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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Permanecer humano em tempos de algoritmos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Renata Moraes


‘Em um tempo marcado pelo avanço acelerado da inteligência artificial, pela automação do trabalho e pela crescente digitalização das relações humanas, o Papa Leão XIV apresenta ao mundo a Carta encíclica Magnifica Humanitas. O documento convida a sociedade a refletir sobre uma questão fundamental : como preservar a dignidade da pessoa humana em uma era em que as máquinas parecem ocupar espaços cada vez mais centrais na vida cotidiana?

Promulgada em 15 de maio de 2026, a encíclica é a primeira do pontificado de Leão XIV e já nasce com forte significado histórico. A data de sua assinatura não foi escolhida por acaso : ocorreu exatamente 135 anos após a publicação da Carta encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, documento que inaugurou a doutrina social da Igreja e marcou a resposta católica aos desafios provocados pela Revolução Industrial.

Se no fim do século XIX a preocupação da Igreja recaía sobre as consequências da mecanização e da exploração dos trabalhadores, hoje o foco se volta para os impactos éticos, sociais e antropológicos da revolução digital. Para Leão XIV, a inteligência artificial representa a grande ‘coisa nova’ (res novae) do século XXI, capaz de influenciar profundamente a maneira como as pessoas trabalham, se relacionam, aprendem e até compreendem a própria identidade.

Mais do que um texto sobre tecnologia, a Carta encíclica Magnifica Humanitas é uma reflexão sobre o ser humano. O Papa alerta que o progresso técnico não pode ser confundido com progresso humano e recorda que nenhuma inovação será verdadeiramente benéfica se não estiver a serviço da vida, da fraternidade e do bem comum.

Entre Babel e Jerusalém

Uma das imagens centrais da encíclica é o contraste entre a torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém. Para o Papa Leão, Babel simboliza a tentação da humanidade de buscar poder ilimitado por meio da técnica, esquecendo-se de seus limites e de sua dependência de Deus. Jerusalém, por outro lado, representa a cidade construída coletivamente, fundada na solidariedade, no diálogo e na busca do bem comum.

A partir dessa metáfora bíblica, Leão XIV propõe uma reflexão profunda sobre os rumos da inteligência artificial. O documento alerta que os algoritmos não são neutros : eles carregam as intenções, valores e interesses daqueles que os desenvolvem, razão pela qual precisam ser submetidos a critérios éticos, transparência e mecanismos de regulação.

Outro aspecto fortemente criticado pelo Pontífice é o transumanismo, corrente que defende o uso da tecnologia para superar os limites biológicos humanos. Para o Papa, a fragilidade, a vulnerabilidade e os limites fazem parte da condição humana e possuem valor espiritual. São justamente essas características que tornam possível a experiência da compaixão, da misericórdia e da abertura à transcendência.

Ao mesmo tempo, a encíclica lança um apelo profético para que a inteligência artificial seja ‘desarmada’, deixando de servir exclusivamente a interesses econômicos, militares ou de dominação política.

A dignidade humana no centro

Para o teólogo e sacerdote Cônego Antônio Manzatto, a escolha da dignidade humana como eixo central da encíclica responde a uma preocupação permanente do cristianismo.

‘A dignidade da pessoa humana sempre foi a grande preocupação dos discípulos de Jesus Cristo. Ele veio para salvar toda a humanidade. Todas as pessoas foram criadas por Deus à sua imagem e semelhança’, afirma.

Segundo o religioso, a urgência do tema se torna ainda mais evidente diante das inúmeras situações de exclusão presentes no mundo contemporâneo, como a realidade dos migrantes, da população em situação de rua, dos trabalhadores submetidos a condições degradantes e das vítimas das guerras. Nesse contexto, a tecnologia não pode ser vista como um fim em si mesma.

‘O Papa lembra que a tecnologia não é um bem em si, mas está a serviço do ser humano. A tecnologia não é mais importante que as pessoas’, destaca o religioso.

Essa perspectiva aparece ao longo de toda a encíclica e se conecta diretamente aos quatro pilares da doutrina social da Igreja : dignidade da pessoa humana, bem comum, solidariedade e subsidiariedade.

Oportunidades e riscos da inteligência artificial

Embora apresente diversas advertências, a Carta encíclica Magnifica Humanitas não adota uma postura de rejeição à tecnologia; pelo contrário, reconhece os benefícios que a inteligência artificial pode oferecer quando orientada para a promoção da vida humana.

O cientista da computação Carlos Alberto Marques Rabelo destaca que há aplicações extremamente positivas da inteligência artificial, especialmente na área da saúde : ‘Ferramentas de inteligência artificial podem tornar mais rápidos os processos diagnósticos e o desenvolvimento de novos medicamentos, além de auxiliar na compreensão do próprio funcionamento do corpo humano’.

Ele cita como exemplo o AlphaFold, sistema de inteligência artificial que revolucionou a pesquisa científica ao prever estruturas de proteínas e cujos desenvolvedores receberam o Prêmio Nobel de Química de 2024.

Ao mesmo tempo, o pesquisador alerta para desafios éticos cada vez mais urgentes : ‘Um dos maiores desafios é a salvaguarda da verdade. A desinformação já existia antes, mas hoje encontra na inteligência artificial um poderoso multiplicador’.

