do Reino de Deus tem por base os ensinamentos do Evangelho de
Cristo, tanto por palavras proferidas com autoridade e que chamavam atenção dos
ouvintes (Mt 7,29), pois Ele mesmo é o fundamento (1Cor 3,11), a pedra angular
(Ef 2,20) que direciona toda vida e comportamento de quem crê, como por
sua práxis (prática) de vida junto aos seus, dando o exemplo
de como deve se comportar àqueles que levam seu nome (Jo 13,13-14). É a partir
desse olhar que desejo abordar o tema proposto : ‘O Coração de Maria, lugar da
escuta da Palavra’. O Evangelho de Mateus apresenta uma sentença de Jesus para
com seus discípulos no grande discurso do sermão da montanha, em que o Mestre
de Nazaré deixa claro a seus ouvintes que ‘nem todo aquele que diz : Senhor,
Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do Pai que
está nos céus’ (Mt 7,21).
Quando Maria
é interpelada pelo anjo que seria a mãe do Senhor, parece ter entendido que não
fora apenas escolhida para uma função pontual nos planos de Deus. Parece que
seu entendimento da grandiosidade da missão que acabara de receber, iria além
do ser mãe biológica do Filho de Deus feito homem na graça do Espírito Santo.
Ao dizer sim, estava se comprometendo em se tornar ‘serva do Senhor’,
discípula, ouvinte da vontade de Deus. Estava se colocando aos cuidados de Deus
e de todo seu projeto de salvação para a humanidade decaída pelo pecado de Eva
(Gn 3,6).
Essa formação
de pensamento que a Virgem começa a desenvolver, como se estivesse em uma longa
escola de aprendizagem, fora possível porque Maria parou para escutar o anúncio
angélico, a Palavra a ela dirigida. Escutar o que se desejava dela como
escolhida pelo Criador. Escutar parece ser algo cada vez mais difícil em um
mundo barulhento. O exemplo que ela dá é um gesto de atenção diante daquele que
fala. O exercício da escuta ensina em primeiro lugar, o respeito. Em um diálogo
entre pessoas, saber se posicionar é uma atitude respeitosa, transmitida no
seio familiar e na escola dos relacionamentos socioeducacionais.
Quem não
consegue escutar o outro tem dificuldade de compreender o assunto tratado. Sai
atropelando a fala como se o outro não tivesse importância. Maria escuta tudo
que o anjo diz e no momento certo, faz suas ponderações. Respeita e escuta a
fala alheia com atenção, ternura e desejo de compreender a situação. No
relacionamento com Deus, saber escutar é essencial. Como saber o que Ele deseja
de nós, se somos incapazes de calar diante de sua Palavra?
Na oração,
como lugar privilegiado de diálogo com Deus, exerce-se a escuta e a fala, pois,
todo diálogo requer esses dois elementos estabelecidos como forma de relação
saudável. Ao se colocar diante de Deus, por meio do anjo, Maria ensina como se
deve comportar diante do sagrado, do transcendente, do Altíssimo. Ao mesmo
tempo, ensina como se deve comportar uns para com os outros no trato social com
irmãos, na família, na igreja, no trabalho etc. Ser discípulo implica entender
o que Jesus deseja e espera dos seus. Sem esse entendimento corre-se o risco da
deturpação da Palavra como fonte de inspiração e direcionamento correto para se
chegar ao Reino proposto por Ele.
Nesse
sentido, a busca pelo entendimento passa pela oração como lugar do encontro e
do aprendizado como foi dito anteriormente. Anselm Grün afirma que ‘o encontro
é um acontecimento que transforma aqueles que se encontram’ (GRÜN, 2014, p.
24). De fato, no encontro da discípula escolhida com seu Senhor nota-se uma
transformação positiva e permanente. É um acontecimento como afirma o autor. A
aparição do anjo por si só é uma epifania impactante, reveladora e
transformadora, um fato extraordinário, tudo que a oração faz e causa em quem
se coloca nesse estado de contemplação.
