Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O
escapulário de Nossa Senhora do Carmo pode não ser grande, muitas vezes fica
escondido sob a roupa, quase invisível aos olhos de quem vê, mas, para milhões
de católicos espalhados pelo mundo, ele carrega um significado profundo e muito
importante. Não é apenas um objeto religioso, nem um simples adorno, é um sinal
de fé, de proteção, de pertença e de compromisso com uma espiritualidade que
atravessa séculos.
Para
compreender o que o escapulário representa nas vidas das pessoas, basta ouvir
histórias como as de Maria José Pinto Novaes, moradora de Itaperuna, no
interior do Rio de Janeiro, e Luiz Antônio de Sousa, de Unaí, em Minas Gerais.
Em diferentes estados, com trajetórias distintas, os dois têm algo em comum :
aprenderam a devoção a Nossa Senhora do Carmo dentro da própria família e
fizeram do escapulário uma presença constante em suas vidas.
Maria José
não consegue se lembrar exatamente quando começou sua devoção, mas sabe que ela
nasceu no ambiente familiar. ‘Eu conheci pela minha mãe’, conta. Como acontece
com tantos vocacionados na Igreja, o caminho da fé foi sendo aprendido no
convívio diário, nas orações e nos exemplos vividos dentro de casa.
Mais tarde,
durante uma celebração religiosa, recebeu um escapulário das mãos de um
sacerdote. O gesto marcou sua caminhada espiritual. ‘Desde esse dia para cá eu
não o tiro mais’, afirma.
O uso do
escapulário tornou-se tão natural em sua rotina que ela encontrou uma forma
própria de carregá-lo sempre consigo. Como não gosta de usar correntes ou
objetos no pescoço, adaptou o costume sem abrir mão da devoção. ‘Tudo que eu
uso no pescoço me incomoda’, explica. Foi então que recebeu o conselho de uma
senhora idosa para usar o escapulário preso à roupa. A sugestão deu certo e
assim que ela continuou usando.
‘Não fico sem
meu escapulário, mas, principalmente quando faço uma viagem, estou sempre com
ele’, diz.
A devoção de
Maria José, porém, não se limita ao uso do escapulário. Em sua casa, uma imagem
de Nossa Senhora do Carmo ocupa um lugar especial. Todos os anos ela realiza a
novena em honra à Virgem do Carmo durante o mês de julho, período em que a
Igreja celebra sua memória litúrgica, mais especificamente no dia 16.
A oração
também faz parte do seu cotidiano. ‘Quando eu rezo o Terço, peço sempre a
intercessão de Nossa Senhora do Carmo’, relata. Em seguida, resume sua
experiência de fé com simplicidade e convicção : ‘Nem um dia eu fico sem fazer
uma súplica para Nossa Senhora do Carmo. Graças a Deus, acho que ela sempre
atende’.
A mesma
devoção que acompanha Maria José há décadas também faz parte da vida de Luiz
Antônio de Sousa. Aos 70 anos, ele recorda que seu primeiro contato com o
escapulário aconteceu ainda na infância, provavelmente por influência da mãe.
Naquela
época, os escapulários mais comuns eram feitos de tecido, ligados por cordões. ‘Os
primeiros que eu usei foram aqueles de cordão’, lembra. ‘Mas, eles se
arrebentavam com frequência’, por isso, pelo uso constante, os fios se
desgastavam e acabavam se rompendo. Mais tarde vieram os modelos metálicos,
mais resistentes, mas o significado permaneceu o mesmo.
‘Sou devoto
de Nossa Senhora do Carmo e por isso uso escapulário’, afirma.
Ao falar
sobre sua experiência, Luiz Antônio não faz grandes discursos teológicos. Sua
devoção aparece justamente na simplicidade de quem incorporou a fé à própria
vida. ‘Tem muitos anos que eu uso’, conta, ‘eu me acostumei a usar.’
Essa
familiaridade com o escapulário tornou-se tão forte que ele percebe
imediatamente sua ausência : ‘Se eu não usar, parece que está faltando alguma
coisa’.
A fé no
cotidiano da vida
A frase de
Luiz Antônio e a experiência de Maria José revelam algo que muitos devotos
experimentam : o escapulário passa a ser uma recordação permanente da presença
de Deus e da proteção materna de Maria. Não porque possua algum poder mágico,
mas porque ajuda a manter viva a consciência da fé no cotidiano.
Para
compreender melhor esse significado é preciso voltar muitos séculos na história
da Igreja.