A preocupação ganha relevância especial em contextos eleitorais, diante da proliferação de conteúdos manipulados e de deepfakes capazes de atribuir a pessoas falas ou ações que nunca ocorreram. Segundo Rabelo, a disseminação dessas práticas compromete a confiança social e enfraquece os próprios fundamentos da democracia.

Atualização da Doutrina Social da Igreja

Um dos aspectos mais significativos da encíclica é sua inserção na tradição da doutrina social da Igreja. Leão XIV não apresenta uma ruptura, mas uma atualização dos princípios já consolidados pelo magistério diante das novas circunstâncias históricas.

Para Carlos Marques, a escolha do nome Leão XIV já sinalizava essa intenção desde o início do pontificado : ‘Quando Leão XIV foi eleito, imediatamente entendi que a escolha desse nome remetia a Leão XIII e sinalizava uma atenção às ‘coisas novas’ do nosso tempo, assim como Leão XIII se atentou às ‘coisas novas’ do fim do século XIX’, observa ele.

Na prática, a encíclica reaplica ao ambiente digital princípios permanentes da doutrina social. O bem comum passa a questionar a concentração de dados e poder nas mãos de poucas empresas. A destinação universal dos bens lembra que todos devem ter acesso às novas tecnologias. A justiça denuncia as desigualdades presentes na produção e no controle dos sistemas digitais. A solidariedade exige atenção às formas de exploração escondidas nas cadeias produtivas que sustentam o desenvolvimento tecnológico.

Para o Cônego Manzatto, a contribuição específica da Igreja para esse debate não está no campo técnico, mas no discernimento ético : ‘A função da Igreja não é técnica. Sua missão é anunciar o Reino de Deus, por isso o Papa afirma que a inteligência artificial pode ser um bem se contribuir para o desenvolvimento integral dos seres humanos, na paz e na fraternidade, mas não deve ser instrumento de dominação’, ressalta.

Permanecer humano

Por fim, a Carta encíclica Magnifica Humanitas apresenta um convite que ultrapassa especialistas em tecnologia, governos e empresas. Trata-se de um chamado dirigido a toda a humanidade.

Em um mundo cada vez mais orientado pela produtividade, pela eficiência e pelos algoritmos, o Papa recorda que o verdadeiro valor da existência não está no desempenho, mas na capacidade de construir relações humanas autênticas.

‘Precisamos de um mundo de paz e fraternidade, não de um mundo dominado por algoritmos controlados por pessoas ou empresas que visam apenas o poder e a riqueza de alguns’, afirma Cônego Manzatto.

A encíclica convida os cristãos a conhecerem mais profundamente a doutrina social da Igreja e a assumirem seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa. Ao mesmo tempo, interpela todos os homens e mulheres de boa vontade a participarem desse debate que definirá os rumos do futuro.

Diante das promessas e dos riscos da inteligência artificial, Leão XIV recorda que nenhuma tecnologia é capaz de substituir aquilo que constitui a essência da humanidade : a capacidade de amar, de cuidar, de estabelecer vínculos e de reconhecer no outro a imagem de Deus. É nessa convicção que a Carta encíclica Magnifica Humanitas se apresenta como um dos documentos mais importantes do magistério recente, oferecendo à sociedade um critério seguro para discernir os caminhos da inovação sem perder de vista aquilo que realmente importa : permanecer humano.

Leia a encíclica na íntegra :

A Carta encíclica Magnifica Humanitas está disponível gratuitamente no portal oficial do Vaticano. O documento pode ser acessado em português pelo endereço vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html

A leitura integral permite compreender em profundidade as reflexões do Papa Leão XIV sobre a inteligência artificial, a dignidade humana e os desafios éticos da sociedade contemporânea.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/o-coracao-de-maria-coracao-da-igreja.html


sexta-feira, 12 de junho de 2026

A vida humana na era da inteligência artificial

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre Diego Lelis, cmf

 

‘Criou Deus o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou.’ (Gn 1,27)

‘O essencial é invisível aos olhos.’ (Antoine de Saint-Exupéry)


‘Há uma cena que, de tão comum, talvez já nem nos espante. Uma pessoa sentada diante da tela do celular, procurando uma resposta rápida. Pergunta o melhor caminho que a livre dos engarrafamentos, organiza a agenda, escolhe uma música, escreve uma mensagem rápida de aniversário para alguém, edita uma imagem para atender melhor às expectativas do seu público, pede uma opinião, compara preços. Em poucos segundos, uma pequena máquina parece saber muito sobre seus gostos, seus horários, suas palavras mais usadas, suas preferências, seus medos e até seus projetos.

A tecnologia entrou em nossa casa sem bater à porta. Sentou-se à mesa e tomou o espaço do diálogo em nossas refeições, ocupou o bolso, atravessou a escola, o trabalho, a oração, a política, a economia, as relações. Está no relógio que mede nossos passos, no aplicativo que sugere o que devemos comprar, no algoritmo que decide o que veremos primeiro, na voz artificial que nos responde com paciência. E, diante de tudo isso, talvez a grande pergunta não seja apenas o que a inteligência artificial pode fazer por nós, mas o que ela pode fazer conosco.

A publicação da encíclica Magnifica humanitas, do Papa Leão XIV, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, chega até nós como um convite para pensarmos sobre o papel da IA e o lugar do ser humano. Não como medo do futuro ou de um presente que nos desafia e desinstala. Não como rejeição do progresso. Mas como discernimento. A Igreja, quando olha para os sinais dos tempos, deve fazê-lo com a sabedoria do Evangelho, perguntando sempre pela vida, pela dignidade, pela justiça, pela verdade e pelo cuidado.