Desta
maneira, Maria não se corrompe pelo pecado da soberba, achando-se pronta e
acabada porque fora escolhida por mãe de Jesus. Ela soube escutar, dia a dia, a
vontade de Deus, de acordo com cada acontecimento e movimento
histórico-cultural de sua época. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito Santo que
orava nela ‘cheia de graça’. Com seu coração de discípula, entendeu que seu
ego, desejos e vontades deveriam ser colocados de lado em prol do projeto de
Deus para a humanidade. Esse entendimento não fora adquirido exclusivamente por
meio de uma graça especial (a ela foi dado o título de cheia de graça – Lc
1,28), de uma efusão do Espírito Santo, um dom sobrenatural.
Foi também,
graças à sensibilidade de uma mulher que soube escutar a voz e a vontade do seu
Senhor. Uma mulher que ‘pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação’
(Lc 1,29), que procurou ouvir com atenção a proposta dirigida a ela, escolhida,
‘agraciada’. Por isso, ao se referir a Maria, a Igreja instrui que na vida
pública de Jesus, Sua mãe aparece de uma maneira bem-marcada logo no princípio,
quando, nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar
início aos Seus milagres. Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras
com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou
bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (cf.
Mc 3,35 e paralelos; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cf. Lc 2,19 e
51). (LG, n. 58) A consciência da Virgem escolhida e aclamada ‘cheia de graça’,
eleva cada um daqueles que escolhem uma vida em Cristo pelo batismo, à busca
permanente da ‘escuta da Palavra de Deus’, como afirma o Concílio Vaticano II
no texto acima.
Aqueles que
buscam o exemplo de Nossa Senhora como modelo inspirador para sua relação com
Deus são chamados a replicar em sua própria vida, a postura ética e coerente da
Mãe do Senhor, principalmente no ato de obediência à vontade de Deus como
discípulos que procuram escutar.
Um coração
obediente
Obedecer, de
acordo com a raiz hebraica do termo, é um verbo ligado ao ato de ouvir e tem
como significado ‘ouvir a expressão da vontade de outrem, corresponder a ela e
executá-la’ (BAUER, 1983, p. 759). Está ligado, segundo esse modo de pensar, a
uma relação de alteridade e reconhecimento de um valor maior, exposto e
proposto por alguém em vista de um bem superior, tanto do indivíduo como da
coletividade. É uma ação contrária ao egocentrismo. Desse modo, pode-se dizer
que a obediência é uma virtude que derrota a maledicência do pecado humano,
principalmente da vaidade egoísta.
Na vivência
dessa virtude, a Mãe do Senhor é exemplo fidedigno de humildade, uma vez que
depois do anúncio angélico, saiu para ajudar sua prima Isabel no sexto mês de
sua gestação. Ela pratica, a partir da ternura do seu coração de discípula e
serva, a obediente Palavra de Deus, colocando-a em exercício (cf. Lc 1,39-45).
Não apenas cumpre uma ordem, mas, acima de tudo, escuta a voz do Senhor que lhe
fala ao coração de serva. Para o cristão, ouvir a Deus é o caminho irrefutável
para se realizar sua vontade na vida. Não se pode querer ser de Deus, se
consagrar a Ele, dizer-se discípulo de Cristo, levar o nome de cristão, se não
se está disposto a ouvi-lo e pôr em prática seus ensinamentos.
O próprio
Jesus ensina a seus discípulos : ‘nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor,
entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que
está nos céus’ (Mt 7,21). Nesse contexto, Santo Tomás de Aquino afirma que ‘como
toda virtude, [a obediência] exige que a vontade esteja pronta para o seu
objeto próprio, mas não para aquilo que lhe é repugnante’ (STh, II-II, q. 104,
art. 2), ou seja, por meio dessa virtude, orienta-se à vontade para uma
finalidade que vai além do desejado, sonhado ou almejado. Coloca-se um sentido,
um significado superior ao necessário e imputado a cada um de forma particular.
Por essa virtude, deixa-se em segundo plano o ‘eu’ para que a vontade de Deus
fale de forma coletiva na vida da Igreja e em sociedade. Nesse aspecto, Nossa
Senhora deu testemunho indiscutível colocando-se em segundo plano sua própria
vida, para que a vontade de Deus jazesse em primeiro lugar.
