Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Neste
comentário, frei Enrique Eguiarte, OAR, um dos maiores especialistas
contemporâneos em Santo Agostinho, analisa o profundo pano de fundo agostiniano
presente na Encíclica Magnifica humanitas do Papa Leão XIV. A partir das referências
explícitas e implícitas ao bispo de Hipona, o autor mostra como conceitos
centrais da tradição agostiniana — a dignidade humana, a verdade, a justiça, a
paz e a unidade — iluminam o debate contemporâneo sobre a Inteligência
Artificial (IA), o mundo digital e o futuro da humanidade.
Babel ou
Jerusalém : a grande decisão do mundo digital
A nova
encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica humanitas, segue em todos os momentos um
esquema nitidamente agostiniano. Desde as imagens que propõe no início do
documento — a torre de Babel e a reconstrução da muralha de Jerusalém por parte
de Neemias — ficam resumidos os principais conteúdos da encíclica.
Deste modo,
aqueles que buscam nos elementos tecnológicos e cibernéticos novos modos de
dominação e de exercício do poder, esquecendo a dignidade do ser humano, são
comparados aos construtores da torre de Babel. A eles a encíclica dirige uma
exortação e um chamado para redescobrir não apenas a dignidade de toda pessoa
humana, mas também a necessidade de viver na verdade. Para isso, parte dos
princípios essenciais da Doutrina Social da Igreja, não apenas para
comentá-los, mas para aplicá-los ao uso e ao usufruto dos meios digitais
contemporâneos.
Como
fundamento do pensamento de Leão XIV — e não poderia ser de outro modo —
aparece a figura luminosa de Santo Agostinho. Dele são mencionados quatro
textos explícitos e um implícito.
O primeiro
deles, e com uma lógica evidente ao tratar da dignidade do ser humano e de sua
grandeza, é a conhecida passagem das Confissões : ‘Fizeste-nos, Senhor, para ti
e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti’ (conf. 1,1).
Trata-se de
um texto que resume admiravelmente tudo o que o pontífice apresenta sobre a
dignidade humana. De fato, como assinala o Papa, reiterando a doutrina clássica
da Igreja, o ser humano possui dignidade porque foi criado à imagem e
semelhança de Deus (Gn 1,26). Por isso, toda pessoa não apenas possui
dignidade, mas também uma grandeza implícita e ontológica, que não depende de
sua produtividade nem de sua valorização externa.
Essa grandeza
é inerente ao seu ser, pois foi criada à imagem de Deus e traz em si um coração
inquieto que a impulsiona para Ele, sendo a única criatura do universo chamada
a participar eternamente da vida divina.
Em segundo
lugar, o Papa cita outro texto que, de algum modo, percorre toda a encíclica
como um baixo contínuo. Trata-se do pensamento apresentado por Santo Agostinho
em A Cidade de Deus, convertido no fundamento de toda esta obra e, ao mesmo
tempo, no centro da teologia agostiniana da história : ‘Dois amores edificaram
duas cidades’.
Posteriormente,
o bispo de Hipona explica quais são esses dois amores : ‘o amor de si mesmo até
o desprezo de Deus e o amor de Deus até o desprezo de si mesmo’ (ciu. 14,28).
Esta é a alternativa diante da qual se encontra todo ser humano e segundo a
qual constrói uma das duas cidades.
Novamente,
como assinala acertadamente o Papa no início da encíclica, é necessário optar
entre Babel e Jerusalém. Para Santo Agostinho, a cidade deste mundo é
Babilônia, cujo nome está etimologicamente relacionado com Babel, pois ambas
significam — como recorda o próprio Agostinho aludindo às línguas semíticas — ‘confusão’
(en. Ps. 136,1).
Frente a
isso, a cidade de Deus pode identificar-se espiritualmente com Jerusalém. Por
isso Santo Agostinho destaca que Jerusalém pode ser interpretada exegeticamente
como ‘visão de paz’ (en. Ps. 136,1), meta última da peregrinação do ser humano
neste mundo.
Assim, a
Doutrina Social da Igreja ajuda para que os elementos próprios da Inteligência
Artificial e do mundo digital possam se orientar e se converter em ferramentas úteis
para os peregrinos que se dirigem a Deus, e não, pelo contrário, em obstáculos
que não apenas arrebatam a dignidade dos seres humanos, mas acabam se tornando
impedimentos para sua autêntica realização.
Justiça, paz
e dignidade humana no pensamento de Santo Agostinho
Posteriormente,
cita-se um texto da Enarratio in Psalmum 84, no qual Santo Agostinho comenta o
versículo do Salmo 84,11b (85,11b) : ‘A justiça e a paz se beijam’.
