Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Como já
pudemos analisar em diversos artigos dessa coluna, ao longo da história a
África viu a constituição de grandes impérios, que alcançaram alto grau de
organização em todos os campos, indo do social ao político e religioso. A
chegada dos europeus, a partir dos séculos XV e XVI mudou completamente esse
panorama. No século XIX, a partir da realização da Conferência de Berlim, o
continente africano seria retalhado em diversas propriedades, situação que se
manteria até o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Ao longo das décadas
de 1950 e 1960 teria início o processo de libertação, com a constituição das
novas nações africanas, cujo número hoje chega a 54.
Amizade
substituída pela rivalidade
No dia 29 de
outubro de 1665, ocorreu a Batalha de Ambuila, um dos confrontos mais marcantes
relacionados à presença portuguesa na África Central. O exército do Reino do
Congo, comandado pelo rei Antonio I, enfrentou as forças coloniais de Portugal,
vindas de Luanda, na atual Angola.
O embate foi
brutal, terminando com a morte do rei congolês e a derrota de suas tropas,
episódio que marcou o início do declínio definitivo do antigo e poderoso Reino
do Congo que controlava também a região de Angola, onde Portugal viria a se
estabelecer em fins do século XV.
Após a
batalha, a cabeça de Antonio I foi levada como troféu para Luanda, e jamais foi
devolvida. O gesto, além de simbólico, representava o domínio português sobre a
região e o fim de uma era em que o Reino do Congo se constituiu como um dos
estados africanos mais influentes na região do Atlântico.
O Reino do
Congo havia florescido de forma contínua desde o século XIV, mantendo boas
relações diplomáticas e comerciais com Portugal desde 1483. Por décadas, os
dois reinos trocaram missões diplomáticas, religiosas e comerciais, mas com o
avanço do tráfico de escravos e a cobiça sobre as terras angolanas, a amizade
deu lugar à rivalidade. A tensão cresceu muito até que, em 1665, as fronteiras
entre Congo e Angola se tornaram palco de guerra.
O exército congolês
era numeroso, contando com um contingente entre 15 e 20 mil homens armados com
lanças e arcos, além de alguns mosquetes adquiridos dos europeus. Já as forças
portuguesas eram bem menores, com cerca de 450 soldados lusos e outros 15 mil
auxiliares africanos. O diferencial, porém, era o fato de os portugueses serem
possuidores de armas de fogo modernas, contando com apoio logístico colonial. A
disciplina e o poder de fogo português acabaram sendo decisivos.
A disputa
começou por causa de Ambuila (ou Mbwila), uma região rica e estratégica entre
os dois reinos. O Congo a considerava parte de seu território, mas Portugal,
por meio de Angola, afirmava soberania sobre ela. O confronto armado aconteceu
quando ambos os exércitos marcharam para a mesma colina, se encontrando face a
face no dia 29 de outubro de 1665.
Durante a
batalha, o rei Antonio I lutou na linha de frente, acabando sendo morto em
combate. Sua morte provocou o pânico e a dispersão nas fileiras congolesas. O
corpo do rei foi mutilado e sua cabeça exibida em Luanda como símbolo da
vitória portuguesa, um gesto que ecoaria por séculos na memória coletiva do
Congo.
Decadência do
Reino do Congo
A derrota em
Ambuila fez com que o Reino do Congo mergulhasse numa prolongada guerra civil,
com príncipes rivais disputando o trono. O reino, já havia sido cristianizado e
mantinha relações diplomáticas com Roma, mas entrou em colapso político. O
poder central se fragmentou, e o tráfico de escravos se intensificou,
alimentando o sistema colonial europeu.
Apesar disso,
após Ambuila, várias regiões do Congo resistiram à dominação estrangeira.
Nobres e líderes locais mantiveram suas tradições e lutaram para preservar a
autonomia do povo congolês. No entanto, o antigo império jamais se recuperou, e
acabou se tornando um mosaico de pequenos reinos e províncias sob influência
portuguesa.
A Batalha de
Ambuila simboliza o encontro trágico entre dois mundos: o africano tradicional
e o europeu colonial. Foi o início do fim de um dos mais organizados reinos
africanos pré-coloniais e o prelúdio de três séculos de dominação estrangeira.
Hoje, a batalha é lembrada no Congo e em Angola como um marco da luta pela
soberania africana.
A situação da
República Democrática do Congo (RDC), anteriormente chamada de Zaire, é bem
crítica, marcada por uma grave crise humanitária e conflitos armados intensos,
especialmente no leste do país, com mais de 3,3 milhões de refugiados
deslocados desde 2022. Grupos rebeldes, como o M23 (apoiado por Ruanda),
controlam áreas estratégicas como a cidade de Goma, causando massacres e
instabilidade, enquanto o governo enfrenta limitações no controle territorial.
A tensão envolve interesses na riqueza mineral da área e disputas territoriais
com Ruanda.
Apesar do
imenso potencial econômico, o país continua hoje a sofrer com a exploração de
recursos, corrupção, insegurança generalizada colocando a democracia em risco
permanente.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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