Observando o
exemplo de Maria, entende-se o quanto essa mulher foi capaz de mergulhar na
vida divina. Ela compreendeu que ao dizer ‘sim’, toda sua vida se preenchia de
sentido. A sensibilidade da mãe do Senhor em deixar-se conduzir pelo Espírito
Santo, torna-se para a Igreja e para todo o mundo cristão, exemplo moral de
compromisso e fé na palavra que salva.
Essa Palavra,
à luz da história, pavimenta, orienta e compromete aqueles que se colocam a
serviço de Cristo em vista de um bem maior : o Reino dos Céus e do cuidado de
uns para outros de modo especial com os mais necessitados. Ao olhar para a
imagem de Maria como serva obediente de Deus, não se pode deixar de perceber
que, ao longo da história da salvação, Deus fala a seu povo e pede para
escutá-Lo como sinal de obediência e fidelidade.
Desse modo,
convém recordar de como Abraão, considerado o pai da fé, na prontidão de sua
vida, foi obediente ao Senhor (Gn 12); Noé, que mesmo considerado por seus
compatriotas louco, por construir uma arca, continuou fiel à vontade de Deus de
modo incondicional (Gn 6); lembremos de Moisés que liderando a libertação dos
hebreus em nome de Deus, fora obediente e submisso ao Senhor (Ex 3; 14; 19 e
40); de Daniel que não renegou ao seu Deus, mesmo sendo jogado na cova dos
leões (Dn 6) ou ainda de Rute que obedecendo a sua sogra manteve-se fiel e
confiante nos mistérios de Deus em meio ao sofrimento (Rute 1–4) e tantas
outras personagens do Antigo Testamento, sem mencionar o Novo Testamento.
Fato é que
Deus ao longo da história da salvação não apenas fala com seu povo, mas os
chama a ouvi-lo e esta atitude marca o povo eleito e posteriormente os que
serão chamados de cristãos, povo da nova aliança pelo batismo. Neste caminho de
entendimento, faz-se interessante a observação de quando se lê no livro do
Deuteronômio a célebre frase do Senhor para Israel : ‘Ouve, Israel…’,
nota-se que é a vontade de Deus que deve ser executada como sinal autêntico de
fidelidade e responsabilidade para com Ele. Assim, descreve o texto bíblico :
‘4 Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. 5 Amarás o
Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as
tuas forças. 6 Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. 7 Tu
os inculcarás a teus filhos e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja
andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares.’ (Dt 6,4-7).
O texto
evidencia a relação entre ‘ouvir’ e ‘obedecer’. Só é possível uma atitude de
obediência consciente quando se escuta com o coração e não somente com os
ouvidos.
Só obedece aquele
que escuta! Que se cala diante do mistério, do transcendente, do Altíssimo;
aquele procura a voz terna de Deus que fala à alma, ao coração. Fora disso,
evidencia-se o egocêntrico desobediente, que procura ancorar-se no nome de
Deus, mas não deseja vivenciar seus ensinamentos. É o desobediente que age
olhando para si abandonando as orientações do Senhor como se fosse algo
irrelevante diante da sua vontade pessoal. Maria não foi assim, pelo contrário
soube escutar buscando a Verdade. O contrário da obediência é a desobediência e
a bíblia exemplifica com a história de Eva e Adão na criação. O livro do
Gênesis conta como Eva, levada pela astúcia da serpente, se deixou tomar pela
vaidade e pelo desejo de ver além daquilo que Deus lhe havia ordenado,
solicitado (Gn 3).
Ao ouvir a
serpente e desobedecer a Deus, cai no pecado e leva consigo Adão. Os filhos
criados pelo amor generoso do Criador, perdem a possibilidade de uma vida plena
na graça, por causa da desorientação dos próprios desejos e vontades.
Preferiram ouvir e obedecer ao tentador, em vez de seu Criador o que gerou uma
consequência pecaminosa, o afastamento da presença de Deus. Um distanciamento
sombrio que reverbera em toda a história da criação. Assim, se pela
desobediência de Eva a morte do pecado veio ao mundo, por Maria, Deus quis que
a salvação chegasse até nós, em Jesus Cristo, Verbo feito carne (cf. Lc
1,26-38; Jo 1,14). Sua obediência restabelece o laço perdido por Eva (cf. LG,
n.56).