A inteligência artificial pode ajudar. Seria injusto negar isso. Ela pode facilitar pesquisas, aproximar saberes, auxiliar diagnósticos, ampliar formas de comunicação, favorecer processos educativos, organizar trabalhos, tornar acessíveis conteúdos antes distantes. Há nela uma potência real, e toda potência humana precisa ser acolhida com responsabilidade. O problema começa quando a ferramenta deixa de ser instrumento e passa a ocupar o lugar da consciência. Quando a resposta rápida substitui o pensamento. Quando a eficiência toma o lugar do discernimento. Quando a imagem perfeita apaga a verdade do rosto. Quando a máquina aprende cada vez mais sobre nós, enquanto nós começamos a esquecer quem somos.

É precisamente aqui que a fé cristã tem uma palavra a oferecer. O ser humano não é apenas dado, perfil, cálculo, consumo, produtividade ou desempenho. O ser humano é imagem de Deus. Tem rosto, corpo, memória, história, fragilidade, desejo, feridas, esperança, vocação e alma. Nenhum sistema é capaz de medir plenamente a dor de uma mãe diante do filho enfermo, a saudade que aperta o peito de quem perdeu alguém, o silêncio de quem reza, o cansaço de quem trabalha para pôr o pão na mesa, a alegria simples de uma família reunida, o gesto de quem estende a mão sem esperar retorno. A alma não cabe no algoritmo.

Talvez essa seja uma das verdades que mais precisamos recordar. Podemos organizar informações, mas não podemos reduzir a vida ao que pode ser processado. Podemos produzir imagens, mas não podemos fabricar presença. Podemos simular respostas afetuosas, mas não podemos substituir o encontro. Podemos acelerar tarefas, mas não podemos apressar o amadurecimento do coração. Há dimensões da existência que só se compreendem pela convivência, pela escuta, pela paciência e pelo amor.

Jesus de Nazaré não salvou a humanidade por meio de um sistema. Salvou encontrando pessoas. Ele olhou nos olhos da samaritana junto ao poço. Tocou o leproso que todos evitavam. Chamou Zaqueu pelo nome. Chorou diante do túmulo de Lázaro. Sentou-se à mesa com pecadores. Escutou o grito dos cegos à beira do caminho. Deixou que uma mulher marcada pela dor tocasse em suas vestes. Caminhou com discípulos desanimados na estrada de Emaús. Partiu o pão. Lavou os pés. Entregou a vida.

O Evangelho é profundamente humano porque nos ensina que, antes da função, existe uma pessoa. Antes do número, um rosto. Antes da eficiência, uma vida. Antes da resposta, uma escuta. Antes da produtividade, uma dignidade que não pode ser negociada. O Cristo não nos tratou como peças de uma engrenagem religiosa. Tratou-nos como filhos e filhas amados pelo Pai.

Por isso, a discussão sobre a inteligência artificial não pode ser apenas técnica. Ela é espiritual, ética e profundamente humana. Que mundo estamos construindo quando deixamos algoritmos decidirem o que vemos, o que desejamos, o que consumimos, quem encontramos e até de quem desconfiamos? Que tipo de coração vai sendo formado quando as relações se tornam respostas automáticas e a verdade passa a ser manipulada por imagens, vozes e textos que parecem reais, mas podem nascer da mentira? Que humanidade permanece quando trabalhadores são descartados em nome da eficiência e quando os pobres, os idosos, os migrantes e os vulneráveis se tornam ainda mais invisíveis diante de sistemas que não conhecem compaixão?

Uma sociedade que já descartava pessoas antes das máquinas corre o risco de usar as máquinas para descartar com mais velocidade. Esse é o perigo. Não a tecnologia em si, mas o coração humano quando se acostuma a usar tudo sem perguntar a quem serve. A pergunta cristã precisa ser outra : essa inteligência está a serviço da vida? Está a serviço dos pobres? Está a serviço da verdade? Está a serviço do cuidado? Ajuda-nos a sermos mais humanos ou apenas mais rápidos?

Talvez o grande desafio deste tempo seja aprender a usar a inteligência das máquinas sem perder a sabedoria do coração. Precisamos de tecnologia, sim, mas precisamos ainda mais de consciência. Precisamos de inovação, mas também de ternura. Precisamos de ciência, mas também de ética. Precisamos de ferramentas, mas não podemos abrir mão da responsabilidade. O mundo não será salvo por respostas mais velozes, se perdermos a capacidade de olhar nos olhos. Não haverá futuro verdadeiramente humano se a mesa estiver vazia, se o trabalhador for esquecido, se a verdade for adulterada e se a dignidade dos pequenos continuar sendo tratada como detalhe.

A fé cristã nos recorda que Deus não criou um dado. Criou uma pessoa. Não soprou vida em uma estatística. Soprou vida em um ser capaz de amar. E esse sopro divino permanece em cada ser humano, mesmo quando o mundo tenta reduzi-lo a função, mercado ou imagem. Reconhecer isso é uma forma de resistência. Cuidar do humano, neste tempo de tantas inteligências artificiais, talvez seja uma das expressões mais urgentes da nossa fé.