Santo
Agostinho comenta :
‘Ninguém há
que não deseje estar em paz, mas nem todos querem praticar a justiça. […] Mas
tu deves praticar a justiça, já que a paz e a justiça se beijam, não estão em
discórdia. E tu, por que não estás de acordo com a justiça? Por exemplo, diz-te
a justiça : não roubes, e tu não lhe dás ouvidos; não cometas adultério, e te
fazes de surdo; não faças a outro o que não queres que façam a ti; não fales de
outros o que não queres que falem de ti. […] Queres encontrar-te com a paz?
Pratica a justiça’ (en. Ps. 84,12).
Na extensa
passagem recolhida pela encíclica, o bispo de Hipona assinala que não pode
existir paz sem justiça, insistindo que ambos os elementos são inseparáveis.
Onde há justiça, favorece-se necessariamente o surgimento da paz.
Em seu
comentário ao salmo, Santo Agostinho introduz ainda outro elemento fundamental
para a encíclica : o mistério da Encarnação, embora este segundo texto não
tenha sido usado no documento pontifício.
A natureza
humana goza de uma dignidade insuspeitada porque o Filho de Deus assumiu a
carne no seio da Virgem Maria. Precisamente a isso alude Santo Agostinho pouco
depois do texto citado pelo Papa, quando comenta o versículo : ‘A verdade
brotou da terra’.
O bispo de
Hipona interpreta estas palavras como uma referência ao nascimento de Cristo,
pois Ele é a Verdade que se fez verdadeiramente carne no seio de Maria,
simbolizada pela terra fecunda (cf. en. Ps. 84,13).
Unidade,
comunhão e corpo de Cristo na era digital
Uma terceira
citação é extraída do Sermão 272, uma brevíssima homilia que Santo Agostinho
pregou em um domingo de Páscoa aos seus fiéis, especialmente aos neófitos ou
infantes, como gostava de chamá-los.
Este é o
texto :
‘O que vemos
tem aspecto corporal; o que entendemos, fruto espiritual. Portanto, se queres
entender o corpo de Cristo, ouve o Apóstolo que diz aos fiéis : Vós sois o
corpo de Cristo e seus membros (1 Cor 12,27). Em consequência, se vós sois o
corpo de Cristo e seus membros, sobre a mesa do Senhor está posto o mistério
que vós mesmos sois : recebeis o mistério que sois vós. A isso que sois,
respondeis ‘Amém’, e ao responder (assim) o confirmais. Ouves, pois : ‘Corpo de
Cristo’, e respondes : ‘Amém’. Sê membro do corpo de Cristo, para que o teu ‘Amém’
responda à verdade’.
Neste texto,
breve, mas denso, Santo Agostinho sublinha dois elementos que o Papa retoma
expressamente : a unidade e o compromisso de perseverar nela, pois todos
formamos o Corpo de Cristo, bem como a santidade, dado que esse Corpo é santo.
Por isso
adquire grande relevância a resposta dos fiéis : o ‘Amém’. Esta afirmação não
apenas expressa a fé na presença real do Corpo de Cristo nas espécies
eucarísticas, mas também o duplo compromisso de trabalhar pela construção da
paz e de viver santamente como membros dignos desse mesmo Corpo.
A última
citação de Santo Agostinho é implícita, pois o Papa retoma palavras
pronunciadas em seu discurso à Cúria Romana por ocasião da saudação de Natal em
22 de dezembro de 2025, onde reiterou a frase agostiniana escolhida como lema
pontifical : In illo uno unum, ou seja, ‘naquele que é um, sejamos todos um’
(en. Ps. 127,3).
Também aqui
aparece o convite à unidade, ao trabalho comum e à construção compartilhada da
cidade de Deus, a Jerusalém celestial. Unidos, como Neemias na reconstrução de
Jerusalém, e não dispersos no egoísmo próprio de Babel.
A
contribuição agostiniana de Magnifica humanitas
Assim, embora
as citações textuais de Santo Agostinho não sejam numerosas, o pensamento
agostiniano percorre toda a encíclica e sustenta suas linhas mestras : a
caridade como princípio fundamental da Doutrina Social da Igreja; o amor e a
paixão pela verdade; a dignidade do ser humano criado à imagem e semelhança de
Deus — ideia presente nos diversos comentários agostinianos ao livro do Gênesis
—; a busca da justiça; a oposição a toda forma de exploração humana; a rejeição
da guerra; o amor à paz; o valor da formação e da educação; a fraternidade
universal; e, finalmente, o destino eterno de todo ser humano.’
Fonte : *Artigo na íntegra