A confiança
de que é possível sim, mesmo que difícil, ser fiel ao Senhor. Maria Santíssima,
é o exemplo imaculado dessa fidelidade. É interessante observar como o
Evangelho apresenta a figura da Virgem Maria. A mulher do sim, a mãe do Senhor,
do serviço, a discípula. Ela não vem em evidência, não é o astro das cenas bíblicas.
Aparece em pouquíssimos trechos da Escritura porque não é ela a protagonista do
enredo, é Jesus o salvador. Ela jaz no silêncio de quem aprendeu a ouvir, o que
na prática pastoral deveria ser aprendido com ela por agentes e pastores.
Nas bodas de Caná,
está atenta ao movimento dos serviçais do casamento e percebe a agonia pela
falta do vinho. Sua intervenção junto a Jesus se dá pela convicção de que Ele
não apenas pode ajudar no embaraço do momento, mas acima de tudo, pode
tudo sem
dificuldades, pois tudo na vida procede do ordenamento divino. Ela acredita e
chama outros a acreditar : ‘fazei tudo o que ele vos disser’ (Jo
2,5). A escuta da Palavra tem essa força extraordinária, escutar e ajudar
outros a fazer o mesmo, pois a Palavra é transformadora como foi o exemplo de
fé da Mãe de Jesus na festa de casamento. São João Paulo II fala sobre o
acontecimento de Caná dizendo que a partir da descrição dos fatos de Caná,
esboça-se aquilo que se manifesta concretamente essa maternidade nova, segundo
o espírito e não somente segundo a carne, ou seja, a solicitude de Maria pelos
homens, o seu ir ao encontro deles, na vasta gama das suas carências e
necessidades. […] Maria põe-se de permeio entre seu filho e os homens na
realidade das suas privações, das suas indigências e dos seus sofrimentos (RM,
n. 21).
Essa
consciência obediente de Maria, aponta para o ato de fé no Filho amado. Ela
sabia que aquele momento não era a hora do Filho se apresentar ao mundo como ‘O
Messias salvador’, mas não poderia ficar passiva, inerte ou como espectadora
diante da situação constrangedora dos noivos perante seus convidados. Obedecer
é comprometer-se com a realidade que circunda a vida, o dia a dia, em vista do
bem comum. Vai além da letra da lei, do executar ordens e obrigações, é uma
expressão do cuidado de Deus para com seus filhos e filhas, pois reflete a fé
feita obras.
Desse modo,
pode-se afirmar que ‘a Mãe de Cristo se apresenta diante dos homens
como porta-voz da vontade do Filho. […] Graças à intercessão de Maria e à
obediência dos servos, Jesus dá início à ‘sua hora’’ (RM, n. 21) e
assim, cuida daquele momento festivo de Caná, oferecendo ‘o vinho melhor’ da
alegria salvadora de Deus aos presentes. Tudo isso foi possível porque Maria é
mãe amorosa atenta aos acontecimentos que envolvem seus filhos e filhas no dia
a dia.
Maria, uma
mãe amorosa da Palavra de Deus
A escuta da
Palavra é caminho seguro para a ternura de Deus, pela intercessão amorosa da
Mãe junto ao Filho Salvador, mediador único uma vez que ‘há um só Deus
e há um só mediador entre Deus e os homens : Jesus Cristo’ (1Tm 2,5).
Assim, todo
filho exerce um carinho especial para com sua mãe. Ela é o berço perpétuo de
segurança, o abraço terno e voz poderosa em meio ao barulho do mundo. Talvez
por isso o próprio Deus desejou que Seu Filho amado passasse pela experiência
humana da relação filial, pois, o amor de mãe é sempre curativo. Ao lançar um
olhar para Maria, não se pode deixar de olhar para seu coração materno. O
Coração de Maria é o lugar seguro da ternura colocada em ação para com aqueles
que buscam em Jesus Cristo o alívio de suas angústias. Mostrando seu coração à
humanidade, a mãe do Senhor revela seu desejo de presença e cuidado. A imagem
do coração é, em muitas culturas, o símbolo do amor, do carinho como expõe o
papa Francisco no capítulo um da encíclica Dilexit nos. Em Maria,
amor e carinho são gestos de proximidade e atenção maternos. De orientação e
formação para a vida de fé e vida social. Ela é mãe formadora de discípulos que
escutam e põe em prática a vontade de Jesus Cristo.
