Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo do Frei Augusto Luiz Gabriel, ofm
‘Entre as
muitas tradições que enriquecem a vida da Igreja, existe uma que permanece
pouco conhecida fora dos mosteiros e conventos : a troca de peixes e azeite
entre franciscanos e beneditinos. Trata-se de um gesto simples, mas carregado
de história, gratidão e espiritualidade, cujas raízes remontam ao próprio São
Francisco de Assis.
Quando
Francisco iniciou sua experiência de vida evangélica, por volta de 1210,
procurava um lugar onde pudesse reunir os primeiros irmãos. Dirigiu-se
inicialmente ao bispo de Assis e aos cônegos de São Rufino, pedindo uma pequena
igreja para acolher a nascente fraternidade. Não obteve sucesso. Foi então ao
encontro do abade beneditino Dom Teobaldo, que, sensibilizado pelo testemunho
daquele jovem convertido, apresentou o pedido à comunidade monástica.
Os monges
concordaram em ceder a pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, conhecida como
Porciúncula. O local, pertencente aos beneditinos do Monte Subásio,
tornar-se-ia o coração da espiritualidade franciscana. Ali, Francisco
compreendeu sua vocação, acolheu novos irmãos, recebeu Santa Clara e viveu
alguns dos momentos mais marcantes de sua trajetória.
A única
condição apresentada pelos monges era que, se a fraternidade crescesse, a Porciúncula
permanecesse para sempre como casa-mãe da Ordem. O pedido foi fielmente
cumprido.
Na Primeira
Vida de São Francisco, de Tomás de Celano (1Cel 106), encontra-se o amor de
Francisco pela Porciúncula : ‘Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar.
Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é
verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui, quando éramos poucos, o
Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os
corações de seus pobres; aqui, como fogo de seu amor, inflamou as nossas
vontades’. Assim, ainda hoje, para os franciscanos de todo o mundo, aquele
pequeno santuário é o lugar das origens, onde tudo começou.
Outro vínculo
importante entre as duas famílias religiosas surgiu com Santa Clara. Após
deixar a casa paterna para seguir o ideal evangélico de Francisco, ela e sua
irmã Inês foram acolhidas pelas monjas beneditinas da Abadia de São Paulo.
Antes mesmo da fundação definitiva de São Damião, as beneditinas ofereceram
proteção e apoio às primeiras clarissas.
As Fontes
Franciscanas revelam o profundo amor de Francisco pelos lugares
sagrados. Em seu Testamento, ele escreve : ‘O Senhor me deu tal fé
nas igrejas que eu simplesmente orava e dizia : Nós vos adoramos, Senhor Jesus
Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que estão no mundo inteiro, e vos
bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo’ (TEST 4). Essa fé
também se manifestou na gratidão para com aqueles que acolheram sua vocação e
seus irmãos.
Como sinal
desse reconhecimento, nasceu o costume de os franciscanos oferecerem peixes aos
beneditinos. A tradição recorda que o próprio São Francisco enviava anualmente
um cesto de peixes aos monges, em agradecimento pela Porciúncula. Em
retribuição, os beneditinos presenteavam os frades com azeite, símbolo bíblico
da bênção, da luz e da alegria.
‘E, embora o
abade e os monges tivessem concedido livremente ao bem-aventurado Francisco e a
seus frades aquela igreja, sem nenhuma exigência ou pagamento anual, todavia o
bem-aventurado Francisco, como um bom e experimentado mestre que quis edificar
sua casa sobre a pedra firme, isto é, a sua congregação sobre a grande pobreza,
mandava todos os anos ele mesmo um cestinho cheio de peixinhos chamados lascas
como sinal da maior humildade e pobreza’ (Compilação de Assis, 56).
Ainda hoje,
em diversas comunidades, especialmente na festa de São Bento, em 11 de julho, e
na festa de São Francisco, em 4 de outubro, esse gesto continua sendo
realizado. Mais do que uma troca de presentes, trata-se de uma celebração da
fraternidade entre dois grandes carismas da Igreja.
Em tempos
marcados pelo individualismo e pela competição, o peixe oferecido pelos
franciscanos e o azeite oferecido pelos beneditinos continuam a proclamar uma
verdade profundamente evangélica : a gratidão preserva a memória, fortalece a
fraternidade e faz florescer a obra de Deus na história.
São Bento e
São Francisco, rogai por nós!’
Fonte : *Artigo na íntegra
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