Que saibamos, então, atravessar este tempo com lucidez e esperança. Que a tecnologia esteja em nossas mãos, mas não governe o nosso coração. Que ela nos ajude a servir melhor, educar melhor, cuidar melhor, comunicar melhor. Mas que nunca nos roube o silêncio, a oração, a memória, a compaixão, a verdade e a capacidade de reconhecer no outro a imagem viva de Deus.

Oração

Senhor, dá-nos sabedoria para viver este tempo novo sem nos perdermos de nós mesmos e dos nossos irmãos e irmãs. Ensina-nos a usar com responsabilidade aquilo que a inteligência humana criou, sem esquecer que toda inteligência deve servir ao amor. Que as máquinas nos ajudem, mas não nos substituam no cuidado. Que os algoritmos organizem caminhos, mas não apaguem o rosto dos irmãos. Que a técnica avance, mas que a ternura caminhe conosco. E que, em cada escolha, saibamos recordar que fomos criados à tua imagem e chamados a fazer da vida um gesto de encontro, serviço e esperança. Amém.

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/a-vida-humana-na-era-da-inteligencia-artificial.html

 

terça-feira, 25 de março de 2025

Inteligência artificial e a consciência humana

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Miguel Oliveira Panão


 ‘Num mundo em que a tecnologia e a consciência coexistem, a inteligência artificial (IA) impõe desafios e oportunidades que se interligam e nos mostram em que nos tornamos com a tecnologia que desenvolvemos. Quando estive recentemente com um grupo de professores de Educação Moral e Religiosa Católica a refletir sobre como a IA reconfigura a nossa relação com o tempo e com a própria existência, lembrei-me da ideia de atualizarmos a experiência que temos de tempo para a versão Tempo 3.0, título do livro que escrevi sobre o assunto. O novo paradigma da experiência de tempo propõe a vivência do tempo profundo como dimensão mais profunda e transformadora, na qual o ser humano encontra o seu potencial de autoconhecimento e evolução através do desenvolvimento da sua consciência. Qual o impacto da IA nesse desenvolvimento?

A evolução da IA orientou-se para interpretar e produzir linguagem natural humana. Hoje, a IA atua mais como uma co-inteligência do que um simples motor de busca avançado, abrindo horizontes na extensão da capacidade humana de pensar. Estarmos cientes disso deveria convidar-nos à introspecção e à redescoberta da dimensão espiritual que nos torna verdadeiramente humanos.

Incorporar a IA na nossa vida quotidiana implica reconhecer tanto as suas potencialidades como os desafios éticos que emergem. Podemos automatizar tarefas burocráticas, traduzir e refinar ideias, mas o pensamento crítico humano será sempre insubstituível. Em contextos educativos, o risco reside na uniformização do saber e na dependência excessiva de respostas prontas, levando à perda da autonomia intelectual. Por isso, torna-se imperativo que os educadores promovam um equilíbrio que permita à tecnologia ser uma aliada no aprofundamento do conhecimento, sem prejudicar o diálogo e a criatividade inerentes ao processo formativo, sobretudo da nossa consciência.

O desenvolvimento da nossa consciência plena, ou noofulness, como um estado de atenção e reflexão que aprofunda a percepção consciente de nós, dos outros e do mundo que nos rodeia encontra desafios provenientes da saturação de informação onde vivemos imersos. Só uma ponderação entre o valor que a co-inteligência traz ao modo de aprendermos seja o que for pode evitar um regresso à dormência da consciência, em vez do despertar que devia acontecer com cada vez maior intensidade, num mundo que cresce em complexidade. Nessa linha, para onde tende o mundo? O mundo tende para a unidade onde o pensamento se revela um ato de amor.

Inspirado por ideias de Teilhard de Chardin, penso que a IA pode ser um instrumento para a emergência do espírito, através da partilha do conhecimento e da construção de uma noosfera (esfera do pensamento humano) que abraça a diversidade cultural e religiosa. O mundo está em constante movimento e as consciências sistematicamente moldadas pelos avanços tecnológicos. Se preservarmos a essência do ser humano como amor, permanecerá o diálogo com o transcendente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1331/inteligencia-artificial-e-a-consciencia-humana/


 

terça-feira, 5 de março de 2024

Unidade para salvar a humanidade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Dom Reginaldo Andrietta,

Bispo da Diocese de Jales, SP


O mundo enfrenta, atualmente, uma de suas piores crises humanitárias. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), se todas as pessoas que necessitam de ajudas humanitárias emergenciais se juntassem em uma nação, essa seria a quinta nação mais populosa do planeta, com perto de 235 milhões de habitantes. A Organização das Nações Unidas também destaca, entre as principais causas da extrema pobreza que atinge 736 milhões de pessoas, diversos tipos de conflitos.

Nesses conflitos, em geral, de cunho político, econômico, étnico e religioso, comumente as elites locais, associadas a interesses de grandes nações e corporações internacionais, buscam apropriar-se dos poderes do Estado, impor-se midiática e militarmente, tirar proveito de recursos públicos e naturais e beneficiar seus negócios. Embora os setores sociais e econômicos mais frágeis sofram as piores consequências desses conflitos, todos perdem.