O Evangelho
de Lucas narra a anunciação do nascimento de Jesus, partindo do pressuposto da
escolha de Maria como mãe (Lc 1,26-56). O texto do evangelista pode ser
dividido em dois momentos importantes : o primeiro da anunciação do anjo (v.
26-38), o segundo do encontro com Isabel (v. 39-56). Para aquém de uma exegese
bíblica, olhemos de modo geral alguns aspectos da narrativa de Lucas.
No primeiro
trecho, a busca pela compreensão dos acontecimentos de Deus na vida faz Maria
questionar o anjo, não na escolha, mas na execução da vontade salvífica, uma
vez que era virgem : ‘como se fará isso, pois não conheço homem algum?’ (v.
34). A pergunta é legítima e demonstra o nível de seu comprometimento com a
vontade de Deus. Entende que sua resposta gerará uma onda de impacto presente e
futuro na história. Por mais que não tivesse a dimensão de seu alcance, ela
sabia que sua resposta seria um marco divisor em sua vida e na vida de todos a
partir daquele momento. Depois de todo um diálogo de apresentação e exaltação
daquela mulher como ’cheia de graça’, ela escuta com atenção a
explicação do anjo e responde com total abertura ao projeto de Deus : ‘Eis
aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38).
Seu coração torna-se plenamente disponível à Palavra. Não se trata apenas de
aceitar uma missão, mas de acolher o próprio Deus em sua vida, permitindo que a
Palavra se faça carne em seu ventre e em toda a sua existência.
No segundo
momento da narrativa, Maria coloca-se imediatamente a caminho para visitar sua
prima Isabel (Lc 1,39-56). A Palavra acolhida transforma-se em serviço. Quem
escuta verdadeiramente Deus não permanece fechado em si mesmo, mas sai ao
encontro do outro. O amor recebido torna-se amor oferecido.
Ao chegar à
casa de Isabel, a saudação de Maria faz estremecer de alegria a criança no
ventre da prima, e Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama : ‘Bendita
és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!’ (Lc 1,42).
Maria responde com o cântico do Magnificat (Lc 1,46-55),
reconhecendo que toda grandeza provém de Deus e não de seus próprios méritos.
Seu coração
revela-se, assim, profundamente humilde. Ela não retém para si a glória da
escolha recebida, mas aponta continuamente para Aquele que realizou maravilhas
em sua vida. Toda a sua existência é um louvor à fidelidade de Deus.
Contemplar o
Coração de Maria significa aprender essa mesma atitude interior. Significa
permitir que a Palavra encontre espaço em nossa vida, seja meditada no
silêncio, amadurecida no coração e transformada em gestos concretos de amor,
serviço e compromisso com o Reino de Deus.
Como afirma o
Concílio Vaticano II, Maria ‘conservava fielmente todas estas coisas,
meditando-as em seu coração’ (cf. Lc 2,19.51). Ela não apenas ouviu a
Palavra; fez dela o critério permanente de sua existência. Seu coração
tornou-se escola de escuta, de discernimento e de fidelidade.
Também hoje,
em meio ao excesso de informações, ao barulho das redes sociais, às inúmeras
vozes que disputam nossa atenção e aos desafios da vida contemporânea, Maria
continua indicando o caminho da verdadeira escuta. Seu Coração Imaculado
permanece como espaço privilegiado para aprender a acolher a Palavra de Deus e
deixá-la produzir frutos de conversão, esperança e caridade.
Quem
contempla o Coração de Maria descobre que Deus continua falando ao coração
humano. Cabe a cada discípulo cultivar o silêncio interior, abrir-se à ação do
Espírito Santo e responder, como a Mãe do Senhor, com inteira disponibilidade :
‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’ à santificação e ao Reino de Deus.