Segundo
explica Frei Reinaldo Paraíso da Rocha, religioso carmelita e vigário da
Paróquia Nossa Senhora da Conceição em Unaí (MG), a devoção a Nossa Senhora do
Carmo está entre as mais antigas devoções marianas da tradição cristã.
Sua origem
está ligada ao monte Carmelo, na Terra Santa. Foi ali que os primeiros eremitas
se reuniram para uma vida de oração e contemplação. No início do século XIII,
construíram uma capela dedicada à Virgem Maria, reconhecendo-a como protetora
da comunidade nascente. ‘A Ordem nasceu no monte Carmelo com essa devoção a
Maria’, explica o religioso.
O
escapulário, por sua vez, está ligado a uma tradição muito querida por toda a
família carmelitana. Segundo o relato transmitido pela ordem, Nossa Senhora
apareceu a São Simão Stock, então prior-geral dos carmelitas, em 16 de julho de
1251, entregando-lhe o escapulário como sinal de proteção e de sua especial
assistência materna.
Para Frei
Reinaldo, mais importante do que discutir os detalhes históricos do acontecimento
é compreender a mensagem espiritual que ele transmite. ‘O escapulário tem esse
significado de pertença a Nossa Senhora’, afirma.
Ao longo dos
séculos, o símbolo difundiu-se muito além dos conventos carmelitas e hoje é
utilizado por religiosos, religiosas e milhões de leigos em diversos países.
‘O
escapulário é, depois do terço, o objeto de devoção mais usado no mundo inteiro’,
observa o frei.
Essa
popularidade, entretanto, trouxe também algumas interpretações equivocadas.
Muitas pessoas passaram a enxergar o escapulário apenas como um amuleto de
proteção contra acidentes, doenças ou outros perigos.
O escapulário
não é um amuleto
Frei Reinaldo
faz questão de esclarecer esse ponto : ‘Muitos usam com a ideia de proteção
contra acidentes ou até contra o inferno, mas o escapulário não é um amuleto.
Para nós, carmelitas, ele significa pertença’.
O religioso
lembra que o escapulário originalmente era parte do hábito usado pelos membros
da Ordem do Carmo. A versão reduzida utilizada pelos leigos é uma participação
simbólica nessa mesma espiritualidade.
‘Quem usa o
escapulário pertence a Nossa Senhora’, explica, ‘e podemos dizer também que
participa da espiritualidade carmelitana’. Essa pertença traz consequências
concretas para a vida cristã. O escapulário não é apenas um sinal externo, ele
expressa um compromisso interior.
‘O projeto de vida de quem usa o escapulário é testemunhar o amor de Deus, o amor de Cristo e o amor da mãe de Jesus’, afirma Frei Reinaldo. Segundo ele, o devoto é chamado a viver de acordo com aquilo que o símbolo representa. A confiança na intercessão de presença de Nossa Senhora deve conduzir a uma vida mais próxima de Cristo, marcada pela oração, pela caridade e pelo testemunho da fé.
Projeto de
vida e santidade
Essa
compreensão encontra eco na tradição dos grandes santos do Carmelo. Santa
Teresa de Jesus ensinava que a verdadeira devoção mariana não consiste apenas
em palavras ou gestos exteriores, mas em uma amizade profunda com Cristo
cultivada na oração diária.
Séculos mais
tarde, São João Paulo II, que usou o escapulário durante toda a vida, definiu-o
como ‘um sinal da aliança e da comunhão recíproca entre Maria e os fiéis’. Para
o Pontífice, o escapulário recorda o chamado para viver o Evangelho sob a
proteção da mãe de Deus.
Num tempo em
que muitas famílias enfrentam dificuldades para transmitir a fé às novas
gerações, Frei Reinaldo acredita que o testemunho dos devotos continua sendo
fundamental : ‘Quem usa o escapulário demonstra sua confiança em Jesus e em
Nossa Senhora’, afirma, ‘testemunha sua fé, sua pertença à Igreja e sua
espiritualidade’.
Presente nas
viagens de Maria José, o escapulário inspira as orações que ela faz diante da
imagem de Nossa Senhora do Carmo, nas novenas celebradas todos os anos. Está
também na rotina de Luiz Antônio, que há décadas se acostumou a carregá-lo
consigo e sente sua falta quando não o usa.
Histórias
simples, semelhantes às de milhares de outros devotos, mostram que a
espiritualidade carmelitana continua viva. Sob o manto de Maria, homens e
mulheres seguem encontrando no escapulário um lembrete diário de que a fé não é
apenas algo em que se acredita, mas algo que se vive.’
Fonte : *Artigo na íntegra
Nenhum comentário:
Postar um comentário