Conflitos assim, além de gerarem mortes e miséria, destroem culturas e o potencial de fraternidade entre povos e nações. Conflitos nunca são benéficos; como solucioná-los senão sanando suas causas, por meio do diálogo civilizado, fundado nos valores de fraternidade, justiça, liberdade, corresponsabilidade? Como, pois, exercer o diálogo no Brasil atual, com esses critérios, neste tempo de grandes tensões que afetam nossa vida cotidiana?

Consideremos, por exemplo, que o grande número de mortos pela covid-19 podia ter sido evitado se, desde o início dessa pandemia, cidadãos, instituições e gestores públicos tivessem agido unificadamente, de modo mais corresponsável. Mortes podem ainda ser contidas. No entanto, prevalecem autoritarismos políticos e estímulos a polarizações e divisões na sociedade, que sufocam clamores populares em defesa da saúde pública.

Quais outras situações conflituosas, de grande magnitude, afetam-nos? Desigualdades econômicas extremas, racismo e intolerância a modos de vida, a religiões e a visões políticas diferentes. Divididos somos facilmente dominados e explorados. Desunida, nossa nação continua sendo saqueada. Vale, pois, enfatizar a afirmação de Cristo : ‘Todo reino dividido ficará em ruínas; toda cidade ou casa dividida não se sustentará’ (Mt 12,25).

Como acabar com o que nos divide e construir uma convivência social pacífica e justa? O que a Igreja nos propõe, por meio da Campanha da Fraternidade deste ano, é simples e fundamental : derrubar os muros da inimizade por meio de nossa comunhão em Cristo, fonte de paz. Na perspectiva bíblica, a paz é fruto da justiça (cf. Is 32,17), construída pelo diálogo amoroso que une corações e unifica ações em prol de um projeto comum de sociedade.

Rejeitemos, portanto, tudo o que divide o próprio corpo de Cristo, a Igreja. Testemunhemos o amor fraterno de forma inquestionável, pois assim seremos reconhecidos como discípulos de Jesus (cf. Jo 13,35). Sejamos solidários, especialmente com os que necessitam de ajuda emergencial para sobreviver. Unamo-nos contra todo tipo de dominação e violência. Almejemos, enfim, ser ‘perfeitos na unidade’ (Jo 17,23) para salvar a humanidade.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/unidade-para-salvar-a-humanidade.html


domingo, 17 de setembro de 2023

A inteligência artificial e suas repercussões na espiritualidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Igor Precinoti


‘No caminhar da humanidade, muitas foram as revoluções tecnológicas que mudaram o comportamento e o modo de vida das pessoas. Desde o controle de fogo até o computador pessoal, diversas foram as transformações que a humanidade passou decorrentes das facilidades e das potencialidades de uma nova tecnologia. Hoje, a inteligência artificial vem se mostrando uma tecnologia que está revolucionado o dia a dia das pessoas e que promete transformações sociais ainda muito maiores. 

A inteligência artificial é o campo da ciência da computação que estuda e desenvolve sistemas capazes de realizar tarefas que normalmente requerem a inteligência humana, tais como aprender através de dados e tomar decisões com base nas informações disponíveis. Mas essa tecnologia não é nova, seu desenvolvimento começou na década de 50, teve como marco histórico um famoso jogo de xadrez ocorrido em 1997, quando, pela primeira vez, um computador (chamado Deep Blue) ganhou do campeão mundial Garry Gasparov, e agora está se popularizando com o Chatgpt, um modelo de linguagem baseado em inteligência artificial capaz de desenvolver uma variedade de tarefas e habilitado com Processamento de Linguagem Natural (NLP) capaz de permitir uma comunicação natural, simulando outro ser humano.  

O uso da inteligência artificial já é comum, mesmo que inconscientemente. Quase todas as pessoas que utilizam celulares e eletrodomésticos já tiveram contato com algum tipo de inteligência artificial, seja em jogos eletrônicos ou tradutores. Agora, é relativamente comum o uso de inteligência artificial em hospitais e escritórios de advocacia, mas o recurso a esta tecnologia em um Templo Budista levou a discussão a um nível bem diferente.  Em 2019, em um Templo localizado em Kyoto, no Japão, foi instalado um Monge Robô chamado Mindar, em seu banco de dados estão armazenadas as escrituras sagradas e práticas espirituais budistas e ele ainda é capaz de interagir com as pessoas, guiar práticas meditativas e responder a perguntas. 

Contudo, até onde isso vai chegar? Se as tecnologias são capazes de simular a interação humana ao ponto de existirem monges robôs, o que vai diferenciar máquinas de seres humanos? Será que, no futuro, robôs irão celebrar Missas?!

As inteligências artificias conseguem detectar microexpressões faciais e padrões em uma conversa identificando sentimentos e simulando empatia, elaborar textos e poemas por meio de uma linguagem idêntica à humana e ainda podem inventar músicas e desenhos artísticos de maneira criativa e original. Linguagem, criatividade, empatia, características intrínsecas, e até então exclusivas, do ser humano agora são compartilhadas por máquinas. 

Em 1980, um filósofo americano chamado John Searle, observando o desenvolvimento das tecnologias se debruçou nestas questões e elaborou uma teoria : ela é chamada ‘Teoria do chinês no quarto’ 

Imagine uma pessoa que não sabe falar nem compreende a língua chinesa dentro de um quarto fechado. Ela somente pode se comunicar com o exterior através de bilhetes por baixo da porta. As pessoas que estão fora do quarto somente falam em chines e não sabem quem está lá dentro. 