Como serva da Palavra, Verbo feito carne, Maria é exemplo de fidelidade
apostólica a Jesus, mesmo antes de Seu nascimento. Ao aceitar as palavras do
anjo, aceita a missão de acolhedora do Verbo Divino. Como Mãe e discípula,
coloca em hierarquia de importância o discipulado da ‘serva do Senhor’ (Lc
1,38), mais do que a missão de mãe.
O Papa Leão
XIV, na nota doutrinal sobre os títulos marianos, expressa-se assim : Ela
é ‘a primeira discípula, aquela que melhor aprendeu as coisas de Jesus’ Maria é
a primeira daqueles que ‘escutam a Palavra de Deus e a põem em prática’ (Lc
11,28); é a primeira a colocar-se entre os humildes e pobres do Senhor para nos
ensinar a esperar e receber, com confiança, a salvação que vem apenas de Deus.
Deste modo, Maria ‘tornava-se, em certo sentido, a primeira ‘discípula’ do seu
Filho, a primeira a quem ele parecia dizer : ‘Segue-me’, mesmo antes de dirigir
este chamamento aos Apóstolos ou a quaisquer outros (cf. Jo 1,43)’ (MPf,
n. 75). Como discípula e serva, o testemunho da Virgem emana da Palavra que é o
próprio Filho. Toda sua vida está voltada e tem sentido se orienta ao Cristo
Salvador.
O papa Paulo
VI afirmava : ‘na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e
dependente dele’ (MC, n. 25). Não é possível amar, louvar, seguir o
exemplo, suplicar a intercessão, aprender da Imaculada Virgem, se o fim último
de nossa oração e confiança não for o próprio Jesus Cristo. Maria ensina isso
em Caná da Galileia ao dizer ‘fazei tudo o que Ele vos disser’ (Jo
2,5). Isso, como já dito, é um ensinamento direcional, orientativo e não um ato
momentâneo. Tudo em Maria se direciona e direciona para Jesus. Desse modo,
aprender de Maria a escutar a Palavra é deixar-se configurar a ela. A Palavra
de Deus é o caminho reto que leva a uma prática de fé autêntica e segura.
Jesus ensinou
aos seus discípulos a respeito do Reino de Deus, falou em parábolas, mostrou
com sinais a presença salvadora de Deus. Assim, ao ensinar, levou cada uma das
pessoas, inclusive sua mãe, a enxergar um Reino completamente diferente daquele
que estava diante de seus olhos.
A Palavra
transmitida entrava pelos ouvidos, mexia com a imaginação, modificava a
consciência e fecundava o coração como uma cachoeira a derramar água
transparente e fresca em um lago aberto e profundo. O papa Francisco assim
ensinou a esse respeito : O Reino, já presente e crescente entre nós,
nos envolve em todos os níveis do nosso ser e nos recorda o princípio do
discernimento que o Papa Paulo VI aplicou ao verdadeiro desenvolvimento : ele
deve dirigir-se a ‘todos os homens e ao homem por inteiro’ (EG, n.
181).
Ao escutar a
Palavra de Deus ao longo de toda sua vida, parece-nos que Maria foi aprendendo,
a cada etapa existencial, a adaptar-se às circunstâncias : primeiro ouve a voz
do anjo Gabriel (Lc 1,28.30-33); segundo ouve o louvor de sua prima Isabel (Lc
1,42-43.45); terceiro no nascimento de Jesus (Lc 2,10-12); depois na
apresentação no templo (Lc 2,34-35); no episódio de Jerusalém aos doze anos (Lc
2,49); nas bodas de Caná (Jo 2,1-12); provavelmente quando Jesus proferiu o
grande sermão da planície (Lc 6,20-49; Mt 5-7); enquanto estava na Galileia ela
ouviu palavras fortes de Jesus (Lc 8,19-21); durante sua vida pública,
acompanha em silêncio a missão do Filho na viagem a Jerusalém (Lc 9,51–19,28);
durante o lava-pés escuta as palavras e vê a cena com atenção (Jo 13,1-20).
Nesse
caminho, como discípula, deve ter escutado as palavras de despedida do Filho
(Jo 13,31-38); mais que escutar, viveu a angústia da paixão de Jesus, no
silêncio obediente da fé (Mc 14-15); ouviu as últimas palavras do Filho
crucificado (Jo 19,26); ouviu o silêncio de Deus na morte do Filho amado (Jo
19,38-42); sem sombra de dúvida ela escuta os rumores das aparições do
ressuscitado (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20–21) na alegria, ouve do próprio Filho
Ressuscitado que aquele grupo que ele formou ao longo do tempo, sua Igreja,
receberá o Espírito Santo (At 1,8). Maria, como no princípio de toda sua vida,
depois de ser fiel à Palavra ao longo do tempo, recebe o Espírito Santo junto
com os Apóstolos, como discípula fiel, serva e modelo de testemunha de Cristo
Jesus (At 1,14; 2,1-13). Daí em diante, acompanha o florescer da Igreja na
intercessão pelos filhos de Deus até os dias de hoje.
Do mesmo
modo, ‘a Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua
caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também, ela própria,
mãe, pela fiel recepção da Palavra de Deus’ (LG, n. 64). E assim,
olhando e aprendendo do Coração de Maria como lugar da escuta da Palavra,
também nós, seus filhos e filhas, devemos obediência, serviço e comportamento
de discípulos para bem testemunhar os méritos de Jesus e levar com verdade o
nome de cristãos. Diante de tantos barulhos no mundo de hoje, nunca nos
esqueçamos que, para nós católicos, três elementos orientam nossa escuta
doutrinal de fé : ‘as Sagradas Escrituras, a Tradição e o Magistério da
Igreja’ (CIC, n. 81 e 85; DV, n. 10), sem eles não vamos a lugar
algum, a não ser a nosso próprio egoísmo.
Como diria
Santo Antônio Maria Claret : o egoísmo ‘procura com todo empenho, a
independência de toda a autoridade divina e humana; conspira e maquina a
insubordinação perceberão que cada palavra das Escrituras é uma dádiva antes de
ser uma exigência’ (EG, n. 142).
Percorrido o
caminho de meditação e observação de Maria, sob o título de Imaculado Coração
como lugar da escuta da Palavra, propus um olhar baseado em três aspectos – dos
inúmeros que podem ser abordados sobre a Mãe do Senhor – para nossa reflexão :
o discipulado, a obediência e o amor que nasce da Palavra.
Vimos que a
Mãe de Deus nos testemunha com o silêncio de sua vida, como ser discípulos(as)
missionários de seu Filho Jesus e como devemos responder ao chamado de Deus, na
prontidão do acolhimento de sua Palavra. Acolher a palavra do Senhor é um ato
livre que deve nos levar à compreensão de que somos responsáveis pelas mudanças
em nosso meio, sociais e religiosas, mediante as escolhas que fazemos,
reguladas nas Escrituras como fonte e instrumento de orientação e salvação,
junto com a Tradição e o Magistério da Igreja, porto seguro de nossa fé.
Maria
Santíssima nos ensina, de certa forma, que na vida cristã, não basta ouvir a palavra,
ler as Escrituras, frequentar o templo, é necessário pôr em prática a vontade
Daquele que nos chama à santidade de vida. Pela escuta/leitura diária da
Palavra de Deus somos moldados segundo sua vontade e isso nos ajuda a modificar
nossa forma de pensar e viver em sociedade. Para que nosso mundo seja melhor, é
preciso melhorar nosso testemunho cristão e católico no mundo ainda mais
especialmente em tempos de irracionalidade egoísta que gera guerras,
desigualdade, violência e agressões, seja em escala global ou mesmo no seio
familiar e na própria Igreja. Nosso testemunho pode ser uma luz poderosa em
meio à escuridão dos conflitos.
Cuidemos,
pois, a Santíssima Virgem, sob o título de seu Imaculado Coração nos deu o
exemplo de fidelidade e escuta da Palavra que se fez carne e habitou entre nós.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/o-coracao-de-maria-lugar-da-escuta-da-palavra.html