Dentro deste quarto existe, no entanto, um manual indicando quais símbolos (caracteres da língua chinesa como ideogramas e pictogramas) ela deve desenhar em resposta aos bilhetes em chinês que ele recebe. Ela não fala com ninguém, somente recebe o bilhete, procura o desenho no manual, mesmo não sabendo o que está escrito (por exemplo ‘Que dia é hoje?’), e, após encontrar o desenho correspondente, ela desenha a resposta indicada no manual (‘Hoje é terça-feira’), e devolve o bilhete respondido. Com o passar do tempo e quanto mais complexa é esta interação, mais as pessoas que estão fora do quarto passam a ter certeza de que o indivíduo, no interior do quarto, é fluente e compreende bem o chinês. Mas o indivíduo lá dentro não faz ideia do que está sendo comunicado. Ele somente segue as regras predeterminadas.

A questão central que Searle propõe, com a teoria ‘do chinês no quarto’, é a seguinte : por mais que, seguindo as regras do manual, o homem consiga gerar respostas e se comunicar com chineses, será que ele compreende e tem consciência do que está sendo comunicado? O mesmo ocorre com as inteligências artificiais. Por mais que elas estejam especialistas na simulação do comportamento, conhecimento e pensamentos humanos, falta lhes a consciência. As inteligências artificiais conseguem simular (como um símio (macaco), em partes, faz) empatia, linguagem, criatividade, mas nunca terão uma alma espiritual que é a base da consciência humana. 

A alma humana é a parte essencial e imortal da natureza do homem e da mulher. Fonte da vida e da individualidade, a alma é o alicerce da consciência e é a partir dela que surgem as capacidades de pensamento, de raciocínio e de livre arbítrio. A consciência é a voz interior que guia as escolhas morais humanas. 

Por mais que as máquinas sejam capazes de armazenar todas as escrituras sagradas, todos os sermões, textos e livros escritos pelos hagiógrafos bíblicos, santos e doutores da Igreja e por mais que as inteligências artificiais possam explicar e responder diversas questões embasadas por toda esta vasta literatura, falta-lhes a consciência, e é por meio dessa consciência que as pessoas são chamadas a agir de acordo com a sua fé e os princípios espirituais.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2023/09/12/a-inteligencia-artificial-e-suas-repercussoes-na-espiritualidade/


sexta-feira, 17 de julho de 2020

O naufrágio da humanidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 'As pessoas esperam dias e dias em barcos, e morrem no mar'

 'As pessoas esperam dias e dias em barcos, e morrem no mar'

*Artigo de Salvatore Cernuzio,

publicada por Vatican Insider

Tradução : Luisa Rabolini


‘‘Penso na Líbia, nos campos de detenção, nos abusos e violência de que os migrantes são vítimas. O que chega até nós é uma versão destilada’. Palavras ditas na semana passada na missa pelos sete anos de sua visita a Lampedusa, a ilha ao sul da Itália procurada por refugiados vindos da Argélia, Tunísia, Líbia, Bangladesh.

A versão completa da realidade dramática de milhares de refugiados, feridos no corpo e na alma durante as viagens da esperança, Padre Carmelo La Magra, pároco de San Gelando em Lampedusa, a vê todos os dias diante de seus olhos. ‘Não são apenas os relatos que ouvimos na ilha. Certas histórias são contadas não por palavras, mas pelos sinais que trazem os corpos dos migrantes : queimaduras, feridas, facadas’. Leia a entrevista do padre Carmelo à revista Vatican Insider.

Padre Carmelo, o Papa está certo quando fala de versões ‘destiladas’?

É claro que ele está certo. O que chega é uma versão aceitável, do nosso ponto de vista, sobre o sofrimento que os migrantes vivenciam. Histórias edulcoradas que não nos incomodam. Isso é feito para não perturbar os corações ou para que sejam aceitas determinadas escolhas políticas. Aqui, ouvimos testemunhos diretos, vemos vídeos de pessoas penduradas de cabeça para baixo ou tratamos queimaduras nos ombros dos meninos, facadas nas solas dos pés. Essa é realidade : histórias escritas na carne das pessoas, não teorias.

Alguma coisa mudou desde a visita do papa, com seu apelo para não desviar o olhar diante dessa emergência?

Perguntamo-nos isso todos os anos e a resposta é sempre a mesma. Nada mudou, certamente nada mudou para melhor. O grito do Santo Padre foi ouvido por pessoas de boa vontade, por muitos crentes, mas parece ter caído no vazio entre aqueles que têm poder ou os papéis de responsabilidade. Posso dizer que a situação piorou? Eu não sei, eu só sei que ainda estão sendo feitos acordos com aquela Líbia de que o Papa Francisco estava falando hoje, ainda estão em vigor decretos de segurança, o período de ‘portos fechados’ já passou, mas aqueles que fazem resgate no mar ainda são culpabilizados e se tende a dificultar quem tenta expressar um acolhimento. As pessoas morrem no mar, as pessoas ficam esperando dias e dias nos navios sem motivo. Basta pensar no que aconteceu até ontem em Malta, com 52 seres humanos em um navio que não tinha permissão para atracar. Por que fazer as pessoas sofrerem? Para quem está naquelas condições, um dia a mais faz a diferença.

Qual é a situação em Lampedusa neste momento?

Vários migrantes ainda estão presentes nos hotspots. Os desembarques continuaram nos últimos dias, após um intervalo devido ao vento que impedia as partidas. De fato, porém, nesses meses nunca foram interrompidos. Embora alguém tenha dito que a presença de ONGs era o chamariz, na verdade, nos últimos meses sem ONGs, o número de chegadas aumentou. Graças a Deus, algumas voltaram ao mar para prestar socorro. Além disso, as transferências também se tornaram mais rápidas e regulares.

 ‘Esta é realidade dos migrantes: histórias escritas a golpes na carne’

‘Esta é realidade dos migrantes : histórias escritas a golpes na carne’. 

Que tipo de trabalho o senhor realiza em Lampedusa? Imagino que a atividade pastoral comum como pároco em um contexto tão difícil não seja suficiente.

Como padre e pároco, meu compromisso, em primeiro lugar, é proclamar o Evangelho aos lampedusanos e a todos os que passam por aqui. Fiquei impressionado com as palavras do papa nesta manhã sobre reconhecer o rosto de Cristo nos irmãos em dificuldade. Esse é um desafio para a nossa comunidade paroquial; existem muitos fatores que dificultam a compreensão dessa verdade do evangelho. A tarefa do pároco é mediar, ressaltar que as necessidades não têm nacionalidade, que qualquer um que tiver necessidade precisa ser ajudado.

Como isso é concretamente aplicado?

Dando voz aos migrantes para garantir seus direitos ou oferecer apoio material, às vezes alimentos, roupas ou outros auxílios durante o tempo em que estiverem aqui. Ou, ainda, ajudando os doentes visto que um dos maiores problemas de Lampedusa é a precariedade da assistência sanitária. Estamos falando de uma pequena ilha e, como tal, deve ser posta em condições de acolher bem, de ter as estruturas estáveis. Por exemplo, em maio, descobrimos que não havia lugares suficientes para acomodar pessoas que passavam o dia ao sol e as noites ao frio no píer. Então, oferecemos ao prefeito a disponibilidade de recebê-las nas salas da paróquia.

O senhor recebe críticas pelo que faz?

Sim, aconteceu e acontece. Alguns insultos, às vezes até ameaças, especialmente através das mídias sociais. Mas, tudo bem, não é nada relevante, coisa do dia-a-dia ... As ofensas continuam lá nos fóruns do Facebook.

Nestes quatro anos como pároco de Lampedusa, o senhor viu centenas de histórias de vida passarem diante de seus olhos. Qual foi a mais marcante para o senhor?

São muitas e todas tão intensas que me parece errado escolher algumas. É claro que permanece viva a memória de uma história tão tenra quanto dramática : no dia 7 de outubro de 2019, houve um grande naufrágio perto de Lampedusa e os resgatados foram trazidos ao píer. Todos tentaram rastrear seus entes queridos. A certa altura, vi um pai chegando, era jovem, com um bebê nos braços. Ele estava procurando por sua esposa, e gritava no meio da multidão. Tentei ajudá-lo, mas em algum momento percebi que não trariam mais nenhum sobrevivente para o píer. Foi uma grande dor dizer a esse jovem que não havia sinal de sua esposa. O que mais me impressionou é que, naquele momento, sequer lhe foi permitido chorar. Ele pegou o menino e o abraçou, dizendo algo sobre a mãe que não estava lá. Embora destruído pela dor, ele quis colocá-la de lado para garantir uma chegada serena ao seu filho já assustado. Dificilmente creio que esquecerei essa cena.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/periscopio/2242/2020/07/o-naufragio-da-humanidade/


quarta-feira, 29 de maio de 2019

A humanidade de Jesus como problema e desculpa


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante


‘A humanidade de Jesus foi um dos grandes problemas que o cristianismo nascente no século 1º teve que enfrentar. De início, em sua luta contra o pensamento judaico e sua expectativa messiânica, considerava impossível que o Messias morresse em uma cruz que o tornasse maldito. Isso porque um senhor crucificado estava bem distante do rei que era esperado no tempo de Jesus.

Mais tarde, com a pregação do Evangelho chegando aos gentios, novos problemas começaram a surgir. Afinal, como justificar para os pagãos que o Deus de toda terra estava se misturando, na encarnação, com a matéria do mundo, que aos olhos de várias culturas daquele período era vista como, até mesmo, origem do mal?

E os problemas não pararam por aí. A cada novo período surgiam novas demandas, de maneira que a fé cristã foi levada a pensar e repensar seus dogmas a fim de responder essas novas questões. São a partir delas que diversas verdades cristãs começam a tomar forma, tais como a Trindade, a própria encarnação, as naturezas humana e divina de Cristo, a ação e vida do Espírito Santo etc., o que mostra que toda teologia séria sempre deve estar atenta às perguntas que lhe são feitas para poder, a partir delas, propor respostas que vão ao encontro a essas perguntas.

Embora dogmaticamente esteja resolvida a questão da encarnação, sendo ensinada em diversas escolas dominicais e catequeses do mundo, ainda é muito comum se ouvir ideias estranhas a respeito dessa temática.

Uma das mais comuns é a ideia de que Jesus só fez aquilo que fez porque era Deus encarnado. Como consequência, não tem como ninguém ser como ele foi e fazer o que fez, já que ele era perfeito. Contudo, essa fala - que pode muito bem ser usada como desculpa para não se viver o Evangelho – traz em seu cerne algo muito complicado que compromete a própria encarnação. Se Jesus só pôde fazer as coisas que fez porque era Deus encarnado, então, até que ponto realmente assumiu a humanidade em sua integralidade? Esse ‘a mais’, que é a única coisa que permite que ele viva da forma que viveu, e que não é acessível aos outros humanos, não faria da encarnação somente um grande teatro no qual Jesus apenas atuava como humano?

Assumir a premissa de que Jesus só fez o que fez por ser Deus encarnado causa um grande problema. O que se está dizendo com isso é que ninguém pode imitar seus passos. Se assim o for, a fala de Paulo ‘sede meus imitadores como eu sou de Cristo’ traz como consequência duas opções : ou Paulo é um mentiroso (uma vez que ninguém conseguiria imitar Jesus), ou aquilo demandado de seus seguidores é inatingível e, nesse sentido, Paulo seria um hipócrita por exigir algo assim.

Isso nos leva a concluir que se assumimos a encarnação como regra de fé, então é necessário também assumir que Jesus viveu, pensou e agiu como humano que era, ou seja, como judeu que vivia na Galileia do século 1º, sofrendo e se alegrando como qualquer pessoa naquele tempo. Em outras palavras, implica assumir a radicalidade da própria encarnação.

Tirar o aspecto mágico que é colocado sobre a encarnação se mostra, então, como tarefa necessária para seguir a proposta de Jesus, que consiste em se abrir totalmente a Deus e totalmente ao próximo, revelando nisso o amor de Deus e o próprio Deus. Ao mesmo tempo, isso leva o cristão a repensar seu comportamento frente ao mundo e o implica no compromisso de tentar andar como Jesus andou, sem a desculpa de que ele só conseguiu se abrir totalmente ao próximo e a Deus porque era o próprio Deus.

Diante disso, ao invés de se pensar que não é possível ser como Jesus porque ele é Deus, como cristãos e cristãs precisamos a cada dia tentar ser como Jesus foi e seguir seu exemplo nas pequenas coisas, assumir a carne do mundo, sofrer com os que sofrem e alegrar com os que se alegram, mostrando, assim, a beleza do amor e da graça divina que, em Jesus, revelou quem Deus é e como o ser humano deveria ser.’


Fonte :

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Tutela da dignidade da pessoa humana, defendem Bento XVI e Francisco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Papa Francisco visita Bento XVI no Mosteiro Mater Ecclesiae
Papa Francisco visita Bento XVI no Mosteiro Mater Ecclesiae

*Artigo de Mariangela Jaguraba


‘Teve início, nesta quinta-feira, em Roma, o simpósio internacional Direitos fundamentais e conflitos entre os direitos, promovido pela Fundação Vaticana Joseph Ratzinger-Bento XVI junto com a Universidade Lumsa (Libera Università Maria Santissima Assunta).

Para a ocasião, o Papa emérito Bento XVI enviou uma carta ao presidente da fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI, pe. Federico Lombardi, que foi lida na abertura do evento, esta manhã.

Convivência da família humana

Na missiva, Bento XVI manifesta seu apreço pela iniciativa, ‘considerando-a extraordinariamente útil’. Segundo o Papa emérito, é importante falar claramente sobre a ‘problemática da ‘multiplicação dos direitos’ e do risco da ‘destruição da ideia de direito’’.

É uma questão atual e fundamental a fim de tutelar as bases da convivência da família humana, que merece ser novamente tema de uma reflexão profunda e sistemática, conforme demostrado pelo programa do simpósio’, destaca Bento XVI na carta.

O Papa emérito manifesta aos relatores e participantes do encontro sua estima e proximidade na oração ‘a fim de que o Senhor abençoe os trabalhos como um serviço precioso para a Igreja e o bem da família humana’.

Remover os muros de separação

O Papa Francisco também enviou uma carta a pe. Lombardi, por ocasião do simpósio.

O Pontífice recorda o aproximar-se do aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sublinhando que ‘é oportuno não somente celebrar a memória desse evento histórico, mas também estabelecer uma reflexão profunda sobre a implementação e o desenvolvimento da visão dos direitos humanos no mundo atual’.

No discurso ao Corpo Diplomático, em janeiro passado, dedicado a essa declaração, Francisco observa que esse documento ‘visa remover os muros de separação que dividem a família humana e favorecer o desenvolvimento humano integral’.

O Papa destaca que ‘no decorrer dos anos, a interpretação de alguns direitos foi mudando progressivamente, a fim de incluir uma diversidade de novos direitos, muitas vezes em oposição um ao outro. Abre-se assim, uma série de problemas que envolvem profundamente a ideia de direito e seus fundamentos.’

A propósito de Bento XVI

Francisco recorda que ‘o Papa emérito Bento XVI sentiu com lucidez a urgência dessas temáticas para o nosso tempo e interveio com autoridade sobre isso como pensador e como pastor. Por isso, vinte anos atrás a Universidade Lumsa concedeu ao cardeal Ratzinger a laurea honoris causa em Jurisprudência’.

Francisco conclui a missiva, desejando que esse simpósio, obtendo inspiração do pensamento e do magistério do Papa emérito Bento XVI, ‘possa contribuir com coragem e profundidade a iluminar uma problemática essencial para a tutela da dignidade da pessoa humana e seu desenvolvimento integral’.’


Fonte :